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Detox Literário.

Mergulho (Simoni Dário)

foto de mulher e mar

Naquele momento éramos apenas eu e ela, eu, e a natureza blindada por uma beleza resfolegante. Uma brisa mansa, e na minha frente o meu amado me convidando para comungar com ele.

Sentada na areia da praia em minha velha esteira, aos pés de uma árvore, eu contemplava o mar, parado como uma lagoa. Aquele cheiro de sal e areia era perfume dos melhores para os meus sentidos. Eu não entendia direito o porquê de tanta ligação. Onde ele começava e eu terminava? Onde eu me prendia e ele me libertava? Eu só queria ficar ali, apreciando quietinha.

Pensando na vida, e que vida! Família, marido, filhos, salário, divórcio, guarda compartilhada, estaca zero, começar de novo e de novo. Chega! Silêncio! Respiro e confesso meus fracassos para mim mesma. Depressão! Xô, não te quero perto, quero vida! Agarro-me àquele momento com toda a minha alma, forte que sei que é. Respiro fundo absorvendo o bálsamo da existência. Não quero mais nada, só tu minha vida. Mas te quero com mais sorte, mais alegria. Quero-te de volta.

Olho para as ondas que começam a lacrimejar na beirinha. Admiro e faço um pedido: levem embora tudo o que não desejo mais, carreguem o desvalor, o menosprezo, a falta de esperança. Na volta, tragam meu amor, o próprio. Nem sei se vale a pena. VALE, o quero de volta, sim! Saúde, prosperidade e mesa farta, abastança para meus filhos. E muito tempo para o dolce far niente. Inteligência, lucidez, as quero comigo todos os dias!

Escalarei montanhas e correrei maratonas, darei palestras, amarei ao próximo com todas as minhas forças. Controlo o meu pico de emoção. Começo a meditar.

Não sei quanto tempo já passou, o mar começa a ter movimento, e o convite fica mais evidente. Não consigo mais resistir, sacudo os pensamentos na areia, deixo a lucidez para os sonhos. Agora quero um banho, uma limpeza, um balanço. Levanto, prendo as beiradas da esteira com meus chinelos, solto os cabelos ao vento e corro para o mergulho da comunhão. Sinto o sol arder no lombo. Penetro nas águas mornas e profundas daquela outra vida. Acostumo rápido. Não quero mais sair dali.

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4 comentários em “Mergulho (Simoni Dário)

  1. Neusa Maria Fontolan
    11 de janeiro de 2016

    Lindo. Me fez pensar em minha vida, cheia de recomeços. Sempre sacudindo a areia e mergulhando de cabeça.
    Parabéns, querida.

    • Simoni Dário
      26 de janeiro de 2016

      Obrigada, Neusa, uma satisfação receber teu comentário.
      Abraço.

  2. simoni dário
    23 de junho de 2015

    Obrigada Anorkinda, muito me honra teu comentário já que tens uma crítica apurada e bem fundamentada nos teus comentários. Gostei muito e aproveitando, parabéns pelos teus belos trabalhos, principalmente com poesias, sempre tocantes.
    Abraço

  3. Anorkinda Neide
    22 de junho de 2015

    Maravilha de texto, desabafo, reflexão.. exaltação!
    Parabéns, Simoni.
    A gente mergulha junto com a emoção!

    Encontrei esta frase estranha aqui:
    ‘Não quero mais nada, só tu minha vida. ‘
    faltou uma vírgula: só tu, minha vida
    😉

    Abração

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Informação

Publicado às 6 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .