EntreContos

Detox Literário.

Eu e Ele: Helen (Eduardo Selga)

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Lembra-se da madrugada, quase tudo às escuras, um lilás – aliás, sem força e presunçoso – em sua tentativa de iluminar a parede próxima à cabeceira, algum frio invadindo pela fresta da janela mal fechada e facilitado pela posição da persiana, a chuva lá fora, cujo som cheio de cachoeiras era um convite ao mergulho na cama e nunca mais sairmos dela? Lembra-se? Acho que não, apesar de o paraíso, você me apresentou a ele na semana passada… Quantas mulheres e nódoas lilases em sua parede já não devem ter ocorrido em cada um desses sete dias… De mim já não se lembra, tenho certeza. De meus gemidos, por exemplo, jamais. No máximo uma ou outra característica facial, alguma febre de minha boca que porventura tenha lhe permanecido no corpo, os rastros e restos de saliva nas suas indecências, na pele. Não… Dos dentros de você, onde certamente não consegui erguer morada, eu inexisti um segundo após deliciar-se na madrugada, chupando o ar feito um louco, me xingando como eu fosse qualquer uma. Lembra-se ao menos do meu nome, a Helen, o melhor de mim?

No meio daquela escuridão iluminada que era o quarto contíguo, contigo e ambíguo fui alguém que não o mesmo de sempre, cotidiano e social. Mas os dias se passaram e você não procurou saber se a personagem que eu criei para mim, para você, na cama, tinha em sua matéria imaginária a carne do real. Nenhum telefonema para saber até que ponto o nome que eu disse que era para você andava de mãos dadas com a mentira. Era fictício, é óbvio (com tanta barba ninguém poderia me chamar Helen), mas não imagina o quanto, a partir daquele dia, eu gostaria me chamar assim…

Na penumbra do quarto, desvencilhando-se das roupas com movimentos ondulados e na voz um tom de cálculo, foi gentil. Que eu não podia fazer ideia de o quanto o caramelo de meus olhos lembrava certo grande amor de sua vida, muito lá atrás no tempo; que o cheiro de minha pele era o outono entrando pela janela de quando você criança na chácara de seus amantíssimos avós; ainda mais: a brandura de minhas palavras, eu que falei tão pouco e gemi tão louco, era a concretização de seus anseios de encontrar em alguém a beleza. Essas imprecisões ditas com o objetivo de dizer quase nada, como se fora o coração divagando, me encantaram. Seu mentiroso…

Absolutamente adorável ouvir suas descaradas mentiras, a máscara sorridente para mim enquanto a nudez se instalava. Eu pulsava, na cama, na espera, quase me acreditando de fato Helen. A felicidade, naquele instante, era uma questão de minutos, de sussurros nos momentos mais estratégicos, de muita língua. Minha e sua.

Madonna, aquela vagabunda cujos cabelos você tanto elogiava desde a conversa preliminar no cinema onde nos descobrimos os dois em solidão plena, ela rebolava à nossa frente, aquele escândalo de boca oferecendo-se a você que, excitado, contou-me detalhes da produção do videoclipe, o número do Chanel usado por ela, suas frustrações longe da ribalta. Não dissuadisse seus olhos, você iria para a cama com aquela personagem, ao invés de ir com a que estava na cama lhe esperando e que neste momento procura reencontrar-lhe, reatar o que nem mesmo começou.

É verdade. Se você estiver aí, e abrir a porta, vai dar de cara comigo, minha memória afetiva e uma mochila, onde trago escondido um vinho igual ao que você me ofereceu, cheio de taças. Se você abrir vou lhe convidar para a minha cama, eu juro. Mas sem aquela intrusa loura e midiática, é claro. Talvez uma diva da MPB com bem mais de quarenta anos eu aceite. Elba Ramalho, por exemplo, não teria perigo.

Tão logo o solo que antes me sustentava tremeu e perdi o oxigênio, você saiu de cima de mim. Descavalgou, empanturrado. Certamente, eu só mais um lanchinho, outra aventura de fim de semana. Mas seu corpo ainda está aqui dentro, ondulatório e ofegante, me dizendo eu sou uma delícia, nunca havia conhecido alguém tão… tão gostosura essa estrada apertadinha que você tem. Você disse. Sobretudo, me perguntou um delírio inesquecível: Por acaso, assim… com todo o respeito, é claro… Não me leva a mal, mas… eu não gostaria de ser sua puta? E esse é o ponto: quero.

Por isso bato à sua porta em plena noite de chuva, começar hoje meu putanato contigo. Mais cômodo continuar jazigo em meu apartamento distante, a tranquilidade de não suspirar verdadeiramente por senhor ninguém. Entretanto, em meu sossego não existe luz lilás, ou a vontade de beber um branco suave igual ao que você derramou dentro de mim (era mesmo chileno?) e, acredite, até da ausência de Madonna na tevê eu sinto falta. Também aquelas minipizzas (lembra-se?), lá em casa ninguém as prepara para acalmar a fome rápida que sempre ronrona os estômagos após tantos gemidos felinos. Pois se nem gemidos há! Em minha pax doméstica não existe você.

Eu bato à sua porta depois de tanto andar pelo bairro pouco conhecido, quase me perco nas ruas de Alto Maré. Pela demora em atender, uma ideia arrasadora ganha corpo: você, na verdade, nunca residiu aqui; esta casa em que me comeste, comeste e comeste muito é talvez alugada só mesmo para isso, abatedouro, ou pertence a algum amigo de farra que sempre lhe empresta as chaves, de modo que possa mastigar, tranquilo, as presas e suas almas. Apuro os ouvidos e ninguém se move nos cômodos, nenhuma lâmpada se acende, e a chuva é minha irmã: não serena. Provavelmente porque é a mesma daquela madrugada, voltando agora para recompor comigo o cenário. No interior do qual sou personagem seu. Ou gostaria.

O silêncio, esse nada acontecer, me incomoda. Um e outro passam cheios de pressa pelas minhas aflições molhadas, sem nada que os proteja da chuva, difícil se darem ao trabalho de porventura ajudar. Fulano? Ora… que esperança! Muito raramente aparece por aqui, em geral à noite e acompanhado… Ah, desculpe, só agora entendi… Mas olha, se quiser um conselho… eu nem me apaixonava. Vale a pena não. Sabe como é homem, não é mesmo? E há quem não suba apressado, fique nas janelas mais próximas me auscultando, perguntando-se sobre o motivo de minha presença ali àquela hora. Algumas comadres que precisarão de assunto amanhã, tão logo o sol se espreguice no horizonte. Ouço os risinhos delas.

A resposta às minhas batidas na porta é um túmulo. Por isso coço a barba e vou embora, meu rabo entre as pernas, segurando debaixo d’água o choro e a vontade de voltar a ser Helen. No entanto, algo me diz: assim que eu dobrar a próxima esquina desta rua por onde vim, a chuva irá embora como se nunca houvesse aqui, e lhe encontrarei, sorridente e abraçado a Madonna. Ela estará algo desconfortável ao seu lado, receio de ser identificada por algum fã ou paparazzi. Sem a maquiagem glamorosa. Insossa. Dizem que ela tem mau hálito e fede, sabia? Além disso, estará muito mal dublada (como seria possível conversar com alguém assim?). Mas você nem vai reparar no atraso entre a movimentação da boca e o som que sairá dela. Afinal, só mais uma para o portfólio. Parece mais um decalque, um desenho desanimado, enquanto eu, além do vinho escondido, trago na mochila uma calcinha novinha, lilás, que eu queria usar para você, mesmo sabendo: nem notaria. Claro: se você não sabe quando sou verso, como saberá quando reverso? Droga… como eu, nunca mais Helen, consigo ser assim tão ridícula?

22 comentários em “Eu e Ele: Helen (Eduardo Selga)

  1. felipeholloway2
    12 de julho de 2014

    O monólogo rancoroso impressiona pelo virtuosismo do autor, que, apesar de trabalhar com formas linguísticas pouco usuais, consegue conferir fluidez à narrativa. A visão turva e ressentida do amante abandonado convence tanto quanto os detalhes prosaicos da relação que ele traz à tona. Nada soa artificialmente expositivo. Muito bom.

  2. tamarapadilha
    12 de julho de 2014

    Gostei bastante do modo de narração e da linguagem quase poética. O enredo não me prendeu tanto. Fiquei na dúvida se o personagem era uma mulher ou um homem, em algumas partes da uma impressão e em outras já parece outra coisa. Boa sorte.

