EntreContos

Detox Literário.

Estações em mim (Claudia Roberta Angst)

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Quando mostraram o teu coração, eu já estava cega. Ainda assim, insistiram em te explicar em negativas. Mais de uma vez. Centenas de vezes, revelaram um conteúdo vazio, sem interesse algum. As palavras eram de uma precisão possível só a terceiros. Mil faces foram descobertas, checadas, devastadas. Tua vida inteira dissecada sobre uma mesa fria.

Depois de horas, gritaram qualquer coisa. Questionaram teu nome, teu interesse, teus passos. Comecei a perecer com medo do que me diziam. Minhas folhas trocaram o verde por tons acobreados. Fui me tornando outono.

Esperaram que eu dormisse para que, em profundo sono, minha mente pudesse ser sabotada. Então, arrancariam teu nome. Mas isto não aconteceu. Meus pensamentos tornaram tudo confuso como uma tempestade. Até então, eu não conseguiria conceber ideia alguma que não incluísse versos teus. Mesmo quando a dor tornou-se o sinal maior, guardei teu nome como chaga. A mim, pertencia a esperança do momento.

Acordei fria, sem qualquer argumento. Acenderam fogueiras ao meu redor. Condenaram minha existência. Julgara-me imprópria. Ainda mais uma vez, proteger teu nome era minha missão. Passos multiplicavam-se por todo o chão.

Do meu cérebro, arrancaram tudo o que possuía teu nome. Fui ficando vazia, sem possibilidades. Prenderam-me os braços, já que eu não os cruzava. Mas, ainda falava e povoava o ar com mil lâminas afiadas. Nada detinha minhas palavras.

– Não percebes a inutilidade dos teus atos?

Nada. Nem mesmo uma nuvem. Não havia nada que eu devesse perceber. Estava cega. Jamais saberia quantas palavras ainda seriam necessárias. Batia os pés no chão e não os escutava mais. Meus olhos devoravam teu silêncio.

Por medo de novas ameaças, preenchi minha mente com fantasias. Fingi renúncia e traição. Que eles não enxergassem qualquer ponto de luta em tudo aquilo. Que eu conseguisse enganá-los até o fim.

Contentes com o meu abandono, ladearam-me de flores. Pude sentir os espinhos nos caules. Eram rosas. Vestiram-me de branco ou qualquer outra cor. Na ignorância dos meus olhos, conservei o negro em minha mente. Pintaram minhas faces, meus olhos e lábios. Disseram que tudo estava bem, que eu seria feliz.

Quanto mais me amordaçavam com mentiras, mais sofria com o teu mistério. Era como se me deitassem sobre cinzas ainda quentes. Talvez fosse preciso conhecer teu lado escuro, já que teu silêncio não mais me bastava.

Contaram-me lendas gregas e outras tantas romanas. Aprendi nomes de deuses e ninfas. Injetaram-me sangue novo. Redecoraram toda minha mente com cores vivas. Então, descobri, tarde demais, que tua lembrança estava aprisionada em mim. Longe, na mais alta gaiola.

Nós foram desatados, fogueiras realimentadas. Já não havia graça no meu sentir. Eu apenas não enxergava. Mas, houve um deslize. Livre de nós e amarras, pronunciei teu nome. Tarde demais, eu já era livre.

Tentaram te mostrar evidente demais, sem possibilidades de perdão. Apresentaram-me um beco sem saída. Entreguei-lhes todos os meus sonhos. Só então recuperei a visão.

Sem sonhos ou fantasias, sem minha sagrada cegueira, era impossível fugir da realidade. Eles ali expondo tuas ideias, declarando tua culpa, tuas traições ignoradas por tanto tempo. Buscavam em mim a mais profunda mágoa para incriminá-lo. Estavam longe, longe como um enigma sem olhos.

Os momentos seguintes arrancaram minhas raízes. Meus cabelos foram cortados em uma noite fria. Já era inverno e minhas folhas apodreciam.

Restavam-me as palavras, aglomeradas em agonia. Mil noites insones, mil palavras fugidas. Batiam em minha porta como cruéis cobradores. Parecia tão tarde…

Ah, se eles soubessem da explosão que eu abrigava! Se percebessem suas chamas vorazes. Preocupada com a realidade, deixei-me contaminar por uma tristeza descrente, de um entardecer quase eterno. Perderia tudo?

As inúmeras torturas, os colapsos sucessivos, a fome e a sede de uma mente perturbada. Momentos de extremo exílio, voltada contra lembranças. Eles acorrentavam minha alegria. Sabia que não seria para sempre. Todas aquelas horas passariam envolviam minha mente, mas eu os vencia.

Refletiram minha alma traída mil vezes. Vi meu nome esquecido sob teu nome ressuscitaram mentiras que, talvez, não fossem tuas. Fechei meus olhos e aceitei tua humanidade. A parte errada que também via em mim.

Como simples recordação, revelaram-me acontecimentos passados e futuros, checando teus mais remotos erros, vasculhando teus becos mais obscuros.

Um deles prendeu meus pulsos e ateou fogo em meus pensamentos. Gritou  todos os teus caminhos contra mim. E contou-me dos teus passos sobre o meu entusiasmo, da tua indiferença, do teu silêncio, do teu abandono.

Revoltada com tanta crueldade, arranhei mãos, cortei cordas, amaldiçoei-os até o fim. Havia palavras pulsando dentro de mim. Por mais que surgissem provas do teu distanciamento, por mais que pronunciassem tuas palavras como mentiras, tudo poderia mudar e mudou.

Então, ao terceiro dia de minha inexistência, atropelei todos os risos, toda descrença e olhei para tua gaiola. Quando enxerguei teus olhos inalterados em tua prisão silenciosa, reencontrei minha força. Podia ser miragem, ilusão, um mundo de mentiras, mas me manteria viva.

Diante da escuridão de um longo inverno, gritei por cada célula do meu corpo e revelei minha origem divina. Expulsei todos os maus pensamentos, todas as verdades malignas. Queria provar tua inocência.

Queria que me deixassem explicar, justificar o meu caminho. Queria santificar até o fim o teu nome.

Olhares incrédulos. Fazia juras que para todos pareciam loucuras. Não entendiam as palavras despedaçadas. Mas eu iria até o fim, até o último refrão. E rezaria mil vezes mil vezes, surgiria diante do altar. Todos me ouviriam. Resgataria todos os meus sentidos, sonhos e ilusões.

– Não quero provar desta realidade!

Mais e mais, eu os enfurecia com minhas palavras, únicas armas diante de tanta surdez. Cresciam feito plantas, agarradas a minha vida. Flores desabrochando em desertos esquecidos.

Ao quarto dia, perdi teu rumo. Era estranho como o teu silêncio impedia minha luta. Como poderia saber a que lado pertencias? Eras meu refém e meu cúmplice. Conheci a dúvida, a ira dos desavisados.

Aquele chão árido, de onde brotavam sementes, rasgava-se de repente. Como recomeçar? Como replantar a esperança?

Sentindo o desespero, abri tua gaiola. Teu voo incerto provocou violência maior. Vi tuas asas partidas, tuas plumas caindo, o sangue morno correndo entre as minhas mãos.

Não seria assim que me venceriam. Não seria desta forma que prenderiam meus pés no inverno. Era tarde demais, o ciclo já estava completo onde havia folhas mortas, surgia a estranha primavera.

Forte em pleno renascer, queria reproduzir quadros sagrados. Revivi a fecundidade dos séculos, do Nilo, das selvas desconhecidas.

Era primavera. Não havia como voltar atrás. Teus pensamentos e desejos continuavam sendo enigmas para mim. Tuas palavras surgiam como signos indecifráveis. Sentia tua sede por algo a mais, teu movimento, teu quase fugir.

Chegou o dia presente. As palavras e sentimentos pertenciam já a este momento. Logo, as últimas gotas seriam absorvidas e entrariam no túnel da contemporânea realidade.

E não sei o que houve. Já não sei o que há. Se será, de                                 conheço teus passos. Não posso responder por todos os séculos que virão. Sei apenas que o agora parece eterno e belo. O amanhã permanecerá intacto como uma esfinge sem signos, quase na próxima esquina.

Todos os dias passarão. As folhas trocarão a seiva por uma última queda. Depois será outono e virá o inverno. O frio castigará minha vida e levará meus sonhos. Eles voltarão. Nada há a se fazer. Nem mesmo o registro da dor e da alegria superará a ignorância do amanhã. Somente o sentir, imune a qualquer tempo, saberá calá-los. E mesmo que minhas palavras, rimas e metáforas sequem, permanecerão em mim como nasceram. Serão teu nome, o meu sentir.

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8 comentários em “Estações em mim (Claudia Roberta Angst)

  1. Joice22
    18 de setembro de 2014

    Texto narrado em 1ª pessoa, com predominância de metáforas. No início e no meio, evidencia-se a necessidade da libertação. No final, há não só a libertação pretendida, mas também a afirmação de uma fusão entre o eu e o que o ser amado representou.

    • Claudia Roberta Angst
      18 de setembro de 2014

      Captou bem a mensagem do texto, Joice. 🙂

  2. Jowilton Amaral da Costa
    1 de setembro de 2014

    Caramba, eu gostei muito. é como uma imensa prosa poética, cheia de frases matadoras. Gostei muito dessa: “Entreguei-lhes todos os meus sonhos. Só então recuperei a visão”. Soou-me como uma libertação dolorosa, mas, necessária. Abraços.

    • Claudia Roberta Angst
      1 de setembro de 2014

      Obrigada pelo seu generoso comentário, Jowilton. Captou bem a essência da personagem, a libertação através da desilusão. Abraço.

  3. Anorkinda Neide
    1 de setembro de 2014

    Claudia, menina… Será que não ficou um tanto metafórico demais não? Ou eu estou lerdinha pra acompanhar vossos pensamentos.. rsrsrs
    No começo pensei numa coisa, depois em outra, acho q era essa a tua intenção, mas.. depois me perdi e pretendi deixar a leitura fluir..qd parecia q ia primaverar e tudo ficar florido o ultimo parágrafo derrubou O balde de gelo.!!
    Enfim, não sei bem o que pensar!:o

    destaco este trecho que achei primoroso^^
    ‘Não posso responder por todos os séculos que virão. Sei apenas que o agora parece eterno e belo. O amanhã permanecerá intacto como uma esfinge sem signos, quase na próxima esquina.’

    Bjim

    • Claudia Roberta Angst
      1 de setembro de 2014

      Olá, Anorkinda! Realmente, o texto é a hipérbole da metáfora e isso tem uma explicação: paixão. Aos vinte e pouquíssimos anos, eu era assim. Havia uma necessidade vital de camuflar, “neblinar” os sentimentos.
      O que quis passar é a trajetória de uma paixão, entre o encantamento e a desilusão.
      Obrigada pela leitura e comentário. Beijo.

  4. Agenor Batista Jr.
    31 de agosto de 2014

    Impecável como tudo que escreve. Coisas de coração como só uma sensível alma que você é. Beijo!

  5. Claudia Roberta Angst
    31 de agosto de 2014

    Se será, desconheço teus passos… Falha técnica. Sorry.

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Informação

Publicado às 30 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .