EntreContos

Detox Literário.

Olhai! (Gustavo Aquino)

“No dia que já vem vindo,
que esse mundo vai virar”

Idíss dos Prazeres

 

 

 

I

Bucca de Aranatusa, espojado num divã, estava mais bêbado do que nunca. Cofiando a barba, ignorando os contornos desnudos da figura feminina sentada ao seu lado, pôs-se a observar a paisagem que se estendia além da janela à frente.

Bem calmamente, depois de sorver o último gole da taça, retirou as pantalonas e a sufocante camisa. Ajeitando o corpo obeso na superfície macia do divã, voltou sua atenção à mulher por um instante e a ordenou que se deitasse de bruços. Sem questionar a ordem, ela virou o torso para baixo e empinou as nádegas brancas para cima.

─ Boa menina…

O vento noturno sussurrou através das cortinas, trazendo consigo o aroma que vinha das ruas de Aramör. Era a essência exalada das laranjeiras e dos limoeiros plantados ao longo dos cortiços; era o cheiro do Mar de Topázio, aquele lençol azul-escuro, que se espraiava prosaico por toda a circunferência ébria dos olhos extasiados do gordo rodiniano que copulava porcamente com a sua escrava.

No paroxismo do gozo, Bucca afastou-se da mulher com brusquidão. Ofegou por alguns momentos e, ao erguer-se com dificuldade, cambaleou na direção do sortido aparador de bebidas. Fornicar com a única escrava que possuía sempre lhe dava uma sede desgraçada e, apesar de reconhecer o avançado estado de embriaguez em que estava, sentiu-se inclinado a tomar mais um trago.

─ A bebida acabou!? ─ bradou com infantil incredulidade após testar as garrafas na ânsia de encontrar alguma que ainda estivesse cheia. Em seguida, consciente de que era inútil, virou-se para a escrava e disse:

─ Neniel, você já pode se recolher.

Erguendo-se prontamente, pegando as roupas com rapidez, a escrava se retirou.

─ Como pôde ter acabado tão rápido? ─ indagou-se Bucca, claramente esquecido de que ele mesmo havia consumido toda a bebida nas últimas semanas. Suspirou, coçou o ventre volumoso e, depois de um arroto, concluiu que se quisesse tomar mais alguma coisa naquela noite infernalmente quente teria de se dirigir pessoalmente a uma das tavernas que ladeavam o porto.

A inusitada idéia até que não lhe pareceu absurda. Decidido, trajando as vestes novamente, cruzou o corredor e desceu cuidadosamente as escadas até o primeiro andar. Abriu a porta de carvalho de sua moradia e, ao trancá-la atrás de si, seguiu rumo à primeira espelunca que pudesse encontrar.

Caminhou por algum tempo. Atravessou o Portão dos Cordoeiros, a Praça do Comércio e, ao dobrar à esquerda no Trevo dos Ferreiros, subiu a ladeira que conduzia à zona portuária. Mansões vetustas e casebres avarandados destacavam-se pelo caminho; descuidados jardins de asfódelo apodrecendo em silêncio além dos muros das abandonadas moradias de uma nobreza há muito esquecida de Aramör.

Então, ao término da longa fileira de casas, Bucca captou o som de vozes reverberando de um beco adjacente. Aprumando a audição, tentou distinguir o teor do vozerio: a mixórdia sonora não parecia pertencer ao clamor dos vagabundos, tão comuns naquele local. Muito menos se assemelhava ao salmodiar pagão dos bàruyos que, geralmente, realizavam os seus estranhos ritos no plenilúnio.

Mordido pelo verme da curiosidade, ele adentrou no beco escuro. Caminhou escorado na parede de tijolos, intrigado com as vozes que se elevavam em uma espécie de cântico. Havia um quê ritmado na entonação daqueles gritos, o uso grave de algumas palavras inferindo um latente fetichismo religioso.

De súbito, o desvairo sonoro se perdeu no ar. Confuso em decorrência daquela mudança repentina, Bucca correu de maneira desengonçada no intuito de ver quem seriam os responsáveis por aquela algazarra noturna. Lavado em suor, chegou resfolegando no fim do beco e, para o seu total assombro, viu que não havia nada. Os detentores daquelas vozes haviam desaparecido; no entanto, tinham deixado o registro de sua estranha cerimônia refletido nos objetos largados para trás: um braseiro arcaico rodeado de pilhas de ossos pequenos e outras coisas menos descritíveis espalhadas ao longo de um septograma desenhado no chão.

Porém, não foram as vozes ou os objetos estranhos que fizeram com que o rodiniano ─ agora sóbrio de tensão ─ buscasse desastradamente equilíbrio no muro semidestruído, mas sim a horrenda estatueta que jazia posicionada sobre uma pedra retangular ao lado do braseiro apagado.

─ Por Nemedius! O que é isso? ─ ofegou Bucca realizando o sinal dos Velhos Deuses, evitando mirar as expressões faciais do ídolo.

Controlando o medo, olhando por sobre os ombros trêmulos, aproximou-se da estatueta e a apanhou nervosamente nas mãos. Deslizou os dedos pelas laterais, contornou com o polegar roliço as extremidades porosas daquilo que aparentava ser uma cabeça e, num balbucio baixo, recitou o conjunto de palavras que se destacavam em linhas grosseiras na base.

Untupa kalakiryo nagad olúwa. Iáélae ìndínkù íwo lémìí. Vainadar apannonar suni! Oran quendinoi suur! Ebúté quendinoi-u’z! Oran.

Então, antes que pudesse decifrar o significado daquele estranho composto linguístico, sentiu algo fechar-se ao redor do seu pescoço. Contorcendo-se, engasgou desesperadamente. Um mau cheiro invadiu suas narinas dilatadas e Bucca de Aranatusa, com o esfíncter rompido jorrando excrementos além de suas extravagantes pantalonas, reconheceu que estava sendo enforcado.

 

II

Os raios da manhã dardejaram pela janela de mosaicos esverdeados, iluminando o ambiente decorado.

─ Encontraram-no ontem ─ disse o sujeito trajado em um casaco luxuoso, sentado elegantemente numa poltrona de espaldar alto. ─ Nunca imaginei que Bucca teria um fim assim. Antes houvesse tombado diante das hordas dos anões de Nihazzor; ou que tivesse encontrado a morte nas areias de Yaa San’j! Não! O gordo tinha de ter sobrevivido a todos esses obstáculos conosco para tombar assassinado num beco escuro qualquer!

─ Há quanto tempo ele estava desempenhando tarefas para você, Petrus? ─ murmurou a figura à sua frente, ignorando deliberadamente o comovido desabafo.