  3. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Gostei, e o final me surpreendeu. No começo, achei que demoraria para ler, mas fluiu bem, com boas construções. Parabéns!

  4. Cristiane
    5 de julho de 2014

    Gostei muito do texto, percebe-se um bom uso da linguagem, embora pense que necessite de mais uma revisãozinha.
    Fiquei encantada com o personagem, sua forma de narrar os fatos e demonstrar suas angústias. Descrições gostosas de se ler!
    Um ponto bastante positivo foi a fluência do texto, tudo na medida certa, sem prolongamentos desnecessários.
    Parabéns!

  5. Thata Pereira
    1 de julho de 2014

    Eu disse em algum conto que li que não gosto quando atribuo um gênero a um certo personagem e só depois descubro que tem outro. Acontece porque eu gosto de imaginar a voz de cada um. Fazer essa troca de mulher para homem, ou o contrário, é um incomodo muito grande para mim na hora de ler.

    Porém, ao contrário do conto anterior que li, esse era exatamente o objetivo desse conto. Tanto que a revelação veio logo no final e após isso o(a) autor(a) não se estendeu. Gostei muito!

    Boa sorte!!

    • Thata Pereira
      1 de julho de 2014

      ps: todo desafio tem uma imagem que me incomoda rs’ Esse conto ganhou nesse mês rsrs’

  6. JC Lemos
    30 de junho de 2014

    Gostei de alguns trechos do conto, de outros nem tanto. Algumas construções ficaram muito boas, e acho que isso foi o que mais me agradou. A estória em si não me encheu os olhos, mas a ambiguidade do texto foi um ponto positivo.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte!

  7. rubemcabral
    27 de junho de 2014

    Resolvi adotar algum critério de avaliação, visto que costumo ser meio caótico para comentar.

    Pontos fortes: boas descrições, poesia, melancolia, humor, bom desenvolvimento da personagem-narradora.

    Pontos fracos: faltou um tantinho de revisão.

    Sugestões de melhoria: não tenho sugestões, pois gostei muito do texto. Durante toda a leitura a questão do gênero da narradora/narrador me deixou com “?” na mente. As descrições da doidice sobre o que é apaixonar-se, ficaram excelentes.

    Conclusão: muito bom conto!

  8. Tiago Quintana
    23 de junho de 2014

    É uma boa história e bem contada. Não faz meu estilo, mas não veja isso como um demérito ao seu texto. 🙂 Confesso que são tantos os contos confessionais neste desafio que estou até ficando cansado do estilo – mas isso não vem ao caso, desculpe.

  9. Anorkinda Neide
    15 de junho de 2014

    Eu li uns três dias atrás… e anotei aqui, gostei +ou-…

    mas hj, ao vir comentar, eu nao passei os olhos no texto nao, eu reli, por prazer.
    e isso significa q gostei mesmo do conto e nao apenas mais ou menos.. hehehe

    É um passeio pela agonia do personagem, quem nunca apaixonou-se qd não deveria, nao é mesmo? As frases são diferentes, estranhas, mas deliciosas de se ler.
    é gostei sim, gostei mesmo, pena que nunca mais Helen!

    Abração

  10. Brian Oliveira Lancaster
    15 de junho de 2014

    Uma abordagem bem corajosa com um “Q” de crônica. Os delírios internos estimulam a leitura do restante para descobrirmos mais a respeito do personagem ambíguo. Muitas metáforas e melancolias reunidas em um lugar só – conseguiu atingir o objetivo.

  11. Edivana
    15 de junho de 2014

    Simpatizei demais com a personagem, senti todo o drama, o tom de falta de esperança desde as primeiras linhas, o resultado de um encontro fortuito e a paixão de Helen. Bom mesmo. Parabéns.

  12. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Não conseguiu me prender. Bem interessante, mas infelizmente não me conectei ao texto.
    Creio que se deva unicamente a uma questão de gosto pessoal, pois a escrita é muito boa.
    Boa sorte no desafio.

  13. Claudia Roberta Angst
    8 de junho de 2014

    O tamanho do conto anima logo de início e acredito que não seria preciso estender mais a narrativa. O proposto coube justo no limite escolhido pelo autor. Há uma certa aura de desabafo melancólico, de desilusão amorosa, de alguém sabendo-se usado e rejeitado. Triste, talvez até patético… acho que ficou mais forte do que qualquer conflito que o personagem pudesse apresentar. Gostei da linguagem, do jogo de palavras. Leitura fluída e sem entraves. Boa sorte.

  14. Eduardo Selga
    8 de junho de 2014

    Um dos aspectos que o conto aborda é o limite do esconderijo, ou seja, até que ponto é possível ocultar determinada face em detrimento de outra,socialmente mais aceitável. O protagonista até parece acreditar que sua máscara heterossexual está preservada, mas no fundo não crê muito nisso: por meio da técnica do fluxo de consciência, o(a) autor(a) supõe a presença de moradores conversando com ele e, nessa conversa percebe-se a fragilidade da máscara (“Ah, desculpe, só agora entendi… Mas olha, se quiser um conselho… eu nem me apaixonava”).

    O personagem não vive exatamente um conflito interno quanto à identidade de gênero: parece sentir-se perfeitamente bem na condição feminina numa atmosfera específica, assumindo, inclusive, um dos estereótipos atribuídos pelo senso comum às mulheres: a inveja, quando se trata de questões cosméticas (a implicância com Madonna).

    A construção textual parece querer traçar uma linha tênue entre o masculino e o feminino, em que este é marcado pelo comportamento e aquele por aspectos físicos; um ocorre no espaço público, o outro no privado.

    No entanto….

    Quem acompanha o Entrecontos atentamente e conhece as marcas textuais dos autores mais assíduos, talvez tenha enxergado neste conto um texto escrito por mim, principalmente por causa de certas estruturas sintáticas. Mas não. Nem pretendo participar como autor desta edição do Desafio, por falta de tempo.

  15. Jefferson Reis
    8 de junho de 2014

    Realmente lembra um conto postado no desafio anteriormente.

    Fora isso, posso dizer que gostei.
    O que julguei ser o clímax não teve o efeito de clímax, pois eu já havia deduzido a identidade (desidentidade) da protagonista antes disso.

    A leitura passou a ser prazerosa no seguinte trecho: “Sobretudo, me perguntou um delírio inesquecível: Por acaso, assim… com todo o respeito, é claro… Não me leva a mal, mas… eu não gostaria de ser sua puta? E esse é o ponto: quero.”

    Desde então, o ritmo me agradou.

    Esses homens cafajestes!

  16. mariasantino1
    7 de junho de 2014

    Primeiro: Que imagem insólita! Desculpe minha ignorância, mas não a conhecia e passei um bom tempo a observando antes de começar a leitura.
    .
    Bem o texto tem umas boas sacadas, uns jogos de palavras bacanas como: o quarto contíguo, contigo e ambíguo (gostei disso). A aflição da personagem é notória, mas não encontrei o clímax do conto (acho que deixei passar algo).
    .
    Parabenizo-o pela criação e desejo boa sorte. Abraços.

  17. Pétrya Bischoff
    7 de junho de 2014

    Narrativa única. Gostei tanto quanto do outro conto, citado pelo Fabio e, ao contrário dele, me conectei e senti empatia pelo personagem. Apesar de o tema ser semelhante, em questão do homoafetivo, as abordagens são singulares. Está de parabéns, boa sorte.
    P.S. Só por intuição, sinto saber esse autor.

  18. Fabio Baptista
    7 de junho de 2014

    O mérito na escrita é visível. Porém não conseguiu me conquistar.

    Sendo bem sincero, acho que esse texto teve o “azar” de ter sido precedido por um outro conto com estilo parecido (eu pelo menos achei). Esse é um problema que vai ocorrendo ao longo do desafio… os textos que entram depois muitas vezes perdem o impacto por “lembrarem” algum que já foi postado anteriormente (não estou dizendo que ninguém está copiando ninguém aqui, que fique bem claro. É normal que no meio de 40 contos existam abordagens semelhantes, seja na trama, seja na maneira de escrever).

    Claro que o correto seria avaliar o conto de maneira independente dos demais, mas é humanamente impossível (pra mim pelo menos é)…

    Por isso faço questão de ler e comentar os contos na ordem em que são postados.

    Enfim… peço desculpas ao autor, mas não consegui apreciar o texto da maneira como ele poderia ser apreciado caso a leitura ocorresse em outra ocasião que não essa “maratona” de leituras do desafio.

    Abraço!

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Publicado às 5 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .