EntreContos

Detox Literário.

Um Estranho Duelo (Thiago Lopes)

duelo

Lembro com nitidez: ao som das esporas, seguiu-se a figura imponente – a pele queimada pelo sol do Norte, os olhos cinzentos, o chapéu de couro e a barba longa, como a de um profeta. Entrou calado na barbearia de meu avô, incutindo silencio e medo em todos nós. Dava entrada o homem mais procurado em todo o país, cuja cabeça valia terras e gado. Temor da polícia e dos bandidos, eis que chegava Severino Correia de Assis, o Severino Cascavel: corpo fechado, batizado por Padre Cícero, descendente de Lampião, justiceiro das caatingas.

***

Este conto faz parte da coletânea “Devaneios Improváveis“, Segunda Antologia EntreContos, cujo download gratuito pode ser feito AQUI.

33 comentários em “Um Estranho Duelo (Thiago Lopes)

  1. Daniel
    25 de maio de 2014

    Parabéns pelo conto, gostei muito do final e das ousadias com relação ao gênero. A tensão me parece bem trabalhada pra tão poucas linhas. O cuidado com a linguagem, que se mostra totalmente em conformidade com a ambientação do conto, estará excelente após uma revisão ortográfica e sintática.

    Quanto aos “era a de”, “é que”, “foi que”, “eis que”, traz uma auto-referencialidade à narrativa bem legal, além de estabelecer um certo ritmo muito particular do seu texto, movimentando a dinâmica do tempo antigo, de reminiscência, que o início do texto traz ao declará-lo lembrança. Sabemos que vivo o garoto permaneceu, e o próprio comprimento do texto reitera que tudo convirja para esse final: a centralidade, para a vida do narrador, daquilo que o conto não narra (após apertar-se o gatilho), parece ao leitor o motivo mesmo do depoimento, da narração.

  2. vitorts
    21 de maio de 2014

    Ótimo conto! De enredo simples, mas a construção foi muito bem elaborada. Acho que o ponto alto do conto foi a forma como conseguiu passar os sentimentos dos personagens. E o final fechou muito bem, mesmo, o texto.

    Parabéns por isso!

  3. Rodrigues
    21 de maio de 2014

    O ferro da arma apalpando o corpo de ambos os personagens numa situação limítrofe traz a sensação mais forte do velho oeste: a quase morte, ou a morte que ronda – folclore criado pelo cinema do estilo e historicamente desmitificado, pois em algumas regiões do velho oeste brigava-se mais pela curva do rio ou pelo teco de terra mais gordo, e na porrada. O texto não prima pela língua ou pelas imagens, é seco, tem ritmo e charme, além de algumas repetições que tornam esse ritmo por vezes mais intenso. O ambiente de uma barbearia, normalmente cheio de signos e tradições entre homens, foi uma escolha de mestre. Ali não é necessária uma maior descrição ou explicações mais detalhadas, visto que somente o nome do recinto já solta cheiro de espuma de barba, cabelo que rola no chão – como o feno solitário – e o encarar do descabelado com o olhar atento do barbeiro, o que já é uma situação tensa e intima por si só. A inocência do menino à beira das duas cobras velhas traz o refresco necessário, é por seus olhos que analisamos o velho e o bandido, o que faz da violência centrada nos machos à beira de um ataque de nervos, algo lúdico e leve. O valor do conto está nessa mistura, na escolha certeira do ambiente, na simplicidade da história e no final – deveras feliz.

  4. Marcellus
    17 de maio de 2014

    O final do conto é excelente! Realmente muito bom!

    Existem alguns pontos, como por exemplo, o garoto saber detalhes do avô que, normalmente, seriam ocultados a uma criança. Ou o tamanho da espingarda, para ser apontada para o moleque.

    Infelizmente, mantendo meu padrão de votação, não é um faroeste “como deveria ser”…

    Boa sorte ao autor!

  5. Bia Machado
    17 de maio de 2014

    Muito bom, funciona de forma bacana, nada a mais, nem a menos, em minha opinião. Por enquanto é o meu preferido, parabéns! 😉

  6. Sérgio Ferrari
    13 de maio de 2014

    Esse conto merecia muuuito mais comentários.

  7. Leandro B.
    13 de maio de 2014

    Nossa, que conto foda.
    Olha, parabéns. Não tenho nenhuma sugestão. Fugiu dos padrões, ousou e foi feliz na tentativa.
    Narrativa muito boa, tensão muito bem empregada, excelente reviravolta…
    Eu tiro o chapéu, Heleno.

  8. Felipe Moreira
    8 de maio de 2014

    Segunda ambientação no Brasil que vejo e essa eu gostei mais. Bem narrado, nos moldes da cultura nordestina, tão rica e deliciosa de se experimentar.

    O final, contudo, me ganhou. Excelente.

    Parabéns e boa sorte.

  9. Swylmar Ferreira
    5 de maio de 2014

    O enredo do conto é muito bom, com a narrativa ambientada por aqui, mostrando originalidade no texto e personagens de nome interessante (Severino Cascavel). Gostei do final com a arma descarregada, afinal seu nome não era cascavel a toa, não é?
    Parabéns pelo conto.

  10. Davi Mayer
    4 de maio de 2014

    Muito bom. O que esperar de um conto mesmo. Uma trama envolvente, personagens bem desenvolvidos sem se demorar muito, o climax, e o desfecho inesperado. ehehehehehe Parabéns.

  11. Isabella Andrade
    3 de maio de 2014

    Que coisa não? uauauauuaa… eu adorei o fim, obviamente o conto foge um pouco do que esperamos ler quando entramos no post, mas ficou interessante. Confesso que ache tudo cômico, e o final foi realmente inusitado. Lembrou-me um amigo meu que usa muito desse artificio. Parabéns e boa sorte!

  12. Brian Oliveira Lancaster
    2 de maio de 2014

    Gostei do impacto final. Curto, inusitado e audacioso. Faroeste caboclo?

  13. Rodrigo Arcadia
    2 de maio de 2014

    Bem bacana, gostei. a tensão do menino nos prende a leitura. é mesmo um nervoso ter uma arma apontada pra você. bom final, acertou em cheio.

    Abraço!

  14. Tom Lima
    2 de maio de 2014

    Nossa! Estava esperando por esse conto! O nordeste dos cangaceiros me lembra muito o oeste velho americano.

    Gostei tanto do seu conto que quase ignorei o dedo no gatinho. 🙂

    Meus sinceros Parabéns! Um dos melhores que li até aqui!

  15. Thata Pereira
    29 de abril de 2014

    Uma história *muito* bacana. Adorei o final!! Algumas repetições de palavras me incomodaram durante a leitura, mas esse final. Adorei!

    Boa Sorte!!

  16. Fabio Baptista
    28 de abril de 2014

    Quando estava começando a escrever, não entendia a diferença entre conto, romance e novela.
    Bom, continuo sem entender direito, mas o apanhado geral do que li a respeito diz o seguinte (sobre a categoria “conto”):

    – Poucos personagens com fala
    – Espaço ficcional restrito (uma cozinha, um quarto de hospital, um jardim…)
    – Tempo de narração restrito (não dá tempo do personagem dormir… acordou já não é mais conto :D)
    – Concisão (se for aparecer uma espingarda, logo ela tem que atirar… se estiver carregada, é claro! :D)
    – Final impactante (ok, esse aqui não é uma unanimidade, mas eu acho que faz parte)

    O que acabei percebendo na prática é que acabamos considerando “conto” qualquer texto curto, observando somente a quantidade de caracteres. E de um ponto de vista mais radical, isso não é “correto”, porque poderíamos ter um conto de 200 páginas (descrevendo todas as intempéries enfrentadas por um passageiro de ônibus em uma única viagem) ou um romance de 2 páginas (contando resumidamente toda a vida de uma moça bonita do berço à cova) por exemplo.
    Levando a ferro e fogo as definições do gênero, a maioria dos textos escritos aqui nesse desafio (o meu inclusive) e também na maioria dos outros desafios, não se encaixaria como “conto”.
    Seriam “mini-romances” ou “mini-novelas”, não contos, pois retratam muitas vezes toda a vida de um personagem, não apenas um momento isolado como “pregam” as definições.

