EntreContos

Detox Literário.

A Terra Sem Males (Renan Bernardo)

india

Inaiê esticou-se no galho, que tremeu sob seu corpo esguio por alguns instantes. Temia que ele fosse se partir sob seu peso, mas usou o tacape para quebrar alguns mais finos mesmo assim. Os jenipapos caíam com um som seco no solo a cada golpe que ela dava. Sua filha não comemorava ou gritava de alegria ao ver as frutas batendo no solo. Amary estava adoentada há dois dias. Inaiê lhe dera o soro da copaíba, mas os resultados não foram tão bons quanto no passado. No entanto, o truque do movimento das mãos, ensinado pelos xamãs acaraús, tivera um efeito melhor, deixando a menina mais desperta e suando, um bom sinal de que sua febre estava diminuindo.

Inaiê desceu das árvores e juntou os jenipapos, extraindo seu suco na cuia que carregava consigo, remexendo com os dedos o extrato negro. Algumas estavam apodrecidas, mas ela repousou sua mão sobre estas e com esforço conseguiu fazê-las ficarem saudáveis novamente. Sentia o corpo doer sempre que tentava o truque, mas o resultado costumava ser satisfatório, ainda mais quando o objetivo final era cuidar de sua filha.

— Tome, Amary — disse, levantando o pescoço da menina e forçando o suco do jenipapo pela sua goela. A garganta de Amary se remexeu, e Inaiê pensou que ela fosse vomitar, mas após um tempo ela engoliu. Seus olhos estavam caídos e avermelhados, as tinturas vermelhas pintadas em suas bochechas já sumiam e até mesmo as penas que ela trazia penduradas em suas orelhas pareciam pertencentes a aves há muito mortas. — É alimento, querida. Vai te deixar mais forte.

Após um longo tempo de descanso, Inaiê pegou a filha no colo, amarrou-a em um suporte com fibras de algodão — que já estava com os dias contados —  e recomeçou a caminhada pelas trilhas desconhecidas da floresta. Sorriu quando percebeu que a filha teve força para envolver o seu pescoço em um abraço quente. Pensou se deveria tentar utilizar os truques dos xamãs novamente, mas temia exaurir-se e deixar a menina desamparada no meio da floresta.

Guaraci há de fortalecê-la, pensou Inaiê, enquanto se entremeava por um grupo de seringueiras e paxiúbas. As raízes da última elevavam-se acima do solo, como se as árvores possuíssem pés e fossem decidir andar a qualquer instante. Fora em uma delas que vira o rosto de seu homem ser esmagado por um dos invasores das terras brancas. O sujeito pálido com o tacape brilhante e afiado praticamente destruiu o corpo de Canindé, mas foi o golpe forte contra a raiz da paxiúba que fez seu pescoço se partir. Inaiê era agraciada com uma velocidade incrível, por isso conseguiu fugir com a filha pela floresta, escolhendo os caminhos mais complicados, que sabia que seriam empecilhos no avanço dos invasores cor-de-farinha. Mesmo assim, fora obrigada a ver outros parentes e amigos sendo destroçados ao longo do caminho e negara ajuda a cada um deles. Sua prioridade era a pequena Amary, e sua motivação era a Terra Sem Males.

E já fazia quatro ciclos lunares que as duas estavam ali, seguindo os ensinamentos dos anciões finados na aldeia e buscando a estrada que as levaria para a terra onde não haveria doenças, guerras e conflitos. Era desgastante para as duas caminhar pelas partes mais densas da floresta, precisando correr atrás de sustância e água fresca. Não havia outra alternativa, no entanto. Era isso ou arriscar retornar para os cor-de-farinha com suas armas afiadas e seus truques maléficos de fogo e gelo. E eles eram tantos…

— Já estamos chegando? — Amary falou, remexendo-se com o rosto suado colado em seu pescoço. Inaiê sorriu ao escutar a voz da filha, mesmo embargada.

— Não sei, querida — disse Inaiê.

— Estou com um gosto estranho na boca.

— É o suco do jenipapo, lembra?

— Aquele que papai passava no corpo para ir lutar? — Amary levantou o rosto e olhou para a mãe com nojo.

— Esse sim — respondeu Inaiê, sorrindo. — O suco também mata a fome. Daqui a pouco encontro algumas frutas para você. Como está se sentindo?

— Com gosto de jenipapo na boca.

As duas riram muito. Uma risada gostosa, do tipo que Inaiê só recordava de antes dos cor-de-farinha chegarem em suas canoas gigantes trazidas pelo vento. A morte trágica do pai e dos acaraús fora de grande impacto para Amary, mas o tempo e a promessa da Terra Sem Males estavam curando-na vagarosamente.

Um tucano espalhafatou suas asas negras diante das duas, e um pequeno sagui saltitou de árvore em árvore. Um jorro de vento soprou forte, e a luz do sol parecia mais intensa naquele ponto da floresta.

— Talvez haja uma clareira ali na frente — disse Inaiê, apressando o passo.

As árvores foram se tornando mais esparsas, e a vegetação foi diminuindo, dando lugar para um caminho de terra batida, feito pela mão de homens.

— Uma estrada — disse Amary, olhando ansiosa para o caminho dourado que serpenteava os grandes caules, alguns deles cortados. Um conjunto de lenha enegrecida estava sob um caucho ereto, acusando a presença recente de pessoas no local.

— Cor-de-farinha — disse Inaiê, tocando na lenha, que se desfez em suas mãos. — Eles estiveram aqui há pouco tempo.

— Esse é o caminho para a Terra Sem Males, mãe? — disse Amary, segurando forte o braço de Inaiê.

— Espero que não, filha — disse Inaiê. — Ou os cor-de-farinha terão chegado antes de nós… Vamos seguir com cautela pelo lado da estrada, ocultas pelas árvores, mas a noite está chegando, e você precisa de mais repouso. Vamos encontrar um canto seguro e escondido. Quero que durma um pouco antes.

 

#

Inaiê não dormira, mas Amary caíra em um sono profundo. A mãe afastou as sedosas franjas dos olhos da filha e observou seu pequeno rosto. Ainda estava bastante abatida, mas já parecia mais saudável que antes. Pensou em aproveitar seu sono e tentar mais uma vez o truque, pelo menos para diminuir um pouco sua febre, mas desistiu. Isso a deixaria dolorida e exausta. Os cor-de-farinha deviam estar próximos e adorariam encontrar duas pessoas dormindo sob uma árvore.

Um vento morno soprou através do caminho aberto para a estrada, trazendo o odor agradável do que Inaiê acreditava ser cumaru, a semente que dava o bom cheiro a alguns apetrechos que seu próprio povo utilizava. Se não fosse isso, poderia ser algumas das estranhas ervas e pedaços de madeira que os cor-de-farinha portavam consigo e pareciam empestear o ambiente.

Inaiê repousou a filha com a cabeça encostada em uma raiz e partiu para buscar água fresca em um dos riachos que cortava a floresta. A lua iluminava as árvores como se a própria Jaci estivesse vagando por ali, atenta a todos os movimentos de insetos, animais e pessoas. Fora em uma noite como aquela que Amary nascera, diante do pai e do xamã Sabará, cercada com os cânticos comemorativos de seu povo. Inaiê arrepiou-se com a lembrança, mas controlou as lágrimas que ameaçaram rolar pelas suas bochechas.

Quando se agachou diante do riacho, que corria forte como se alguma força desconhecida o impelisse adiante, escutou as risadas dos cor-de-farinha. Sabia diferenciá-las tão bem quanto sabia reconhecer os rugidos de uma onça. Por um tempo, elas ecoaram pelas árvores como um longo rastro de arrogância e escárnio. Inaiê deixou a cuia na beira do rio e se apressou pelo caminho de onde tinha vindo, o tacape em punho, pronto para destruir qualquer pessoa que se aproximasse de Amary. A lua parecia seguir-lhe no céu como uma guardiã, e ela esperou que Jaci estivesse observando, cuidando de sua filha. As risadas soaram novamente. Um breve grito fez Inaiê acelerar o passo. Poderia ter sido uma mulher dos cor-de-farinha, mas também poderia…

Inaiê irrompeu onde deixara Amary, mas a menina não estava mais lá. Seu coração bateu descompassado, mas ela fez um esforço para manter o controle. Não podia deixar que o nervosismo lhe derrotasse.

Pegadas marcavam o solo. Quatro homens.

Onde Amary estivera dormindo, também havia uma fina camada de gelo. Inaiê passou o dedo sobre ela sem entender como ela fora deixada ali. Além disso, não havia sangue ou marcas de um confronto.

Segurando com firmeza o tacape, ignorando a dor quando suas unhas apertaram-no com força, Inaiê seguiu em direção à estrada de terra batida.

#

Nada havia na estrada a não ser as pegadas dos cor-de-farinha, mas elas não seguiam em frente. Em vez disso, entravam ainda mais na floresta. Quanto mais Inaiê avançava, mais densa a vegetação ficava, fechando-se como uma mão gigante ao redor dela. Parecia que em determinado momento não haveria mais como passar através das árvores. Insetos noturnos lhe atazanavam, e alguns animais curiosos surgiam diante dela. Desde que nenhuma onça resolvesse aparecer, ela podia continuar seu caminho sem hesitar. A mata luxuriante tornava difícil de acompanhar as pegadas, mas Inaiê se guiava por galhos partidos e plantas danificadas pela rudeza dos cor-de-farinha. A lua cheia e branca como o interior de um bacuri fazia sua luz trespassar entre as folhas, e Inaiê desconfiava que não era Jaci que guiava a noite naquele dia, mas talvez o Luison, a mítica criatura que controlava a própria morte.

Quando pensou que finalmente as árvores a englobariam trazendo trevas e um fim para o caminho, Inaiê percebeu alguns galhos recém-partidos, como se alguém tivesse propositalmente os cortado em busca de lenha para uma fogueira. Ela irrompeu adiante e saiu em uma pequena clareira banhada pela palidez da lua. Ao lado de um pequeno lago, pouco maior que a base de uma oca, quatro homens banqueteavam um coelho ao redor de um humilde fogo que queimava suas primeiras chamas. Não havia sinais de Amary, mas ao lado de um deles havia alguma coisa coberta com uma pele de anta. Inaiê estremeceu.

Os homens gritaram suas palavras ininteligíveis, e um deles levantou-se com um sorriso sarcástico no rosto barbado, andando na direção dela de braços abertos, como se pedisse por paz. Inaiê cerrou os dentes e saltou sobre o homem com o tacape. Seus escárnio transformou-se em medo, e o homem deu alguns passos para trás, mas o tacape voou em sua face, rasgando carne e músculo. O pescoço do homem virou para o lado, e ele caiu estatelado em uma posição pouco usual. Sangue banhou a relva.

Que Amary não veja isso, pensou Inaiê.

Os outros rapidamente investiram contra ela, pegando suas armas finas e afiadas da cor da lua. Inaiê defendeu o golpe de um deles e girou a arma para ferir-lhe no braço. Enquanto lutavam, os homens falavam suas palavras desconexas, mas ela conseguia compreender alguns xingamentos e provocações.

— Devolvam minha filha, monstros — disse ela com os dentes cerrados, sabendo que eles a entenderiam através da fúria.

Com um golpe certeiro, Inaiê esmagou a cabeça do segundo homem. Um deles, velho e com poucos dentes na boca, ergueu as mãos e saltou sobre ela, agarrando-a pelo braço. De repente, Inaiê sentiu um frio intenso subir-lhe até os ombros, deixando a sensação de milhões de formigas subindo pelo seu corpo. O outro homem parou e começou a rir. Inaiê tentou se mover, mas descobriu que não era capaz de nada além de movimentos lentos. O tacape caiu de sua mão, e o velho o chutou para longe. Em seguida, o outro homem sorriu para ela. Seu captor de rosto enrugado e cabelos encaracolados que escorriam até os ombros colocou-a de joelhos. As formigas imaginárias que percorriam seu corpo pareciam lhe controlar, e uma fina camada de gelo formou-se em seu braço. Tentou mover o outro, que ainda não estava congelado, mas não conseguiu.

Estou congelando de dentro para fora…

O cenário ao seu redor foi preenchido pelo escuro, como se a lua ameaçadora tivesse sumido repentinamente. Seus pensamentos começaram a ficar devagar. O parceiro do feiticeiro cor-de-farinha aproximou-se dela e sacou uma pequena faca.

Inaiê concentrou-se. Fechou os olhos — e até para isso sentiu dificuldade. Aos poucos, o poder de cura dos acaraús derreteu o gelo de seu braço. Sentiu gotas d’água se formando e os movimentos retornando aos poucos. Já conseguia mover os dedos… a mão… o pulso…

O truque dos xamãs é superior às suas malícias.

Quando o homem preparou-se para cortar sua garganta, ela levantou-se.

— Teh! Teh! — gritou o cântico de guerra dos acaraús.

Surpreendidos, os homens chegaram para trás. Ela agarrou o pescoço do velho do gelo e o fez estalar como um galho que se parte.

O outro homem investiu com seu tacape afiado, mas Inaiê foi mais rápida.

As penas amarradas em seus pulsos brilharam em um amarelo mais forte diante do luar.

Os penduricalhos presos em sua cintura tilintaram com um som seco. Garras batendo em bicos batendo em pedras batendo em garras. Um resquício da tradição acaraú.

Inaiê elevou a perna no ar e chutou o braço do homem no momento certo. Sua arma voou de sua mão, e seus dentes cerrados foram substituídos por uma careta de espanto. Inaiê sorriu enquanto se curvava para pegar a arma. O homem tentou correr de costas, mas ela cravou o equipamento afiado logo abaixo de seu ventre, fazendo sangue espalhar-se pela relva prateada. A sensação era a mesma de perfurar carne de anta. Apesar do alívio em ver seu agressor indefeso, seu corpo arrepiou-se por ter matado uma pessoa.

Minha primeira vez…

O homem sufocou um grito e caiu com a face voltada para a relva.

Resfolegante, Inaiê jogou-se de joelhos. O sangue de um dos homens escorreu de encontro a eles. Ela observou o couro de anta no chão se mexer, e preparou-se para lutar novamente contra o que quer que fosse aquilo. De repente, o rosto de Amary surgiu, confuso e esbranquiçado, com camadas de gelo derretendo na ponta de seu nariz. A mãe correu para a filha e a abraçou. Sentiu pedaços de gelo estalarem.

— Mamãe… — Amary olhou confusa para todos os lados. — O que…?

— Está tudo bem… — disse Inaiê, envolvendo-a nos braços para aquecê-la e puxando novamente a pele de anta sobre seu pequeno corpo. — Os cor-de-farinha se foram…

Amary constatou os corpos caídos no chão.

— Está tudo gelado — disse ela, estremecendo. Inaiê puxou uma fina crosta de gelo que pendia da orelha da filha como um penduricalho. Ela própria ainda estava com partes rígidas em seu corpo, mas o calor resultante da luta e do truque dos acaraús aflorava em sua pele.

— Os homens maus usaram seus truques… — disse Inaiê. Seu coração ainda batia de raiva, mas sabia que não podia fazer muito. Os cor-de-farinha estavam se espalhando pela terra, tomando tudo e todos sem piedade. — Vou levá-la para o meio das árvores e curá-la do frio. Lá a gente ficará mais segura. Quando você estiver bem novamente podemos seguir adiante.

Amary concordou, mas Inaiê notou que o brilho de esperança em seus olhos se esvaíra. Foram quatro ciclo lunares escapando dos cor-de-farinha, mas agora as duas tinham finalmente sido surpreendidas. Enquanto levantava a filha no colo, Inaiê perguntou-se quantos outros obstáculos estariam no caminho até a Terra Sem Males…

#

O lugar no fim da estrada de terra batida era uma aldeia sobre uma colina, onde a floresta terminava e se transformava em um campo verdejante. Inaiê e Amary nunca tinham ficado tão longe das árvores, e a primeira sensação foi de desamparo, como se estivessem desprotegidas e abandonando suas crenças e deuses. A aldeia era um emaranhado de casas de pedra flanqueando ocas, além de construções que pareciam uma mistura das duas. Quando Inaiê viu os primeiros cor-de-farinha, conversando enquanto limpavam suas espadas e rindo de piadas ininteligíveis, seu coração afundou. Ela preparou-se para fugir mais uma vez, mas logo notou dezenas de acaraús juntos dos homens pálidos, rindo, conversando e trocando objetos, ainda que nenhuma das faces ali fosse conhecida. Sentiu-se confortada com a visão, mas, de alguma forma, sabia que aquele não era o fim da jornada.

— Vamos morrer, mãe — disse Amary, repentinamente, em meio às risadas e conversas dos homens e mulheres que se esforçavam para entender um ao outro. — Parece que… nossa gente foi castigada pelos deuses.

— Não, Amary — disse Inaiê. — Os deuses não castigam. Os cor-de-farinha que o fazem. — Inaiê olhou mais uma vez para a aldeia sobre a colina. Apesar da confiança mútua entre os dois povos, ela enxergava além. Visualizava morte, destruição e sofrimento.

A história se repetirá, pensou.

Um cor-de-farinha riu alto na colina e deu um tapa amigável nas costas de um acaraú, que lembrava vagamente o pai de Amary antes de ser destroçado. Ele parecia estar trocando maracás pelos tacapes estranhos dos cor-de-farinha. O mal se espalha. Um deles, com trajes pomposos e rubros exibia seu pequeno indicador, que queimava com uma chama esverdeada. Ele sorria, e os acaraús se aglomeravam em volta dele para assistir boquiabertos os truques. Um deles ousou tocar a chama verde, mas retirou o dedo rapidamente e o levou a boca, reclamando que estava ardendo.

Seus deuses lhe dão truques de morte e dor, pensou Inaiê, enquanto puxava Amary de volta para o caminho que as levaria para a floresta.

— Vamos embora — disse Inaiê. — Contornamos a colina e procuramos um lugar apenas com acaraús. Não quero nada com essa gente.

Amary assentiu e pegou a mão de Inaiê. Uma vez na floresta, as duas continuaram pela margem do riacho, parando apenas para se banhar eventualmente. Logo deixaram a colina para trás, e receios começaram a perambular pela mente de Inaiê. O que seria a Terra Sem Males, que seu povo falava desde tempos imemoriais? Onde ela estaria de verdade? Seriam as pernas dela e da filha capazes de trilhar o caminho até lá?

Quando o rio transformou-se em uma cascata pedregosa, Inaiê lembrou-se das grandes canoas trazidas pelo vento, chegando na costa com os cor-de-farinha. Recordou seus breves diálogos, seus sorrisos zombeteiros e as armas brilhantes sendo puxadas sob o sol escaldante. E seu povo correndo… E lutando… E, por fim, morrendo…

Dias se passaram, e as lembranças assolavam a mente de Inaiê como tacapes esmagando-a pouco a pouco. Mais um ciclo lunar se passou, e ela viu a filha cair em desespero. Reclamava de dor nas pernas e nos pés, e sua cabeça latejava forte. Apesar dos frequentes banhos, Inaiê sentia-se suja. Toda vez que via o próprio reflexo em um riacho pensava estar vendo um defunto. Elas precisavam parar, se assentar e ficar em um lugar por um tempo. Os acaraús diziam que o mundo era gigante, e ela não estava disposta a sacrificar a filha em busca de uma terra lendária, de uma história…

Certo dia, quando a lua cheia minguou e transformou-se no que lembrava uma rede, Inaiê foi assolada por uma súbita revelação, como se um espírito estivesse aguardando ao lado dela para adentrar seu corpo e contar a verdade. Sentia-se tonta e exausta. Sabia que seu limite havia chegado.

Estou farta da busca. Essa terra não existe.

— Não quero mais continuar — disse Amary, como se lendo os pensamentos da mãe. — Quero parar e morar em algum lugar.

Inaiê assentiu.

— Encontraremos um local seguro e lá montaremos uma oca — disse Inaiê. — Se os cor-de-farinha vierem, nos mudamos. Faremos isso até encontrar alguns de nosso povo para conviver. Sei que muitos estão fugindo como nós. E os espíritos vão nos unir eventualmente.

E a Terra Sem Males? — disse Amary. — Sei que é importante encontrarmos, mas…

A menina baixou a cabeça em desânimo.

— Filha. — Inaiê segurou firme os ombros de Amary e a perscrutou nos pequenos olhos combalidos que desertavam da infância antes do tempo. — Os cor-de-farinha podem se espalhar e tomar nosso mundo. Mas se escondermos bem nossos segredos e nossas crenças, como os xamãs sempre nos contaram, poderemos sobreviver. Não devemos nada aos pálidos, e mesmo assim eles vieram e tomaram o que sempre foi nosso. Bem antes da sombra deles caminhar por estas terras já estávamos aqui. O avô do avô do meu avô já tinha histórias para contar.

Inaiê respirou fundo. Atrás dela, na outra margem do rio, teve a impressão de ver um veado branco caminhando. Ele a fitou rapidamente com olhos vermelhos e continuou seu caminho, escondendo-se em meio às árvores.

— Esconderemos nossos truques de cura — continuou. — Aqueles que a natureza nos concedeu como um presente divino, e os xamãs nos ensinaram a utilizar. Não curaremos nenhum dos deles. Não curaremos suas terras. Amary, filha, os seus netos e os netos de seus netos guardarão nossos segredos, esconderão a existência de nossos deuses e dos talismãs que guardamos aqui e aqui — encostou na cabeça da filha e, depois, no peito. — O tempo vai passar e estaremos ainda nesta terra. Se não em corpo, em espírito. E aqui mesmo em nosso lar conquistado assistiremos o orgulho, a ganância e as pedras brilhantes dos cor-de-farinha derrubá-los um a um, derramando seu próprio sangue sobre o solo. Até que tudo seja nosso novamente. A Terra Sem Males não é um lugar para se buscar ou se aventurar por estradas, florestas e vales.

O veado branco passou correndo mais uma vez na outra margem, mas logo desapareceu como um espírito.

— Querida, a Terra Sem Males é este nosso mesmo lar em um futuro distante, além dos ciclos lunares que poderemos contar. É esta terra lavada com o sangue de gerações de acaraús e cor-de-farinha…

Com uma profunda compreensão das palavras da mãe, Amary sorriu. Um sorriso cansado, mas sincero. As duas seguiram pelo mar de seringueiras, pau-brasis e castanheiros. Escutavam uma correnteza fluir nas proximidades, o som dos pássaros, o farfalhar das folhas e o rugido de um eventual animal.

O espírito dos acaraús estava vivo. E enquanto elas não se rendessem, para sempre assim seria.

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32 comentários em “A Terra Sem Males (Renan Bernardo)

  1. ram9000
    2 de abril de 2016

    A história é muito longa, por causa de descrições sem grande importância. Poderia passar por uma revisão, eliminando os excessos, mantendo o mais essencial. Está adequada ao tema, apesar dos elementos de fantasia (suas armas) adicionados à trama homem branco x índios, não terem sido tão explorados com maior riqueza de detalhes.

  2. Pedro Luna
    2 de abril de 2016

    Uma boa história, bem escrita, mas que para mim não trouxe o tema. Gostei mesmo da escrita, principalmente nas cenas de luta entre inaiê e os homens brancos. Tudo ficou bem descrito e deu para visualizar legal. Lendo o texto, dá para se notar realmente a preocupação da mãe para com a filha e as suas motivações. Ponto do autor (a), que desenvolveu bem.

    Só mudaria o diálogo final, muito complexo, na minha opinião, para uma conversa entre mãe e filha, exaustas naquele momento. Mas a intenção foi boa.

  3. Piscies
    1 de abril de 2016

    Palmas! Palmas para este autor!!

    Um conto de fantasia completamente ambientado nos nossos reais antepassados. Um conto único, que nos faz mergulhar na cultura indígena da qual tanto nos afastamos. Muito bonito, realmente muito bonito.

    Os termos indígenas ambientam bem o leitor. A escrita sem erros é bem fluida e de fácil leitura. As paisagens, com os seus pequenos detalhes narrados aqui e ali, são bem verossímeis e interessantes. Inaiê é uma excelente heroína, daquelas pela qual ansiamos ver o sucesso!

    Engraçado como que o autor conseguiu interpelar um conto histórico com a fantasia. Essa ideia de que o mundo antigo estava cheio de magia, que foi perdida pelo tempo, dando lugar à tecnologia, é velha, mas nunca havia visto ela antes assim, tão bem inserida no nosso próprio mundo.

    Parabéns autor!!

  4. Emerson Braga
    1 de abril de 2016

    Anhangá, gostei muito de seu conto. Linda e original a maneira como você misturou realidade e ficção ao narrar a história da invasão das América pré-colombiana pelo homem branco.
    Sua escrita é fluente e excitante, o que torna a leitura dinâmica e prazerosa. Mas devo confessar que não entendi três questões em sua trama.
    Por exemplo, há um momento de extrema tensão em que Inaiê luta com quatro homens, logo após o desaparecimento de Amary. Quando Inaiê mata o último do grupo, você escreve: “…seu corpo arrepiou-se por ter matado uma pessoa”. Ela não matou uma, matou quatro. O arrepio deveria ter corrido seu corpo na primeira morte e não na última. Ou então ficaria melhor se você tivesse escrito “…seu corpo arrepiou-se pro ter matado aqueles homens”.
    Outra coisa que não ficou clara foi o tamanho/idade de Amary. Durante quase todo o conto, Inaiê a carrega junto ao corpo, presa a um suporte feito de fibra de algodão. Isso nos leva a crer que Amary é bem pequena. Todavia, a menina possui um vocabulário desenvolvido, conversa com a mãe, entende tudo de uma maneira que não condiz com uma criança de braço. Amary fala como alguém de 10 a 12 anos, o que tornaria complicado que a mãe a carregasse por tanto tempo e por tão longas distâncias.
    Também não entendi como Inaiê sai às cegas em busca de uma terra mística. Ela deveria ter um norte, um destino, que a conduzisse pela selva. Não parece certo que ela busque a Terra Sem Males assim. Isso poderia ser corrigido com um recurso simples: Tipo: “A Terra Sem Males fica há muitos dias daqui, sempre andando para a frente”, o que passaria a ideia de futuro e não invalidaria a busca de Inaiê através do espaço, e não do tempo.
    Fora esses detalhes, achei seu trabalho encantador. Da próxima vez, verifique se há coerência, se a historia bate direitinho, para evitar confusão. Leitor gosta de grandes histórias, contanto que não tenham pontas soltas. Boa sorte.

    NOTA: 8,5

  5. Thomás Bertozzi
    1 de abril de 2016

    Boa narrativa, com ritmo constante, acelerado. Boas cenas de lutas, bem como de magia, esta, inserida num contexto que eu nunca tinha visto. Uma boa novidade. Gostei!

  6. Leonardo Jardim
    31 de março de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 História (⭐⭐⭐▫▫): o universo criado ficou muito bom e nítido e os personagens fortes. Apesar disso, a história pareceu incompleta. O discurso final de Inaiê ficou meio forçado, parecendo estar ali apenas para concluir o conto. Não houve explicações, por exemplo, sobre os feiticeiros dos invasores. A magia de cura nunca nos foi ensinada e fez sentido na trama, mas os feiticeiros europeus ficaram meio deslocados, acho que ficaria melhor se em fossem artefatos ao invés de magia, como armas de fogo, por exemplo.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): muito boa! As descrições do cenário e das cenas ficaram muito boas e bem narradas, pareciam imagens na minha cabeça. Um dos motivos disso foram as boas metáforas utilizadas. A repetição de “cor-de-farinha” e do nome dos personagens incomodou um pouco, mas não estragou a apreciação geral. Mesmo assim, acho que poderia utilizar sinônimos para evitar isso.

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): a parte criativa é utilizar uma ambientação indígena brasileira, quando muitos (eu incluído) optam por fantasia européia. Só não recebeu as três estrelas porque não fugiu muito do padrão de índios versus colonizadores comuns em histórias do gênero.

    🎯 Tema (⭐⭐): o elemento fantástico foi bem introduzido, mas um pouco exagerado qdo usado pelos invasores, como comentei.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): o texto agradou muito até quase o fim. Quando percebi que ele não se resolveria no espaço do conto, fiquei um pouco frustrado. A solução final diminuiu o impacto, mas não chegou a estragar o texto.

  7. Davenir Viganon
    31 de março de 2016

    A história é bem simples, sem as reviravoltas que tivemos em outros contos aqui do desafio, e acho que fiquei mal acostumado. Gostei da escolha pelo ponto de vista indígena, porém a abordagem deixou os índios muito bonzinhos, é a visão do índio como o “bom selvagem”, integrado coma natureza e tal… mas os povos indígenas também promoviam guerras e o processo colonial nas Américas se valeu muito disso para prevalecer. Isso acabou deixando a personagem principal, menos profunda do que poderia ser e os inimigos tão estereotipados quanto os indígenas bonzinhos. Geralmente não deixo o meu lado professor de história se manifestar, porém o conto é praticamente uma “ficção histórica” e apenas a cena de luta com magia de gelo e de descongelamento deixou a Fantasia aparecer.
    A escrita está bacana, o texto não fluiu bem por puro desconhecimento meu na mitologia indígena, apesar das tuas dicas. Ponto negativo pra mim por ser burro
    :(, ponto positivo pra você por trazer um pouco deste conhecimento. O final puxou novamente para a ficção histórica… acho que o que me desagradou foi que eu esperava ver algo espetacularmente mágico da cultura indígena brasileira e o realismo excessivo não casou com a proposta do desafio.

  8. Laís Helena
    30 de março de 2016

    Narrativa (2/2)
    Gostei da narrativa: ela me prendeu à história e me envolveu em todos os detalhes, sem se apressar em nenhum momento. As cenas de tensão são bem descritas.

    Enredo (1,5/2)
    O enredo é simples, mas nem por isso menos interessante. Mas senti uma leve decepção no final com a revelação que veio do nada: a personagem não parecia ter pistas suficientes para deduzir isso.

    Personagens (2/2)
    Focar em apenas uma única personagem foi uma boa escolha: Inaiê é uma personagem bem caracterizada em com motivações e objetivos interessantes. Sua relação com a filha e seu medo com as mudanças repentinas foram bem explorados.

    Caracterização (2/2)
    É perceptível que você fez um bom trabalho de pesquisa e foi competente em colocar os detalhes ao longo da história, sem comprometer o ritmo e também sem confundir o leitor. Gostei de algumas coisas que foram deixadas para a imaginação, como a diferença entre os poderes místicos dos índios e dos colonizadores.

    Criatividade (2/2)
    Gostei bastante do conto, pois além de você ter usado elementos que são incomuns na maioria das histórias de fantasia, o fez muito bem.

    Total: 9,5

  9. Gustavo Aquino Dos Reis
    29 de março de 2016

    Um trabalho muito bem escrito e original. O autor(a) foi muito confiante e teve personalidade para transplantar a estética clichê europeia que permeia o mundo da fantasia e fazê-la desaguar nos trópicos, exatamente numa Pindorama fantástica.

    No entanto, o conto, pelo menos na minha tácita interpretação de texto, deixou algumas pontas soltas – alguns fenômenos inexplicados. À título de exemplo, a criomancia (neologismo identificado) – arte de manipular o frio/gelo – de um dos cor-de-farinha me parecia passível de uma explicação (fantástica ou não).

    No mais, um excelente trabalho.

    Boa sorte no desafio.

  10. Wender Lemes
    28 de março de 2016

    Olá, Anhangá! Parabéns pelo conto, é o quarto que avalio nesta fase final.

    Observações: a analogia do europeu e do nativo é explícita e muito bem feita, misturando os tons necessários para a adequação ao tema, mas sem perder a originalidade em prol disto. Confesso que o cenário e a criança remeteram-me um pouco ao filme “Tainá”, mas a pegada mais violenta, principalmente em relação aos “cor-de-farinha”, quebrou esta referência.

    Destaques: a figura da mãe é certamente um destaque do conto. É fácil afeiçoar-se a ela, por ter a personalidade forte e cuidados com a filha, simultaneamente. Uma reflexão que fica subentendida, mas que é muito interessante, seria a “Terra Sem Males” que dá origem ao título. Um lugar ideal, por seu próprio conceito, já não poderia existir fisicamente, mas é a busca por este lugar que move os espíritos das protagonistas. É só por ignorar a razão que se consegue viver em uma situação tão desfavorável. Isto nos leva a pensar: onde está a nossa Terra Sem Males?

    Sugestões de melhoria: seu conto é um dos que considero ótimos neste certame, seja pela técnica apurada, seja pela criatividade. Não é o meu estilo preferido de conto, mas isto não é nenhum demérito. A única maneira que vejo de melhorá-lo seria uma revisão mais apurada para dois ou três erros de ortografia que pude notar.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  11. vitormcleite
    25 de março de 2016

    Desculpa-me mas este conto não me empolgou. Conta bem uma história, mas não surpreende, para além da luta não consegui encontrar nada que me tirasse do ramram da sua descrição, percebes? Não me pareceu que a fantasia se encontrasse muito explicita. História bem contada mas que me deixou triste pois aguardava outro tipo de texto na final, me desculpe.

  12. Anorkinda Neide
    23 de março de 2016

    Olá!
    Buenas, me apeguei às personagens, não podia ser diferente, amante indígena que sou… amei o nome Amary! mas… esta narrativa está bastante ‘branca’, ‘cara-de-farinha’… explico
    a abordagem, as falas e pensamentos de Inaiê, a conclusão a que ela chega no final, tudo isso e mais um pouco são pensamentos bem ‘civilizados’.
    Acho que para vc escrever no tema (e me parece q vc nao escreveu às pressas) indígena ou outro qualquer que requeira um outro ‘universo’ não inventado, há que se faze ruma boa pesquisa. Sugiro inclusive o meu blog Curumim!
    Achei interessante os lances mágicos para adequar o texto à fantasia, deu um toque bonito à trama… pena que vi muito pouco do universo ‘indígena’ por aqui.
    Boa sorte.
    Abraço

  13. Simoni Dário
    23 de março de 2016

    Olá Anhangá
    Bonita história de amor entre Inaiê e Amary, não só entre mãe e filha, mas pela natureza e origens. Não sei se captei a mensagem totalmente, mas compreendi a ideia, creio eu, que o espírito dos indígenas (acaraús no texto), como donos primeiros das terras, permanecerá para sempre de alguma forma zelando por elas.
    Eu, como amante da cura pela natureza gostei muito da referência à copaíba, parceira de tratamentos aqui em casa e muito competente na cura de algumas enfermidades. Aprecio igualmente o xamanismo como fonte de cura. O texto é belo, a narração está ótima, principalmente de todo trajeto percorrido por Inaiê e Amary que foram bem convincentes, ou seja, eu estava com elas dentro da floresta. Parabéns pelo belo trabalho!
    Bom desafio!

  14. Brian Oliveira Lancaster
    21 de março de 2016

    OGRO (Objetivo, Gosto, Realização, Ortografia)
    O: Uma abordagem diferenciada, mais brasileira, com atmosfera de fábula. O tema é bem sutil, mas é possível senti-lo no desenrolar da história. – 8,0
    G: Apesar do final um tanto corrido, gostei da fórmula utilizada para criar empatia. A história de mãe e filha tentando fugir dos invasores caiu muito bem com o cenário escolhido. – 8,0
    R: Há algumas palavras diferentes, mas fáceis de compreender, fazendo parte da “mitologia” escolhida. O início e o desenvolvimento foram muitos bons, mas os parágrafos finais apresentam muitos eventos sucessivos, além de não existir um final definitivo. Talvez se focasse mais na cena do aparecimento das caravelas (uma grande sacada) ficaria melhor. – 8,0.
    O: Palavras e termos complexos, mas com linguagem simples, fácil de compreender. Algumas frases soaram estranhas, mas nada que uma revisão não conserte. – 8,0.
    [8,0]

  15. André Lima dos Santos
    20 de março de 2016

    Um conto muito bem escrito e bem revisado (Encontrei apenas um erro de digitação – faltou um s na palavra ciclos), mas que me incomodou um pouco no excesso de metáforas e de adjetivos.
    O autor, além de ter excelente habilidade de escrita (Suas frases são bem conectadas e bem construídas) revelou um ótimo trabalho de pesquisa. Exceto pela estranheza que me deu o fato de índios brasileiros, de um país tropical, saberem o que é gelo. Mas isso não apaga o bom trabalho de pesquisa.
    A narrativa é complexa, tem estrutura clássica, em 3 atos. Está tudo bem delimitado. Consigo enxergar perfeitamente o Incidente Incitante, as complicações progressivas, a crise, o clímax e a resolução. Elementos tão importantes em narrativas de estrutura clássica.

    Mas a trama não me chamou a atenção…

    Um bom conto. Boa sorte no desafio!

  16. Rodrigues
    20 de março de 2016

    A condução de mãe e filha pela floresta me cansou em algumas partes, a narrativa desses trechos carece de mais cores, descrições, talvez de mais animais – como esse veado sensacional ao final – ou plantas, flores, algo que aumente a relação delas com o ambiente. Apesar disso, essas duas personagens foram muito bem construídas, gostei tanto da mãe quanto da menina. A esperança delas em encontrar o caminho à terra sem males delineia bem essa caminhada, e o final que valoriza as tradições indígenas e deixa uma esperança no ar foram bem interessantes.

  17. angst447
    19 de março de 2016

    – Bom conto ambientado em terras indígenas. Interessante criar uma fantasia dentro deste contexto. Acho que funcionou bem.
    – O tema Fantasia foi abordado com propriedade e de forma criativa
    – Não encontrei lapsos de revisão
    – O final cria um clima de esperança, de dias melhores para mãe e filha, para toda a humanidade.
    Boa sorte! 🙂

  18. Evandro Furtado
    19 de março de 2016

    Interessante narrativa. Confesso que senti falta de certa profundidade, no entanto. Acho que você teve uma proposta interessante e a executou muito bem. Mas faltou aquele efeito final, aquela última frase que trouxesse um incômodo. Achei que ficou ligeiramente piegas no final. A fantasia apareceu e isso foi o suficiente. Só senti, também, que faltou uma explicação um pouquinho maior para o que era aquela coisa do gelo. Reli algumas vezes e não compreendi. Talvez seja um conhecimento prévio que não possuo.

  19. Fabio Baptista
    19 de março de 2016

    Começando a análise batendo numa tecla que costumo bater ultimamente: seu/sua/seus/suas.

    Às vezes não dá para evitar, mas, muitas vezes, dá – substituindo por artigos ou simplesmente eliminando. Aqui esse item me chamou bastante a atenção e tive o trabalho de contar: o texto tem 3.578 palavras, das quais 82 são os tais seu(s)/sua(s). Isso cansa um pouco a leitura e faz o texto parecer maior do que é (a impressão que tive ao final era de que o conto havia extrapolado as 4 mil).

    Agora, falando de algo que não costumo falar: adequação ao tema. Há, sim, a presença da magia, mas ela entrou de um jeito meio forçado na minha opinião, só para inserir um elemento de fantasia na história que acabou não sendo suficiente para uma adequação completa. Tudo na história é muito real, com exceção ao poder de cura das índias (que acabou virando quase um Deus Ex quando ela escapou do gelo), que não encaro como elemento tão fantástico assim e da magia congelante dos inimigos (que poderia muito bem ser substituída por um recurso tecnológico dos invasores).

    No mais, eu gostei da história, embora tenha ficado com a impressão que elas rodaram muito para não chegar a lugar nenhum… lá no meio do texto imaginei que estivessem se encaminhando para um paraíso pós-morte ou algo assim.

    A escrita é muito boa (esses meus apontamentos são apenas detalhes) e consegue narrar os acontecimentos de forma bastante clara. Só teria limado um pouco os nomes indígenas que apareceram em profusão no começo (acredito que na tentativa de ambientação) e as menções a “cor-de-farinha” que cansaram um pouco também.

    – fechando-se como **uma mão** gigante
    >>> cacofonia

    – e o levou a boca
    >>> à

    – acusando a presença recente de pessoas no local
    >>> poderia ser suprimido, porque logo em seguida Inaiê repete essa conclusão

    NOTA: 7,5

  20. Andressa
    18 de março de 2016

    Nota: 9.5. Mais que um comentário, uma reflexão. Esses contos com um teor indigina ou tribal, me remete a um passado que eu não vivi, não nesta vida, como um lembrança viva.

  21. Gustavo Castro Araujo
    17 de março de 2016

    Uma narrativa competente, bem escrita e também criativa. Confesso que fiquei surpreso, positivamente, ao perceber que se tratava da história de índios brasileiros. Só isso já garantiu meu interesse.

    O enredo se passa nos primeiros tempos após o Descobrimento, numa época em que os portugueses aqui desembarcavam e passavam à exploração da terra e dos nativos. Nesse cenário, Amary e a mãe, Inaiê, buscam refúgio numa terra imaginária onde, imaginam, terão paz e sossego. A jornada de dificuldades dá o tom, onde mãe e filha passam por situações de perigo e superação, até perceber que a tal terra prometida é (ou pode ser) o lugar que elas quiserem.

    Como disse, o enredo é competente. É possível perceber que o autor buscou enriquecê-lo com trabalho de pesquisa, citando plantas, animais e nomes típicos que, se não forem verdadeiros (como chamar os europeus de Cara de Farinha) soam de fato verossímeis. Tudo isso cria um universo interessante, fazendo com que o leitor seja testemunha das dificuldades enfrentadas pelas protagonistas.

    No entanto, algo me incomodou durante a leitura. Tive a impressão de, em certos pontos, estar lendo um livro didático, onde se sobressaem as informações em detrimento da “contação”. Quero dizer que achei o conto um tanto burocrático aqui e ali, o que contribuiu para que eu me visse apenas como testemunha de Amary e da mãe, e não exatamente me identificasse com elas. Em outros trechos a história pareceu sofrer da síndrome de Iracema, devido ao uso excessivo de adjetivos, como se o autor quisesse evidenciar a atmosfera luxuriante da floresta.

    No frigir dos ovos, contudo, o conto é bom. A relação de mãe e filha ficou bem a contento, na medida certa. Um trabalho que cumpre de maneira exemplar seu papel de entreter.

    Nota: 7,8

  22. Wilson Barros Júnior
    17 de março de 2016

    Muito bom início de um conto indígena. Como sempre diz “Zé do Caixão”, a tradição brasileira é muito rica, não precisamos importar personagens para contos de terror e fantasia. A escrita é habilidosa, muito colorida e leve. O conto é emocionante, muito criativo. Muito bom, parabéns.

  23. Daniel Reis
    16 de março de 2016

    Prezado autor: pela escolha de um tema nacionalista e suas possibilidades folclóricas, é possível esperar que esse poderia ser um campo interessante para o desenvolvimento de uma mitologia fantástica genuinamente nossa. No entanto, a meu ver, no transcorrer da sua história, não é isso que acaba acontecendo. O enredo poderia perfeitamente ter se desenrolado na época do descobrimento português, sem interferência de elementos fantásticos, que se estão presentes, são meros acessórios, como pano de fundo, ou mesmo “crendices” da protagonista. Isso, sem dúvida, influenciou a minha avaliação, mas sem desmerece a sua história, que merece ser contada. Grande abraço!

    Pontos positivos: a ambientação é sem dúvida a mais “alternativa” do grupo. O drama presente na narrativa, que é o êxodo das personagens, conduz a leitura e nos obriga a chegar até o desfecho – a meu ver, suspensivo demais, sem conclusão (e viveram … para sempre).

    Pontos negativos: a narrativa tem muito mais característica de ficção histórica do que aspectos fantásticos, também dificultando o comparativo com outros contos mais integrados ao tema do desafio.

  24. Pedro Teixeira
    15 de março de 2016

    Olá, autor! Um belo conto, muito bem escrito em com incríveis protagonistas. A cena de luta ficou ótima. Não entendi quando Inaiê disse que havia matado pela primeira vez, pois entendi que ela já havia feito isso com os outros homens. O final foi muito bacana também,e os diálogos são bem convincentes.

  25. Carlucci Sampayo
    13 de março de 2016

    Um texto tocante pela intensa determinação da personagem principal, cuja raiz indígena contém as tradições e a luta pela sobrevivência, além de coragem e amor pela filha. Um conto diferenciado. O tema indígena deixa o conto bastante atraente e inovador, haja vista que há pouca literatura a este respeito, hodiernamente. No entanto, guarda uma beleza única e o autor se esmerou em sua construção, conseguindo imprimir o tom de tradição e curiosidade sobre algo tão pouco explorado. O vocabulário é pertinente, contém belos significados e a destreza da mulher é explorada a contento, na defesa de sua filha. Um conto como um canto de proporções épicas, com evocação de sentimentos de irmandade, piedade, compaixão e até mesmo uma expectativa de sucesso para a personagem por parte do leitor que se entrega ao seu conteúdo. Brilhante na exploração dos sentimentos e emoções genuínas. Típico e de conteúdo forte, porém com a exploração leve de magia e de encantamentos, transmudados em tradições milenares de um povo indígena. Ótimo conto, esforço literário bem compensado pela qualidade da leitura e do enredo. Nota 8,5

  26. Sonia Rodrigues
    10 de março de 2016

    Enfim, um conto que usa tema nacional! Ecológico, com nomes indígenas.
    Escrever como quem conta uma lenda, inventando poderes para a personagem, colocando essa ideia filosofica de que a terra sem males não é um lugar, sim um estado de espírito, deixando esse toque de esperança de que um dia no futuro haverá a recuperará do planeta, foi um bom tema.
    Poderia ser melhor explorado com mais ações e menos ênfase na doença da menina, o que deixou o texto meio estacionado.
    Nota: 9

  27. Ricardo de Lohem
    9 de março de 2016

    Olá, como vai? Seu conto parte de uma boa ideia, que é explorar o gênero fantasia usando uma ambientação indígena. Tudo gira em torno de um tipo de busca de um paraíso perdido, um tema bastante clássico. Uma frase que poderia ser mudada: “— Espero que não, filha — disse Inaiê. — Ou os cor-de-farinha terão chegado antes de nós…”. Ficaria melhor: “— Espero que não, filha — disse Inaiê —, ou os cor-de-farinha terão chegado antes de nós…”.”. Melhor trocar “terão” por “teriam”: “— Espero que não, filha — disse Inaiê. — Ou os cor-de-farinha teriam chegado antes de nós…”. A história é bastante cansativa, a ênfase excessiva na sabedoria dos acaraús X a maldade dos brancos acaba cansando pelo maniqueísmo primário. A busca no final leva a uma mensagem um tanto conservadora e até reacionária, a ideia(l) que grupos indígenas não devem mudar nunca seus costumes, algo bem contestável. Uma história bastante cansativa, que não me deu um segundo de prazer. Boa Sorte.

  28. Alan
    8 de março de 2016

    Até agora esse é o conto que mais gostei. Principalmente pelo final emocionante. Bem escrito. O tema está dentro do proposto e ainda valoriza, de certa forma, o nosso folclore. A parte do suspense quando Amary desaparece é um dos meus momentos favoritos.

  29. Virgílio Gabriel
    8 de março de 2016

    Conto lindo, bem escrito, e mesmo que o regionalismo não seja meu forte, adorei. Porém houve um equívoco, este conto não tem nada a ver com fantasia. É a história de duas índias coagidas por brancos colonizadores. Um lindo texto, orgulhe-se dele, mas não vejo como adequado ao tema.

  30. Rubem Cabral
    8 de março de 2016

    Olá, Anhangá.

    Gostei bastante do conto: a ambientação foi muito imersiva e a história também me fisgou. A escrita tbm está muito boa.

    Muito bom conto. Nota: 9.

    Abraços.

  31. catarinacunha2015
    8 de março de 2016

    O COMEÇO não demonstra a força da história de ação a seguir. A VIAGEM elegante, de poucas fantasias e muitos significados, é fortalecida pelo FLUXO certeiro e ascendente. O FINAL foi inteligente, mas perdeu força narrativa com a longa explicação. Nota 8,5

  32. phillipklem
    7 de março de 2016

    Olá, boa noite.
    Nossa! Seu conto foi uma lufada de ar fresco muito bem vinda em meio aos que tenho lido até agora.
    Que narrativa primorosa você tem.
    Suas personagens são cativantes logo de cara, em sua luta pela sobrevivencia. O laço mãe e filha foi muito bem explorado e me levou a gostar da protagonista instantaneamente.
    Toda a mitologia fantástica que você construiu foi muito sutil, o que deu um ar ainda mais profundo à história. Você não precisou explicar a fantasia, ela simplesmente estava ali, acontecendo no dia a dia dos personagens. Isso foi a cereja no topo do bolo.
    Você teve um início fantástico, uma jornada épica, antagonistas excepcionais, protagonistas inesquecíveis e uma conclusão cativante.
    Meus parabéns, autor. Você sabe escrever.
    Acho que nem preciso lhe desejar boa sorte.
    Te vejo na final!

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Publicado às 5 de março de 2016 por em Fantasia - Finalistas, Fantasia - Grupo 4 e marcado .