Petrus fitou o semblante sombrio de seu interlocutor por um momento e pôde reconhecer aquela inalterada firmeza férrea de quando ele e Bucca, recém-alistados nas fileiras rodinianas, o haviam visto pela primeira vez há trinta e quatro anos atrás ─ um jovem, de espada e escudo nas mãos, ingressando nos exércitos de Fornol, o Grande, durante a expansão do Império no Oriente.

─ Logo depois que fui apontado como censor-real aqui em Aramör por nosso rei Artoria IV, há uns oito anos ─ respondeu Petrus.

─ E quais eram suas funções?

─ Servia-me como censore. Existe muita subversão aqui. Uma enorme insatisfação, principalmente entre os elfos e seus descendentes, está se espalhando rapidamente. Ouso dizer até que a inquietação dos elfos e da população em geral esteja associada aos acontecimentos desencadeados em Tara’kan. O que foi aquilo, Tyr Loel? Como você conseguiu escapar com vida?

A eloquência evasiva do silêncio foi a única resposta.

Petrus arreganhou os dentes e sorriu. Meneou os ombros magros, espiou um cálice vazio que se destacava diante de si e bateu palmas ordenando vinho.

─ Certo, fique com seus segredos ─ disse depois que um serviçal entrou, depositou uma garrafa sobre a mesa e saiu. ─ Foi exatamente por você ter sobrevivido ali que eu o convoquei para cuidar desse caso. Entenda: esse não é o primeiro assassinato que ocorreu. Outras pessoas foram encontradas nas últimas luas. Sete, para sermos mais exatos. Existe um movimento subterrâneo se agitando nas entranhas dessa cidade! Precisamos agir.

─ E como faremos isso? ─ indagou Tyr Loel apanhando o próprio cálice de Petrus e colocando vinho em seu interior. Sorveu o conteúdo em uma golada e voltou a depositá-lo sobre a mesa de madeira negra. ─ Sou um estrangeiro recém-chegado de Ytheron. Não tenho autonomia para cuidar do caso. A guarda local de Aramör está à frente das investigações.

Petrus alternou o olhar de Tyr Loel para o cálice, do cálice para Tyr Loel. Suspirou e, levantando-se morosamente da poltrona, abriu uma gaveta decorada com filigranas de ouro de onde retirou uma nova taça.

─ Esse problema, ironicamente, foi resolvido com a morte de Bucca. Nenhum estrangeiro havia sofrido com esses ataques. Graças a o assassinato de um rodiniano em solo aramörano, eu pude facilmente me meter nessa jurisdição e convocar um observador para tentar solucionar o caso. Você terá plena autonomia e não precisará se reportar a ninguém. Apenas ao censor-real, é claro.

Tyr Loel digeriu as informações. Ele não era nenhum tolo, e conhecia muito bem Petrus para saber que o seu interesse no caso não era movido por pura filantropia. O censor-real, com seu rosto perfumado e escanhoado, não estava preocupado com a ameaça que se insinuava por detrás dos fatos. Petrus estava interessado em solucionar os assassinatos simplesmente por puro interesse político, para ganhar prestígio entre os plutocratas de uma cidade emergente como Aramör.

─ Muito bem ─ falou Tyr Loel, curvando-se polidamente e realizando uma mesura. ─ Começarei imediatamente.

─ Uma última coisa! Creio que você vai se interessar por isso ─ disse Petrus, retirando um livro de capa surrada de um dos bolsos interiores do casaco.

─ O diário de Bucca! ─ arfou Tyr Loel ao apanhar o objeto.

─ Exatamente! Revistaram sua moradia e o encontraram em um baú junto com outros pertences. Não tive tempo de lê-lo ainda. Aliás, acho que não seria certo; afinal, vocês sempre foram tão unidos durante os nossos anos no exército. Espero que isso o ajude. Caso você seja bem sucedido nessa demanda, sua recompensa será enorme.

─ Não estou fazendo isso por recompensas!

A porta rangeu nos eixos e se fechou.

Petrus recostou-se novamente na poltrona. Apanhou a garrafa e, gargalhando como se houvesse acabado de escutar a mais cômica das anedotas, serviu-se de uma considerável dose de vinho.

 

III

Tyr Loel chegou à taberna por volta do entardecer.

O taberneiro, metido em seus próprios afazeres dentro da cozinha, ergueu a cabeça de cima de uma barrica de batatas marinadas quando o sino da porta repinicou e chamou sua atenção. Praguejando, limpando as mãos calosas no puído avental, dirigiu-se ao balcão.

─ O que vai ser? ─ perguntou, medindo o recém-chegado de alto a baixo.

─ Cerveja ─ pediu Tyr Loel.

O taberneiro murmurou algo ininteligível, visivelmente incomodado com o tom de voz empregado, e encheu uma velha caneca de barro.

Tyr Loel não se sentou com os outros fregueses. Bebeu sua cerveja em pé, rente ao balcão, os olhos inspecionando o local. No centro da área comum, acima de uma cadeira tosca, um bardo enchia o ar abafado do lugar com uma cantilena vulgar:

 

Balança, meu touro valente,

balança os colhões e vem!

Se a dona do prostíbulo fornica!

As filhas fornicam também

 

─ Gostaria de um quarto ─ disse, olhando para o taberneiro.

─ Não temos mais lugares.

─ Prefiro aqui.

─ Não temos lugares! ─ frisou o outro, reconhecendo a origem daquele desagradável sotaque: era de Vaalbara. E quem no mundo seria capaz de gostar de vaalbarianos? ─ Vai ter que achar outra taberna.

─ Pagarei bem. Não lhe darei nenhum tipo de trabalho ─ segredou Tyr Loel enquanto uma pequena bolsa de couro, tilintando, deslizava pelo balcão.

Os dois homens se entreolharam em silêncio. Algum ébrio se precipitou e esbarrou numa mesa, derrubando-a. Uma meretriz, escanchada no colo de um velhaco, gargalhou. O bardo solfejou uma nova canção no alaúde e três elfos embriagados, sentados no fundo da taberna, ergueram suas canecas e deram voz ao refrão:

 

Vocês nos prendem vivos,

nós escapamos mortos!

Olhai a flecha, olhai a adaga,

olhai o dia de ontem chegando!

Olhai! Que medo vocês tem de nós!

Tyr Loel tentou interpretar aquele estranho verso desprovido de qualquer beleza rítmica. Porém, tolhido pelas vozes engroladas dos bêbados que insistiam em se embaralhar continuamente, ficou sem compreender o real significado daquela composição desconexa.

Finalmente, voltou sua atenção ao seu hesitante interlocutor.

─ Lembrei que temos ainda um lugar ─ falou o taberneiro.

Ao apanhar a chave e assinar o livro de hóspedes, Tyr Loel galgou os degraus na direção do segundo andar da taberna. No final do corredor, abriu a porta do quarto. Era um aposento escuro, baixo, com um teto de duas águas e de pouca mobília. Sem se preocupar em organizar os pertences sobre a cama, fechou as cortinas. Com a ajuda de uma vela, iluminou o espaço e sentou-se rapidamente na única cadeira. Sobre uma mesinha, abriu o diário de Bucca.

Concentrou-se na leitura de cada palavra; releu cada registro efetuado em uma caligrafia apressada que, hora ou outra, remontava às impressões de um estrangeiro acerca dos costumes exóticos dos habitantes de Aramör. Por muito tempo Tyr Loel quedou-se ali, examinando notas esparsas acerca de assuntos sem importância que se estendiam por páginas e páginas.

Foi em uma das últimas folhas, quando todas as esperanças haviam minguado, que ele se deparou com o indício de que havia alguma coisa sórdida naquilo tudo.

 

“Aramör,

Surrdaas, Anaïs. 12, 265

Ontem, senti a falta de Loel. Senti falta de sua argúcia e de sua proficiência na língua antiga. Faz muitos anos que não o vejo, e sempre me recordo da facilidade com que ele falava a língua dos desterrados. Se estivesse comigo ontem poderia ter me ajudado a descobrir o que aqueles escravos estavam sussurrando. Não consegui entender muito do que foi dito ─ na verdade, entendi apenas algumas palavras, pois durante os meus anos como cavalariço em Bonnaur (que os deuses me perdoem pelos crimes que cometi ali) aprendi um pouco desse idioma. De toda a conversa, consegui apenas decifrar um nome: Enkös.

Não que eu seja algum tolo neurótico, mas começo a crer nas histórias de Neniel acerca de um possível levante dos elfos. Indaguei alguns escravos e descobri que esse elfo é uma figura reverenciada entre eles – principalmente entre os elfos do leste – e que ele (Enkös) havia sido metido em ferros em uma das masmorras localizadas no Pátio da Lei por conta de dívidas acumuladas por seu antigo senhor.

Comunicarei o caso à Petrus”.

 

Tyr Loel viu a noite transformar-se em aurora, trazendo à tona os seus mais terríveis temores. Durante os anos em que atuou como observador na ilha de Tara’kan, havia se deparado com um culto ligado ao levante dos escravos locais. Aparentemente era um culto antigo, pacifico, com raízes pré-élficas, baseado na fertilidade. No entanto, os elfos mais velhos, quando interrogados, vociferaram que um antigo deus inominável cumpriria sua promessa e colocaria um fim na escravidão. A existência do culto nunca foi confirmada, mas o levante dos elfos aconteceu: e a cidade ardeu por oito dias.

─ Escravos sussurrando na língua antiga… ─ murmurou Tyr Loel a si mesmo, as mãos agitadas escrevendo o nome “Enkös” nas folhas de um caderno de anotações.

O taberneiro, limpando as mesas e berrando impropérios para os últimos clientes do local, ficou mudo no momento em que viu seu hóspede descer as escadas numa carreira desabalada.

─ Onde fica o Pátio da Lei? ─ bradou o outro, agarrando o homem pelo colarinho emporcalhado.

A informação foi passada prontamente em meio a grunhidos esganiçados e Tyr Loel disparou na direção apontada.

 

IV

O guarda averiguou os papéis e, ao reconhecer que estavam devidamente em ordem, assinados pelo censor-real, puxou o ferrolho do pórtico e conduziu o observador em direção às celas.

Ao descer um sinuoso lance de degraus, Tyr Loel, adentrando num longo corredor sustentado por largas colunas, notou que atrás de algumas das celas que margeavam o caminho viam-se rostos afilados, de tez clara, trazendo a marca de reinos esquecidos impressos nos olhos.

Eram elfos.

─ É aqui ─ disse o guarda, parando de repente. Em seguida, investiu a chama do archote entre o vão das barras de ferro e gritou: ─ Enkös! Visita!

Passos soaram, um movimento arrastado de pés ecoando de dentro das profundezas da cela. A luz da chama dançou nas feições encovadas de um vulto alto, magérrimo, que se aproximou. Era um elfo de testa larga, orelhas pontudas cobertas de tufos cinzentos, vestido em trajes de um branco imaculado apesar da imundice que o rodeava.

Soo’ir nardunoi… ─ tartamudeou o velho, acocorando-se no chão.

─ Guarda, poderia nos dar licença? ─ indagou Tyr Loel educadamente. Esperou o outro se afastar lentamente, pigarreou e encarou Enkös. ─ Chamo-me Tyr Loel, sou um observador da Ordem de Darfëll. Tenho algumas perguntas.

─ Imagino que tenha… ─ disse Enkös.

─ Existem indícios de que você é o líder de uma suposta revolta que está se agitando em Aramör. Isso é verdade? ─ inquiriu Tyr Loel, ciente de que estava baseando sua acusação num único documento que era o diário de Bucca.

─ Sou apenas o guia espiritual de um povo ─ argumentou o elfo, calmamente. ─ que foi destinado aos grilhões. Não sei nada sobre uma “revolta”. Sei, sim, sobre a reparação dos crimes cometidos contra o povo élfico.

─ E os assassinatos? O que sabe sobre eles?

Enkös pôs-se de pé, altivo e orgulhoso como os pais dos elfos na aurora do mundo. Moveu-se com dificuldade até a parede e, ali, com seus dedos alongados, destacou a estipe de um cogumelo que crescia entre as reentrâncias úmidas do concreto. Macerando o fungo entre as mãos magras, retornou ao mesmo lugar e acocorou-se novamente.

─ Assassinatos? ─ disse, enquanto levava um pedaço em direção à boca. ─ Diga-me, corja de Vaalbara, como você pode ousar falar em assassinatos? Ó sim, sei de onde você vem. Reconheço o sotaque vil dos grandes navegantes que outrora cruzaram o mar. Conte-me, Tyr Loel, onde estão as moradas de meu clã? Onde estão os reinos élficos? Não ouse falar de assassinatos diante daquele que viu todo o seu povo ser reduzido a nada!

─ Não estou interessado em entender a querela dos elfos e…!

Amanita muscaria ─ monologou o velho, silenciando Tyr Loel no meio da sentença e pousando o olhar no conteúdo macerado estendido na palma da mão. ─ Assim como os criadores-de-verso bàruyos, que consomem o estramônio e o eufórbio antes de realizarem suas composições, nós, quando queremos comungar com aqueles que habitam o vazio, fazemos uso de alguns portentos da natureza.

Em seguida, ergueu morosamente os olhos na direção do observador e, sem desviar a visão, colocou a amanita muscaria no centro da língua amarelada.

─ O pacto foi selado com sangue, vaalbariano ─ sibilou Enkös com uma entonação gelada, a voz tornando-se cada vez mais grave, cada vez mais alta, até se tornar um berro. ─ Oito corpos sob o olhar duro do ídolo de pedra. O levante! A liberdade! Olhai! Que medo vocês tem de nós! Oran quendinoi suur! Ebúté quendinoi-u’z! Oran!

Tyr Loel sentiu as pernas fraquejarem quando ouviu aquele desvairo verbal. Apavorado, saiu apressadamente pelo corredor e implorou ao guarda que fosse conduzido para fora da masmorra.

Ao retornar para a taberna, controlando os nervos abalados com uma desmedida dose de vinho, releu algumas das anotações feitas a partir da fala desconexa do líder élfico. Viu-se perdido, preso num emaranhado venenoso de feitiçarias mais antigas que a humanidade. Estava impotente. Tentara extrair alguma confissão crível do seu principal suspeito, mas fora em vão. Sabia que algo terrível iria se desenrolar nos próximos dias e viu a imagem altiva e agourenta de Enkös como o seu arqui-inimigo e adversário.

 

V

O objeto havia chegado pela manhã, logo após uma escaramuça realizada pela guarda local de Aramör num conjunto de casebres onde, segundo testemunhas, reuniam-se a maior concentração de elfos da cidade. Portas haviam sido escancaradas, ordens de prisão foram trovejadas e os escravos foram interrogados sob os augúrios do azorrague, do fio da espada e da roda de tortura. Em meio a essa confusão, inúmeras informações valiosas se perderam. Entretanto, por algum capricho das circunstâncias, o ídolo fora encontrado.

Enfiado em seu tugúrio, valendo-se de todas as anotações colhidas durante as últimas semanas de frustrante investigação, Tyr Loel tentou estabelecer o real significado daquela escultura repulsiva que agora tinha diante de si. Porém, embora tenha se valido da expertise dos ferreiros, marceneiros e de toda a sorte de artificies de Aramör, não conseguiu traçar a proveniência daquela composição abstrata e muito menos os materiais empregados em sua abominável confecção.

Derrotado, impossibilitado de formular indícios concretos acerca do levante, resolveu transcrever num papel o conjunto de letras que se avultavam na base da imagem. Começou a traduzir as palavras, uma a uma, tentando aproximá-las da língua ocidental. O idioma empregado ali não era genuinamente élfico; havia uma corruptela idiomática, uma mistura pobre da língua antiga com outra totalmente análoga. Tentou inúmeras vezes, incessantemente, até que, nas primeiras horas da madrugada, Tyr Loel abaixou a pena gasta e pôde ler a maldita tradução:

 

“Corta-se um verso, escreve-se outro. Prende-se o vivo, escapa-se o morto. Olhai! Estamos aqui de novo! Perturbando a torre do homem, exigindo o troco! Olhai o verso, olhai o outro! Olhai os que vieram primeiro! Olhai os primogênitos chegando de novo! Olhai a flecha, olhai a adaga, olhai o dia de ontem chegando! Olhai! Que medo vocês tem de nós!”

 

Ishar! ─ blasfemou, quase caindo da cadeira. Recobrou o equilíbrio e leu novamente o conteúdo escrito por suas próprias mãos. ─ “Perturbando a torre do homem”! Essa é a mesma passagem vociferada durante o levante dos escravos em Tara’kan! A última linha! Sim! Os elfos haviam cantado exatamente essa parte no dia em que cheguei! Deuses! Enkös também disse algo relacionado! “Que medo vocês tem de nós!”. Loel seu estúpido! Duplamente tolo! Esse culto… Preciso avisar Petrus e…!

Suas ações foram interrompidas por um grito emanado das ruas. O observador, sufocando um berro de súbito pavor, apanhou a estatueta, enfiou a folha da tradução num dos bolsos e se dirigiu até a janela. Por entre a névoa fina que se desprendia da madrugada, o inferno havia sido desencadeado mais uma vez. Era o dia da desforra que Enkös havia anunciado.

Tudo se passou em um conjunto de imagens desconexas e Tyr Loel não é capaz de se recordar de muitas das coisas que viu naquela madrugada. Os versados e os mestres de tradição de Opar, interessados sobremaneira no seu quadro mental, lhe disseram, muito plausivelmente, que ele havia sofrido um surto imaginativo; a fábula do culto, a tradução extraída da base do ídolo e a compilação das palavras sentenciadas por Enkös haviam sido, obviamente, disparates criados por sua mente transtornada.

No entanto, naquele momento, tudo fora tão real.

E Tyr Loel saiu pelas ruas levando consigo o ídolo debaixo do braço, seguindo desembestado enquanto a guarda de Aramör travava um combate mortal contra os elfos inflamados com promessas de liberdade vaticinadas por um culto mais antigo que a humanidade. Cambaleando, subindo e descendo ladeiras, chegou ao Pátio da Lei e o encontrou ardendo em chamas. Depois, gargalhando, correu até o Censorum no intuito de avisar Petrus. Não encontrou ninguém lá, apenas uma construção saqueada e o corpo esquartejado do censor-real, no meio do pátio principal, projetando sombras oblíquas devido ao brilho dos braseiros que ardiam ao seu redor. Sem rumo, sorrindo e cantando enlouquecido coisas sem sentido, flanou por vielas e becos que se abriam em horizontes de uma esqualidez sem fim.

Por fim, veio o colapso e a queda que o deixou sem sentidos.

Quando deu por si, viu que estava acomodado e sendo tratado por mãos hábeis em um templo próximo do porto. Ainda convalescendo, ouviu as notícias do fim da revolta e do triunfo da guarda com um falso otimismo. E, ao indagar as autoridades acerca do paradeiro de Enkös ou do estranho ídolo de pedra, recebeu apenas olhares curiosos e empáticos.

Tyr Loel encerrou suas atividades como observador naquele mesmo ano, queimou a tradução junto com as anotações e, orientado por seus superiores a não se predispor a novos surtos imaginativos, jurou que nunca mais falaria a respeito do que vira e sentira naquela madrugada. Mas, recentemente, enquanto fazia uma parada em S’hadukiam para seguir viagem de volta ao ocidente, foi acometido por um novo colapso nervoso quando ouviu uma criança élfica, acocorada na amurada de pedra dos ancoradouros, entoar a canção:

 

“Olhai os primogênitos chegando de novo!

Olhai a flecha, olhai a adaga,

olhai o dia de ontem chegando!

Olhai! Que medo vocês tem de nós!”.

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32 comentários em “Olhai! (Gustavo Aquino)

  1. ram9000
    2 de abril de 2016

    Um dos contos mais bem escritos de desafio em termos de forma e escolha de palavras, além das descrições e detalhes. Os parágrafos mantem um bom ritmo de leitura. Algumas palavras rebuscadas demais poderiam ser reconsideradas. A trama é bem interessante.

  2. Renan Bernardo
    1 de abril de 2016

    Bom conto! Escrita bem legal, mas achei certas partes com um exagero de palavras rebuscadas. A temática e o cenário são clichês, mas a história como um todo quebra um pouco isso. Gostei da mitologia criada e dos nomes também. O final, contudo, não me agradou tanto.

    Nota: 8

  3. Emerson Braga
    1 de abril de 2016

    Não há dúvidas, seu texto é o mais maduro dessa rodada. No que toca escrever sobre fantasia, você entende muito bem do bailado. O que me dá ainda maior responsabilidade, pois não sou grande produtor ou conhecedor do gênero. Conto refinado, enredo aguçado e personagens intrigantes (dispenso encontrar Enkös por aí… Sujeito assustador!). Fico muito inclinado a dar um merecido 10 para seu trabalho, mas, como prometi que só o faria quando não encontrasse falha alguma e a história me tocasse profundamente, terei que segurar meu desejo.
    Em determinado trecho, você escreveu: “…há trinta e quatro anos atrás…”. Tenho certeza que foi falta de atenção, pois sua escrita revela domínio sobre a língua e suas regras gramaticais. A forma “há” do verbo “haver” já indica tempo transcorrido. Portanto, o “atrás” é uma redundância. Deveria ter escrito “…há trinta e quatro anos…”.
    Houve ausência de acento gráfico na palavra “pacífico” em “…Aparentemente era um culto antigo, pacifico, com raízes…”. Falta de atenção mais uma vez.
    E aqui foi um problema de digitação. O “ao” ficou separado: “…Graças a o assassinato de um rodiniano…”.
    Muita gente se irrita quando faço esse tipo de observação. Mas, entenda: Seu texto é bom demais para se deixar manchar deslizes tolos. Sua escrita apurada e cheia de requinte não merece nada menos que a perfeição da forma. Boa sorte.

    NOTA: 9,9

  4. André Lima dos Santos
    1 de abril de 2016

    Um conto muito bem escrito, com o estilo clássico de estrutura narrativa, dividido em 3 atos. Um incidente Incitante MUITO BEM NARRADO (Me arrisco a dizer que é o melhor do desafio) no primeiro capítulo, deixando um ar de suspense muito interessante. O segundo capítulo é meu favorito, com diálogos excelentes ao estilo Isaac Asimov. Um clímax bom, uma resolução curiosa… Enfim, um conto muito divertido e bem escrito.

    Parabéns ao autor, certamente um profissional da área. Um dos meus contos favoritos desse desafio.

    Boa sorte!

  5. Thomás Bertozzi
    1 de abril de 2016

    Desde o enforcamento, no início, o conto adquire um clima sombrio, que permanece até o fim.
    As personagens e os ambientes são descritos sem muitos detalhes, mas posso dizer que saltam aos olhos.

  6. Leonardo Jardim
    1 de abril de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐⭐⭐▫): achei bastante interessante, bem contada e amarrada. O fim me deixou um pouco confuso, pois não entendi muito bem como foi a revolução. Fiquei com a impressão que o levante não funcionou muito bem, mas sem entender o motivo. Além disso, o protagonista pouco interfere no andamento da trama, parece um mero observador (será coincidência esta ser sua alcunha?). Mas acho que se o final fosse melhor trabalhado, teria sido uns história fantástica (desculpe pelo trocadilho infame, não resisti).

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐⭐): o autor domina a escrita e isso fica evidente desde o início. Possui vocabulário vasto e afinada técnica de descrição de cenas. Não descontei pontos por isso, mas em certos momentos, ocorre um exagero, quando o autor opta por palavras mais “difíceis” sem necessariamente deixar o texto mais bonito. Se me permite dar uma dica, diria para maneirar um pouco mais no uso desse artifício.

    💡 Criatividade (⭐▫▫): o texto é escrito sobre conceitos já bastante batidos, como escravidão e rebeliões. A roupagem mais bonita acaba escondendo um pouco isso.

    🎯 Tema (⭐▫): o conto possui muita pouca fantasia. Experimente trocar elfos por negros e veja que funciona exatamente igual. Se a parte dos feitiços élficos fosse mais evidente, porém, mudaria minha avaliação quanto a isso.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): o fim confuso reduziu o impacto do texto, ainda assim é um conto muito bom e será um daqueles que me lembrarei mesmo após o fim do certame.

  7. Piscies
    1 de abril de 2016

    Caramba, muito bom!!

    O autor domina o português com perfeição. A leitura não é simples mas, ao mesmo tempo, sua complexidade empresta um ar autoritário à narrativa e, de certa forma, me transporta para o mundo narrado. Me senti lendo o livro de um autor consagrado!

    Um conto investigativo em um mundo medieval fantasioso… muito legal! Os personagens foram bem trabalhados, a trama bem montada e o texto muito bem escrito. Os diálogos foram bem pensados… enfim, tudo me agradou.

    O toque das canções cantadas foi genial. As rimas são interessantes, e a falta de rima na canção que é,na verdade, uma tradução tosca de uma linguagem muito antiga, forneceu o tom de mistério da trama e ajudou na criação da atmosfera do conto. Gostei muito de Tyr Loel… e de todos os personagens em geral. Tudo o que acontece no conto parede premeditado, e Tyr Loel é apenas um peão que deu o azar de se ver no meio dos acontecimentos de uma revolução élfica cheia de magia. Até mesmo a visita dele a Enkos parecia tramada, já que Enkos, de certa forma, aproveitou a ocasião para escolher o seu oitavo alvo.

    Ainda estou sorvendo parte da trama. Esse conto está me dando o que pensar. Parabéns!!!

  8. angst447
    1 de abril de 2016

    “Olhai! Que medo vocês tem de nós!” > aqui o correto seria TÊM, pois o verbo ter conjugado na terceira pessoa do plural recebe acento circunflexo para diferenciar do singular. Só um detalhe bobo, mas ainda assim, regras são regras.
    Gostei dos versos, mesmo os mais levadinhos. Aliás, Bucca era bem safado, não?
    Taberna, elfos, mistério … Fantasia! Adequação ao tema, meta cumprida.
    Comprido mesmo foi o conto, hein? Não dava para economizar um pouco de palavras?
    Pobre Tyr Loel, em sua queda e colapso, sendo surpreendido pelos versos – afinal que medo eles tinham?
    Nota-se que o autor trabalhou com atenção na elaboração do conto. Admiro-lhe a paciência. Na próxima vida, serei assim.
    Boa sorte!

  9. Davenir Viganon
    31 de março de 2016

    Um mundo de fantasia clássico com Elfos, Anões e tavernas, nada de original nisso, contudo a qualidade da escrita é muito acima da média do desafio. Quero um dia saber usar letras de canções como você fez aqui, me peguei cantando a música do touro umas duas vezes antes de seguir a leitura :v . A história tem um mistério instigante sem ser mirabolante e os personagens são criveis em sua individualidade. Notei uma inspiração em Lovercraft muito bem vinda e o melhor disso é que conseguiste fazer isso sem tornar o conto estritamente “Fantástico”, mas uma bela mistura com a “Fantasia”.
    Estou curioso para ver se alguém acha um defeito digno de nota, porque eu não achei. Este tem cheiro de campeão. Parabéns!

  10. Laís Helena
    30 de março de 2016

    Narrativa (1,5/2)
    No começo tive dificuldade de me prender à sua narrativa, achei que ela ficou rebuscada demais nos primeiros parágrafos. No restante da história, porém, os detalhes vêm na medida certa e me fizeram sentir dentro da história.

    Enredo (1,5/2)
    Gostei do enredo: ele foi bem trabalhado dentro do espaço das 4 mil palavras, e isso sem que a narrativa precisasse ficar apressada. Gostei, principalmente, da ambiguidade no final: adoro histórias que colocam em dúvida a veracidade do que é alegado por um personagem. Só achei que o conto se alongou um pouco mais que o necessário na primeira parte, e não entendi o motivo de a canção do bardo aparecer na narrativa, sendo que no fim não teve importância para a trama.

    Personagens (2/2)
    Achei que Tyr Loel foi bem explorado para um conto. Talvez você pudesse ter se aprofundado mais no psicológico, já que talvez se trate de alucinações do personagem, mas não foi algo que chegou a prejudicar.

    Caracterização (2/2)
    Você não deu muitos detalhes sobre o universo em que sua história se passa, mas o pouco que foi apresentado me passou a sensação de coerência. Além disso, gostei da forma como os elfos foram abordados e da parte sobre escravidão e revolução. Suas descrições foram eficientes em construir uma imagem do ambiente na minha mente.

    Criatividade (2/2)
    Eu gosto de elfos, e gosto principalmente quando um autor pega um elemento batido e o trabalha à sua própria maneira. Você criou uma história interessante, que passa longe de ser mais do mesmo.

    Total: 9

  11. Rodrigues
    29 de março de 2016

    Na tentativa de entender melhor que nomes e lugares eram aqueles utilizados pelo autor, pesquisei alguns termos, mas não havia nada, era tudo da própria imaginação do escritor, um ponto que achei sensacional e – para mim – já colocou este conto acima de praticamente todos os outros do certame. Nada soa forçado, não se sabe exatamente quem são esses personagens que movem a história, por vezes eles desfazem-se na mente, ganhando novas tonalidades e cores a cada parte lida. Os nomes soam como algo existente, como se fizessem parte de uma cultura há muito tempo esquecida e que aqui foi homenageada pelo autor, algo difícil de ser feito, uma espécie de verossimilhança às avessas. A história prende desde o início e, tirando a gorda utilização de adjetivos em muitas partes (que chegam a dar raiva!), a escrita consegue prender e criar imagens interessantes. A trama segue um roteiro já visto muito vezes em outros livros e filmes – assassinato, investigação, pistas, personagem misterioso – mas isso não é demérito algum, pois o universo criado e as ações são o que trazem a originalidade a este conto. No entanto, ao final, algo para mim ficou estranho, pois o autor desenvolvia de forma muito interessante o processo de investigação, mas a tradução imediata do documento, que causou a loucura do observador, tirou um pouco do brilho, tudo me pareceu muito abrupto e, embora eu não ache que um conto precise de milhares de explicações sobre um ponto ou outro, acabei não gostando dessa parte, que tornou até mesmo a loucura final do personagem algo sem muito impacto. Mas, até agora, um dos melhores que li.

  12. Pedro Luna
    29 de março de 2016

    Então os Elfos tomaram a porra toda? rs

    Eu achei que o conto foi um legítimo fantasia. Confesso que o número de nomes e referências a eventos passados deu uma leve confusão, mas que é vencida voltando algumas vezes no texto. Acho que faltou um pouco de ação na trama, pois quando Tyr sai para investigar, imagina-se ele entrando em algum conflito. Aqui, ficou mais na investigação mesmo, criando um suspense sobre o que está acontecendo por trás das linhas. O conto deixa a impressão que algo muito ruim vai acontecer, mas quando acontece, acho que o autor poderia ousar mais na descrição da confusão, deixando o leitor aflito. No geral, foi um bom conto, mas que não passou muita emoção e que não teve um clímax muito forte.

    Gostei da tradução da língua lá, ficou bem macabro. A escrita é muito boa.

  13. Simoni Dário
    28 de março de 2016

    Olá Aroeira
    Logo nas primeiras linhas percebe-se a inteligência e o capricho da narrativa. O enredo em si é um pouco batido, cenas e cenários lembram as de filmes de faroeste. Lá pelo meio, mais precisamente quando Petrus e Tyr Loel começam a dialogar, dali pra frente perdi um pouco o interesse, achei cansativo. Não entendi a dupla realidade de Tyr Loel e acho que captei muito pouco do conto. O texto é movimentado, apenas não curto muito o tipo de história. O autor é criativo e narra bem, tem bastante informação aí e acredito que não tem pontas soltas, mas me perdi com tantos fatos isolados.
    Parabéns pela classificação e boa sorte no desafio!

  14. Wender Lemes
    28 de março de 2016

    Olá, Aroeira! Parabéns pelo conto, é minha sétima avaliação entre os finalistas.

    Observações: há um risco ao se valer de arcaísmos e palavras pouco usuais: dependendo da frequência com que se usa, ou da estranheza das palavras, o texto pode ficar truncado (as pessoas geralmente não gostam de ter o dicionário como acessório indispensável na leitura de um conto, penso eu). No seu caso, soube dosar e empregar muito bem essas palavras, o que deu um toque diferente ao conto.

    Destaques: a pegada de romance policial no ambiente “tolkieniano” que elaborou funcionou muito bem. Ainda por cima, os preconceitos, as emoções e a elaboração do caráter de cada personagem se complementaram solidamente.

    Sugestões de melhoria: o chato de avaliar um bom conto é que não se tem muito a acrescentar. Posso questionar apenas o trecho “reuniam-se a maior concentração” – acredito que o correto seria “reunia-se”, concordando com a “concentração”.

    Mais uma vez, parabéns. Boa sorte!

  15. vitormcleite
    25 de março de 2016

    Mais uma história de seres estranhos!… mas desculpa não me agarrou, talvez fruto do limite de palavras, parecia que havia muita urgência em chegar ao fim do conto e perde-se muito do impacte que pretendias com o teu texto.

  16. Carlucci Sampayo
    24 de março de 2016

    Um conto bem construído, com uma narrativa bem dividida, estabelecendo os limites da fantasia e a introdução de personagens Os cenários são claros, contém descrições bem elaboradas, com vocabulário rico e valioso. A história tem peso, contém uma revolta de elfos que aparentemente está latente e prestes a tomar os rumos da cidade e, no entanto, para Tyr Loel que busca respostas, compreendendo a força dos atos passados contra estes, não chega a um propósito exato em seu entendimento, permanecendo o mistério oculto nos versos que permeiam todo o texto e aduzem mais magia e fantasia, de forma inovadora. Nota 9,75

  17. Anorkinda Neide
    23 de março de 2016

    Parabéns! Eu gostei!
    Um texto bom e fácil de ler, com uma trama bem construída e elaborada, com personagens fortes.
    O final diferente do esperado mas que nao chega a ser uma reviravolta, legal.. original, eu acho, não tenho visto nada assim.
    Mereceu muito passar de fase!
    Abração

  18. Fabio Baptista
    22 de março de 2016

    O texto surpreendeu por essa pegada mais “noir” (não sei se é a definição mais apropriada, mas…) de investigação e tal.

    Achei a escrita muito boa, apesar de ter torcido um pouco o nariz para o excesso de adjetivos em um bom punhado de trechos. Notei apenas dois deslizes, apontados abaixo.

    A história, no entanto, acabou não prendendo muito. Não que eu estivesse esperando uma grande guerra épica no final (mentira… estava esperando sim :D), mas fiquei com impressão de que não aconteceu nada. Li o último trecho três vezes para ver se tinha perdido alguma coisa, mas… nada. Só ficou essa promessa velada de rebelião dos elfos e isso não foi necessariamente um clímax.

    – e a ordenou
    >>> ordenou a ela, acho que ficaria melhor

    – há trinta e quatro anos atrás
    >>> redundância há / atrás

    NOTA: 8

  19. Brian Oliveira Lancaster
    21 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: Atmosfera de épico medieval bem aplicada. Me lembrou muito os quadrinhos de Holy Avenger e o anime Records of Lodoss War. Todo o clima fantástico está aí. – 9,5
    G: Algumas passagens mais viscerais e cruas, mas que não destoa do restante. A divisão em capítulos foi bem acertada. As introduções auxiliaram imensamente no contexto. No entanto, o desenvolvimento remetia á um final grandioso, que não veio. Achei apressada a parte conclusiva. Não tira o brilho do restante, mas corta todo o suspense crescente da construção anterior. – 9,0
    R: Texto muito bem trabalhado, com passagens élficas estilo Tolkien. Ainda bem que foram traduzidas, porque cheguei a procurar, mas seria impossível saber tudo o que estava escrito ali. – 9,5
    O: Palavras rebuscadas misturadas às mais simples. Ficaram bem equilibradas, tornando a leitura agradável. Notei apenas um erro de tempo verbal (acho que é) na frase “Tudo se passou em um conjunto de imagens desconexas e Tyr Loel não é capaz”… Não seria “foi capaz”? – 9,5
    [9,4]

  20. Andressa
    18 de março de 2016

    Um conto que prende a atenção, mais tramado com pitada de romance investigativo não se enquadre como tal. Com um agridoce erótico sem se romancista. Gostei, uma visão diferente do assunto fantasia.

  21. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    O conto é muito bem escrito, além de primar pela elegância no uso do vernáculo. Notei certa crítica social embutida no instante em que o povo subjugado (os elfos) articulam-se para derrubar quem está no topo da cadeia.

    Lembrei de certa vez que estive em Israel. Na ocasião, um sujeito palestino me guiou pelas ruas do setor árabe de Jerusalém. Ao final do passeio, enquanto saboreávamos um chá numa birosca, ele disse, a raiva incontida entre os dentes, que os judeus tinham medo dos palestinos. Que era por causa desse medo que enchiam as ruas de soldados e câmeras.

    Tive essa sensação aqui no conto. Enkos lembrou meu guia. “Eles têm medo de nós”. Uma frase de efeito que antecede o levante.

    Enfim, o conto é bom porque nos faz pensar que, afinal, a história do mundo – de qualquer mundo – é uma sucessão de submissões do homem pelo homem. Ou dos elfos pelos vaalbarianos.

    Por outro lado, é esse o ponto fraco da narrativa. A fantasia é um detalhe. Os povos, os seres, parecem ter sido meramente adaptados de um texto originalmente escrito para temática diversa. De fato, o texto continuaria funcionando bem – talvez até melhor – se em vez de seres mitológicos e povos alienígenas, tivéssemos gente “de verdade”.

    Enfim, é um conto competente, mas que resvala um tanto no quesito “fantasia”.

    Nota: 7,5

  22. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    A epígrafe me lembra Allan Poe, que costumava inventar frases e atribuir a escritores famosos, como em “Ligeia” (embora aqui tanto a frase como o autor sejam inventados). Fantasia sempre dá certo com erotismo, até nos quadrinhos de Conan. Aqui conseguimos ver beldades hirkanianas, sempre envoltas em trajes sumários. Mais uma vez o estilo é dos velhos contos da Espada selvagem, enriquecido com mitos e inscrições de “Ctulhu”. Um conto muito bopm, que seria um perfeito roteiro para uma aventura em quadrinhos da ESC.

  23. Pedro Teixeira
    16 de março de 2016

    Olá, autor! Conto interessantíssimo, com uma alta qualidade narrativa. O estilo e a trama lembram um pouco Lovecraft, especialmente “O Chamado de Ctulhu”, e o universo em que se passa a estória é rico e complexo. Pena que algumas cenas me pareceram um pouquinho desperdiçadas, como o encontro na prisão com o líder e o próprio surto do personagem, que aconteceu muito rápido. Nos contos lovecraftianos, que geralmente são mais longos, existe um espaço maior para trabalhar o enlouquecimento progressivo dos personagens, o que, pelo limite de palavras, não poderia ser feito aqui. Porém, talento e qualidade não faltam ao autor para fazer isso em outro momento. Agora, deixou alguns pitacos: trinta e quatro anos atrás – “há” já dá a ideia de tempo decorrido, então ou se usa “há” ou “atrás”; carreira desabalada me pareceu antiquado. Bom, é isso, parabéns pela participação!

  24. Daniel Reis
    16 de março de 2016

    Prezado autor: no geral, gostei da inventividade e da ambientação da sua história. Acho que em alguns aspectos ele pode ser bastante aperfeiçoado, principalmente com uma concisão maior na escolha de expressões e na descrição de ações das personagens. Obrigado pela leitura!

    Pontos positivos: o autor criou realmente um universo de fantasia, ainda que empregando elementos de realidade histórica ou de outras lendas. O uso das canções também merece destaque e elogio, assim como a leitura do diário de Bucca e os idiomas diversos.

    Pontos negativos: a escolha de algumas expressões-chavão, como “trazendo à tona os seus mais terríveis temores”; outras vezes, junto com o verbo dicendi, parece que o falante sempre tem que estar fazendo alguma coisa – nem que seja comer, enquanto fala.

  25. Rubem Cabral
    14 de março de 2016

    Olá, Aroeira.

    Então, gostei muito do conto e do mundo imaginado. A mistura foi rica e o paralelo entre elfos e negros escravos foi algo interessante de ler.

    Só achei o final meio abrupto, passando a ideia que o limite de caracteres já se aproximava e que o conto – que tinha material para algo maior – teve então que ser podado.

    Nota: 8,5.

  26. Virgílio Gabriel
    12 de março de 2016

    Olá autor, senti no conto uma inspiração em Tolkien, mas por outro lado, se tratando da escravização de elfos, do universo de Dragon Age. Apesar de tudo estar perfeitamente adequado a uma boa narrativa, me incomodou um pouco a história. Ela é de investigação, e me parece um Dan Brown dentro de um universo de fantasia. Claro que isso é gosto pessoal, e digo com toda a certeza que até o momento é disparado o melhor que li no desafio. Ótimo manejo com a língua pátria, é um autor profissional. Enfim, desejo ótima sorte no desafio!

  27. Sonia Rodrigues
    11 de março de 2016

    Quem são os personagens? Fala-se de anões, elfos e um povo que não se sabe bem se são humanos. O leitor não recebe muitas explicações sobre este reino, o que faz um Observador ou quem são os escravos.
    Aramor fica sendo apenas um nome, sem que saibamos sua história, seus valores, sua geografia, seus cultos, nada. Apenas que em algum tempo houve uma guerra com elfos, que agora revidam usando magia. Para confundir, o autor coloca o personagem Tyr Loel em um estado de transe, seja sonho ou magia, o leitor que decida.
    A primeira cena é totalmente desnecessária para a história, bastaria dizer: Bucca, agente secreto de Tyr Loel , for a assassinado.
    Uso excessivo de adjetivos, muitas vezes redundantes.

    O tema não é original. Uma civilização diferente, escravos, guerras, revanches e um final aberto.
    O modo como foi desenvolvido não me agradou, achei superficial e confuso. Há elementos que poderiam ter sido mais explorados, o diário, as oito mortes, os versos, o próprio Elkon.

    O autor tinha muitos elementos e parece ter lido muitas sagas tradicionais, do tipo que dão um bom livro e dificil de serem resumidas em um conto.
    Há uma dicitomia de nomes que é bem estranha. Enquanto os locais recebem nomes portugueses, como Pátio da Lei, Mar de Topázio, os personagens recebem nomes latinos como Petrus, Nemesius ou totalmente estranhos como Tyr Loel. Em minha opinião uma uniformidade seria mais interessante, todos os nomes portugueses seria maravilhoso.
    O final é fraco. O Observador parte para descobrir um elfo cantando a música da revolta.
    Nota: 5

  28. catarinacunha2015
    10 de março de 2016

    O COMEÇO me deu arrepios e pensei: “Oba! Um começo empolgante!”. O FLUXO certeiro combinado com o vocabulário rico e estiloso me seduziu; me preparei para um conto mágico de suspense. Só que não. Salvo nomes próprios esquisitos e a existência de elfos revoltosos, não vi nada de mágico. Faltou fantasia na VIAGEM ou eu perdi o tíquete de embarque. Pergunto: Se “Moby Dick” contasse a luta de um elfo contra um dragão seria fantasia? Pra mim só se o dragão fizesse algo diferente de uma baleia e o elfo algo diferente de um humano. Os poemas estão ótimos, mas o FINAL não me abalou. 7,5

  29. phillipklem
    10 de março de 2016

    Bom dia.
    Seu conto me surpreendeu. No início da leitura eu fiquei “Oh não, mais um daqueles contos chatos e porcos, que utilizam de nomes ridículos e enfiam sexo em cada frase”. E, de fato, o início assim foi, bem fraquinho.
    O desenvolvimento, entretanto, foi muito satisfatório. Você jogou muitos nomes de pessoas e lugares desconhecidos, construindo uma mitologia muito ampla mas muito rasa, que foi um pouco frustrante de cara. Creio que o que te prejudicou nesse aspecto foi o limite de palavras, pois, mesmo a mitologia sendo rasa, você conseguiu me atrair 100% pra dentro da história e me deixou com aquela vontadezinha de conhecer mais e mais sobre esse mundo.
    Sua escrita é impecável, sendo a construção de imagens o seu ás. Me peguei imaginando Enko em cada detalhe, ouvindo até a sua respiração desconcertante.
    Este conto me fez sentir como se estivesse lendo um romance policial em um mundo fantástico. Creio que há material aqui para ser trabalhado em algo muito maior.
    O final, apesar de um pouco decepcionante, é compreensível, mais uma vez, pelo limite de palavras. Havia pouco que você podia fazer para concluir essa história sem deixá-la em aberto, e você o fez muito bem.
    Meus parabéns pelo conto, pela escrita e boa sorte no certame.

  30. Alan
    9 de março de 2016

    Texto bem escrito e bem distribuído em cada capítulo. Está dentro do tema apenas pelo fato de existirem elfos na história. Pouco criativo. Passa a impressão que o autor se preocupou mais em caprichar nas belas palavras do que transmitir alguma emoção.
    Não entendi a intenção do negrito no início da cada capítulo.

  31. Ricardo de Lohem
    8 de março de 2016

    Oi, como vai? Vamos a nossa análise. O conto se passa em um típico ambiente de fantasia, mas tem uma espécie de trama policial, tipo Sherlock Holmes-Miss Marple, com toques de política. A história se passa 90% do tempo em uma taverna. Isso é uma coisa tem me incomodado um pouco: quase todo mundo aqui fez suas histórias de fantasia, quando são tipicamente de fantasia, se passarem praticamente o tempo todo em uma taverna. Fiquei surpreso, porque disseram que não iam ligar pra convenções, não iam se ater aos clichês do gênero, etc. Parece que era só por falar, só da boca pra fora: na prática, quase todo mundo está seguindo uma espécie de fórmula, uma série de regras, dentre elas a história se passar em uma taverna. Gente, existem muitas ambientações fascinantes que podem ser usadas no gênero: castelos, dungeons, florestas, cavernas, pântanos, aldeias, navios, cidades submarinas, cidades suspensas nas nuvens, infernos, paraísos. Fantasia não é sinônimo de taverna, sejam mais criativos, não restrinjam a imaginação! Uma pergunta à parte: O nome da raça de Bucca, “rodiniana”, é baseado em Auguste Rodin? Gostei da história ser um híbrido de fantasia com policial, mas o excesso de apego a certos clichês (taverna…) e o final abrupto e injustificadamente aberto me desagradaram. Gosto de finais abertos, mas essa história pedia por enigmas que fossem sendo decifrados um a um, não simplesmente deixar tudo para a imaginação do leitor. Como uma história de detetive foi a expectativa que o início e o meio me deram, o ficou ficou sendo insatisfatório, do meu ponto de vista.Boa Sorte!

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Finalistas, Fantasia - Grupo 4 e marcado .