EntreContos

Detox Literário.

O Contrato Assimétrico – Conto (Rubem Cabral)

assimetrico

“Há algo de errado, eu sei. Há a certeza do contrato; inviolável, cobrindo tudo, dando-me todas as garantias legais possíveis, mas deve haver algo podre, minha intuição me diz, eu sinto nestes velhos ossos. Tem um ditado em inglês, acho que é assim: there ain’t no such thing as a free lunch. Não existe essa coisa de almoço grátis. Espertos os gringos; não há como se ganhar algo sem se dar em troca, é um conceito raiz de todo tipo de capitalismo. What’s the catch?, ainda comentariam os desconfiados comedores de hambúrgueres. Qual é a pegadinha?

Meu vivológio me diz que já se passaram setenta e uma horas. Em uma hora meus problemas financeiros estarão todos resolvidos, no entanto, como diria minha falecida avó, se a esmola é grande…”

ϕϕϕ

Havaí, Honolulu: quinhentos atletas de primeira linha perfilaram-se, aguardando a partida iminente. Homens e mulheres de todas as nacionalidades e etnias concentraram-se naqueles segundos finais. O Sol brilhava forte e logo aqueles corpos elásticos e absurdamente definidos enfrentariam os rigores de quinze quilômetros de mar bravio, coalhado de tubarões e corais cortantes, cem quilômetros de maratona ao redor da ilha, salto de vara sobre a cratera do vulcão Kilauea e mergulho acrobático a partir dos precipícios íngremes de Nā Pali.

“Bam!” – ecoou o tiro da partida, causando uma convulsão de pés descalços sapateando sobre a areia vulcânica da praia.

“Bam, bam, bam!” – o ruído de batidas fortes na porta do miniapartamento funcional causou a imediata desconexão de Matsuo Hussein de seu exercitador onírico MaxDream IV Deluxe.  Nu, descabelado e com os olhos remelentos, o jovem baixinho saltou do conforto da concha almofadada do aparelho, livrou-se de dezenas de conexões, coçou o pulso e dígitos azuis brilharam sob sua pele cor de oliva. “Porra, três e quinze da manhã!”, praguejou, enquanto vestia alguma roupa e corria aos tropeços até a porta.

— Matsuo! Eu te avisei sobre o elevador! Eu falei e falei e você não fez nada! Faz uns dois dias que ele tava esquisito; uivando baixinho em latim ou borrando com graxa cruzes invertidas nas portas. Olha só o que entrou lá em casa pela portinhola da Fifi e quase a comeu!

A senhora, Dona Emengarda Guerra; cento e vinte quilos equilibrados em mais de um metro de oitenta de irada servidora pública aposentada; de cabelos vermelho-cereja e bobs, espumava ameaçadora em seu robe atoalhado decorado com monstrinhos. Fifi, uma poodle estressada e com o pelo pintado de verde-maçã-ácida, girava e latia indignada ao lado da dona, seguramente dando-lhe todo suporte moral. A idosa tinha pendurado em sua mão esquerda um subdemônio morto; vermelho e desconjuntado feito uma penca de salsichas baratas ainda envelopadas em plástico comestível.

— Cara… Mil desculpas, Dona Emengarda! Olha, pela manhã eu ligo pro pessoal da Elevadores Arcanos. Deve ser algum problema de vazamento no gerador necromântico outra vez. Vou pegar um pouco de sal grosso e água benta no depósito, pra fazer uma barreira junto das portas do elevador até lá.

— Garoto, você é o pior servente-porteiro que este prédio já teve. Que saudades do finado Seu Manuel! Ah, se este traste houvesse machucado a Fifi – bufou – eu gastaria minha pensão mensal inteirinha numa praga de catálogo pra você. Que te pareceria um chifre crescendo lentamente pra dentro dos miolos ou formigas amazônicas no intestino?

“Ela que se atrevesse”, pensou Matsuo com raiva. Soubera através do carteiro que o pobre Manuel morreu com as tripas transformadas em najas enlouquecidas depois de uma discussão áspera com alguém do décimo-terceiro andar. Felizmente, pensou o rapaz, contratara proteção platinum contra todas as pragas de nível público; garantia do retorno em dobro ao autor de tais peças de catálogo.

Após a ameaça, a idosa arremessou a criatura do tamanho de um gato sobre o capacho de Matsuo, fez uma volta dramática, girando sobre um dos pés e saiu batendo as pantufas paquidermicamente pelo corredor.

Desanimado, o atlético rapaz olhou para a criaturinha morta e quase sentiu pena por seu estado: tinha um dos chifres quebrado, a língua bífida pendia manchada de sangue negro dentre os dentes pontudos e um de seus três olhos estava aberto, exibindo a íris de bode cor de âmbar, parada feito um olho de peixe. Provavelmente morrera a vassouradas ou tamancadas.

O moço trouxe um saco de lixo bento e envelopou o capetinha, para que este queimasse até virar cinza pela manhã. Foi até o armário das vassouras atrás de sal grosso ou azeite consagrado e divagou sobre algum tema agradável para programar um sonho aeróbico para o restante daquela noite inquieta.

ϕϕϕ

Terceiro e Último Aviso

 

Rio de Janeiro, 06 de Março de 620 d.G.A.

Estimado(a)  Sr(a). Matsuo Hussein.

De acordo com o artigo Seiscentos e sessenta e seis da Lei de Falências Pessoais, o(a) senhor(a) tem até 10 (dez) dias corridos a contar do recebimento desta missiva, para liquidar sua dívida de C$ 43.234,00 (Quarenta e três mil, duzentos e trinta e quatro Créditos). Ainda de acordo com a mesma lei, caso o montante não seja pago ou renegociado até a data de vencimento e o(a) devedor(a) não possua bens liquidáveis que cubram tal valor, ele (ela) poderá ser – em sua totalidade ou partes – vendido(a) como combustível arcano para empresas interessadas num leilão cuja data ainda será definida.

Nossos cirurgiões-financistas estão ávidos por oferecer as melhores condições para a solução de seu caso e agradecemos desde já suas providências imediatas. Pedimos ignorar este aviso caso o(a) senhor(a) ou sua dívida não existam mais.

 

Cordialmente,

Financeira The Besta.

Causando um apocalipse pessoal todos os dias

ϕϕϕ

A correspondência expressa chegara há pouco e Matsuo a lia e relia sem acreditar. Não poderia solicitar outro adiantamento de salário; já sacara o décimo-terceiro ainda no inicio do ano e já vendera quase todas as férias também. Fora o exercitador onírico, do qual era usuário fanático, não tinha bens de valor considerável. Vender seu aparelho estava fora de questão; poderia talvez prometer seu salário integral dos próximos cinco anos, diretamente da folha de pagamento, e comer em abrigos dos sem-teto, quem sabe? Afinal, como funcionário não pagava condomínio ou energia. Já estava imaginando um futuro cinzento e cheio de privações quando o técnico da Arcanos S. A. chegou pouco depois do carteiro.

Subiu com este até a casa de máquinas enquanto o homenzinho assoviava alguma marcha antiga de carnaval.

— Hóstia! É o terceiro gerador que tenho que ajustar esta semana, mas é até café pequeno comparado com os problemas que a concorrente tá enfrentando – exclamou o técnico, ao abrir o gerador cheio de líquido negro, viscoso e fumegante. — Um colega me contou que um Duque do Inferno se materializou no Edifício Holloway, lá em Cuiabá. Já imaginou? Ha, ha, talvez até tenha se sentido em casa com o calor que faz por lá. O pior é que o bichão de três metros de altura comeu uns seis moradores antes de ser despachado de volta. Isso vai dar num processo cabeludo! Também pudera: os loucos da Elevadores Satânicos usam fetos abortados como combustível. Acabam por conseguir um campo antigravitacional muito mais forte, é claro, mas os riscos de invocação acidental…

— A-hã… – Concordou o rapaz, mordendo os lábios, olhando para a parede e sem prestar atenção.

— Algum problema, filho? tá pálido, digo, amarelo-claro, he, he.

— É lance de grana, moço. Deixa pra lá; gastei demais comprando mil besteiras na AlmaNet, fazendo também um seguro idiota que nem sei se vou precisar e tô agora com os cirurgiões na minha cola, querendo uma perna ou braço meus.

O técnico, um homem baixo e simpático de meia-idade, coçou os cabelos engordurados sob o boné com estampa de pentagrama e falou:

— Garoto, você parece boa gente e só por isso vou te contar, pois prometi segredo – disse, sacando uma carteira de couro de gato preto do bolso do macacão. — Toma este cartão aqui: a filha de um compadre meu arrumou um trampo legal com eles. A guria tava sendo disputada por três empresas de cobrança num leilão e conseguiu pagar tudo. Hoje em dia tem carro, apartamento próprio; tá de boa.

Matsuo olhou o cartão estranho, de formato irregular e com algum material transparente e azulado no centro. “A. Inc. – Divisão de Aluguel de Corpos” estava escrito em caracteres de fontes e tamanhos diversos.

— O que é isto, moço? Estou desesperado, mas me prostituir seria ir longe demais!

O homem fez uma careta e respondeu depois de uma risada:

— Não é nada disso. Vá na fé: liga pra eles, marca uma entrevista. Você vai me agradecer depois. O que você tem a perder?

ϕϕϕ

Depois de ligar para a financeira e receber uma proposta irrecusável do rolamento de sua dívida em troca de um polegar, um testículo e um dos rins, Matsuo tomou o metrô expresso e materializou-se no centro do Rio, junto da Estação Largo da Carioca. Caminhou pela Avenida Rio Aqueronte com o cartão em mãos, sem encontrar o número do endereço impresso.

Irritado, já ia rasgar o cartão e tomar o metrô de volta quando teve a ideia de olhar através do plástico azul, o qual formava uma espécie de janela. Para seu espanto, um pequeno e exótico edifício, arredondado de um lado e cheio de formas pontiagudas do outro, surgiu num vão ao lado do Shopping Edifício Central. Sem o auxílio do cartão, nada se via, ao olhar através da janela outra vez, lá estava: aquela construção surreal.

Acostumado a alguma mágica em quase tudo no dia a dia, o rapaz seguiu até o prédio, abriu uma pesada porta de vidro e metal e desapareceu no meio da via mais movimentada da cidade.

Lá dentro, nenhuma recepção. Apenas curiosas câmeras flutuando no ar e uma voz metálica que o saudou e instruiu a tomar o elevador até o último andar. “Engraçado” – observou – “o último andar é ϕ (phi)”.

O ascensor subiu lenta e penosamente, como se fosse içado por primitivos cabos de metal. De alguma forma, era irregular por dentro, como uma caixa tombada ou um brinquedo criado por uma criança. Seu painel exibia botões toscos e desiguais.

As portas se abriram e uma única sala iluminada por luzes cruas se descortinou. Uma mesa torta, com várias cadeiras diferentes entre si e igualmente trôpegas, eram as únicas peças de mobília. Numa das paredes, somente a reprodução do Homem Vitruviano de Da Vinci conseguia quebrar a austeridade meio espartana do lugar.

— Sente-se, por favor. Meu nome é Hanah – disse uma voz que subia e descia de tom.

Matsuo virou-se e soltou um grito involuntário, quase caindo a seguir, em função da aparência monstruosa da mulher bem vestida que caminhava em sua direção.

— Sim – disse ela – ainda existimos. — Sou uma Assimétrica, feito você já deve ter lido nas suas histórias de terror quando criança. Mas não há motivo para que você me tema.

Era como se partes de múltiplas pessoas de raças, gêneros e características diferentes houvessem sido coladas para formar um mosaico grotesco de carne. Metade do nariz era delgado e branco, a outra era larga e escura. Um olho asiático e de íris preta, outro azul e arredondado. Cabelos, lábios, orelhas, braços e pernas; todos eram descombinados.

— Por favor, me deixa ir embora – implorou Matsuo. — Eu, eu não tinha ideia, não tinha intenção, só vim pela grana, mas…

— Não, não… Acalme-se! Primeiro, esqueça-se de tudo o que você aprendeu em suas mentirosas aulas de história. Sobre como as bruxas boas perseguiram e queimaram os padres e monges hereges durante sua Santa Inquisição, eliminando assim todos nós; os seguidores do crucificado. Sim, fomos derrotados pelo clero da escuridão, mas nunca quisemos o mal. Não éramos horríveis assim! Foram os adoradores de Satã e o seu Grande Arcano que lançaram sobre nós esta praga, desvirtuando com sua magia a dádiva da beleza que Deus concedeu a todos: a santa simetria.

