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Literatura que desafia.

Parasitas – Artigo (Gustavo Araujo)

parasitas

Têm-se disseminado nas redes sociais as chamadas para antologias com temas diversos. Em posts simpáticos, replicados em inúmeros grupos e páginas, autores de todos os níveis são convidados a integrar coletâneas de diferentes tipos e tamanhos.

Clicando no link respectivo, o interessado aterrissa no site da editora que promove a ideia e que, não raro, apresenta-se como “diferente”, tendo por objetivo a “promoção da literatura nacional” e a “ajuda na divulgação de novos escritores”.

Tudo parece muito simples e fácil, daí porque resta difícil resistir: o autor precisa apenas submeter seu texto para avaliação; uma vez aprovada, a criação integrará a versão final do livro, ao lado das produções de outros que passaram pelo mesmo processo.

Todavia, a maioria das editoras que se ocupam dessa vertente deixa para o fim a ressalva de que a publicação se dá em caráter “colaborativo”. Na prática, isso significa que os integrantes devem se comprometer a “vender” determinado número de exemplares ou, o que tem se tornado mais frequente, a adquirir (pagar) “cotas” junto à própria editora, cotas essas de valores proporcionais ao número de caracteres do texto enviado.

Não é difícil deduzir que a editora jamais terá prejuízo. Basta ver o número de autores e a extensão dos textos nas antologias que se multiplicam por aí sem contraceptivo à vista. O autor, nesse contexto, se constitui numa roda dentada na linha de montagem que tem, como produto final, o lucro de quem orquestra a máquina, mas não necessariamente de quem a permite girar.

Em suma, trata-se de comércio puro e simples travestido de pretenso incentivo a novos autores.

Eu adoraria dizer também que se trata de uma espécie de estelionato literário, mas não posso fazer isso. Os editais de convocação são bem claros a esse respeito e, no fim, entra no esquema quem quer.

Se pensarmos em termos financeiros apenas, é possível imaginar, num raciocínio apressado, que a ideia é interessante para autores que sofrem de ansiedade crônica, afinal, por um valor que orbita os quinhentos reais, é possível ter seu o texto revisado, diagramado e impresso num livro com cara de livro. Nesse sentido, seria aceitável dizer que está se pagando à editora pela prestação de um serviço.

Contudo, não apenas a questão financeira deve ser considerada quando se decide participar dessas antologias sob encomenda. A qualidade do produto também precisa ser levada em conta. E de modo preponderante.

É exatamente nesse ponto que a percepção se inverte, ou pelo menos deveria.

De início, não se tem pista alguma sobre os critérios de seleção. A escolha dos contos que comporão as coletâneas fica adstrita apenas ao arbítrio dos editores. No caso das “cotas”, não sejamos ingênuos, fica difícil imaginar que algum juízo prevaleça sobre o da extensão do texto, eis que editora alguma jamais deixará de privilegiar o lucro em detrimento da qualidade.

Do mesmo modo, os autores eleitos somente serão conhecidos num momento posterior àquele em que se adere ao projeto, o que é temerário. Falando por mim, não gostaria de fazer parte de uma antologia sem conhecer o trabalho dos demais selecionados, afinal, a qualidade da obra será diretamente proporcional à habilidade daqueles que a compõem.

O que resulta dessa operação são livros irregulares, retalhos em colchas improvisadas e que ninguém irá, de fato, ler. Muito menos adquirir, à exceção de quem se obriga por contrato.

O que leva, então, um número cada vez maior de autores a buscar esse tipo de publicação?

Vaidade é a resposta. Todo escritor, seja novato, seja experiente, quer ver seu nome impresso num livro real, pouco importando se será necessário entabular um ajuste com o diabo. É como se a publicação fosse, por si, um atestado de excelência. Claro, complementada por uma foto no Instagram ou no facebook do exemplar impresso, à espera de centenas de curtidas fúteis, vazias e entediadas.

É nisso que as editoras que vivem do suor alheio apostam. E é por causa disso que têm vencido.

Some-se à equação a realidade do mercado editorial. Mesmo os autores iniciantes percebem rapidamente que a indústria literária tem no escritor uma peça que pode ser substituída com facilidade.

No afã de ver-se publicado e sabendo que dificilmente terá chances numa editora famosa, que provavelmente nunca verá seus livros exibidos na gôndola de lançamentos de qualquer livraria de renome, o autor termina sucumbindo às antologias “mandou-publicou”, sem se importar com a qualidade dos demais selecionados.

A pergunta que então se faz é: vale a pena?

Se o objetivo é ter seu nome impresso num livro de verdade, então não há o que se discutir. Porém, se falarmos honestamente, a publicação de um conto seu numa antologia obscura mediante paga ou promessa de recompensa pode depor contra suas pretensões de reconhecimento. Muitas vezes a qualidade daqueles com quem se ombreia define o nosso próprio valor e essa generalização é inevitável ante os olhos de quem examina o todo.

Nesse sentido, se qualidade é o que se busca, surge como mais confiável a remessa de originais para as (poucas) editoras pequenas que não exigem pagamento ou participação financeira do autor. Que não são maliciosamente “colaborativas”, que não promovem “antologias” de fachada. A publicação nesses termos, contudo, dependerá de uma análise franca e por vezes demorada, algo que exige do pretendente paciência, maturidade e resignação para entender que, às vezes, não se é tão bom como se imagina.

Outra opção é a autopublicação sem intermediários. Hoje em dia multiplicam-se os tutoriais de editoração na internet e as lojas eletrônicas. Também há gráficas que imprimem livros em pequenas quantidades, com boa qualidade e a preços acessíveis. Se você quer um livro “de verdade” para chamar de seu, este é o caminho mais curto e menos dispendioso. Muito menos que a participação em coletâneas fadadas ao esquecimento e que se esfarelam em poucos dias.

Há ainda os concursos literários que possibilitam, em tese, a premiação e a publicação de autores “talentosos-porém-desconhecidos”. Mas esta é uma vertente espinhosa, merecedora, por isso mesmo, de uma abordagem específica futuramente, com a profundidade adequada.

Contudo, talvez nada disso seja necessário.

Acredito que quem gosta de escrever o faz para ser lido. Antes do dinheiro, é a repercussão do que se escreve que nos motiva a investir horas, dias, meses e anos num conto, numa novela, num romance. E essa repercussão, atualmente, com as redes sociais, tornou-se muito mais factível. Com um bom texto é possível chegar a centenas, por vezes a milhares de leitores. É possível conhecer suas opiniões, suas críticas, saber o que pensam de nossa maneira de escrever. E, o que é melhor: de graça. E para isso não é preciso nenhum atravessador.

Pode estar certo, caro autor, que você terá muito mais leitores ao disponibilizar seus textos na internet do que pela participação em coletâneas-fantoche ou até mesmo pelos livros que vier a publicar. Isso vale muito mais do que uma imagem ou um post embusteiro aludindo a seleções de mentirinha.

Em suma, ao contrário da ideia corrente, ser escritor não depende da inclusão de textos em antologias pagas ou da publicação em papel pelo método tradicional de avaliação de originais. Não depende sequer de ter um livro de verdade com o seu nome sob o título.

Para ser um escritor você só depende de si. Depende só de escrever.

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11 comentários em “Parasitas – Artigo (Gustavo Araujo)

  1. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    15 de fevereiro de 2016

    Grande Gustavo! Como apaixonado por literatura, você abre espaços até com seus direcionamentos. Iniciei o ano com o objetivo de escrever para antologias, para ver se aprendi alguma coisa nos desafios e saí à procura. As primeiras que encontrei foram as colaborativas. Poré, estou numa leitura arrastada de uma antologia e isso me fez refletir sobre o assunto que você abordou e quando fiquei sabendo, corri para ler. Conversando com um outro escritor, que mantem uma editora independente, ele me deu dicas valiosas e uma delas foi o meu site, blog ou facebook de escritor para maior divulgação da minha obra. Aí, somando aquela conversa e o seu artigo, já não sei mais se vou publicar em antologias. Nem pensei tanto em vaidade, mas sim em saber o quanto aprendi em desafio, conforme mencionei, por achar que os critérios de publicação eram mais criteriosos. Muito obrigado!

  2. Fabio Baptista
    14 de fevereiro de 2016

    Já participei de algumas antologias, nenhuma delas tive que pagar.

    Mas, no começo, devido à avidez de ver logo o nome impresso em papel, confesso que cheguei a cogitar.

    Das antologias que participei (na casa de 20, mais ou menos), tive feedback de apenas duas ou três. Um dessas, da Editora Draco, foi um feedback sensacional, pois eram histórias de um nicho de mercado que possui fãs fervorosas (yaoi) e elas acabaram gostando bastante da minha história e me xingaram um bocado por eu ter matado um personagem kkkkkk. Foi uma tarde de divulgação bem legal. Não sei que rumo tomará minha pretensa carreira de escritor, mas falo, sem exagero, que guardarei aquele dia com bastante carinho, independente do que aconteça.

    Teve também uma outra, em que para entrar na antologia era preciso ler os contos para a plateia. Acabou não tendo a porra da antologia, mas foi um dia bem divertido também.

    Cada caso é um caso. Infelizmente, na grande maioria deles, o retorno é zero.

    Mas, o que acho que sempre vale é o ditado – “o que é combinado, não é caro”. Se as regras (referente a pagamento / aquisição de exemplares) estiverem claras e o escritor se dispuser a participar… o que há de se fazer?

    Mas, se me perguntassem, hoje diria que não vale a pena (essas que são pagas).

  3. JULIANA CALAFANGE
    14 de fevereiro de 2016

    muito bom o artigo. vou até mandar pra uns vaidosos ansiosos q eu conheço… rs

  4. Jauch
    13 de fevereiro de 2016

    Em 2005, pesquisa feita pelo IBOPE indicava que 75% da população tinha algum grau de analfabetismo funcional (com 7% sendo analfabeto).

    A coisa parece que melhorou um pouco, mas pelo que eu tenho visto, não muito.

    De maneira geral, as pessoas, independente de classe social ou formação escolar, não conseguem compreender textos escritos.

    Essa incapacidade reflete-se na baixa habilidade que a população tem em avaliar a realidade que a cerca.

    Isso torna muito mais fácil a ação de gente que não tem tantos escrúpulos assim.

    Do ponto de vista de lançar uma carreira de escritor, no Brasil, as antologias (colaborativas ou não), são absolutamente inúteis.

    Generalizando, mas ciente que há exceções que, infelizmente, não mudam o cenário geral, Brasileiro lê pouco, lê mal e não lê antologias.

    Para piorar a situação, as antologias feitas por editoras pequenas carecem de recursos para distribuição, poder de negociação com livrarias, capacidade de realizar propaganda a nível estadual ou nacional.

    Bem intencionadas ou não, elas limitam-se, quando muito, a publicitar em site próprio os livros que publica, onde se encontram, geralmente, para venda.

    Páginas web que NINGUÉM frequenta, com exceção dos próprios escritores que com elas publicam.

    As pequenas editoras “mal intencionadas”, aquelas que usam a vontade alheia para se financiar, geralmente realizam um péssimo trabalho de diagramação e revisão.

    Os livros são, literalmente, horríveis.

    Ou seja, sai caro, é inútil e, em muitos casos, é até ruim para o escritor, pois a primeira impressão é a que fica.

    Edições colaborativas? promovidas por “editoras”?

    Fujam para as montanhas!!! haha

  5. Catarina
    13 de fevereiro de 2016

    Concordo plenamente com você, Chefia. Prefiro escrever gratuitamente para centenas do que pagar parasitas para publicar.

  6. Renato Silva
    13 de fevereiro de 2016

    Olá, Gustavo. Parabéns pelo artigo, muito elucidativo.

    Não serei hipócrita, eu quero mesmo ver algo meu publicado. Quero poder mostrar este livro para a minha família, amigos e ex-professores. Todos os anos, eu digo que irei terminar um romance e publicá-lo, mas sei que esta é uma tarefa improvável de ser realizada num curto prazo. Agora estou mais humildade, me contento, pelo menos por enquanto, em publicar um conto numa “antologia” qualquer.

    Eu até me sujeitaria a pagar, mas após muitos conselhos de amigos, aprendi a procurar somente pelas antologias que não cobram. Estou preparando um conto e tentarei publicar nesta antologia. Não tenho a perder, pois não pagarei por isso.

    Como você falou, escrever deve ser, antes de tudo, um ato de amor, pois é difícil ganhar dinheiro com isso. Eu tô escrevendo porque gosto mesmo e me felicitaria muito ver meus textos publicados em livros de verdade e não arquivos da Amazon, apenas.

  7. Pedro Luna
    13 de fevereiro de 2016

    Um assunto que me entristece pois me traz recordações. Concordo que no fundo, é questão de vaidade mesmo, mas ainda assim, acho que algumas pessoas podem ver de forma diferente, mesmo estando apenas se enganando.

    Digo isso porque tive a experiência de tocar bateria em uma banda. No início, tudo foi difícil demais e os shows eram PRECÁRIOS. Eu amava tocar, mas sinceramente, adorava ainda mais tocar para um público. Por isso nos associamos a uma produtora famosa da cidade, que nos escalava para fazer shows em eventos melhores, no entanto, havia um preço.

    Todo show, nós e outras bandas menores recebíamos uma quantia de 10 ou 15 ingressos e precisávamos vender todos, ou pelo menos mais da metade, para poder tocar. Um lance escroto e mercenário. Se você vendesse pelo menos uns 6, mesmo assim não tocaria no dia do show. Por vezes, vendíamos tudo para amigos e paqueras, mas às vezes, precisávamos COMPRAR os ingressos. Tudo para tocar no dia do show, ganhando pouco ou nada.

    Um absurdo, mas que acontece no país inteiro. Lembrar disso me deixa puto, mas daí lembro de outro detalhe. Após um ano e pouco fazendo isso, pegamos um nome na cidade, gravamos um CD e começamos a fazer shows. Paramos com o lance de vender ingressos e mesmo assim tínhamos agenda. Os fãs apareceram, tinha fã clube até em São Paulo. No fim, a banda acabou por briga entre integrantes.

    Bom, enrolei e falei isso tudo para dizer que talvez, se não tivéssemos vendido esses ingressos e aparecido, nem a parte boa que veio depois nos teríamos. Por isso acho que mesmo se enganando, os autores se sujeitam a participar dessas antologias. É triste, mas dá para entender esse comportamento nos novatos, galera que tá começando agora. É aquela história, você sabe que essas editoras ganham em cima dos novatos, mas se você for falar para eles, quem disse que irão ouvir? Quantos ingressos eu comprei, com os meus amigos me chamando de imbecil, mas eu ficava satisfeito em subir no palco depois e tocar? É triste a situação do artista, mas para alguém que está começando, talvez seja o pouco de alegria que vai ter na ”carreira”.rs. Mas ao mesmo tempo, eu, que vendi os ingressos, não encorajei a produtora safada? E permiti que ela fizesse isso com outros? Cara, definitivamente um tema PESADO e controverso.

    Mas realmente a internet tá aí para desencorajar essas antologias mercenárias. No fundo, a turma ganha em cima do sonho dos outros.

    Espero ter me expressado bem. Bom texto, Gustavo.

  8. Teresa Pouey de Oliveira
    13 de fevereiro de 2016

    Achei o texto válido como forma de reflexão sobre a questão de publicação para novos e desconhecidos autores, mas não concordo totalmente. Já participei de coletâneas e estou prestes a publicar novamente desta forma. É gratificante. Conheço todos os autores e os textos que estarão junto com o meu. Visamos fazer um registro em livro de parte da nossa produção. Sabemos o público que nos lerá, um pequeno e fiel público. O que vier a mais, é surpresa e lucro.

    • Gustavo Castro Araujo
      13 de fevereiro de 2016

      Oi, Teresa, obrigado pela leitura e comentário. Agradeço a forma gentil como você expôs o seu ponto de vista em sentido divergente. Creio que saber de antemão com quem se irá publicar torna o processo menos traumático, de fato. Mas sigo desconfortável com a falta de transparência a respeito dos critérios de seleção e principalmente com a ideia de se estar trabalhando duro para o lucro alheio.

  9. elicio santos
    12 de fevereiro de 2016

    Mas todo trabalho merece a devida contrapartida. O músico toca ou canta em prol de um retorno financeiro, ainda que não viva exclusivamente da música. O ator igualmente. Só o escritor deve escrever de graça a vida toda?

    • Gustavo Castro Araujo
      13 de fevereiro de 2016

      Se você encara a escrita como trabalho, é justo que espere e que receba um pagamento por isso. Mas isso não quer dizer que você o terá, até porque, usando uma premissa da área econômica, a oferta de escritores é muito, muito superior à demanda. Logo, se não for um medalhão, dificilmente será lido se não oferecer seus textos gratuitamente. Mas claro, ninguém é obrigado a nada. Se você não concorda — e tem todo direito quanto isso — ninguém irá forçá-lo.

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Publicado às 12 de fevereiro de 2016 por em Artigos e marcado .