EntreContos

Literatura que desafia.

O Herói de Hyrule (Fabio Baptista)

I

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Sorrateiras são as nuvens de tempestade que se aproximam vagarosas, de um lado e de outro, espaçadas, pequenas, sem ares de ameaça e, antes que se dê conta, agrupam-se vestindo de chumbo o céu das tardes de verão, fazendo o azul que estava ali há pouco, tão pouco, afigurar-se como uma memória apagada, algo que não se pode dizer ao certo se realmente aconteceu, um sonho distante.

Foi assim, valendo-se desses mesmos ardis, que rumores malignos vieram do oeste e tomaram conta de Hyrule.

Um mercador chegando à cidade do castelo com vestes empapadas em sangue, arrastando a carroça quebrada e relatando, com desilusão e raiva disputando espaço no olhar, que os Gorons haviam fechado a entrada da Death Mountain, passando a receber com uma chuva de pedras, grandes como ovos de dragão, quem dali ousasse se aproximar. Depois pescadores trazendo redes tão vazias quanto os estômagos de suas famílias, contando histórias pouco críveis sobre como o Lago Hylia havia secado da noite para o dia após uma lufada glacial soprar da montanha dos Zoras, o povo da água. Fazendeiros amedrontados por aparições que durante a madrugada vagavam entre as árvores, carregando lanternas bruxuleantes e gemendo um gemido de agonia pavorosa que deixava os animais inquietos nos currais e fazia o leite empedrar no peito das mulheres.

Queixas sussurradas na praça, cochichos entre a balbúrdia do mercado, murmúrios que se espalhavam na troca de turno dos soldados, assuntos recorrentes entre uma caneca de vinho e outra nas tavernas. Tão repentina quanto inexplicavelmente, os habitantes foram acometidos por um cansaço pálido, pelo medo de uma ameaça invisível que pairava no ar, por uma tristeza que doía no fundo da alma e fazia o simples fato de estar vivo parecer um fardo pesado demais a ser carregado. O verde das extensas planícies do campo de Hyrule tornou-se opaco; as muralhas do castelo, até então erigidas imponentes e intransponíveis diante de todos os olhos, agora se revelavam frágeis, como se um vento pouco mais forte pudesse destroçá-las e trazê-las ao chão; o azul do céu desbotou e até os olhos de princesa Zelda, aquela que governou sem tornar-se rainha, já não eram tão bonitos e inspiradores como outrora.

Não tardou para que a soma de todos os medos ganhasse forma: do Deserto de Gerudo ergueu-se um exército de contingente impossível, como se os mais tétricos pesadelos que já atormentaram os homens se materializassem de uma só vez e brotassem da areia. Homens-lagarto, assassinas da guilda, zumbis, múmias, esqueletos, orcs, trolls, gigantes e toda sorte de monstros e demônios marchavam, às dezenas de milhares, montados em cavalos, dragões e javalis, trazendo consigo catapultas, aríetes, máquinas de guerra e provisões para realizar um longo cerco. À frente desse batalhão terrível, trajando armadura negra e capa cor de sangue, cavalgava o homem conhecido como Ganondorf. Maior que seu poder, apenas a maldade que emanava de seus olhos.

Pouco antes da chegada dos inimigos, a velha princesa Zelda saiu à janela da mais alta torre e fez um pronunciamento. Sua voz não soou tão bela quanto fora em seus áureos tempos, mas ainda era imbuída de doçura e sabedoria, como jamais deixaria de ser. Muitos foram os que a ouviram naquele dia. Foram assim suas palavras:

— Amado povo de Hyrule… não é segredo que um inimigo poderoso aproxima-se de nossos portões, tendo como objetivo matar, roubar e destruir. Posso ver a aflição no olhar de cada um de vocês, posso sentir o medo que aperta vossos corações e, acreditem, eu compartilho da mesma aflição e do mesmo medo. Mas esse inimigo já bateu em nossas portas, há muito e muito tempo, e nós, o bravo povo de Hyrule, o rechaçamos, mandamos o mal de volta para as areias do deserto e pensamos que de lá ele não voltaria nunca mais. – Zelda fez uma pausa para recuperar o fôlego e nesse momento, Impa, a guardiã incansável, pousou a mão no ombro da princesa, dando-lhe a força necessária para continuar. – Porém, quiseram os deuses que esse inimigo retornasse, com um contingente nunca antes visto. Um batalhão de monstros e criaturas diabólicas que faz tremer as montanhas durante a marcha, que faz todo batedor que enviamos para espioná-los voltar da missão com a face de quem viu a própria morte. Talvez o mais sensato agora seja debandar, correr para longe, refugiar-se em algum lugar onde tão terrível exército demore a nos encontrar. Mas eu não vou fazer isso… não vou fazer isso… – a voz de Zelda fraquejou por um instante. – Eu não vou fugir, jamais. Porque eu amo essa terra e vou defendê-la, até que o sopro da vida abandone meu corpo. E até depois disso, se os deuses permitirem. O inimigo é poderoso? Sim, mais que qualquer outro. O inimigo é invencível? Não! Não! E uma vez mais: NÃO! Não há inimigo invencível para as valorosas tropas de Hyrule!

Zelda esperava por gritos confiantes de vitória sendo entoados em uníssono, ecoando por todo o reino e alcançando todos os ouvidos que pudessem ouvir, mas isso não aconteceu. Apenas alguns soldados mais velhos brandiram no ar suas espadas e concordaram, emocionados, com a princesa. Poucos eram os jovens que entendiam e, sobretudo, que sentiam o real significado daquelas palavras, pois nasceram e foram criados durante um longo período de paz. E a paz, a princesa Zelda estava constatando da pior forma, torna manso o coração dos homens, amolece os músculos, tira da alma a vontade de lutar, arrefece o instinto de sobrevivência que só aflora com a necessidade. A paz tira dos soldados a sede assassina, tão indesejada no convívio em sociedade, mas, a princesa jamais admitiria nem a si própria, absolutamente necessária para se vencer uma guerra.

— Ele virá, minha Senhora. Ele virá… – Impa sussurrou no ouvido de Zelda ao perceber a hesitação da princesa e essas palavras lhe deram ânimo para prosseguir:

— Dessa forma, eu, Zelda, filha de Daphnes Nohansen, o justo, neta de Harkinian Nohansen, o bravo, descendente da linhagem dos altos Hylians, na condição de princesa de Hyrule, convoco todo e qualquer cidadão, seja homem ou mulher, seja velho ou criança. Convoco quem estiver disposto a lutar, proteger suas terras, casas, famílias e acima de tudo, proteger o reino de harmonia e justiça em que vivemos hoje, para que neste mesmo reino nossos filhos e netos possam viver amanhã. Eu os convoco, meus irmãos. Juntem-se a mim amanhã no campo de batalha. Vamos mostrar às tropas invasoras que eles vieram invadir o reino errado e vamos mandá-los de volta ao deserto de onde jamais deveriam ter saído…  ou vamos morrer tentando.

Essa última parte foi apenas um sussurro e os gritos da multidão, agora entusiasmados, teriam encoberto as palavras de qualquer forma. Seja como for, as tropas de Hyrule reuniram-se em grande número e preencheram os vastos campos com o metal cintilante das espadas, escudos e armaduras. Na linha de frente estavam os soldados treinados, formando a menor parte do efetivo. Na retaguarda desse batalhão posicionaram-se os reservistas veteranos. Uma terceira tropa de contingência foi formada pelos civis: fazendeiros, mercadores, pescadores e todo aquele, homem ou mulher, velho ou criança, que conseguisse erguer uma espada, enxada, rastelo ou objeto qualquer que pudesse derramar sangue inimigo. Dentro das muralhas do castelo, ficaram os incapacitados para o combate e também os covardes, esses últimos em número muito maior do que a princesa esperava.

E isso lhe causou tristeza.

 

II

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O inimigo apareceu na tarde do dia seguinte.

Nas grandes colinas que margeavam os campos de Hyrule, quase fora do alcance da visão, apareceu um estandarte amarelo entre um punhado de armaduras tão polidas que pareciam espelhos a refletir o Sol. Logo em seguida outro pequeno grupo e depois mais outro. Cerca de cinquenta desses grupos desceram as montanhas e chegaram à planície sem que outras tropas surgissem no topo, dando impressão aos soldados de Zelda que todo o exército inimigo se resumia àqueles batalhões que agora montavam acampamento à distância de uma hora de cavalgada. Um contingente expressivo, mas nada comparado ao diabo que havia sido pintado. Cheios da confiança que flui nas veias de um exército que toma consciência de estar em vantagem numérica, os soldados comentavam entre si enquanto disputavam as poucas lunetas disponíveis: “era esse o invasor que tanto temíamos?”, “os espias que reportaram os números das tropas inimigas deveriam ser enforcados!”, “falaram em cem mil e vejam só… há apenas dez mil ali, se tanto!”, “deveríamos atacar e esmagá-los agora mesmo!”.

Mas logo essa confiança virou espuma.

Mais estandartes amarelos começaram a aparecer no topo das colinas e menear sob as luzes do ocaso. Um, dois, cinco, vinte, cinquenta, trezentos… A extensa cordilheira afigurava-se a um organismo vivo e parecia ela própria marchar, completamente tomada como que por formigas metálicas cutucadas para fora de um formigueiro gigante. Mesmo àquela distância podia-se sentir o chão tremer, castigado pela lenta caminhada de pés incontáveis. O simples vislumbre dessa vastidão de inimigos baixou o moral das tropas de Hyrule ao mais profundo nível de desesperança e a derrota e a aniquilação completa pareciam tão certas quanto a escuridão que agora era trazida pela noite. Fogueiras foram acesas e, exceção feita ao crepitar da lenha e ao uivo dos lobos, todo o campo ficou imerso num silêncio gélido. No primeiro pelotão da linha de frente, duas figuras misteriosas, cobertas por capuzes de modo que não se podia dizer se eram mulheres ou homens ou mesmo se eram ou não humanas, sentaram-se junto aos soldados, que observavam o fogo com o triste semblante de quem se despede da vida, do lar, da esposa, dos filhos, de tudo que ama e de tudo que jamais se terá oportunidade de amar. Assim permaneceram por um longo período, até que o hidromel e o vinho começaram a fazer efeito:

— Que chance temos nós contra tal exército?

— Tudo culpa da princesa Zelda! Não se cria cobras no próprio quintal e ela, que possui a benção da sabedoria, deveria saber disso melhor que ninguém.

— Deveria ter atacado e varrido do mapa todo o deserto de Gerudo antes que um novo rei tivesse chance de se erguer naquele lugar maldito. Pelos deuses… um homem de pele cinza! Cinza! Como se pode confiar num homem de pele cinza? E aquelas mulheres então, o que dizer delas? Apenas ladras!

— Daquele deserto só saem ladrões, ratos, mulheres e fantasmas!

— E desses, os ratos são os mais confiáveis, pode ter certeza…

— Agora estamos perdidos, irremediavelmente perdidos… vamos todos morrer, posso sentir isso nos meus ossos.

— Não! Não sejam assim tão covardes! Eu já enfrentei monstros nas patrulhas que fazia em Faron Woods e sei lidar com esse tipo de coisa. Posso até morrer amanhã, mas garanto que levo pelo menos cinquenta deles comigo. Cinquenta, vocês me ouviram? Pelo menos cinquenta!

As duas figuras encapuzadas ouviam caladas a todo esse mar de lamentações, acusações e lorotas. Quando o silêncio voltou a tomar conta do acampamento, uma delas se levantou e começou a falar com voz rouca de anciã:

— Pessimismo… — apontou para o soldado que dizia a todo momento que tudo estava perdido — nunca ajudou nenhum exército a vencer uma batalha. Mentiras e histórias inventadas também não… — afirmou, encarando o soldado falastrão com olhos que brilhavam vermelhos na escuridão do capuz. — E, se bem me lembro das palavras da princesa Zelda, palavras essas em que acreditarei até o dia da minha morte, não importa o que aconteça, não é o local de nascimento, o fato de ser homem ou mulher, tampouco a cor da pele que define o caráter de alguém.

Alguns soldados abaixaram a cabeça. Porém o capitão daquele regimento, já entorpecido pelo hidromel, levantou-se com a caneca em punho e retrucou:

— A princesa Zelda agora está dormindo em uma cama quente, protegida pelos muros do castelo enquanto nós estamos aqui no frio, aguardando a morte certa que chegará pela manhã. Então, não me venha falar das palavras dela. Não me venha com discursos bonitos sobre caráter. Todos sabiam que daquele maldito deserto só se pode esperar o pior e ali está a prova — disse, apontando bruscamente a caneca na direção das tropas inimigas que já retomavam a marcha. — Pelo sim, pelo não, era melhor ter matado cada um deles, antes que pudessem se tornar uma ameaça. Nada disso estaria acontecendo, fosse eu o rei de Hyrule.

— Fosse você o rei de Hyrule… — a anciã de capuz cortou em tom seco — e nós não precisaríamos de inimigos.

— Amanhã, quando um daqueles monstros cravar uma espada em seu peito, ou esmagar sua cabeça com uma clava… você me dará razão, velhota.

— Nós venceremos amanhã, capitão.

— Ha-ha-ha! — O homem atirou o resto do hidromel ao fogo, gerando uma labareda sinuosa. — Eles têm pelo menos vinte para cada um dos nossos, sem contar os que podem estar ocultos atrás das colinas, chegando com armamentos mais pesados. Como poderemos vencê-los? Por favor, me diga… estou curioso!

— O Herói do Tempo, o escolhido pelos deuses… ele virá nos salvar. – A anciã encapuzada respondeu.

— Herói do Tempo? Sua esperança se baseia em histórias que as amas contam para as crianças antes de dormir? – O capitão zombou, pegando um galão de hidromel e entornando direto no bico, de modo que o líquido adocicado escorreu por sua barba. – Se você, seja lá quem for, acredita nessas lendas e acha que os deuses enviarão alguém para nos salvar milagrosamente, então ouça meu conselho: se mate agora e poupe a si mesma da desilusão. Não há salvador algum. E mesmo que houvesse… que diferença faria apenas um guerreiro em meio a tantos outros?

— Ele existe… – A anciã respondeu com uma certeza que fez todos os soldados calarem-se para prestar atenção em suas palavras. – Eu já tive a honra de lutar ao lado dele, há muito e muito tempo. Há muitos fatores que interferem no rumo de uma batalha… número de combatentes, condição do terreno, moral das tropas, estratégia, velocidade com que as ordens dos mais altos generais chegam aos soldados rasos da linha de frente. Na maioria das vezes você precisa de tudo isso e até um pouco mais. Mas, às vezes… tudo que se precisa é um pouco de coragem. Coragem para se lançar contra um inimigo mil vezes mais poderoso do que você, não por loucura, não por falta de noção do perigo, mas pela certeza que essa é a coisa certa a se fazer. E eu vi com meus próprios olhos… o Herói de Hyrule, chegando no campo de batalha junto ao som da ocarina, a canção que eu não vou esquecer mesmo que viva até o fim de todas as coisas, em sua túnica verde, empunhando a espada sagrada e cavalgando em direção a uma besta cuja simples visão faria todos vocês, soldados de pouca fé, implorarem pelo colo quente de suas mães. Ele destruiu a besta, com bombas, ganchos, flechadas de gelo e fogo, e principalmente, com coragem. Coragem, soldados, vocês entenderam? Coragem… para lutar o bom combate, mostrar a coisa a certa a se fazer, com atitudes, não com palavras. Essa é a única maneira de inspirar os outros. Coragem.

— Se bem me lembro… – a outra figura encapuzada, até então em silêncio, falou, com uma voz que traria paz até ao mais desesperado dos corações – nessa oportunidade o Herói escolhido pelos deuses também teve uma grande ajuda de Impa, a guardiã incansável…

— Sim… talvez ela tenha segurado alguns inimigos enquanto ele dava conta da fera. Nenhum feito digno de nota… – a primeira anciã comentou rapidamente.

— Eu não sei quem vocês são e muito menos como ou porque vieram parar aqui… – o capitão voltou a se pronunciar – mas eu espero, do fundo da minha alma, que vocês estejam certas. Que um herói vestido de verde apareça empunhando uma espada mágica e mude o rumo dessa batalha. Porque amanhã, por mais coragem que tenhamos, apenas um milagre desse tipo poderá nos salvar…

 

III

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O Sol nascente trouxe um brilho opaco às planícies de Hyrule. Com o cheiro da relva molhada pelo orvalho os soldados despertavam, desejosos de que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Mas ao contemplar as fileiras inimigas que já estavam próximas quase a ponto de se ver os rostos, tinham a certeza de que tudo era real e de que a morte era apenas questão de tempo. Pouquíssimo tempo. “Formar parede de escudos!!!”, ordenavam os capitães. A ordem era atendida, mas apenas por obrigação, pois a derrota era a mais absoluta das certezas no coração de cada soldado ali presente e assim as tropas de Hyrule assemelhavam-se mais a condenados cientes da culpa e do merecido castigo, a quem só resta rezar para que o carrasco tenha piedade e perícia suficientes para separar-lhes a cabeça do corpo em apenas uma machadada.

O exército inimigo investia com a voracidade de uma horda de gafanhotos faminta e tudo parecia perdido, quando as duas figuras encapuzadas adiantaram-se à frente das primeiras fileiras e despiram-se do pesado manto marrom que lhes cobria a face. E os soldados viram, quase sem acreditar nos próprios olhos, que era a Princesa Zelda quem ali estava, acompanhada por Impa, sua eterna guarda-costas.

— AO ATAQUE, BRAVOS GUERREIROS DE HYRULE!!! – Zelda bradou somente isso e correu em direção aos inimigos.

Os soldados, como que encantados pelo mais belo dos feitiços, foram tomados por um frenesi incontrolável, contagiados por uma vontade de viver e de lutar, imbuídos por uma confiança juvenil de que tudo é possível, de que não há obstáculo que não possa ser superado ou inimigo que não possa ser derrotado, de que a morte é assunto para se preocupar apenas em algum dia de um futuro longínquo que talvez sequer aconteça. “Pela Princesa Zelda!!!”, “Por Hyrule!!!”, eles gritavam enquanto abandonavam a formação defensiva e avançavam. Aqueles que estavam atrás e não puderam ouvir as palavras da princesa, nem ver seu rosto, eram contagiados pelos que estavam à frente e também se animavam e corriam. Foi a vez do inimigo passar por um instante de hesitação, pois aquela investida selvagem de escudos e armaduras azuis não estava prevista de forma alguma. Já não mais sabiam se continuavam avançando ou se paravam para formar uma parede de escudos e conter o ataque inesperado. As tropas colidiram bem no meio desse momento de dúvida.

E os escudos e as espadas de Hyrule esmagaram as três primeiras fileiras do exército de Gerudo.

Com seu florete, Zelda dançava a dança da morte, levando ao chão um inimigo após o outro com tamanha graça e leveza que era impossível aos soldados não se inspirar e querer avançar e ignorar a dor ardida dos ferimentos, golpear mais uma vez com a espada a despeito da exaustão que já começava a tomar conta dos músculos e dos pulmões. Em contraste com a princesa, Impa, com sua espada gigante que mais parecia uma mesa de metal, golpeava com selvageria, decepava braços, pernas, cabeças, tentáculos, garras e o que mais encontrasse pelo caminho. E essa visão brutal renovava a confiança da vitória aos guerreiros e eles lutavam com mais afinco.

Porém, passado o ímpeto inicial do ataque, as tropas de Hyrule começaram a cansar, pois o corpo tem um limite, por mais inspiração ou motivação que se possua, e as fileiras adversárias pareciam intermináveis: para cada monstro que se derrubava, outro aparecia para tomar seu lugar. Paredes de escudo começaram a ser formadas, para que as fileiras pudessem revezar e recuperar o fôlego, mas logo apareceram homens-lagarto alados que passavam sobre as barreiras e investiam direto contra os soldados cansados e feridos. Alguns foram abatidos por flechas, mas eles eram muitos. Aqueles que continham os inimigos segurando-os com a força dos escudos, sentiam o bafo putrefato e viam de perto a sede de morte em seus olhos cruéis. Poderiam manter essa posição ainda por algum tempo, mas os ataques começaram a vir de todos os lados e já não mais sabiam se olhavam para frente ou para trás.

Além disso, o inimigo também tinha seus campeões.

Ghirahim, o demônio branco, surgiu no campo de batalha, movendo-se tão depressa que era impossível acompanhá-lo com os olhos. Aparecia e golpeava com seu sabre longo, perfurava um coração, atravessava um olho, cortava uma garganta. Em seguida desaparecia, esquivando-se para longe das lâminas que tentavam inutilmente atingi-lo.

— Parece que seu Herói do Tempo está atrasado, Impa… – disse o capitão, parando para respirar após derrubar um homem-lagarto e puxando de uma vez a flecha que estava encravada em seu ombro desde o início da batalha.

— Ele virá, capitão. Ele virá. Agora cale a boca e me dê cobertura. – Impa ordenou, apontando com o dedo para a horda de zumbis que avançava em direção às tropas do capitão.

Impa não desviou o olhar durante a rápida conversa, pois marcava os movimentos de Ghirahim, aguardando o momento certo para antecipá-lo e golpeá-lo logo que aparecesse. O demônio atacou de surpresa um grupo de guerreiros que duelavam contras as ladras da guilda de Gerudo. Depois derrubou três arqueiros com um único golpe e logo se teleportou às costas dos lanceiros de Hyrule, fazendo-os perder o foco e ser atropelados pelos orcs montados em javalis que vinham em sua direção. Se Ghirahim mantivesse o padrão e a velocidade de deslocamento, seu próximo alvo seria… Zelda.

Impa correu como jamais correra em todos seus longos anos. Com ombro firme e vontade inabalável, derrubou aliados e inimigos pelo caminho. Tudo a sua volta, todos os sons de metal encontrando metal, os gritos de guerra e de dor, o cheiro do sangue que pintava de vermelho os verdes campos de Hyrule, as flechas flamejantes que voavam de um lado para outro, as lanças que se partiam e as lágrimas que se derramavam… tudo tornou-se um túnel translúcido onde as imagens e os sons pareciam vir de muito longe. Ao final desse túnel estava a única coisa que importava para Impa naquele momento. A única coisa que sempre importou e sempre iria importar: Zelda.

Ghirahim apareceu atrás da princesa, lambendo os lábios com sua língua de serpente, saboreando o doce momento que antecede o golpe mortal na peça chave do exército inimigo. Com o sabre ele deu uma violenta estocada em direção às costas de Zelda, mas no caminho encontrou o peito de Impa, que saltara no último instante para salvar sua protegida. A espada larga da guardiã incansável partiu o demônio branco ao meio e no momento da morte ele soltou um grito de agonia tão horrendo que todo o campo de batalha ficou em silêncio por alguns instantes, tentando entender o que se passava. Zelda então se virou e viu Impa cuspindo sangue, com o coração irremediavelmente trespassado pelo sabre de Ghirahim.

— Impa, nãããoooo!!! – A princesa desmanchou-se em lágrimas ao abraçar o corpo quase sem vida de sua leal guarda-costas.

— Meu único arrependimento, minha princesa… minha… rainha… – Impa falou, com as forças que lhe restavam – é ter apenas uma vida para poder servi-la. Apenas uma vida para viver a seu lado. Apenas uma vida… para morrer por você.

— Impa…

— Continue lutando, princesa. Link está atrasado, mas ele virá. Eu sei que virá. Eu esperarei por vocês, no mundo de águas calmas e areias brancas que nos aguarda do outro lado. Mas não tenham pressa, por favor… – Impa deu seu último sorriso.

 

IV

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Zelda beijou-a na testa e retornou ao combate, dessa vez com uma brutalidade que não condizia com seu aspecto frágil e que encheu de medo o coração dos inimigos próximos, fazendo com que alguns chegassem até a debandar do combate. As tropas de Hyrule voltaram a avançar, impulsionadas pelos feitos heroicos de sua princesa. Porém, do outro lado, veio o próprio Ganondorf, cavalgando seu cavalo negro e desferindo golpes que faziam voar os guerreiros de Zelda, como se fossem brinquedos de papel.

Com o sopro da vida terminando de deixar o corpo, Impa ouvia os sons da batalha cada vez mais distantes. Rosto colado ao chão viscoso de sangue, a guardiã incansável via as tropas de Hyrule sendo esmagadas e recuando cada vez mais. Não tardaria para que todos morressem. Todos, até sua amada princesa. O Herói do Tempo não viria, o capitão estava certo, tudo não passava de uma lenda, uma lembrança idealizada de tempos que jamais retornariam.

Tudo estava perdido, irremediavelmente perdido.

Então, quando a desesperança escorreu em forma de lágrima solitária pelo rosto da velha Impa, ela ouviu: o doce som da ocarina, a canção que jamais esqueceria, mesmo que vivesse até o fim de todas as coisas. Ouviu o relinchar da égua chamada Epona, a montaria do herói, o mais veloz e mais fiel de todos os cavalos. Misturando-se à imagem das águas calmas e das areias brancas, ela viu o rosto daquele que era o escolhido pelos deuses, tão inocente e puro quanto o rosto de uma criança.

— Está atrasado, Link. Agora terá que se virar sem mim… – ela balbuciou.

Os olhos do herói ficaram cheios e ele apertou as mãos de Impa, despedindo-se de sua velha amiga.

— Ei, escute! – Navi, a pequena fada que acompanhava o herói, falou. – Zelda está pedindo socorro! Vamos até lá ajudá-la, Link!

— Vá, Link… proteja Zelda por mim. Salve Hyrule uma vez mais…

Impa viu Link concordar com a cabeça e depois montar Epona, partindo em disparada ao encontro de Zelda, que travava uma luta quase perdida contra Ganondorf. A guardiã incansável viu o herói abrindo caminho através dos esqueletos, trolls, orcs e homens-lagarto, ouviu os homens gritarem “é o herói da lenda!” ao avistá-lo e viu as armaduras azuis voltando a avançar, tomadas por novo ímpeto de combate.

Depois não viu nem ouviu mais nada.

Envolta pela escuridão silenciosa que conduz às praias cristalinas que aguardam os bons de coração no outro lado, a guardiã incansável sorriu. Sorriu com a alma, sorriu o sorriso mais satisfeito que alguém pode sorrir.

O herói da lenda havia retornado.

E Hyrule veria o Sol nascer por mais um dia.

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Sobre Fabio Baptista

7 comentários em “O Herói de Hyrule (Fabio Baptista)

  1. Fabio D'Oliveira
    8 de setembro de 2015

    ☬ O Herói de Hyrule
    ☫ Fabio Baptista

    ஒ Físico: A estrutura e organização do texto estão excelentes. Realmente, o autor escreve muito bem, muito mesmo. Não encontrei nenhuma falha gramatical, mas esse também não é o meu forte. No entanto, o estilo me pareceu um pouco prolixo. Alguns leitores irão se cansar na metade do texto, como no meu caso, e ansiar pelo final. É claro, outros leitores vão gostar dessa narrativa, mas isso pode acabar restringindo sua base de seguidores.

    ண Intelecto: Conheço muito bem a estória de The Legend of Zelda. Muitos não sabem disso, mas essa magnífica série tem uma cronologia fantástica e a maioria dos títulos fazem parte de uma realidade gigantesca! Com exceção de alguns, é claro, como Hyrule Warriors. Quando vejo esse conto, reconheço ele como uma homenagem pessoal. Não se encaixa em nenhuma timeline. Agrupa personagens de diversos títulos da série. E cria alguns estereótipos. O maior problema no desenvolvimento da estória é a falta de aprofundamento. Da forma como está, o texto fica um pouco restrito aos fãs da série. O leitor comum poderá ficar um pouco confuso e achar que o enredo é superficial demais. Acredito que o ideal é apresentar uma estória sólida, mesmo sendo uma fanfiction.

    ஜ Alma: Uma homenagem nem um pouco pretensiosa de um fã. Isso é muito bonito. Entendo o sentimento, pois entrei no mundo da literatura através do mundo de Silent Hill. E como adoro escrever sobre o tema dessa série macabra! Apesar do ar um pouco superficial, a estória representa o mundo de The Legend of Zelda muito bem. A única coisa que faltou foi a magia que o título sempre traz consigo.

    ௰ Egocentrismo: Gostei da homenagem. E amo a Nintendo. Não há companhia mais viva do que ela nesse ramo. Magia pura! No entanto, o enredo não me agradou, pela sua superficialidade. E a leitura foi um tanto cansativa, devido ao estilo do autor.

    Ω Final: Um texto belíssimo, muito bem escrito, que representa o talento do autor com excelência. Peca na superficialidade e na falta de aprofundamento. Uma homenagem muito bonita, mas restrita.

    ௫ Nota: 8.

    • Fabio Baptista
      8 de setembro de 2015

      Fala, Fabião!

      Tenho acompanhado seus comentários e devo dizer que essas suas análises estão bem bacanas, cara. Parabéns!

      Aqui tentei ficar no meio termo entre aprofundamento e andamento da história. Uma abordagem mais detalhada do cenário e dos personagens exigiria bem mais texto e certamente afastaria ainda mais leitores kkkkkk.

      Busquei oferecer o mínimo para que os que não conhecem a série pudessem se situar, mas, realmente, uma apreciação mais completa exige prévio conhecimento da série.

      Essa história é mais baseada no climão de “Hyrule Warriors” (puta jogo, aliás!) que você mencionou. No final do modo aventura desse jogo (que o Link anda pelo mapa como na versão 8 bits do Nintendinho) aparece: “PARABÉNS, LINK! VOCÊ É O HERÓI DE HYRULE!”… eu sei que é a coisa mais besta do mundo, mas a gente se envolve tanto com esses personagens e com esse cenário que eu cheguei a me emocionar lendo essa simples frase.

      Daí veio o título do conto… 😀

      Abraço!

      • Fabio D'Oliveira
        9 de setembro de 2015

        Boa tarde, grande Fabio!

        É verdade, com o seu estilo, o aprofundamento seria complicado. Ou dar o foco em pouquíssimos personagens ou investir na guerra. Ainda fico com a primeira opção, hahaha.

        Então, The Legend of Zelda é uma série fantástica. Já joguei basicamente todos os jogos, com exceção de Hyrule Warriors e dos títulos do Nintendo 3DS. E sempre me emociono com essa realidade. É incrível como algo tão bobo pode mexer com nosso interior, não é? Entendo-te!

        Enfim, o conto não está ruim! Apenas restrito, hahaha.

        Um forte abraço!

      • Fabio Baptista
        9 de setembro de 2015

        Hyrule Warriors não recebeu boas críticas, mas é um grande jogo. Claro que numa pegada totalmente diferente da série original.

        Agora… esse novo Zelda que será lançado para o Wii U no ano que vem ou 2017 (e provavelmente também para o Nintendo NX)… cara… parece que será nada menos do que absurdamente-sensacional-arrebatador. 😀

        Aguardemos!

      • Fabio D'Oliveira
        9 de setembro de 2015

        Eu gosto do estilo de jogo do Hyrule Warriors. É um estilo casual, que conheci através de Samurai Warriors, que jogava no Playstation 2. Claro, o título não chega aos pés dos originais da série, mas não é ruim!

        Agora, esse novo The Legend of Zelda está me deixando agoniado! Cara, que jogo bonito! Fantástico! Ansiedade é o que não falta.

        Uma dica, tente pegar Majora’s Mask e Skyward Sword, os melhores jogos na minha opinião. O primeiro tem um sistema de viagem no tempo que é fora do normal! Excelente em todos os sentidos. E o último conta a origem da eterna batalha de Link e Zelda contra Ganondorf, e o sistema de batalha com o wiimote é maravilhoso.

  2. Rubem Cabral
    8 de setembro de 2015

    Um conto muito divertido, com descrições bem vívidas. Só não curti muito o parágrafo de abertura, com a clássica citação das condições metereológicas.

    Em tempo: não conheço nadica de nada de Zelda. Do Link já ouvi falar por revistas de games e só.

    • Fabio Baptista
      8 de setembro de 2015

      E aí, Rubão!

      Meu, o primeiro parágrafo foi uma tentativa não muito bem sucedida de fazer uma metáfora das nuvens de chuva que preenchem o céu de repente com o jeito que os boatos chegaram e tomaram conta do reino! Eu inverti essa sequência umas três ou quetro vezes. Falei primeiro do tempo, depois coloquei os rumores na frente, tentei ir direto ao assunto e depois voltei pro tempo… pelo jeito não foi a melhor escolha :/

      Cara, eu também não conhecia nada do universo desse jogo (até dois anos eu chamava o Link de Zelda kkkkkkk). Daí comprei um videogame na Nintendo para jogar nos finais de semana com o meu filho e peguei “The Legend of Zelda: The Wind Waker”. Foi amor à primeira vista.

      Depois terminamos “Twilight Princes” e agora estamos no “Ocarina of Time” que é considerado o melhor jogo de todos os tempos (hoje eu vejo que com toda justiça).

      Abraço!

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Publicado às 7 de setembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .