EntreContos

Detox Literário.

Ponto de Fissão (Jefferson Lemos)

810-2

Observei o céu de chumbo daquela tarde vertiginosa e inspirei o vento frio que anunciava chuva fraca. O sinal já havia soado, como de costume, e me encaminhei para a fila indiana que levava a saída. Parecíamos gigantescas formigas deixando a labuta do dia em direção ao nosso formigueiro pessoal. Naquela tarde, em especial, havia uma sensação de resignação no ar. Como se o mundo prendesse o ar e esperasse pelo estouro do balão.

Os pássaros cantavam em euforia, migrando em grandes massas. O mundo animal estava agitado, mas o nosso não. Saiamos em piloto automático, seguindo um trajeto costumeiro, sentindo o peso do dia sobre nossas costas. Era um trabalho difícil e perigoso, mas a demanda necessitava de pessoas para aquele tipo de serviço, e nós não nos importávamos muito com o que pudesse acontecer.

Mas hoje, se houvesse alguma forma de sentir, eu sentiria arrependimento.

Naquele começo de noite, cheguei em casa com o sol lançando seus últimos raios pela janela leitosa da sala. O brilho tênue ainda era suficiente para iluminar o interior. O sofá, companheiro inseparável de fim de dia, esperava por mim com sua insensatez costumeira. Joguei-me sobre ele e deixei que a cabeça desnuviasse, liberando o estresse em ondas que se espalhavam pela casa. As pernas relaxaram, enviando o alívio através do corpo e da mente. Os pensamentos se desprendiam como fuligem de madeira queimada, desfazendo-se em pequenos e frágeis pontos negros. Uma onda maciça de endorfina atravessando os polos do corpo. Relaxei e esperei a pancada, mas ela não veio. Não era comum o silêncio da chegada, então depois da estranha sensação de solidão, dei-me conta de que estava realmente sozinho.

Chamei, mas não ouvi resposta. Esposa e filho, que nunca tinham o costume de não estar presente, não se encontravam. Vasculhei pelos quartos, banheiro e cozinha, mas nada encontrei. Era algo no mínimo estranho.

Voltei para a sala e me sentei novamente, imaginando o que poderia ter ocorrido. O sol ainda derramava sua luz amarelada sobre mim, tão intensa quanto em ponto de zênite. Estranhei.

Olhei para a fora, esperando encontrar a causa do problema, e o ar escapou dos pulmões em uma lufada só.

Uma aglomerado de naves em forma de prato pairavam acima dos prédios, da praça e da cidade inteira. Luzes amarelas, vermelhas, verdes e azuis rodopiavam como um caleidoscópio ensandecido. Vi pessoas levitando, ascendendo envolvidas por uma luz branca e pura. Mais pura do que qualquer uma que eu já tivesse visto. Ouvi um som forte capaz de dilacerar meus tímpanos. Tentei, inutilmente, tapá-los, mas de nada adiantou. Um clarão forte e doloroso desceu sobre mim e me fez perder a consciência. Apaguei, sentindo os joelhos tocando o chão, e em seguida flutuando.

 

***

 

Fundo branco em luzes de neón.

Vida esvaindo através de frascos

e instrumentos de cirúrgicos

prata e

preto

incisão no lóbulo frontal

cortes

precisos na altura

do coração

Homem, mulher e criança

Cabelos negros

e recolhimento de amostras

DNA em forma de imagens

Um passeio por monitores gigantescos

Frequência cardíaca que se esvai

e a morte já esperada

Os olhos fecham e a boca seca denuncia a desidratação. Vultos esqueléticos e com mãos viscosas transitam diante de mim. Duas bolas negras me observam, vendo através como um raio-x não natural. Não sinto dor, e o medo esvaí antes de poder se juntar em uma quantia considerável. Penso nas drogas, no governo, no fim de tarde com a família e no cheiro das máquinas da fábrica. A consciência foge

escapando aos poucos

como grão areia

jogada ao

vento.

 

***

 

Quando acordei, retalhos das horas anteriores assombravam minha mente. O sofá macio segurava minha cabeça e o corte ainda doía. Passei a mão e senti o viscoso encharcando meus dedos. Levantei-me, assustado, olhando para mão em vermelho vivo. Tropecei em algo, perdi o equilíbrio e cai enquanto virava de peito para o chão. A sensação dos pontos do peito se abrindo é indescritível. A camisa começou a encharcar e então olhei para o lado, buscando o que me derrubara.

E ali, deitada, estava minha esposa.

O vermelho que manchava o tapete era forte. O cheiro de ferro já tomava conta do ambiente. Tentei me arrastar até ela, e quando consegui alcança-la, chamei seu nome. Gritei e implorei que me respondesse, mas não houve resposta. Levantei o olhar, chorando como uma criança, e o terror se completou.

De bruços, jogado por cima da cadeira como um casaco, meu filho descansava. O chão empoçado denunciava a impossível salvação. Cambaleei até ele, chorando agora com mais força, e o abracei. Por um bom tempo permaneci naquela posição, na esperança de que isso pudesse valer de alguma coisa. Mas nada aconteceu…

A escuridão tomava conta da cidade, e com o ferimento escorrendo, tropecei escada abaixo até chegar ao chão. O cimento ainda quente tocava meus pés e não trazia nenhum acalento. Singrei pelas ruas vazias até desistir de tentar encontrar algo. Ao longe, a roda gigante apagada parecia um esqueleto, tão soturna e mortal em sua inanição.

Sem rumo eu andei, seguindo o trajeto em direção à usina, na esperança de encontrar alma viva que fosse. E então senti o estouro.

Um estrondo reverberando pelo chão e se alastrando através do corpo. O alarme disparou de imediato, chiando desesperadamente. O fogo subiu em labaredas gigantescas, iluminando o céu e revelando os invasores. Vi mais uma vez as naves transitando, pausando sobre os prédios e emitindo sua forte luz. Corpos flutuaram e se mantiveram no meio do caminho, estáticos. Os discos voaram em direção à usina e os despejaram no fogo. Como um espectador, eu nada podia fazer. Apenas chorar. Até sentir o corpo levitar e o chão se tornar distante.

Vi meus entes queridos lado a lado de mim, por uma última vez, e cai.

O amontoado de ferro e concreto se aproximou, enquanto o mundo desacelerava. A névoa radioativa já pairava pelo buraco, e eu pedi, a quem quer que fosse, que pudesse prover pelos que restaram. Fechei os olhos, respirei pela última vez, sentindo o vapor de urânio adentrando os pulmões, e encontrei o chão.

 

***

 

Hoje eu já não vivo, mas ainda existo. Derreti em um líquido tão volátil quanto água, e derramado sobre os pilares de ferro, minha consciência permaneceu preservada. Eu não como, não falo e nem durmo. Não tenho corpo e sou um fantasma do que um dia fora a vida. Não há uma força capaz de me explicar o porquê. E se há, nunca mostrou as caras. No entanto, Pripyat fora evacuada. Os homens constataram ter sido um acidente. Terrível, inesperado… realmente uma lástima. Mas eu sei.

Sei o que ocorreu, mesmo desconhecendo as motivações que levaram a isso. Mas isso já não mais importa. Chernobyl foi fechada, o sol já não mais brilha aqui, e ao longe eu ainda posso ver. Posso ver aquela roda gigante zombando da vida, sobrevivendo às intempéries, assombrando a noite.

Quanto aos extraterrestres que nos visitaram, nunca mais os vi. Mas hoje já não faz tanta diferença. Creio que nem mesmo eles seriam capazes de resolver meu problema, e sinceramente, estou cansado de tentar. Só quero descansar, e um dia ter a capacidade de sonhar, só para sentir aquela mesma sensação de outrora, onde um sofá indiferente me aguardava em fim de tarde, e beijos e sorrisos alegravam meus dias.

 

3 comentários em “Ponto de Fissão (Jefferson Lemos)

  1. Anorkinda Neide
    22 de junho de 2015

    Guri!
    Não vou elogiar, pq vc fica de mimimi e blablabla.
    Este conto já venceu no Recanto?
    E mesmo assim darei meus pitacos (atrevimento né…) mas é assim aqui na entrecontos, e o texto veio pra cá.. então… tome pitaco 😛

    Vc tem uma pegada poética maravilhosa. (ops isto é um elogio!)
    Mas,às vezes ela pode ‘exagerar’ e gerar algumas falhas , eu caio nelas tb…
    Veja no quarto parágrafo:
    ‘seus últimos raios pela janela leitosa da sala.’ Acredito que janelas não são leitosas, mas a luminosidade o era… então
    ‘seus últimos raios leitosos pela janela da sala.’

    ‘esperava por mim com sua insensatez costumeira.’ Não acho que um sofá possa ser insensato… mas indiferente, como vc falou depois no final do conto, então..
    ‘esperava por mim com sua indiferença costumeira.’

    ‘cabeça desnuviasse’, que eu saiba só existe o verbo desanuviar 😉

    Agora uns errinhos bobos:

    Aqui houve um erro de digitação,acredito :’Saiamos em piloto automático’
    é ‘Saímos em piloto automático.’, não?
    Aqui tb tem uma falha na acentuação: ‘Não sinto dor, e o medo esvaí”
    é ‘e o medo esvai”, sem acento.

    Bem, quanto à trama.. não me captou, pq nao gosto de ETs malvados..hehehe
    E nao entendi o pq de ele ser ‘costurado’ antes da eliminação total de todos habitantes da cidade, ficou gratuito isso, a meu ver. E pq sua consciência sobreviveu? Somente a consciência dele? Ahhh tô aqui pensando, na ‘operação’ dos ETs é que liberaram a sua consciência pra sobreviver apos a destruição? e pq?!!!

    Ahh.. e o final, era pra ser comovente…mas, meu… eu lembrei que lá no início o cara esperava a pancada da esposa, acho que ela brigava com ele, não é assim? rsrsrs então: ‘alegravam meus dias’ nao me convenceram :p

    Mesmo assim, parabens pelo texto! ho ho ho
    Abração

  2. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    19 de junho de 2015

    Não foi esse o 1º colocado do 5º Desafio Contadores de Histórias lá do Recanto das Letras? Foisim; lembro dele!

  3. Juliano MARQUES
    19 de junho de 2015

    Gostei de sua historia, a mistura de chernobil e alienígenas( espero que não seja spoiler). a narrativa com bastante metaforas e poetizada no inicio dá um tom bacana, mas ele sendo um trabalhador industrial usaria uma linguagem assim? Porém independente disso, uma observação boba de minha parte, gostei pra caramba de seu conto… Parabéns

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Informação

Publicado às 18 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .