EntreContos

Detox Literário.

Trigger/Gatilho (Tiago Volpato)

trigger

I. C01sas Entr3z

Uma das coisas que menos gostava de fazer, era quando estava sentado no banheiro e precisava dar uma olhada nas notícias. Ele abominava qualquer tipo/espécie de informação que não estivesse relacionada com tecnologia. Especialmente naqueles dias, onde a maioria das coisas falavam sobre a porcaria da república.

Ainda não acreditava que tinham desativado os mainframes responsáveis por controlar os sistemas sociais e trouxeram de volta aquela coisa arcaica da república. Era típico dos seres humanos essas atitudes ilógicas, mas eram o que eram, criaturas mergulhadas em misticismo, ainda crentes na possibilidade de alguma estrela influenciar suas vidas. As vezes ele achava ser alguém que escorregou de outra realidade pra cá.

Teve que reler outra vez uma notícia sobre um surto na cidade baixa, pois tinha passado por todo o texto sem entender uma vírgula. Bem, ele odiava notícias, e o único motivo que o fazia ler aquelas coisas todas as manhãs era o seu emprego.

Joseph, trabalhava no mega conglomerado mais famoso do planeta. A 3-25/6ª era o que havia de melhor em tecnologia. A revolução da realidade aumentada e os attorôbos pessoais lançados pela empresa no último ano, tornou seu sócio fundador, Benjamin Hidler, no homem mais famoso (e rico) do mundo. A função de Joseph na empresa, era a de supervisionar a bioweb, a rede de nanocomputadores que fornecia a infraestrutura necessária para a internet das coisas. Por isso, ele precisava de toda a informação social disponível, para prever o comportamento mercadológico das pessoas. Não era o melhor dos trabalhos, mas apenas a chance de trabalhar na 3-25/6ª fazia tudo valer a pena.

Ele tinha um esquema, tinha ativado um trigger que alimentava um banco de dados sempre que uma notícia era disponibilizada no feed, assim, através de uma interface, ele podia ler aos poucos. Fazia principalmente no banheiro, o melhor lugar para esse tipo de coisa.

Leu uma matéria sobre como os terroristas da C.I.A tinham desativado as conexões do mercado financeiro. Eles estavam ficando cada vez mais ousados e as autoridades competentes não conseguiam pará-los.

“Autoridades competentes”, Joseph riu de descaso. São todos adoradores de antiguidades.

A notícia seguinte era da semana passada e tinha o título “Albert Einstein está vivo”.

 

II. O Castelo de Hidler

Durante toda a viagem pelo aeromóvel público, ficou pensando em como tinha perdido aquilo. Era a maior notícia de toda sua vida e tinha deixado escapar.

Em uma pequena ilha, que não tinha sido registrada por nenhum mapa e muito menos pelos satélites de monitoração territorial, foi encontrado uma velha casa de palha. Tudo aconteceu por acaso, um cruzeiro teve seus equipamentos desconectados de todos os servidores, o que fez o barco navegar à deriva por alguns dias. Por fim bateram nessa pequena ilha onde encontraram um homem, beirando os sessenta anos, vivendo sozinho.

“Quando por fim o sistema voltou a funcionar, os equipamentos de identificação não trouxeram nenhum resultado”, disse uma das testemunhas, “então eu tive a ideia de fazer uma busca no banco de dados do museu do DNA e o resultado foi surpreendente”.

“Albert Einstein foi um físico teórico alemão muito famoso por ter desenvolvido a teoria da relatividade geral, que era um dos pilares da física do milênio passado”, continuava a matéria, “Ainda não se sabe como ele reverteu sua pretensa morte em 1955, nem como conseguiu sobreviver todo esse tempo, ele desapareceu do local antes que as autoridades competentes pudessem interrogá-lo”.

— Ainda não acredito que perdi essa história — disse Joseph para talvez seu único amigo nessa vida, Byako. Os dois trabalhavam juntos, uma mesa do lado da outra.

— Como assim? Só se falou disso semana passada, você tava do meu lado quando a gente discutiu o caso com o pessoal do financeiro.

— Eu? — Joseph estava verdadeiramente surpreso, ele não lembrava de nada — Não lembro de nada!

— Não lembra? Implantou algum chip alucinógeno no seu sistema? Você mesmo disse que isso era um complô da C.I.A pra implantar essa história no sistema, minando assim nossa sociedade atual e mostrando a superioridade do povo antigo.

— Eu disse isso?

— Disse, aí nessa mesa, sou testemunha.

— Faz sentido — Joseph disse depois de pensar um pouco — Realmente essa é uma história muito mal contada, muito conveniente ele ter desaparecido assim do nada. Meu eu do passado tinha razão.

— Foi a conclusão que você chegou. Sério? Que isso? Ecos do passado? Você está brincando, certo?

Mas Joseph não respondeu nada, o que ele tinha naqueles dias? Amnésia? Aquilo era ridículo, tentou puxar as lembranças do que tinha feito semana passada e não havia nenhum vestígio daquela conversa. Loucura. Provavelmente tudo não passava de uma brincadeira de Byako, o amigo era dado àquele tipo de humor desagradável, brincadeiras que Joseph jamais entenderia.

Eram dezesseis, zero, zero, quando uma movimentação estranha invadiu o escritório. Homens vestidos de preto invadiram o local. Eles carregavam bastões energéticos que pulsavam no ar. Joseph reconheceu a insígnia da república e torceu o rosto.

— O que é isso? — bravou o encarregado do turno da tarde — Com que direito vocês fazem essa algazarra?

— Nós temos um mandado — gritou um dos homens — onde está Benjamin Hidler?

— Não seja ridículo — respondeu o encarregado com desprezo — O senhor Hidler é um homem muito ocupado, ele embarcou para a Venezuela esta manhã.

O homem de preto se aproximou segurando o colarinho da blusa do encarregado com ameaça.

— Agora escuta aqui seu imbecil, não me venha com essa merda. Nós sabemos que ele está aqui.

O encarregado gaguejou alguma coisa. Então uma porta se abriu e Benjamin Hidler apareceu. Joseph mesmo nunca o tinha visto, apenas em imagens holográficas. Hidler era um homem muito alto, tinha uma excelente postura, que o fazia se destacar das pessoas comuns. Possuía cabelos curtos, bem arrumados. Seus olhos azuis pareciam brilhar quando ele observou em silêncio o ambiente. Ele tinha uma presença arrebatadora, todos ficaram em silêncio.

— Pois não? — ele por fim disse — Em que posso ajudá-los?

— Senhor Hidler — disse o homem projetando um documento no visor de todos daquela sala — Você está preso por conspiração e por disseminar ideias racistas por nossa sociedade.

— Isso é ridículo! — berrou o encarregado.

— Ridículo? — respondeu o homem com desprezo — Benjamin Hidler é um dos fundadores do partido para a Evolução Humana, encontramos nos seus attorôbos rotinas para a manipulação genética, secretamente ele estava retirando do dna humano tudo aquilo que sua visão doentia não achava ser certo.

Todos olharam para Benjamin Hidler, esperando uma explicação, mas o homem permanecia em silêncio, com um sorriso perfeito no rosto. O homem de preto se aproximou.

— Benjamin Hidler — balbuciou enquanto tirava uma caneta do bolso, ele apontou para Hidler que continuava impassível — ou seria, Adolf Hitler?

A luz tremeu por um segundo e havia um outro homem ali. Ele era mais baixo do que Hidler, bastante pálido e tinha um corte de cabelo horrível. A única coisa que lembrava o homem de outrora eram os olhos azuis que brilhavam em fúria.

— Imbecil — Hidler explodiu — com que direito você vem aqui me encarar desse jeito, seu macaco inútil?

— Adolf Hitler, você tem o direito de permanecer em silêncio…

Joseph observou a tudo chocado. Que porcaria de mundo era aquele em que vivia?

 

III. Albert Einstein está vivo

A investigação durou a noite toda e até lhe chamarem para depor demorou um bom tempo. Ele ficou lá, sentado em sua mesa, esperando. Não ousava falar com Byako, os homens de preto olhavam por todo o lugar.

Primeiro Albert Einstein, depois Adolf Hitler, aquilo não podia ser real. Talvez a resposta estivesse no comentário que Byako tinha feito, um chip alucinógeno faria mais sentido. Ou talvez estivesse em alguma espécie de experimento, vivendo uma realidade virtual fictícia.

Talvez, talvez.

Byako foi primeiro. Joseph ficou sozinho, esperando. Passaram mais algumas horas até que lhe chamaram. Foi tudo muito rápido, basicamente respondeu perguntas sobre quem ele era e seu papel na empresa. Negou qualquer envolvimento nos atos de Hidler e foi liberado.

Chegou em casa se sentindo nu, os attorôbos tinham sido desligados e ele não tinha nenhum acesso a rede. Aquilo era alarmante, teria que resgatar alguma máquina antiga do depósito. Sua porta fez um scanner da sua estrutura biológica e liberou a trava.

— Seja bem vindo, Joseph Hollow. Agora são cinco e três — soou a voz suave e feminina da I.A de sua casa. Em seguida outra voz chamou seu nome, e mais uma, e mais uma…

Logo incontáveis vozes chamavam seu nome.

Sua cabeça fervilhava. Sentiu dor. As vozes lhe faziam girar.

Quando tudo voltou ao normal, abriu os olhos e viu um homem. Não tinha como não reconhece-lo, viu sua foto naquela manhã.

Albert Einstein lhe estendeu a mão e o ajudou a se levantar.

— Seja bem vindo — disse.

Joseph estava em cima de uma plataforma com um fio que a ligava até um console. Ao lado de Einstein havia um homem que brilhava em um dourado intenso. Joseph percebeu que ele mesmo brilhava, com uma cor branca fantasmagórica.

— Que? — conseguiu dizer diante do conflito que se formava em sua mente.

— Você foi invocado para a batalha — disse Einstein.

— Oi? — conseguiu dizer.

O homem dourado se aproximou.

— Que tipo de treinamento você teve? — falou autoritário.

— Como?

O homem dourado lhe entregou um artefato retangular, com um buraco em uma das extremidades.

— Você sabe atirar? — perguntou.

Joseph fez que não com a cabeça. O homem praguejou.

— Escuta. Só aponta esse lado e puxa o gatilho.

— Ainda temos tempo de chamar mais um — disse Einstein indo até o console. Ele digitou em um teclado e a plataforma começou a brilhar. Uma luz esférica se formou e foi aumentando aos poucos, até se transformar em uma mulher dourada.

Ela e o homem se saudaram e saíram correndo.

Einstein se aproximou de Joseph.

— Vem — disse.

— Espera — gritou Joseph — porque eles parecem fantasmas?

— Rôbos fantasmas. Você também.

— E porque você é o único normal? — mas Albert Einstein já estava correndo por um corredor de pedra. Joseph não teve escolha e foi atrás. O corredor parecia não ter fim, demorou um bom tempo até eles saírem em uma sala.

O homem e a mulher lutavam contra um gigante. Era uma espécie de armadura que golpeava com um machado enorme. Joseph ficou paralisado sem entender porra nenhuma.

Albert Einstein puxou um cajado e balbuciou algumas palavras estranhas. A ponta do cajado se acendeu e um raio violento atingiu a armadura gigante que caiu no chão.

Einstein se aproximou de Joseph que ainda estava congelado.

— Ei cara, — gritou — não esquece. Aponta e aperta o gatilho. Vamos porra!

Foi uma batalha violenta, mas não difícil. Os três fizeram todo o trabalho. Joseph estava assustado demais e não conseguiu apertar o gatilho. O gigante se desfez em um pó branco.

Einstein se aproximou de Joseph colocando as mãos no seu ombro.

— Bom trabalho — disse.

— Você é o…? — tentou perguntar, mas sua visão começava a falhar e a escuridão tomou conta.

Quando voltou estava outra vez na porta de casa.

— Seja bem vindo, Joseph Hollow. Agora são cinco e doze — disse a voz feminina.

Ele entrou em casa e se jogou no sofá. Não fazia ideia do que tinha acontecido. Ainda segurava aquela estranha arma retangular.

— Que merda foi essa?

— Olha a língua, Joseph — bradou a I.A.

Joseph permaneceu sentado no sofá sem saber o que fazer. Definitivamente se tornara um homem perdido. Não tinha mais emprego, vivia situações inexplicáveis e agora, sem os attorôbos, já começava a se sentir terrivelmente sozinho. Estava confuso. Depois daquela situação com Albert Einstein estava mais forte e isso lhe deixava um pouco melhor.

Ainda assim, confuso.

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57 comentários em “Trigger/Gatilho (Tiago Volpato)

  1. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 5/10

    → Criatividade: 5/10 – A história não é muito criativa, esperava mais.

    → Enredo: 5/10 – Não gostei. A história não me cativou e diversas vezes não deu vontade de seguir.

    → Técnica: 6/10 – O texto merece uma revisão. Achei diversos erros.

    → Adequação ao tema: 8/10 – Está adequado, mas poderia ter sido melhor.

  2. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    “Depois daquela situação com Albert Einstein estava mais forte e isso lhe deixava um pouco melhor.

    Ainda assim, confuso.” Confuso fiquei eu. Hitler e Einstein e evolução… Compreendi a premissa do conto, mas acho que o autor tentou imprimir demasiados eventos no limite de palavras. Os diálogos são bons, no entanto, coisa que eu aprecio =P. A linguagem é fluída, mas sugiro ao autor que, numa próxima ocasião, se tente refrear de deambular tanto e concentrar mais num sentido para o conto. Que moralidade maior consigo retirar? etc. Mexer com coisas genéticas é lixado, porém, nisso tamos de acordo xD

    Bem jogado! 7 =P

  3. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    Interessante como as ideias de Asimov influenciaram a ficção científica. O governo social através do “Multivac”, presente em inúmeros dos seus contos, ficou no “subconsciente coletivo”. Bem sugestivo o fato de a CIA ter virado terrorismo. O conto é curioso, eu pelo menos gosto de personagens históricos que ressuscitam, tema recorrente nos contos da “Asimov Magazine”. Entretanto, o drama é bastante original, incluindo um inédito Hollow do “hueco mundo”.

E Então? O que achou?

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Publicado às 1 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .