EntreContos

Detox Literário.

Frozen (Alexandre Parisi)

frozenMatias não gostava muito de pescar. Primeiro porque não sabia nadar. Depois, porque não via graça nenhuma em ficar parado na beira do rio esperando por séculos a fio até que um peixe desavisado resolvesse dar um puxão na linha.

Seu pai, contudo, adorava aquilo. Vezes sem conta Matias o acompanhou, meio emburrado, é verdade, mas com aquela resignação que só dura até a chegada da adolescência. O pai, ele via, ficava frustrado com sua falta de vontade e aptidão.

Por isso estava ali agora, na beira do rio que delimitava o sítio. Sozinho. Iria apanhar alguma coisa sem a ajuda de ninguém. Nem que fosse uma piabinha sem graça.

Olhou para a lâmina d’água completamente estática. Mais parecia uma chapa de aço escovado, cinza e fria. A impressão que dava era que se podia deslizar por ela, como faziam esses patinadores estrangeiros na TV. Por vezes entediado, imaginava o que aconteceria se resolvesse imitá-los. Afundaria como um bloco de concreto. Seria engraçado até. O único problema é que morreria afogado.

Era fim de tarde e um trovão rompeu a calma aparente. Nesse instante, uma bolha aflorou. Uma perturbação ridícula mas relevante o suficiente para mantê-lo ali, atento, apesar da chuva iminente.

Súbito, o primeiro puxão. Depois outro e outro. Era quase um coice. Matias se levantou no mesmo instante. Era algo grande.

— Peguei! Peguei! — gritou para ninguém em especial.

A vara curvou-se na direção do rio, a linha se retesou, como se quisesse dividir a água ao meio. Matias inclinou o corpo para trás e segurou-se com toda a força que tinha. Nessas horas odiava ser tão pequeno. Onze anos, é verdade, mas aparentando menos.

Os primeiros pingos salpicaram a terra. Ele fincou os pés no solo que agora se enlameava. Seus braços doíam. Além disso, havia o medo de cair na água. Não, não podia pensar nisso. Concentração. Pense no peixe. Pense na cara de papai quando vir o tamanho dele. Oh, Deus, por que é tão difícil.

A chuva já não era uma promessa. Os pingos caíam vigorosos, martelando as costas do menino. A água do rio parecia ferver. Puxa daqui e dali, ora afrouxando o braço, ora retesando os músculos até que… Sim, a linha afrouxava. O peixe estava desistindo… Sim, sim, ele venceria.

— É um pintado! Um pintado enorme! — disse a si mesmo assim que o bicho surgiu ainda se debatendo na superfície.

Mal podia crer na sorte. Orgulhoso de si mesmo, esperou o peixe se acalmar. Por um instante, sentiu pena dele. Imaginou se não deveria devolvê-lo à água. Não… Hoje, não. Sem esperar mais, colocou-o em um balde de ferro pequeno demais. Ajeitou a vara sobre o ombro e tomou o rumo da cabana.

O pai de Matias chamava-se Francisco. Era pescador sério. Desses que tinham equipamentos para pescar até uma baleia se fosse preciso. Guardava tudo ali no casebre, pertinho do rio. Era um lugar que Matias conhecia bem. Mas jamais estivera ali sozinho.

Para entrar havia um truque: um pequeno tranco na fechadura, ao tempo em que se erguia a trava. Pronto. Aí estava.

Matias entrou e tirou o casaco encharcado. Ligou o interruptor e uma luz âmbar, fraca como um suspiro asmático se projetou lá de cima.

Na cabana havia varas de todos os tipos e tamanhos. Com e sem molinete. Linhas de diversas espessuras, redes e até arpões. Também existiam serras e serrotes, além de tábuas, facas e ferramentas para limpar qualquer espécie de peixe. Nas paredes havia muitos quadros e fotos emolduradas. Em uma delas, seu Francisco aparecia sorridente segurando um peixe gigantesco com a ajuda de outros três homens. Na parede mais ao fundo havia uma cama sem colchão, com várias caixas fechadas sobre ela e outras ainda por fechar. Ao lado, uma mesa de madeira tinha uma garrafa térmica como enfeite, além de um copo com líquido preto pela metade. Papéis com anotações estavam espalhados por ali, além de alguns lápis e um estilete.

Segurando o balde com as duas mãos, Matias caminhou até um congelador que havia próximo da janela, à esquerda de quem entrava. Estava ali desde que ele podia se lembrar. Era grande, cheio de pontos de ferrugem, e emitia um ruído baixo e contínuo, como um caminhão em marcha lenta.

Guardaria o pintado ali. Na manhã seguinte convidaria o pai para ir até lá e quando o homem menos esperasse, ele mostraria seu troféu dentro do congelador. Sim, era perfeito. Ele podia imaginar direitinho a expressão de surpresa do homem, os dentes reluzindo por entre a barba espessa. Com certeza iria contar aos amigos. Matias podia vê-lo se gabando da façanha do filho. Era como um ritual de passagem.

Percebeu então que o congelador estava trancado com um cadeado. Claro. Vivia daquele jeito. Mas ele sabia onde o pai guardava a chave.

Foi até a mesa de madeira, sua sombra deslizando pelo chão. Apanhou um par de copos cheios de lápis e canetas e esparramou tudo sobre o tampo, até ouvir um tilintar surdo.

Abriu o cadeado com cuidado. Depois subiu em um banco para erguer a tampa. Teve que fazer mais força do que o esperado para puxar a alça. A borracha recusava-se a ceder. Por fim, conseguiu. Não havia nada lá dentro. Só gelo amontoado cobrindo todo o fundo.

Por um momento olhou para o interior. Estava como que hipnotizado.

Lá fora a chuva continuava, o telhado do casebre sofrendo com rajadas intermitentes.

No fundo do congelador, o gelo não se dispunha de modo uniforme. Lembrava mais a reprodução em pequena escala de um relevo acidentado. Morros e vales se alternando aqui e ali. Uma miniatura de paisagem glacial.

Havia um cheiro estranho, mas Matias achou normal, afinal de contas, era o lugar em que seu pai estocava os peixes.

Sem mais, tratou de apanhar o balde com o pintado. Com cuidado, apoiou-o na borda e virou até que o peixe se projetasse congelador adentro num mergulho de cabeça. Uma entrada de ponta, perfeita. O gelo espalhou-se devido ao impacto. E foi aí que ele viu.

Um rosto. Um rosto semi coberto por cubos de gelo. O queixo pequeno, os lábios finos e arroxeados, além de um pedaço da orelha.

Foi como um soco.

Matias sentiu o estômago revirar, as pernas fraquejarem e um gosto amargo invadir-lhe a boca. Seu instinto de preservação ordenou que saísse dali, que corresse o mais rápido possível, voltasse para sua casa e contasse tudo à sua mãe e à polícia.

Não conseguiu se mexer, contudo. Seus olhos estavam grudados naquele pedaço de rosto e se recusavam a desviar.

Sem pensar, desceu do banco e apanhou uma pá próxima da mesa de madeira. Ao voltar, afastou o gelo, descobrindo o corpo por completo.

Uma menina.

Devia ter a mesma idade que ele. Deitada de lado, encolhida como um bebê com frio. Ela usava um vestido estampado com flores. Os braços estavam descobertos, assim como as pernas, a pele branca como papel. Nos pés tinha um par de meias com detalhes amarelos e sandálias vermelhas. Os cabelos claros estavam amarrados em uma trança, descendo pelo ombro. A boca entreaberta lembrava alguém com dificuldades para respirar. Os olhos fechados e as mãos entrelaçadas sob o queixo davam a impressão que ela rezava. Das sobrancelhas e dos cílios pendiam minúsculos cristais de gelo.

Parecia dormir.

O que seu pai tinha feito? Aquilo era terrível. Uma menina morta dentro do congelador? Há quanto tempo? Não… Não podia ser. Era uma alucinação, uma imagem surreal, impossível. Seu Francisco não era esse tipo de pessoa. Era um bom pai, severo às vezes, é verdade, mas jamais um assassino. Era a pessoa que lhe ensinava as coisas, o que era certo e errado. Era uma pessoa boa. O tipo de sujeito que todos gostavam.

Mas a menina ali dizia o contrário. Deitada como uma criança indefesa – afinal, era justamente isso – ela mostrava que talvez existisse um lado de seu Francisco que Matias não conhecia.

***

Não gostava muito de mentir. Normalmente acabava se entregando ao menor sinal de desconfiança da pessoa com quem conversava.

— Pesquisa sobre crianças desaparecidas? — perguntou a bibliotecária, uma moça de queixo comprido, com cabelos crespos tocando os ombros e olhos amendoados.

— É, isso mesmo — respondeu Matias, tão sério e rápido quanto possível. — É um trabalho da escola.

A garota o encarou por um segundo. Devia ter uns dezessete anos. Em sua expressão equina parecia enxergar por dentro dele. Claro que tinha percebido a mentira. Que escola manda seus alunos fazerem pesquisas daquele tipo? Mesmo assim pediu que a seguisse.

— Temos os jornais arquivados aqui. Estão microfilmados. Dá para pesquisar as páginas policiais. Já fez isso antes?

Matias fez que sim.

— Não se preocupe. Vou te ensinar — disse a mulher, piscando um olho.

Só quando ela se afastou é que Matias sentiu os músculos relaxarem. Por fim pôde iniciar sua pesquisa.

Não havia tantas notícias sobre desaparecimentos. Aliás, não havia coisa alguma sobre esse assunto. O que se via nas reportagens policiais de jornais antigos eram poucos roubos e brigas entre homens bêbados.

Folheando aqui e ali não encontrou muito o que interessasse. Já estava quase desistindo quando uma notícia chamou sua atenção.

“Caso Carolina arquivado. Família diz que vai recorrer.”

Era um artigo sobre uma garota que sumira na capital, sem deixar vestígios. Depois de meses de apurações, a polícia desistira de procurar o culpado. Jamais encontraram pista alguma. Uns apostavam que a menina fugira, outros que ela havia sido raptada por ciganos. Quase ninguém se atrevia a dizer que ela teria morrido, mas todos concordavam que a apuração chegara a um beco sem saída e que seria inútil continuar procurando.

Ilustrando a reportagem havia um retrato. Carolina vestia um uniforme escolar. Seus cabelos eram claros e ondulados, seguros por uma tiara. Ela tinha olhos pequenos e exibia um sorriso inocente, enfeitado por dentes pequenos e separados. Em baixo da foto, dizia a legenda: “Carolina Ribeiro, que desapareceu aos onze anos”. Ao lado, outro retrato, só que de uma mulher mais velha exibindo uma expressão indignada. Ela tinha a boca aberta, como se protestasse A legenda dizia: “Luísa Cristina, a mãe. ‘Vamos às barras dos tribunais’.”

A garota desaparecera quando voltava da escola. Assim, num dia de verão, deixou a sala de aula dizendo adeus à professora e aos colegas. Jamais chegou em casa. Nunca mais a viram.

Isso fora há dez anos.

***

Naquela noite Matias voltou à cabana. De início, a ideia parecera repulsiva, mas de repente, assim, sem muita explicação, ele sentiu vontade de ver a menina outra vez.

Um tanto nervoso, entrou e esperou que a porta se fechasse com o clique seco do ferrolho. Não acendeu a luz. Trouxera consigo uma lanterna. Ligou-a e manteve o facho apontado para baixo. Aproximou-se devagar da mesa de madeira e encontrou a chave do cadeado no copo onde os lápis eram guardados. Pé ante pé deslizou sobre as tábuas irregulares do assoalho, subiu no banco e abriu a tampa do congelador. Mal acreditava no que estava fazendo. Com o coração a mil, limpou o gelo que disfarçava o fundo. Lá estava ela. A mesma posição. A mesma expressão suave.

Engoliu em seco e disse num cochicho:

— Olá… Meu nome é Matias.

Claro, não esperava resposta. Mas depois de ler tanto sobre a vida dela, era como se fossem conhecidos. Mais do que isso. Amigos, até.

— Só para te dizer que nós temos a mesma idade, sabe? Quer dizer, acho que você é mais velha, mas só um pouco…

Carolina jazia estática.

Matias balançou a cabeça. Como se recobrasse o juízo num instante perguntou a si mesmo o que estava fazendo. No fundo, sua mente dizia para fechar a tampa do congelador e ir embora. Que aquilo era uma loucura, uma sandice sem tamanho. Contudo, não era seu costume ouvir a razão. Mergulhando novamente em seus devaneios, preferiu acreditar que Carolina se levantava e sentava-se sobre a tampa do congelador. Agora suas pernas balançavam no ar. Então ela cruzava os tornozelos e acomodava os sapatos vermelhos um sobre o outro.

— Sabia que o homem pisou na lua? — dizia ele.

Carolina levava a mão à boca, num “oh!” involuntário.

— Quem poderia supor, né?

Ela perguntava se era mesmo verdade, se a lua era tão bonita quanto diziam. E ele respondia que não, que a imagem dos poetas era muito mais bonita. Ela então ficava encabulada e ele também. Para mudar de assunto ele dizia que atualmente as pessoas só sabiam falar na copa do mundo no México aconteceria dentro de alguns meses. Ela respondia que não gostava de futebol e ele, com um sorriso no rosto, dizia que também não. Que preferia empinar pipa e nadar no rio. Ela dizia que talvez pudessem nadar juntos um dia. Dessa vez quem ficava corado era ele. Então perguntava a ela qual era seu passatempo favorito e ela respondia que era ler. Ele dizia que jamais tinha lido um livro na vida, mas que se ela indicasse algum ele poderia, quem sabe, experimentar.

Logo as incursões secretas à cabana de pesca de seu Francisco se tornaram um costume para Matias. Noite após noite ele aguardava os pais dormirem e fugia para encontrar Carolina. Estava encantado por ela. Falavam sobre os amigos, sobre a escola, sobre as famílias. Jamais conversavam sobre o que teria acontecido de verdade com ela, até porque isso não importava.