— Por favor, eu não quero saber de nada – ele disse com a voz trêmula e levando as mãos aos ouvidos. — Olha, eu não sou religioso, mas não me lance feitiço algum e me deixe ir e…

— Como ousa, seu ignorante?! – Seus olhos desiguais se inflamaram de ódio. — Ousa insinuar que usamos magia? Nós, que a rejeitamos completamente?! Usamos eletricidade, combustíveis, tecnologia! Todo uso de magia é herético! Aviões movidos por energias dos mortos, satélites alimentados por fogo infernal, fazendas de gatos pretos e sapos! Isso é que é errado!

— Mas, mas o prédio, ele está escondido por magia!

— É um campo multirefrator de luz! Qualquer tecnologia suficientemente avançada pode às vezes ser indistinta de magia. Vamos, sente-se e escute minha proposta. Se você não a aceitar, apagarei sua memória no que diz respeito a esta visita e você seguirá com sua vida mundana, sem jamais se lembrar deste nosso encontro.

Por cerca de uma hora, Hanah pormenorizou os detalhes do que sua empresa oferecia: o direito de um Assimétrico habitar um corpo belo e normal por alguns dias, direito este que seria salvaguardado por um contrato de prestação de serviços e cessão de direitos com certificação governamental Dura Lex, Sed Lex: a garantia legal mais robusta e restrita que existia. A quebra de qualquer cláusula contratual causaria a prisão automática do infrator através de um encanto embutido.

— Pense no bem que você fará – continuou a mulher. — Permitir a alguém horrivelmente mutilado, que vive escondido do mundo, algumas horas num corpo atlético e saudável, podendo sair até as ruas e sentir o calor do sol sobre a pele, sem chamar a atenção de ninguém. Pagaremos dez mil Créditos por cada período completo de vinte e quatro horas. Por razões técnicas, nenhum aluguel poderá superar setenta e duas horas. E não se preocupe: sexo, práticas perigosas e outras atividades documentadas em contrato são terminantemente proibidos aos inquilinos de corpos.

— Caso eu aceite, você poderia esclarecer algumas dúvidas? – Disse já bem mais calmo o rapaz nipo-arábico.

— Claro.

— Como vocês chegaram a mim? Imagino que não estou aqui por acaso…

— Todos os compradores de exercitadores oníricos, não religiosos, de baixa renda e jovens são potencialmente contatáveis. Cookies na AlmaNet, traçando problemas financeiros e cruzando outros dados acabam por fazer o resto. Temos alguns agentes Simétricos infiltrados em várias empresas. Veja bem, nossa presença não é desconhecida por seu governo. Afinal, quem você acha que fornece os materiais necessários para se lidar com as forças perigosas de que estes tolos dependem e insistem em utilizar? E então? Aceitaria ser caridoso conosco e ser bem recompensado? Ou ainda prefere negociar com seus cirurgiões-financistas?

Sua observação jocosa foi seguida de um sorriso cheio de dentes de cores, tamanhos e formatos diferentes.

ϕϕϕ

Uma semana depois, Matsuo não poderia estar mais satisfeito: tirou uma curta licença do trabalho e pagara parte da dívida com o que recebera de três sessões de vinte e quatro horas, reservando um tanto para roupas novas e um moderníssimo Papaya HellPhone, da charmosa empresa de Esteban Trabajos.

O contrato, que ele leu e releu antes de assinar, parecia seguro e sua cópia estava agora bem guardada em seu apartamento. O procedimento, como chamou Hanah, fora relativamente simples.

“Iniciaremos com um scan de corpo inteiro. Tire toda a roupa, por favor; precisamos avaliar o seu exato grau de simetria.”

“Excelente! Noventa e oito vírgula sete por cento! É o percentual mais alto que já registramos.”

“Uma cópia perfeita de seus estados neuronais, de cada sinapse, de cada impulso elétrico, será gerada e transferida para a memória da máquina. O mesmo procedimento será feito simultaneamente com o cérebro do futuro inquilino. Formataremos então os neurônios de ambos e transferiremos as cópias. Fora alguns milissegundos de apagão sensorial, você não perceberá nada: será completamente indolor. Você acordará num corpo assimétrico e deverá esperar pela devolução do seu corpo alugado, conforme o contrato define.”

“Este é o senhor Otto Kilik, um de nossos diretores. Ele será o seu inquilino-piloto.”

Naturalmente fora estranho e bem desagradável esperar um dia inteiro habitando um corpo repulsivo, mas as instalações da empresa eram confortáveis e durante a espera havia jogos, AuraTV e comida e bebida à vontade. Nas duas sessões seguintes, já se sentira bem mais confortável.

Ao retornar ao miniapartamento funcional, Matsuo teve sua felicidade ainda aumentada ao saber por um vizinho que a poodle Fifi fora devorada por uma serpente-demônio de três cabeças e que Dona Emengarda Guerra fora internada às pressas com uma severa infestação de formigas amazônicas no intestino.

— Ah, a vida afinal é maravilhosa! – Pensou o rapaz, antes de mergulhar numa sessão onírica de reforço e definição muscular.

ϕϕϕ

“Necessitamos de sua presença urgente em nosso escritório”, dizia uma mensagem de alta prioridade em seu celular. Mais que rapidamente, Matsuo ligou para o síndico, tomou o metrô e encontrou-se com Hanah no andar número ϕ do prédio assimétrico invisível.

— Matsuo, tenho a honra de lhe apresentar o nosso líder mundial, o Professor Natan Rever. Ele será o seu inquilino desta vez.

O rapaz tentou não expressar sua repulsa; o líder dos Assimétricos conseguia de alguma forma ser bem mais heterogêneo que Hanah ou mesmo os outros indivíduos com que teve contato. Além disto, considerando sua decrepitude física, deveria talvez beirar noventa anos de idade.

— O Professor tem uma missão especial e precisará de uma sessão única de setenta e duas horas. Já depositamos o correspondente à metade do valor do serviço em sua conta, conforme o contrato. O restante será creditado até três horas após o fim da sessão.

Meia hora depois, Matsuo viu seu corpo ágil e jovem trocando suas roupas modernas por clássicos e caros terno e gravata de grife, saindo apressado da sala a seguir.

Os quase três dias se arrastaram, como ele nunca pensou que fosse possível. Não suportava mais esperar. A última hora esgotava-se e enchia o rapaz de apreensão. Nos últimos trinta minutos, Matsuo saiu da sala onde esperava e buscou, inutilmente, o auxílio de qualquer pessoa no prédio que ele descobriu estar deserto.

— Não podem ter me enganado! O contrato, o contrato! O selo do governo! – Refletiu, observando os últimos minutos correndo no painel do vivológio em seu pulso. — Maldição, o que vai acontecer?

ϕϕϕ

— Desculpe-nos o atraso! – Disse Hanah, um pouco nervosa. — Ainda temos cinco minutos, não? Professor, por favor, se apresse!

Sorrindo, ela piscou seu olho azul para Matsuo, enquanto operava o aparelho de transferência.

— Aposto que pensou que fôssemos traí-lo… Feito vilões caricatos de contos de terror, sempre tão cheios de clichês… Bem, nada disso! Seu dinheiro deve estar sendo creditado agora em sua conta. Seu corpo é de novo seu.

Ao despedirem-se, Hanah comentou:

— O procedimento, em especial quando tão longo, causa muita sobrecarga ao encéfalo. Acho que será preciso um intervalo maior para você se recuperar, talvez alguns meses até uma próxima sessão. Entraremos em contato então, OK? A propósito, depositei dez mil extras como cortesia, uma compensação pelo estresse que causamos. Muito obrigado! – E ofereceu a mão enluvada.

ϕϕϕ

Matsuo retornou ao condomínio onde trabalhava. Estava aliviado. Havia prometido a si mesmo esquecer que alguma vez possuíra cartão de crédito, de forma a não se meter outra vez em dificuldades. Algumas perguntas, no entanto, continuavam a martelar em sua mente. Por que o edifício, o elevador e demais utensílios eram assimétricos, mas não o quadro de Da Vinci? O que significava o símbolo ϕ? Por que todos eles usavam nomes simétricos – que podiam ser lidos de trás para frente? O que realmente faziam por aí enquanto habitaram seu corpo? E se…

Seu coração se acelerou com uma ideia, algo louco que passou por sua cabeça. Sob o colchão procurou a pasta onde escondera sua cópia do contrato. “Estava lá”, respirou aliviado. No entanto, nada o preparou para o que viu quando a abriu.

“Uma carta impressa! Quem esteve em meu apartamento?”

“Em jargão jurídico chama-se de assimétrico um contrato que exija deveres ou ofereça direitos em demasia para uma das partes. Sendo assim, nosso contrato começou desbalanceado, já que praticamente só oferecia vantagens a você e lhe cedia todas as garantias legais possíveis.

No entanto, como você já sabe, odiamos a assimetria. Dádiva do Grande Arcano e de seus asseclas. Há muito temos secretamente sabotado o uso da magia negra pela sociedade, sem muito efeito. Recentemente descobrimos escondido num bunker, o artefato mágico original, que nos corrompeu com a praga. Entenda: nosso infortúnio é tão grande que mesmo o toque de nossos dedos nus corrompe a forma dos objetos. Apenas com luvas especiais – feito as que eu uso agora – podemos evitar tal efeito.

Pela manhã tentaremos, com um grupo liderado por nosso presidente mundial, recuperar o artefato e neutralizá-lo de alguma forma. Se você está lendo esta carta agora, ligue a AuraTv. Um conselho provavelmente inútil a essa altura: fuja!

Eu lhe disse que toda tecnologia avançada pode parecer com mágica, não? Pois esta carta sofrerá combustão espontânea depois de um minuto tocada por suas mãos.”

Matsuo ligou o aparelho a tempo de ver seu rosto estampado numa lista de suspeitos. Antes de ser teleaprisionado pela Polícia Arcana que acabara de identificar seu paradeiro, abriu o envelope onde estava seu contrato e quase gargalhou com o que viu.

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11 comentários em “O Contrato Assimétrico – Conto (Rubem Cabral)

  1. Eduardo Selga
    19 de junho de 2016

    As ideias de assimetria corporal e aluguel de corpo por meio de cartão de crédito me parecem muito originais, e foram bem executadas.

    No enredo aparece uma mistura muito interessante e que, apesar de representar pontos aparentemente opostos, funcionou muito bem: a evolução tecnológica aliada ao forte substrato de crendices que formam nosso povo, no texto representado, à guisa de exemplo, pelo fato de uma das personagens, logo no início da narrativa, trazer “pendurado em sua mão esquerda um subdemônio morto”.

    Eu disse “aparentemente opostos” porque, nos lembra o conto, “qualquer tecnologia suficientemente avançada pode às vezes ser indistinta de magia”. A abordagem desse aspecto da tecnologia foi positiva porque rompe certo maniqueísmo que põe em campos opostos e irreconciliáveis ambas as faces. Nesse sentido, a Idade Média nunca esteve tão atual.

    O mundo do conto, estando adiante do tempo atual, é muito presente. A estratégia é muito útil no estabelecimento do pacto narrativo, aquela cumplicidade do leitor em relação ao enredo, aceitando como verdadeiras algumas premissas postas pelo autor, ainda que inverossímeis. Em narrativas como essa, onde há um tanto de ficção científica e um tanto de Neofantástico (ou fantástico contemporâneo) conseguir esse vínculo pode ser fundamental à realização da narrativa. Digo isso porque nenhuma narrativa existe por si: ela se realiza, ou tem potencial para se realizar, quando o leitor entra em cena.

    Por que disse que a narrativa pertence ao Neofantástico, ao invés do Fantástico? O motivo principal é que no Fantástico ficam muito bem demarcados os campos do absurdo e do factível. Além disso, o trânsito do leitor pela irrealidade é tranquila, pois ele sabe muito bem que haverá retorno seguro, os pés voltarão a pisar o chão. No “Neo”, ao contrário, as duas camadas não são distinguíveis com facilidade (Kafka é um ótimo exemplo disso), e o leitor, por conseguinte, pode sentir muito incômodo quanto às cenas.

    No caso desse conto, a primeira característica do Neofantástico fala mais alto do que a segunda. Poderia pegar outros exemplos, mas vou ater-me ao fato de existir personagens cujos corpos são assimétricos. Se por um lado é um absurdo, considerando que todo ser vivo é dotado de simetria, por outro não é, dada a explicação que o conto oferece. É inverossímil se considerarmos o mundo real; verossímil se tivermos como norte a mecânica interna do texto.

    Sempre que tenho a oportunidade gosto de lembrar que escrever literatura para falar do óbvio de maneira óbvia é desmerecê-la enquanto arte. É quase um insulto. É preciso, de algum modo, ir além, e uma das maneiras de fazer isso é a utilização de camadas simbólicas subjacentes ao texto, como é o caso dessa narrativa. Lembro aqui uma citação de Jean-Paul Satre: “Ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo”.

    O capitalismo tem uma grande capacidade de se adaptar. Reinventou o próprio dinheiro, sua grande arma, por meio da criação do cartão de crédito, mecanismo que parece multiplicar o poder de compra do dinheiro, e tem um potencial de vender ilusões e estimula fetiches consumistas.

    Pois bem. Nesse conto, sintomaticamente, o prédio apenas é tornado visível quando ocorre o intermédio do cartão de crédito. Seria uma ilusão, como as que o capitalismo e seus cartões de créditos nos induzem, ou representa algo que apenas é acessível por meio do poder de compra?

    O capitalismo mastiga as pessoas com seu gigantismo, quase como se fora o Gargântua de Rabelais, Mesmo porque se não o fizer ele se extingue. Essa devoração está representada no conto pelos corpos mutilados e, portanto, assimétricos. .

    Ou seja, um conto de alta qualidade, por seu conteúdo polissêmico e pela técnica utilizada.

    • Rubem Cabral
      22 de junho de 2016

      Obrigado pela leitura detalhada, Eduardo. Eu tentei, propositalmente, incluir elementos estranhos à ficção científica, numa tentativa de escrever algo diferente, talvez no que chamam de “new weird”. Há também elementos de história alternativa: o que aconteceria se as bruxas realmente tivessem poderes e se vencessem o embate com a Igreja na Idade Média?

      Feito você notou, há crítica ao capitalismo “selvagem”, já que na história mesmo pessoas ou membros delas poderiam ir a leilão para pagar suas dívidas.

      Como em muitas histórias que inventei, essa surgiu simplesmente por causa da expressão “contrato assimétrico”, que são contratos com as chamadas cláusulas “leoninas”, que demadam demais de uma das partes.

      Abraços!

  2. angst447
    15 de junho de 2016

    Uma ótima surpresa. Digo isso porque conclui precipitadamente (culpe o sol, a lua, minha natureza impaciente) que se tratava de um conto focado em FC e todos já devem saber que sou um tanto avessa a este tema. No entanto, apesar de haver muitos elementos futurísticos ou algo do gênero, a leitura me prendeu por um suspense leve, toques de ironia, ótima caracterização dos personagens. A mistura com o lado primitivo e comum como no detalhe do sal grosso para afugentar demônios intrusos e os gastos com bobagens funcionou bem.
    Fiquei imaginando o poodle tingido de maçã verde. Pra mim, todos os poodles são estressados de nascimento.
    Enfim, mais um conto muito bem escrito e que desperta o interesse e a inveja. Fazer o quê? Quem sabe, sabe. Parabéns!

    • Rubem Cabral
      22 de junho de 2016

      Muito obrigado pela leitura, Claudia. Que bom que você gostou! Eu tentei incluir no livro elementos de FC e outros estranhos ao tema, algo tipo “new weird” ou algo assim.

  3. José Leonardo
    14 de junho de 2016

    Simplesmente sensacional, do início ao fim. Uma pena não ter participado do desafio RHA. Seria bem interessante ler esse enredo num romance. O edifício cuiabano soa familiar aos frequentadores do Entrecontos. Abraços.

    • Rubem Cabral
      15 de junho de 2016

      Obrigado por ler e comentar, José Leonardo. Feliz com a apreciação de tão talentoso colega.

      Sim, foi impossível não brincar com o Holloway, ao citar Cuiabá e seu clima “acolhedor”.

      Abraços!

  4. Leandro B.
    11 de junho de 2016

    Você e seus mundos… Trabalho fantástico, Rubem.

    • Rubem Cabral
      13 de junho de 2016

      Honrado com a sua apreciação, Leandro. Quando você volta a participar dos desafios e a nos trazer seus ótimos textos?

      • Leandro B.
        13 de junho de 2016

        Talvez volte no próximo. Perdi a pouca disciplina que tinha para escrever. Quanto à qualidade dos textos, há controvérsias hehe.

        Mais uma vez, excelente trabalho.

  5. Davenir Viganon
    9 de junho de 2016

    Cara, muito bom o seu conto. Depois que se pesca a ideia das assimetrias e das inversões (Esteban Trabajos kkkk), deparamos com uma estoria simples, mas com uma boa surpresa no final. Parabéns!

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Publicado às 9 de junho de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .