EntreContos

Literatura que desafia.

O silêncio de cada um – Crônica (Patrícia Dantas)

O-SILÊNCIO-DE-CADA-UM

Tenho escutado e lido seguidamente que a verdade de cada um encontra-se num lugar chamado silêncio.

Mera coincidência não pode ser. Porque nestes dias também eu me descubro aos poucos – como uma suave cortina que desce na frente do palco -, dotada de um silêncio avassalador que me fala coisas que nunca tive coragem de vivê-las a fundo. Sou muito mais movida pelo silêncio como minha forma mais essencial de me sentir viva.

Com o silêncio dialogo de forma mais profunda; as palavras se juntam e dão corpo a uma coisa que me transcende; é em meu silêncio que me pertenço mais puramente. É o silêncio que posso chamar de COISA, porque tem um duplo sentido, de liberdade e verdade.

Se for para me alertar sobre algo, meu silêncio já alcançou seu fim. Que sou obviamente misturada e misticamente envolvida na sensação opaca – lúcida lá na frente – do que o que eu digo mais interiormente é o que mais comprova meus gostos e sensações de quem sou. Sou o próprio silêncio cortado pelos rasgos incontidos de uma garganta mal acostumada a se calar perante o desconhecido revelado.

Como pode um tempestuoso ser indefinível, sutil e miraculosamente silencioso diante do mundo, tocar tão misteriosamente o que protegemos até de nós próprios? Eu, a pessoa protegida de mim, inteiramente pelo silêncio anterior a minha construção de qualquer som emitido.

Quase tenho mais palavras para falar sobre o que tenho agora em mãos – O SILÊNCIO, este poderoso antídoto contra todas as dores e atrocidades humanas – como não as teria para falar de algo mais corriqueiro e presente em meu cotidiano. É mais difícil acertar as contas com o óbvio que aniquila pessoas e personagens todos os dias.

E esse gozo eufórico de tratar do intenso encanto do que precede como a fé de uma prece vai tomando contornos tão nossos e originais, que não saberíamos colocar em outras mãos para simplesmente pertencer a alguém.

Diante dos silêncios imersos de cada um, não tenho como construir o que se é. Tudo vem velozmente acertando o próximo alvo. Quem estará ali, envolvido no próximo silencio? Alguém não quer falar, prefere calar ao mais fundo de si e ver se resta algo inesperado – a evocação de quem sempre esteve ali. A companhia de todas as horas.

O silencio eterniza a palavra não dita, o que se estava para dizer e calou-se. O medo, o pavor, a timidez preservada. Meros espectros. Quando alguém toca a ferida alheia, não é por meio da palavra dita? Não esqueçamos que também existem olhares avassaladores que protegem o que se vai dizer.

E por pouco tempo tudo depende da opção, da escolha da ferramenta com que se vai pescar dentro de si. (Clarice (Lispector) usava a “palavra como isca”) Mas tudo lhe vinha do silêncio e tornava-se uma forma de falar brutamente existente, que parecia erguer-se a quatro mãos, para apoiar o corpo todo nessa força bruta incessante.

Outra coisa: há inventividade e muito atrevimento nos silêncios de cada um.

…………………………………………………

Texto originalmente publicado em http://www.contioutra.com/o-silencio-de-cada-um/

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11 comentários em “O silêncio de cada um – Crônica (Patrícia Dantas)

  1. catarinacunha2015
    9 de setembro de 2015

    Parabéns pela crônica poética!

  2. Ruh Dias
    9 de setembro de 2015

    Uau, Patrícia, que texto lindíssimo! Fiquei pendurada em cada palavra que você escreveu, e me identifico completamente com estes aspectos do silêncio. Parece que as pessoas usam o barulho para fugirem de si mesmas. Parabéns pela sensibilidade e pela escrita impecável!

    Sucesso
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

  3. Jefferson Lemos
    8 de setembro de 2015

    Olá, Patricia!

    Primeiro texto que leio aqui desde o último desafio, e a primeira crônica que leio aqui no espaço do EC. Nunca tentei nada parecido, mas devo admitir que a sua criação me deu uma vontade bem incontrolável de tentar escrever algo nesse segmento.
    Sua palavras tocam e fazem pensar. Às vezes, o silêncio é melhor companhia. Nos compreende mais do que qualquer um e nos dá respostas sem que uma palavra seja trocada.
    É no silêncio que a essência das dúvidas se transmuta: seja para glória ou desolação.

    Parabéns pelo texto, gostei bastante, de verdade. Você deveria aparecer mais vezes por aqui, sua qualidade literária seria muito bem vinda.

    • Patrícia Dantas
      9 de setembro de 2015

      Jefferson, confesso que fiquei muito feliz com o seu comentário, pois quando a gente escreve há algo que faz mais sentido qdo recebemos uma impressão, uma crítica, uma sensação de alguém em relação ao texto. Se te deu vontade de experimentar a crônica, vá em frente, aposto que vc tem muita coisa a dizer e nos fazer refletir refletir. Vamos marcar presença aqui, no Entre Contos.

  4. Jowilton Amaral da Costa
    8 de setembro de 2015

    Gostei. Viajei legal na crônica. Abraços.

  5. Gustavo Castro Araujo
    7 de setembro de 2015

    Bacana essa abordagem sobre o quão torturante pode ser o silêncio. Por vezes nos vemos presos a situações assim, em que o melhor é nada ouvir, nada falar. Simon & Garfunkel falavam com maestria sobre esse assunto em “The Sounds of Silence”, presente na trilha sonora de “A Primeira Noite de um Homem”, tema, aliás, do personagem de Dustin Hoffmann, um sujeito não surpreendentemente introspectivo. Embora nunca nos comportemos da mesma forma quando sob estresse, penso que o silêncio jamais é a melhor opção. Extravasar é preciso, seja por meio de um grito, um xingamento, ou mesmo escrevendo. Em suma, uma crônica bem interessante, dessas que nos deixam pensando por horas a fio. Parabéns.

    • Patrícia Dantas
      8 de setembro de 2015

      Gustavo, obrigada pelo espaço! Gosto de me pegar pensando nessas coisas, nesses silêncios e suas reviravoltas que se apresentam tão cheios de corpo nesses dias que nos acompanham. E, para entender um pouco do que quer me falar, saio tateando minhas palavras muitas vezes tão incompreensíveis pra mim, pois esse silêncio tantas vezes é muito misterioso, e assim concordo com suas palavras “Extravasar é preciso, seja por meio de um grito, um xingamento, ou mesmo escrevendo.” Obrigada!

  6. Fabio Baptista
    7 de setembro de 2015

    Olá, Patrícia.

    Gostei do tom poético que você escreveu a crônica.

    Lembrou-me uma parte da música “Esperando por Mim” (que devo confessar que me enche os olhos toda vez que ouço) da Legião Urbana, que diz: “e é de noite que tudo faz sentido, no silêncio eu não ouço os meus gritos”.

    Depois de ler a crônica, fica a dúvida se esse verso ficaria melhor assim: “é só no silêncio que eu ouço meus gritos”.

    Abraço!

    • Patrícia Dantas
      8 de setembro de 2015

      Fábio, obrigada por ler a crônica e tb me trazer essa música da Legião que marcou boa parte da minha vida; esse silêncio que falo permeia esse diálogo interior que nem sempre entendemos o que quer dizer, mas tem muito significado dentro da gente, é nossa mola para seguir buscando nosso espaço no mundo. Ótima semana!

  7. Darcy
    7 de setembro de 2015

    Nada mais audível que o silêncio.

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Publicado às 7 de setembro de 2015 por em Crônicas e marcado .