EntreContos

Literatura que desafia.

Clube da Insônia – Resenha (Fabio Baptista)

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Confesso que estava receoso sobre o que encontraria no livro do Tico Santa Cruz. Seria uma coletânea de contos, poesias, crônicas?

Mais do que o gênero dos textos, me preocupava a qualidade da obra como um todo.

Explico: Tico Santa Cruz é o líder da banda “Detonautas Roque Clube”, maior expoente do Rock nacional desde Legião Urbana, autor de vários sucessos que marcaram uma geração, como “Quando o Sol se for, meu amor…” e também “Eu te amei, ô Carla…” (não, péra… acho que essa é do LS Jack)… mas enfim, músicas que estão gravadas no coração do povo brasileiro e acalentam incontáveis almas solitárias nas noites frias e escuras do hemisfério sul.

Além disso, Tico vem se mostrando um grande pensador contemporâneo, quase uma espécie de Nietzsche da Barra da Tijuca (sem o bigodão), sempre emitindo opiniões racionais e bem embasadas sobre os mais diversos temas da realidade brasileira. Acima de tudo, Tico age e vive exatamente de acordo com o que prega, coisa rara em tempos de ativismo de Facebook.

Daí o meu receio… poderia ser esse cara um artista tão completo? Teria ele o mesmo êxito que teve na música e na filosofia ao arriscar-se nos campos espinhosos da literatura?

A resposta é um estrondoso SIM!!!

“Clube da Insônia”, sua obra de estreia, é uma joia rara em meio ao mar de mediocridade em que naufraga a literatura nacional. Respondendo à primeira questão, sobre a natureza dos textos, a resposta é – tudo e muito mais! Contos, crônicas, poesias, aforismos, reflexões. Tem de tudo um pouco e tudo com uma qualidade de tirar o fôlego.

O livro começa com a poesia visceral “Somos nós na madrugada”, que faz Bukowski parecer um garotinho espevitado querendo chamar atenção da professora na sala de aula. Seguimos com “Eu e ela” onde (SPOILER!!!) Tico dialoga com sua consciência (a “ela” do título) em um fluxo de pensamentos simplesmente genial (James Joyce my ass!!!). Em seguida, uma verdadeira tempestade de belas imagens e lembranças, com “Nosso sagrado antídoto”. Separei alguns trechos especiais, pois esse é um daqueles casos em que não adianta ficar resenhando muito, pois para se ter uma noção real da grandiosidade do trabalho, só deixando a obra falar por si:

Os amigos que não vemos há anos e nunca perdem o sabor da velha amizade. As noites de videogame, a dor no saco depois do sarro com a garotinha safada da vizinhança”.

Poético, não? Calma que tem mais…

A primeira baladinha, as matinês do domingo. Os papos sobre os peitinhos que tivemos a sorte de passar a mão. Os trabalhos que não fizemos, mas por boa vontade dos colegas acabamos assinando o nome”.

A vontade de superar os limites, de correr pelado no corredor” (quem nunca?)

A infinidade de argumentos que usamos para seduzir aquela baranga num final de noite em que nada deu certo” (quem nunca? parte 2)

Não satisfeito em nos brindar com tamanho surto de nostalgia que revolve todas as nossas entranhas, Tico ousa em sua narrativa, quebrando a quarta parede sem a menor cerimônia e deixando o já estupefato leitor completamente atônito:

(…) as viagens de férias, a diversão sem fim, os beijos roubados (incrivelmente percebo nesse momento que existe uma sintonia entre meu texto e o sol que inunda minha varanda aqui em Araras, nos momentos que escrevia coisas boas, o sol brilhava *risos*, e quando me referia a coisas não tão agradáveis ele se escondia nas nuvens) ”.

 

Estou certo que o trecho em destaque entrará para os anais da literatura brasileira, quiçá mundial. Sem KY…

Continuemos.

Em “Sou um pouco de mim” Tico fala sobre sua vida, infância, adolescência. Preparem os lenços, pois essa parte emociona mais que aqueles filmes de cachorro que morre. Aqui, Tico também explica um pouco sobre seu processo criativo:

Mas eu cismo em manter minha mente trabalhando e ela gera uma necessidade enorme de colocar para fora o grande volume de informações que passa pela minha mente, e quando eu vejo, já foi tudo!

*Risos*”.

E também, bem-humorado, revela seus mais profundos receios:

Não sei quando vou usar este espaço para me abrir de novo (que coisa horrível falar assim –   *Risos*)

 

“Viagem ao fundo do universo” é daqueles textos arrebatadores, que não dá para ler e continuar o mesmo. Tico compartilha conosco, meros mortais, os maiores segredos da vida, de um jeito tão bonito quanto ouvir Detonautas pela primeira vez:

Encontrar conforto ou desconforto foi fundamental para que pudesse rever o caminho da luz. E a luz só brilha porque existe a escuridão”.

Um agrado só deve ser feito quando tem a intenção de ser realmente um agrado.

Quando vem de dentro.

Para vir de dentro é preciso que seus canais estejam limpos.

Para limpá-los é necessário que tenhamos a consciência de que eles se sujam.”.

 

Ah, se o maior mérito dos grandes pensadores não é descortinar aos olhos mundanos a realidade que estava à nossa frente o tempo todo! Eu choro toda vez que leio esse parágrafo aí de cima… (sério!).

 

Na poesia “Eu vi você”, Tico Santa Cruz dá uma verdadeira aula de concisão. Acompanhem:

Se o coração acelerar,

Fica esperto…

Se a respiração ficar ofegante,

Ih! ”.

“Ih!” uma interjeição que certamente vale mais do que mil palavras. Digitando com os pés, porque as mãos não param de aplaudir.

 

O livro segue em altíssimo nível, sem oscilar em momento algum, sem deixar o leitor respirar. Daí, quando pensamos que não tem como ficar melhor, somos surpreendidos por “Das coisas que mudam o mundo”.

Hoje estava tomando banho, pensando na vida, olhando a água escorrer, quando tive uma ideia dessas que revolucionam a existência humana. Resolvi pegar um barbeador e raspar todos os pelos do meu corpo, com exceção da barba e do cabelo”.

Sim, Tico descreve todo o processo de depilação, de maneira extremamente rebuscada, fazendo o leitor sentir cada corte e lamentar-se… digo… respirar aliviado por eles não terem pego uma artéria vital.

Resumindo, foi uma experiência extraordinária. Aconselho todos os homens que estiverem sem nada para fazer que raspem seus pelos do corpo”. SANTA CRUZ, Tico.

 

Na segunda parte da obra, Tico apresenta alguns contos que retratam, de modo nada caricatural, a violência urbana, a má distribuição de renda e a prostituição de nossa imprensa. Sem papas na língua e sem medo de expor a verdade, doa a quem doer. Só posso dizer que depois de ter essa experiência de deleite ao presenciar tamanha desenvoltura narrativa, Tchecov não é mais e nunca voltará a ser meu contista favorito.

Destaquei um trecho particularmente genial, que descreve, com precisão jamais vista, um sujeito (SPOILER!!) tomando um tiro. Certamente um parágrafo que vale por um curso inteiro de storytelling:

Velozmente se aproxima. Penetra no tecido epitelial. Arromba o poro sudoríparo, destrói a terminação nervosa livre, segue em direção ao músculo eretor do pelo, atravessa a fronteira com a hipoderme, ignora o tecido subcutâneo adiposo, esfacela o osso, invade o cérebro. Busca um abrigo dentro daquela cabeça. Diminui a velocidade até parar, alojada na órbita facial.

A cena passa diante de nossos olhos como um filme (do Zack Snyder), né?

 

Para encerrar a resenha, deixo uma citação de “Circo Fantástico”, um dos últimos textos desse “Assim Falava Zaratustra” tupiniquim. Talvez o que mais retrate o sentimento que ficamos após ler essa obra ímpar:

Que a mente superior que conduz este planeta tenha piedade de nós, mesmo que por piada”. SANTA CRUZ, Tico.

 

AVALIAÇÃO: ***** (Clássico imperdível!)

 

 

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Sobre Fabio Baptista

14 comentários em “Clube da Insônia – Resenha (Fabio Baptista)

  1. Fabio Baptista
    10 de setembro de 2015
  2. Claudia Roberta Angst
    9 de setembro de 2015

    Confesso que quando li, fiquei um tanto confusa – Teria FB gostado ou não da obra monumental de Tico-tico? Não que eu desconheça a veia (deve ser a aorta) de ironia do prezado resenhista, mas sou uma crédula e como ignoro a carreira literária do Tico-sem-o-Teco, fiquei em dúvida. Haveria vida após tal leitura? Convenhamos que o sujeito teve muita coragem de dar a cara a tapa assim com as suas observações pessoais, poemas e etc. Cotidiano de um músico?
    Gostaria de saber como fica o cotidiano dos seus leitores após tal experiência. E cá entre nós, como disse Catarina Cunha, a resenha despertou minha curiosidade. Empresta aí o livro?

  3. catarinacunha2015
    9 de setembro de 2015

    Taí, deu até vontade de ler, viu?

  4. Thais Pereira
    9 de setembro de 2015

    A minha reação depois de ler isso no trabalho não poderia ser melhor. Fiquei olhando para tela do computador sempre crer, meu colega virou para mim e disse: “o computador travou de novo?”. Não, acho que fui eu que travei! rsrsrs’

    • thaislpereira
      9 de setembro de 2015

      Sem crer*

  5. Rubem Cabral
    9 de setembro de 2015

    WTFIGOH?! Hahaha! Preciso confessar uma coisa: ou Dona Ironia desfilou com toda pompa e circunstância – num carro alegórico digno da Beija-Flor de Nilópolis em ano de bicheiros com bolsos bem abertos -através desta resenha, ou meu coração empedernido e amargo deixou-me, de alguma forma, hermético ao monumental talento do Tico.

    Todos os trechos citados, sem exceção, achei MUITO ruins, sem um “tico” de graça! Ou ele é um novo Einstein da literatura e não percebi o “e=mc2” das entrelinhas, ou eu compraria o tal livrinho somente de presente pra minha sogra (juntamente com uns horrendos bombons recheados de alcaçuz e boldo).

    • Fabio Baptista
      9 de setembro de 2015

      “Bela menina, voz de cristal
      Deslumbrava multidões
      O seu talento, dom divinal
      Encantou os corações
      Grande guerreira
      que conquistou
      Seu lugar ao sol
      É festa, é luz,
      é cor, é poesia
      É diva internacional

      Neste palco surge ela… Bidu Sayão
      Sacudindo a passarela, quanta emoção
      E a minha Beija-flor, vem aplaudir
      ‘Bachianas’ e ‘O Guarani'”

    • Neusa Maria Fontolan
      19 de setembro de 2015

      Tadinha da sua sogra! Menino mau

  6. Evandro Furtado
    9 de setembro de 2015

    Agora vou pegar meu tênix, ir atrás do meu melhor, com os olhos razos d’água, já que estou trancado no meu quarto, meia-noite, sem ninguém. Preciso ler essa preciosidade.

  7. Leonardo Jardim
    8 de setembro de 2015

    Olha, depois dessa avaliação calorosa, irei largar o meu Hemingway para mergulhar em tamanha profundidade literária.

    Obrigado pela resenha, Fabio. Se não fosse por você, meu preconceito nunca permitiria conhecer mais essa faceta do Tico Santa Cruz.

    • Fabio Baptista
      9 de setembro de 2015

      Hemingway é moda, Tico Santa Cruz é foda!

  8. Gustavo Castro Araujo
    8 de setembro de 2015

    Tico para a Academia Brasileira de Letras. Demorou! Já posso imaginá-lo com o fardão, junto com os outros imortais. Simplesmente fantástico.

    • Fabio Baptista
      9 de setembro de 2015

      Ele merece!
      Primeiro brasileiro a ganhar o Nobel…

      Ooooooooo ooooooo… eu acreditoooooo!!!
      Ooooooooo ooooooo… eu acreditoooooo!!!

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Publicado às 8 de setembro de 2015 por em Resenhas e marcado , .