EntreContos

Detox Literário.

Uma Temporada no Inferno (Rafael Sanzio)

-E aí? A zoiúda tá lá em casa. Trezentinhos de entrada e tu leva. He He He! SHLLLSHH!!

-Eu não tenho onde guardar uma espingarda. E outra, se eu apareço com um trabuco desses em casa, a Isadora me mata.

Gilberto observava a foto da espingarda calibre 12 no celular de Fernando, que se entretinha sugando saliva por entre o enorme aparelho dentário que recém havia colocado na boca, provocando um som terrível.

-SHLLLLSHHH! Capaz, meu! Diz pra patroa que tu tá treinando lá na DDP[1], que vigia a firma. Eu já dei uns tiros por lá. Trezentinhos de entrada, Gilbertinho! He He He! Eu tenho uma Glock .40, também, há mais de dez anos. Já perdi a conta de quantos tiros eu dei. Uns sessenta mil, eu acho. Até hoje, só troquei dois precursores e um extrator. A última vez que limpei a arma foi há uns dez meses atrás. Não tem uma marquinha de ferrugem, nem folgas, nem nada. Novecentos à vista e tu leva a espingarda e a Glock! SHLLLLSHHH!

Gilberto Fonseca e Fernando de Souza trabalhavam como representantes comerciais em uma empresa que prestava serviços gráficos para fábricas de plástico flexível. Fernando era um tipo com pinta de playboy, descerebrado e cocainômano. Suas conversas, com as quais costumava torturar os colegas de trabalho e que serviam, na maioria das vezes, como afirmações de sua potência masculina, giravam em torno de lutas de vale-tudo, futebol e armas de fogo.

-SHLLLLSHHH! Sabia que, se tu manusear a arma com suor nas mãos e não limpar depois, ela enferruja?

Gilberto apenas concordava com a cabeça, enquanto Fernando conduzia o Peugeot 207. Através da janela, sua mente projetava-se para lugares distantes dali, através de caminhos confusos e angustiados. Recentemente, sua esposa havia recebido um diagnóstico de câncer de mama em estágio bastante avançado e com poucas esperanças de recuperação. Isadora era a sua companheira e o seu porto seguro de um casamento de vinte anos. Não tiveram filhos.

Havia alguns anos, em outra empresa do ramo, Gilberto perdera o controle pela primeira vez: em casa, carregara o tambor do 38 e decidira ir até a firma e tocar o terror (essa expressão soaria tão bem na boca do Fernando, pensou ele) nos proprietários e no pessoal da administração, que vinham reduzindo as suas comissões e o salário do pessoal, ao mesmo tempo em que esbanjavam carros novos em intervalos regulares. Nessa ocasião, foi Isadora quem o acalmou e o convenceu a guardar a pistola, fazendo-o prometer que se livraria do revólver o mais breve possível. Gilberto passou a ler algumas passagens da Bíblia Sagrada durante as manhãs, e, em pouco tempo, viria a se desligar da empresa.

Trazia, da época em que servira o exército, a habilidade no manejo de fuzis e pistolas. Porém, em respeito à esposa, nunca mais voltou a tocar em uma arma de fogo. Limitava-se a responder à voz sibilante de Fernando com um sorriso amargo. As palavras do colega lhe faziam repetir um tique que lhe era característico: seu maxilar tremia, fazendo com que os dentes inferiores se chocassem contra os superiores, produzindo um ruído (TAC TAC TAC TAC) que lhe garantia o posto de chacota no ambiente de trabalho.

No alto de seus 52 anos, Gilberto era baixo, a poucos passos da calvície total e dono de uma barriga saliente, que dificultava o aperto dos cadarços dos calçados. Seu olhar triste e vazio não expressava ambições ou momentos de alegria, mas sentia-se relativamente bem; tanto que deixara de visitar o médico psiquiatra havia quatro meses, interrompendo o tratamento com ansiolíticos por conta própria. A companhia de Isadora permanecia como a sua fagulha de força e vontade de continuar, apesar dos pesares.

Fernando estacionou o veículo em frente à empresa. Gilberto pegou os materiais gráficos no banco de trás, enquanto recordava os cabelos loiros que Isadora possuía, no início do namoro dos dois. A luz do amanhecer enchia o quarto do casal e Gilberto acariciava a moça no rosto, enquanto ela ainda dormia. Divertia-se, com ternura, observando as reações da menina ao leve toque de sua mão.

Era assim que procedia nos momentos em que a tristeza e a amargura lhe invadiam: enquanto suas mãos trabalhavam, sua mente passava a navegar por outros tempos e lugares.

Não tocava em seus problemas pessoais no ambiente de trabalho, nos momentos em que estava dentro da empresa. Não que fosse um tipo tão reservado; mas ele sabia que não deveria perder tempo e saliva com o interesse dissimulado e a compaixão hipócrita daquela gente.

Fernando, com seu jeito fanfarrão e espalhafatoso, já havia feito com que sua presença fosse percebida pelos quatro cantos da firma.

A filial da FlexoBrás Matrizes Ltda. estava instalada em uma única grande peça, dividida em três setores, com um segundo piso, que servia de cozinha, e cujo acesso se dava através de uma escada caracol. Havia um banheiro ao lado de fora da empresa, possivelmente um resquício da época em que o estabelecimento servira de bar.

O setor principal era o da pré-impressão, que constituía o “coração” da firma. Seis computadores Macintosh G4 estavam dispostos em uma mesa de madeira que circundava a sala principal. Seus respectivos operadores estavam concentrados no trabalho, de costas para uma grande máquina de processar filmes.

Entre os dois pilares de sustentação do segundo piso, sentado em sua escrivaninha, estava o gerente de produção, Roberto Manzini. Era um descendente de italianos obeso e bonachão, que saíra da grande São Paulo com a família para viver em Santa Catarina.

No alto de seus 34 anos, Manzini alimentava uma úlcera estomacal, sofria de hipertensão e estava a dois passos de tornar-se diabético. Sua filha caçula de 17 anos parecia cada vez mais com um menino e passava grande parte do dia trancada no quarto com uma amiga. Afora esses problemas pessoais e de saúde, no ambiente em que gerenciava Manzini era um apaziguador de ânimos, frequentemente interferindo com o seu bom humor e talento para liderança. Era um homem de valores familiares bastante arraigados e referia-se ao filho mais velho com orgulho. Não escondia sua antipatia por Fernando, mas o recebeu, junto com Gilberto, para avaliar o trabalho que os dois representantes traziam.

Gilberto observou o ambiente através das lentes de seus óculos. O velho Schwarz descia a escada caracol pronunciando alguns xingamentos em um dialeto alemão, como se aquele pseudobilinguismo constituísse o orgulho de sua vida. Conversações a respeito do campeonato de futebol inundavam a sala, liderados por Ricardo Tavares. Essas conversas animadas não eram apropriadas para um ambiente que exigisse concentração, sendo constantemente censuradas por Manzini. Ricardo saiu de seu lugar em frente ao Macintosh e passou por Gilberto, cumprimentando-o com ares de escárnio e imitando o seu tique com os dentes – TAC TAC TAC TAC. Era um tipo excessivamente magro e alto, de cabelos compridos quase sempre amarrados para trás. Era estudante de Publicidade e Propaganda e seu aspecto efeminado era comentado por suas costas pelos colegas, apesar de Ricardo impor seu machismo através de conversações mundanas.

-E aí, Gilbertinho? Teu time matou a pau ontem, né? – disse Ricardo, fingindo interesse com o contumaz ar de superioridade.

-Aham.

Gilberto sentia a gastrite lhe queimar a garganta e o estômago, provocados pela aversão que a pessoa de Ricardo lhe despertava. O assédio moral, as agressões disfarçadas de brincadeiras e as humilhações constantes eram velhos conhecidos seus. Houve uma vez, em outra empresa do ramo, que não a do episódio do revólver narrado algumas linhas acima, Gilberto carregava na cintura um dos primeiros telefones celulares a serem lançados no mercado, no início dos distantes anos 90. Ao contrário dos pequenos celulares de hoje, o aparelho de Gilberto tinha 20cm de altura, com uma antena retrátil de 10cm, que conferia ao objeto uma aparência excêntrica o suficiente para ser apelidado de “tijolo” ou “controle remoto da TV” pelos funcionários da empresa. “Cuidado, vai que um dia o Gilbertinho entra aqui atirando na gente. Já pensou? Há há há há!”. As risadas debochadas dos seus colegas de trabalho ainda ecoavam em sua mente quando Gilberto desistiu de jogar-se para a morte de cima de um viaduto. Lembrou que valeria a pena tornar a abraçar a esposa e decidiu dar início a um tratamento psiquiátrico, que se estenderia por anos.

Na FlexoBrás, eles sabiam dos remédios. Mesmo que não apresentasse qualquer sintoma de depressão, mesmo que houvesse abandonado o tratamento por conta própria, era assim que seria visto para sempre: como um hipocondríaco. Não raro Gilberto tinha a impressão de que o mundo e as pessoas ao redor adquiriam proporções gigantescas, enquanto ele era reduzido à altura de uma ratazana, a esgueirar-se pelos cantos, tímido, calado, pronto a receber tapas e, quem sabe, até desculpar-se por existir.

Era somente com Manzini e com um desenhista chamado Nelson Capo Villa que Gilberto conseguia manter uma relação de razoável respeito. Certa vez, no caminho até o restaurante, durante o horário de almoço, Nelson confidenciara a Gilberto que fora usuário de cocaína por sete anos consecutivos, e que também recebera ajuda da esposa para retomar o controle de sua vida. Manzini, por sua vez, na adolescência, havia sido um garoto obeso e problemático, e não fazia julgamentos morais a respeito de ninguém.

Gilberto e Fernando expuseram na mesa de revisão os detalhes do trabalho a Manzini. Tratava-se de uma boa quantidade de papéis de presente, de quatro cores cada e de grande tiragem. Uma boa comissão estaria por vir. “Vai dar pra fazer aquela reforma na garagem”, pensava Gilberto, muitas vezes com a cabeça longe dali. Os cabelos de Isadora. As risadas debochadas dos seus colegas de trabalho. O câncer da esposa.

Isadora veio a falecer em uma tarde de setembro, poucos dias antes de completar 49 anos de idade, vítima de câncer. Caía uma chuva fina e contínua durante o dia do enterro. Gilberto recebera os pêsames de forma mecânica de diversos parentes distantes e dos poucos amigos. Não havia ninguém para abraçar. Sua expressão facial não apresentava nenhuma mudança significativa, com exceção de que a partir daquele momento os seus olhos perderam também qualquer coisa de brilho que traziam.

 

-E aí? A zoiúda tá lá em casa. SHLLLSHH!

Sobre uma cama de casal com um lençol branco bastante esticado e passado, Fernando dispôs uma espingarda calibre 16, de canos paralelos; uma espingarda calibre 12 com o cano serrado, uma Glock .40 e caixas de munição para as respectivas armas. Gilberto pegou a Glock e apontou para o espelho do roupeiro, com a destreza de um atirador profissional.

-Tem uma trava no gatilho – disse Fernando, apresentando os mecanismos da pistola, com ares de seriedade estranhos à sua personalidade e impostos pelo momento, que para ele tinha um tom de solenidade. – Seria bom tu dar uns tiros lá na DDP, até pegar a manha. SHLLSHH!

Gilberto observava as travas da Glock; destravava e tornava a travar, estudando com atenção o corpo da arma. Uma única vez seria suficiente para reaprender a manejá-la.

-Essa dispara dez tiros. Presta atenção na posição das pernas. Não segura essa arma como se fosse pedir uma pizza. Há há há! SHLLSHH!

Entre as espingardas, Gilberto deveria escolher a 16 ou a 12 de cano serrado.

-Se eu atiro nessa parede, daqui de onde eu tô, abre um rombo desse tamanho – disse Fernando, apontando para a 12 e depois para a parede do seu quarto, a dois metros de distância, desenhando um círculo com um giro do braço direito. – Só não recomendo pra atirar de longe; se atirar em alguém lá no portão, já não pega, por causa do cano serrado, que espalha o chumbo. Agora, com essa daqui… – apontou para a espingarda calibre 16 de canos paralelos, tão longa quanto uma vassoura – eu arranco a cabeça do caboclo lá no meio da rua. Imagina, com essa eu já acertei marrecos no ar. Eu já atirei até com um braço só!

-Qual é o estrago que a 12 faz, à queima-roupa?

-À queima-roupa tu abre um homem no meio. Tá louco, Gilbertinho? Há há há! – SHLLSHH! E aí, onde vai caçar?

-Vou visitar alguns parentes em São Paulo, que têm um sítio – disse Gilberto, enquanto apontava a 12 para o espelho. Sua face contorceu-se em um esgar e o maxilar tremeu – TAC TAC TAC TAC.

A comissão das vendas havia sido depositada com antecedência; o trabalho estava entregue e a clientela, satisfeita. Gilberto deixou vários calhamaços de notas de R$ 50,00 na cama de Fernando. R$ 1.200,00 em dinheiro vivo, pelas armas e pela munição.

Por volta das 16h00 de uma terça-feira, Gilberto Fonseca estacionou seu automóvel Peugeot a uma quadra da FlexoBrás Matrizes Ltda. No banco de trás do carro, trazia a espingarda calibre 12, envolta em uma toalha de banho de cor branca. A Glock .40 estava dentro de um coldre, por baixo de sua jaqueta de couro negro. Vestia um par de pesados coturnos e calças camufladas.

Gilberto desceu do carro, pegou a espingarda no banco de trás, sem descobri-la, e caminhou de forma calma e premeditada até a firma. Por quantos anos havia ensaiado aqueles passos? Não precisaria ter pressa. Conforme se aproximava, podia ver alguns carros estacionados em frente à empresa – um Gol bola, com os adesivos da FlexoBrás; o Peugeot 408 de Jorge, um representante comercial (Manzini o detestava; imitava o seu jeito de falar, com os lábios em forma de bico e voz efeminada); entre outros carros populares dos demais funcionários. Fernando estava de viagem comercial pelo Rio Grande do Sul.

Passou próximo à porta aberta da gravação e expedição, sem ser notado, entrou no banheiro que ficava na rua e fechou a porta. Tirou a 12 de dentro da toalha e sacou a .40, com a mão direita. Apontou para o espelho. Faria barulho suficiente para ser notado. Ele sabia. Gilberto destravou a arma e efetuou um disparo contra o espelho do banheiro, que se partiu em pedaços, com um estrondo. Tornou a guardar a pistola no coldre, engatilhou a 12 e saiu do banheiro.

A secretária Julia havia passado uma ligação a Manzini, que mais uma vez teve de sair de sua mesa para atender ao telefone fixo no pilar de sustentação do segundo piso. Para um homem com o seu corpanzil, levantar e sentar diversas vezes ao dia não era tarefa das mais agradáveis. Como não era dado a reclamações e queixumes, contornava a situação com o seu bom humor característico.

-O telefone sem fio que eu pedi há um mês tá vindo lá dos EUA, junto com a peça da processadora. Tá vindo à canoa, pelo oceano atlântico, pra curtir a maresia. Vai aportar aqui no rio Itajaí. Há há há! – disse isso falando mais com Nelson Capo Villa do que com o restante do grupo. Nelson saía de seu lugar em frente ao computador e subia as escadas caracol, onde, além da cozinha, ficava o banheiro. Dava pequenos tapas na barriga saliente, que soavam como toques em um atabaque.

-Vai dar merda!

Manzini pediu com gentileza para que Ricardo Tavares baixasse o volume do som do Macintosh, que tocava os Dead Kennedys, pois não conseguia ouvir o cliente do outro lado da linha.

Próximo à porta que dava para a recepção, Jorge importunava o revisor com a pressão dos prazos, enquanto este conferia os fotolitos em uma mesa de luz.

Ouviu-se um tiro.

Todos ficaram em alerta. Manzini ainda estava concentrado na conversa ao telefone.

O velho Schwarz voltava do setor de gravação. A curiosidade constitui vício fatal para alguns e imediatamente o velho caminhou até a recepção para conferir, juntamente com a secretária Julia, a procedência do som, que parecia bastante próximo dali.

Gilberto abriu a porta de vidro fumê e entrou na sala da recepção, portando a espingarda calibre 12.

Ouviu-se um estrondo. O velho Schwarz foi jogado de costas contra a porta da divisória que acabara de abrir, com um buraco rubro e fumegante no peito. Julia jogou-se no chão, em pânico. O velho escorregou lentamente de cima a baixo da porta, até cair sentado no chão, deixando atrás de si um rastro de sangue. O horror estava estampado em seus olhos, que perderam o brilho da vida quase que instantaneamente. Gilberto passou por cima do cadáver e entrou na sala de produção, lançando um rápido olhar para os funcionários presentes. Todos estavam voltados para ele, congelados de pavor.

Manzini tremia dos pés a cabeça enquanto segurava o telefone do pilar e olhava para Gilberto. Parecia não acreditar no que via.

Ricardo Tavares levou as mãos aos ouvidos. Olhava ora para o cadáver no chão, ora para a figura imponente, em pé, diante da porta. Seus olhos desesperados confirmavam o que o seu preconceito havia sempre temido. Começou a balbuciar preces desconexas e correu para baixo da mesa de revisão. Gilberto fez o manejo do carregar da 12 e a engatilhou.

Apontou para o revisor diante de si e disparou contra o seu peito. O homem também foi arrancado do chão com violência, caindo a alguns passos de distância dos pés de Manzini. Jorge tentou correr até a porta que dava para o setor de expedição, do outro lado da sala.

-Por Deus, eu tenho um filho pequeno! Por favor!

Foi alvejado nas costas, na região do fígado, e tombou sem vida, com o rosto contra o chão. De forma calma e relaxada, Gilberto deu mais alguns passos até ter uma visão adequada da sala de edição, onde os desenhistas permaneciam petrificados diante de seus computadores.

Os cartuchos vazios saltavam da abertura de ejeção da espingarda em frenesi. Aos poucos, a sala era tomada por uma nuvem vermelha, que misturava esguichos de sangue, pólvora, pedaços de plástico dos computadores e cimento das paredes, que recebiam parte das centenas de chumbo do cano serrado da 12, enquanto Gilberto abatia um a um de seus colegas de trabalho, como se fossem patos ou capivaras. – BOOOOM! – BOOOOM! – BOOOOM! – BOOOOM! – BOOOOM! – Aqueles que não morriam instantaneamente arrastavam-se aos pedaços, gritando lamentos e preces em línguas diferentes – era possível ouvir dialetos do polonês e do alemão, misturados ao português.

A espingarda só parou de cuspir fogo quando estava completamente descarregada. Gilberto sentia no ombro direito os golpes do forte recuo dos tiros. Talvez estivesse deslocado. Levou a mão ao bolso, onde estavam os cartuchos da 12, quando lembrou que havia mais duas salas. Ainda segurando a espingarda, sacou a .40 de dentro da jaqueta e caminhou até a porta que dava acesso ao setor de expedição, passando pelos cadáveres no chão. O motoboy e os montadores não estavam ali. Provavelmente haviam corrido, ao ouvir os tiros.

Os dois responsáveis pela gravação do fotopolímero permaneciam atônitos, parados em seus lugares como estacas. Gilberto abriu a porta com um chute. Segurando a Glock com a mão direita, efetuou disparos certeiros contra os rostos e as cabeças dos homens. Saiu da sala de gravação tão rápido quanto havia entrado e retornou ao setor de edição.

Manzini permanecia em pé, agarrado ao telefone, como se estivesse ali somente para fazer isso. Suava em bicas e fitava um ponto qualquer no chão, longe dos corpos.

Gilberto desfez-se da Glock, deixando-a em uma mesa de vidro próxima. Tornou a carregar a 12 calmamente, como se tivesse todo o tempo do mundo. Engatilhou a espingarda e caminhou até a mesa de revisão, embaixo da qual Ricardo estava deitado, em posição fetal, agarrado aos joelhos, rezando de forma delirante.

-Sai daí, seu filho de uma puta!

-Não me mata não me mata não me mata por favor não me mata por favor

Sai daí agora, seu filho da puta! Sai já daí!

Gilberto agarrou Ricardo pelos cabelos com violência e o arrancou de baixo da mesa, enquanto esse soltava gritos agudos de horror e batia os pés contra o chão. Passando por alguns corpos, Gilberto o arrastou até o centro da sala. Soprou dois grandes maços de fios de cabelos da mão direita e apontou a espingarda para o rosto de Ricardo, que agora estava de joelhos, quase de quatro pernas, tentando se proteger com as mãos.

-Jesus meu deus pai deus todo poderoso deus virgem santíssima deus não me mata por favor deus

O disparo à queima-roupa lhe pulverizou a mão direita, com a qual cobria o rosto. O topo da cabeça foi rebentado e o cérebro escorreu pelo nariz e pela boca, espalhando-se pelo chão, junto com o sangue que parecia brotar de uma fonte. O esguicho manchou os coturnos e as calças camufladas de Gilberto, chegando a tocar-lhe a testa e os lábios.

O cartucho vazio foi ejetado. Em um rápido movimento, a espingarda estava novamente carregada – dessa vez, apontada na direção de Roberto Manzini.

Agarrado ao telefone fixo no pilar de sustentação, Manzini assistira a tudo, a um passo de babar de pavor. Com o rosto e as axilas molhadas de suor, o pobre homem conseguiu reunir forças para encarar Gilberto nos olhos. Tinha certeza de que morreria se ouvisse o horrendo som do seu maxilar – TAC TAC TAC TAC.

Gilberto sorria. A cabeça levemente inclinada para frente, os olhos flamejantes por debaixo das grossas sobrancelhas – um conjunto sereno que aos poucos ganhava ares de sensualidade maligna. “Eu consegui”, diziam os seus olhos. “Finalmente, eu peguei todos eles”.

O silêncio de morte da sala foi rompido com o som da espingarda que Gilberto deixara cair no chão. Na cabeça de Manzini, o som do aço chocando-se contra o piso foi ainda mais terrível que o dos tiros. Como um golpe na cabeça, o clangor arrancou-o do torpor. Pensou que teria um ataque cardíaco.

Nesse momento, Nelson descia do 2º piso. De dentro do banheiro, ouviu a todos os disparos. Parou nos degraus da escada caracol, atônito. Seus olhos não podiam acreditar no dantesco quadro que presenciavam.

Gilberto saltou por entre os cadáveres no chão e saiu pela porta em que entrara na recepção. Julia não estava – provavelmente, havia corrido dali.

A luz do sol agrediu-lhe os olhos, como se tivesse estado lá dentro o dia todo. Correu, não por medo de ser alcançado, mas pelo prazer de sentir o corpo em movimento e o vento contra o rosto. Ignorou o seu carro estacionado e continuou a correr.

Lembrava-se da luz do amanhecer no quarto de Isadora, em imagens de muitos, muitos anos, quando essa ainda possuía cabelos loiros. Gilberto acariciava a moça no rosto, enquanto ela ainda dormia. Divertia-se, com ternura, observando as reações da menina ao leve toque de sua mão.

As risadas debochadas dos seus colegas de trabalho soavam agora como que em um sonho distante. Gilberto sentia-se leve, feliz.

 

[1] Defensores da Propriedade – Empresa de Segurança.

31 comentários em “Uma Temporada no Inferno (Rafael Sanzio)

  1. Bia Machado
    11 de julho de 2014

    Não gostei muito. Achei muito longo para o que se propôs, e tem um ritmo, uma forma de narrar da qual não sou muito fã. Gosto pessoal, apenas. Pode ser apreciado por outros. Boa sorte.

  2. tamarapadilha
    11 de julho de 2014

    Descrições bacanas dos tiros, mas fiquei profundamente irritada com o som: SHLLLSHH! Isso tirou grande parte dos pontos positivos do conto e já não me fez gostar muito, além de ser bem corrido, tudo um tanto… não sei, abrupto.

  3. felipeholloway2
    1 de julho de 2014

    O conto é ágil, visual, direto, quase como um roteiro de cinema. Ocorre que, por não se estar lidando com essa plataforma, a narrativa soa demasiadamente telegráfica, elencando situações e histórias sem um mínimo substrato estético — e sem uma justificativa para essa “secura” formal. Isso não seria um problema tão grande, se as tentativas de revestir certas passagens de alguma literariedade não fossem tão desastrosas, por gastas: os olhos que perdem “o brilho da vida”, a chuva insistente no dia do enterro, a curiosidade como “vício fatal” (aqui parafraseando o adágio popular sobre o que ela fez com o gato). A consciência que o narrador aparenta ter da presença do leitor (“…do episódio do revólver narrado algumas linhas acima…”, p. ex.) é gratuita.

    O argumento perde muitos pontos pela ausência de originalidade. O tema da chacina corporativa como catarse da desumanização promovida pelo “sistema” não abriga, aqui, nenhuma diferença essencial dos plots de Um Dia de Fúria, Elephant ou mesmo Full Metal Jacket.

  4. Thata Pereira
    27 de junho de 2014

    Gostei das descrições, meu problema ao ler foram os diálogos. Não gosto desse estilo mais “despojado” de escrevê-los. É claro que o diálogo é uma forma de caracterizar os personagens, mas eles travaram minha leitura. Infelizmente, pois gostei bastante dos trechos onde eles não apareciam e quando demoravam a leitura corria agradável.

    Boa Sorte!!

  5. rubemcabral
    27 de junho de 2014

    Resolvi adotar algum critério de avaliação, visto que costumo ser meio caótico para comentar.

    Pontos fortes: a boa construção das personagens, as descrições minuciosas e críveis da rotina de trabalho, as onomatopaicas divertidas.

    Pontos fracos: O enredo é um tanto simples.

    Há algumas contas que não “batem” bem: 34 anos com filha caçula de 17? Considerando ainda os períodos de gestação, com que idade ele foi pai do mais velho? Com 13 ou 14? Possível, porém meio excepcional, não?

    R$ 1200,00 em notas de 50 dá apenas em 24 notas, dificilmente “vários calhamaços”.

    Há algum excesso descritivo em algumas partes, trazendo muita informação que pouco complementa o texto. Por outro lado, penso que faltou mergulhar um tanto mais nos sentimentos do Gilberto, seja para arrancar simpatia ou choque com suas ações.

    Sugestões de melhoria: enxugar algumas descrições, aprofundar-se nos sentimentos das personagens principais, para conseguir mais empatia de quem lê.

    Conclusão: bom conto.

  6. Cristiane
    25 de junho de 2014

    Percebo que o autor tem um bom domínio da língua e isso é bastante positivo.

    Quanto ao enredo, achei que há muitas descrições desnecessárias e é bastante previsível.

    Boa sorte no desafio!

    • Bloody Sam
      26 de junho de 2014

      Obrigado! Achei curioso o adjetivo “positivo”. 😀

  7. Tiago Quintana
    24 de junho de 2014

    O conto é bem escrito, mas não senti identificação alguma com ele – embora provavelmente mais por questão de gosto pessoal que por falha da escrita.

  8. JC Lemos
    22 de junho de 2014

    O autor mostra certo domínio de narração, e isso é bom. Gostei de algumas cenas “viscerais” descritas no decorrer da estória, me pareceram bem cinematográficas.

    Entretanto, como já dito, o grande número de descrições, em alguns trechos, mostraram-se desnecessárias e chegaram a cansar. Os cortes de cenas também foram muito bruscos. Creio que se o conto tivesse sido menor, focado apenas em uma única ação, ficaria mais consistente. Da forma como está, há informações demais e ação de menos, que fica focada apenas na cena final e acontece sem mais nem menos. Queria ter visto mais emoção na morte da mulher de Gilberto, por exemplo.

    Enfim, essa é minha opinião. Você tem um bom material, só acho que precisa se decidir se diminui para algo mais concentrado, ou aumenta para algo mais detalhado e bem trabalhado.

    De qualquer forma, parabéns pelo trabalho e boa sorte no desafio!

  9. Marcelo Porto
    22 de junho de 2014

    O conto poderia ser menor.

    O excesso de descrições, de personagens e os parágrafos longos tornaram a leitura um pouco cansativa, além de eu não ter conseguido compreender a motivação para tal chacina, mesmo com todo o sofrimento do protagonista, a não ser que o cara seja um psicopata, o que não está claro na narrativa.

    A história tem potencial, talvez criando alguma reviravolta para justificar os desdobramentos, quem sabe mudar o cenário, o colocar trucidando os médicos do hospital onde a esposa não teve atendimento e a levou à morte, ou quem sabe uma farmacêutica que fabricou um remédio que não funcionou?

    O autor sabe descrever cenários e delinear personagens, falta somente desapegar dos seus escritos e começar a cortar as gorduras das narrativas e não ter pena de retirar os coadjuvantes que não acrescentam.

    Boa sorte.

  10. Juliana T.
    20 de junho de 2014

    Como já disseram por ai, achei o texto bastante previsível. No início foi bem difícil de concentrar a leitura, ficou um pouco bagunçado. Quando começou a chacina tudo começou a se organizar e a leitura fluiu muito melhor!
    O problema maior é que fiquei esperando a surpresa e a mesma nunca chegou.
    Acho que se tivesse dado um pouco mais de atenção ao personagem principal em detrimento dos outros e viajado mais profundamente na personalidade dele, talvez poderia ter feito com que todos nós nos identificássemos com partes dele e nos surpreendêssemos justamente por isso (quem esperaria se identificar com um assassino?).
    De qualquer forma demonstrou que sabe fazer um bom conto, só precisa se organizar melhor nas partes mais descritivas da história e mergulhar mais na própria criatividade!
    Parabéns!

  11. Anorkinda Neide
    14 de junho de 2014

    Começando a comentar…
    Depois de um período de luto… Já li os 12 primeiros contos, mas só agora posso comentar, mas mesmo assim, meia boca…
    peço ao autor, paciência com esta leitora 🙂

    Bem, a inspiração neste conto foi grande, mas algo rasa…as motivações do matador não são originais e nem muito relevantes para um homem adulto…mas tem louco pra tudo nao é mesmo? apenas nao me convenceu muito.

    Teve alguns personagens muito bons, o chefe e o rapaz do aparelho de dentes…se a historia fosse pra outro lado que nao o da matança poderia ficar muito bom.

    Abraço ae!

  12. Edivana
    14 de junho de 2014

    Boa tarde,
    Gostei da violência do final, foi bem engraçada, mas até chegar a ela fiquei meio entediada, porém se a sua intenção era passar o tédio depressivo da personagem, você conseguiu. Tudo de bom!

  13. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Gostei, bom texto.
    Boa sorte no desafio.

  14. Claudia Roberta Angst
    7 de junho de 2014

    Conto longo, com personagens bem trabalhadas, narrativa bem desenvolvida e escrita bem realizada. Mas repito:conto longo. O começo achei um tanto cansativo e moroso.Poderia ter condensado um pouco alguns fatos narrados. Depois, a história ganha um ritmo mais confortável.Boa sorte!

  15. Willians Marc
    6 de junho de 2014

    No geral, gostei do conto. A construção dos personagens (seus tiques, manias e aspectos bizarros) ficaram muito interessantes. Outro ponto positivo é a gramatica que com certeza se sentiu respeitada. Mas a narrativa da estória realmente não cativa muito. Da pra resumir tudo em: homem que sofre bullyng decide matar todo mundo na firma após a morte de sua mulher. Não tem nenhum plot que surpreenda os leitores.

    Esse conto me lembrou um outro do desafio sobre faroeste em que um ator americano vem fazer uma visita em uma favela no Rio de Janeiro e é morto por traficantes. Os dois são muito parecidos em sua temática.

    Enfim, parabéns pela obra e boa sorte no desafio.

  16. rsollberg
    6 de junho de 2014

    O texto é bastante detalhado e não é chato. No entanto, não consegui me conectar aos personagens. Não senti empatia, nem antipatia por nenhum deles. Acho que houve maior dedicação ao massacre do que propriamente a trama. A cena final foi bem aflitiva, mas não surpreendeu. Um relato cruel, mas nada muito além disso.
    De qualquer modo, parabéns e boa sorte!

  17. Swylmar Ferreira
    6 de junho de 2014

    Oi!
    Enredo bastante simples e na narrativa senti falta de algo. Não sei o que. Talvez mais partes com Isadora, ou ainda detalhes dos assédios, não sei. A forma de escrita é muito boa.
    Parabéns!

  18. mariasantino1
    5 de junho de 2014

    Olá! Parabéns pela criação, há passagens com certa comicidade, mas no geral, achei que o texto tem descrições desnecessárias e se torna moroso em muitas partes.
    .
    Ainda assim, apreciei a leitura. Boa sorte no desafio.

  19. Rafael Magiolino
    5 de junho de 2014

    Acredito que os colegas já disseram quase tudo sobre o que pensei. Foi muito bem escrito, o que já é motivo de créditos. Entretanto, achei o texto um tanto lento, previsível. Faltou algo, mas não sei dizer o que.

    De qualquer forma meus parabéns e um abraço!

  20. Leandro B.
    4 de junho de 2014

    Então,
    me parece que é um texto que têm méritos principalmente no que diz respeito à construção dos personagens. Aliás, na construção DO personagem, uma vez que os outros acabaram ficando um pouco caricatos. Ainda assim, a mensagem de que era Isadora o que segurava Gilberto na sanidade foi bem passada e por isso o seu dia de fúria foi coerente.

    Da minha perspectiva de leitor, contudo, vejo dois problemas fundamentais com o conto. O primeiro é a quantidade e a especificidade (um tanto rasa) que os outros personagens têm na trama. É possível que esse seja um dos motivos para que a trama fique um pouco truncada no início. Vemos, ao fim do texto, que faltou espaço para essa galera. Normalmente eu imaginaria que isso se deu pelos limites do desafio, mas esse conto inaugurou os desafios sem limites (parece um nome de desenho) e, por isso, creio que o autor poderia ter ampliado o conteúdo da obra. Entendo, claro, que ele possa ter tido receio de tornar o texto por demais longo para um conto e, temendo que isso cansasse os leitores, tornou a narrativa mais objetiva. Mas, infelizmente, do jeito que está, acho que não cabem tantos personagens na história.

    O outro problema é mais importante: não há surpresa na história. Aliás, não acho que todo conto deve ser surpreendente, mas devemos tentar cooptar a atenção do leitor de alguma maneira. Envolvê-lo. Narrar uma história em que o leitor já sabe tudo o que vai acontecer torna isso muito difícil (não impossível, mas muito difícil).

    Sabíamos para onde a história estava indo, sabíamos quem eram os mocinhos e bandidos, sabíamos o que Gilberto faria e com quem faria. Principalmente, sabíamos o motivo pelo qual ele faria.

    Eu sempre fico muito receoso de dar pitaco na história em si. Pode soar como prepotência ou um “eu faria melhor”. Não é de modo algum isso. É apenas uma sugesta de como esse problema poderia ser evitado (se é que há um problema, como disse, estou colocando apenas minha perspectiva de autor/leitor e, por isso, essa questão pode não ser geral). Por exemplo, acho que a história se tornaria muito mais rica se ele não atirasse nos “bandidos”. Ao invés disso, Gilberto invadiria o local de trabalho, atiraria em Roberto e em Nelson. Por que? As motivações aqui se tornam mais complexas. Não se trata de incoerência, mas sim de uma lógica mais complexa no jogo de culpabilização.

    Isso tiraria o leitor do lugar comum. Seria um tapa para quem esperava que a história seguiria um caminho sem surpresas. O envolvimento do leitor viria da motivação de Gilberto, do significado do seu ato. Mas reafirmo, não se trataria de fazer algo SEM SENTIDO, e sim com um sentido mais profundo e fora do lugar comum.

    É isso, camarada. De todo modo, achei um conto acima da média.

    Boa sorte!

  21. Brian Oliveira Lancaster
    4 de junho de 2014

    Em minha opinião, o início é um pouco travado, mas o desenvolvimento prende a atenção do leitor. As onomatopéias ficaram muito bem gravadas na mente, apesar de, às vezes, estarem levemente deslocadas. Não me chamou atenção como um todo (mas isso é gosto pessoal), no entanto, consegue fisgar pelo seu estilo crônica de um “dia comum”.

  22. Pétrya Bischoff
    3 de junho de 2014

    Gramaticalmente está bem escrito, no entanto, não sinto emoção. É uma baita chacina, e só. Acabei simpatizando um pouco com o cara, mas foi por tamanha trsteza que carregava. Penso que não havia necessidade em descrever o chefe, visto que somente o personagem principal e situação em si eram relevantes. De qualquer maneira, boa sorte 😉

  23. Bruno Müller
    2 de junho de 2014

    Conto é cobertor curto. Ou se desenvolve o enredo, ou os personagens… ou se dá fluidez ao texto, ou clareza. Pra fazer isso tudo ao mesmo tempo, sem perder o fio da narrativa, só na estrutura de um romance.

    Acho que os personagens estão bem desenvolvidos como estão, sobretudo que é a psicologia do protagonista que importa. E o que marca a dita psicologia é que o personagem está por fio: qualquer pequeno motivo é motivo. E essa motivação não é o assédio moral, é a perda que, associada à sua aparente depressão, corta as amarras que o personagem tem com a realidade, a moral e a própria vida. Nada o prende, ele já perdeu a mulher, ele era sua âncora, e sem ela, ele não precisa mais tolerar o que era intolerável. Vejo o massacre como um rito de passagem – o corte com a vida que ele detestava – mais do que a administração de algum tipo de “justiça”. Se o texto enfatizasse o bullying, justamente, estaria oferecendo uma motivação (além do presente na psiquê do protagonista), o texto seria lugar comum e o tiro sairia pela culatra.

    Muito bom, parabéns ao autor.

  24. Adriane Dias Bueno
    2 de junho de 2014

    Quanto ao texto: embora a violência seja bastante gratuita, até poderia ser melhor entendida se a situação de assédio moral fosse mais acentuada. Ocorre que, Bloody Sam, se tivesses optado por dar como causa do massacre a tendência psicótica do personagem, talvez o conto conquistasse mais o leitor.
    Não desgostei da história, ao contrário, acredito que trabalhado mais o assédio moral ou a doença psíquica do autor, ele seria mais interessante.
    Quanto a ação, achei que a mesma foi bem narrada, mas poderia ser evitado alguns comentários do narrador, pois atrapalharam no desenvolvimento do texto.
    Um equívoco gráfico: o termo é ‘percursores’, e não ‘precursores’.
    De resto, creio que a ideia é boa, necessita apenas algumas adaptações.
    Sucesso no desafio, Bloody Sam.

    • Bloody Sam
      2 de junho de 2014

      A Glock tem “percusores”, então? Não sabia, obrigado!

      Tu acha que é preciso mesmo explicar as motivações do Gilberto?

      • adriane dias bueno
        3 de junho de 2014

        Oi Boody Sam, quando disse que era preciso explicar as motivações, foi no sentido de aprofundar os dilemas, não dizer tudo, algo sempre deve ficar implícito para o leitor refletir e criar algumas teorias, mas um pouco mais de aprofundamento nos sentimentos dele, seria interessante. Até porque eu enho a ideia (opinião pessoal claro, respeitando as diferenças), que quando um conto deste tipo é escrito temos a tendência de escrever como os escritores do estilo americano. Creio que é interessante tentar desenvolver este mesmo estilo, mas dentro da realidade do nosso país e dos países latinos, os massacres deste tipo que ocorreram aqui tem exatamente as mesmas motivações que os do EUA. Naturalmente opinião minha. Mas agradeço a oportunidade que me destes de tentar explicar melhor o que eu quis dizer, acredito que estes desafios devem servir para isso, discutir o ato de escrever em si, embora não sejamos obrigados a aderir as sugestões dadas.
        Abraço e sucesso, mais uma vez.

  25. Fabio Baptista
    2 de junho de 2014

    Bem escrito do ponto de vista gramatical. Notei só um “há uns dez meses atrás” (redundância), mas como está dentro da fala de um dos personagens, então OK. Poderia ser evitado, de qualquer forma.

    Os diálogos ficaram bons e imaginei cada sugada de saliva com o SLSHH… hahhauhau. Ficou bem caracterizado. Porém, conforme já comentado pelos colegas, os personagens não cativaram. Não vi “bullying” suficiente para justificar a atitude do cara. As cenas do massacre foram bem construídas, mas parece que estão ali só para chocar o leitor, soaram gratuitas.

    Acredito que se o autor diminuísse o número de nomes que aparecem (com suas respectivas histórias) e focasse mais na trama central, gerando mais empatia pelo protagonista, o resultado teria sido melhor, mais impactante.

    Dessa forma, ficou apenas na média.

    Abraço!

  26. Davi Mayer
    1 de junho de 2014

    O conto é de difícil leitura. Os personagens não fluem tão bem. Houve narração, mas não me empolguei muito com a leitura.

    Basicamente faltou desenvolvimento… parava demais para contar outros fatos… as vezes até demais. Poderia ter sido mais simples nessa parte.

    Os personagens, apesar de serem bem caracterizados visualmente, careceu de certa simpatia ou repulsa, enfim, ter despertado algum sentimento.

    Quanto a questão da estrutura, das frases, foi bom… Mas a historia contada em sim não foi muito boa.

    Enfim, minha opinião.

  27. Jefferson Reis
    1 de junho de 2014

    Primeiro, o comentário do crítico: Concordo com Eduardo Selga. Não há nada de errado com a estrutura do conto, não percebi muitos desvios de sintaxe, tudo está em seu devido lugar. No entanto, não consegui me envolver totalmente com os personagens. Não posso defender, tampouco condenar o protagonista. Para melhorar, sugiro um maior trabalho com as personagens e menos narração.

    O comentário do leitor: O conto me fez pensar no quanto é ruim trabalhar em lugares nos quais não somos bem tratados. E fiquei ansioso em saber se Julia morreria ou não.

  28. Eduardo Selga
    31 de maio de 2014

    Como não há maior tratamento dado à linguagem, o texto se torna apenas a narração de uma sequência de homicídios de alguém muito ferido pelo bullying. Como um roteiro de tantos filmes norte-americanos de serial killer, ou de assassinos que invadem algum espaço fechado (geralmente escolas) e descarregam suas neuras, praticando homicídios. Não é muito mais do que isso. Tecnicamente bem feito, sem mutos problemas, mas a arte, que deve estar presente no texto para que ele seja considerado literário, a arte não aparece muito.

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Informação

Publicado às 31 de maio de 2014 por em Tema Livre e marcado .