EntreContos

Detox Literário.

Vazio Tóxico (Leonardo Jardim)

maskgas

Caminhando pelas ruas abandonadas da cidade, Horácio observava, através das lentes embaçadas da máscara de gás, as vitrines destruídas em busca de algum suprimento útil. Era o terceiro dia que não conseguia comer e seu estômago exigia qualquer alimento tal qual um bebê recém-nascido clama desesperadamente por leite. A sede era pior, pois água potável era artigo raro e já havia bebido, num momento de desespero, até mesmo a própria urina. A cabeça doía muito e os passos eram trôpegos, reflexos da desidratação. Estou me sentindo como um homem perdido no deserto, ele pensava. Não sei mais quanto tempo vou durar se não beber água.

Essa terrível rotina repetia-se desde a explosão que transformou a cidade em uma zona de guerra. Horácio tinha muito pouco conhecimento sobre as causas do ocorrido. Sabia apenas que um grande centro de pesquisas havia explodido e espalhado conteúdo tóxico por toda a cidade. Ele estava na biblioteca da escola onde lecionava e demorou a perceber que a vida de milhões de habitantes havia sido destruída. Entretinha-se na leitura de um clássico da literatura brasileira, até ser interrompido por agentes sanitários vestidos de trajes de borracha da cabeça aos pés.

Dali, lembra-se de terem colocado uma máscara de gás nele e de voltar correndo para casa. O trajeto demorou horas, pois as ruas estavam travadas por engarrafamentos intransitáveis. Corpos de pessoas mortas ou doentes acumulavam-se pelas calçadas e dentro dos veículos. Tinha cinquenta anos e seu corpo não estava acostumado a esforços físicos. Quando finalmente chegou, viu exatamente aquilo que temia: sua esposa e filha não haviam resistido à atmosfera tóxica. Depois disso, em meio ao desespero emocional que corroía sua alma, lembrava-se vagamente de ver na TV que a cidade fora colocada em zona de quarentena: ninguém mais poderia entrar ou sair até que a situação fosse contornada.

Quantos anos já se passaram? Quatro, cinco, dez… Já não sei mais. Com o racionamento e o colapso dos serviços básicos, começaram os saques e uma guerra civil se instalou. O mundo externo tinha apenas medo de que a situação fugisse do círculo de contenção e, afora uns poucos grupos humanitários, a maioria não queria de fato saber dos sobreviventes — ou mesmo se havia alguém vivo lá dentro.

Enquanto fazia essa retrospectiva, em busca de um motivo para continuar sobrevivendo, Horácio avistou algo literalmente caindo do céu. Correu até o local de aterrisagem o mais rápido que suas juntas envelhecidas eram capazes e avistou uma grande caixa de suprimentos pousando de paraquedas. Olhou ao redor com intuito de verificar se não aparecia mais alguém e aproximou-se com bastante cautela. Assim que chegou, retirou a tampa, pegou duas garrafas de água mineral e colocou no bolso interno do paletó.  Empilhou algumas latas grandes de comida em conserva que carregaria com as mãos. Estava desidratado e seu corpo implorava por um gole, mas não podia arriscar tirar a máscara ali a céu aberto. Precisava encontrar um local seguro.

— Ei, velho — ouviu de uma voz abafada quando começava a se afastar. — Devolve a nossa comida.

Olhou pelo ombro e viu dois homens com roupas amarelas de proteção química segurando fuzis AK-47. Droga! Quase consegui sair despercebido. Minha boca está seca. Estou com muita sede. Posso ficar mais um dia sem comida, mas preciso dessa maldita água. Apoiou as latas cuidadosamente no chão.

— Estão aqui. Levem tudo. Não quero confusão.

— Revista ele — ordenou o maior deles.

O menor se aproximou e começou a tateá-lo de forma brusca. Quando conseguiu observar o rosto por trás da máscara, Horácio percebeu que era um menino de, no máximo, treze anos. Ele vai encontrar as águas. Preciso fazer alguma coisa. Quando o pequeno saqueador enfiou a mão por dentro do paletó e segurou uma garrafa, o velho, num gesto de desespero, agarrou o fuzil do garoto, arrancando-o de sua mão. O menino caiu no chão com a garrafa de água se espatifando e espalhando o líquido precioso pelo solo poeirento. Ainda tenho outra. E vou lutar até a morte por ela.

— Eu não quero nada de vocês! — gritou. — Só levar a garrafa que tenho comigo. — Apontou a arma para o menino no chão.

— Vovô, vovô. Não faça isso… — disse aquele que parecia liderar.

Então Horácio atirou. Não no menino, mas naquele que dava as ordens. Quando uma bala perfurou seu tórax, ele caiu no chão com uma expressão de espanto. Ele não achou que eu fosse atirar. São tão despreparados como eu. Logo ouviu vozes de outro grupo se aproximando — um bando bem maior. Fitou rapidamente o menino no chão, que retribuiu com olhar profundo e triste, como o verso derradeiro de um poema de despedida. Coitado, não sabe o que o aguarda… Mas já tenho problemas suficientes. Saiu correndo antes que os saqueadores aparecessem. Deixou para trás as latas de comida e o pouco de humanidade que restava em sua alma.

Correu até as juntas doerem e o pulmão desistir de processar o oxigênio filtrado pela máscara de gás. Precisava urgentemente encontrar um refúgio. Percebeu-se em uma área isolada do subúrbio, com mais residências — em ruínas — que prédios. A guerra sem dúvidas passou por ali e levou vidas e sonhos. Uma casa cujo primeiro andar parecia razoavelmente intacto chamou sua atenção. Atravessou um buraco na parede e viu-se onde um dia fora uma sala. Um sofá descansava triste num canto e a TV de tela plana jazia atingida por uma rajada de tiros. Uma porta permanecia trancada e uma escada subia para lugar nenhum. Olhou a cozinha e constatou que já havia sido saqueada há muito tempo.

Voltou a atenção para a porta. Alguma coisa a pressionava por dentro. Forçou um pouco mais e conseguiu arrastar um móvel que impedia a abertura. A porta permanecia pesada, pois as dobradiças estavam emperradas, mas após muito esforço, Horácio finalmente conseguiu entrar. Percebeu rapidamente que se tratava de uma biblioteca.

Fechou a porta e sentiu-se seguro para retirar a máscara e beber a água pela qual precisou matar. Só então, reparou seu novo refúgio. Estava em melhores condições que os demais cômodos — ao menos tinha todas as paredes de pé. O reboco do teto despencara e as vigas de madeira estavam expostas. Algumas estantes tombaram — como uma que caíra sobre a porta — e poucos livros continuavam em seu local de origem — a maioria espalhava-se pelo chão. Num canto, jaziam um sofá sujo e um móvel que um dia podia ter sido uma escrivaninha. E, próximo a eles, o mais espantoso: uma pequena menina de cachos castanhos e vestido florido estava deitada de bruços sobre um livro colorido.

— Ei menina, o que está fazendo aqui? — perguntou, assustado.

— Ahn?! — Ela levantou sobressaltada. — Quem é você!?

— Calma! Não vou te fazer mal.

— Como entrou na minha casa?

— Eu… eu… — Horácio percebeu que aquela menina não era uma sobrevivente da quarentena. Nenhuma roupa ficaria limpa e cheirosa naquele lugar. E ela tem um rosto muito inocente. Só pode ser uma maldita alucinação. Decidiu não a assustar. — Eu sou o novo jardineiro.

— Papai não me contou que tinha um novo jardineiro. — Ela olhou para baixo, chateada. — Ele nunca me conta nada.

Ela parece um pouco com minha filha quando era pequena, ele pensou, remoendo recantos obscuros de sua memória. Será que é um fantasma?

— Qual o seu nome, querida?

— Bia. Você não sabe?

— Não, seu pai também não me contou que tinha uma filha. O meu é Horácio.

— O que tá fazendo aqui? Nunca ninguém vem aqui.

— Promete não contar pra ninguém? — perguntou, emendando uma piscadela de cumplicidade.

— Prometo — ela respondeu, beijando os dedos indicadores em cruz.

— É que eu gosto muito de ler e achava que a biblioteca estava vazia.

— Que legal! Também gosto muito de ler. — Mostrou-lhe o livro que a entretinha. — Essa aqui é da Chapeuzinho Vermelho, conhece?

— Conheço. Você não fica com medo do lobo mau?

— Por que? — Fez uma expressão de dúvida. — Sabia que o caçador mata ele no final e tira a vovozinha da barriga dele?

— Quando eu contava pra minha filha, a vovó estava trancada no armário e o caçador só espantava o lobo.

— Mas eu já sou grande. Já entendo dessas coisas. — Mostrou uma mão espalmada. — Já tenho cinco anos.

Várias perguntas preenchiam a cabeça de Horácio, mas o sorriso e a inocência daquela criança o cativaram e colapsaram quaisquer outros pensamentos.

— Muito grande e esperta. Posso ler pra você?

— Oba! — ela gritou empolgada, sentando-se perto dele de pernas cruzadas com aquela ansiedade que apenas mentes infantis são capazes de gerar. — Pode ler esse? — Retirou um exemplar impecável de Peter Pan da estante e entregou na mão dele. Horácio podia jurar que ele não estava ali antes.

— Era uma vez um menino que não queria crescer… — Mal começou a história e a barriga dele roncou tão alto que Bia riu.

— Ei, você tá com fome. — Olhou para ele com olhar de preocupação, levantou e caminhou em direção à porta. — Espera aqui que vou pedir pra Tia Maria fazer alguma coisa pra você.

— Mas não conta pra ela sobre mim.

— Não! Vou dizer que é pra mim. — Piscou sem jeito e saiu saltitando.

Horácio pensou em impedi-la. Ela não pode se arriscar sem máscara lá fora. E não vai ter força para abrir a porta. Mas a criança abriu com muita facilidade e saiu.

O que foi isso, meu Deus? Ao mesmo tempo em que a sua mente racional tentava convencê-lo de que aquela menina linda de cachinhos castanhos e vestido florido cheirando a lavanda não poderia existir naquele mundo — no seu mundo —, outra parte de si estava muito feliz por conhecer a pequena Bia. Aquele era, sem dúvidas, o melhor dia que tivera desde a explosão. Mas ela não deve voltar. Foi uma alucinação, uma peça que minha mente me pregou.

Alguns minutos depois, a porta tornou a abrir. Ele segurou o fuzil, num reflexo que adquirira naquela nova vida. Toda a adrenalina sumiu instantaneamente quando surgiu dela a pequena Bia, que carregava nas mãos uma bandeja de aço inoxidável com um sanduíche e um copo de leite.

Horácio bebeu o copo num só gole e engoliu o sanduíche tão rápido que arrancou alguns risinhos da menina.

— Você estava com muita fome mesmo, né? — Aquele sorriso era capaz de alimentar sua alma de forma mais intensa que pão e presunto alimentavam seu corpo. — Também adoro o sanduíche da Tia Maria. É muito gostoso.

— Desculpe. É que não almocei hoje. — Há dias, na verdade, ele pensou, mas não teve coragem de dizer.

— Eu tenho que ir. — Ela pegou a bandeja, meio triste. — Tia Maria falou que tá na hora de escovar os dentes e dormir.

— Isso, princesa. Vá e sonhe com os anjos.

— Você vai dormir aqui?

— Não. — Ele sorriu com a pergunta inocente. — Claro, que não. Vou terminar o serviço no jardim e vou dormir na minha casa.

— Você pode contar a história amanhã?

— Posso, sim. Estarei aqui no mesmo horário, tá bom?

Assim que ela fechou a porta, Horácio cerrou os olhos e teve a melhor noite de sono de que se recordava.

Acordou na manhã seguinte e decidiu não se arriscar na rua. Sentia-se razoavelmente bem alimentado. Não foi um sonho. Se fosse, eu ainda estaria com fome. Ele passou o resto do dia lendo alguns livros com intuito de gastar o tempo — e matar a saudade de uma boa leitura. Não lembrava da última vez que teve aquela sensação gostosa de ansiedade, como uma criança que conta os dias para uma viagem de férias. Queria, de toda forma, que a menina de cachos castanhos surgisse logo naquela biblioteca em ruínas trazendo luz para o seu coração coberto de trevas.

E, no horário programado, a porta abriu. Bia trazia a bandeja cintilante com o precioso lanche. Receberam um ao outro com largos sorrisos de amizade. Uma amizade que mal havia começado, mas ambos sabiam que era verdadeira. Ela o aguardou terminar o lanche antes de pedir para contar o resto da história.

— E Peter Pan se despediu de seus amigos e voltou para a Terra do Nunca. Fim.

— Muito legal! — ela comentou.

— Bia — ele chamou, após fechar o livro —, posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— Seu pai ou a Tia Maria leem jornal?

— Sim. A Tia Maria lê. Eu gosto daquela parte com as histórias desenhadas em quadradinhos.

— As tirinhas…

— É. A do Snoopy é muito legal!

— Você pode pegar pra mim? Sem deixar ninguém saber?

— Posso. Peraí. — Levantou num pulo em direção à porta.

Quando retornou, trazia nas mãos, o jornal do dia, que exibia em grande parte da capa a foto de um jogador de futebol comemorando uma vitória importante. Será que fora da quarentena eles ainda vivem uma vida normal?, ele pensou rapidamente, mas logo concentrou-se em olhar para a data de publicação. E quando viu, sentiu uma tontura como se seu cérebro tivesse sido chacoalhado em vários ciclos de uma máquina de lavar. O tabloide era datado de 08 de dezembro de 2015, vinte anos antes da explosão.

Isso não faz sentido. Nada faz sentido. Ele tentava encontrar alguma lógica em tudo aquilo, mas não conseguia. Não entendia nada de teoria da relatividade, física quântica ou viagens no tempo, mas tinha certeza que alguma coisa havia ocorrido naquela biblioteca. Era como se ela coexistisse no seu tempo e no passado. E se a tal Tia Maria ou alguma faxineira entrar por aquela porta? Será que elas vão me ver aqui? Aquilo era muito complicado para um professor de português.

Uma coisa era certa: não podia ficar ali por mais tempo. A qualquer hora outra pessoa entraria por aquela porta e ele não imaginava o que poderia ocorrer. Mas tão logo chegou a essa conclusão, apoderou-se dele uma tristeza tão profunda quanto o abismo aberto em sua alma, pois nunca mais poderia ver o sorriso sincero e inocente da pequena Bia.

— O que foi, tio? — ela perguntou após observá-lo por muito tempo.

Ele olhou para aqueles olhinhos curiosos. Queria poder vê-los todos os dias, mas não era capaz de fazer isso com ela. De alguma forma, ele estaria mudando a personalidade dela e não sabia se era a coisa certa.

— Querida — ele disse com um nó na garganta —, o tio vai ter que ir embora.

— Por quê?

— Porque… — pensou numa desculpa qualquer —, porque minha mãe tá doente e vou ter que voltar pra casa.

— Você viu isso no jornal?

— Não — ele sorriu. — Ela gosta muito de futebol. E senti falta dela vendo essa foto.

A menina fitou o chão tentando esconder as lágrimas que começavam a brotar.

— Você vai voltar um dia?

— Ah, Bia, querida, quem sabe?

As gotas que caíam dos olhos inocentes da criança pingavam no chão da biblioteca, mas não o limpavam a poeira. Deviam estar molhando o piso de madeira encerado que existia ali antes de tudo ruir.

— Sabe onde tem um papel e caneta? — Horácio perguntou.

— Meu pai guarda aqui. — Ela pegou em um lugar próximo aos escombros de madeira que um dia fora uma escrivaninha. Provavelmente a caneta e o papel repousavam sobre aquele móvel que, para Bia, apresentava-se em perfeito estado.

Enquanto ele escrevia uma mensagem, Bia rabiscava uma outra folha. Ele a dobrou e ela fez o mesmo.

— Promete pra mim que vai ler isso só daqui a vinte anos?

— Por quê?

— Promete? O tio precisa que você prometa.

— Prometo. — Ela tentava enxugar as lágrimas.

— Então leva isso pro seu quarto e guarda num lugar onde ninguém vai encontrar. E só abra em 10 de dezembro de 2035. Coloquei a data aqui.

— Tá bom! Já entendi! — Ela pegou o papel e entregou o que tinha em mãos. — Você também. Só abre quando for embora.

— Tudo bem. Tchau, Bia. — Abriu os braços e ela se jogou neles, num abraço forte e apertado. — Nunca vou te esquecer, tá?

— Tá bom.

Ele abriu a porta com bastante dificuldade devido ao peso. Olhou mais uma vez para a menina que tentava sorrir por entre as lágrimas. Acenou e abandonou os escombros da casa em ruínas.

Caminhou cambaleante pelas ruas da cidade devastada. O rosto sem máscara de gás — abandonada propositalmente na biblioteca — trazia um sorriso, daqueles que apenas um homem que acredita que cumpriu seu destino consegue esboçar. Bia, querida. Espero que leia a mensagem e saia da cidade antes da explosão. Sobreviva e mude sua história. Abriu o papel que ela entregou, desdobrando-o diversas vezes. Era um desenho infantil de um homem barbudo de paletó carregando um livro. Estava de mãos dadas com uma menina de vestido florido. Observou a figura por muito tempo e deixou as lágrimas escorrerem de seus olhos cada vez mais vermelhos. Instantes depois, desabou no chão.

A alguns quilômetros, fora do círculo de contenção, uma jovem de cabelos cacheados vestia um jaleco branco com uma cruz vermelha e colocava suprimentos em uma caixa. Ela fitou o céu avermelhado naquele exato momento e — sem saber exatamente o motivo — começou a chorar.

Anúncios

69 comentários em “Vazio Tóxico (Leonardo Jardim)

  1. André Lima dos Santos
    3 de janeiro de 2016

    Um dos meus contos favoritos do desafio!

    A ideia é muito boa, o final é arrebatador e cheio de carga emocional. Para ser excelente, faltou um capricho maior no desenvolvimento, em minha opinião. Ficou muito preso o início, bem desanimador. Demorei para esquentar e me ver dentro do conto.

    O autor é muito habilidoso. Boa sorte no desafio!

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Obrigado, André. Pena que não conseguiu comentar a todos a tempo.

      Concordo que deveria ter enxugado ainda mais o início do conto, revelando a menina mais cedo. Tive pouco tempo pra escrever e se esse conto tivesse tido um processo menos apressado, acho que ficaria bem melhor.

      Obrigado mesmo pelos elogios!

      Abraços.

  2. Jowilton Amaral da Costa
    2 de janeiro de 2016

    Um bom conto, com uma ótima ambientação. pecou um pouco nos diálogos, mas tem passagens bem bonitas. Não é um dos meus favoritos aos três primeiros lugares, porém, receberá uma boa nota. Boa sorte.

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Valeu, Jowilton, o atual portador do Livro do Tico. Não acertei sua autoria, mas você acertou a minha. Fiquei feliz por receber uma boa nota sua 🙂

      Abraços.

  3. vitormcleite
    2 de janeiro de 2016

    antes de ler este texto, estive a ouvir uma entrevista a um escritor português que disse: “não deixes que te roubem o futuro” e depois a tua personagem guardou uma folha até ao ano de 2035. foi bonito. Escrita fluente de fácil leitura apesar que por vezes tive que parar e voltar um pouco atrás com a mistura entre os pensamentos do protagonista e a própria narração, mas gostei, parabéns e muito boa sorte

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Valeu, Vitor. Que bom que gostou! A parte dos pensamentos do personagem não ficou muito boa mesmo. Tentarei melhorar na próxima.

      Abraços.

  4. Cleber Duarte de Lara
    2 de janeiro de 2016

    Síntese Crítico-construtiva
    Com uma descrição na medida e um estilo bem definido, o autor(a) poderia mesmo investir em uma narrativa de ficção científica convincente, mas optou sabiamente por não tentar explicar demais (e correr assim o risco de se enrolar em tecnologias malucas que não domina o suficiente para descrever), ao invés disso abriu caminho pelo insólito. Essa mistura deu um tom geral muito rico e variado, da crueza da guerra assassina de inocências à observação de uma inocência irrecuperável. Muito bom, Parabéns! Abraço!

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Obrigado pelo comentário, Cleber. Tentar explicar viagem no tempo é sempre complicado. Pensei várias vezes em colocar algumas explicações baseadas na explosão do centro de pesquisas, mas desisti. Achei melhor deixar em aberto e essa foi, sem dúvidas, uma boa decisão.

      Esse contraste da guerra pós-apocalíptica com a pureza infantil era justamente o que eu queria passar. Que bom que gostou.

      Bem-vindo ao EC!

      Abraços.

  5. Wilson Barros Júnior
    2 de janeiro de 2016

    Cara, é revoltante o que fazem com o mundo em busca de lucros exorbitantes. O conto é um protesto, até sugiro um desafio com o tema lixo tóxico aqui, para fazermos a nossa parte. Infelizmente o conto conseguiu ser muito realista, até profético. A capacidade do autor provocou arrepios. Há muito eu não lia um conto apocalíptico tão bom, desde “Chung Li”, de John Christopher, ou “Café no Crepúsculo””, de Philip K Dick, que tem a mesma circularidade temporal tão bem implementada aqui. Meus sinceros parabéns.

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Caro Wilson, que bom que participou do desafio. Seus comentários são sempre muito bons de se ler. Você foi o único, aliás, que pegou a pequena referência que fiz à tragédia do Rio Doce: acidentes causados por ganância afetando a vida de milhares/milhões. Agradeço as comparações, fiquei muito feliz com elas.

      Abraços.

  6. Thiago Lee
    2 de janeiro de 2016

    Oi!
    Primeiramente, sua ambientação foi primorosa. Senti-me dentro deste mundinho que você criou, e pude sentir na pele a angústia do personagem.
    Entretanto, há alguns pontos que me saltaram aos olhos. O texto tem muita descrição, por vezes, desnecessária. Uma melhor revisão poderia “enxugar” mais o tempo e deixá-lo mais dinâmico. Também não curti os pensamentos do personagens, me soaram meio irreais.
    Fora isso, excelente conto! parabéns!

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Valeu, Thiago. Fico bastante feliz que tenha gostado da ambientação. Como disse abaixo na resposta ao Lucas, concordo que podia ter enxugado mais. Sobre os pensamentos, já me arrependi de colocá-los 🙂

      Abraços.

  7. Lucas Rezende
    2 de janeiro de 2016

    Apesar de comum isso da carta, ficou bem legal. Ele conseguiu salvar a menina que futuramente se tornou enfermeira para ajudar as vítimas da tragédia.
    Só achei que a história durou mais do que precisava, nada que influencie na avaliação, mas poderia ter se resolvido mais rápido. Achei que tem bastante coisa fazendo volume.
    Gostei do conto.
    Parabéns e boa sorte!

    • Leonardo Jardim
      4 de janeiro de 2016

      Valeu, Lucas. Sim, precisava enxugar mais. Escrevi na véspera do fim do prazo e revisei no dia. Cortei muita coisa, mas fiquei com medo de cortar demais e estragar a trama.

      Mas que bom que gostou assim mesmo!

      Abraços.

  8. Bia Machado
    2 de janeiro de 2016

    O começo meio descritivo, muita informação desnecessária, “fazendo volume”. As frases que mostram o pensamento da personagem me soaram artificiais: alguém pensa daquela forma? Porém, quando o homem encontra a menina, a coisa muda bastante de figura e me animo mais. E quando vejo que é sobre uma das temáticas de que mais gosto, fico muito feliz! Até porque vi que essa parte ficou bem mais desenvolvida. Só acho que devia fazer com que ela abrisse a carta antes do dia… Quem sabe tudo não poderia ser evitado? Mas aqui já é um desejo de fã do tema, rs. Valeu a leitura! 😉

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Obrigado pelo comentário, Bia (xará da pequena do conto).

      Reconheço alguns dos problemas que citou. Sobre ele ter tido a chance de evitar tudo, dê uma olhada na minha resposta ao comentário do Willy. Tentei explicar um pouco sobre isso.

      Abraços.

      • Bia Machado
        3 de janeiro de 2016

        Depois eu vi a resposta, Leo! 😉

  9. G. S. Willy
    1 de janeiro de 2016

    A ideia do conto foi interessante. Consegui sentir o medo e o cansaço do protagonista no começo, entrando em seu mundo. Quando a garota surgiu muitas perguntas apareceram, mas logo foram sanadas, ou quase isso. Gostei da ideia de que o protagonista sabe tanto quanto a gente sobre o que aconteceu. O que ficou faltando para mim foi alguma explicação, não precisava ser em minúcias, do motivo da biblioteca ser algum tipo sala atemporal.

    Além disso, problemas que toda história com viagem no tempo tem, a mensagem deixada por ele foi meio burra. Por que ele não tentou se salvar, escrevendo para ela encontrar com ele antes da explosão? Por que ele não explicou na carta tudo o que sabia para que ela, de alguma forma, tentasse parar a explosão, talvez com exemplos de coisas que iriam acontecer no futuro dela como prova? Enfim, viagens no tempo sempre causam vários tipos de questionamento.

    Por fim, o principal ponto de melhora para o(a) autor(a) seriam os diálogos. Ficaram irreais e sem vida em grande parte, e pouco da narrativa evoluiu com eles.

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Willy, obrigado pelo comentário.

      Sobre os diálogos, parece que vacilei dessa vez mesmo, pelo menos muitos reclamaram.

      Sobre a questão dele poder evitar a explosão, tinha um parágrafo que escrevi que tentava trazer essa dúvida na mente dele. Achei que estava sobrando e tirei, mas ele não sabia como evitar a explosão. Ele pensou à respeito e achou melhor não arriscar a vida dela. Simplesmente pediu para que ela saísse da cidade, achou que poderia pelo menos salvar a vida dela. Foi uma coisa boa que ele acreditava necessário para expurgar os pecados de sua alma.

      Abraços.

  10. Davenir Viganon
    30 de dezembro de 2015

    Gostei do conto. A sacada da biblioteca como túnel do tempo, a leitura fluiu, a história foi bem contada e não ficou nem um pouco arrastado. Isso que eu estou lendo as 2 e meia da madruga.

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Valeu, Davenir. Que bom que ajudei a te manter acordado durante a madrugada 🙂

      Abraços..

  11. Antonio Stegues Batista
    29 de dezembro de 2015

    Fiquei com algumas dúvidas a respeito do produto tóxico. O que duraria tanto tempo no ar? Se foi um gás, como ficou confinado numa só região, e ainda ocorrendo uma guerra civil?

    Achei legal a biblioteca como sendo um portal para o passado. As descrições ficaram boas, deu para imaginar a cidade destruída e o protagonista vagando pelos escombros em busca de comida e água.

    O encontro dele com os garotos poderia ter sido mais explorado, mais denso. Ao contrário foi rápido. Numa situação assim, o que vale é a lei do mais forte.

    No final, a garota já adulta, chora sem saber o motivo? Se ela leu a carta, com certeza sabe que o homem que a escreveu, está naquela cidade onde aconteceu a explosão. Não é coincidência que ela é enfermeira e está colocando mantimentos numa caixa. Como enfermeira, ela pode ir ajudá-lo…

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Antonio, não quis explorar muito essas questões, pois não era o foco do conto e o protagonista simplesmente não sabia de maiores detalhes.

      Mas para não deixá-lo no escuro: eu pensei em algum tipo de pó tóxico que se espalhou pela cidade com a explosão. Ele ficou contido dentro da cidade devido à proteção que criaram no círculo de quarentena, mas como não sabiam como coletá-lo, simplesmente lacraram a cidade. Não tinha como o Horácio saber, mas foi a empresa que causou a explosão a responsável por fazer a quarentena.

      Justamente por isso, por não saberem como conter o pó, ninguém podia entrar nem sair do círculo. A Bia adulta era uma que gostaria de poder entrar, mas não podia. E fazia o que estava a seu alcance para diminuir o sofrimento daqueles lá dentro. E era uma das que lutava para que a empresa resolvesse a situação de uma vez por todas. Enquanto, na verdade, eles queriam mesmo é empurrar o problema com a barriga.

      Obrigado pelo comentário.

      Abraços.

  12. Daniel Reis
    29 de dezembro de 2015

    Conto interessante, com uma história completa, boa premissa e o tema biblioteca bem inserido. Aconselho apenas rever algumas frases, que ficaram com dicção de dublagem (um exemplo: “Posso ficar mais um dia sem comida, mas preciso dessa maldita água”) ou com um tempero um pouco convencional ou mesmo esquisito (exemplos: “Quando finalmente chegou, viu exatamente aquilo que temia”, “Fitou rapidamente o menino no chão, que retribuiu com olhar profundo e triste, como o verso derradeiro de um poema de despedida” e “Uma porta permanecia trancada e uma escada subia para lugar nenhum.”)

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Obrigado pelo comentário, Daniel. Concordo com você que algumas frases ficaram forçadas, mas outras das quais você citou eu gostei bastante de escrever 🙂

      Abraços.

  13. Fil Felix
    29 de dezembro de 2015

    Conto muito bom, desses que consegue criar um mini mundo em poucas palavras. Gostei de como tratou a biblioteca como uma espécie de portal no espaço tempo, de como conectou as duas realidades. O uso da criança também é interessante, trazendo ao final tanto a morte quanto a esperança. Legal que o conto se basta, não fiquei com a impressão de que algo está faltando.

    O texto também está muito bom, conseguimos enxergar essa cidade destruída e a aflição do protagonista. Mesmo sendo um tema bastante explorado, alguns pontos deram um toque a mais de emoção, como o momento em que ele mata o garoto na roupa amarela.

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Obrigado mesmo, Fil. Que bom que gostou do texto! Queria passar o sentimento de distopia para depois encaixar a menina. Ainda não sei se funcionaria bem sem isso.

      Abracos.

  14. Leonardo Jardim
    27 de dezembro de 2015

    Caro autor, seguem minhas impressões de cada aspecto do conto antes de ler os demais comentários:

    📜 Trama (⭐⭐⭐⭐▫): é muito boa. O trecho inicial e as descrições de como ocorreu a tal explosão foram muito grandes, poderiam ser um pouco reduzidas. Apesar de muito interessante, a luta pela água durou tempo demais, pois o mais importante para a trama era a menina e ela só surgiu no meio do texto. Mas, quando ela surge, a história encanta e o final é muito bonito.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): muito boa, com poucos erros (anotei alguns abaixo), narração fluida e algumas poucas, nas boas, metáforas no texto. Para a nota máxima, precisaria arriscar um pouco mais nas figuras de liguagem.

    🎯 Tema (⭐⭐): a biblioteca demorou a parecer, mas é o foco da trama.

    💡 Criatividade (⭐⭐⭐): muito criativo o lance da biblioteca coexistir em dos tempos.

    🎭 Emoção/Impacto (⭐⭐⭐⭐⭐): o texto mexeu com meu coração de pai e me conquistou. O contraste entre o início, na parte em que descreve o ambiente caótico, e o fim, na pureza de Bia, foi o maior mérito do texto. O fim era previsto, mas fechou bem. Muito bonito.

    💬 Trecho de destaque: “Deixou para trás as latas de comida e o pouco de humanidade que restava em sua alma.”

    🔎 Problemas que encontrei:
    ◾ Quando retornou, trazia nas mãos (sem vírgula) o jornal do dia
    ◾ As gotas que caíam dos olhos inocentes da criança pingavam no chão da biblioteca, mas não *o* limpavam a poeira

    • Tankian
      2 de janeiro de 2016

      Obrigado, Leonardo, pelo comentário. Fico muito feliz mesmo que o conto mexeu com seu coração de pai 😀

      Abraços!

  15. Neusa Maria Fontolan
    27 de dezembro de 2015

    Conto muito bom. Só não gostei deste “sem saber exatamente o motivo” no final, ela sabia exatamente o motivo do seu choro, a lembrança e o agradecimento por aquele amigo que salvou sua vida.

    • Tankian
      28 de dezembro de 2015

      Fico feliz que tenha gostado do conto, Neusa. Sobre o “sem saber exatamente o motivo”, já fazia mais de vinte anos que ela não via o Horácio. Ela não lembrou exatamente dele naquele momento, apenas sentiu um dor no peito e vontade de chorar. Às vezes isso acontece, não?

      Abraços.

      • Neusa Maria Fontolan
        30 de dezembro de 2015

        Mas ela não guardou e leu o bilhete 20 anos depois? Se ela acreditou no bilhete é porque se lembrava, e digo mais, o choro poderia ser também alimentado pela razão de compreender que naquele exato momento seu amigo morria intoxicado, visto que ele deixou a máscara de propósito.
        É só mudar “sem sabe” por “sabendo” que fica perfeito.

  16. Andre Luiz
    25 de dezembro de 2015

    Seu conto foi o que mais gostei do desafio. Já o guardava desde o princípio, tanto pelo título que me contagiou, a premissa de uma história pós-apocalíptica, e também pela imagem que ilustra o conto. Eu sou do tipo de leitor que realmente se envolve com uma história quando ela é contada da forma como você resolveu contar, de forma clara, dinâmica e repleta de reviravoltas. Gostei bastante do cenário que você criou, e mais propriamente do universo que você soube construir para sua trama; também, segundo o colega Gustavo Araújo, o encontro do protagonista com a garotinha na biblioteca deu um toque de “O pequeno príncipe” na história. Boa sorte no desafio!

    • Tankian
      28 de dezembro de 2015

      Obrigado, Andre. Fico realmente muito feliz que o texto o agradou e cumpriu com as suas expectativas. A comparação com o livro de Exupéry me agrada bastante, mesmo eu não tendo pensado nele quando bolava o texto. Provavelmente estava em minha bagagem criativa, pois foi um dos primeiros livros que li ainda bem novo.

      Abraços.

  17. Catarina Cunha
    24 de dezembro de 2015

    TÍTULO muito bom dando sensação de asfixia. O FLUXO não começou bem pelo excesso de descrição, depois melhorou. A TRAMA só começa a partir do 15º parágrafo, quase desisto; o que seria uma pena porque o melhor só acontece a partir daí. Aquela luta pela água, tiroteio e o ambiente catastrófico não precisava ser tão longo, até porque não fez a menor diferença para a trama. Os PERSONAGENS poderiam ser melhor desenvolvidos se não tivesse perdido tantas linhas com palavras descritivas. A ideia do conto é genial e FINAL bem costurado. Faltou apenas seduzir o leitor no começo e cortar passagens desnecessárias. Talvez se fosse uma novela…

    • Tankian
      28 de dezembro de 2015

      Obrigado pelo comentário, Catarina. Concordo quando você diz que poderia ter cortado mais da parte inicial. Na primeira versão do texto, essa parte era ainda maior. Reduzi bastante nas versões posteriores, mas ainda assim concordo que ainda dava pra cortar mais. Minha ideia inicial era mostrar a menina e depois fazer um flashback para mostrar o que aconteceu até ele chegar ali, mas acho que não teria o mesmo impacto. Encontrar uma menina comum e meiga num ambiente devastado só fazia sentido se o ambiente fosse apresentado antes… mas de forma reduzida.

      Abraços.

  18. Gustavo Castro Araujo
    20 de dezembro de 2015

    Gostei do conto. Talvez por enxergar nele meu próprio DNA. Não há ambiente mais adequado do que guerras para falar de esperança, de compaixão, daquilo que nos faz humanos (na melhor concepção da palavra). É nesse tipo de cenário (não exclusivamente, claro), que afloram nossos sentimentos mais belos e complexos, destacando-se o sacrifício.

    Creio que o autor acertou a mão na medida em que colocou um homem embrutecido pelo ambiente degradante em uma biblioteca onde tudo permanece, há décadas, em perfeita harmonia. Acertou também ao não inventar nenhuma explicação mirabolante – certos contextos prescindem disso, ou melhor, repelem isso, sob o risco de se tornarem didáticos, enfadonhos e tolher a liberdade de interpretação do leitor. Por isso, o homem chegou à biblioteca, um portal para outra época da História. Ponto. E isso é perfeitamente suficiente.

    Gostei da relação dele com a menina, ainda que ela pareça um tanto madura para a idade que tem. Numa revisão, sugiro dar a ela uns sete ou oito anos. Digo isso com certo conforto, porque tenho uma filha de seis anos que está longe de ter a maturidade de Bia. Claro, casos há em que crianças se mostram bem desenvolvidas para o verdadeiro estágio etário em que estão, mas isso é exceção. Ao contrário da realidade, a ficção precisa fazer sentido.

    No geral, a prosa do autor é muito boa. O texto flui com facilidade, convidando à leitura e permitindo enxergar com clareza todas as cenas. Como convém a esse tipo de narrativa, não há muito espaço para construções elaboradas ou metáforas fantásticas. A guerra é o que é e ponto. E ao enxergar uma possibilidade de redenção, o contraponto está feito, não sendo necessário mais nada.

    Nesse aspecto, o conto lembra a premissa de “O Pequeno Príncipe”, a obra mais conhecida de Exupéry, que põe frente a frente um piloto de avião e um menino aparecido do nada, tendo como pano de fundo as areias de um certo deserto. Tanto lá como aqui há contraste entre violência e amor, entre realidade e sonho.
    Na parte gramatical não notei erros dignos de menção. O texto foi bem revisado, o que demonstra esmero do autor.

    Notei que o autor mistura os pensamentos do protagonista à narração onisciente. É preciso cuidado com esse recurso – e digo isso porque eu mesmo o utilizo – eis que, usando indevidamente pode resultar em algo teatral e artificial. Ammaniti é mestre nesse aspecto e, pelo que percebo de suas obras (em especial “Como Deus Manda”), ele faz uso desse estilo quando o próprio narrador tende a ser parcial. Nesse sentido, os dizeres do personagem fazem um contraponto ao que o narrador vem contando, como se ambos discutissem (não longamente, mas sim uma “retrucada”), tendo o leitor como testemunha. Creio que dessa forma, o resultado é ótimo. Do contrário, isto é, se o personagem apenas repete o que o narrador acabou de dizer, ainda que com outras palavras, a leitura assume um tom mecânico, artificial. Digo isso tudo porque notei um ou outro trecho que caíram nessa armadilha. Talvez, caro autor, valha a pena atentar para isso, fazendo esse jogo entre as vozes para deixar a leitura mais limpa.

    Em todo caso, não dá para negar, não dá para deixar de repetir, que o conto me agradou bastante. Um dos meus favoritos, na verdade. Obrigado e boa sorte!

    • Tankian
      21 de dezembro de 2015

      Obrigado, Gustavo, pela sua sempre bem elaborada análise. Fico muito feliz mesmo que o texto o agradou. Tive pouco tempo para escrevê-lo e minhas noites tiveram que ser reduzidas para que conseguisse concluí-lo. Mesmo a revisão, que está sendo elogiada, foi bastante apressada. Enfim, eu acreditava na ideia e lutei para colocá-la no papel. E isso aumenta ainda mais a minha alegria com a recepção.

      Sobre a idade da menina, vocês me convenceram a aumentá-la em uma versão posterior. E sobre os pensamentos, fiz uma experiência com esse conto, tentando torná-lo mais intimista, introduzindo o pensamento do autor e creio, conforme relatado por alguns, que tenha errado a mão em alguns momentos. Prestarei mais atenção da próxima vez. Mais uma dica do EC que levarei para a vida 🙂

      Abraços!

  19. Leandro B.
    19 de dezembro de 2015

    Oi, Tankian.
    Gostei do conto.

    Você construiu uma atmosfera muito convincente e carregou bem a história. Pode ter algum, mas não vi nenhum deslize de revisão e esse tipo de coisa faz a diferença.

    É claro que são propostas completamente diferentes, mas a mudança temporal me lembrou “Caim”, do Saramago. Não é muito importante o porque dela estar ali, o importante é o papel que cumpre na história.

    Não gostei muito desta reflexão:
    “Droga! Quase consegui sair despercebido. Minha boca está seca. Estou com muita sede. Posso ficar mais um dia sem comida, mas preciso dessa maldita água.”

    Me pareceu didática demais. Um pensamento muito complexo para a situação. Das outras vezes em que destacou o pensamento do personagem tive a impressão de estar mais leve. Enfim, acho que estou só falando para ter algo que criticar. Foi uma coisa pequena me causou um pouco de incômodo, mas como sempre isso é muito pessoal.

    O texto é muito maduro e demonstra uma excelente técnica.
    Parabens, camarada.

    • Tankian
      21 de dezembro de 2015

      Obrigado pelo comentário, Leandro. Fico muito feliz que tenha gostado. A ideia de não explicar foi essa mesmo: não importando como, apenas aconteceu. Se acontecesse comigo eu também não saberia explicar, mas teria certeza de que foi verdade. Era isso que eu queria passar.

      Sobre os pensamentos, estou percebendo que errei a mão em alguns. Valeu pelo toque.

      Abraços.

  20. Simoni Dário
    17 de dezembro de 2015

    O texto me lembrou muito o filme Interestelar, está correto? Achei bonito, interessante, mas fui lembrando do filme e aí fiquei meio ressabiada. O tom do conto é lindo, a cena da menina e de Horácio na Biblioteca muito bem narrada, como todo o conto. A história é envolvente, e tem um final que lembrou demais o filme em algum aspecto, acho que a moça de jaleco branco com uma cruz vermelha. Mas, paralelos traçados, a questão é que você escreve bem e conseguiu transmitir emoção com o conto, sinal de talento e competência.
    Bom desafio!

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Simoni, eu nem pensei nesse filme enquanto bolava esse texto, mas concordo que existem algumas semelhanças (viagens temporais, relacionamento adulto x criança, etc.). Talvez estivesse na minha bagagem cultural. Ele é muito mais complexo explicativo. Eu preferi explicar menos e focar mais nos personagens (não tinha 3 horas à minha disposição… rs).

      Mas o importante mesmo é que você gostou do texto e isso me deixa bastante feliz. 🙂

      Abraços!

  21. Claudia Roberta Angst
    17 de dezembro de 2015

    Isso é o que chamam de distopia? Não entendo nada disso, mas achei interessante. O conto está repleto de diálogos, o que sempre me anima. O ritmo do texto é muito bom, sem entraves e a leitura corre facilmente.
    Bia é o ponto mágico na trama, poucos não gostam de uma criança fofa, doce, que ainda respira alguma inocência. Obrigada por ter poupado a criancinha! O mundo puro e cheio de fantasias de Bia contrasta com a realidade dura e seca de Horácio. Ela com seus cachinhos, desenhos e livros. Ele com fome, sede e sem esperança. Até que se encontram e estabelecem uma amizade insólita, mas verdadeira, mesmo que baseada em alguns momentos.
    O fim ficou bom, deixou clara a ligação entre os dois, sem explicações demais.
    Boa sorte!

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Olá Claudia, distopia, segundo dicionário, é um “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação”. Então, este texto apresenta, sim, uma distopia. As melhores são as que focam em como as pessoas reagem e se modificam com ela. Foi o que eu tentei fazer aqui.

      Fico muito feliz que tenha gostado. A intenção de colocar Bia no texto foi exatamente essa que você citou: contraste.

      Obrigado pelo comentário.

      Abraços!

  22. phillipklem
    17 de dezembro de 2015

    Sem dúvida alguma o melhor conto que eu li até agora neste certame.
    Uma narrativa muito bem conduzida, com sabor amargo e irresistível.
    Seus personagens são cativantes e nos fazem torcer por eles.
    A realidade em que seu personagem vivia foi retratada com primazia, sem cansar o leitor. Você mostrou o mundo sem explicá-lo exaustivamente. e isso é algo que poucos aqui sabem fazer.
    Amei a brincadeira com o espaço-tempo no final. A Bia foi um ponto de luz em um mundo sombrio. Você soube apresentar muito bem a coexistência entre o agora e o passado, sem nos confundir em momento algum.
    Mas, sem dúvidas, o brilho deste conto foi a cena da briga pela água. Foi simplesmente crua e brutal. A humanidade esvaindo-se e dando lugar ao instinto. Brilhante.
    Meus parabéns e muito boa sorte.

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Caramba, Philip, que isso? Deve ter lidos poucos textos, né?

      Mesmo assim, fico muito feliz com o seu comentário. Esse é um daqueles que faz valer à pena escrever mesmo com tantas dificuldades.

      Sobre a cena da briga pela água, você entendeu bem o que eu quis passar. Pra você ver como a opiniões são diversas, acabei de responder o comentário do Fabio Baptista abaixo que não tinha gostado dessa cena. É essa diversidade de impressões que torna esse espaço tão bom!

      Grande abraço!

  23. Anorkinda Neide
    17 de dezembro de 2015

    Oi! Achei muito bonito. Não gosto de distopias, mas esta realidade paralela e o salvamento da menina dos cachinhos foi emocionante.
    O texto está bonito, está claro e vc está de parabéns a meu ver.
    Acho que a menina poderia ter uma idade um pouquinho maior, tipo 8 anos.. hehe
    Abração

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Obrigado, Anorkinda! Fico muito feliz que gostou do texto, mesmo não gostando de distopias. A ideia era mesmo buscar uma coisa diferente nesse gênero.

      Sobre a idade de menina, creio que está certa, mas conheço crianças pequenas que falam mais ou menos desse jeito.

      Abraços!

  24. Fabio Baptista
    16 de dezembro de 2015

    Meu, não estava gostando nada desse conto, principalmente devido aos pensamentos extremamente teatrais do protagonista:

    “Estou me sentindo como um homem perdido no deserto”
    “Posso ficar mais um dia sem comida, mas preciso dessa maldita água”
    etc.

    Até essa cena do embate pela água, a trama estava naquele clichezão de distopia e tal… nada que me prenda muito a atenção.

    Daí, quando a biblioteca e a menina entram em cena, a coisa melhora sensivelmente. Esse laço desenvolvido, apesar de rápido, foi bem convincente e deu novos ares ao conto.

    O final, apesar de meio esperado, foi bem competente.

    Como apontamentos, coloco algumas frases com vírgulas que eu trocaria de lugar:

    – Horácio observava, através das lentes embaçadas da máscara de gás,as vitrines destruídas em busca de algum suprimento útil
    – Quando retornou, trazia nas mãos, o jornal do dia, que exibia em grande parte da capa

    E essa frase:

    – As gotas que caíam dos olhos inocentes da criança pingavam no chão da biblioteca, mas não o limpavam a poeira
    >>> Não sei se está correto, mas esse “o limpavam a poeira” me soou estranho.

    Abraço!

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Poxa, Fabio, como assim você vem aqui e comenta que não estava gostando nada do meu conto, amigo? Que desagradável isso, meu amigo.

      Brincadeira 😀

      Quis fazer um discurso livre indireto, mas talvez tenha falhado em alguns pensamentos, como se fosse fala do narrador ao invés de ser algo que o personagem pensou. Crítica anotada, meu amigo.

      Sobre o clichê da cena da água, a ideia era passar um pouco como era o mundo (sim, mais uma distopia pós-apocalíptica) e criar o contraste do menino no mundo em ruínas e depois da menina na biblioteca. Pois era realmente lá que eu queria que o conto se destacasse. Que bom que pelo menos essa parte você gostou, né amigo? 🙂

      Sobre os erros, realmente passaram na revisão apresada que fiz. Na última frase que citou o “o” era um resquício da frase em uma versão anterior.

      Abraços, amigo 🙂

  25. Piscies
    14 de dezembro de 2015

    Ah… esse conto me pegou desprevenido. Muito bonito! Que história maravilhosa! De certa forma me lembrou um pouco o Pretérito Imperfeito do Gustavo Araújo. =]

    O enredo está dez. A biblioteca tem uma função central aqui. Horácio está bem trabalhado e Bia também. A história me prendeu do início ao fim!

    A técnica peca um pouco na falta de originalidade: pouco impacto nas frases, pouco sentimento nos acontecimentos. A cena em que Horácio descobre a filha e a esposa mortas, por exemplo, foi narrada em uma frase. Não senti a tristeza dele. De qualquer forma, a escrita está quase impecável e essa pequena melhoria que apontei é fácil de ser alcançada. Gostei bastante! Especialmente a descrição da casa desolada: foi um belo parágrafo, traçando uma imagem perfeita na minha imaginação.

    Uma dúvida: se ele não pode tirar a máscara em lugares abertos, praticamente não poderia tirar a máscara em lugar algum a não ser em algum bunker. Casas destruídas com paredes faltando compartilham do ar tóxico de fora, mesmo nos cômodos fechados cujas paredes mantiveram-se em pé.

    Algumas sugestões de melhoria:

    “…Horácio avistou algo literalmente caindo…” – Não gostei do “literalmente” aqui. Esta palavra é facilmente descartada. Algum autor falou, em algum livro que esqueci há muito tempo (rs) que o “literalmente” deve ser usado com esmero.

    “…reparou seu novo refúgio…” – reparou NO

    “Claro, que não. Vou terminar…” – Acho que a vírgula é desnecessária aqui, não?

    Obrigado pelo texto!

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Fala Piscies, blz?

      Cara, ainda tô longe da técnica usada em Pretérito Imperfeito, mas fico feliz com a comparação.

      Sobre a técnica, tive pouco tempo para revisar o texto e passaram algumas coisas, principalmente na pontuação. A parte que explica como tudo ruiu, como disse abaixo para o Luna, tentei ser rápido e talvez tenha exagerado.

      Sobre sua dúvida, a ideia era que os produtos tóxicos no ar estariam mais diluídos em ambientes fechados. Ainda fariam mal, mas não tão rápido e letal como em ambientes abertos. A biblioteca estava fechada e por isso ele se sentiu seguro para tirar a máscara.

      Abraços!

  26. Pedro Luna
    14 de dezembro de 2015

    Gostei. A biblioteca como parada do tempo foi uma boa sacada. Achei os diálogos meio forçados, soando até um pouco irritantes. Tirando isso, o resto foi bacana. No início, me incomodou o trecho do conto onde é explicado o fim do mundo. Ficou muito didático, explicativo demais. Porém, entendi que o que importava vinha mesmo era depois e por isso aceitei melhor o início do texto. A trama de sobrevivência mesclou bacana com o lance da biblioteca temporal e o final foi bem sacado. Boa.

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Oi Pedro, que bom que gostou do texto. Era ali na biblioteca mesmo que o conto deveria se destacar. Talvez eu tenha estendido demais o texto até ele chegar ali, mas precisava traçar o psicológico dele e dar algumas pinceladas de como tudo ruiu. Quis ser rápido na parte das explicações e, talvez por isso, tenha ficado muito didático.

      Sobre os diálogos, estou percebendo que incomodou a muitos 😦

      Abraços!

  27. Rogério Germani
    13 de dezembro de 2015

    Olá, Tankian!

    O uso de atmosfera pós-apocalipse para justificar a biblioteca em ruínas, ao meu ver, é chover no molhado. Por isso gostei quando a criatividade veio em forma de amizade entre Horácio e Bia.
    Apesar dos diálogos são serem condizentes com a pouca idade de Bia (5 anos), o final consegue nos trazer de volta à trama com o ar puro da emoção.

    Boa sorte!

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Oi Rogério, que bom que gostou da parte mais importante da trama. Eu imaginei que teríamos muitas histórias pós-apocalípticas nesse desafio e tentei bolar alguma coisa para destacá-la dos demais. Utilizei o lapso temporal para trazer ao mundo em ruínas a pureza de uma criança. Era isso que queria passar.

      Sobre a idade de Bia, tenho contato com crianças até mais novas que falam parecido com ela, mas eu talvez aumente a idade dela numa eventual revisão.

      Abraços!

  28. Evie Dutra
    11 de dezembro de 2015

    Olá, boa noite.
    O seu conto tem muitos pontos positivos. A sua criatividade me surpreendeu bastante, principalmente na parte final.
    Confesso que não agradei muito dos diálogos, achei pouco natural. Tive a mesma sensação em relação a amizade entre Horácio e Bia. Aconteceu tão rápido.. um pouco forçado. Além disso, percebi também alguns errinhos em relação ao uso de vírgulas.
    No geral, foi um bom conto. O final me cativou. Apesar de Horácio ter matado o jovem rapaz na luta pela sobrevivência, fiquei feliz por ele ter contribuído para que a menina tivesse uma chance.
    Parabéns 🙂

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Obrigado pelo comentário, Evie. Fico feliz que, apesar dos problemas que encontrou, a experiência final ao ler o conto tenha sido positiva.

      Sobre a relação de Horácio e Bia, foi rápida, mas é coisa que não é incomum de acontecer por aí. Muitas vezes viramos melhores amigos de pessoas que conhecemos no mesmo dia. No texto, isso é potencializado pela carência afetiva que ambos possuem. A menina, por não ter a presença dos pais (implícito no texto) e o Horácio pelo caos em que vive.

      Abraços!

  29. Daniel I. Dutra
    11 de dezembro de 2015

    Nos outros comentários dissertei a respeito do “show, don´t tell” (mostre, não conte). Quando o gênero é ficção-científica (no caso subgênero pós-apocalipse) o “show, don´t tell” fica mais difícil porque o autor precisa apresentar ao leitor um mundo diferente do mundo real. O erro mais comum costuma ser explicar tudo de primeira, tipo “o mundo acabou no ano tal porque a China iniciou uma guerra nuclear”.

    Isso é ruim porque narrar não é despejar informações. Ao meu ver, é dar “pistas”, como se fosse um quebra-cabeças, para o leitor montar à medida que ler.

    Nesse sentido o conto é muito bem estruturado (no geral é bom).

    Um exemplo do que estou falando:

    “Caminhando pelas ruas abandonadas da cidade, Horácio observava, através das lentes embaçadas da máscara de gás, as vitrines destruídas em busca de algum suprimento útil. ”

    Com essa simples passagem o leitor já entra dentro da história. O narrador está MOSTRANDO o mundo devastado para o leitor, não explicando-o. Essa simples passagem já diz muita coisa a respeito e permite o leitor seguir em frente, ao mesmo tempo que instiga-o a desvendar mais.

    Isto inclusive dá uma certa margem para se usar o “tell” sem cansar o leitor (não que o “tell” em si seja ruim, o segredo é saber quando e como usá-lo), e o autor deste conto faz muito bem pois, uma vez que ele “mostra” a história para o leitor, ele pode explicar (tell) outros detalhes, como ocorre no decorrer da narrativa que oscila bem entre “show” e “tell”.

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Penso exatamente como você, Daniel. Saber dosar o contar e o mostrar é, na minha opinião, um ponto chave do sucesso de um conto. Se mostrar demais, o conto pode ficar muito grande e enfadonho e não caber no limite e se contar demais, fica sem emoção. Tentei fazer esse equilíbrio nesse texto e fico feliz que o agradou.

      Abraços!

  30. Eduardo Selga
    11 de dezembro de 2015

    O escritor não é figura à parte da sociedade, por isso constantemente a reflete. Algumas vezes encosta de leve em suas muitíssimas e largas feridas; noutras, enfia o dedo com vontade.

    A figura da criança na cultura ocidental, muito em função de o Cristianismo permeá-la, é carregada de significados atrelados à pureza, à inocência. Por esse motivo, narrativas literárias que põem a criança em seu centro costumam vir também carregadas com essa polaridade, quando se trata de uma narrativa cujo discurso está situado dentro de um discurso maior, dominante, que entende a criança como uma espécie de adulto incompleto, que não merecesse senão sorrisos piedosos (uma espécie de lamento pela ingenuidade); alguém que, exatamente por ser “incompleto” é ainda ingênuo. A criança-pureza é, portanto, um mote muito comum em literatura.

    “Vazio Tóxico” repete essa visão um tanto santificada da criança e da infância. A personagem Bia, inclusive, funciona como uma espécie de depurativo, elemento de expurgação da alma do protagonista, atormentada por causa da guerra e do caos dela decorrente. A ponto de Horácio, após o contato com Bia, intencionalmente caminhar no ar poluído e fatal sem a máscara contra gases que até então trazia ao rosto. Como se o contato com a menina o purgasse. Mais que isso, como se limpasse a atmosfera contaminada.

    Mas é um efeito na alma do personagem, não um fato. Por isso ele, fora da biblioteca, após algum tempo mirando o desenho feito pela menina, chora (sinal de purgação, por ser a lágrima um líquido de um modo geral decorrente do sofrimento) e cai. Provavelmente morto, porém feliz.

    Sua queda aciona outra personagem, que em outro lugar (não mais na biblioteca) olha para o céu e chora (outra vez, purgação) “sem saber exatamente o motivo”. E o fato de ela ter em suas vestes uma cruz vermelha reforça uma característica deste conto: o uso da simbologia cristã.

    O uso da imagem infantil no conto apresenta uma variante sem, no entanto, ser exatamente uma oposição ao espaço de pureza ocupado por Bia. Trata-se do soldado que revista o protagonista, um menino ainda. Na primeira parte da narrativa, fisicamente inferior, ele é derrubado por Horácio e na sequência ambos trocam olhares e a atitude do menino (e também o fato de estar batido no chão) mostra a infância como uma incompletude, uma carência, embora não uma carência “fofa” e inspiradora como a da menina.

    De um lado a infância perdida, desprezável; de outro, a infância entusiasmada e entusiasmante, também perdida. Mas são perdições distintas.

    Inserido no discurso do insólito, o conto trabalha com a ideia de tempos paralelos, explicitada em determinado ponto pelo protagonista. A menina da biblioteca, prédio instalado em um tempo que não o mesmo de Horácio, é, assim sugere o encadeamento narrativo, a mesma personagem que ao fim chora sem saber o motivo, provável enfermeira da Cruz Vermelha. Ao contrário de Bia, o Horácio que sai desse lapso temporal é o mesmo que entra, mas apenas na idade, pois sua alma é outra.

    A biblioteca é uma espécie de lacuna temporal e o fato de haver na parede do prédio um buraco por onde Horácio atravessa é altamente simbólico. Não atravessa uma estrutura de alvenaria: atravessa o tempo.

    Gostaria de mencionar um elemento da estrutura de construção textual. O uso do itálico, muito claramente, está marcando o discurso livre indireto, ou seja, a inserção da fala do personagem (primeira pessoa, portanto) no interior de uma narração em terceira pessoa. Entendo que seria muito mais interessante retirar o itálico, uma vez que esse tipo de discurso é interessante justo pela mescla de primeira com terceira pessoa, deixando a encargo do leitor a percepção de onde começa um e termina outro.

    • Tankian
      17 de dezembro de 2015

      Obrigado, Selga, pela excelente análise. Conseguiu pegar nuances que nem mesmo eu havia pensando quando bolei a história. Mas era isso mesmo: purgação!

      Sobre o itálico, acho estranho quando o discurso livre indireto se confunde com o do narrador, mas vou arriscar um dia para ver como fica.

      Abraços e mais um vez obrigado, professor!

  31. Brian Oliveira Lancaster
    10 de dezembro de 2015

    MULA (Motivação, Unidade, Leitura, Adequação)

    M: Estava esperando uma ambientação desse estilo e encontrei aqui. Colocar o foco sobre o personagem, sem alongar muito os eventos ao redor, foi a melhor escolha. O conceito de lugar abandonada cai bem nesse cenário descrito.
    U: A escrita é leve e flui bem. Só achei a troca de tempo do verbo, na parte final,
    inconsistente com as frases que a precedem, ocasionando um travamento natural. No entanto, não atrapalha a compreensão restante.
    L: Gostei da situação inusitada e do mistério permanecer no ar, a áurea mágica e
    transcendental do cômodo. Ás vezes explicações demais só atrapalham. A criança
    convence, apesar de ela não estranhar um ser de “outro mundo”. Interpretarei como um amigo imaginário.
    A: O cenário de desolação já é esperado, mas aqui você aplicou uma camada à mais. O looping final casou bem com a ideia apresentada.

    • Tankian
      10 de dezembro de 2015

      Olá, Brian. A égua saiu de férias?

      Fiquei bastante feliz com sua avaliação, pois pegou a essência. Sobre focar no personagem, essa era mesmo a intenção. Deve ter gente aqui que vai reclamar da falta de explicações, mas achei que elas cortariam o foco. E, justamente pelo foco ter sido bem intenso no Horácio, não pude tratar muito da psicologia da menina. A ideia é que ela era muito sozinha e ficou feliz com o novo e único amigo. Aliado a isso, sua inocência a fez acreditar na histórias que ele contava. Mas gostei da interpretação de amigo imaginário. Faz bastante sentido.

      Quanto à mudança de tempo verbal, percebi algo assim nas revisões apresadas que precisei fazer. Infelizmente algo passou… pode dizer onde foi?

      Abraços!

      • Brian Oliveira Lancaster
        10 de dezembro de 2015

        Não sei por que, li novamente e agora passa despercebido. O verbo “fitou”, na última frase, em primeiro momento, me pareceu no tempo presente. Mas também serve para expressar o passado. Acho que os “avas” nas frases anteriores criou uma expectativa inconsciente por outro “fitava”.

      • Tankian
        10 de dezembro de 2015

        Os “ava” (pretérito imperfeito) diziam o que ela estava fazendo até então. Depois, mudei para o pretérito perfeito para dizer o que ela fez naquele momento. Mas compreendo o estranhamento.

  32. JULIANA CALAFANGE
    9 de dezembro de 2015

    Muito boa a história. Gostei da forma como vc destaca o contraste entre os 2 mundos, de forma clara q não confunde o leitor em momento algum. Gostei tb da linguagem leve e ao mesmo tempo envolvente. Emocionante!

    • Tankian
      10 de dezembro de 2015

      Muito feliz com seu comentário, Jualiana. Gostei que pegou a ideia principal de contraste que quis passar. Obrigado!

    • Tankian
      10 de dezembro de 2015

      Muito obrigado, Juliana. Com todas as dificuldades que tive para escrever esse conto, um primeiro comentário como o seu é muito gratificante. Fiquei muito feliz por ter pegado a ideia principal de contraste. Abraços!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 9 de dezembro de 2015 por em Imagem e marcado .