EntreContos

Literatura que desafia.

Micro, Mini, Nano – Artigo (Eduardo Selga)

palito

Não vivemos, apenas. Essa simplificação é o grande sonho oculto dos simplórios, os que não conseguem entender que vivemos inseridos em um contexto sócio-histórico e que a vida gira em torno desse fato, inclusive a produção artística. O indivíduo não é senhor de si mesmo, no grau que muitas vezes ele supõe ou lhe é sugerido: ele sente e pensa, em larga medida, em função de seu tempo, sendo a favor, contra ou supostamente indiferente. Mas sempre EM FUNÇÃO de seu tempo.

Vivemos em que época? Num hiato temporal que desacredita do saber sistematizado e enciclopédico, não crê na ideia de raiz. Antes, o saber é pulverizado e preferimos a fragmentação que não nos solidifique em qualquer ponto que seja, e para constatar isso basta prestar atenção numa sala de aula. As Grandes Narrativas que fundamentavam as ciências e o comportamento social foram substituídas por metanarrativas, ou seja, a narrativa da narrativa. Por isso é raro, hoje, termos romances ou contos nos termos lineares. Quase sempre há, no interior da narração, alguma fuga, como o uso do fluxo de consciência, o desordenamento temporal, textos intertextuais com aproveitamento de narrativas anteriores e outros recursos que demonstrem o abandono da linearidade.

Por isso me parece oportuna a postagem do Andre Luiz na página do Facebook, tratando dos mini, micro e nanocontos.

Por que os contos estão diminuindo de tamanho, progressivamente? Temos, novamente, o tempo histórico afetando o texto. Acreditamos em alguns conceitos empresariais elevados à categoria de mito, como a otimização do tempo e a eficiência, de modo que o percurso necessário para o desenvolvimento do enredo em um conto, gênero textual marcado pela brevidade, passa a ser encurtado em função da necessidade de se impactar logo, imediatamente, o leitor. Como num comercial de trinta segundos, ou um trailer de filme. O efeito do texto passa a ter um valor enorme, e este tem de ser uma emoção contundente. Nada de cores pastéis no enredo, porque o autor precisa fazer o leitor sorrir ou sofrer ou se surpreender ou se rasgar todo. Similar ao impacto midiático: sensacional no momento da recepção da mensagem, mas esta rapidamente é esquecida porque haverá outra narrativa a ocupar o espaço, uma narrativa cheia de vazios coloridos.

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10 comentários em “Micro, Mini, Nano – Artigo (Eduardo Selga)

  1. mariasantino1
    19 de agosto de 2015

    Oi, Eduardo!

    Certa vez você comentou um conto meu e disse que as tonalidades eram pastéis. Nesse desafio que passou percebi que mais pessoas sentiram isso ao dizer que meu texto era um “refresco” entre os demais. Eu gosto muito de me sentir confortável ao apreciar algo (e esse confortável não está relacionado ao teor do que é apreciado). Não me importo com a ausência de gritos, de tramas mirabolantes como alguns filmes por aí, até porque se eu quisesse só me entreter bastaria ligar a TV. Fico pensando se alguns autores teriam espaço no cenário atual. Se Clarice Lispecto, com suas tramas simples e narrativas arrebatadoras, seria lida. Parece que para alguns é “errado” optar por uma trama simples, não é correto não oferecer uma reviravolta. Parece que todos “devem” fazer assim ou assado, não se pode optar por isso ou aquilo e a sonoridade do casamento das palavras não tem valor algum. Ou você se enquadra para receber algum rótulo, ou então, não tem lugar.
    Sim, há muitos vazios coloridos, sobremesas que são tomadas como prato principal. Fico só de olho em todo esse fast food literário, parece que não há mais força para digerir as refeições.

    • Eduardo Selga
      20 de agosto de 2015

      Maria Santino,

      Em “Laços de Família”, livro de contos de Clarice Lispector, há uma narrativa, “O Crime do Professor de Matemática”, que chama a atenção por certa tranquilidade tensa, certo tom de corriqueiro naquilo que não é. A autora, como você diz, abre mão dessas adrenalinas. Afinal, escrever assim é muito fácil. É uma espécie de outdoor literário, muito adequado a esse tempo em que vivemos, um tempo de imagens, muito mais do que de reflexão.

      Se ela teria espaço hoje? Leia isso: http://observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/editores-esnobammachado-de-assis/

      Na verdade, é muito mais difícil escrever um texto literariamente bom a partir do simples do que a partir do mirabolante, porque estamos a falar de sutilezas, da entrelinha, não do evidente, do manifesto. Além disso, para perceber o sutil é preciso do leitor uma postura reflexiva e, como é sabido, pensar dói, pode causar luxação nos músculos marombados do pensamento raso. Falar do notório e de emoções facilmente digeríveis (a extrema e abobada alegria ou o ódio salivante, por exemplo) é não tirar o leitor de seu edredom. Ou melhor, de sua “cadeira do papai”, onde assiste às bobagens com resolução digital e som estéril que a tv oferece (estéril mesmo, não quis dizer estéreo: é que o som não fecunda).

      Tudo isso é reflexo do tempo. Espero haver forças na sociedade que consigam iniciar a mudança desse discurso hoje dominante na estética literária brasileira. Tais forças existem, mas ainda são sussurros.

  2. Gustavo Castro Araujo
    18 de agosto de 2015

    Certa vez li um artigo em que o autor, ao debater a atual cena literária, defendeu a tese de que hoje, um texto (seja romance, seja conto, seja poesia, seja microconto) deve fisgar o leitor já no segundo parágrafo. “É preciso haver sangue na parede”, disse o sujeito. Isso me entristece, de certo modo. Reféns de um contexto mercadológico, em que o sucesso equivale a vendas, os autores contemporâneos vêm adotando esse sistema em detrimento da arte de contar histórias. É como ocorre no cinema — não se vêem mais filmes no sentido de arte, mas blockbusters vazios de conteúdo mas com forte apelo midiático. Há, de fato, um empobrecimento cultural em todos os níveis, mas gosto de pensar que pelo menos aqui no EC temos um espaço em que a busca pelo reconhecimento não está atrelada necessariamente a esse sucesso vazio de conteúdo.

    • Eduardo Selga
      20 de agosto de 2015

      Gustavo,

      A estética guardava relativa independência em relação às outras forças que constituem a sociedade de consumo. Isso ocorria não apenas a literatura, como outras manifestações da arte, a exemplo da música. Era possível, por exemplo, lançar músicas na contramão do discurso majoritário porque, ainda que poucos, havia quem adquirisse e prestasse atenção no conteúdo.

      Hoje quase não há isso. É um enorme consenso em torno da ideia de agradar o freguês.Ora, agradar significa repetir o discurso que ele já ouve e pretende continuar ouvindo. Mas cabe ao artista a papel de refletir sobre a sociedade, uma vez que o seu discurso estético pode afetá-la em sua subjetividade. E é na camada subjetiva que se formam as decisões objetivas, em todos os níveis da sociedade.

      Claro, existe alguma resistência. Mas cada vez mais ela se dá em pequenos guetos, inclusive no próprio âmbito na internet, já que o chamado mundo virtual não é composto apenas por vastas e iluminadíssimas avenidas: também há becos e vielas. As passarelas da net estão ocupadas por uma literatura de espetáculo, excessivamente preocupada com a recepção do texto e pouco com a qualidade literária do texto.

  3. Claudia Roberta Angst
    18 de agosto de 2015

    Gostei muito do seu artigo e fiquei surpresa por este ser menor do que os seus comentários (ausentes e que nos fazem tanta falta). A imagem escolhida encaixou-se muito bem ao tema abordado.
    Depois de participar de tantos desafios aqui e baseada em minha própria experiência lendo e escrevendo, concluí que a interpretação de um texto é bastante subjetiva e por isso mesmo abarca tantas possibilidades de percepções, às vezes bem destoantes entre si.
    Tenho preferência por textos mais coesos, talvez por pura impaciência. No entanto, deparei-me, muitas vezes, com textos longos e que não me cansaram nem um pouco. Outros, bem mais curtos, esbarram em um imediato vácuo e pouco acrescentam. Não creio que seja o tamanho o fator determinante do valor de uma produção artística.
    O que sensibilizaria mais o leitor? O impacto de um texto curto, mas bem trabalhado, ou uma narrativa mais longa que permita ao autor desenvolver melhor suas ideias?
    E qual a função de um texto literário? Provocar emoções, reflexões, entendimento? Existe mesmo uma razão que justifique o processo criativo?
    E se os vazios coloridos (adorei isso) levarem o leitor a um tédio que silencie o tumulto do cotidiano, isso pode ser bom. Às vezes, o tudo precisa nascer do nada.
    Não acredito em fórmulas mágicas, principalmente quando envolvem criação e arte. Mas defendo toda forma de tentativa criativa.

    • Eduardo Selga
      19 de agosto de 2015

      Oi, Cláudia,

      A pergunta que você faz (“Existe mesmo uma razão que justifique o processo criativo?”) é a mesma que me faço desde que deixei de somente produzir textos com finalidades estéticas e passei a, além de escrever literatura, refletir sobre o fazer literário. Acho que não existe resposta, e sim respostas, uma vez que a arte é o exercício da subjetividade, e talvez existam razões que a própria razão desconheça (que horror essa apropriação de frase!). Por isso não se deve, como o Rubem Cabral disse abaixo, “pôr todos os gatos no mesmo balaio”.

      Mas essa multiplicidade de razões não deve ser motivo para que se justificar o empobrecimento do texto literário do ponto de vista estético. Isso não se relaciona exatamente com tamanho, nem com tema, nem gênero textual: relaciona-se com o homem.

      Certa vez, comentando aqui em algum conto, eu disse da necessidade de o ser humano estar no conto, no sentido de mostrar o que não aparece no cotidiano com facilidade. Todos sabemos que no dia a dia nós nos mostramos apenas parcialmente, pois é preciso viver personagens sociais. Mas e nossas escuridões, elas não falam?

      Talvez uma das razões da literatura seja essa, dar vida ao homem que não está nas ruas, mas vive em nós. Um homem que não faz parte do espetáculo, da encenação do cotidiano, um homem escuro de tantas perguntas. Mas isso não quer dizer necessariamente tristeza.

  4. catarinacunha2015
    18 de agosto de 2015

    Realmente a narrativa curta precisa ter uma carga emocional tremenda, o que exige maestria do escritor; no entanto o seu conteúdo independe de tamanho. Conheço textos prolixos que massacram o leitor com doses cavalares de narrativa inútil. Neste caso o vazio é muito mais nefasto devido ao tamanho, pois além de não emocionar pode deprimir.

    Seu mini artigo é um bom exemplo de que um pequeno retrato pode nos fazer pensar mais e por mais tempo do que um filme de longa metragem. Depende da competência do fotógrafo e do cineasta.

    • Eduardo Selga
      18 de agosto de 2015

      Catarina, agradeço imenso seu comentário, pois você toca noutro ponto que me incomoda: narrativa inútil. O que seria isso, exatamente? A literatura precisa ter uma utilidade prática, como um objeto? Se considerarmos que sim, qual seria essa utilidade?

      Coloco todas essas questões, porque em meu entendimento é exatamente a percepção de literatura como objeto que empobrece os textos construídos com essa perspectiva. Entendo a literatura como exercício de estética e se há algo de útil nisso não está em nível prático como, por exemplo, fazer com que eu de uma hora para outra entenda a necessidade de sermos fraternos só porque eu li uma narrativa emocionante a respeito.

      Podemos entender que uma narrativa é inútil porque ela “enche linguiça”, não vai direto ao ponto, enche o saco do leitor. Sim, mas a literatura precisa ser objetiva? A objetividade é um valor de nossa sociedade consumista e selvagemente competitiva, e uma literatura assim refletiria esse valor, de algum modo. Opor-se a ela implica escrever “desobjetivamente”, como por exemplo a estética neobarroca faz.

      Se literatura é exercício estético, como eu disse, o interessante é o processo de construção do texto, não o texto em si. O interessante em “vovô viu a uva” não é ter conhecimento de que o velhinho enxergou a fruta, e sim o uso continuado da letra “v”, que causa sonoridade na frase.

      Em seu comentário você supõe que a literatura precisa emocionar para ser boa e se causar depressão ela é negativa. Bom, eu acho muito deprimente os caçadores terem aberto a barriga do lobo mau na frente de Chapeuzinho Vermelho. Uma violência desnecessária. Digo isso para exemplificar que o grau de emoção no leitor é algo individual, a recepção do texto é dele. Claro, o autor pode “facilitar” criando situações clichês, vilões estereotipados, criancinhas adoráveis, adolescentes engraçadinhos, mas mesmo assim não é garantia de uma “emoção positiva”.

      Aliás, se o leitor sentir tristeza, isso não é bom? Por quê?

      • catarinacunha2015
        18 de agosto de 2015

        Vejo a inutilidade do texto na visão de leitora e a depressão como o vazio que você citou para os textos rasos, sem conteúdo, “enchendo linguiça”. Todo texto precisa ter sim uma utilidade, nem que seja entristecer profundamente o leitor. Um texto sem utilidade para terceiros não deveria sair da gaveta do autor; que escreva um diário.
        Concordo com você quando diz “o interessante é o processo de construção do texto, não o texto em si.” . Lembrei de meu marido que adora cozinhar. Para ele é um verdadeiro ritual. Do estudo da receita, compra dos ingredientes até a celebração à mesa. Mas ele sempre diz “De que adianta todo o esforço se eu salgar o prato?”
        Quanto à objetividade não podemos confundir texto curto com objetivo. São coisas totalmente distintas. Texto objetivo só roteiro e bula de remédio.
        Ficaríamos adoráveis séculos debatendo assunto tão encantadoramente subjetivo. Mas aí vai ter que rolar uma cervejinha no boteco.

  5. Rubem Cabral
    18 de agosto de 2015

    Oi. Alguém aí poderia resumir pra mim? O texto está muito longo e… 😀

    Muito bom artigo! Vivemos na época dos blockbusters, de cenas digitais aceleradas demais para sua apreciação ou entendimento no contexto do enredo. Quase tudo parece seguir esta estética michaelbaymiana, de cores saturadas e sabores explosivos enquanto engolimos tudo com pipocas regadas com pseudomanteiga e refrigerantes supersized.

    Por outro lado, ainda vejo graça e arte em certos textos curtos, que não são curtos porque são rasos, mas por trazerem instantâneos, flashes de momentos, cenas do cotidiano, muitas vezes até poeticamente descritos. Não se pode, afinal, pôr todos os gatos no mesmo balaio.

    Fica então a conclusão: não abrir mão da estética, pois escrever “seco” é talvez dever do jornalismo somente. Investir na narrativa mesmo que escrevendo haikais ou textos curtos em geral, parece ser esta a “lição” a se aprender.

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Publicado às 17 de agosto de 2015 por em Artigos e marcado .