Para que serve a realidade quando se está sonhando?

***

Certa vez Matias se preparava para abrir o congelador quando percebeu lá fora uma luz que dançava na escuridão. Oscilando para cima e para baixo, tornava-se mais forte a cada instante. Alguém estava chegando.

Rapidamente fechou o cadeado do congelador, colocou a chave de volta no copo com os lápis e buscou um lugar para se esconder. Na falta de opções, jogou-se debaixo da cama sem colchão, na parede ao fundo, envolvendo-se em um cobertor malcheiroso. Encolheu-se o máximo que pôde e esperou.

Minutos se passaram com a expectativa transbordando. Até que ouviu a tranca deslizando e a porta se abrir. Alguns segundos depois e a luz fraca se espalhou pelo casebre.

— Não quero demorar hoje — disse seu Francisco.

Matias se encolheu ainda mais. Não queria nem imaginar o que aconteceria se o pai o descobrisse ali.

— Só preciso de alguns minutos — disse outra pessoa. Era Uma mulher.

O som dos lápis esparramados e o tilintar surdo já familiar indicavam o que se seguiria.

Logo veio o som da tampa se erguendo e o varrer do gelo dentro do congelador. Enfim, seguiu-se um longo suspiro.

— Calma, Luísa — disse seu Francisco.

Um soluçar baixo seguiu-se como resposta.

— Há quantos anos fazemos isso? — indagou o homem. — Você já devia estar acostumada…

— Ah, mas é tão difícil olhar para ela, ver… Você sabe…

— Sim, sim… Já falamos sobre isso tantas vezes. Não foi culpa nossa. Sua ou minha… Aconteceu.

— Eu sei… Mas é que não se passa um dia sem que eu pense…

— Que você deveria ter impedido que ela viesse ao rio.

Outro momento de silêncio.

— Luísa, precisamos tirar ela daqui.

— Ah, Chico, de novo essa conversa? Eu não posso ficar sem a minha filha.

— Não esqueça que ela é minha filha também. Só que ela já está aqui há muito tempo… Você precisa aceitar que…

— Nem pense nisso!

— Por que não? É o mais seguro.

— Não… Nunca. Eu não vou enterrar minha filha.

— Tudo chega ao fim. Por que é tão difícil entender? Não dá mais para levarmos isso adiante.

— Chico, eu preciso dela. Preciso ver ela, ter ela por perto.

— Isso é uma doença. Você tem que aceitar o fato que nossa filha morreu.

— Nunca vou aceitar isso.

Por alguns instantes ninguém disse palavra. Era claro que aquela discussão acontecia com frequência. Passos se seguiram de um lado para o outro. Matias chegou a pensar que o pai o teria descoberto.

— Luísa, chega — disse o homem. Matias conhecia aquele tom. O pai o usava quando dava a conversa por encerrada. Normalmente ao modo dele. — Eu não quero mais saber. Eu vou levá-la rio abaixo agora.

— Não, Chico. Você não vai fazer isso. Por favor…

— Há quantos anos estamos protelando isso? Por favor digo eu… Você precisa de um tratamento.

Um som de choro preencheu a cabana, entremeado por um ruído de gelo arrastado.

— Não, Chico… Eu não vou aguentar…

— Assunto encerrado. Você ainda vai me agradecer por isso.

— Pai, pode parar aí mesmo.

Francisco não acreditou. Matias surgia assim, do nada. Brandia um arpão, desses acionados por um gatilho.

— Coloque ela de volta, pai. Por favor — disse ele ao ver que seu Francisco já tirava a menina do congelador.

— O que você está fazendo aqui, Matias?

— Pai, põe ela de volta aí, já falei.

Matias não se reconhecia. Estava ameaçando o próprio pai.

— Eu vou contar até três, seu moleque. Você vai largar esse arpão na mesa e vai para casa. Depois a gente conversa.

— Pai, o senhor não entende…

Não podia aceitar, assim como a mulher, que Carolina fosse levada dali, que desaparecesse.

— Como não entendo? O que é isso? Vocês dois andaram se combinando?

Ninguém respondeu. Luísa continuava a soluçar enquanto Matias mantinha o arpão apontado na direção do pai.

Ignorando-os completamente, seu Francisco tirou Carolina de vez do congelador, segurando o corpo rígido com ambos os braços.

— Pai, não me obrigue a usar isto!

— Não seja ridículo, moleque. Você nem sabe como usar…

Nisso, o arpão riscou o ar na direção da cabeça do homem. No último segundo, porém, seu Francisco desviou, sendo atingido de raspão apenas.

— Você está fora do seu juízo? — gritou seu Francisco, colocando o corpo de Carolina de volta no congelador. Estava furioso agora.

— O senhor não pode levar ela, pai. Não pode…

Matias foi interrompido por um tapa que fez seu rosto afoguear instantaneamente.

— Chico, não…

Matias começou a bater no homem. Era como socar um urso. Seu Francisco ergueu-o no ar pelos braços.

— Eu não quero bater em você, moleque. Isto não é assunto para crianças.

Mas Matias não desistia. Continuava a espernear e a desferir socos a esmo, já às lágrimas. Seu Francisco amarrou o menino a uma cadeira e em seguida levantou o corpo de Carolina do congelador uma vez mais. Matias gritava em desespero.

Com a menina no colo, seguido da mulher, o homem abriu a porta e saiu da cabana. Um silêncio abrasivo inundou o local. Matias estava só.

— Não!

Balançou para frente e para trás até que a cadeira caísse. As cordas afrouxaram o bastante para que ele se libertasse.

Saiu correndo da cabana, escaneando a escuridão em busca do pai. Viu-os todos à beira do lago. Dona Luísa estava parada ali, em um pranto sufocado, no exato local onde ele apanhara o pintado. Adiante, a uma centena de metros já na água, seu Francisco deslizava placidamente com seu bote. Dentro, via-se o corpo de Carolina enrolado em um cobertor.

Matias não iria suportar. Ficar sem ela, logo agora… Olhou para dona Luísa como se buscasse compreensão. Lembrou do retrato dela no jornal antigo. O tempo havia sido cruel. Ela envelhecera muito mais do que dez anos.

— Eu vou atrás dela — disse ele, os olhos cheios de lágrimas.

A mulher encarou-o por um instante.

Sem preocupar-se em tirar o casaco, ele mergulhou no rio.

 

46 comentários em “Frozen (Alexandre Parisi)

  1. felipeholloway2
    12 de julho de 2014

    O texto me deixou bem dividido. É inegável o talento do autor para criar uma atmosfera de tensão. A descrição das ações raramente soa arrastada, e a relação afetuosa que Matias estabelece com a desconhecida no congelador é pungente pela contraposição com a esterilidade daquela que tem com o pai. No entanto, o segundo ato soa esquemático, e perde-se um pouco da fluidez do início. O diálogo entre o pai e Luísa repisa aspectos presumivelmente já discutidos uma infinidade de vezes pelos personagens, caracterizando um recurso expositivo artificial.

    No entanto, sou do time dos que curtiram o final aberto. A dimensão do que a meia-irmã significa agora para ele fica muito bem marcada pela transcendência da inaptidão física.

  2. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Gostei muito, e o meu “gostar” é fruto do desenvolvimento dos personagens, são carismáticos, me apeguei a eles, partiu o coração quando o homem resolveu levá-la ao rio, ainda que tenha achado um pouco forçada a reação do garoto, por mais que a relação do parentesco explique, talvez em outra leitura não ache tão forçado assim. Alguns furos, com relação a se o menino sabia ou não nadar, o tempo de congelamento do cadáver, concordo com quem disse que seria melhor menos tempo. E o tempo sendo menor, não tiraria o “encanto”, ainda que mórbido, dessa relação construída entre Matias e a menina. É um ótimo material este, trabalhe nele que valerá a pena.

  3. Cristiane
    11 de julho de 2014

    O momento da pesca serve para nos apresentar o menino com suas angústias, a vontade de agradar o pai e é uma desculpa para que Matias abra o congelador e descubra o corpo da menina.

    Achei estranho o fato de Matias esperar até o dia seguinte para mostrar ao pai a sua façanha, o tempo e a forma como o corpo foram congelados também não convenceu. Depois que ele encontrou a garota o peixe não foi mais mencionado (Ele perdeu total interesse em agradar o pai?). Na pesquisa sobre pessoas desaparecidas ele vê a foto, sobrenome, imagino que deveriam ter detalhes que o levassem a perceber a relação com sua família (Ela era irmã dele? Dona Luiza era mãe dele?) entendi assim. Penso que estas pontas precisam ser melhor costuradas.

    O que mais me atraiu foi a relação de Matias com a garota morta. Quando a mãe surge e ele se revolta contra o pai fiquei imaginando que Dona Luiza e ele iriam se tornar cúmplices em sua loucura, acabar com o pai e dar seguimento ao comportamento doentio. Expectativas, que leitor não as têm? rsrs

    Enfim, gostei do texto embora fique divagando sobre os vários aspectos que necessitam ser corrigidos.

    Boa sorte no desafio!

  4. Thata Pereira
    11 de julho de 2014

    Eu gostei do conto, não achei que o final ficou aberto. Levando em consideração que a menina morreu no rio, acredito que esse será o destino do rapaz. acabei gostando mais do final do que de todo o conto. Pensei que seguiria por um caminho completamente diferente, quando a menina apareceu foi um susto. Não considerei uma história de amor, apesar de ter lido que o(a) autor(a) afirmou que era. Acreditei que o impulso do rapaz para conter a atitude do pai foi mais pelo fato de descobrir que a menina era irmã dele, pois o sentimento de amor não foi desenvolvido para parecer o vinculo mais forte.

    Boa sorte!

  5. Pétrya Bischoff
    10 de julho de 2014

    Ao contrário d alguns, gostei de a estória começar com uma pesca banal e surpreender com algo mórbido que, enfim, acaba não sendo assim tão mórbido -visto que o guri se agradou da morta. Seria pq são meio-irmãos? Mas algumas coisas ficaram confusas para mim: a mãe da guria é ex-esposa do Chico ou foi só um caso de uma filha? Quando a guria desapareceu o Matias já era nascido; a mãe dele sabia que seu marido tinha uma filha desaparecida? Como a guria morreu, afinal? Penso que afogada, visto que os pais disseram que deveriam “ter impedido que ela viesse ao rio”, mas se foi assim, pq “causar” na mídia? No final me pareceu que o guri morreria afogado também, visto que no início ele enfatiza que não sabe nadar, mas alguns colegas comentaram e me liguei naquela conversa em que ele diz que adora nadar, slá. A trama me prendeu, mas essas lacunas me incomodaram. Boa sorte.

  6. tamarapadilha
    9 de julho de 2014

    Uau. Muito bom. Fiquei surpresa apenas com a parte de que Luiza sabia aparentemente da morte da filha. Talvez um pouquinho de drama aí em ela descobrindo que ele matou a filha dela e a paixão se convertendo em ódio, ou algo… nossa, estou viajando aqui já. Mas gostei demais do conto, um dos que mais me chamou atenção aqui no desafio. Senti falta da presença da mãe do menino que aparentemente era a esposa do pai do Matias aparecer na história, afinal ela vivia na casa, não? Boa sorte e parabéns mais uma vez.

  7. britoroque
    30 de junho de 2014

    Achei esse conto legal. Gostaria de votar nele para terceiro lugar.

  8. Brian Oliveira Lancaster
    25 de junho de 2014

    Gostei do tom do início, mas me interessei mesmo quando encontrei a reviravolta inicial. O restante conseguiu me prender, quando me deparei com o fato inusitado e o tom jovial. O final foi meio abrupto, mas deu a entender que o fato ocorreria de novo, com o menino. Curti, muito bem escrito.

  9. Tiago Quintana
    24 de junho de 2014

    Gostei da prosa, é bem escrita, mas sinto que a história está muito em aberto para eu poder realmente apreciá-la.

    • Tiago Quintana
      24 de junho de 2014

      Desculpe, esqueci de completar: o desfecho foi muito abrupto, faltou uma resolução verdadeira.

    • Michele Amitrano
      24 de junho de 2014

      Ai, ai… Outro que não leu o conto… Comentou olhando os comentários dos outros, né? Que preguiça…

      • Tiago Quintana
        24 de junho de 2014

        Uau, quanta arrogância. Vamos lá: sim, eu li o conto; e não, eu não li o comentário dos outros, prefiro não fazer isso.
        Entendi muito bem o que o Matias fez no final, mas ainda assim, isso não resolveu a história para mim. Você se concentrou tanto no relacionamento que o Matias inventou com a Carolina que se esqueceu das pinceladas que deu sobre as outras pessoas e o resto do mundo. Você pode até argumentar que essas coisas não eram importantes, mas se não eram importantes, não deveriam estar no papel.
        Na verdade, pensando melhor, faltou profundidade ao próprio relacionamento inventado. Quão solitária não deve ser a vida de Matias para buscar esse nível de conforto com a menina congelada? Na verdade, não sei, porque você não teve o cuidado de mostrar isso (ou bastava o pai ficar frustrado com o Matias não ser bom pescador? A autoestima do garoto é tão baixa assim?).
        Sugiro que na próxima vez, não fique tão na defensiva ao ler os comentários de outras pessoas.

      • Michele Amitrano
        24 de junho de 2014

        Não se trata de arrogância, mas de indignação mesmo. Comentários no estilo “gostei/não gostei” não são legais, pois dão essa impressão (muitas vezes verdadeira) que quem comenta na verdade não leu e está só em busca do bônus na pontuação.

        Pelo que pude ver nos demais contos deste desafio, seus comentários seguiram esse padrão, infelizmente.

        Veja bem, não estou pedindo que você goste do que eu escrevi, mas que comente de verdade, como acabaste de fazer. Aliás, isso seria o desejável em todos os textos concorrentes.

        Quanto à falta de profundidade da personagem principal, eu poderia até concordar se estivéssemos falando de um romance ou mesmo de uma novela. Num conto o universo é menor, de modo que não há espaço para digressões mais profundas. Mas isso é algo pessoal e eu respeito o seu ponto de vista apesar de não concordar com ele.

  10. Anorkinda Neide
    20 de junho de 2014

    Olha, simpatizei com a historia não… 😦
    Achei tudo muito estranho e a mãe que aparece… eu confundi ela total, me perdi na verdade… achei q era mãe do garoto tb… só vi que não era nos comentários.
    Muito já foi dito e não preciso repetir…
    Enfim, boa sorte ae!
    Abraço

    • Michele Amitrano
      20 de junho de 2014

      Valeu pela leitura e comentário, Anorkinda. Pena que não consegui conectar a estória com o seu gosto. Abraço ae tb!

  11. Jefferson Reis
    19 de junho de 2014

    Gostei do conto, apesar das falhas.

    Pontos positivos: o suspense, as personagens bem construídas, a ambientação.
    Pontos negativos: redundâncias, falta de vírgulas, informações mal passadas ao leitor.

    Matias não sabia nadar, certo? Fiquei confuso com o trecho abaixo:
    “Ela respondia que não gostava de futebol e ele, com um sorriso no rosto, dizia que também não. Que preferia empinar pipa e nadar no rio. Ela dizia que talvez pudessem nadar juntos um dia.”

    Ele poderia gostar de brincar no rio, não nadar, pois isso é uma coisa que não sabe fazer.

    Ainda sobre o trecho, preciso parabenizar o(a) autor(a) por ter sugerido o desfecho ainda no desenvolvimento. Carolina sugere que os dois, ela e Matias, nadem juntos, e é isso o que acontece no final, de forma dramática.

    Sobre a metáfora “escanear a escuridão”, digo que funciona comigo, embora não seja bonita.

    E o desfecho não é de forma alguma aberto. Comento isso porque gosto muito de desfechos abertos e esse não é. Matias não sabe nadar e mergulha no rio com um casaco, que ficará pesado e o puxará para baixo. Como está escuro, será bastante difícil para seu pai o salvar, embora exista alguma chance disso acontecer.

    Estou aqui quebrando a cabeçando, tentando dizer se seu conto é fantástico ou não. Toda ficção tem uma base real, mesmo as fantásticas. Edgar Allan Poe escrevia contos fantásticos e muitos de seus protagonistas imaginavam coisas (o autor deixava isso em aberto). “O gato preto” e “O coração delator” são contos fantásticos por conta do tom sobrenatural, mas ambos apresentam protagonistas e enredos parecidos, que indicam descontrole mental, e descontrole mental é algo real. Confuso.

    Um personagem que imagina ouvir um cadáver falar é o bastante para classificar um conto como fantástico? Não, nem sempre. Será fantástico se a áurea sobrenatural for mais intensa que a áurea de insanidade mental. Para mim, “Frozen” não é um conto fantástico.

    E isso não faz da narrativa nem pior e nem melhor.

    De qualquer forma, obrigado pela conto.

    • Michele Amitrano
      20 de junho de 2014

      Valeu, Jefferson! Que bom que você gostou apesar das falhas. O mais interessante foi que você conseguiu perceber diversas nuances que passaram ao largo da compreensão da maioria do pessoal por aqui. Fico contente com a sua atenção e com as suas observações, especialmente quanto à natureza fantástica (ou não) do conto e tb quanto ao final. Abraços!

  12. Anna
    18 de junho de 2014

    Uau, gostei. Me prendeu. Eu já estava digitando aqui algo sobre ter me incomodado o final, mas li novamente e mudei de ideia. Poderia ter ousado mais, só que essa lacuna nos deixa pensando, também. Como os colegas já comentaram tantas outras coisas, acho desnecessário repetir, parabéns! Boa sorte no desafio.

    • Michele Amitrano
      20 de junho de 2014

      Valeu, Anna! Escrever o final de uma estória é sempre complicado. Poderia eu ter ousado mais? Pode ser, mas talvez isso desnaturasse o restante da narrativa, né? Mas agradeço o comentário, contente por você ter se sentido presa pelo enredo 🙂

  13. Davi Mayer
    17 de junho de 2014

    Putz, muito massa o texto. Me prendeu do inicio ao fim. Algumas coisas me incomodaram, mas não foi o fato da geladeira, dez anos ou outras coisas comentadas, mas sim o desfecho. Acredito que poderia ter sido mais ousado! Claramente a autora flerta com o terror, o suspense… Poderia ter empregado aqui um conflito entre pai e filho… Um conflito pesado até.

    Deixa eu falar… durante a leitura imaginei que o pai do Matias era um assassino, não um necrófilo, mas um que gostar de colecionar “troféus”, de se dispor a esse risco para poder contemplar o seu feito. E por acidente, seu filho veio a descobrir… Certo dia, quando Matias vai abrir a geladeira, o seu pai aparece por trás dele, e uma cena de conflito, de tensão, se abate sobre os dois. Acusações pelo lado do filho, e frieza, do pai.

    E como acaba?? Que tal de longe, a luz da cabana se apaga, e uma chuva torrencial encerrando a narrativa?

    De qualquer forma, gostei muito desse conto. 😉 Só ficou essa ressalva mesmo… esperei mais do final, mais drama e tenebrosidade. ehehehehe mas opinião minha pessoal.

    Valew e parabéns.

    • Michele Amitrano
      20 de junho de 2014

      Oi, Davi! Poxa, que comentário legal o seu! Além de elogiar, você criticou da melhor maneira possível, dizendo direitinho o que seria legal mudar, e como mudar. Esse lance do final é um parto mesmo. Lembro quando assisti “Gladiador”, e fiquei pensando como seria incrível se o Maximus conseguisse escapar da prisão e reunisse seu exército contra o imperador, numa batalha colossal. Isso jamais aconteceu e eu tive que lidar com uma frustração gigante, aceitando aquele fim mequetrefe. O que isso tem a ver com a nossa conversa? Tudo, já que ao ler uma estória a gente sempre imagina o final mais adequado para ela e, às vezes, quando o autor vai para o outro lado, acabamos nos desapontando. O fim que você imaginou para “Frozen” é muito bacana, mas a meu ver acabaria desvirtuando um pouco a narrativa. O que imaginei ao escrevê-la foi um conto de amor – um amor um tanto diferente, admito – de modo que se eu caminhasse para esse lado de necrofilia e tal o sentimento passado ao leitor seria completamente outro. Mas agradeço muito as suas impressões. Um grande abraço!

  14. Edivana
    17 de junho de 2014

    Uh. Maldade sua me deixar com “let it go” na cabeça! rs

    Eu entendi que a mulher é a mãe, mas achei o envolvimento dela com o pai muito difuso/confuso.

    Olha, imagina só, pai e filho necrófilos… rsrs

    Abraço!

    • Michele Amitrano
      20 de junho de 2014

      Maldade nada! Toda vez que você ouvir a música vai lembrar do meu conto!

  15. Edivana
    16 de junho de 2014

    Olá,
    Esse título, para MIM, foi desastrado, fiquei com Frozen da Disney, na cabeça. Bem, tirando essa paranoia minha, gostei muito da história, da escrita e do “romance”.
    Talvez passou algo de mim, mas a garota é irmã dele por parte de pai certo? Quem diabos é a mãe dela e a relação com o pai dele, como se dá? Talvez você possa melhorar esse ponto.
    Bem, juro que achei que o pai do garoto era necrófilo, e que no final ele ia abusar do cadáver. rs

    Boa história, sorte aí.

    • Michele Amitrano
      16 de junho de 2014

      Oi, Edivana! Valeu pelo comentário 🙂 O título foi de propósito mesmo, para chamar a atenção, um contraponto com o filme da Disney. Que bom que pelo menos da história você gostou hahaha

      Sim, você está certa, Matias e Carolina são irmãos por parte de pai. A mulher que entra com ele na cabana, dona Luísa, é a mãe DELA. Lembra que é ela quem aparece no jornal? Agora, o pai ser necrófilo foi uma coisa que definitivamente não me passou pela cabeça, mas que, de repente poderia ser um lance interessante em termos de enredo. Valeu por isso também 😉

  16. Claudia Roberta Angst
    15 de junho de 2014

    Bom, muito se falou sobre este conto. Sucesso de audiência, digo de leitura. Debates sempre acrescentam, pelo menos eu acredito nisso. Mas hoje é domingo, estou com uma preguiça imensa de forçar minhas ideias em algum ponto das opiniões divergentes quanto aos detalhes técnicos.
    A narrativa foi bem elaborada, com personagens bem marcantes, os diálogos agilizaram o ritmo, o que tornou a leitura rápida e agradável. Senti um certo clima de suspense que atiçou minha curiosidade. Não me agradou totalmente, mas acho que cumpriu bem o seu papel. Boa sorte!

    • Michele Amitrano
      16 de junho de 2014

      Valeu pela leitura, Claudia! É sempre bom ver que alguém se entreteve com a história apesar dos furos 🙂

  17. Alessandra Romero
    15 de junho de 2014

    Gente, que discussão sem sentido! Cinco anos? Dez? Um? Qual a importância disso? Ninguém percebeu que se trata de uma história de amor? Eu, hein!!

    • Fabio Baptista
      15 de junho de 2014

      Se for seguir esse pensamento ninguém comenta mais nada por aqui. Só porque é história de amor (e no caso aqui, nem acho que é) não pode mais receber críticas? Pra você isso não faz diferença, assim como pra um monte de adolescentes Crepúsculo é a obra-prima da literatura mundial e pra uma boa parcela das mulheres que eu conheço, 50 tons de Cinza é o livro que mais mexe com as “emoções”. Mas para algumas pessoas faz.

      O objetivo aqui (pelo menos o meu é e acredito que esteja de acordo com a maioria) é oferecer uma leitura crítica ao autor. Depois disso, cabe a ele (autor) decidir o que aproveitar ou não. Sempre existe a opção de mandar todos os críticos ao quinto dos infernos e deixar tudo exatamente como está. 😀

      Abraço!

      • Alessandra Romero
        15 de junho de 2014

        Nossa, que dramático! Além disso é preconceituoso. Se isso não é história de amor, não sei o que pode ser. O menino se mata por causa da garota. Só isso. Tipo Romeu e Julieta, entende? ÓBVIO que isso não isenta o conto de críticas, mas achar que o tempo que a garota passa congelada é mais importante que o menino se matar por ela só demonstra que você não entendeu nada de nada.

    • Michele Amitrano
      16 de junho de 2014

      Alessandra, fico sem palavras ao ver uma defesa tão intransigente do meu conto. Mas tenho que dizer que você está errada. O conto — apesar de realmente ser uma história de amor — tem furos, sim. Essa questão dos dez anos deve ser repensada para tornar a narrativa mais redonda. Foi graças às críticas que eu percebi isso! Espero que você entenda que isso faz parte do aprendizado de qualquer aspirante a escritor, ou mesmo de escritores de verdade. Críticas bem feitas, ao invés de nos diminuir, nos engrandecem 😉

  18. Eduardo Selga
    14 de junho de 2014

    Uma boa ideia, por si mesma, não faz um bom conto. É preciso labor narrativo, o que implica, dentre outras coisas, tensionar. Mas isso não pode ser apenas a suposição de que é o bastante introduzir uma cena que na vida real seria considerada trágica ou dramática. O chamado “real” não funciona em literatura se não estiver bem narrado. E isso é técnica.

    Não há uma relação necessária entre o início, mostrando a frustração do pai com ausência de talento do filho para a pesca, e o centro do enredo. Portanto, boa parte dele poderia ser cortado. Conto não é tamanho de texto, é densidade de narrativa. Dez linhas podem ficar mais interessantes que três mil e quinhentas.

    Um cadáver submetido à refrigeração doméstica não resiste por dez anos. Se nas geladeiras dos IML’s o máximo que podem ficar sem iniciar o processo de decomposição são três ou quaro dias…

    Todos os personagens têm um grande potencial, por serem psicologicamente e emocionalmente complexos, mas é preciso, de novo aqui, um melhor trabalho. O menino que supõe ter uma conversa com o cadáver (ou será que teve mesmo?), a mãe que não aceita a morte da filha e por isso quer conservar o corpo, o pai assassino… Tudo isso é potencialmente promissor.

    O construto literário demanda o uso da palavra para além da denotação. Por isso a linguagem figurada sempre presente nos contos. Mas é preciso cuidado, pois algumas metáforas são de difícil apreensão ou até mesmo equivocados. Em “Saiu correndo da cabana, escaneando a escuridão em busca do pai”, por exemplo, há um problema: “escanear” é transpor para o formato digital algo impresso. Assim sendo, “escaneando a escuridão” seria exatamente o quê? Absorver a escuridão, vencendo-a? Talvez, mas ficou forçado.

    • Michele Amitrano
      14 de junho de 2014

      Oi, Eduardo,

      Desculpa aí, mas acho que você leu o conto muito depressa. Não há frustração do pai com a inaptidão do filho em pescar, mas o contrário. É isso que faz com que o menino esteja pescando, o que o leva — sem o pai saber — à cabana quando cai tempestade. Assim, acho que o início do conto é desde sempre necessário, já que explica “como” Matias encontrou a menina.

      Agora, dez anos é muito? Não sei… Eu não sou médico, mas acho que você também não é… De mais a mais, como eu disse ao Fabio, estamos num conto de fantasia, onde concessões devem ser feitas, onde deixamos de nos ater a aspectos estritamente científicos, não é mesmo? Ou você é o tipo do cara que vaia Star Wars porque há barulho de explosão no espaço?

      Po fim, o “escanear” tem a mesma origem estrangeira de “deletar”. Tanto num como noutro caso trata-se de adaptar o vernáculo em inglês para o português. Se isso foi possível com a última, nada impede que o mesmo se dê com a primeira. Você pode até não gostar do uso de estrangeirismos – e isso é um direito seu – mas por favor, não seja tão purista ou xiita. Você sabe melhor que eu que todo idioma “vive”, modifica-se constantemente, aceitando novas expressões e perdendo outras. Dito isso, ressalto que em inglês escanear significa um olhar amplo, rápido e abrangente.

      Valeu!

      • Eduardo Selga
        14 de junho de 2014

        “O pai, ele via, ficava frustrado com sua falta de vontade e aptidão.” (segundo parágrafo).

        Desculpa aí, mas acho que você não entendeu que não existe uma única interpretação válida quando se trata de texto ficcional, desde que esteja devidamente fundamentada. Quando escrevi o comentário não havia lido “muito depressa” o conto (seria falta de respeito): ele permite perfeitamente essa interpretação, embora, talvez, não tenha sido esse o seu intento. Mas o propósito do autor não tem nenhum peso no ato interpretativo. Uma vez escrita, a obra não mais pertence a ele: o texto ganha significações e ressignificações durante a leitura analítica.

        É preciso ser médico para saber que um corpo humano não resiste dez anos conservado num freezer doméstico com gelo comum e cadeado? Então eu precisaria ser astrofísico para afirmar que os anéis de Saturno são feitos de gás?

        O que você chama de “conto de fantasia”? Não existe essa classificação dentro do o gênero narrativo chamado conto. Encontramos esse termo em textos midiáticos descompromissados com o rigor analítico. Mas… rigor para quê, não é mesmo? É ficção, e em ficção vale tudo…

        Não é verdade. Engana-se quem assim pensa. Se eu escrevo um conto REALÍSTICO, qualquer fuga ao dito “real” destoa (conhece a verossimilhança externa?); se escrevo dentro das estéticas do INSÓLITO ou FANTÁSTICO (reparou que não usei “fantasia”?) é preciso destoar do “real”. De mais a mais o conto em questão NÃO TRAZ ELEMENTOS QUE PERMITAM CLASSIFICÁ-LO FORA DO REALISMO. A cena do menino conversando (ou não?) com a menina é insuficiente para isso, porque TODO O RESTANTE DO CONTO SEGUE PROTOCOLOS REALISTAS.

        O estrangeirismo é uma realidade linguística, qualquer simpatia ou birra minha a respeito não significaria muito quanto à análise textual. A questão não é essa.

        Dito isso, é preciso não esquecer que o fato de uma palavra estrangeira ser usada entre nós não quer dizer, necessariamente, que esse uso tenha o mesmo significado de onde veio. Ainda que “escanear” signifique “um olhar amplo, rápido e abrangente”, não é assim que o termo é utilizado no Brasil. O significado dele, aqui, é estritamente associado à digitalização de textos e imagens. Ou você, autora, já ouviu alguém pronunciar, no dia a dia, o termo em português com o sentido original? Se eu disser que tenho uma visão escaneada (ampla) da vida, você acha mesmo que me farei entender?

        Ainda que usássemos o termo como você gostaria, o termo “escaneando a escuridão” usada por você na pretensa metáfora “Saiu correndo da cabana, escaneando a escuridão em busca do pai” teria significado o quê? Ampliando a escuridão? Não me parece.

        Valeu!

      • Michele Amitrano
        14 de junho de 2014

        Então…

        “O pai, ele via, ficava…” Ele via. Ele quem? O menino, oras. Essa é uma interpretação do menino. Repare que o narrador não acolhe essa impressão. Logo, uma interpretação do garoto não se traduz necessariamente na verdade. Pelo que se infere do início do texto trata-se de um menino tentando ganhar a atenção do pai – e por isso decide aprender a pescar.

        De qualquer maneira, concordo com você quando diz que o sentido que tentei empregar nesse aspecto pode não corresponder à interpretação do leitor. Infelizmente isso é algo a que todos estamos sujeitos. Como eu disse ao Fábio, muitas vezes o binômio “escrita-interpretação” não é equivalente. Não posso censurar você ou quem quer que seja por ter tido uma interpretação diversa daquela que tentei dar ao texto. Aproveitando, peço desculpas por ter julgado que você leu meu conto com pressa.

        No que tange ao gelo, ah, o gelo… Definitivamente vou repensar esse aspecto. Da próxima vez vou ambientar o conto em Dublin, sendo que “Mathias” — e não mais Matias — encontra o corpo perfeitamente preservado nos porões de uma igreja medieval. Talvez assim eu fique menos sujeito às pedradas, rs.

        Quanto ao conto ser de “fantasia” (“insólito”, como você preferiria classificar) ou realista, volto à questão da interpretação a que você mesmo se referiu. A “conversa” das crianças não é suficiente para você, meu caro amigo, entendê-lo como alheio ao realismo; mas pode ser o bastante para outras pessoas, não é verdade?

        Quanto ao “escanear”, por fim, digo que embora você nunca tenha visto alguém usar o termo no sentido que empreguei, isso não significa que o sentido inexista. Ou talvez eu seja o primeiro a usá-lo dessa forma, inaugurando um neologismo. Por que não?

        Brincadeiras à parte, Apesar de respeitá-lo muito como crítico e professor, tenho que divergir de suas considerações nesse aspecto. O sentido da expressão pode trazer desconforto, admito, mas não quer dizer que está errado só porque você desconhece outro modo de empregá-lo que não o tradicional uso do aparelho para digitalização.

        Quero dizer que o sentido do vernáculo está claro no parágrafo: saiu da cabana e examinou o horizonte de modo amplo e abrangente. Não creio ter sido impossível compreender a frase dessa forma.

        De todo modo, percebo ser inútil levar essa discussão adiante. Como ocorre com a interpretação da história em si — especialmente no papel do pai –, também no aspecto semântico da expressão oriunda do inglês cabem inferências diversas.

        Aliás, realmente vou reescrever esse conto com o ambiente celta. Talvez aí o “escanear” seja menos perturbador.

        Por último — mas não menos importante — quero deixar claro que fico muito feliz com este debate. Suas observações e réplicas não me ofendem. Antes, devo agradecer a atenção que você dedicou ao analisar os aspectos que levantei. Embora, no fim, um consenso não seja possível — até porque, como você bem observou, interpretação cada um tem a sua — pelo menos o debate se engrandece. Nós, escritores e escritoras, só temos a ganhar com isso.

        Valeu 😉

      • Michele Amitrano
        14 de junho de 2014

        Como estou sem nada para fazer, fui pesquisar sobre os anéis de Saturno. E não, eles não são feitos de gás como você acredita.

        São “compostos principalmente de partículas de gelo com uma quantidade menor de detritos rochosos e poeira.” É o que diz a Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Saturno_(planeta) e também a Nasa: “There are billions of ring particles in the entire ring system. The ring particle sizes range from tiny, dust-sized icy grains to a few particles as large as mountains.” (https://solarsystem.nasa.gov/planets/profile.cfm?Object=Saturn&Display=Rings)

        Logo, se você estava errado sobre os anéis, pode ser, quem sabe, que esteja errado também sobre a velocidade de decomposição do corpo humano em baxas temperaturas. Pode ser, né?

      • Eduardo Selga
        14 de junho de 2014

        Michele, de fato, no calor das palavras, eu bolei as trocas. Digo, troquei as bolas. Gasoso é o próprio planeta, não seus anéis. Mas, ainda assim, minha argumentação não se invalida. O que pretendi mostrar com o “exemplo” desastrado é que a experiência empírica não pode ser considerada a única fonte confiável de conhecimento. Livros científicos foram escritos para isso, registrar o conhecimento. A escola existe para isso.

  19. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Gostei do texto.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Michele Amitrano
      14 de junho de 2014

      Obrigado pelo comentário, Thiago (embora eu desconfie que você não tenha lido, rs).

      • Thiago Tenório Albuquerque
        14 de junho de 2014

        Na verdade o li, mas penso que é extremamente CHATO ficar tecendo laudas e mais laudas acerca de um texto, tentando encontrar falhas ou emitindo comentários que muitas vezes só criam antipatia.
        Eu poderia dizer que há falhas quanto a fatos científicos, a escrita ou estrangeirismos, mas não. Acredito que o tipo de literatura a qual os participantes se propõem é de entretenimento e que a esmagadora maioria é composta por amadores e dessa forma, mais importante que o rigor acadêmico o que me cativa é a ideia, o conceito que o texto me oferece.
        E gostei da ideia apresentada, apesar de não ter gostado de sua execução.
        Enfim, boa sorte no desafio.

  20. Fabio Baptista
    11 de junho de 2014

    Não gostei muito.

    Está escrito de um jeito que não me cativou por completo, alternando bons momentos:
    – “Mais parecia uma chapa de aço escovado, cinza e fria”
    – “linha se retesou, como se quisesse dividir a água ao meio”

    Com outros nem tanto:
    – “Deitada como uma criança indefesa – afinal, era justamente isso”

    Gramaticalmente só notei:
    – Oh, Deus, por que é tão difícil.
    >>> Faltou a “?”

    – Ela tinha
    >>> Cacofonia
    >>> Repetição num curto intervalo

    A história em si não possui nenhum atrativo especial, um pouco previsível em certas partes, um pouco inverossímil em outras (10 anos???). E o final é aberto DEMAIS… a exemplo de outro conto recém-postado, parece que teve um corte seco no meio do texto.

    Acho que poderia ousar um pouco mais aí nesse final, provavelmente daria uma melhorada da avaliação geral de todo o conto.

    Abraço.

    • Michele Amitrano
      14 de junho de 2014

      Oi, Fabio!

      Primeiro, perdão pela cacofonia. Bem apontada, por sinal.

      Agora, dez anos é muito? Será? Não sou médico nem cientista, nem fisiologista, mas acho – só acho – que sob determinadas condições, um corpo poderia ser preservado assim… De mais a mais, acho meio temerário fazer considerações a esse respeito num conto que flerta com a fantasia, né? Vamos abrir a mente! Não me odeie por defender meu texto hahaha

      >>>>SPOILER<<<<
      Então… sob o final aberto… Ele não é! Olha de novo, quer dizer, leia de novo: por mais de uma vez dei a dica que Matias não sabia nadar; além disso, ele não queria que o pai levasse Carolina dali, que ele não aguentaria e tal… Então, quando seu Francisco já está no meio do lago, o menino pula na água e nem se preocupa em tirar o casaco. Por quê? Porque quer se juntar a ela, isto é morrer. Ou seja, o menino morreu. Morreu! Mais fechado que isso é impossível, rsss.

      • Fabio Baptista
        14 de junho de 2014

        Olá, Michele,

        Realmente, você falou várias vezes que o menino não sabia nadar. Foi um detalhe que não me veio à cabeça ao terminar a leitura e daria para concluir o resultado. Mas veja… não sou mais inteligente que ninguém, mas também não sou burro 😀
        E sou um leitor atento. Esse detalhe me passou em branco. Talvez tenha caído naquelas falhas naturais a que todos estamos sujeitos como leitor (principalmente numa maratona de leituras como essa) e o negócio ficou claro pra 99% das pessoas e me enquadrei no 1%, mas talvez valesse lembrar esse detalhe (não saber nadar) um pouco mais perto do fim, para não correr esse “risco” com outros leitores.

        Sobre o texto flertar com a fantasia, discordo. Em nenhum momento você faz isso. O conto se passa no “mundo real” e os leitores aplicam as regras do mundo real para avaliação. Seguindo a lógica do que você disse para o Eduardo, em Star Wars somos preparados para aceitar certas coisas, é um universo diferente, com suas próprias regras.

        Não sou médico, mas uma geladeirinha dos anos 70 provavelmente mal conseguia gelar a coca-cola, quanto mais conservar um cadáver por 10 anos! kkkkkkkkkkkk
        Acho que se você colocasse 1 ano, ninguém chiaria e não alteraria muito a trama em termos práticos.

        Abraço!

      • Michele Amitrano
        14 de junho de 2014

        Valeu!

        Numa revisão vou mudar isso, então – digo, essa questão do tempo na geladeira. Fechamos em um ano?

        Agora, essa questão do flerte com a fantasia, não vamos esquecer dos diálogos do Matias com a menina – algo que propositadamente não fica claro se ocorrem ou não.Ou seja, tudo pode não passar de uma viagem bem louca do Matias. Ou não hahaha. Bom, mas chega de defender algo que é indefensável. Se tanto você como o Eduardo levantaram essa lebre, então eu me rendo. Realmente o texto deve ser repensado nesse aspecto.

        De qualquer forma, agradeço muito o seu retorno. É por causa de comentários assim que tudo isto aqui vale a pena. Afinal, ao compor a história, temos somente a visão de quem cria, sendo difícil, por mais que nos esforcemos, nos colocarmos em pé de igualdade com quem lê. A interpretação pode ser – e na maioria das vezes é – bem diferente do que se antecipa ao cirar o enredo. Valeu pelas observações desde sempre oportunas. Abraços!

  21. mariasantino1
    11 de junho de 2014

    Nãooo!!!
    .
    Rs. Que louco este conto! Achei um exagero o período de DEZ anos, mas a leitura me prendeu do começo ao fim. Ri dessa frase: …uma luz âmbar, fraca como um suspiro asmático se projetou. Há redundâncias, falta de marcações para pensamentos (aspas ou itálico), mas ainda assim, achei bacana tua trama. Gostei da lacuna no fim. Desejo sorte.

    • Michele Amitrano
      11 de junho de 2014

      Oi!!! Que legal que você gostou! Então… Deixa eu explicar. As redundâncias e as faltas de marcação nos pensamentos, quer dizer. essa mistura entre narrador e personagem é de propósito 🙂 É para criar confusão na cabeça de quem lê, numa tentativa de aproximá-lo da loucura que toma conta do protagonista.. Talvez tenha funcionado hahaha.
      Brigadão mesmo, Maria! Sorte para você também!!!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 11 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .