EntreContos

Literatura que desafia.

Um pequeno passeio – Conto (Maria Flora)

A enfermeira Vera se debruçara sobre seu paciente:

– Vamos, senhor Frederico. Anime-se.

Nem sinal de ânimo do velho. Continuava a olhar pela janela. O céu estava bonito naquela manhã, sem nuvens e o clima ameno. Pássaros voejavam para lá e para cá nos jardins do prédio. Homens e mulheres com o corpo retorcido pelas vicissitudes da vida longa caminhavam passo a passo, sempre apoiados em enfermeiros ou em bengalas de madeira. Cabelos brancos e fofos como o algodão cobriam suas cabeças. Um senhor sentado em um dos bancos de pedra brincava com um cachorro, adotado pelos enfermeiros do local. No quarto, uma cama jazia nua e fria próxima à de seu Frederico, que continuava a olhar para a janela.

Um olhar rancoroso com misto de tristeza. A enfermeira já adquirira certa experiência de vida para ter consciência de que o rancor sempre estava associado à tristeza. Nunca vinha sozinho. Sempre havia algo a mais. Não sentiu raiva ou ao menos impaciência. Sentiu pena. No fundo do coração sentiu a tristeza enraizada no peito daquele homem. Escondida no meio daquela difícil e complexa personalidade. “Talvez não seja personalidade, como a irmã Dulce afirmou antes. Talvez….”

– Senhor Frederico. Senhor Frederico.

O homem virou a cabeça para ela, surpreendido pelo modo urgente como o chamava. Ficou olhando-a curioso. Os olhos de um azul claro e profundo a distraíram por alguns instantes. Eram carregados de sentimentos, indecifráveis aos que o observavam.

– Senhor Frederico. – Falou lenta e pausadamente. Não como se falasse a um doente mental. Mas como para alguém surdo que precisasse de tempo para absorver o que ela dizia. Ela queria isso; que ele absorvesse e compreendesse o que ela queria.

– Quer sair hoje?

– Sair? Como assim?

– Ora. Sair desse quarto. Podemos ir até a praça. Comer algo.

– Praça? Não me lembro de praça aqui perto. E tenho as pernas fracas.

– Isso não é problema. Levo o senhor em uma cadeira de rodas. E a praça é nova. E muito bonita. Tem um sorveteiro também.

Senhor Frederico virou a cabeça para a janela e ficou assim por alguns minutos. Ela não insistia. Insistir era pior, era pressionar alguém que claramente detestava ser pressionado. Apenas dera a idéia. Precisava de um tempo para ele sentir a paisagem que ela lhe afigurara. Paciência. A irmã Dulce tinha razão nesse aspecto. Era preciso paciência. E isso ela tinha de sobra. Longos anos de convivência com o pai e o sobrinho pequeno a haviam ensinado muito.

E então, ele virara a cabeça. Ela examinou atentamente a sua expressão. Era mista, difícil de identificar.

– Não posso sair. Não posso.

– Por que não?

– A irmã não me deixará.

– E se eu conseguir a permissão dela? O senhor quer sair?

– Pode ser.  – Mexeu os ombros magros de um modo infantil, como uma criança desanimada pela doença.

– Aguarde um pouco. Eu volto logo.

Mais um mexer de ombros. Ela sorriu animada para ele.

Saiu apressada. Precisava encontrar a irmã Dulce, a diretora responsável pelo hospital. Antes que ela saísse. O relógio de parede no corredor alertou-a. Faltava pouco tempo para ela sair para a missa da manhã. Desceu as escadas do primeiro andar correndo. Ela provavelmente já estava na porta de saída.

– Irmã Dulce!

Encontrara-a perto da recepção. Dava ordens que se esquecera de dizer para a secretária.

– O que houve, minha filha? Quem está passando mal?

– Ninguém, senhora. Todos passam bem. Estava com o senhor Frederico. Aliás, ele pediu para sair.

– Sair? O senhor Frederico pediu para sair? Sair para onde?

– Só um passeio, irmã. Ir até a praça de São Gonçalo e voltar. Nada mais.

Achou melhor não mencionar o sorvete. Seria demais para a irmã.

A irmã Dulce estreitou os olhos, desconfiada. Era um fato novo aquele.

– Você é quem deu a idéia?

– É apenas um passeio, irmã.

Vera se surpreendeu quando a irmã abaixou a cabeça, entristecida. Quis saber se havia algo errado com ela, mas foi interrompida.

Irmã Dulce decidiu de forma enérgica.

– Tudo bem. Veremos como ele se comportará. Quer a companhia de um dos rapazes?

Os rapazes eram os homens designados para os momentos de crise dos pacientes. Sempre presentes nos corredores, jardins do hospital e na cozinha. Não seria uma visão muito favorável ao senhor Frederico.

– Não. Não creio haver necessidade.

– Muito bem. Espero vocês de volta antes do almoço.

– Obrigada, irmã.

Irmã Dulce continuou a olhar para a enfermeira enquanto essa se afastava. Não pode evitar dizer em voz alta o que sua mente lhe afirmava: – Curioso.

A enfermeira apareceu triunfante à porta do quarto.

– Prepare-se, senhor Frederico. Iremos sair para um belo passeio.

– Deram a permissão, então? Que surpresa! Mas parece estar um pouco frio.

– Bobagem. Levaremos um cobertor e um agasalho, caso queira usar.

Saiu do quarto e abriu uma porta ao lado, no corredor. A enorme cadeira de rodas permanecia inútil no canto mais sombrio do minúsculo quarto. Um chamado a surpreendeu; era a voz de seu Frederico que parecia estar mais próximo dela do que esperava.

O homem se erguera da cama e com os pés descalços a seguira. Estava perto da porta quando ela entrou, impedindo que continuasse.

– Espere, senhor! Está com os pés frios!

– Bobagem.

Mas olhando para baixo e vendo seus pés magros e pontudos pediu que calçasse os pés.

– Vou pegar o carrinho, assim não vai cansar.

– Vou andando. Minhas pernas são fortes.

Ela conseguiu puxá-lo de volta à cama, mas ele apenas se sentou na beirada.

Como uma criança ele puxou suas próprias roupas, mostrando-as para ela e sorriu, como se dissesse: E estas roupas? Tenho de trocar.

– Fique aqui.

Ela foi buscar no pequeno armário um casaco de lã para vesti-lo por cima do pijama, mas ele ergueu a mão e indicou o terno de risca de giz pendurado. Entrara naquele edifício pela primeira vez com aquela roupa, que logo foi guardada no armário sem uso desde então.

Depois do que lhe pareceu longos minutos, o senhor Frederico estava elegantemente vestido.

A minúscula enfermeira, pois era baixinha, se animou.

– Por que não se veste assim sempre?

Frederico ajeitava o chapéu negro que estivera pendurado durante meses atrás da porta do quarto, esquecido.

– Para ir ao quintal e me exigir para senhoras dementes? Não há mérito nisto.

Ela preferiu ficar quieta. Trouxe a cadeira de rodas para o quarto, mas o velho senhor se insultou com isto, erguendo as mãos em protesto.

– Vai a pé? Mas disse que tinha as pernas fracas…

– Elas são fortes, minha pequena. Não faz muito tempo eu andava por todo lugar. A praça é longe daqui?

– Apenas um quarteirão.

– Perto! Estou curioso por conhecer essa praça. Tem dinheiro para o sorvete? Pois eu nada tenho. Tiraram-me tudo quando me trouxeram para cá.

Enquanto atravessavam os corredores os olhares espantados das pessoas seguiam-nos por alguns instantes. Era realmente um fato extraordinário. Senhor Frederico era um homem de temperamento difícil e raramente saía do quarto. Trazia a expressão séria e as costas firmes e retas. Recusou qualquer ajuda da enfermeira, que lhe alcançava metade de sua altura. O homem sorrira com a idéia de se apoiar naquela pequena.

A claridade do sol ofuscou os olhos de seu Frederico, que puxou o chapéu para mais perto dos olhos e continuou em frente. A cidade era pequena, quase uma aldeia, logo não havia perigo de caminhões ou carros correndo nas esquinas, somente uma ou outra bicicleta.

Árvores enfeitavam as calçadas com sua sombra e suas flores coloridas.

A enfermeira Vera pediu que ele se sentasse em um banco da praça enquanto ela pegava os sorvetes.

– Quero conhecer este sorveteiro.

O sorvete era vendido por um menino de dez anos ou doze anos. Quando o velho lhe inquiriu sobre quem fazia os sorvetes, o menino respondeu que era a avó.

– E qual é o nome dela?

– Ana, senhor.

– Sorvete da Ana. Muito bom. Agora, senhorita, podemos nos sentar naquele banco.

O banco escolhido fora um em meio a um grupo de árvores pequenas e mirradas. Ficaram em silêncio enquanto saboreavam o sorvete. Frederico olhava ao redor, como se refletisse.

– Aos poucos, a guerra é superada. Veja esta praça! Nem há vestígios da bomba que caiu aqui.

– Há sim.

Vera apontou para uma rua, que circundava a praça; esqueletos de prédios com janelas quebradas e um vão nas paredes refutavam visivelmente a afirmação de Frederico.

– Eu disse aos poucos.

– Reconstruir para tornar a destruir. Não se esqueça de que esta foi a segunda grande guerra.

– Acho difícil acontecer outra guerra agora. Não há homens suficientes. Mas o que estou dizendo! Quando lutei na outra guerra também tive esta esperança.

– O senhor lutou? E em qual batalha?

– Como tantos outros. São memórias amargas.

Novo silêncio. O sorvete ainda estava na metade. Seu Frederico saboreava com cuidado.

– Minha querida esposa adorava sorvetes. Tanto que aprendeu a fazer. Eram os melhores!

Virou seu rosto para perto de Vera; seu rosto retornou ao semblante triste e rancoroso.

– E como tantas outras pessoas, teve sua alegria alquebrada pela guerra. Nunca se casou?

A enfermeira o olhou, surpreendida.

– Não sou senhorita, mas senhora. Meu marido foi morto em combate.

Frederico abaixou a cabeça como em reconhecido respeito.

Vera também trazia em seu semblante um véu de tristeza e rancor. A visão do prédio destruído, o fantasma do que fora antes uma sólida construção, pareceu-lhe odiosa. E em seu coração consolou-se com o pensamento de que aos poucos superava a guerra. Ergueu a cabeça, desafiadora e sorriu alegre. Trazia esperanças. Seu Frederico era o exemplo. Sem ela perceber ele a observara atentamente. Assim que ela se ergueu, preocupada com o tempo, ele a acompanhou. Nada foi dito no caminho de volta. O senhor Frederico estava ocupado, entretido com o céu, com crianças brincando nas calçadas em frente às suas casas, com o próprio ar perfumado pelas flores daquele mês primaveril.

Na manhã seguinte, a enfermeira Vera seguiu para seu trabalho, com o coração leve e cheio de esperanças. Percorreu os longos e frios corredores sem se perturbar com a tristeza que quase sempre pairava ali. Afinal, os habitantes daquele lugar eram pessoas solitárias, sobreviventes de uma tragédia que lhes tirara a vida lentamente. Ali, morria se mais de tristeza e solidão do que de velhice. Então atravessou os corredores com o espírito mais forte, resistente.

Na noite anterior sonhara com seu marido. Estavam na mesma praça e no mesmo banco em que se sentara com o velho Frederico. Sentados lado a lado, apenas namoravam alegres. Ele a abraçara e a beijara com amor.

Ao despertar, sentiu o coração leve e forte. Como um anjo, seu marido a consolara. No sonho, ela lhe contara sobre a saída com Frederico e seu marido lhe disse que Frederico também se encontrava com sua mulher em sonhos.

E para sua surpresa, uma jovem mulher com o rosto sorridente passou em frente deles e agradeceu à Vera pelo cuidado que tivera com seu marido.

“Vou buscá-lo. Já é tempo de ficarmos juntos novamente”.

Parada em frente ao quarto de Frederico, esta passagem do sonho ocupava sua mente e em seu coração sentiu seu significado. Abriu a porta e duas camas vazias e frias lhe contaram que o velho Frederico partira durante o sono, deixando a esperança da reconstrução para os outros.

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2 comentários em “Um pequeno passeio – Conto (Maria Flora)

  1. Guilherme
    14 de abril de 2016

    Também pude passear em pensamento com a leitura do texto, reconstruindo velhos sentidos…

  2. Brian Oliveira Lancaster
    11 de abril de 2016

    Bem singelo e melancólico. Sou atraído por textos assim e aqui não foi diferente. Teve um toque sutil de fantástico (ao final) que quase destoou do restante, mas foi bem delineado, de modo que se encaixou ao contexto.

E Então? O que achou?

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Publicado às 10 de abril de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .