EntreContos

Literatura que desafia.

Eu Quero Ser Como O Vento (André Lima dos Santos)

vento

No alvorecer da última sexta-feira, Daniel acordou e contemplou os raios solares que se espremiam pelas frestas das paredes da biblioteca. Quando dobrou a esquina de uma de suas fileiras de estantes recheadas de livros, observou Sara, sua filha, debruçada em sua escrivaninha predileta, repousando sobre um de seus livros.

Às onze horas da manhã, ele retornou à biblioteca com uma bandeja de chá e biscoitos. Lá estava ela, sentada na mesma escrivaninha, próxima à janela. Ele pôde contemplar o vento cofiar delicadamente o rosto da menina. Os cabelos, por sua vez, se rebelavam e alguns fios se desconectavam, serpenteando pelo espaço iluminado pelas chamas do dia. Ao aproximar-se, notou o exemplar de Frankenstein, de Mary Shelley, aberto na escrivaninha.

— Já está na hora do chá, senhorinha.

— Obrigada, papai.

E foi assim que passaram a manhã da sexta-feira. Beberam o chá, comeram os biscoitos e conversaram sobre os livros. Era aprazível para o pai ouvir as conjecturas de Sara sobre as questões mais ínfimas da vida. Certamente ela aprendera aquelas palavras e as dizia com eloqüência por conta dos livros. Ele já havia se indagado diversas vezes: será que minha filha passa tempo demais com suas fantasias?

Minha filha está crescendo, pensou, ao observar uma expressão mais fria e um olhar mais amadurecido.

Em dado momento, pra lá de meio-dia, enquanto limpava as estantes, ele a surpreendeu sorrindo sozinha, aparentemente sem motivo, como se uma boa alma tivesse acabado de contar uma piada para ela.

— Estou feliz – disse a menina, percebendo que seu pai a observava.

— Se você está feliz, eu também estou feliz – respondeu o pai, aproximando-se.

Seria capaz de dar a vida para manter aquela felicidade eternamente no rosto de sua filha.

— Estou com meu melhor amigo agora – disse Sara,

— O livro? – perguntou.

Intimamente, Daniel torcia para que a menina respondesse negativamente e dissesse que ele era seu melhor amigo, pois Sara era tudo para ele.

— Não. O vento.

O pai a acariciou e deu um beijo em sua testa fria.

— Que tem o vento de tão bom que eu não tenho?

Ela pensou, pensou, pensou…

Poderia ter pensado eternamente. Mergulhou por inteira em sua dúvida e o pai, ansioso por uma resposta, viu-se a esperando em vão.

Às duas horas da tarde, ele levou o almoço em uma bandeja. Mas Sara o recusou, pois estava muito ocupada em sua imersão fantasiosa, adentro mais e mais nas histórias que lia. A fim de dar a mocinha um pouco mais de privacidade enquanto sonhava acordada, ele foi almoçar em outro cômodo. Mas não deixava de ter as dúvidas recorrentes que, vez ou outra, surgiam em sua mente. Enquanto almoçava, pensava se sua filha não estava passando um tempo muito longo dentro de casa.

Às quatro horas, ele veio averiguar se Sara estava com fome. Depositou os pãezinhos na escrivaninha enquanto observava as expressões de sua filha.

— Papai, o que ocorre quando morremos?

— Ninguém sabe, mas vais saber logo se não comeres os pãezinhos.

A menina o obedeceu.

— Você tem medo de morrer? – Sara perguntou ao seu pai.

Ele suspirou. Olhou para o teto enquanto raciocinava em busca da melhor resposta.

— Tenho. Todos têm.

— Por quê? – a menina perguntou.

— Você não tem medo da morte?

— Não – Sara sorriu. – Eu acho que morrer é dar o ponto final. Como nos livros, papai. Como você se sentiria lendo um livro que não tem fim?

O homem estava pensativo. Ele não havia percebido o quanto sua filha havia amadurecido nos últimos tempos.

— Papai, sabe qual é o meu maior sonho?

Ele respondeu negativamente.

— Correr tão rápido, mas tão rápido, que o vento e eu nos tornássemos um só. E daí, eu posso subir no céu e morar em algum arco-íris.

Às seis horas, quando já estava anoitecendo, a solidão o assolou. Em um sofá distante da escrivaninha, chorava baixinho para Sara não ouvir. Era castigado pelos açoites cruéis da angústia. A cada lembrança, uma pontada fria de uma lâmina invisível, uma agonia que enrijecia seus músculos. Quis levantar, gritar por socorro, mas escolheu a miséria íntima, calada. Naquele momento, sentiu como se merecesse que toda dor o penetrasse a alma. Levantou-se às sete horas da noite para conversar com sua filha, pedir para que ela se afastasse da escrivaninha e fosse caminhar com ele lá fora, correr pelas pradarias, caçar borboletas, inflar os pulmões com a pureza do campo, correr tanto e transformar-se em vento… Qualquer coisa que o fizesse abrir as jaulas da culpa e do remorso que faziam morada em seu peito.

Mas ao observá-la acendendo a vela, numa tentativa de enfrentar as trevas que se apoderavam do recinto, tudo para continuar sua leitura, ele recebeu o banho do mar da felicidade, só em poder ver o rosto de Sara. Ela era a fonte, a correnteza, as ondas. Como a amava… Como a bebia, a cada gota de sua formosura, a cada traço de ternura e de inocência, se deleitava com seus olhos graciosos.

— Eu te amo – sussurrou no escuro, sem ser percebido.

Sara foi surpreendida por um abraço às sete e meia da noite. Seu pai uniu seu corpo ao dela. Por um momento, pai e filha foram um só. Um só corpo ocupado por duas almas, um só espaço, uma só conexão, de mente, coração, vísceras…

— Está gostando dos livros? – perguntou.

— Estava gostando mais quando ainda era dia.

— A noite cai para todos, senhorinha.

Ela estava com uma expressão melancólica.

— Traz o sol de volta pra mim? – pediu com sinceridade.

— Prometo trazer às seis da manhã.

Dez horas da noite, o pai deitou-se para tentar dormir. Revirou-se na cama, debateu-se, sentiu uma cólera eclodir da boca de seu estômago. A ansiedade o matava por dentro, primeiro na falta de ar, depois no calor em seus membros. A garganta seca o fez se levantar em busca de um copo d’água. No caminho, passou novamente por Sara. Lá estava ela, sentada em sua escrivaninha. Dessa vez, a menina não estava lendo livro algum.

— O que está fazendo, senhorinha? – perguntou o pai, esquecendo a cólera que o dominava pouco antes.

E ela lhe mostrou os rabiscos que fazia numa folha de papel.

— O que é isso? – perguntou.

— Um arco-íris.

— E esses rabiscos em volta dele?

— Sou eu, voando como o vento.

Às onze horas da noite, ele teve um pesadelo. Um pesadelo abominável, mas que curiosamente não tinha elementos fantasiosos, como nos livros. Foi um pesadelo que poderia ser muito real, daí o assombro que foi tê-lo sonhado. Levantou-se do sofá com o coração acelerado, determinado a acabar com todos os fantasmas que o atormentavam.

Foi à escrivaninha, ainda nervoso, e encontrou a donzelinha chorando. Foi tomado por um acesso de raiva, uma loucura.

— Por que não sai comigo? Vamos correr nas pradarias, vamos rolar na grama! Deixe-me dizer o quanto te amo enquanto as estrelas nos beijam a pele!

Ela apenas chorava.

Em sua fúria, começou a arremessar os livros das estantes.

— Venha, arremesse os livros comigo! Esses livros não prestam para nada! Eles te envolveram em suas fantasias!

Em meio aos gritos de desespero, derrubou uma estante, quebrou o assoalho, arremessou os livros no teto, pela janela, ao longe… No fim, cerca de três horas da madrugada de sábado, a menina parou de chorar.

— Por que está destruindo a biblioteca, papai?

— Não importa, pois agora realizaremos o seu sonho.

Ela sorriu e ele sentiu novamente aquela alegria aquecer o seu peito… Eis a chama de sua existência, eis a razão de sua fortuna: os sorrisos de Sara.

Foi pelos sorrisos que ele a colocou em suas costas e a levou para fora de casa. A chuva fina os abençoou com sua graça, sua limpidez. Depois de dez minutos de caminhada, ele chegou à torre.

— Vamos subir isso tudo, papai?

— Segure firme nos meus ombros.

Mas mesmo com a ordem, ele não tirou a mão direita dos braços da menina. Foi escalando a torre metálica com dificuldade, mas chegou até a altura desejada.

— Está preparada?

— Sim, papai! Sim!

— Você me ama?

— Muito! Agora vamos logo!

Ele soltou um sorriso, agraciou-a com um beijo.

— Vamos ao vento! Seremos o vento!

Saltaram da grande altura, sentiram as gotas de chuva acertando suas faces. Desciam em grande velocidade. As correntes de ar navegavam pelos seus corpos, de repente, próximo ao solo, o pai sentiu uma corrente de ar deslizando pelo seu peito, deslizando com tanta força que estava fazendo-o levitar. Ele fez força enquanto sentia a própria natureza fazê-lo içar vôo. Quase se chocou com o solo, mas sentiram uma felicidade imensa quando finalmente estavam voando.

— Yuuuuupiiii! – gritava Sara, de felicidade.

Estavam voando por cima das pradarias, a uma velocidade que já estava próxima à velocidade do som.

A menina, em suas costas, gargalhava de alegria.

— Eu me tornei o vento! Eu me tornei o vento!

Ele fazia manobras no ar, piruetas, parafusos, voltas e mais voltas. Passou por um vilarejo, viu as pessoas acordando, viu um menino trabalhando em uma hortinha.

— Olhe! Filha! Olhe aquele menino!

Mas ela já estava dormindo em seus ombros. Como poderia dormir num momento desses? Mas ele não se importou, continuou seu vôo como se tivesse nascido para isso.

Agora passava por uma grande cidade, deu voltas em um hospital. Viu um casal de jovens, feliz, segurando um bebê. Eles estavam tão encantados com a criança que nem perceberam pai e filha dando um rasante próximo à janela. Mas ele prosseguiu, voltou às pradarias e por fim, viu um homem solitário com sua filha, caminhando em volta de uma casa, carregando lenha e uma chaleira.

Decidiu, então, subir mais. Fez um movimento brusco e cortou o céu. Subiu em alta velocidade, passou pelas nuvens, deu adeus…

Às seis e meia da manhã do último sábado, um homem caminhava pelas pradarias. Viu dois corpos no pé da torre. A chuva havia dado uma trégua. O caminhante viu um corpo em decomposição, cheirando muito mal, abraçado a um homem de meia-idade, ensangüentado, definhando. Virou o quase-morto de barriga pra cima. O homem de meia-idade ia sentindo os fios da vida se afrouxando de seu corpo, ia fechando os olhos devagar. A última coisa que viu, graças ao raiar do dia, foi um lindo arco-íris decorando o céu.

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40 comentários em “Eu Quero Ser Como O Vento (André Lima dos Santos)

  1. Pedro Luna
    2 de janeiro de 2016

    A menina estava morta ou o sujeito se suicidou com ela? Eu achei bem bacana, e apesar de ter sacado que não tinha nada de ninguém voando ali, ficou uma imagem bonita aquele passeio. O conto é bem escrito e conserva um climão melancólico que foi fruto da habilidade do autor. Gostei.

  2. vitor leite
    2 de janeiro de 2016

    parabéns. Queria dizer mais qualquer coisa, mas tenho medo de estragar o meu comentário e a única coisa que posso dizer é isso: parabéns. Gostei muito não só pelo suspense e atmosfera que consegues desenhar, mas também por me fazeres parar e olhar para os meus filhos, aqui ao meu lado, cada um a ler o seu livro. daqui a pouco um deles vai dizer, Vamos voar? e eu vou responder um maluqueira qualquer. muitos parabéns, vi um pouco da minha vida aqui, que mais posso querer?
    Muito bom: “Quis levantar, gritar por socorro, mas escolheu a miséria íntima, calada.”

  3. Cleber Duarte de Lara
    2 de janeiro de 2016

    Síntese Crítico-construtiva
    O desespero do pai ficou bem expresso durante o texto, chega a contagiar a leitura em muitos trechos, essa intensidade que assume os momentos alternados de alegria e dor com a presença/ausência de Sara. Conto muito bem escrito. Só corroboro a opinião de alguns que comentaram de que certos trechos ficaram um tanto exagerados, sugerindo uma possível patologia do personagem.

  4. Wilson Barros Júnior
    2 de janeiro de 2016

    Dessa vez Frankenstein aparece com força total, tanto literalmente como sob forma de um criador conflituoso. O conto é bem escrito e muito, muito triste. Mostra muito bem o resultado da loucura e depressão (e da falta de tomar a medicação). Os diálogos entre o pai e a filha são fascinantes, e aí está o valor do conto.

  5. Thiago Lee
    2 de janeiro de 2016

    O final foi perturbador até para aqueles, como eu, que sacaram que ela não estava viva.
    Este foi um dos poucos contos aqui que me fisgou do início ao fim.
    Parabéns pela ótima narrativa e por um conto muito bem escrito!

  6. Lucas Rezende
    2 de janeiro de 2016

    Demais o conto!
    Me deu uma bad depois que eu terminei, é o que o Gustavo disse, a gente sabe que ela não vai chegar viva no final mas a gente torce pro contrário. Não me toquei que ela estava morta em momento algum.
    Parabéns ao autor, só tenho elogios a fazer, mas como outros já fizeram não tenho mais nada a apontar.
    Boa sorte!

  7. Bia Machado
    2 de janeiro de 2016

    Um conto que foi impactando aos poucos, conforme as suspeitas foram se confirmando. Provavelmente os colegas já apontaram o que é necessário com relação a estrutura, o que pra mim foi pouca coisa. Achei que o enredo foi uma boa sacada, principalmente por não entregar nem ao final o que aconteceu. Sim, eu pensei uma coisa, mas outro leitor pode pensar algo diferente. Me incomodou o parágrafo em que um incesto é sugerido. Se não foi esse o caso, seria melhor rever. No mais, parabéns por um conto tão angustiante e dolorido.

  8. G. S. Willy
    1 de janeiro de 2016

    No último parágrafo, entendi que a menina estava morta há muito tempo. Porém, para mim, não houve nenhuma dica durante a leitura que me levasse a pensar isso, mesmo eles falando sobre a morte em determinado momento. Aliás, estava achando tudo normal demais. Pode-se dizer que o fim do conto me foi totalmente inesperado e tive que reler para saber se perdi alguma dica. Talvez se a menina não falasse, se o homem fingisse tudo, e o leitor ficasse pensando que ela que não quer falar com ele por algum motivo, enfim, imaginando as cenas, elas ficam sem sentido.

    Sobre a escrita, ela é boa, tranquila de se ler, mas corrida em alguns pontos, e pouco descritiva.

  9. Davenir Viganon
    30 de dezembro de 2015

    Gostei da história. Não saquei que ela estava morta, mas peguei a dica e fiquei no desconfiado durante a leitura. A parte final eu achei perturbadora, fiquei viajando na fantasia e em paralelo consegui formar as imagens que ele observava no “voo”. Triste pra caramba.

  10. Antonio Stegues Batista
    29 de dezembro de 2015

    O bom conto tem como base a ideia, o argumento. Nesse, se não fosse a ideia que se revela no último parágrafo, abriria espaço para muita discussão negativa. Não adianta você usar semântica e enfeitar o texto com palavras bonitas, se a ideia não é boa. Gostei. No início pensei em incesto. O motivo pelo qual a garota morreu não é revelado abertamente. O corpo da menina estava em decomposição quando o pai dela morria e isso revela que ela estava morta há dias.
    O pai, olhando para a filha morta, dialogava com ela e em certo momento ela, ou o remorso do pai, sugeria que ele se matasse: “Eu acho que morrer é dar um ponto final. Como nos livros, papai. Como você se sentiria lendo um livro que não tem fim?”
    E o pai resolveu dar um fim àquela situação.

  11. Fil Felix
    28 de dezembro de 2015

    Gostei muito do conto, da meneira como foi conduzida e das questões levantadas. Quando eles começam a voar tentei entrar na magia e nas cenas alegóricas, gostei de como criou essas imagens, tem grande tato com as palavras!

    Bom, sobre o tal do spoiler…. Eu imaginei que o pai tivesse alguns problemas do passado (a morte da mãe, talvez?) e que isso o estava perturbando. Talvez ler fosse o hobbie dela, por isso a filha o incomodava nesse ponto. Depois se jogaram do penhasco num último pingo de esperança e transformação. Não enxerguei ela morta ou estupro que comentaram em nenhum lugar!

  12. Daniel Reis
    28 de dezembro de 2015

    Triste esse conto, no bom sentido – com um toque de desespero. Deixa muita coisa em elisão, várias perguntas sem resposta, apenas sugerindo alegoricamente. Sinceramente, não gostei do final escatológico e, principalmente, dos diálogos que me pareceram “construídos” na primeira parte.
    COMENTÁRIO APÓS LER OS COMENTÁRIOS
    Esse conto foi o primeiro que realmente fiquei vendido e precisei acrescentar comentário antes de postar o comentário original – não tinha chegado à conclusão que a menina estava morta, mesmo! Tive que voltar e ler tudo de novo. Continuei sem ter essa imagem clara. Fiquei atento a uma série de imagens e alegorias que não tinha percebido, mas, a não ser pelo parágrafo que fala do estupro (e que eu não quis acreditar que seria isso quando li pela primeira vez), não consegui entender qual história realmente aconteceu. Mesmo assim, ficou acima da média, parabéns!

  13. Anorkinda Neide
    28 de dezembro de 2015

    Ahh que conto melancólico…
    Ahh.. não li os comentários para não perder o enlevo triste que estou sentindo com a leitura, mas aí descendo a página não me contive de ler teu comentário com o spoiller sobre a condição da menina e no meu peito deu um nó…rsrrss
    .
    O que me ficou na mente depois da leitura foram algumas questões… ele dormia na biblioteca, pq? pq a menina não fazia outra coisa senão ler? pq o pai não a levava pra passear? pq ela desatou a chorar?
    .
    Dae que estas dúvidas quase tiraram o brilho que este conto tão bonito tem… Não sei se gostei da ‘condição’ da menina, me afeiçoei a ela, gostei das falas dela e do papai a chamando de ‘senhorinha’… achei uma delícia, apesar da situação doentia de não sair da escrivaninha, isso me deixou agoniada (agora sei pq, mas durante a leitura me deixou agoniada…rsrs)
    .
    Bem, tenho que parabenizar-te pela beleza de teu texto, mas vc tem q rever esta importante informação sobre a menina, pq no texto isto não fica claro, nem por um momento, ao menos para mim… mesmo com a descoberta dos corpos, não imaginei… snifs… fiquei triste por ela e pelo papai…
    .
    Acho que a biblioteca não estava destruída como na imagem do desafio, não é?
    Abração e boa sorte!

  14. Leonardo Jardim
    27 de dezembro de 2015

    Caro autor, seguem minhas impressões de cada aspecto do conto antes de ler os demais comentários:

    📜 Trama (⭐⭐▫▫▫): achei um pouco estranha. O texto tinha tudo para me conquistar, mas escolheu caminhos obscuros. A contagem das horas acho que meio sobrou, pois num determinado momento desisti de acompanhar a passagem. Até a parte em que a menina apenas lia, eu acompanhei empolgado. Quando o pai começou a ter ataques de tristeza, estranhei, pois sinceramente não vi os motivos. O ataque à biblioteca foi estranho, mas o salto mais estanho ainda. Qdo pensei que eles iam se espatifar no chão, voaram e eu pensei se tratar de uma fábula. Mas o final trouxe à realidade estranha. Quem se mataria junto com a filha por um desejo impossível? Não entendi o final. Pode ter mais alguma coisa aí que não pesquei.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): um dos motivos de eu achar que ia gostar muito desse texto foi a técnica aplicada. O autor escolhe bem as palavras, tem vocabulário rico e utiliza algumas nossas metáforas. Tirando um errinho ou outro, uns exageros e repetições, o texto é muito bom nesse quesito.

    🎯 Tema (⭐⭐): a biblioteca é o ambiente principal do texto e foi, sim, destruída.

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): o texto possui uma dose de novidade com as emoções do pai perante à filha e o final, não posso negar, é arriscado e criativo.

    🎭 Emoção/Impacto (⭐⭐▫▫▫): como já disse, esse texto tinha tudo pra me agradar em cheio, com escrita elegante e relacionamento entre pai e filha, mas os caminhos escolhidos foram muito estranhos e, infelizmente, gostei muito pouco do texto. Pontos apenas pelos sentimentos conflitantes que senti ao ler. Talvez esse fosse o objetivo do autor.

    💬 Trecho de destaque: “Era castigado pelos açoites cruéis da angústia. A cada lembrança, uma pontada fria de uma lâmina invisível, uma agonia que enrijecia seus músculos.”

    🔎 Problemas que encontrei:
    ◾ observou *Sara*, *sua* filha, debruçada em *sua* escrivaninha predileta, repousando *sobre* um de *seus* livros (repetição de palavras com s)

    • Leonardo Jardim
      27 de dezembro de 2015

      Esse é o maior perigo de postar um comentário antes de ler os demais. Sinceramente não percebi que a menina estava morta desde o início e meu comentário acima reflete essa leitura.

      Após ler os comentários, que vi isso e tudo fez muito mais sentido. Portanto, vou dar mais uma estrela para a trama e a emoção. A trama faz muito mais sentido assim e as emoções que senti também.

      Ainda assim, acredito que o autor poderia ter deixado mais claro no final que ela estava morta desde o início, pois eu não fui o único que não tive essa percepção.

  15. Andre Luiz
    25 de dezembro de 2015

    Achei fantástica a forma como você inseriu imagens e situações em seu conto de forma que fossem bastante “camufladas”, o que me rendeu diversas dúvidas quanto à real pretensão do pai da garota. Apenas através dos comentários abaixo que pude realmente entender um pouco mais da história, e depois de reler o conto, realmente ficou muito claro para mim que tudo pode ter sido um delírio doentio. Boa sorte!

  16. Catarina Cunha
    24 de dezembro de 2015

    TÍTULO belíssimo. O FLUXO intimista, com frases bem construídas e enxutas me encantaram, mesmo que a TRAMA seja emocionalmente exagerada para o meu gosto, mas há de se reconhecer o mérito do autor; quase me emociono. Os PERSONAGENS possuem uma relação tão forte que deixou a “culpa” suspensa pelo vento emoldurando o arco-íris. FINAL que autoriza o leitor a continuar a história. Ainda bem que você não foi claro.

  17. Neusa Maria Fontolan
    20 de dezembro de 2015

    Minha visão para este conto.
    É a loucura de um homem após ter violentado e matado a filha que tanto amava. Isso ficou claro no trecho: “Qualquer coisa que fizesse abrir as jaulas da culpa e do remorso que fazia morada em seu peito”
    Ele quer acreditar que ela ainda vive, tanto que lhe traz alimentos, conversa com ela, a ouve e a vê como em vida.
    A filha está muito tempo dentro da casa, isso o incomoda, mas não percebe a razão.
    O pesadelo o despertou e ele percebeu o que precisava fazer.
    Apenas voar com sua filha pra sempre.
    Ótimo conto!
    Parabéns.

  18. Leandro B.
    19 de dezembro de 2015

    Oi, Sant’Albertini.

    Seu conto está entre os meus favoritos. Cada frase, cada elemento parece ter um motivo muito especial para ter sido escrito. Foi na descrição do abraço que” antevi” o final. Entre aspas, porque só tive certeza mesmo quando terminei de ler.

    Achei a sua construção muito boa. Se teve algum erro de revisão, se perdeu na minha leitura. É o tipo de história com conteúdo o suficiente para se reler e criar teorias para cada espaço aberto.

    Não tenho crítica negativa. Parabens pelo trabalho rico.

  19. Simoni Dário
    19 de dezembro de 2015

    O texto é muito bonito, tocante, algumas passagens deixam a pulga atrás da orelha como já comentaram. Para mim ficou claro desde o começo que a menina estava morta, mas não atrapalhou em nada pelo desenvolvimento excelente do enredo e pelo desfecho, digamos, belo e macabro ao mesmo tempo. EU deixaria só o belo, mas um conto pede às vezes um impacto em seu final, e aqui ele existe, literalmente (rss). Bom conto, fácil de ler.
    Bom desafio!

  20. Gustavo Castro Araujo
    17 de dezembro de 2015

    Gostei do conto. Em certos momentos, percebi meu próprio estilo nas entrelinhas. Percebi a preocupação do autor em entremear questões filosóficas a uma narrativa que apela (no bom sentido) para as emoções do leitor.

    Não enxerguei a menina morta desde o início. Para mim, ela ainda estava viva quando Daniel a encontra “dobrando a esquina das prateleiras”. Os diálogos colaboraram para essa sensação de “realidade”. Não percebi, ou pelo menos não quis perceber, as dicas de que ela já havia se transformado em “vento”. Devido à proximidade entre pai e filha – algo que me cativou e com que me identifiquei – preferi acreditar que, de alguma forma, o final que se afigurava evidente poderia mudar. Essa é uma qualidade e tanto num texto: sabe-se de antemão qual será o destino dos personagens, mas mesmo assim prossegue-se na leitura torcendo para que, no fim, alguma coisa aconteça e todos se salvem.

    Algo assim ocorre quando se lê, por exemplo, “O Diário de Anne Frank”. Sabe-se desde a primeira linha que ela e a família – à exceção do pai – morreram em campos de concentração, logo depois de ter o esconderijo em que viviam descoberto pela Gestapo. Mas, mesmo assim, a gente persevera com uma vã esperança de que ela, no fim, escape, que a história foi outra e que viva feliz para sempre.

    O que quero dizer é que mesmo quando se sabe que o final é triste, é possível aproveitar a leitura, gostar do texto, ou, numa expressão mais honesta, “gostar de odiar o texto”. Creio que é isso o que ocorre aqui. Mesmo em uma leitura como a minha, que acreditou que a menina estava viva no início, pode-se perceber, ainda na metade, que ela, de alguma forma, não chegará viva até o fim, apesar de toda a torcida em sentido contrário.

    Porém, ao contrário do que normalmente ocorre, o autor soube amenizar a tragédia e, à base de uma fantasia bastante sensível, deu à dupla um final feliz.
    Gostei da prosa, gostei da fluidez e do ambiente onírico criado. De revés cito apenas um trecho:

    “Sara foi surpreendida por um abraço às sete e meia da noite. Seu pai uniu seu corpo ao dela. Por um momento, pai e filha foram um só. Um só corpo ocupado por duas almas, um só espaço, uma só conexão, de mente, coração, vísceras…”

    Leitores mais apressados podem entender esse parágrafo de maneira errada, apostando que o amor do pai pela filha tem algo de incestuoso. Sugiro a você, caro autor, que para manter a pegada mais inocente, de amor paterno puro e simples, promova algumas alterações. A não ser, é claro, que a intenção seja realmente essa, de causar desconforto e desconfiança na audiência, o que não acredito.

    Enfim, parabéns pela narrativa e boa sorte no desafio!

    • Fabio Baptista
      17 de dezembro de 2015

      Foi exatamente esse trecho destacado que mais me fez pensar besteira…

  21. Piscies
    17 de dezembro de 2015

    Solidão, tristeza e sombras. Foi o que senti lendo o conto. Sara traz consigo uma atmosfera surreal, cheia de significado e mistério. Não se comporta como uma criança se comportaria, tornando sua personagem interessante e curiosa.

    Daniel é complexo e repleto de conflitos. Sente alegria, alívio, tristeza, solidão, angústia, cólera… tudo no correr do dia. Gostei dele: de como ele é humano, realístico e palpável.

    O enredo é confuso, deixando que o leitor tome suas decisões (ou eu não pesquei algo e acabei ficando confuso no final). Sara era real? Sara já estava morta no início do conto? Minha interpretação foi que Daniel e sua esposa tiveram Sara e depois a perderam por alguma razão, então sua esposa cometeu suicídio, deixando-o sozinho com o fantasma da filha que atormentava sua mente. No final, não podendo mais aguentar o peso da perda, desenterrou (?) a esposa e jogou-se de cima da torre em um ato simbólico e também muito real, onde deixou a sua vida e tornou-se um com o vento, livre para ir onde quiser com a filha e a esposa.

    Ou, vendo de outra forma, Sara, tomada por suas fantasias, esgueirou-se para fora de casa durante a noite, jogou-se da torre e morreu. Daniel, acordando em meio a pesadelos, não encontrou a sua filha e correu pela noite chuvosa até encontrar o seu corpo. Mortificado, tomou também a própria vida, não aguentando mais viver sem a esposa e a filha.

    Foi difícil desvendar o enredo com as únicas dicas sendo o voo pelo hospital e pelo campo. De qualquer forma, ambas as minhas interpretações são um tanto shakespearianas. Bonitas em sua tristeza e sinceridade.

    Não notei de forma clara o papel dos livros e da biblioteca no conto. Eles têm peso na narrativa, mas pouco significado; ou o significado fugiu de mim.

    Sobre a técnica: ela está quase ótima. Nota-se que o autor escreve muito bem e tem domínio da língua, além de um bom vocabulário. Faltou apenas um pouco mais de luz nas frases, as vezes um tanto simplórias. De qualquer forma, foi uma leitura gostosa e leve, fácil de entender e que passa muito bem as imagens descritas.

    Algumas sugestões de melhoria:

    – Em certo trecho no início do conto, existe uma repetição exaustiva de “Escrivaninha”.

    – Em outro trecho mais adiante, outra repetição exaustiva de “pesadelo”.

    – No trecho “Quase se chocou com o solo, mas sentiram uma felicidade…” senti uma falha de concordância. Não seria “…mas sentiu uma felicidade…” ou “Quase se chocaram…”?

    Parabéns pelo conto!!

  22. phillipklem
    17 de dezembro de 2015

    Olá.
    Que conto fantástico, meu amigo.
    Toda a narrativa é permeada com uma atmosfera triste, quase etérea, o que nos faz sentir muito bem o que o conto tem para passar. Adoro contos que nos fazem sentir.
    Um suspense muito bem elaborado. Durante todo o texto eu imaginei que a menina estivesse morta, mas não tinha certeza.
    O pai, mesmo que de modo um pouco doentio, a amava demais. Foi bom ver sua fúria explodir por não conseguir mais ver sua filha para sempre sentada, lendo. Por querer sair para viver com ela todas as alegrias que sonhava ter vivido quando ela estava viva. E foi emocionante, quase recompensador, vê-lo finalmente em liberdade, voando com sua mais amada nos braços, senão em vida, na eternidade.
    Meus parabéns autor. E muito obrigado por nos carregar pelas mãos durante doto o caminho e nos trazer até este final arrebatador.
    Boa sorte.

  23. Jowilton Amaral da Costa
    16 de dezembro de 2015

    Bom conto. Covardia isso para quem tem duas filhas, como eu. Meu maior medo hoje em dia é que alguma coisa muito grave aconteça com elas. Muito bem escrito, envolvente, um suspense mediano, já que dá para supor que a menina estava morta. O conto todo é enevoado, com uma atmosfera triste, cinza, mas, com passagens muito bonitas. Parabéns.

  24. Claudia Roberta Angst
    16 de dezembro de 2015

    Conto bem escrito que revela, ao mesmo tempo,beleza e tristeza.
    Os lapsos de revisão já foram apontados. Então, não serei repetitiva aqui.
    Interpretei o vento como a imaginação da menina, que a levava a viajar,voar para outro mundo, através das suas leituras. O pai, ciumento, quis proporcionar o último voo à menina, ele mesmo sendo o vento. Viajei muito aqui?
    A relação entre pai e filha pareceu-me bastante estranha. Tanto carinho, desvelo, os corpos unidos como um só… hummm… este amor ficou bem deturpado. Como a menina morreu? Doente? Ou assassinada pelo pai?
    O conto prende a atenção com suas voltas poéticas, a expectativa de algo acontecer e abate nossos sonhos bem no final. A menina morta, bem antes do seu pai que moribundo ainda contempla um arco-íris como aquele desenhado pela filha. Trágico.Poético. Drama na veia!
    Boa sorte!

  25. Claudia Roberta Angst
    16 de dezembro de 2015

    O conto é bonito e triste, tudo ao mesmo tempo. Só no final, o leitor dá-se conta que a menina, leitora voraz, já havia morrido há um bom tempo. Não se pode precisar quanto tempo, mas sem dúvida, bem antes do voo com o pai.
    A relação entre pai e filha, mesmo com toda essa poesia, carrega uma estranheza que perturba. Tanta fixação na mocinha, ciumes dos livros, loucura por ter perdido sua companhia, tudo faz com que pensemos que o amor aí estava um pouco(ou muito) deturpado. Como ela morreu? Doente?Ou o pai a matou?
    Interpretei que a menina quando viva ‘voava’ através dos livros, das histórias que encontrava nas páginas lidas. O pai, ciumento, invejava esse ‘vento’ que fazia a filha voar. Por isso, quis se fazer vento para ser o provedor do último voo da menina.Viajei muito?
    Enfim, o conto está muito bem escrito e a leitura flui fácil e prazerosa. Boa sorte!

  26. Rogério Germani
    14 de dezembro de 2015

    Olá, Sant”Albertini!

    Um fato tem que ser alardeado: sua escrita é primorosa, as imagens e diálogos nos conduzem fácil pelos enlevos do vento.
    Talvez daí eu tenha sentido um estranhamento entre a poesia subliminar e o enredo macabro. Chega a ser doentia a fixação do pai pela filha morta, ainda mais sabendo que os sorrisos de Sara são a chama da existência dele. Quem ama de verdade quer o ser amado livre, jamais “… debruçada em sua escrivaninha predileta, repousando sobre um de seus livros. ”
    Além do uso de conjugação verbal equivocada numa fala, outro falha encontrada foi esta:

    “Mergulhou por inteira em sua dúvida e o pai, ansioso por uma resposta, viu-se a esperando em vão.”

    …, viu-se a esperar em vão.
    ou
    …, viu-se esperando em vão

    Qualquer uma das formas supracitadas soaria melhor.

    Volto a repetir: seu estilo é arrebatador. Mas, infelizmente as combinações aplicadas no enredo ficaram morbidamente deslocadas. É como se o vento pinta-se o arco-íris apenas com o breu existente no olhar do pai de Sara.

    Boa sorte!

  27. Fabio Baptista
    14 de dezembro de 2015

    Tem aquela velha “regra” que o conto tem apenas duas oportunidades de conquistar o leitor: no primeiro parágrafo, ou na última linha.

    Esse aqui é caso genuíno de conto que conquista na última linha (em todo o último parágrafo, na verdade… mas última linha é a que de fato arrebata). É ali em que todas as pontas são fechadas e tudo faz sentido de um jeito que chega a emocionar.

    Antes, não estava curtindo muito a narrativa, estava lendo apenas um conto pouco acima da média. O sentimento “bizarro” permeou toda a leitura… apesar de apenas sugerir, não pude deixar de pensar em abusos e, após a revelação, necrofilia. Pode ser que não fosse nada, mas é mais ou menos o espírito dessa tirinha:

    – seu / sua / seus / suas
    >>> Parece que estou numa cruzada contra esses termos kkkkk
    Mas acredito que grande parte deles (tornou-se bem repetitivo e me incomodou na leitura) poderia ser substituído por artigos ou simplesmente suprimidos. Exemplos:
    “Expressões de sua filha” >>> “Expressões da filha”
    “Sara perguntou ao seu pai” >>> “Sara perguntou ao pai”

    – dar a mocinha
    >>> à

    Bom conto, até o último parágrafo, onde o patamar é elevado sensivelmente.

    Abraço!

  28. Arthur Dias.
    14 de dezembro de 2015

    Eu não teria outra palavra para descrever esse conto: INCRÍVEL!!!

    Confesso que quando me indicaram o site, não imaginei que teriam contos tão incríveis nesse desafio como “Maltraçadas”, “Clube dos Amigos de Outubro” e este agora, “Eu Quero Ser Como o Vento”.

    Que final arrebatador! O conto tem uma narrativa muito envolvente, com muita beleza e poesia. É uma verdadeira obra de arte.

    Tive algumas percepções que se encaixam no final:
    A menina estava lendo Frankenstein. Ou seja, dar vida a uma matéria morta.
    O homem diz que “a noite cai para todo mundo”, ou seja, claramente uma referência a morte e a menina pede para ele “trazer o sol de novo”. Eis que ele responde que trará novamente as seis da manhã, hora que coincide com sua morte!

    O conto é RIQUÍSSIMO, o meu favorito até então. Parabéns ao autor e a todos os demais. O desafio caminha muito bem!

    “Como a amava… Como a bebia, a cada gota de sua formosura, a cada traço de ternura e de inocência, se deleitava com seus olhos graciosos.”

  29. Evie Dutra
    11 de dezembro de 2015

    Nossa.. que final!
    Estou encantada com a sua escrita! Me manteve curiosa e concentrada do início ao fim. Parabéns.
    Quanto aos personagens… esse pai é um pouco bizarro, não? hehe.. e você soube construí-lo muito bem. Amei o ambiente do conto e amei mais ainda a descrição do voo dos dois. Foi encantador! Como já disse, amei sua escrita.
    Mas o final… foi a cereja no topo do bolo! Você não podia ter terminado melhor.
    Parabéns!

  30. Eduardo Selga
    11 de dezembro de 2015

    O conto apresenta uma grande qualidade: o uso da ação que foge à lógica da causalidade racionalista, procedimento comum e até necessário ao texto literário inserido no discurso do insólito, como é o caso deste. Exemplo de causalidade um tanto mágica é a corrente de ar que faz os corpos se transformarem em vento e voarem antes de se espatifarem no solo. A atitude intempestiva do pai de destruir a biblioteca, embora pareça, não chega a se incluir no exemplo, pois os livros disputavam com ele a atenção da filha.

    A torre é outro elemento do discurso do insólito. Observe-se que não é um elemento arquitetônico que encontre justificativa na paisagem como, por exemplo, árvores encontrariam sem que para isso fosse necessário qualquer explicação do narrador. A narrativa se passa na Idade Média? Não parece, dado que o texto sugere que pai é um homem contemporâneo. Além disso, uma criança nesse período histórico não era uma pessoa alfabetizada. Aliás, nem os adultos, de um modo geral.

    Não se trata de uma falha, uma incoerência, nada disso. Cito para mostrar que a torre destoa intencionalmente do todo, ajudando a construir o insólito. A torre, que é um elemento arquetípico, portanto fartamente encontrável nas narrativas humanas desde tempos imemoriais, a torre se associa à ideia de elevação espiritual. Como o pai apresentava ideias suicidas e a filha lidava com a morte de modo bem tranquilo (o que funcionou como um convite à morte, para ele), a escolha desse elemento, a torre, que aparentemente surge no meio “do nada” é bem feliz. Ele escala a torre com a filha no intuito de atingir com ela uma espécie de Nirvana, impossível na “vida real”, por causa dos livros e da biblioteca.

    A torre, também, possui evidente conotação fálica. Ligando isso ao ciúme que o protagonista sente da filha em relação aos livros, temos uma leitura interessante e complementar à anterior.Não é à toa que após a queda ocorre uma grande sensação de prazer (o vento no rosto): é a representação do orgástico, do enorme desejo sexual que o pai nutre pela filha, que chega mesmo a explicitar , em “[…] vamos rolar na grama! Deixe-me dizer O QUANTO TE AMO enquanto as estrelas nos beijam a pele!”.

    O (a) autor (a), contudo, num primeiro momento sugere passar das medidas na escolha vocabular. Refiro-me ao uso de “pradarias”. Essa palavra, não obstante correta, pertence ao imaginário construídos pelos contos de fadas, a atmosfera edênica que eles gostam de erguer. Outra que pertence ao mesmo time é “bosque” ao invés de floresta, não usado pelo (a) autor (a) mas que cito para reforçar a ideia de vocábulo clichê, utilizado por ser considerado “bonito”, “elegante” ou qualquer bobagem similar. Pradaria é o local onde há prados, ou seja, espaço aberto com plantas herbáceas. Trocando em miúdos, pradaria é campo, a pastagem vasta. Reproduzo um trecho do texto.

    “[…] pedir para que ela se afastasse da escrivaninha e fosse caminhar com ele lá fora, correr pelas pradarias, caçar borboletas, inflar os pulmões com a pureza do campo, correr tanto e transformar-se em vento…”

    “Correr pelas pradarias”, “caçar borboletas”, “inflar os pulmões com a pureza do campo” (campo?!), são todas elas imagens de um cenário paradisíaco. Chega a lembrar certos filmes da indústria cultural, como “A Noviça Rebelde”. Portanto, pode soar exagerado. Mas essa sensação diminui se entendemos que a intenção do pai é viver com a filha em um lugar meio encantador, divinal, edênico. Por isso atira-se com a menina da torre, para atingir esse lugar mítico. Logo, o trecho usado como exemplo e a palavra “pradarias” se encaixam nos sentimentos do pai e em sua visão estereotipada de felicidade.

    Há algumas incoerências no texto. O narrador diz: “Minha filha está crescendo, pensou, ao observar uma expressão mais fria e um olhar mais amadurecido”. Alguns parágrafos após ele volta com ideia similar: “O homem estava pensativo. Ele não havia percebido o quanto sua filha havia amadurecido nos últimos tempos”. Se antes ele havia percebido sua filha já mais amadurecida, não caberia logo depois negar essa percepção e assumir ares de surpresa.

    O uso da segunda pessoa está equivocado. Talvez para dar certo ar de grandeza à fala, o personagem diz: “Ninguém sabe, mas VAIS saber logo se não COMERES os pãezinhos”, após já ter usado você em lugar de tu. Eis a frase: “Se VOCÊ está feliz, eu também estou feliz – respondeu o pai, aproximando-se”. A mistura dos dois pronomes, um implícito nos verbos e outro explícito, é incoerência para a qual não encontrei motivos no texto.

    • Sant'Albertini
      11 de dezembro de 2015

      Olá Eduardo!

      Muito obrigado pelos elogios, fico MUITO feliz com sua crítica. Adorei ler. É um sentimento de satisfação absoluto, visto que a arte serve justamente para isso: expressão.

      Quanto às críticas negativas:

      1 – A “incoerência” que você apontou foi proposital. Talvez eu não tenha escrito da melhor forma possível, falha minha, o que ficou dando a impressão de ser um problema de revisão.

      2 – Sobre a conjugação verbal que você destacou, foi apenas um recurso estilístico que eu utilizei, mas você tem razão, ficou meio “nada a ver”.

      Agradeço muito pela crítica!

  31. Daniel I. Dutra
    11 de dezembro de 2015

    Eu também consegui prever no meio do conto que a menina já estava morta. O que “entregou” foi o diálogo sobre a morte.

    Não estou dizendo que é um defeito (e nem creio ter sido a intenção do outro comentarista afirmar tal coisa). Tanto que coloquei “entregou” entre aspas.

    Na verdade o nome disto é “foreshadowing”. É quando o autor dá uma dica sutil do que está por vir ao leitor. Por ex: teve um episódio do The Walking Dead onde os personagens estão a dias sem comer e um quis que poderia comer qualquer coisa, e o que eles encontram mais adiante? Canibais.

    No caso do conto o “foreshadowing” foi bem aplicado porque revela sem revelar, ou seja, o leitor suspeita que ela esteja morta, mas fica curioso em confirmar sua suspeita porque a dica é sutil.

  32. Brian Oliveira Lancaster
    10 de dezembro de 2015

    MULA (Motivação, Unidade, Leitura, Adequação)

    M: História interessante, com jeitão de fábula, com detalhes levemente bizarros, que causaram calafrios (como as atitudes bipolares do pai e diálogos ‘estranhos’ direcionados à uma pequena menina).
    L: Faz sentido aplicar a destruição de um cômodo a um momento de insanidade. O lado físico ficou um tanto de lado, mas a essência permaneceu e ganhou espaço maior.
    U: Nada me incomodou. Tem passagens inspiradas, mas alguns diálogos pediam um pouquinho mais de lapidação. Dependendo, é claro, do que o autor quis transmitir.
    A: O final ficou meio previsto quando entra a torre em questão, mas o jeito que você conduziu, com a conclusão misturando poesia com balde de água fria, caiu bem.

  33. Gabriel
    10 de dezembro de 2015

    De alguma forma eu consegui prever no meio do conto que a menina já estava morta, teoria que se confirmou no final da história. mas isso não tira os méritos de um grande texto!

    Comecei a ler o seu conto em um ambiente barulhento, no trabalho. Tive que parar pela metade para voltar a ler em casa, pois não estava conseguindo absorver as informações, o que pode ser visto como um ponto negativo, visto que exige MUITA atenção

    Mas você escreve muito bem mesmo, e eu fiquei até emocionado com os parágrafos finais. Como já disseram, é um conto bem melancólico.

    meus parabéns!

  34. Ida Márcia
    9 de dezembro de 2015

    Uau!

    Que surpresa que tive no final do conto! Muito bem escrito, um ar bem poético, melancólico… Eu adorei!

    Depois que reli, consegui perceber diversas referências sobre o final do conto rsrs
    Achei sensacional. Nota 10!

  35. JULIANA CALAFANGE
    9 de dezembro de 2015

    Você escreve muito bem, escolhe muito bem as palavras, com poesia, levando o leitor a voar junto com você. Só achei confuso a história dos livros e do vento. Porque aparentemente não há conexão entre as histórias e o vento. E sinceramente me pareceu que a menina gostava mais das histórias dos livros, do que do vento, ou de voar. Quando o pai destrói a biblioteca é q voar se torna importante mais para ela no texto, e consequentemente para ele. Talvez vc devesse trabalhar melhor essa relação vento-livro-menina. Mas gostei bastante do conto, viajei com vc a cada linha, parabéns!

    • Sant'Albertini
      9 de dezembro de 2015

      Muito obrigado pela crítica. Fico extremamente feliz em ler que você “viajou comigo a cada linha”. Haha

      Sobre a confusão

      *** SPOILER ***

      Geralmente não gosto de explicar os meus contos, mas não quero que você saia com uma impressão de dúvida, haha.

      A menina parecia ler muito porque na verdade já estava morta e o pai a conservou naquela posição, sentada na escrivaninha, como ela gostava.

      Desculpe se não fui claro. Haha Abraços!

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Publicado às 9 de dezembro de 2015 por em Imagem e marcado .