EntreContos

Detox Literário.

Entre o Rifle e o Coração (Felipe Moreira)

rifle

1

Éramos apenas dois; Dedo-Torto e eu, lamentando o inverno tenebroso de Silverland. Não me lembro de ter passado uma noite tão fria desde que chegamos há dois anos. Caminhávamos logo cedo em direção à taverna, antes mesmo das carruagens tomarem as ruas, mas sempre como se não houvéssemos destino, no meio da rua principal. O céu cinzento e o sol calmo, esvaziado de qualquer energia, como uma fornalha apagada. Nos longos intervalos da conversa, tudo que se ouvia eram nossas botas chafurdando na lama.

— Acha que neva hoje? – ele me perguntou, não sei se por falta de assunto ou pela preocupação de não ter trazido a manta que o envolvia sobre a jaqueta.

Olhei novamente pro céu, com uma tola insistência, como se algo tivesse mudado drasticamente nos últimos instantes. E o disco permanecia lá, pálido como eu era nos tempos de Philadelphia.

— Mais tarde – um novo silêncio pesou entre nós e eu tentei manter a nossa conversa aquecida. — Talvez de noitinha.

Dedo-Torto bebeu a noite inteira; respeitar seu silêncio era o mínimo que eu podia fazer depois de tê-lo convencido a ir à taverna sem os cavalos.

— Caralho, Rick… Preciso muito de um café fervendo – tentava se equilibrar entre as poças e as pancadas da ressaca.

Essa moleza entorpecente reluz a memória do Kansas, quando éramos mineiros e mal nos conhecíamos. Trabalhávamos como escravos dentro de uma mina de prata e minhas costas ainda doem, principalmente no inverno. Nosso salário dava para alguma coisa além de respirar. E numa noite dessas folgas, eu pude ver John, já conhecido como Dedo-Torto, contemplar os companheiros bêbados com suas piadas. Porém, o destino nos uniu de fato após uma rebelião. E quando viramos amigos, descobrimos juntos o nosso talento para matar. Ele com uma Colt 45 de cano longo e eu com o rifle. Formamos um grupo de oito mercenários que combatia assaltos nas regiões. Brad, um dos nossos, nomeou o grupo de “The Certainty of Heroes”. Fizemos fama no oeste do Kansas, que digam as putas, e por pouco tempo em Nebraska, onde nossa força ruiu diante de centenas de apaches que fugia da fronteira, nome romântico para extermínio. Nesse confronto inesperado eles conseguiram matar seis dos nossos amigos e companheiros. Dedo-Torto, enfiado numa vala, recitava versículos da Bíblia, sei que muitos deles errados, enquanto no tambor de seu revólver enrolava-se apenas uma nota de cinco. E eu meio de longe tentava cobri-lo com a precisão do meu rifle, mas sua vida foi milagrosamente poupada. Desde então, sempre que está na guarda, ele recita trechos aleatórios da Bíblia.

Continuei vagando dentro de mim, perdido nos labirintos da memória até chegar à infância borrada da Philadelphia, nutrido do sonho de enriquecer no Oeste, disposto a arrancar minha mãe e meus dois pequenos irmãos da miséria, da herança indigna da Secessão. Hoje nem sei como estão. Depois de alguns anos, não tinha mais fôlego para escrever-lhes. Matei pessoas, boas e ruins. Fodi com putas, boas e também ruins. O que mais poderia contar? Vivi tantas coisas, mas quase todas não valeriam a pena escrever. Agora sou apenas um capanga do homem mais poderoso de Silverland, no cu do Colorado.

E então, éramos apenas dois; Dedo-Torto e eu…

2

Chegamos para o nosso café. As janelas fechadas, as mesas reservadas na quietude, um contraste imenso das noites com dança, apostas e falatório. Havia apenas três lamparinas no bar, cravado no centro da taverna. Alfred, o gerente, esperava-nos com o inacreditável humor de sempre.

— Como vão, senhores? O café tá pronto.

Dedo-Torto atracou no bar, cessando sua sequência insuportável de bocejos. Pôs seu chapéu de lado e murmurou alguma coisa enquanto coçava a barba rala.

Logo fiquei satisfeito com uma broa de milho e o café puro. Alfred serviu-me o jornal e retomou o assunto interminável com Dedo-Torto. As notícias não traziam nada de diferente. Nada acontecia em Silverland. Nada acontecia no Oeste desde a Secessão. Posso dizer que isso era bom, afinal, certificar o sono tranquilo do patrão era o nosso trabalho, sem esquecer que o silêncio também é a linha de frente da tragédia.

— Senhores – tomei uma das cadeiras. — Vou sentar lá fora e deixar vocês conversarem.

— Nesse frio, Rick? – Alfred espantou-se.

— Deixa – Dedo-Torto interveio. — O que ele quer tá no outro lado da rua.

Às vezes eu ficava puto com essas brincadeiras infantis. É aí que eu me arrependo de soltar minhas verdades na bebedeira. Sentei no alpendre e escorei meus pés no parapeito. A cidade já despertava. O leiteiro ajeitava-se na carroça, o carteiro organizava uma estratégia para driblar as poças e daqui eu podia ouvir o apito agudo do trem. Silverland crescia numa velocidade impressionante, e não se deixava perder o ritmo no inverno. Poderia imaginar sem esforço, Mr. Martin, há vinte anos, declarando-se, à bala, dono dessas terras.

Alfred surgiu do meu lado, socando as solas do calçado no assoalho.

— Tinha quase me esquecido. Tenho aqui algo que vai gostar.

— Sim.

— Esse folhetim… Tem vários textos do Mark Twain. Um sujeito de fora esqueceu.

Ele me entregou sem qualquer hesitação. Eu folheei cada página, salivando que maravilhas Twain teria nos reservado dessa vez.

— Obrigado, Alfred.

— Rick, você gosta muito de ler essas histórias. Por que não escreve também?

— Ah – penso nisso todo dia. — Eu não consigo escrever sequer pra minha família.

Eu não vi, mas acho que Alfred deu-se por vencido, simplesmente por não querer entender. Senti que ele queria entrar para retomar o papo com Dedo-Torto, mas estava sem graça demais por ter tocado num assunto que parecia delicado pra mim. Virei-me pra ele que ajeitava – ou desajeitava – o bigode, comprometido a tranquilizá-lo de qualquer coisa. Ele sorriu, mas pareceu disposto em apostar mais uma ficha comigo.

— O nosso patrão, como vai?

— Daquele jeito, Alfred. Enfurnado no escritório.

— Sei… Nem parece o homem das tantas coisas que fez nessa região – ele suspendeu a memória do Mr. Martin que eu tentava ilustrar segundos antes de ser abordado.

— Logo a primavera chega e ele senta lá no meio do campo da fazenda, fumando e olhando as montanhas derreterem seu glacê.

— Você fala como um escritor, Rick.

— Mas escrevo como um imbecil.

Não tive intenção de espantar o Alfred com as minhas lamentações. Imagino que se fosse para ouvir choradeiras, ele preferia ouvir a divertida paixão platônica de Dedo-Torto por Lola, a mais disputada do saloon.

3

O inverno tem um poder incrível de resgatar lembranças na gente. Talvez essa seja sua real utilidade na natureza. Assim jamais esquecemos quem realmente somos, nossas origens e qual é o nosso lugar no mundo. Abri o folhetim, que já na primeira página estampava a propaganda do Governo. O “American Progress”, uma mentira escrota. Antes que eu mergulhasse na leitura, uma ordem martelava-me a cabeça, feria o meu orgulho, cuja voz soava à zombeteira de Dedo-Torto, esfregando na minha consciência a real intenção de sentar ali fora e me expor às agulhadas do frio. Não pude resistir, e nem queria se não fosse pela vergonha; e que vergonha há em regozijar a mulher mais linda do mundo? Qual era o crime nisso, eu me pergunto. E a voz de Dedo-Torto castigava-me com a palmatória, lembrando que a mulher mais linda do mundo estava noiva do filho do nosso patrão.

Ah… Enfiei-me na própria ilusão, quente e bem arquitetada. A melhor coisa na solidão é que ela nos permite imaginar outras vidas em sonhos silenciosos, sem a menor culpa. Pus-me a olhar para a casa dela, com uma ansiedade multiplicada pela impaciência violenta que me fazia esquecer a boca aberta até a saliva congelar e a garganta secar. Uma das janelas entreabriu-se, tenho certeza que pela minha força de pensamento. Era uma das criadas, emburrada, distribuindo ordens para o cocheiro que abraçava a si mesmo na calçada. O melhor momento estava por vir. Finalmente a porta do paraíso seria aberta e Afrodite encarnada mostrar-se-ia para fazer uma harpa das cordas do meu coração.

A rua já estava apinhada. Tive de ficar em pé para não deixar as carruagens estragarem a única realidade da minha fantasia. Ela saiu, seguida dos pais e irmãos, que para mim eram como o seu séquito. O frio permitia-me apenas enxergar o seu rosto branquinho, bochechas rosadas e algumas de suas madeixas douradas. Ela conversava com a família, mas sua voz não chegava até mim, engolida pela confusão gritante da rua.

Miss Jaclynn Glenn, bela de me fazer perder a cabeça. Ninguém sabe disso, mas eu vinha escrevendo cartas pra ela, sem me identificar realmente. Assinava como “Tristão”, pois sei que ela apreciava ler “Tristão em Prosa”, uma tragédia de amor que refletia bem a realidade dela sobre a minha fantasia. Chamei-a de “Isolda” nos meus pobres versinhos que se misturavam aos trechos do livro, que se não fosse pela biblioteca do Mr. Martin, jamais conseguiria elaborar esse plano.

Certa vez pude observá-la na varanda do terraço, com minha carta vigente na mão, abanando-se pelo calor do verão e das minhas declarações. Posso me assegurar que ao menos uma vez ela sonhara comigo, mesmo sem saber quem sou de verdade. Pouco depois descobriram que algum desgraçado mandava cartas amorosas para ela. O xerife Lipton passou a investigar o caso. Sosseguei no meu canto e decidi me contentar com essa exata distância.

— Seu saco de merda! – foi só o que eu ouvi de Dedo-Torto.

Poderia jurar que estava sozinho. Ele deu um daqueles suspiros intensos e me encarou como se fosse me dar mais do que uma lição de moral.

— Isso é um pesadelo – e apontou o dedo para o outro lado da rua, onde Jaclynn estava.

Acho que ela olhava pra mim. Seus olhos claros encararam-me por um momento indefinido, mas frios como uma pedra.

— Você conhece o homem, não conhece? – insistiu. — Trabalha pra ele há dois anos e já ouviu o que falam dele. Quer se engraçar com a nora? Caralho! Ele é dono de tudo isso. É dono até das putas dessa cidade.

Eu abri meus braços e… Tremi. Resolvi dar-lhe as costas para não discutir e numa beliscada do instinto, chequei o parapeito só pra ter certeza que meu rifle recostava-se ali à minha disposição.

— Dizem até que uma vez ele matou um dos fazendeiros e a família dele na festa do casamento – Alfred parou na entrada para espiar a conversa graças ao tom sutil do meu amigo. — Porra, na festa do casamento! Você quer mexer com alguém como ele?

— Não fiz nada de errado – eis o meu patético discurso.

— E nem vou deixar fazer.

O assunto morreu ali, dissipando-se com o vapor que saía de nossas bocas. Miss Glenn desaparecia dentro da carruagem que virava na esquina. Pessoas chegaram na taverna para o café e suas presenças aliviaram-me a tensão daquela conversa. Dedo-Torto, impedido de prosseguir com a pose de maduro, achou que dando um soco no meu braço se faria claro como a neve.

4

— Encontrei vocês! – surgiu o xerife Lipton, envergando um sobretudo preto que destacava o seu distintivo polido. Acho que subestimei a força dos meus pensamentos.

— Xerife – eu disse num sussurro, levantando quase nada o meu chapéu.

Dedo-Torto fez o mesmo, mas com uma cara cínica, porque ambos não se davam bem. Silverland era o reflexo da paz desde que Martin apoderou-se da cidade. E nesses vinte anos de sossego, Dedo-Torto, ironicamente, foi o responsável pela única confusão durante todo esse tempo. Preciso nem dizer que Lola no meio de uma aposta era a razão disso. Meu amigo não foi preso por ser agregado do Martin, mas foi proibido pelo próprio homem de apostar outra vez. Xerife fez um sinal pro Alfred, indicando o café no jeitinho de sempre e parou entre mim e Dedo-Torto.

— Espero que tenha superado o seu vício, Mr. Hartwell.

— Das cartas sim – ele sorriu. — Mas da Lola…

Lipton ignorou a resposta e voltou-se pra mim.

— E você? Sempre quieto no seu canto, lendo… Nunca vi um capanga tão interessado em leitura – disse como se desconfiasse de mim. — Não aposta?

— Não, xerife. Vim pra Silverland juntar dinheiro e não queimar.

Sorte a minha ser mais alto do que ele, pois sua gargalhada jorrou saliva pra todos os lados.

— Entendi – encarou-me nos olhos. — Você é um sonhador, não é? – e olhou pro outro lado da rua, justamente na direção da casa de Miss Glenn, agora tomada pela insignificância do vazio.

Confesso que gelei um tempo, mas por Deus, a vida fez de mim um homem ponderado.

— Todo homem deve sonhar, xerife.

— Claro – havia um vão entre nós. — Entrem comigo.

Xerife Lipton estranhamente fazia barulho enquanto comia. Um estalido entre o talher e seus lábios. Estávamos sentados na sua frente e ele nos encarou enquanto beijava a refeição.

— Vocês que são agregados do homem – parou pra engolir o pedaço do wafer -, ele já deve ter falado do Lloyd pra vocês.

— Sim – confirmou Dedo-Torto. — Patrão disse que foi o único dos inimigos que escapou.

— Exatamente – xerife apontou-o com o garfo. — E agora ele voltou por vingança. A informação chegou ontem pelos federais. Lloyd pretende invadir a cidade hoje à noite. O Mr. Martin já tá sabendo.

— Ok, xerife. Eu meto uma só bala na testa dele e…

— Escuta, Mr. Hartwell! Os federais dizem que ele tem um grupo de índios a seu serviço. Dúzias deles!

— Índios? – a voz de Dedo-Torto parecia sufocada pelos dedos invisíveis do medo.

— E por que só agora nos diz isso? – indaguei.

— Pra não terem a chance de fugir no trem do dia. Ambos trabalham pro Martin, mas são mercenários e poderiam achar que essa guerra não é de vocês. A América é livre, menino, mas não é estúpida.

Queria dizer a ele que não somos covardes, que já enfrentamos bandidos praticamente imbatíveis, mas soaria ridículo tendo Dedo-Torto ao meu lado suando frio pelo trauma que o fizera borrar as calças um dia.

— Vai comunicar a cidade, xerife? – Alfred intrometeu-se.

— Sei muito bem o que é uma cidade em pânico. Meus policiais já estão comunicando o toque de recolher. E quem deveria sair da cidade já partiu no trem pra Denver – ele me observou como se quisesse dizer alguma coisa.

— E os federais? – insistiu Alfred enquanto eu e Dedo-Torto ruminávamos cada um o seu medo.

— Dezoito homens. Parte da cavalaria de Denver está a caminho. Acorde as meninas, Alfred e leve-as para um lugar seguro. Vocês dois são do Martin. Corram pra fazenda e sigam as instruções dele.

Miss Glenn partiu, eu pensei. Na verdade imaginei-a tomando o trem agora, cada vez mais distante de mim.

5

— O filho da puta virou índio e chama a si mesmo de Lobo – Martin encontrava graça em algum lugar das palavras.

Dedo-Torto não parava de olhar para os lados, obviamente perturbado. Tentei acalmá-lo, mas a proximidade do conflito o deixava cada vez mais enlouquecido. A tarde cobria Silverland em púrpura e permitia a neve fina sucumbir.

— O senhor esperava por isso? – perguntei enquanto ele nos dava as costas, vendo da janela os flocos de neve.

— Por vinte anos – ele virou-se diretamente pra mim, uma expressão docente. — Finalmente terei paz.

Ficamos quietos, ouvindo apenas o relógio trabalhar.

6

Os federais juntamente com o xerife e a polícia protegeriam o centro de Silverland e nós a mansão. De todos os romances que li, a minha posição de capanga jamais obtivera sucesso. Se eu sobreviver esta noite, escreverei um em que o herói é um capanga, fodido como eu, cuja mocinha é um amor inventado como o meu. A noite parecia pesar sobre nós, já escura, tapando as estrelas e a lua. Eu observava dum ponto estratégico, onde poderia acertar qualquer um que tentasse entrar na mansão pela frente num raio de cem metros.

— Rick.

Olhei espantado.

— Que foi? – Não sei se era o frio, mas Dedo-Torto parecia ter perdido o sangue da cara.

— Eu li aquele seu jornal – estava inseguro ao falar disso comigo. Emudeceu.

“O folhetim!”, exclamei comigo mesmo.

— Tinha esquecido. Gostou?

— Não sei se entendi direito – parecia mais calmo agora. — Li letra por letra.

— Conte-me o que entendeu.

— Era uma conversa entre um cara e Satã. E ele disse ao homem que nada na vida é de verdade. Tudo isso é só um sonho. Nada existe além de mim e o vazio. E que eu não sou mais do que um pensamento.

Tive a impressão de que meu amigo não conseguia digerir aquela reflexão, travando as engrenagens do cérebro por receber uma inusitada ordem de serviço.

Uma explosão arranhou o céu abruptamente. O susto provocou-nos um sacolejo constrangedor, iluminado pela luz dos fogos de artifício. Era o sinal dos federais. Lloyd estava na cidade. Os estouros das balas seguiram os fogos e Dedo-Torto correu para o seu posto. Ajeitei o meu rifle e chequei o perímetro repetidas vezes. Imaginei também repetidas vezes o que Martin estaria fazendo lá dentro.

Entre os estalos dos fogos, pude ouvir gritos de índios, semelhantes aos que ouvi quando nosso grupo foi massacrado no Kansas. Acho que se não fosse por esse trecho do livro do Twain, Dedo-Torto estaria se mijando agora.

O silêncio predominou por um momento longo o bastante para me deixar com medo. Ao meu redor, apenas trevas e fragilmente algumas lamparinas que cercavam a mansão. Pressionei o rifle contra mim com mais violência. Apertei até que o medo desse lugar à adrenalina. Preguei os olhos na escuridão, convencido de que encontraria algum índio ali ou até mesmo o Lloyd, vulgo Lobo. Quando pensei ter visto algo, ampliei a vista com a lente do meu próprio olho esquerdo e… Foda-se.

Atirei. Mais um e mais um.

Caminhei em direção ao alvo enquanto recarregava o rifle. A neve abafava o som dos meus sapatos. Não havia ninguém ali na entrada. Nada além das marcas das minhas balas na mureta. E de repente, uma nova rajada de fogos serpenteou-se no céu, traçando um rastro de luz diante dos meus olhos, exatamente onde ao menos dois índios corriam armados e esbaforidos na minha direção.

Escolhi um deles e atirei. O tranco do rifle quase me derrubou até que um deles me acertasse a cara com um porrete. De alguma maneira, a neve sob meu rosto parecia morna. Meu corpo perdeu todo o peso após alguns espasmos musculares. Senti o chapéu abandonar minha cabeça e a escuridão vazia da noite cobrir-me novamente.

“Tudo isso é um sonho. Uma ilusão. Sou apenas um pensamento vagando sozinho no vazio da imensidão. Além dos limites do tempo, uma visão, fictícia ou não, revelou-se pra mim, com madeixas douradas e bochechas rosadas”.

Despertei em choque. Tudo estava exatamente como eu havia deixado milhares de anos antes, quando o porrete me atingiu. A neve ainda fina caía. Ergui-me e andei vacilante até a mansão. A porta do salão escancarada e um grupo de índios amontoava-se sobre Dedo-Torto, ou o que sobrou dele. Arranquei um grito descomunal das minhas vísceras. Todos olharam pra mim como se eu houvesse rompido alguma lei da natureza. Eles congelaram seus olhos em mim e se abriram na minha frente, revelando Lloyd do outro lado sufocando Martin com uma corda.

Dedo-Torto não passava de músculos retorcidos, esmagado por vários porretes como o que me nocauteou. E quando eles estavam prestes a fazer o mesmo comigo, a cavalaria da polícia invadiu a mansão atirando, dispersando os índios. Lloyd, por sua vez, permanecia agarrado ao pescoço de Martin. Tomei o revólver do meu amigo e com suas balas furei as costas do maldito com três tiros certeiros na altura dos pulmões.

Difícil de admitir, mas agora era apenas eu.

7

Poucos dias depois, Martin me chamou:

— Vá até o banco e verifique a conta de Rickon Stark. Certifique-se de que há um valor de vinte mil dólares nela.

— Senhor? – balbuciei. — No meu nome?

— Comece uma nova vida, Rick. Ajude a sua família, abra um negócio, não sei. O dinheiro é seu. Minha gratidão.

Eu não sabia o que dizer. Não havia realmente o que dizer se não agradecer. Dinheiro algum traria de volta Dedo-Torto, mas finalmente poderia ajudar minha família.

— Pra ser sincero, nem sei se minha família ainda existe.

— Se não mais existir, pegue o dinheiro e suma no mundo.

Nossa despedida não foi das mais alegres, como eu imaginava. Sonhei tanto com essa conquista que agora a tendo em minhas mãos, não havia sabor algum. Andei minha última vez pelas ruas de Silverland, não havia saudade alguma.

A estação do trem era o lugar mais aquecido por conta da multidão e da maquinaria. Uma nova e longa jornada se inicia rumo a Philadelphia. Primeira parada será Denver. Dali adiante já nem lembro. Sei apenas que o melhor é deixar o passado em Silverland e partir.

O apito do trem anunciou que logo sairia. Caminhei até a altura da minha cabine. Despachei minha bolsa com o rapazote e ele me orientou a entrar na cabine. Eram apenas três degraus e no segundo eu ouvi:

— Mr. Stark?

Parei. Lentamente voltei-me pra saída e vi com meus olhos o que só era real em sonhos.

— Miss Glenn.

20 comentários em “Entre o Rifle e o Coração (Felipe Moreira)

  1. joyce
    30 de junho de 2014

    realmente o começo estava sem cor ,até que o lado poético , pra quem gosta de romance aconteceu .como:
    Ah… Enfiei-me na própria ilusão, quente e bem arquitetada. A melhor coisa na solidão é que ela nos permite imaginar outras vidas em sonhos silenciosos, sem a menor culpa.
    o fim foi ótimo! deveria escrever um romance !:)

  2. vitorts
    24 de maio de 2014

    Muito bem escrito. Gostei da forma como a narrativa foi conduzida. Também foi o conto que achei trazer mais do que era de fato o velho oeste histórico.

    Boa sorte no desafio!

  3. Bia
    24 de maio de 2014

    Foi uma leitura que fluiu e eu gostei muito, muito mesmo. Tem um toque poético, boas construções, enfim… Parabéns!

  4. rsollberg
    22 de maio de 2014

    Curti bastante! As referências trouxerem charme ao texto. O título chamativo casou bem com a estória.
    Os diálogos foram bem inseridos, gostei em especial deste:


    — Você fala como um escritor, Rick.

    — Mas escrevo como um imbecil.”

    O humor também foi muito bem empregado na narrativa:

    “Tive a impressão de que meu amigo não conseguia digerir aquela reflexão, travando as engrenagens do cérebro por receber uma inusitada ordem de serviço.”

    “Difícil de admitir, mas agora era apenas eu.” achei que essa frase teria dado um final avassalador e poético.

    No entanto, a condução do final escolhida pelo autor também satisfez as expectativas.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  5. Srgio Ferrari
    22 de maio de 2014

    rsrsrs óia, é o poder das luzes piscantes que encanta os mais fáceis. Até aparecer o numero 4 na narrativa e a partir dele , aí então eu vi a história engrenar. Mas antes….(e olha que antes vem um mundaréu de palavras) pode cortar tudo e começar do 4 em diante que fica uma opera faroeste até decente. Se o narrador fosse em terceira pessoa daria muito mais dinâmica pro conto. E no fim, tbm este não tem uma grande ideia. Dias difíceis eu só busco grandes ideias. ainda mais num concurso….as pessoas estão muito fáceis ultimamente…hehehe Vc escreve muito bem. Mas este não é conto dos contos, né?

  6. Ricardo Gondim
    20 de maio de 2014

    Foi bom encontrar referências a Mark Twain em um história narrada com simplicidade e rigor. Como o Leandro B., também lamentei por Dedo-Torto. A frase “o inverno tem um poder incrível de resgatar lembranças na gente” é um axioma de grande beleza. Li prazerosamente.

  7. Thata Pereira
    19 de maio de 2014

    Gostei. No começo, esperei algo completamente diferente e confesso que fiquei um pouco frustrada por não ter acontecido. Adorei essas duas frases: “Nada existe além de mim e o vazio. E que eu não sou mais do que um pensamento.”

    Boa sorte!!

  8. Leandro B.
    13 de maio de 2014

    Neve, Martin, John, Rickon Stark… Não consegui não lembrar de game of thrones rs
    Gostei da narrativa. Achei Rickon um personagem extremamente simpático e fiquei sentido com a morte de dedo-torto. A perspectiva do bandido ficou muito legal. O autor conseguiu humanizar bem demais os personagens.
    Achei, contudo, o final um pouco morno. Pode ser por eu não ter entendido algo por trás.
    bom conto.

  9. Tom Lima
    12 de maio de 2014

    Gostei bastante, exceto o final.

    Parabéns e boa sorte.

  10. Pétrya Bischoff
    11 de maio de 2014

    Uma narrativa maravilhosa que, apesar do tamanho do conto, fez-me prender a atenção. Gostei da estória, principalmente ao introduzir Twain. A princípio o final me pareceu muito vago, então assimilei que a ideia foi justamente deixar essa incógnita: e agora?, ele vai partir, declarar-se, rouba-la ou permanecer na cidade?
    Foi legal, boa sorte.

  11. Rodrigo Arcadia
    8 de maio de 2014

    Bom conto com certeza. só peca esse final aí. mas tirando esse detalhe. gostei bastante do personagem narrador, de narrativa boa e segura, E que pena, queria mais que o confronto prolongasse trazendo emoção. Mas valeu!

    Abraço!

  12. Eduardo Selga
    7 de maio de 2014

    O texto é narrado com boa técnica e, apesar de grande, não ameaça querer sair do gênero narrativo chamado conto, como aconteceu muito em outros casos aqui. Mas é um texto opaco, sem cor. Os personagens não adquirem aquela aura de “vida própria” que os bons personagens costumar ter. Talvez se a influência do escritor Mark Twain sobre o protagonista fosse maior e perpassasse todo o conto e pontuasse todo o seu comportamento, talvez aí o conto ganhasse muito. Afinal, o homem do interior dos Estados Unidos era, modo geral, rude, e quando se tem um personagem ficcional que foge a esse estereótipo tendo por base uma persona real (Twain), seria muito bom aprofundar mais.

    Apesar disso, aqui e ali encontramos alguns traços de uma construção narrativa mais elaborada, em função do lirismo comedido do protagonista, como em “Tive de ficar em pé para não deixar as carruagens estragarem a única realidade da minha fantasia”.

  13. Fabio Baptista
    7 de maio de 2014

    Gostei!

    Algumas frases que me soaram estranhas:
    – mas sempre como se não houvéssemos destino
    – poças e daqui eu podia (“dali” ficaria melhor na minha opinião)
    – há em regozijar a mulher mais linda do mundo (não sei se “regozijar” se aplica nessa situação)
    – encarou enquanto beijava a refeição (beijava???? :D)
    – No primeiro parágrafo do capítulo 6 tem uma variação de tempo que não ficou legal.

    Ri nessa parte (muito boa!):
    – Sorte a minha ser mais alto do que ele, pois sua gargalhada jorrou saliva pra todos os lados.

    E gostei muito dessa frase:
    – A América é livre, menino, mas não é estúpida.

    A narrativa em primeira pessoa ficou muito bacana e convincente, inserindo com naturalidade o leitor no cenário.
    A caracterização dos personagens é excelente, os diálogos idem.

    Acredito que poderia ter caprichado um pouco mais na ação (não que ficou ruim, mas poderia ter detalhado mais).

    E o final… não gostei. Fiquei na ambiguidade se era sonho ou realidade (o que considero positivo!), mas, de qualquer forma, soou meio novelesco, sei lá.

    No apanhado geral, um conto muito bom.

    Abraço.

  14. Brian Oliveira Lancaster
    5 de maio de 2014

    Gostei, bem diferente do que li até agora. Sou mais “purista” quanto ao uso de palavrões, mas aqui se encaixaram muito bem. A ambientação também me chamou a atenção. Não sei porquê, me lembrou florestas do Canadá e Chuck Norris.

  15. mariasantino1
    5 de maio de 2014

    Ótimo conto. Gostei muito dessa frase: voz ___sufocada pelos dedos invisíveis do medo. Gostei muito do narrador personagem e sua condição letrada. O final também é bom e as descrições me fisgaram. Parabéns pelo trabalho.

    Sucesso.

  16. Anorkinda Neide
    4 de maio de 2014

    Muto bom e bonito. Parabéns!
    Sempre acho um pouquinho deslocado um cowboy culto, mas vale.. rsrsrs
    O final redentor foi gostoso de ler!

    Abração

  17. Swylmar Ferreira
    4 de maio de 2014

    Humbert Humbert!
    Um conto excelente muito bem escrito, digno de um faroeste americano. Linguagem simples e fácil de entender, seguindo uma linha bastante clara do conto. Uma bela surpresa neste final de domingo.
    Boa sorte!

  18. Davi Mayer
    4 de maio de 2014

    Muito bom o conto. Deu pra imaginar direitinho as imagens, mesmo que não tenha perdido tempo na descrição do ambiente. Texto bem formulado e seguindo uma linha bem legal.

    E o desfecho muito interessante, colocar um pouco de romance é bom também. Tantos outros textos aqui só vingança e morte. Parabéns.

  19. JC Lemos
    4 de maio de 2014

    O que um [SPOILER]Stark[SPOILER] anda fazendo por essas áreas? haha
    Gostei, inegavelmente bem escrito e bem descrito. Mergulhei em todas as cenas. A história foi bem dividida e o final foi a melhor parte. No fim, ele acabou escrevendo a sua história de “capanga herói”. hehe
    Em um certo momento, achei que o texto correu um pouquinho, mas entendo que esse limite as vezes nos quebra.

    Um bom texto, que certamente será muito bem apreciado pelos outros leitores.
    Parabéns e boa sorte!

  20. Claudia Roberta Angst
    4 de maio de 2014

    Tenho algo a declarar: apesar de longo, nem senti. Isso é um tremendo elogio vindo da minha parte, creia. Último capítulo de novela, últimos parágrafos do romance preferido, o que for, pegou-me. A linguagem dominou minha preguiça involuntária de domingo, fisgou meus sentidos e cá estou rendida a esse conto. Os diálogos, decerto, contribuíram e muito para que a leitura seguisse tão agradável e interessante. Há uma linha poética, uma flexibilidade sutil nas construções realizadas, uma armadilha de imagens. Pronto, gostei, deu pra entender? Boa sorte! (pra mim, porque você nem vai precisar dela)

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Publicado às 4 de maio de 2014 por em Faroeste e marcado .
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