EntreContos

Detox Literário.

Gaiola (Eduardo Barão)

gaiola

Após titubear incansavelmente diante do futuro e das possibilidades, finalmente acordei. Não era um despertar comum, certamente. Meus olhos mareja-esbugalhados só expressavam o quão tétrico era aquele momento. Do talho no peito inerte transbordava um líquido rubro e cálido que banhava o penhoar perolado e evidenciava um contraste interessante. Tão viscoso e suculento que meu subconsciente suplicava por uma boa lambidela.

Tornei a acordar. Já era o segundo transe desde que o odor do decesso tivera penetrado cada fenda dos azulejos antigos. Logo, a vontade de tocá-la com cada papila deu lugar à auto-aversão e ao arrependimento. Agarrei o corpo recém-perecido e abracei com todo o ódio e amor que lutavam dentro de mim. Chorei de pálpebras cerradas e melei meu rosto com o sangue que já fluía de forma menos abundante. Como geleia de laranja escorrendo do pão e lambuzando meus dedos.

“Agora… Acabou… Tudo…”; sussurrei em pensamento, coroando o silêncio com um suspiro abafado e quase inaudível.

Bastou apenas um dia para que o fim de minha vida fosse decretado e, por mais irônico que soasse, não era o meu coração que havia parado de bater.

***

I.

Fui largado por papai e mamãe aos cuidados de tia Viola assim que me tornei um bambino. Ao menos era essa a versão final que chegara aos meus ouvidos e, como nunca tive interesse em debater sobre os motivos do abandono, optei por me abster de quaisquer questionamentos – permanentemente.

Viola, viúva e robusta como qualquer mulher jamais gostaria de ser, vivia reclusa em uma casa campestre de costas para o lago. Em meio às galinhas e laranjais, tomou as rédeas da situação com seu método doce e firme (paradoxal, mas genuíno) de educar sobrinhos. Estudando em casa e tendo como únicos companheiros o céu nublado e a água lacustre, pude me manter longe de garotas e encrencas por um bom tempo.

– Café da manhã, Dao.

Quarta-feira. Aquela voz aguda e com a mesma autoridade de um general ecoou pelas escadas e, como se pudesse fazer curva, chegou ao meu quarto sinalizando que mais um dia insípido havia se iniciado. Caí da cama. Devidamente acordado e sem muito entusiasmo, vesti o primeiro suéter feito a mão que encontrei pela frente, lavando o rosto e descendo em seguida. De cabelo lambido e postura ereta, adentrei a cozinha e tomei cuidado para não esbarrar nos bibelôs empoeirados de titia.

– Bom dia.

Não respondi, mas tratei de cumprimentá-la com um sorriso apático que ela já conhecia bem enquanto sentava-me à mesa. Entre os brioches e a ciambella, contemplei com muito asco um copo de suco de laranja sanguínea. Viver rodeado por pomares repletos da mesma fruta constituía mais um martírio com o qual eu era obrigado a lidar todos os dias. A colheita para uso próprio e venda direcionada a pequenos armazéns da região; o tom carmesim nada apetitoso, a acidez assídua, as aftas…  Tudo aquilo me enojava de tal forma que só consegui beber a contragosto, completamente desmotivado ao desjejum. Desmotivado. Palavra tão constante em meu contexto, tão apropriada.

E até para a desmotivação os motivos não faltavam: o sorriso ensaiado de Viola unido ao seu nariz esguio e empinado. O avental xadrez ostentado pelo corpo fora de forma. O barulho do rádio a pilha ora sendo interrompido pela voz estridente que insistia em puxar conversa, ora sendo agregado ao cacarejo do galo (que, para mim, sempre fora digno de levar um belo tiro de sal para calar o bico). Nada fazia com que eu me sentisse integrado ao ambiente. Nada fazia com que eu – de fato – pertencesse àquele lugar.

Entretanto, antes que pudesse me encasular ainda mais em meu ócio interior, um som ressonou mais alto que os outros que tanto me perturbavam: três batidas na porta da sala. E mais um entretanto consolidou-se em minha mente quando notei estar desmotivado até mesmo para atender possíveis visitas.

– Leiteiro. Eu atendo. – falei, levantando-me de prontidão sem remorso por deixar titia falando sozinha.

Ledo engano. O leiteiro dava o ar de sua graça apenas durante as terças e o carteiro durante as quintas. Ao me aproximar da porta na sala, um forte cheiro de Earl Greytea invadiu minhas narinas. Suave o bastante para me envolver, suficientemente agressivo para atravessar o mogno antigo. Curioso, girei a maçaneta e deixei que as dobradiças trabalhassem sozinhas, revelando vagarosamente quem se encontrava na varanda.

– Olá.

Arregalei os olhos. Se eu não tivesse algum resquício de autocontrole, meu queixo na certa teria despencado. Era um querubim.

Ou uma garota, eu não saberia distinguir muito bem.

Estatura mediana, porte magro, olhos amendoados, cabelos castanhos e sobrancelhas perfeitamente delineadas.

– Olá.

Ao não obter resposta, ela insistiu em me cumprimentar com aquela voz aveludada. Mesmo numa palavra tão curta era perceptível um forte sotaque inglês. Seus lábios eram de um de um vermelho tão acentuado que a cor não parecia puro fruto de meros capilares, propiciando um belo destaque em meio a uma pele tão alva.

“Como cerejas na neve”, nivelei mentalmente.

– Olá.

Três “olás” saíram de sua boca. O mesmo número de batidas na porta. Devo ter perdido longos segundos fitando-a embasbacado, mas ela não parecia impaciente ou aborrecida. Olhei para baixo e notei que segurava uma torta.

– Não vai me apresentar tua amiga, Dario? – perguntou minha tia antes que eu pudesse regurgitar qualquer sílaba ou perceber que a mesma já se encontrava na sala.

Silêncio. Eu, que jamais havia engolido a seco meu orgulho, fui obrigado a sentir as maçãs de meu rosto queimando em brasa numa timidez nunca demonstrada anteriormente.

– Eu sou Celine. Meu pai abriu um quiosque aqui perto há pouco tempo e resolvi conhecer a vizinhança. – respondeu a garota cujo nome já não era mais um mistério para mim, estendendo os braços e entregando a torta nas mãos de Viola. – Espero que gostem de pêra.

Titia agradeceu a gentileza e a convidou para entrar. Desnorteado e ainda em silêncio absoluto, me conformei em mergulhar naquele riso sem muito siso e naquele cheiro de chá que me inebriara desde o princípio.

***

II.

A primeira torta era de pêra com gruyère. O queijo derreteu em minha língua assim como as cerejas nos lábios de Celine em sonhos promíscuos que jamais planejei ter um dia.

Afinal, sonhos não são planejados.

Celine não foi planejada.

Ela se fazia presente todas as quartas com suas tortas e desculpas para entrar em nossa casa. Conquistou minha tia com seu jeito pueril e eloquente, mas precisou ser um pouco mais paciente para arrancar palavras de minha boca. Aos poucos, conseguiu.

A partir do quarto encontro, já conversávamos na varanda como bons adeptos à política da boa vizinhança. Após a sexta quarta-feira, passamos a trocar experiências e gostos como amigos íntimos. Ela me ensinou a apreciar compotas de laranja (e as aftas já não pareciam tão incômodas assim), a mostrar interesse pelas obras de Shakespeare e a jogar gamão como um legítimo veterano. Melhor dizendo, confesso: já sabia jogar antes de conhecê-la, mas sua companhia tornava tudo mais aprazível.

Eu, com dezenove anos de experiência superficial embasada em livros de cabeceira, estava completamente manipulado e submetido aos encantos da filha do dono do quiosque. Partindo desta mesma premissa, eu passei a me indagar sobre o quão forte teria sido a interferência do destino em nossas vidas. E se o pai dela tivesse firmado estabelecimento em outro lugar? Se ele vendesse limonadas a um quilômetro de distância, sua filha ainda teria fibra para andar até a casa de tia Viola com uma torta em mãos no intuito de cumprimentar os vizinhos? Eu não sei qual é o limite pré-definido em metros, decâmetros ou quilômetros usado para classificar quem é ou quem deixa de ser vizinho de alguém. E o mais importante: se eu ainda morasse com meus pais, um dia teria contemplado a chance de conhecer Celine?

Dúvidas frívolas. Conclusão nula.

Passados mais de três meses desde a primeira quarta-feira, instaurou-se o outono e com ele veio a ideia de fazer um piquenique à beira do lago. Celine levou consigo uma cesta de palha lotada de quitutes e uma toalha xadrez semelhante ao avental surrado de minha tia. Eu, sempre disperso, levei apenas a minha presença junto à dela.

– Aqui está bom? – perguntou, apontando para um canto no gramado a uma distância mínima do deck.

Consenti balançando a cabeça em sinal positivo. Respaldado por uma inclinação inédita em ser cortês, tomei a toalha de suas mãos e a estendi no local escolhido em seguida. O céu cinzento ameaçava derramar uma garoa inconveniente sobre nossas cabeças, mas a oportunidade de aproveitar o aroma fresco da relva úmida mesclado ao Earl Grey de Celine era tão tentadora que nem o tempo me soava como empecilho. Cheiro este, aliás, que eu não saberia dizer se era autêntico ou fruto de minha imaginação que vivia a pregar peças. Uma simples lembrança de qualquer quarta que passamos juntos já seria capaz de me fazer senti-lo e aspirá-lo mesmo que ela estivesse longe.

– Um dia faremos algo assim na capital, certo? – afirmou e perguntou ao mesmo tempo, tirando da cesta dois copos e uma garrafa de rolha com conteúdo púrpura que julguei ser suco de uva. – E a Fonte dos Trevos será o nosso novo lago…

Fontana diTrevi. Ela riu com tanto dengo após terminar a frase que não pude deixar de retribuir com os dentes esboçando um sorriso que, ao contrário do dela, não era tão frequente.

Não era a primeira vez que confabulava sobre viagens. De início achei que apenas fazia troça, mas a persistência me levou a crer que se tratava de uma meta que traçara por nós dois sem o meu consentimento. Por mais que sua companhia preenchesse cada ponto vazio de meu peito, o meu desprezo pela propriedade de tia Viola se convertia em medo quando concebia a ideia de deixar para trás toda a vida que havia construído ali.

– Muita pretensão comparar Roma a uma minúscula fazenda de laranjas. – rebati morno. – Ou ingenuidade, não é?

Celine não retrucou, tampouco riu novamente. Limitou-se a me fitar com os olhos inflamados por um tempo que não fui capaz de mensurar. Esticou um dos braços e num só movimento roubou a boina de minha cabeça, encaixando-a na sua sem demora.

– Fica bem melhor em mim, não acha?

A pergunta era retórica. Qualquer acessório cairia como luva naquele corpo de boneca.  E como se pudesse ser ainda mais atrevida; trancou a respiração, estufou o peito e tentou ficar em posição de sentido replicando um marinheiro.

– Às suas ordens, capitão!

E veio para cima de mim como um tufão, toda risonha e espevitada. Empurrou o meu copo vazio para o lado e me abraçou com tanta ânsia que no impulso acabei caindo com o seu corpo sobre o meu. A boina completamente desajeitada acima de suas madeixas sedosas não tardou a cair enquanto o hálito quente e moscado emanado por sua boca se aproximava cada vez mais da minha.

– Eu sei que você deve se questionar a respeito do motivo que me leva a vir até aqui… – sussurrou bem baixinho, quase me remetendo a um zumbido de abelha. – Mas é que…

Calou-se. Talvez estivesse buscando as palavras mais oportunas para terminar a frase ou talvez estivesse simplesmente fazendo manha para me deixar radiante.

– Mas é que… – repeti e dei trela para que continuasse, roçando seu nariz no meu.

– É que eu vi nos teus olhos o quão sozinho você se sentia.

Emudeci instantaneamente. Eu estava sendo consolado desde o dia em que nos tornamos cúmplices e só fui me dar conta disto naquele exato momento. Empenhei-me em não demonstrar qualquer sinal de surpresa ou espanto, mas era uma tarefa quase impossível diante do que estava ouvindo.

– E eu quis te ajudar a não se sentir… – continuou, sem nem ao menos fazer pausa para piscar ou tomar fôlego. – Perdido… Ou como se não pertencesse a um lugar certo…

Flexionou os lábios e, pela primeira vez, desferiu-me um beijo sem lascívia na boca. Rápido e singelo como um tapa.

– Porque agora você pertence a mim.

***

III.

O beijo de Celine fortaleceu um vínculo que antes era alvo de incertezas. Menos receosa e arisca (e vale ressaltar que termos referentes a felinos se enquadravam bem em sua conduta) quanto a confidências, deu-se ao luxo de revelar que seu pai não tinha conhecimento de nossos encontros semanais.

– Para papai você se chama Cinzia, o sítio fica à esquerda daqui e passamos as quartas lendo bandas desenhadas ou conversando sobre culinária. – contou sorrindo, como se de fato tivesse prazer em fazer troça de mim.

Relevei. Uma moça de família na flor da idade com certeza seria castigada por andar com rapazotes sem a prévia autorização de seu maior benfeitor. Talvez isso devesse pressupor um senso de culpa por guiá-la à perversão dos valores que lhe foram ensinados em casa, mas ao mesmo tempo eu tinha em mente que era apenas o co-piloto dos planos que ela designara sem intervenção de terceiros. No mais, seria hipocrisia julgá-la por suas birras e defeitos. O exercício da virtude nada mais era que uma realidade bem distante do meu cosmo particular e eu não me importaria em partilhar o travesseiro com uma pequena tão imperfeita quanto eu.

O tempo não só fez com que ela aperfeiçoasse sua dicção (cuja pronúncia tipicamente britânica do “r” já havia rendido boas piadas de minha autoria) como também avigorou seus abraços e tornou seus beijos ainda mais calorosos. Tão possessiva que me prendia em sua trama de seda como um objeto maleável e fazia de mim o que bem pretendia. Tão meiga que me persuadia sem sequer fazer esforço ou contar vantagem. Todavia, o tempo também me despertou um temor latente. Eu não poderia comprar passagens de Roma à Veneza, pedras, bons gelatos ou vestidos caros com minha renda minguada. Eu não poderia lhe proporcionar visão além do que a cerca velha sempre escancarada e o arame farpado de péssima qualidade permitiam. Eu, entendido apenas de ovos e laranjas, não poderia fazê-la plenamente feliz restringindo o nosso elo à mediocridade daquele lugar. Eu sabia disto. Ela também.

As quartas com Celine seguiram voando e minhas contas no calendário foram por água abaixo. Com previsão de chuva, saí para recolher os lençóis de linho estendidos por Viola no varal. O vento soprava com força contra o meu rosto, mas a sensação – surpreendentemente agradável – não me fazia reclamar em pensamento por estar prestando um favor à titia. Ao apertar os grampos e puxar para baixo o fundo branco que obstruía minha visão, pude enxergar um pontinho igualmente pálido a alguns metros de mim. Celine chegara um pouco antes do combinado.

No deck, a visão era sublime. Quase inenarrável. Uma moçoila descalça e envolta por um vestido cândido choramingava sentada na passarela de madeira que ameaçava sacudir com o ar em movimento. Larguei os panos no chão sem me importar em lavá-los mais tarde e segui ao seu encontro. O clima úmido não só havia empesteado o local com cheiro de lama como também deixara as tábuas escorregadias. Para não resvalar e de certa forma acompanhá-la em seu ritual improvisado, livrei meus pés dos sapatos.

– Eu não me importo em vê-la com antecedência. – falei, sentando-me ao lado dela pela lateral. – Só preciso saber quem deixou minha princesa triste a ponto de chorar.

Seus cabelos estavam encharcados e eu não sabia se era do lago ou de ducha. Mais cheirosos do que nunca, tive vontade de atá-los fio a fio entre meus dedos e penteá-los. Contentei-me em limpar a lágrima silenciosa que escorria por seu rostinho. Era a primeira vez que eu a via naquele estado.

– Você. – respondeu seca e breve como eu não esperava que pudesse ser um dia.

Respirou fundo. Seus lábios tremiam e seus olhinhos castanhos cintilavam numa gana que me surpreendeu negativamente. Desnorteado, envolvi sua cintura delicada com meus braços e a amparei colando nossas faces em coração como dois cisnes à beira d’água.

– Eu não consigo entender. O que fiz para te deixar assim?

– Trata-se do que você não fez, Dario.

Afastei minha testa por longos segundos que mais pareceram horas. Sem hesitar, voltei a perguntar na esperança de apanhar alguma resposta coesa:

– E o que eu deixei de fazer?

– Deixou de acreditar em nós por conta do seu passado nesse lugar. Derrubou minhas perspectivas de mudança e nosso futuro. – parou, expirou, molhou os lábios e desviou o olhar antes de concluir. – Sei que deve me achar mesquinha, mas eu só quero caminhar além da trilha entre o quiosque e a tua casa. Eu preciso continuar vindo aqui ciente de que um dia iremos sair.

Sua frustração era visível após meses destilando uma lábia travessa na tentativa vã de me induzir a compactuar com o que tanto almejava. Recuei de leve. Tendo se iniciado uma garoa, virei meu rosto e observei as gotas finas desenhando círculos na camada cristalina que nos rodeava. Se por um lado ela estava certa em cobrar uma decisão de minha parte, por outro eu me sentia pressionado a fazer uma coisa sobre a qual eu não possuía qualquer aptidão: arriscar.

– Esse é o único mundo que eu conheço. – falei sem voltar a olhar para seu rosto, num timbre mais rouco e menos apaixonado.

O mesmo Dario indolente da primeira quarta-feira estava começando a ser exteriorizado a partir daquelas palavras. Essa talvez fosse a melhor forma que encontrei de lutar contra o meu próprio desgosto.

– Deite. – murmurou enquanto pousava a mão sobre o meu ombro.

A priori eu não consegui compreendê-la. Ao invés de me abraçar e pedir desculpas ou afagos como sempre fazia, estava me pedindo algo completamente alheio à situação. Mesmo confuso, obedeci. Desconfortável com as costas prensadas contra a madeira, fui pego de surpresa pela segunda vez com Celine pondo seu corpo acima do meu e roçagando sutilmente seus seios pequenos contra meu peitoral enrijecido. Expandindo minha inquietude, seu jeito coquete me excitava de maneira tão ardilosa que até evitei realizar movimentos bruscos para que não percebesse. Nisto, finalmente acabei concluindo ao analisá-la daquele ângulo tão preciso: Celine definitivamente queria me matar.

De angústia. De insegurança. De tesão.

– Eu estou fazendo isso por nós dois. – falou com um esboço maroto de sorriso entre os lábios, ajeitando a manga curta de seu vestido que havia deslizado por um dos ombros. – E sei que não irá me decepcionar.

Outra lágrima pendia daquele olhinho que minutos antes eu havia enxugado, mas seu semblante já não expressava tristeza. Maldita. Naquela posição eu não poderia lhe negar qualquer pedido. Estático como uma marionete, findei brindando-a com a resposta que tanto esperava:

– Não irei.

E ali, em meio àquele rascunho impertinente de chuva, ela me beijou com tanto ardor quanto da primeira vez. Mas eu não me senti feliz.

Eu não me senti determinado.

***

IV.

Com as dúvidas semeadas, o que eu detinha por essência fragmentou-se em três facetas distintas que me corroeram a mente durante os dias que sucederam o episódio no deck. Simples aos olhos de qualquer outro cético, mas de uma imprecisão e complexidade tão drásticas para mim que a hipótese de encontrar uma saída se mostrava a mais inviável possível.

De um lado, o gaiato assustado e calculista que agia pela razão e não considerava planos de largar sua zona de conforto. Por outro, um apaixonado que se despia dos sentidos e se doava ao deleite de ser tostado pelas labaredas do desejo em virtude das ambições de Celine. Três dimensões de um único sujeito. E a terceira era a que mais me preocupava.

Nesta crise existencial, uma vertente acabou se destacando entre as demais. Um lado insano que floresceu lentamente durante aquela semana sem que eu pudesse comedir. Um eu imerso em ódio que arquitetava planos para livrar-se(me) de todo aquele  fardo. Para fazer com que minha vida fosse novamente inserida nos eixos originais.

Mais uma vez, o tempo se apresentou como meu pior castigo e lançou seu punho fechado contra o meu rosto em um soco que não fui capaz de desviar. Antes que ela desistisse de aguardar minha decisão e procurasse outro Dario para desfrutar das quartas, eu deveria apressar-me em tomar alguma providência que acarretasse uma solução para o nosso contratempo.

Felizmente, o que idealizara para aquele dia fundamentava-se em grande parte nos moldes intrínsecos de meu eu apaixonado. Tia Viola prontificou-se – sem entrar em maiores detalhes comigo – em ir à cidade com o caseiro para resolver algumas pendências e eu não poderia desperdiçar a chance de ficar sozinho em casa com Celine pela primeira vez.  Pela primeira vez eu me colocaria diante daquele anjinho como o homem que ela sempre procurara. Enérgico e bem resolvido.

– Oi! O que achou do meu vestido novo? – falou depois que eu abri a porta da sala, redemoinhando com os pés no chão e rodando a parte de baixo.

Era preto e bem ajustado à sua estatura relativamente baixa. Nunca havia imaginado a mesma usando algo naquela cor e por uma fração de segundos pensei em confessar que estava deslumbrante. Porém, optei por trocar a franqueza pela sobriedade e respondi áspero:

– Está bonita.

– E você fica uma gracinha quando resolve se fingir de sério. – caçoou, entrando e fechando a porta logo em seguida.

Seus cabelos estavam presos para trás por uma fita em um rabo-de-cavalo firme e suas mãos estavam vazias. Pensei em interpelá-la a respeito das tortas que sempre trazia, mas ela foi mais rápida e leu minha mente:

– Não trouxe doce. Sei que você já está enjoado e sua tia… – prestes a completar a frase, olhou ao redor e pareceu estranhar o silêncio. – Aliás, onde está sua tia? Não a vi lá fora.

Antes de retrucar como merecia, estendi meu braço e agarrei sua cintura vigorosamente. Sem mais delongas, a puxei para perto de mim e não encontrei dificuldade em tornar ainda mais notória a diferença entre nossos tamanhos.

– Interessa? – perguntei num tom recheado de sarcasmo que, por mais incrível que parecesse, ela não conhecia.

Ficou atônita. Arregalou os olhinhos com tamanha perplexidade que cheguei a pensar que tentaria se desvencilhar de meu abraço estreito.

– Não… – respondeu um tanto travada, quase gaguejando. – Mas… O que está fazendo?

Não perdi mais tempo respondendo eventuais questões que pudessem surgir. Aproveitando o enlace, puxei seu braço com força até o centro da sala.  Ela sincronizou seus passos com os meus e me seguiu selando os lábios para não reclamar. Eu estava no controle e, mesmo que ela se mostrasse vacilante, sabia que estava gostando.

E que a verdade seja dita…

Mesmo se não estivesse…

Eu já não me importava mais.

– Deite. – soltei seu braço já devidamente marcado, indicando com o dedo um tapete no ponto médio do piso.

Déjà vu. Já tivera ficado tantas vezes sobre mim que provavelmente não saberia se prostrar num arranjo tão submisso. Antes de acatar meu pedido, voltou a olhar para o resto do cômodo. Terminei por constatar o óbvio: ela havia reparado na mesa e nos sofás afastados e no fato do tapete ser diferente do que ela observara nas semanas anteriores. Franziu a testa. Entretanto, ao invés de me indagar sobre a nova decoração, pôs-se a desabotoar a área de acesso ao seu busto mal formado. Quietinha, caiu de joelhos e alinhou seu corpo no tecido felpudo enquanto eu tratava de arrancar minha camisa como um animal sedento e obstinado a atacar sua presa.

E ataquei.

Deitei-me sobre Celine e não demorei a explorá-la com as mãos. Comecei por suas coxas brancas e macias que faziam minha boca salivar. Subi para os ombrinhos e fiz questão de exibi-los um a um descendo cada alça de seu vestido. Adiante, apertei seus seios já túmidos com tanta cobiça que minha princesinha deixou escapar gemidos quentes que me encantaram os ouvidos.

– Eu… Eu te amo… – sussurrou, arqueando as costas em êxtase. – Por favor, me perdoa por ter sido tão dura semana passa…

Ignorei. Coloquei um dedo entre seus lábios de cereja, silenciando-a antes que pudesse finalizar. Sem enrolar, substituí o dedo pela boca e introduzi minha língua sem receio. Não havia espaço para pieguice gratuita naquele beijo. Molhado, quente e impudico. Estreei o céu daquela fendinha melada por nossa babugem libidinosa e novamente levei uma de minhas mãos à região dos seios. Desta vez, no meio. Senti as batidas aceleradas de seu coração e cessei o carinho íntimo lançando um sorriso de lado. Com seu lábio inferior ligado a mim por um filete de saliva, falei em alto e bom som:

– É agora. Fecha os olhos para sentir melhor.

Abri o fecho de minha calça para atiçá-la. Minha garota obedeceu, sempre boazinha. Como num sono profundo, procurou se aconchegar da melhor forma possível naquele tapete velho para me receber. Aceso por inteiro, senti cada membro pulsando só de pensar no que viria a seguir. Levei uma de minhas mãos ao bolso de trás, subindo a barra do vestidinho com a outra e quase revelando o que o mesmo escondia.

Guiado pelo ímpeto, não pude me conter. Girei a mão direita e estoquei.

Seus globos quase saltaram das órbitas. Não conseguiu gritar. Minha mão livre tapava sua boca com a mesma força que a outra empregava sobre o cabo de metal do objeto pontudo cravado em seu peito. Um canivete borboleta manuseado por mim de modo tão preciso que o choque entre a lâmina e seu corpo surtira efeito sem mais tardar. Ela ainda respirava incrédula em relação ao que estava acontecendo quando notei uma lágrima fluindo dentre seus olhinhos já tranquilos após alguns segundos agonizando. Seu corpo relaxou, mas pude senti-la tossindo e besuntando a palma de minha mão com sangue. Esmurrei o cabo. Ao impor pressão, ela morreu rapidamente e isenta de qualquer ensejo de luta.

Eu deveria ter ficado satisfeito ao ver o resultado de meu esquema montado em seis dias estirado sem vida no chão. Deveria ter ficado satisfeito por não precisar mais lidar com a presunção de exigências ou de abandono. Deveria ter ficado satisfeito ao me eximir do embaraço que o amor de Celine causara em minha vida. Mas não fiquei.

O sorriso amarelo deu lugar ao desespero.  Puxei a lâmina para fora e estanquei o corte com a mesma mão que o provocara. Levei meus lábios aos dela novamente e tentei liberar o máximo de ar disponível na expectativa inútil de encher seus pulmões e reanimá-la. Não obstante, o gosto agridoce do sangue impregnado em sua língua me fez regressar ao mesmo Dario alucinado que cometera tal atrocidade. E assim, beijei cada cantinho daquela boca, sorvendo o que podia sem qualquer resquício da culpa que me consumira momentos antes.

Acordei, mesmo já estando de olhos abertos. Parei o que estava fazendo de imediato. Tive vontade de lascar-me um tapa ao captar a magnitude da monstruosidade que havia materializado. Eu certamente estava ficando maluco. Só um demente digno de camisa de força não seria capaz de controlar seus próprios reflexos e sentimentos. Senti cada músculo paralisar num misto de horror e fúria cuja amplitude eu não saberia descrever com exatidão. Como se uma entidade tivesse se apoderado de meu corpo, me usado para tirar a vida de quem eu mais prezava e me cuspido novamente à realidade após a emboscada.

Lamentavelmente, teses ordinárias apenas justificavam o meu delírio. Nada poderia trazê-la de volta.

– Por que, meu amor… ? – questionei baixinho, levantando a cabeça branda da daminha desvanecida na sala de estar e atritando seu rostinho contra o meu. – Por que eu precisei… Fazer isso… ?

Nada faria Celine me responder. Nada faria seu sorriso brilhar e permanecer somando à luz de meus dias.

Eu estava como cheguei ao mundo: chorando a torto e a direito com o tronco untado pelo fluído de outra pessoa. Larguei o cadáver no chão com toda a cautela que podia oferecer e levantei-me num pulo que fez vibrar o assoalho deteriorado por cupins. Sequei as lágrimas e enxovalhei meu rosto com o líquido escarlate, levando as mãos à cabeça e matutando sobre o que precisaria fazer para solucionar aquele problema.

Em contrapartida, Celine nunca esteve tão serena. O aspecto manso que a morte havia lhe conferido era tão singular que não pude deixar de admirá-la. Os olhinhos parados, a boquinha semi-aberta, o vestidinho levantado. Por mais que fosse doloroso admitir, até o sangue derramado ajudava a compor a obra de arte que ela havia se tornado. Minha obra.

Meu eu racional sobrepujou-se. Eu não poderia simplesmente declarar minha culpa aos quatro ventos e arcar com as consequências. De fato, acabei por destruir os sonhos e o futuro de uma jovem que em vida nunca maltratara um mísero gafanhoto. Mas eu também tinha sonhos e um futuro.

E o mais importante: eu tinha medo.

Agachei-me, ergui Celine e a conduzi para o meu colo. Ninando meu bebê adormecido, marchei em direção à porta de entrada do porão e me arredei do plano original que consistia basicamente em enrolá-la no tapete e enterrá-la em algum canto distante da casa sem chamar atenção. Recapitulando cada milésimo de segundo do dia anterior, tomei como principal lembrança um ponto relevante: a ideia de trocar o tapete da sala por outro antiquado não surgira à toa. Topei com o mesmo em meio às tralhas do porão e seria uma esplêndida ideia encafuá-la num lugar esquecido por titia.

Esplêndida para minha evasão. Ineficaz para reverter a lambança.

Manobrei para destrancar a porta sem deixar cair o corpo ou o molho que havia arrancado do porta-chaves pregado na parede ao lado. Abri, desci os degraus e me dirigi conforme a luz vazada pela fresta exígua na janela me instruía. Cacarecos, armários e prateleiras abarrotadas de aparatos antigos, malas, cestas, quadros, uma bicicleta enferrujada. Estava a um passo de desistir antes de visualizar o que eu tanto procurava jogado atrás de uma cômoda em desuso.

Um caixote retangular de madeira maciça. Ou um baú sem fechadura, per un laico como me.

Não procrastinei. Cuidadoso, larguei meu amor em um espaço livre e me voltei àquela peça atraente que me seria útil até dispor de tempo para pensar em algum local mais apropriado. Expurguei o pó da superfície com as mãos e destampei sem dificuldade, deparando-me com toda a sua extensão grandiosa. O fundo se encontrava quase vazio, exceto por poucos objetos bem distribuídos: um sapato branco de salto encardido e sem par, um lenço de musselina lilás (que surpreendentemente mantinha-se conservado como se alguém tivesse guardado-o há pouco tempo) e uma fotografia ininteligível rasgada em três pedaços disformes. Após removê-los e transferi-los para uma das gavetas da cômoda à frente, agarrei Celine pelas pernas e a arrastei. Sua cabeça bateu em um desnível no trajeto e seus cabelos desprenderam-se da fitinha. Rangi os dentes. Ajeitei seu corpinho, acomodando-o no caixão provisório e vergando seus joelhos para que coubesse de corpo inteiro. Passei os dedos em seu rostinho, fechando suas pálpebras e formalizando uma despedida que jamais deveria ter acontecido. Por fim, vedei o baú e coloquei pesos aleatórios em cada extremidade superior.

Reclinei-me sobre a cômoda.  Um espelho trincado embutido na parede suja refletia minha imagem distorcida. A face abatida anexada ao corpo seminu de mancebo louro sarapintado de manchas de sangue semi-coagulado. Verti mais lágrimas.

Não seria a última vez que eu a veria. Eu precisava apenas de um dia para repousar e refletir sobre o que faria para preservá-la em outro ambiente. Ideias possivelmente germinariam após uma noite regada a insônia, assim como também precisara de tempo e estímulo para tramar cada detalhe daquele infeliz episódio.

Restavam-me poucas opções. Ainda assim, tomar banho e limpar a sala de titia foram as únicas que me apareceram em mente.

***

V.

Era minha culpa.

Minha culpa.

Minha máxima culpa.

Eu não era versado em anatomia e não poderia predizer quantos dias passariam até o corpo de Celine putrefazer-se. Eu não era vivido o bastante para assimilar o quão grave era o problema que eu havia gerado.  Eu não era competente ante o amor para resguardar meus parcos relacionamentos. Mas eu era entendido do tempo – quando destituído de acepções técnicas – e tinha plena noção de que o meu estava se esgotando. As horas continuavam correndo e eu ainda não havia chegado a uma elucidação prática.

Ajeitei a sala. Reposicionei os móveis, destroquei o que precisava. Varri e esfreguei a sujeira. Durante o banho, esfolei minha pele escovando-a incessantemente com uma bucha. De roupa lavada, fui forçado a queimar o tapete. Suas fibras estavam tão saturadas de sangue que limpá-lo não era mais uma opção. A saída foi simples: troquei a água e sabão pelos palitos de fósforo e soterrei o que restara usando uma pá.

Peguei no sono sem jantar ou ver Viola retornando. Dormi mal. Mas dormi, o que parecia pouco sensato. Revirei na cama como as panquecas que titia fazia para o café da manhã e fui agraciado com sonhos curtos dos passeios e piqueniques que fizera com Celine durante todo o outono. Sonhos que mais pareceram indícios de culpa. Culpa esta que, por sua vez, eu levaria incrustada no peito até o epílogo de minha vida.

Acordei de madrugada e, para meu alívio, não fui recebido por titia com a notícia do desaparecimento de Celine. Seu pai provavelmente estava à procura de uma moça chamada Cinzia cuja suposta residência situava-se a oeste da nossa. Sentei à beira da cama e massageei minhas têmporas. Alguma coisa estava me incomodando, por mais que não existissem razões correntes – além do que já era óbvio e irrefutável – que levassem a algum tipo de preocupação. Subitamente, uma lamparina incendiou-se acima de mim e clareou minhas interrogações. Não era o arrependimento. Não era o futuro.

Era o silêncio. Silêncio de Viola, que sempre fazia questão de me acordar quando retornava.

Saí de meu quarto e atravessei o corredor até chegar aos aposentos de minha tia. Bati na porta de dedos cruzados e, ao não obter resposta, girei a maçaneta.  Quarto vazio, cama arrumada. Desconfiado, desloquei-me aos degraus e desci sem fazer chiar. Ao passar pela cozinha, um feixe de luz vindo do interior me instigou a entrar. O fiz com mau pressentimento.

O feixe que havia me cegado era oriundo da luminária em péssimo estado que titia acendera para conseguir se locomover. Ela estava de costas para mim e de frente para a pia. O barulho de uma lâmina se chocando contra uma tábua de carne me levou a crer que estava preparando o jantar.

– Teu prato favorito, Dario. Sente-se e me faça companhia.

Macarrão. O cheiro a denunciava: estava fatiando tomates e aprontando o molho. Mesmo que o caos interno me impedisse de absorver corretamente as informações que eram jogadas à minha frente, obedeci e recostei meus cotovelos sobre a mesa.

– Você acredita em coincidências, Dario?

Eu não conseguia ver seu rosto graças à posição na qual ela se encontrava, mas poderia supor que estava lacrimejante em virtude de uma sofreguidão que eu nunca havia identificado antes em sua voz. Não respondi, mas ela pareceu não levar isto em consideração.

– Sempre tive planos de conceber uma criança com seu tio. Infelizmente, o tempo me privou deste privilégio quando ele faleceu. – entre o intervalo de cada frase eu podia ouvir o ruído da faca em contato com os tomates ficando cada vez mais alto. – Mas quando a sorte me foi favorável, você apareceu.

Engasgou. Eu não podia ver seu pranto, mas podia senti-lo em cada palavra. Mais do que isso: partilhava da mesma dor que ela estava sentindo. Pela primeira vez em muitos anos, prestei atenção no que titia falava sem objeções. Por mais amistosa que fosse, ela jamais se mostrara tão articulada.

– Minha irmã casou-se com um mau partido e nunca esteve em condições de criá-lo. Ao entregá-lo em minhas mãos, eu prometi a ela que te criaria e te faria um homem como foi seu tio.

Enruguei o rosto. Não estava entendendo o rumo que o falatório levara. Ela debruçou-se sobre o escorredor, abaixando a cabeça e chorando baixo. Não enxerguei vestígios de macarrão cru ou cozido sobre o mármore da pia. Apenas tomates cortados. Vermelhos como suco de laranja sanguínea. Como o sangue que extraí de meu maior tesouro.

– Você cresceu e, apesar de nunca ter retribuído meu afeto, tornou-se o homem que eu havia garantido à sua mãe. – voltou-se a um pano estendido em um gancho na parede ao lado e limpou as mãos sujas de polpa antes de continuar. – Eu te prestaria suporte mesmo que estivesse errado, mas preferi mantê-lo afastado de más influências enquanto pude. E como toda laranja… Você amadurou. Eu sabia que alguém surgiria para te tirar de mim, mas… Não imaginei que isto fosse acontecer tão cedo…

Quis tapar meus ouvidos. Fugir. Mandá-la calar a boca. Reprimi as lágrimas e mordi meu lábio inferior. Eu estava para tia Viola como uma chaleira estaria para a chama de uma lareira. Neste cenário, uma ebulição seria previsível.

– Não é fácil administrar tudo sozinha, mesmo contando com a tua ajuda. Hoje de manhã fui apurar alguns problemas no banco e aproveitei para visitar o túmulo de seu tio no cemitério. O aniversário de morte foi há duas semanas, mas ele ouve as minhas preces e sabe que não me atrasei por mal. – o assunto havia mudado, mas o som emitido por sua boca permanecia amargo. – Seu tio era um romântico nato, assim como você na presença da menina das tortas. E podendo escolher entre anéis e chocolates, seu primeiro presente para mim foi um lenço.

Levantei-me boquiaberto. Repentinamente, titia virou-se em minha direção. Seus olhos estavam inchados. Levou o antebraço ao rosto, enxugando cada gotícula com a manga do penhoar.

– Eu abri o baú, Dario.

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Informação

Publicado às 1 de setembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .