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Literatura que desafia.

O menino que queria laçar a lua – Resenha de “Pretérito Imperfeito” (Eduardo Selga)

* Contém spoilers.
preterito1Pretérito imperfeito
, romance de Gustavo Araújo publicado em 2015 pela Caligo Editora, trata, aparentemente, da idílica descoberta do amor entre dois adolescentes numa cidadezinha do Paraná, tendo como pano de fundo a Intentona Comunista ocorrida no Brasil em 1935, cujo propósito foi destituir do poder o presidente Getúlio Vargas. Apesar desse aspecto, entretanto, não nos parece adequado afirmar que se trata de um romance histórico, pois o real empírico não assume ares protagonistas. Além disso, personagens historicamente importantes como Luis Carlos Prestes e o presidente do Brasil à época são apenas mencionadas aqui e ali. O personagem histórico que mais se destaca, com algumas falas, é Filinto Müller, chefe da polícia política de Vargas na “vida real”.

Mas, definitivamente, não está aí o ponto nevrálgico, pois mesmo se a contextualização do enredo não fosse calcada no real empírico o eixo da narrativa se manteria o mesmo. Ou seja: ser ou deixar de ser romance histórico nem enaltece nem prejudica a obra, é elemento de pouca importância para o desenvolvimento do enredo frente a algumas questões outras, colocadas ao longo da trama. Por exemplo, o protagonista, Toninho, é “de carne e osso”, mas seu amor, sua quase namorada, não. Muito embora ele desconheça esse fato. É que quando se encontraram o falecimento dela se dera há 30 anos. Muito embora ele desconheça esse fato. No entanto, apenas aos poucos o leitor vai se dando conta disso, pois a narrativa paulatinamente vai apresentando umas estranhezas que funcionam como pequenas dicas ao leitor a respeito da condição dessa personagem.

Outro ponto relevante: a verdadeira narrativa, a que se esconde debaixo do nível mais evidente, é outra, diversa de um amor que não se concretiza: Pretérito imperfeito trata, no fundo, no fundo dos poços em que se encontram Toninho, a sua Cecília e o pai dele, Pedro Vieira, trata do quanto a ausência de uma honesta comunicação interpessoal pode vitimar as pessoas, no real empírico. O romance se ocupa, portanto, não apenas do desabrochar do amor adolescente, e sim da comunicação imperfeita, no sentido de ser truncada ou ausente, pois a perfeita inexiste.

Recorro aqui ao escritor contemporâneo argentino Ricardo Piglia. Ele afirma que o conto não conta uma estória, e sim duas, sendo a segunda caracterizada por estar em elipse e fragmentada, o que me parece profundamente acertado quando volvemos nossa memória aos melhores contos que nossa vida já leu. O deslumbre do leitor médio está ao enxergar a ponta o iceberg, mas nem sempre ele percebe que há, enterrado nas águas turvas das entrelinhas, um bloco muito mais denso que sustenta o visível e é a sua razão de existir no conto. Ou, fazendo outra analogia, raiz e árvore.

Se Toninho é um menino tímido, de poucas falas e torturado pela necessidade de se expressar para toda a classe por meio da leitura, menino que não consegue traduzir seu sentimento para Cecília, não está sozinho: ele o mais recente broto de uma longa árvore genealógica em que o masculino é silêncio: o avô tem poucas palavras para o filho e este não se comunica com seu descendente, Toninho. Pedro Vieira, o pai do protagonista, quando criança tinha aspirações pessoais não completamente ditas ao velho Francisco; Toninho, engaiolado em um silêncio que é tanto que o personagem não tem muita consciência disso, encontra uma rota de fuga, uma clareira na mata onde dialoga consigo mesmo, com o desejo de ser pesquisador de passarinhos (algo desconhecido pelo pai) e com a falecida Cecília.

A protagonista, que se identifica como Mariana porque foi esse o nome falso com o qual fora enterrada, tem um pai que desaparece do convívio familiar por causa da militância política, e não há muito diálogo com a mãe. Não que esta seja inflexível: apenas uma mulher muda de tanto esperar, em aparente calma, o retorno do marido. Verdadeira tortura.

Disso resulta na menina a tentativa de ampliar-se, dialogar com dois outros espaços, representados pela “fuga” para a mesma floresta frequentada por outro prisioneiro, Toninho, e o exercício ficcional. É, portanto, o silêncio que a faz leitora e produtora de textos em dois gêneros: o conto e o diário, este com feições de carta. O romance é atravessado do início ao fim pelas falsas epístolas que a protagonista escreve à Carol, amiga invisível e alter ego, e pontualmente marcado por dois contos de sua autoria: um escrito para o pai e outro —“O menino que queria laçar a lua”—, que é a metáfora de seu estranho relacionamento com Toninho. Curiosamente, ela “esconde” do seu alter ego o nome do personagem, e o identifica como Felipe.

Dissemos serem falsas missivas porque, sabemos ao final, elas permanecem no diário da menina. E se não são remetidas a ninguém é porque não há destinatário, em função do silêncio insular imposto à família pela atuação política do pai. Todas as mensagens são dirigidas a si própria, pois Cecília se recria no “disfarce” de Carol que, como todo alter ego que se preze, está próximo de seu criador. Por isso, Cecília, ao escrever uma das “cartas’ diz o seguinte à Carol sobre encontrar-se com Toninho: “O problema é que ir lá é a única alegria que eu tenho nesses dias, mesmo tendo que ralar meus dedos para sair por aquele poço. É uma desculpa aceitável, não concorda? Bem, ainda posso perceber que você não pensa assim” (p. 135, grifo nosso). Ora, como ela consegue perceber a reação de Carol se esta, em tese, ainda receberá a carta?

Na vida de Toninho a falta de comunicação produz pequenas e grandes tragédias, todas torturantes, em maior ou menor grau: ele se julga diretamente responsável pela morte da mãe, pois supõe que se tivesse chamado o pai a tempo quando ela sofreu um colapso diante dele, não teria ocorrido o falecimento; por achar difícil conseguir a autorização por escrito do “Seu” Vieira de modo a pegar livro emprestado na biblioteca da escola, surrupia-o para agradar sua paixão, mas é descoberto; a tentativa de finalmente expor-se diante de Cecília é frustrada pela queda em um poço abandonado na floresta, supostamente por ela usado para encontrar-se com Toninho, conforme palavras escritas em seu diário.

Não é simplesmente o despencar de um menino no oco de uma cacimba tão solitária que sem água no vazio escuro de uma floresta brotada à margem do perímetro urbano: metaforicamente, Toninho cai em si mesmo, na vida um tanto silenciosa que leva ao lado de seu pai —esse desconhecido— e mesmo quando conversa com quem não poderia por já estar morta. Ferido, o personagem se vê cara a cara com a completa impossibilidade de localizar o suposto túnel. Logo, reencontrá-la é impraticável. E o silêncio se faz infinito, mas não o suficiente para se transformar em túmulo, porque ele comete algumas esperanças, como, fazendo o leitor lembrar-se do boneco do conto escrito por Cecília, dizer para si mesmo ao perceber o lento passeio da lua na boca do abismo: “Ah, se pudesse laçá-la” (p. 267). “Laçá-la” é, metaforicamente, abraçar a liberdade e, ao mesmo tempo, Cecília.

Quando o pai, ex homem de confiança de Filinto Müller e torturador  finalmente o encontra, não ocorre apenas uma operação de salvamento: o menino é retirado, mas há uma destilação, um ato purgatório, pois o menino que é içado já não é o mesmo de quando desabou. Mais leve, ainda mantém o silêncio em relação ao pai, porém não mais forçado; há um cálculo de sua parte, ele não quer saber de possíveis realidades desconstrutoras de convicções positivas sobre o pai e Cecília. O silêncio se mantém, mas agora é cantante, como o uirapuru verdadeiro que nas últimas linhas estufa o peito e solta a voz.

preterito3Ao longo dessa resenha crítica, e agora que a releio antes de me dar por satisfeito, percebo que citei as palavras torturado, tortura, torturantes e torturador, nessa ordem. Tanta insistência sem querer não pode ter sido à toa: é que, caio em mim, não apenas o silêncio é a “outra história”, subjacente à primeira, de que tratei no início: também o é a tortura que acompanha todos os personagens principais. Tal constatação faz com que a escolha, como pano de fundo, de um período da história brasileira em que a tortura era prática comum, definitivamente não tenha sido aleatória, mero filigrana, ainda que não configure romance histórico.

Há mais a dizer a respeito de Pretérito imperfeito, o romance de um tempo que não acaba porque eternizado no drama de Toninho e de Cecília. Ele, crescendo, carregará consigo a “namorada” impossível; ela, em sua condição imaterial, o terá como lembrança. Se bem que… lembrança como, se ela já estava morta quando o personagem pela primeira vez entrou na floresta? É que, embora Toninho exista “de carne e osso”, talvez a relação entre ambos tenha sido ficcionalizada por ela, que gostava tanto de escrever contos. Ela inventou a Carol, é possível tenha criado os encontros com Toninho.

Pretendo escrever uma segunda parte dessa resenha, falando de dois outros pontos do romance: o uso do espelhamento narrativo e a presença, no enredo, de Luis Carlos Prestes e sua esposa, Olga Benário, simbolizados pelos pais de Cecília.

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2 comentários em “O menino que queria laçar a lua – Resenha de “Pretérito Imperfeito” (Eduardo Selga)

  1. Fabio Baptista
    3 de outubro de 2015

    Bela resenha.

    Jamais teria pensado nessa possibilidade de tudo ser (mais) um conto da Cecília.

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Publicado às 2 de outubro de 2015 por em Resenhas e marcado , , .