EntreContos

Literatura que desafia.

A Rainha e o Robô (Evandro Furtado)

Londres, 2144

Sob a espessa neblina, caminhávamos naquele inverno interminável. Era impossível distinguir se aquilo que caía sobre nossos ombros era neve ou poeira radioativa. Não importava, estávamos todos condenados de qualquer forma.

Eu descobrira, alguns meses antes, que um tumor maligno habitava meu interior. O doutor me dera poucos anos de vida, um choque para um jovem que galgava os primeiros degraus da existência. Mas pouco importava agora.

Continuamos avançando por entre os escombros da antes gloriosa capital britânica, rumo ao Palácio de Buckingham, a última fortaleza do poder britânico. Éramos aguardados pela guarda real que, munida de scanners de identificação, avaliava aquela última leva de sobreviventes que habitaria nos porões do palácio.

Formamos filas, separados por sexo, ou idade, ou aparência física. As crianças eram as que passavam mais facilmente, já que a revista não encontrava nelas nada de comprometedor. Assim também o era com os velhos, cujos crimes, em sua maioria, já haviam expirado. Mas aqueles, cuja vida desregrada se mostrava costumas, eram logo postos de lado para serem enviados para Deus sabe onde.

Temi a aproximação de minha vez, já que eu próprio tinha meu passado conturbado. Aproximei-me do guarda que exclamou em voz grave:

– Braço, por favor!

Arriei a manga da camisa, exibindo o código de barras que marcavam todos naqueles tempos. O scanner leu minha vida em um piscar de olhos. Mal as informações surgiram no holograma tridimensional que era produzido pelo aparelho, pude notar no   semblante do guarda certo tom de preocupação. Fitou-me como se questionando as informações que acabara de vislumbrar.

– Devo me juntar aos outros? – questionei ao guarda que respondeu-me com silêncio. Chamou aquele que eu julgava ser seu superior e, em voz baixa, disse a ele o que se passava. O outro homem contemplou-me, surpreso, e em seguida veio em minha direção.

– Mr. Paige? – hesitante chamou-me.

– Pois não?

– Queira me acompanhar.

Sob o olhar de curiosidade daqueles que ficaram para trás, segui o homem pela porta da frente do palácio. Pude imaginar que, em suas mentes, deveriam estar ponderando sobre a razão de tal ser, maltrapilho, cujas vestes se resumiam a trapos que combinadas aos longos cabelos e à espessa barba suja, sugeriam nada mais que um mendigo, estar adentrando a residência da rainha.

Caminhamos por um longo corredor que ainda guardava a magnificência de tempos passados. O longo tapete vermelho sob meus pés era tão suave que eu sentia come se estivesse caminhando sobre as nuvens. As paredes eram adornadas pelos rostos rígidos de monarcas de outras eras, desde que o Reino Unido nasceu.

Detemo-nos diante de uma enorme porta quando o guarda pediu que eu aguardasse. Ele adentrou o aposento interior deixando-me só no grande corredor. Aproveitei para olhar pela janela e contemplar a atmosfera londrina. Era terrível a visão que meus olhos insistiam em enxergar. A destruição ampla, em todo o lugar. Tudo era coberto por um manto branco que só era quebrado pelo vermelho dos focos de incêndio que ardiam aqui e acolá. Uma lágrima quis rolar de meus olhos, mas eu deti-a com determinação. Meus devaneios cessaram quando fui chamado.

– A rainha lhe aguarda! – disse o guarda em tom sereno.

Entrei pela porta, curioso pelo porvir. A nova rainha nunca fora vista fora do palácio, não sabiam quem era, como se vestia ou quais eram seus costumes. Seria eu o primeiro plebeu a contemplá-la?

Para minha surpresa, se tratava de uma das criaturas mais belas que eu já contemplara. Um ser de absoluta beleza cuja pele alva dirigia-me à loucura.

– Vossa majestade! – disse, ajoelhando-me.

– Não há a necessidade para bajulações, meu caro.

– Peço perdão, alteza, mas pensei que…

– Pois pensastes errado. Não sou o tipo de monarca que gosta desse tipo de tradição arcaica e ultrapassada. Tem ciência do motivo real por estar aqui, Mr. Paige?

– Creio que pelo meu passado.

– Exato. Fostes de enorme valia para a coroa em tempos antigos.

– Apesar deste não ser nosso real intuito.

– Não importa. A Resistência foi muito útil. Talvez possas ajudar-me a encontrar os outros.

– Não há outros, majestade. Estão todos mortos.

– Uma pena. Ainda assim, podes ser útil.

– Tu realmente acreditas que um velho ultrapassado como eu ainda pode ter valia perante a coroa?

– Sem dúvidas. És o melhor dentre os melhores.

– Já fui, em tempos passados.

– O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade.

– Pensei que o tempo em que se citava Churchill havia passado também.

– Não passou, como podes comprovar. Eis uma oportunidade única, Mr. Paige. A Resistência precisa voltar.

– A Resistência está morta, majestade. Morreu com os homens e suas ideias.

– As ideias nunca morrem.

– Mas sim sua aplicabilidade. Não temos sequer as ferramentas para revivê-la.

– É aí que se engana.

– A senhora diz…

– Recuperamos um de seus robôs matriz.

– Isso é humanamente possível. Foram todos destruídos na batalha de Glasgow.

– Menos um. Ficou enterrado por anos entre os escombros, mas ainda é funcional.

– Sem dúvida poderíamos criar um exercito. Mas não funcionou antes, o que a faz pensar que funcionará agora?

– Eles não esperam um possível ataque.

– Sem dúvida. Desde que Washington caiu, as coisas ficaram menos abruptas.

– Por isso creio que seja hora de restaurar a Resistência.

– Precisaríamos ainda de uma inteligência poderosa.

– O MI6 ainda vive, apesar de moribundo. Basta que se envie algumas cartas.

– Quando foi que voltamos a enviar cartas?

– Quando a internet colapsou. E com ela o mundo moderno.

– O palácio ainda parece inteiro.

– Porque seus empregados não permitiram que morresse.

– Ninguém se lembraria do Bom Samaritano se ele só tivesse boas intenções. Ele possuía também dinheiro.

– Mais Churchill?

– Não, Thatcher.

– Acreditas que a dama de ferro ainda habita nossos corações?

– Assim como William Wallace habita os dos poucos escoceses viventes.

– Quando perdemos nossa glória? Quando o Sol deixou de brilhar no Império Britânico?

– Ele nunca deixou, vossa majestade. Só deixará quando nossos corações permitirem.

– E nossas espadas.

– E nossas espadas!

A rainha se virou, trazia consigo a mais brilhante lâmina que eu já vira. No cabo, uma palavra lendária se inscrevia.

– É realmente..?

– Sim. Ajoelhe-se.

– Eu pensei que…

– Cale-se e ajoelhe-se. – obedeci. – Modelo PAIGE DM37200, a partir de agora lhe declaro Sir Driscoll Malcom Paige.

– Eu agradeço, vossa majestade.

– Agora vá. O robô matriz o espera. Assim como uma guerra.

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94 comentários em “A Rainha e o Robô (Evandro Furtado)

  1. Luan do Nascimento Corrêa
    11 de agosto de 2015

    → Avaliação Geral: 8/10

    → Criatividade: 8/10 – A criatividade ficou a cargo da ambientação e do contexto. Gostei bastante.

    → Enredo: 9/10 – Achei muito legal. Há todo um universo a ser explorado. Fiquei querendo mais.

    → Técnica: 8/10 – Bem escrito e agradável de ler. Encontrei alguns erros, como o uso incorreto de tu e a mudança brusca para a fala informal.

    → Adequação ao tema: 10/10 – Tenho quase certeza de que é steampunk (ramo da ficção científica).

  2. Fábio Santos Almeida
    11 de agosto de 2015

    Adoro Londres. Adoro reis e monarcas. Adoro diálogos. Adoro este conto.

    Mais um ou dois parágrafos para que o leitor se situasse na trama, no mundo ou nas personagens, e este levava um nove ou um dez. Gostei do português. É bom ver a versão portuguesa aqui também. Espero que não seja desclassificado. Repito, gostei bastante do diálogo; sem quebras, com identidade, com sentido. Adoro isso =P

    Bem jogado! 8D 8

  3. Wilson Barros Júnior
    11 de agosto de 2015

    Ah, o primeiro conto genuinamente “pós-apocalíptico”. A história é bem contada, de fácil leitura e cativante. A ideia de um governo monárquico pós-catástrofe é interessante e foi realizada com originalidade. Apenas sugiro a retirada do segundo parágrafo, parece contraditório com o resto do conto, e também a mudança do título, que revela o fim do conto, que na verdade é bem original e agradável de ler. Parabéns pela lembrança do “Coração Valente”, que sempre estará entre nós.

  4. Gustavo Castro Araujo
    11 de agosto de 2015

    Evidentemente se trata de um prólogo. Imagino que o autor esteja utilizando o desafio para testar o início de uma história maior, ainda em gestação. Do modo como apresentada, está bem escrita, ainda que o limite imposto pelas regras torne tudo muito acelerado.
    Achei bacana o clima pós apocalíptico criado no princípio, especialmente a seleção feita à la campo de concentração, separando as pessoas por aspectos diversos e toda a tensão daí gerada. Também gostei das alusões a Thatcher e a Churchill. Mas confesso que fiquei um pouco decepcionado quando se começou a falar em “resistência”. Pelo que deu para ver, o mundo ocidental está sendo atacado e tudo entrou em colapso. Não sabemos quem atacou ou por quê. Só que a rainha da Inglaterra está organizando um contra ataque com robôs e que Driscoll será o organizador geral da estratégia. Ponto. Sinceramente? Achei muito clichê. Estou certo de que o autor é capaz de inovar, fugir dessa mesmice que caracteriza nove entre dez contos de ficção científica. Que se abandone Hollywood e Independence Day. Menos Asimov, mais Stanislaw Lem.
    Outra coisa: o título é um spoiler gigantesco e merecia ser trocado.

    Nota: 6

    • Evandro Furtado
      12 de agosto de 2015

      Valeu Gustavo

      Realmente é bem clichê, mas eu adoro clichês. Sem dúvida o limite de palavras é um problema, mas estou aprendendo, he he.

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Informação

Publicado às 1 de julho de 2015 por em Ficção Científica e marcado .