EntreContos

Detox Literário.

O Lobo de Jaih (André Lima)

lobo

I

No inverno, os aldeões de Jaih recolhiam-se em suas casas. Mas aquele inverno os obrigou a procurar suprimentos. Quando a neve beijava o solo, nem mesmo a luz fúnebre de Jamala, a lua, fez Yeda e seu marido temerem. Partiram para a floresta a fim de encontrar lenha e um roedor que pudesse servir de alimento. A intuição de Yeda os guiou. Não acharam lenha boa, tampouco algum roedor, mas encontraram Jafér, ainda sujo de placenta, próximo ao rio. O menino do olho direito castanho e do olho esquerdo azul.

— Eis aqui um fruto da própria Terra.

Constatou Yeda. Não havia cordão umbilical ou sinal da mãe.

Quando Karí pôs a criança em seus braços, disse:

— Este se chamará Jafér. Pois por Jamala foi banhado, sem temer as feras noturnas, e por Amifér, a mãe Terra, foi nutrido.

Não poderiam procriar, em Jaih, durante o inverno. A lei da Aldeia era peremptória: enquanto estivessem na estação do terror, nenhum filho poderia nascer. Por conta disso, Yeda e Kari ocultaram a criança até a primavera.

A Tribo de Jaih passou fome também na primavera. Tempos difíceis. Não fosse pela grande descoberta de metais preciosos nas grutas próximas ao Pico das Alcatéias, a taxa de mortalidade infantil teria triplicado. Mas com os metais, jovens aventureiros se candidataram a comerciantes viajantes. Jafér, por sua vez, só foi revelado à tribo um ano depois. O menino tinha pele branca, cabelos negros enrolados e olhos arregalados. A expressão de seriedade revelava uma erudição natural que o menino, fruto da própria Terra, levaria pro resto de sua existência.

Cresceu brincando pelos vales da aldeia. Provou dos prazeres do mundo de forma precoce. Olhava com sabedoria os comerciantes, jovens idolatrados pelos aldeões, e desejava um dia se tornar um.

Em uma tarde de outono, quando possuía oito anos de idade, bebia chá solitariamente quando ouviu uma ordem:

— Levante-se.

A voz imperativa o adentrou como um punhal. Sentiu o poder e o ímpeto da voz percorrerem sua coluna, subindo pelo seu dorso até sua cabeça. Olhou em volta e nada encontrou. Levantou-se.

— Anda.

A voz agora surgia da nuca, mas nada encontrava quando virava. Tocou a cabeça com preocupação. Em intuição, descobriu para onde devia andar. Saiu de casa sem avisar Yeda, sua mãe. Passou pelos casebres de madeira, pelo rio, pelas lavadeiras e atravessou a ponte, passando pelos trabalhadores, incluindo seu pai, e começou a subir o Pico das Alcatéias. Após longa caminhada, finalmente encontrou seu destino.

— Entre.

Entrou na caverna escura e fria. Tateou, pois não enxergava coisa alguma. Lá, naquela caverna, teve a revelação de sua identidade. Uma luz rutilante o cegou momentaneamente. Após se acostumar, conseguiu compreender que a forma da luz era a de um lobo gigantesco. A dubiedade que habitava o interior de Jafér se manifestava: temia os olhos cintilantes do lobo, mas sentia toda sua majestade quando este caminhava em sua direção.

— Eu sou o seu genitor, o Gaifor (Pai). Eu te digo que tu e todos da Tribo de Jaih são um só. Logo se fragmentarão, logo serão reles unidades, mas se pensarem que eu os alimentei durante toda sua História, estarão em comunhão e eu, através de ti, os guiarei até serem o que sempre foram.

Jafér teve, então, a visão de Yeda e Kari o encontrando na floresta. Ao longe, os olhos temíveis do Lobo os observavam.

Após diversas outras revelações, Jafér voltou para casa, pensativo.

A voz que surgia em sua mente continuou a o acompanhar. Às vezes passavam dias e nada ouvia. Outras vezes a voz, sempre em tom imperativo, o ordenava a fazer diversas tarefas que ele não compreendia.

Quando Jafér completou dez anos de idade, seu pai fez uma longa expedição, acompanhado de outros quinze homens da aldeia, a fim de vender ouro em cidades mais distantes. Jafér começou a trabalhar naquele verão. Diariamente, ao passar pela Praça Central, encontrava um senhor, chamado Kaio, elevado em uma rocha, a dizer sempre:

— Homens de Jaih, inquietem-se, pois a hora de nossa subjugação está por vir.

Ninguém lhe dava atenção e muitos o julgavam como louco, pois dizia mensagens que pareciam desconexas:

— Não terá poder o Grande Homem se nós não estivermos em comunhão. Não terá o Grande Homem tirado seu povo da subjugação sem antes temer a morte. Mas subjugados seremos se não estivermos em comunhão. Inquietem-se.

Dois anos passados, Jafér compreendeu as palavras de Kaio. Seu pai voltou com riquezas e produtos exóticos das terras distantes, mas a felicidade subsistiu por pouco tempo. Logo após os mercadores retornarem, os capalettas, homens de pele morena e cabelos negros, vieram com suas espadas e cavalaria. O ouro era o que queriam. A ingenuidade dos homens de Jaih, através de conversas despretensiosas quando estavam em outras cidades, atiçou a ganância do Governador Punto, O Resoluto.

Após três anos de escravidão do povo de Jaih, Punto decidiu visitar a aldeia que, reformada, já adquiria o status de cidade. Evidente que O Resoluto jamais haveria de visitar a cidade se seu palácio não estivesse construído. A sua curiosidade foi tamanha que a obra se apressou. Jafér, nesses três anos, participou da construção com seu pai e outros tantos pobres homens de Jaih.

Tudo está em ordem, pensou O Resoluto ao contemplar uma visão panorâmica de Jaih, do alto de seu palácio. Conseguiu observar os impostos sendo cobrados, os guardas rondando a cidade, os trabalhadores garimpando o ouro e erguendo obras de infraestrutura. Ao deitar-se com sua esposa, à noite, sonhou:

Cavalgava um garanhão. Respirava um ar puro. Tudo era álacre, até as próprias nuvens formarem dois olhos amedrontadores, um castanho, outro azul. Os olhos, em meio àquela construção onírica, sufocavam o governador. Já se via sem cavalo e sem céu azul. Em meio à penumbra, observava a cidade ruir, o mundo desabar, as labaredas que cortavam o céu. Sufocava ao ver a figura do jovem que se formava nas nuvens. O próprio governador retirou sua traquéia com as mãos. Sentiu o horror da asfixia até o grito de pânico acordar a todos do palácio.

— Tragam meu general! – gritava aos empregados que se desesperavam.

Quando o general veio às pressas, o governador disse:

— O menino de olhos diferentes, mate-o. Eu o vi em meus sonhos.

O general liderou sua cavalaria após a descrição exata do jovem de olhos de cores diferentes. Invadiu casas, colheu informações, torturou pessoas, até que descobriu a casa de Yeda. Arrombou a porta do casebre, surpreendeu a pobre mulher. Que expressão de medo! Atirou-a para o lado a fim de adentrar no outro cômodo, mas este já estava vazio. Não havia sinal de Jafér.

 

 

II

Jafér estava sonhando quando o Grande Lobo, o Gaifor, irrompeu. Disse com sua voz inexorável:

— Acorde e fuja, pois é a tua vida que querem ceifar. Não há resistência. Não torne público, saia de forma furtiva, coberto pelos lençóis da noite.

O jovem despertou, levantou-se e foi guiado pela voz. Juntou suprimentos em uma sacola, roupas de frio e admirou sua mãe a dormir. Nem do pai pôde se despedir, pois Kari ainda trabalhava, na madrugada, sofrendo os açoites dos capalettas. Abriu a porta de casa e escutou os relinchos não muito distantes. Esgueirou-se entre os casebres ouvindo os cascos cada vez mais próximos. Mas escapou. Saiu de Jaih pela floresta e seguiu o rumo que a voz ditava, sem saber o que deixou para trás. Durante semanas procuraram Jafér. O governador se frustrava a cada busca.

Jafér, por sua vez, subsistiu dos frutos da floresta durante um tempo. A voz o conduziu em busca de alimentos, abrigos, e cada vez o afastava mais de Jaih. Em dado momento, Jafér não conhecia mais o caminho de volta. A cada semana passada, a freqüência que ouvia a voz diminuía, até o instante em que deixou de ouvi-la por dias. Sem saber o que fazer e com suprimentos escassos, rumou ao sul.

Após sete meses de lenta peregrinação, o inverno chegou e Jafér estava em um imenso deserto de neve. O local hostil o desgastava gradativamente. Nas noites frias, meditava em busca da voz. Vociferava com raiva na tentativa de obter alguma resposta, mas nada mais ouvia. Havia muito tempo que não tinha contato com nenhum ser humano; passou dias deitado na mesma posição, esgotando o cantil e sem se alimentar. A morte rastejava ao seu encontro. Quando a agonia e a fome chegaram ao ápice, Jafér decidiu se levantar. Teve coragem para prosseguir, pois acreditava que, por intuição, saberia o caminho. Com o resíduo de força que ainda possuía, subiu montes de neve, se abrigou em cavernas e caminhou pelo terreno hostil. Nenhum alimento encontrava. Sentiu-se só. O mundo o abandonara. Em uma noite, sentiu que deveria se mover ou morreria. Moveu-se como um cadáver ambulante em direção ao nada, com a tristeza do abandono. Na escuridão, ouviu um estrondo e a neve, que antes era firmamento, começou a deslizar. Desesperado, tentou correr, mas não tinha energia. Foi abalroado pela avalanche. Torceu-se, quebrou ossos, caiu por um precipício e se alegrou, pois achou que finalmente havia encontrado o desfecho de sua existência. Bateu o crânio com força e perdeu a consciência.

Por capricho do destino, Dohka, uma velha senhora, encontrou o jovem Jafér em princípio de hipotermia. Levou o jovem até sua aldeia – um pequeno vilarejo não muito distante – com a ajuda de seus três filhos. A anciã possuía habilidades de curandeirismo e cuidou de Jafér como se este fosse o quarto filho.

O jovem Jafér despertou de sua inconsciência. Não conseguiu se mover e nem falar. Nada, nem os olhos se moviam. Estava encarcerado em seu corpo, tomando conhecimento de tudo que havia a sua volta, mas nada podia fazer para se comunicar. Sentiu o carinho de Dohka em todos os seus cuidados, ouviu brigas e comentários dos filhos da anciã. O homem está morto. É um estorvo. E por perduráveis sete anos, manteve-se consciente de cada segundo de sua vegetação.

A perspicácia de Dohka certamente salvou a vida de Jafér. Mas, mesmo com os constantes cuidados para com o corpo do jovem, ele despertou por completo um dia e sentiu seus músculos quase atrofiados. A fé da senhora fez com que ela movimentasse o corpo do homem diariamente. Com um gemido, o homem conseguiu se comunicar. Percebeu que conseguia mover os olhos e a língua, mas teve um longo período de recuperação até conseguir se alimentar sozinho.

— Eu serei eternamente grato. E a senhora e sua família sempre estarão em meus pensamentos – disse em uma tarde.

— Foi Yahbuh, meu Deus, que nos guiou até você. – contou Dohka. – Consegue se lembrar de onde você vem?

— Eu venho de Jaih, uma cidade ao norte. Eu ouvia uma voz anos atrás e essa voz mandou que eu fugisse da cidade, dizia que queriam me matar. Acidentei-me e por isso me encontraram quase morto. Eu abandonei minha família por algo que nem sei se foi real.

— Você não ouve mais a voz? – a anciã perguntou.

— Não.

— Você era feliz em Jaih?

— Não. Passamos por maus momentos… O governador Punto nos escravizou. Por conseguinte, não sei até que ponto minhas visões e audições foram reais. Talvez eu apenas quisesse fugir da escravidão.

— Quando eu converso com Yahbuh, ele nem sempre me responde.

Jafér ficou pensativo.

— Talvez eu seja apenas um louco.

E decidiu voltar para Jaih, sua pátria. Agradeceu Dohka e seus filhos e seguiu viagem. As crianças da aldeia gritavam: Vá com Yahbuh! Que Yahbuh lhe mostre o caminho!

Jafér olhou para a aldeia com gratidão e percebeu que já não era o mesmo jovem. Era, agora, um homem que sofreu um cárcere muito pior que o da escravidão. Rumou em direção ao norte, sem saber como chegar a Jaih e com dúvidas torturantes. Duvidou de sua sanidade e da existência de um ser superior. Rumava em direção a Jaih esperando conhecer a verdade, mas desanimou-se após algumas semanas. Nunca vou descobrir se tudo foi real, pensou. Pensou também que não deveria mais temer perguntar sobre sua origem aos seus pais. Será mesmo que fui encontrado na floresta? Ansiava pelo reencontro.

Sem o devido preparo físico, Jafér não demorou a sofrer pela fome e pela sede. Seus suprimentos acabaram e o frio o torturava a cada noite. Em uma madrugada, desmaiou por inanição. Acordou em princípio de hipotermia e gritou à noite:

— Será esse meu melancólico desfecho? Óh Gaifor, estou sucumbindo e sozinho.

E treze lobos cinzentos o rodearam. Pensou que poderia ser alucinação, mas logo em seguida sentiu um hálito aquecer-lhe o corpo. Olhou novamente aos céus e viu a silhueta e os olhos temíveis do Grande Lobo. Temeu como quem vê a face do abismo, mas sentiu toda a majestade ao trovoar de sua voz:

— Não temais, pois, nem precipícios, nem a fome, nem tempestades e nem mesmo sua própria vontade, cessarão sua vida sem antes cumprir o meu plano.

Os lobos uivavam, latiam e se aproximavam de Jafér com ferocidade. Ele temia um ataque. Tentava se desvencilhar dos focinhos.

— Jafér, não tema os lobos, pois todos de Jaih são filhotes da mesma ninhada. Estarão em comunhão comigo e com meus filhos. Vá seguir a tua diretriz, o teu destino. Até aqui, sua impavidez o alimentou. Clama a mim, que jamais deixarei desamparado um filhote de meu ventre. Clama a mim, pois por mais distante que eu pareça, estou sempre a vigiar-lhes, agraciando com meu hálito e meus afagos. Clama a mim, não obstante é você o predestinado a ter a delegação de excarcerar meus filhos ou dar-lhes a sentença da resignação eterna.

Jafér se levantou, sentiu-se revigorado e correu com sua alcatéia. Os lobos o guiavam até Jaih.

Após algumas semanas, a alcatéia encontrou, já próximo a Jaih, um homem definhando à beira do rio. Jafér se aproximou do homem.

— Por tantos anos ansiei por este reencontro – disse o homem. – Sei pelos teus olhos que és Jafér.

Quando Jafér fez menção de ajudá-lo, ele interrompeu:

— Não há nada por mim que possas fazer, Jafér. Deixe-me morrer. É com tua predestinação que deves se preocupar.

— Nós nos conhecemos?

— Não se lembras de mim, do alto da pedra, a cantar nosso destino? Eu alertei a todos, mas estavam distraídos demais com o ouro.

E Jafér compreendeu que o homem era Kaio.

— Como estão todos em Jaih?

— Adestrados, Jafér. Desistiram de qualquer resistência. Trabalham forçadamente sem remuneração, dignidade, direitos e nem personalidade civil. Aceitaram os costumes dos capalettas, tal como os açoites cruéis.

Jafér entristeceu-se.

— E quanto a meus pais?

Kaio o fitou por alguns instantes.

— Quando os homens de Punto invadiram seu casebre, se frustraram ao encontrar a cama vazia. Torturaram sua mãe, Jafér, mas ela não sabia de seu paradeiro. Ela nada pôde dizer. Apenas mais uma que sucumbiu às garras dos tenebrosos capalettas.

Jafér engoliu seco, mas de certa forma já esperava por esse destino. Fez uma fogueira para aquecer Kaio, respeitou a decisão do homem e decidiu deixá-lo para morrer. Mas antes de partir em definitivo para Jaih, pensou que Kaio o reconheceu apenas pelos olhos tão peculiares. Pegou a faca do bolso do homem e esquentou-a na fogueira. Não precisou tomar coragem para encostar a lâmina quente em seu olho castanho. O calor o deformou. Agora, ninguém o reconheceria pelos olhos.

 

 

III

Na trilha principal da floresta, Jafér encontrou uma carruagem lotada de grãos. A julgar pelas marcas no cadáver que repousava ao lado, deduziu que o comerciante havia sofrido uma tentativa de roubo, mas conseguiu defender sua mercadoria e, após caminhar mais um pouco, não resistiu aos ferimentos do combate. Aproveitando-se disso, Jafér se apropriou da carruagem, despediu-se dos lobos e adentrou em Jaih.

Aos guardas, disse que se chamava Kemet e que era um comerciante de Balletzer, uma cidade que seu pai já havia visitado para vender ouro. Pagou o quinhão de sua mercadoria aos capalettas e disfarçadamente ingressou na cidade. O sentimento de nostalgia logo foi sufocado pela melancolia. Óh, em que transformaram a tribo de Jaih? Não eram os monumentos que faziam com que Jafér lamentasse, mas sim as expressões de seus semelhantes. Semblantes derrotados, pacíficos e depressivos. Jafér passou pela praça central, reformada, e sentiu a presença de Kaio. Anos atrás, o homem estava pregando do alto da pedra que ainda permanecia intacta. Vendeu sua mercadoria por qualquer trocado e rumou até sua antiga casa. Mas ela estava vazia. Soube por um dos vizinhos que Kari, seu pai, fora morto com sete pessoas pelo crime de motim.

Durante os próximos dias, dormiu nos fundos de uma estalagem. Em meio a todos os sentimentos ruins da perda dos pais, um fio de esperança o iluminou, pois poucos de Jaih ainda lutavam por seus direitos; foram mortos, inclusive seu pai, em busca da liberdade.

Com essa perspectiva, Jafér começou a se apresentar a seus semelhantes como Kemet e a passar mensagens de liberdade. Pregava poucas palavras enquanto furtava o tempo dos trabalhadores. Pregava na Praça Central e nas minas, sempre de forma sorrateira. Certo dia, quando recebeu a ordem da voz que o guiava, subiu na mesma pedra em que Kaio fazia suas profecias e, sem se importar com a presença de guardas, reuniu uma multidão de mulheres, crianças e trabalhadores de Jaih. E gritou:

— Óh, povo de Jaih, que consternação é esta que me abate quando vejo o que se tornaram? Curvam-se perante uma iniqüidade de forma serena, sem ao menos perceberem que merecem coisa melhor. Que vejo hoje senão monumentos estranhos e formigas laborando? Por certo ainda se reúnem os filhos de Jaih, à quinta hora da tarde, para saborear o chá de ervas que unia o povo para uma boa confabulação? Que houve até mesmo com seus costumes?

E o povo se entreolhava com dúvida enquanto os guardas se agitavam.

— Digo para que não se curvem mais, porque estes que surrupiam e usurpam sua liberdade, são também predadores de culturas! Suprimem a tua cultura com a suposta ordem que dizem lhe dar. Mas eu digo que a ordem deles é a nossa desordem! Não são os costumes dos capalettas vistos por vocês com estranheza? Não se culpem senão por serem escravos pacíficos!

E o povo entendeu sua mensagem e sentiu que dali emanava grande sabedoria.

Os guardas foram impedidos pelo próprio povo de Jaih na tentativa de dar voz de prisão a Jafér.

E assim, Jafér começou a semear a luta pela liberdade. Logo lhe deram abrigo seguro e o chamavam de mestre. A história de Kemet, um sujeito caolho que estava incitando revoluções, logo chegou aos ouvidos de Munarc, o filho de Punto, que assumira o governo havia dois anos, desde a morte do pai. Munarc chegou a oferecer recompensas por Kemet, mas em vão, pois os que estavam com Jafér eram fiéis até a morte e ansiavam pela liberdade prometida.

— Eis que Gaifor, o Grande Lobo, olha por nós e nos faz votos de independência – Jafér dizia nas reuniões.

Munarc, em uma noite, ao levantar-se do leito, viu no corredor o espírito do pai. Pôs-se a chorar ao ver a aparição, que lhe dizia:

— Vim para alertá-lo que aquele que se diz Kemet é na verdade Jafér, o mesmo homem cujos olhos temíveis tentei sobrestar a luz. Tome ações mais incisivas e não hesite em matá-lo.

E Munarc difundiu a idéia de que Kemet era Jafér e precisava ser morto. E os seguidores de Jaih o perguntavam: é verdade que você é Jafér, o homem que Kaio anunciava? Que prova poderia nos dar? E Jafér se calava.

Por sua notável habilidade de oratória, todos os de Jaih seguiam seus ensinamentos de liberdade. Milícias foram formadas e diversas revoltas contra a subjugação e o trabalho escravo eclodiram nos cantos da cidade. Muitos morreram em nome de Kemet, tal como muitos guerreavam e afastavam os guardas a golpes de espada.

— Aquietem-se – dizia Jafér. – Não foi Gaifor quem nos nutriu desde o nascimento? Eu digo que esta terra pertence aos filhos de Jaih. Eu digo que esta terra só nutrirá a quem lutar por justiça.

Certo dia, quando Munarc liderava outra expedição em busca de Jafér, os filhos de Jaih formaram uma hoste e marcharam rumo ao Palácio de Punto. Nem todos estavam equipados: os que não possuíam espada ou escudo utilizavam paus ou pedras. Mesmo com o dobro de soldados na cidade, o grupo guerreou na Praça Central. Um grupo menor, liderado por Jafér, deu a volta pelo Pico das Alcatéias e entrou no Palácio pela retaguarda. Quando a Expedição retornou, Munarc presenciou a ruína da construção. Pôde ver, por inspiração, Jafér destacado na multidão. Usando seu conhecimento tático, liderou a cavalaria para dispersar o exército rival.

— Hoje – gritava Jafér. – Cearemos pelo triunfo da justiça e pelo renascimento de nossa cultura!

— O povo de Jaih está unificado! – gritavam os seguidores.

Quando a cavalaria conseguiu dispersar o grupo de Jafér, Munarc foi surpreendido pelo outro grupo que derrotara os guardas na Praça Central. Munarc foi atacado violentamente, caiu do cavalo e se arrastou em direção ao castelo. Ele sentia a presença do pai enquanto pensava: pai, seria eu o indigno responsável a destruir tuas conquistas? E por bravura se levantou. Correu pela batalha em direção a Jafér que, por sua vez, percebeu a aproximação de Munarc. O filho d’O Resoluto retirou a lança de um de seus soldados.

— Jafér! Este será nosso acerto de contas. Eu não vim para demolir o Palácio de Meu Pai, mas sim para cumprir a missão que me deixou!

E Jafér observou o corpo de Munarc se preparar para arremessar a lança. Jafér pôde ver o braço de Punto a tocar no final da madeira, a fim de impulsionar o arremesso. Os dois, pai e filho, arremessaram a lança que precisamente voou entre as cabeças e perfurou o peito de Jafér. O filho de Jaih nada pôde fazer para escapar. Ajoelhou-se e observou o sangue jorrar.

— Óh Gaifor, se não podes me dar a vida, que dê a liberdade aos meus irmãos.

Quando o corpo de Jafér bateu no chão, sem vida, os filhos de Jaih cessaram a destruição. Muitos gritaram por ver o mestre morto, abatido. Mas antes que qualquer lágrima caísse, o Grande Lobo foi visto saltando da direção onde jazia o corpo de Jafér. Um salto de dezenas de metros. O Grande Lobo aterrissou no território de batalha e dilacerou corpos dos capalettas. Qualquer investida contra o Grande Lobo era inútil. Os filhos de Jaih se revigoraram e tornaram a combater. Munarc até fez menção de escapar, após cumprir o desejo de Punto, mas o Grande Lobo o perseguiu, saltou sobre seu corpo e, no ato final, arrancou a traquéia do jovem Governador com apenas uma mordida. A última coisa que Munarc viu foram os olhos temíveis, tão peculiares, do Grande Lobo.

Com a vitória consumada, o Grande Lobo uivou sobre as ruínas do Palácio de Punto, saudou seus filhotes que bradavam “Kemet era Jafér e Gaifor não nos abandonou!”; subiu o Pico das Alcatéias e desapareceu da vista dos filhos de Jaih. Os vencedores velaram o corpo de Jafér. Fizeram uma cripta e o colocaram em uma caverna, também no Pico das Alcatéias.

Durante eras e eras após este fato, a tribo de Jaih foi subjugada por diversos reinos. Passou por guerras, escravidão, exploração comercial e de recursos naturais. Mas os netos e bisnetos dos guerreiros passaram a história de sua liberdade de geração em geração. E todos os filhos de Jaih se lembraram de como Jafér lutou bravamente para libertar o seu povo. Hoje, na era moderna, os que têm o sangue da tribo de Jaih já nem se reconhecem mais. No território de Jaih, agora sobrevive um novo Estado e a história de Jafér, os capalettas e o Grande Lobo, caiu no esquecimento. Mas os pouquíssimos que ainda resguardam a cultura têm fé e sabem que, do alto do Pico das Alcatéias, Jafér e o Grande Lobo os observam graciosos, com os olhos que vêem cada filhote desgarrado, com o hálito que aquece até mesmo os filhotes bastardos. Eles esperam, um dia, que a tribo de Jaih se unifique novamente.

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31 comentários em “O Lobo de Jaih (André Lima)

  1. Pedro Luna
    2 de abril de 2016

    Uma história rica, que não me passou muita emoção, mas que tem seus méritos. Sobre os temas e as situações no conto, me agradou a imagem dos profetas e a imagem do enorme lobo e suas falas proféticas. Me desagradou a inserção do espírito de Punto na história, achei meio nada a ver.

    Quanto ao profeta, no fim, acredito que a população aderiu a Jafer muito rapidamente, e falamos de uma população dominada pelo medo. Assim como um povo desarmado conseguiu causar um rebuliço daqueles. Acho que isso ficou um pouco forçado justamente pelo limite ter obrigado o autor a resumir certas coisas.

    No geral, um bom conto. Cheio de acontecimentos e bem escrito. Ah, a ambientação ficou bem legal, também.

  2. ram9000
    2 de abril de 2016

    O enredo é interessante, uma boa analogia à religião. Acho que poderia ser revisto para analisar passagens longas que pouco acrescentam ao todo da história. O conto está bem escrito.

  3. Rodrigues
    2 de abril de 2016

    Como uma história épica com elementos xamânicos, achei muito rica, a narrativa atravessa o tempo. Apesar das batalhas e teor político, ficou claro ser uma história familiar de redenção sem uma conclusão óbvia.

  4. Emerson Braga
    1 de abril de 2016

    Emanuel, tenho certeza de que, desde comecei a ler textos para este desafio, o seu foi o mais bem trabalhado na forma. Concordância gramatical, acentuação gráfica, pontuação, contextualização, construção de frases e períodos… É de encher os olhos. É inquestionável seu domínio da língua.
    Todavia, eu esperava mais de sua história. Não do ponto de vista da trama. A história é interessante, um mote bacana. Essa coisa do herói que foge e depois retorna para salvar seu povo nos comove desde o mito de Moisés. Mas faltou emoção. Logo no início, quando Jafér encontra Gaifor pela primeira vez, deveria ter sido um momento grandioso, com pinceladas eletrizantes. Mas Gaifor acaba parecendo menor do que você descreve, o que decepciona.
    Outra coisa que percebi é que, apesar de escrever muito bem, suas frases meio que parecem independentes. Se você pinça uma do texto, ela funciona perfeitamente sozinha. E, principalmente em histórias assim, as frases tem que entrar umas nas outras, promiscuidade linguística mesmo! É nessa simbiose entre os períodos que o leitor fica com vontade de ler mais, mais e mais. As passagens de tempo também não são trabalhadas de modo a fluírem sem quebrar o ritmo da leitura. Bem, é isso. Parabéns pela história, parabéns pela escrita afiada e impecável. Mas, da próxima vez: Sinta o hálito do grande lobo e só depois comece a escrever. Boa sorte.

    NOTA: 8,5

  5. Leonardo Jardim
    1 de abril de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐⭐▫▫): uma história legal, mas contada de forma linear, sem reviravoltas ou surpresas. Nenhuma escolha chegou a incomodar, mas também não empolgou, nem os discursos de Jafér, nem sua morte. Acho que faltou descrever menos e entrar mais na cabeça dele, seus medos, receios, dor pela perda dos pais, etc. O texto diz, por exemplo, que ele sofreu a perda, mas não mostra como, de uma forma que faça o leitor se identificar. Isso ocorre em vários outros pontos importantes da história.

    📝 Técnica (⭐⭐▫▫▫): não vi grandes problemas ortográficos, mas alguns de estrutura. A maior parte do que disse na parte da história se aplica aqui também: muito contar e pouco mostrar (pesquise “show don’t tell” caso esses conceitos sejam novos). A pontuação dos diálogos também ficou errada (veja esse link: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/5330279), mas isso é menos importante.

    💡 Criatividade (⭐▫▫): ídolo religioso, luta contra escravidão, morte, ressurreição. Motes comuns.

    🎯 Tema (⭐⭐): o lobo funciona como elemento fantástico.

    🎭 Impacto (⭐⭐▫▫▫): o fim foi bastante anticlimático. Uma dica que posso dar é evitar ao máximo estender um conto após o clímax. Em geral, eles deveriam terminar no momento do clímax. Uma ou duas frases a mais, no máximo. No caso deste conto, os parágrafos após a morte de Jafér e o surgimento do lobo estão sobrando e servem apenas para reduzir o impacto da leitura.

  6. Thomás Bertozzi
    1 de abril de 2016

    Achei o conto bem feito, porém, com um ritmo inconstante, o que faz a narrativa se tornar monótona em alguns momentos.
    Gostei das falas do lobo. Foram bem construídas e lembram alguns pontos do discurso bíblico.

  7. Simoni Dário
    1 de abril de 2016

    Olá Emanuel
    Como o pseudônimo anuncia, uma história com traços bíblicos ao estilo Moisés, usando lobos metaforicamente. Está bem escrito, o texto é bem narrado, mas não empolgou muito. Quando comecei a enxergar um povo escravizado como no Egito de Moisés, cansei um pouco de ler. Gostaria de ter lido uma história inédita, mais criativa, que fosse além da boa narrativa.
    Jafér abandona os pais que o acolheram, a própria sorte, para libertar e unir seu povo. Um misto de frieza e compaixão – característica dos lobos? Não sei, mas a moral da história, ao menos pra mim, deixou a desejar.
    Parabéns pela classificação e bom desafio.

  8. angst447
    31 de março de 2016

    Jafér me fez pensar em uma grande amiga (na verdade, ela não tem nem um metro e meio de altura) que possui um olho bem azul e o outro castanho esverdeado. Paravam a moça na rua por causa dos olhos.
    O conto é bem longo e, sinceramente, acho que algumas passagens poderiam ter sido enxugadas para deixar a leitura mais fluida. Sei que queria descrever bem a epopeia de Jafér, mas acho que exagerou um pouco. Bom, não leve isso muito a sério, pois eu sou a chata que prefere textos mais curtos.
    Não encontrei falhas na revisão e considero o conto bem escrito.
    … e Gaifor não nos abandonou! – gostei disso
    Boa sorte!

  9. Gustavo Aquino Dos Reis
    31 de março de 2016

    A saga de Jafér tem momentos épicos, uma escrita afiada como as garras de Gaifor, mas não conseguiu despertar em mim a essência lupina necessária para apreciá-lo como ele merece.

    Acompanhamos a infância, a adolescência e a maturidade de Jafér; porém, os fios condutores capazes de gerar empatia em mim pelo personagem não foram suficientes. Jafér é um Rand Al’Thor, um Conan, um Perrin Aybara, um escolhido destinado à grandes feitos: apenas isso. Gostaria de ter visto um rumo incerto, uma reinvenção desse maniqueísmo deísta que controla o destino dos homens escolhidos pelos potentados astrais.

    No entanto, é um trabalho bem produzido.

    Meus parabéns.

    Boa sorte no desafio.

  10. Davenir Viganon
    31 de março de 2016

    O final mostrou que a história de Jafér é como um tipo de mito fundador da Tribo de Jaih. Como os gêmeos alimentados por uma loba são para Roma. A história não tem grandes viradas (como tem acontecido bastante no desafio) mas tem um estilo épico que me agrada. Os personagens são bons, gostei mais do lobo que do protagonista que ficou meio de joguete do lobo. A escrita ajudou os personagens, quando o lobo fala com o Jafér, ficou bem evidente a diferença no modo de falar. Isso é algo que acredito não conseguir fazer nos meus escritos e vou tentar aprender com você aqui. Quanto a adequação ao tema, um lobo falante, que é relevante para a história é mais do que o suficiente para preencher esse requisito. Foi uma leitura agradável, ainda que não tenha impacto.

  11. Laís Helena
    30 de março de 2016

    Narrativa (1/2)
    Sua narrativa é muito apressada: ela apenas conta, sem mostrar sentimentos, ações ou detalhes que teriam tornado as cenas mais vividas. Por isso não consegui me prender à narrativa: ela não me deu aquela urgência de precisar saber o que acontece em seguida.

    Enredo (1/2)
    Senti que você escolheu um enredo complexo demais, que exigia muito mais do que 4 mil palavras para ter sido explorado devidamente. Talvez por isso você tenha narrado do jeito como fez: não havia espaço suficiente para sua história. Também não gostei do final: as cenas de ação são apressadas demais, e a parte em que você vai ao futuro e menciona que Jafér já virou lenda e já foi esquecido não me agradou nem um pouco (mas este último ponto é mais gosto pessoal).

    Personagens (1/2)
    Para uma jornada solitária como a de Jafér, senti que faltou uma caracterização melhor, uma exploração melhor das motivações do personagem. Não consegui me apegar a ele ou torcer pelo sucesso de sua jornada.

    Caracterização (1,5/2)
    Os elementos do universo que você criou são interessantes, mas a forma apressada da sua narrativa não os valorizou. Como aconteceu com os personagens, não consegui me apegar a nada. Ainda assim, senti que houve coerência na invenção desta mitologia.

    Criatividade (1/2)
    Não achei o enredo especialmente inovador, mas também não me senti lendo mais do mesmo. Se a execução tivesse sido um pouco melhor, talvez tivesse me agradado bem mais.

  12. Piscies
    28 de março de 2016

    Uma odisseia impressionante, com uma narrativa muito próxima a da Bíblia. Todo o conto tem o ar bíblico, com suas passagens rápidas mas de impacto e seus feitos épicos narrados em poucas linhas e de forma estranhamente natural.

    O autor tem o dom das palavras, é claro.

    A leitura flui perfeitamente bem. Não há erros. Além do estilo de fábula, evidentemente análogo ao estilo bíblico (o que dá o que pensar), o autor também faz uma analogia à própria história da bíblia. Uma não, várias.

    Na visão ampla, Jafér tem o papel claro de Jesus, que nasceu predestinado, sem mãe humana e guiado por um deus para salvar o seu povo que, por sua vez, repetia erro após erro, sempre sendo escravizado por decisões erradas e pela ganância do povo o dos seus líderes. A fuga de Jafé muito tem a ver com a “fuga” de Jesus quando o filho de Herodes mandou matar todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos de idade, com medo do que Jesus faria com o seu reino. Sua “primeira morte”, que é quando Jafér fica sete anos paralizado (sete sendo um número sagrado na bíblia) pode muito bem simbolizar a morte de Jesus. Seu retorno ao povo, por sua vez, simbolizaria o retorno de Jesus à terra, quando ele libertará, segundo a tradição cristã, o seu povo da escravidão do pecado. E a morte martirizada de Jafér é uma referência óbvia à morte sacrifical de Jesus,

    Munarc e Punto podem fazer o papel do Diabo que governa a terra e escraviza o povo de deus no pecado… enfim, existe referência à torto e direito neste conto. Referências ao povo judaico na época de sua escravidão no Egito, da fuga do povo guiado por moisés, e tantas outras referências mais. Tudo isso com um toque muito mais interessante do que os textos massantes bíblicos, com direito a um deus lobo, Jafér sendo guiado por lobos ao seu destino, e tantas outras passagens “Mágicas” e interessantes de ler.

    No geral, o conto é muito bom. Mesmo assim, no final o gosto que sobrou na língua pedia um pouco mais de sal. As referências fora muito bonitas, mas por causa da sua quantidade exorbitante eu me senti, por vezes, lendo a história que já conheço. O final veio rápido e sem muito impacto. Enfim, uma narrativa muito bem feita e uma escrita impecável que não se aliaram muito bem à uma trama que deixa um pouco a desejar.

    De qualquer forma, Excelente conto!

  13. Wender Lemes
    28 de março de 2016

    Olá, Emanuel. Esta é minha última avaliação na etapa final deste certame. Seu conto era um dos concorrentes do meu na primeira fase, o que me faz entender a razão de eu não me classificar.

    Observações: é uma ótima epopeia fantástica, Jafér cumpre a jornada do herói com muita propriedade, tornando-se o messias de um povo subjugado. Os deuses e espíritos cumprem com a adequação ao tema. A morte do messias, por sua vez, satisfaz a necessidade simbólica daquele que se sacrifica pelo bem comum, trazendo em si a força divina que os impulsiona. As descrições foram bem feitas e o enredo está bem fechado.

    Destaques: a reflexão que fica sobre o valor da liberdade pode ser transposta em vários cenários. Até onde vão nossas amarras? Quanto vale acordar de manhã e ter a opção de não se levantar? Jafér morre, mas deixa estas pulgas atrás de nossas orelhas

    Sugestões de melhoria: dada a origem humilde do protagonista, estranhei a modalidade culta que ele usa em certos momentos, como em “Por conseguinte…”. Você justificou logo no começo a erudição inata dele, então é mais uma implicância minha que, de fato, um problema.

    Enfim, desejo-lhe sorte na etapa final. Parabéns.

  14. vitormcleite
    26 de março de 2016

    Li este conto como uma fantasia bem real, e ainda continuamos à espera do nosso Jafér. Gostei muito do teu conto embora o final merecesse ser mais trabalhado, mas de qualquer modo o resultado parece-me excelente. Muitos parabéns.

  15. Fabio Baptista
    24 de março de 2016

    Quando terminei o primeiro trecho, fiquei com impressão que estava diante do melhor conto do desafio – a trama de “chegada do Messias”, muito bem casada com a escrita em tom bíblico/conto de fadas/sei lá me deixaram com essa sensação.

    Porém, depois dali, o encanto foi se quebrando gradualmente, alguns paralelos com a vida de Jesus (pelo menos enxerguei assim) não me cativaram e o final, meio Édipo (profecia que se cumpre mesmo com os esforços de quem será prejudicado em cortá-la pela raiz), não me convenceu.

    Uma boa escrita, contudo.

    NOTA: 7,5

  16. Anorkinda Neide
    23 de março de 2016

    Ai.. sorry, mas eu nao quero sentir o hálito do Grande Lobo que há de ser um trenzinho fedorento 😛
    .
    Olá!
    A história do Messias, ‘traduzida’ por vc em outra roupagem, mas sem a profundidade original que está lá na Bíblia.
    O texto tb apresenta falhas que me parece que uma revisão, não tanto na gramática mas na estrutura, na construção das frases o tornaria de mais eficiente leitura.
    é isso, não consegui gostar muito do que li, infelizmente.
    Boa sorte!!

  17. Brian Oliveira Lancaster
    23 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: Temática épica, sob o contexto de lendas europeias. Ponto por fugir do clichê, que acometeu muitos dos textos por aqui. – 9,0
    G: A história começa bem, o desenvolvimento também. Mas a partir do capítulo 3, muitos eventos se passam sucessivamente, cortando o elo emocional. Poderia ter focado apenas em sua peregrinação e retorno, sem entrar em batalhas e eras futuras. Foram muitas coisas para pouco espaço. A divisão em capítulos ajuda, mas ocorreram saltos temporais entre parágrafos, com pouquíssimo tempo de assimilação. Apesar disso, gostei de toda a atmosfera criada, lembrando lendas folclóricas. – 7,5
    R: Como mencionado acima, ponto positivo para as divisões. Como ponto negativo, a parte final meio apressada. – 7,5
    O: Escrita tranquila, fluente. Notei algumas frases com vírgulas sobrando e outras soaram estranhas, mas no geral, não chegaram a incomodar. – 7,5
    [7,8]

  18. Renan Bernardo
    21 de março de 2016

    Uma história com temática clichê (um homem que retorna do exílio para salvar seu povo), mas que prova que quando bem escrita e nas mãos de um bom autor, isso não faz tanta diferença. O leitor se identifica facilmente com Jafér, um personagem muito bem elaborado. O cenário também é muito bem descrito.
    Parabéns! Muito boa mesmo!

    Nota: 9

  19. Andressa
    18 de março de 2016

    nota: 9.7. Não sei explicar o porque mas esse conto me emocionou. Talvez por se tratar basicamente do amor pais para filhos. Assunto esse manjado sim mas qua não se esgota nunca. Especial, gostei muito.

  20. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    A estrutura do conto me lembrou o excelente livro de Noah Gordon, “O Físico”, que conta a epopeia de um médico na Idade Média, desde os tempos de menino até a descoberta da apendicite no antiga Pérsia. A história funciona muito bem lá porque o autor teve quase 800 páginas para trazer o leitor para o universo do protagonista, conquistando-o página a página, tornando possível o sentimento de identidade.

    Faço esse paralelo porque embora a estrutura se assemelhe – acompanhamos Jafér desde o nascimento até a morte – não há tempo hábil para que ele conquiste o leitor. Na realidade, a história é grande demais para um limite de 4K. Muita coisa acontece, anos e anos se passam, e o que se vê, nos momentos que seriam importantes, são relatos a toque de caixa.

    Tome-se o encontro com o Grande Lobo. Só isso já daria fôlego para umas cinco mil palavras. Depois disso, a expulsão de Jafér e seu renascimento para liderar o povo de Jaih, tudo passa rápido demais e com uma conotação de lenda, como se tudo fosse uma história contada em roda de uma fogueira.

    Não me entenda mal, caro autor. A história é instigante e suficientemente boa para que você invista nela num formato maior, uma novela ou mesmo um romance, desenvolvendo melhor os personagens, dando a eles características mais humanas. Os pais de Jafér, por exemplo, dariam ótimos coadjuvantes. Kaio também. Creio que seria bacana vê-los desdobrados de uma maneira mais ampla.

    Nota: 7,3

  21. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    Gostei do nome, Jaih, muito sonoro e apropriado. O conto mantém as altas tradições de fantasias de aldeias rústicas, mágicas, e nomes estilizados, imaginativos. A leitura é muito agradável, graças a uma história bem elaborada e uma ambientação bem feita. Um conto estilo epopeia, heroico e inspirador, uma história de liberdade.

  22. Virgílio Gabriel
    17 de março de 2016

    Olá, o autor/a usou quase 4.000 palavras, e mesmo assim não houve aceleração. O conto está impecável do início ao fim. Agora vou tratar da história. Me incomodou um pouco o fato dos nomes e transições me lembrarem um texto bíblico. Não que isso seja horrível, mas fica aquela sensação de que já li isso antes. Os nomes do personagens, dos lugares, e inclusive o final mostrando guerras e outros fatos futuros na região. Tem aquele clima de dar sequencia nas gerações futuras… Mas tudo gosto pessoal. Não é defeito no conto, é gosto mesmo. Quem dera eu escrevesse tão bem assim. Até agora não é o conto que mais gostei, mas claramente é o melhor construído. Parabéns!

  23. Pedro Teixeira
    16 de março de 2016

    Olá, autor(a)! Ideia muito interessante que, ao meu ver, pecou na execução. O texto é bem escrito, claro e correto, mas o enredo não está adequado ao formato conto. São muitos acontecimentos contados num ritmo muito acelerado, parecendo mais uma sinopse do que um conto. Isso até tira a possibilidade de construir uma narrativa com mais emoção, mais impregnada dos sentimentos vividos pelos personagens, o que prejudica o resultado final. É uma pena, pois o universo apresentado aqui tem elementos bem interessantes e a trama em si, com algumas ressalvas- como o lobo ter demorado tanto tempo para ajudar seu filho – é bem amarrada. Ou seja, a ideia pode render muito mais. Parabéns pela participação!

  24. phillipklem
    16 de março de 2016

    Boa tarde.
    Gostei bastante do seu conto.
    Você soube criar uma mitologia envolvente e bastante lúcida, com ares bíblicos e épicos.
    O Grande Lobo me lembrou um pouco de Aslan, de Nárnia, o que é um ponto bem positivo pra mim (fã maluco!), ele foi inspirado em alguém?
    O protagonista foi bem interessante. Ficou um pouco raso, mas muito convincente.
    Gostei de toda a história, apesar de algumas partes terem passado rápido demais.
    Creio que o modelo desta história funcionaria melhor em algo maior, um romance, talvez.
    De qualquer modo, parabéns pela criatividade e pela escrita. Você tem talento.
    Boa sorte.

  25. Daniel Reis
    16 de março de 2016

    Prezado autor: no geral, seu texto me lembrou bastante de Bastard Executioner, enquanto mitologia medievalista. Isso é um elogio, pois eu senti muito que a série de Kurt Sutter tenha sido cancelada na primeira temporada pelo próprio autor. Saudações!

    Pontos positivos: uma narrativa messiânica, com riqueza vocabular e construções bastante elaboradas. Inclusive mitológicas e sócio-econômicas.

    Pontos negativos: alguns papeis na trama, como Dohka, que é a auxiliar que vem em momento crítico e desaparece; ou o profeta Kaio, que aparece para narrar a decadência, e só.

  26. Alan
    15 de março de 2016

    Conto bastante interessante e bem escrito. História original e adequada ao tema. Torcemos por um final feliz que não vem. Talvez esse seja um dos seus destaques: a esperança.

  27. Rubem Cabral
    15 de março de 2016

    Olá, Emanuel.

    Então, achei o conto bom, embora não tenha gostado de alguns detalhes:

    – muitos acontecimentos e personagens não foram introduzidos de forma muito “orgânica”, aparecem de repente e pronto;
    – alguns usos do pronome “tu” foram mal empregados. Por exemplo: “Não se lembras de mim, do alto da pedra, a cantar nosso destino?” (Não te lembras…)
    – por fim, o conto segue muito o roteiro de “jornada do herói”, o que o deixa então muito semelhante a milhares de outras histórias.

    Sob o aspecto positivo, achei que o mundo criado foi original e que o texto foi bem escrito, em linhas gerais.

    Nota: 6,5.

  28. catarinacunha2015
    14 de março de 2016

    Nota 7

  29. Catarina Cunha
    14 de março de 2016

    O título e a ilustração roubou o impacto do COMEÇO do conto. Pena. A VIAGEM é belíssima, com imagens fortes. Mas o FLUXO é muito chato; a narrativa fraca e desnecessariamente longa tirou a emoção da história. O FINAL é bom.

  30. Sonia Rodrigues
    10 de março de 2016

    Jafér é uma figura crística, com detalhes que conectam a história a fatos bíblicos, meio que velados. Seu autor, contudo, é meio pessimista, não o condeno, já que o pobre Jafé ainda está procurando ser entendido pelo sua tribo.
    Achei bem escrito, um pouco longo, acho que um pouco de concisão tornaria o relato mais interessante, pois em alguns momentos a leitura fica monótona.
    É uma saga mística, um pouco mais de ação e um pouco menos de discurso deixaria o texto mais emocionante.
    Gostei do tema, do estilo e da idéia.
    Nota: 9

  31. Ricardo de Lohem
    8 de março de 2016

    Oi, como vai? Seu conto é uma Jornada do Herói do tipo Messiânico. Nessa variante, o herói tem que resgatar um povo que geralmente está escravizado ou dominado por outro povo ou, às vezes, por um indivíduo. O exemplo mais conhecido é a história de Moisés, no velho testamento. Primeiro quero destacar alguns erros ou escolhas duvidosas. “— Eis aqui um fruto da própria Terra. Constatou Yeda. Não havia cordão umbilical ou sinal da mãe.”. Não seria melhor “Constatou Yeda” ficar na mesma frase? “— Eis aqui um fruto da própria Terra —
    constatou Yeda.”. “Não fosse pela grande descoberta de metais preciosos nas grutas próximas ao Pico das Alcatéias, a taxa de mortalidade infantil teria triplicado.” Meio esquisito usar o termo científico moderno “taxa de mortalidade infantil” numa história de fantasia passada em um período antigo ou não tecnológico. “A expressão de seriedade revelava uma erudição natural que o menino, fruto da própria Terra, levaria pro resto de sua existência.”. Erudição natural? Erudição é conhecimento adquirido através de educação formal através de leitura e treinamento, nunca é uma coisa natural ou inata. Você devia ter usado “sabedoria” ou “conhecimento”.”Olhava com sabedoria os comerciantes, jovens idolatrados pelos aldeões, e desejava um dia se tornar um.”. Agora você usou a palavra “sabedoria”, mas de forma errada, a meu ver. Não seria melhor “admiração” ou “respeito”?”É com tua predestinação que deves se preocupar.” Cuidado com a confusão entre “tu” e “você”. Devia ter sido:”É com tua predestinação que deves te preocupar.”. Uma coisa que me incomodou foi a
    demora excessiva de Jafér de assumir seu papel de herói; pra uma história curta como essa, a demora foi mesmo bastante grande. No final, ocorreu algo que me pareceu um erro: o herói é morto pelo antagonista, e intervêm um personagem fantástico para resolver o conflito final, no caso o lobo. O herói da história fica enfraquecido e pouco memorável quando não tem papel ativo no conflito final, Jafér devia ter derrotado Munarc pessoalmente, e o lobo ter aparecido para fazer outra coisa. No todo, uma boa história de Herói Messiânico, mas podia ter sido melhor. Boa Sorte!

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Finalistas, Fantasia - Grupo 4 e marcado .