    Mesmo os grandes contistas acabam burlando essas “regras”… “A Aposta” de Tchecov, por exemplo, se passa num período de 15 anos. “A Cartomante” de Machado de Assis também não se resolve num “Tempo de narração restrito” e por aí vai…

    Pelo menos é essa a minha impressão.

    Bom, sinceramente não vejo problema nenhum em burlar qualquer tipo de regra na literatura ou nas artes em geral. Temos pequenas obras-primas consideradas “conto”, que passam por cima de todas essas definições.
    Não tem receita de bolo.

    Mas…

    Quando o autor consegue seguir aqueles itens e aplicar técnica de escrita, não é raro obter um resultado diferenciado.
    Nesse caso aqui, o resultado foi espetacular.

    Esse é o tipo de história que fica na cabeça por muito tempo, que diz tudo falando pouco, ou ainda melhor… falando nada.

    O principal fica nas entrelinhas e na imaginação do leitor.

    Pequenas arestas:

    – “Mas Severino era homem astuto…” tem muitas repetições de palavras nesse parágrafo. E um “seu avô” que acredito que era “meu avô”.
    – Silencio (na verdade… estou percebendo que nem o Word nem o Chrome corrigem essa palavra sem o acento, mas imagino que o correto seja “silêncio”).
    – Winchester é uma arma grande, uma espingarda. Acredito que para a situação ali, seria melhor um revólver.

    Excelente, meus mais sinceros parabéns.

    Abraço!

    • Gustavo Araujo
      23 de maio de 2014

      Um colt seria o ideal. Mas não sei se havia esse tipo de arma no Nordeste…

  17. Sérgio Ferrari
    28 de abril de 2014

    Digitem no youtube: Vereador Caruaruense Heleno.

    Pronto…tá lá o autor! rs

  18. Sérgio Ferrari
    28 de abril de 2014

    Ai caramba. hahahahaa Obrigado.

    (como o pessoal fala de tamanho aqui, hein. Pode ter 2 linhas ou mil, e daí? Qual a cor do cavalo branco de napoleão? é a mesma análise. Não importa! Nunca, a não ser que não tenha fim, por erro. Só. Jura que é pequeno? tsc…) Tem uma garota q todo concurso fica com medo de conto grande e sempre que tem um pequeno metade vêm e diz: nossa que curto… enfim, qual o perrenhe com isso? rsrsrsrs

    Foda demais o conto. Parabéns 😀

  19. Ricardo Gondim
    28 de abril de 2014

    Muito, mas muito bem sacado, sem trocadilhos. O conto registra com riqueza de detalhes o momento. Nem mais, nem menos. Como que tem que ser.

  20. rubemcabral
    28 de abril de 2014

    Achei bem divertido, gostei da ambientação no NE brasileiro e apreciei os clichês do gênero também. Muito bom!

  21. R.Sollberg
    27 de abril de 2014

    Suspense e adrenalina. Simples, limpo e conciso. Narrativa envolvente e muito boa ambientação. No final, me lembrou um pouco a cena do “Assassinato do Jesse James pelo covarde Robert Ford. Ao menos uma das cascavéis estava precavida, afinal.
    Parabéns e boa sorte.

  22. Pedro Luna
    27 de abril de 2014

    Caramba. Por um lado não gostei de ser um conto tão curto, sem desenvolvimento (apesar de haver uma espécie de desenvolvimento no relato do passado dos personagens) das criaturas, mas por outro, gostei muito do resultado pois entendi a ideia e bastou só isso de palavras mesmo. Conto bem visual ( a cena da barba sendo feita enquanto o cliente mira a arma no guri foi boa), divertido, e bem escrito. Parabéns ao autor 🙂

  23. Thales Soares
    27 de abril de 2014

    Corre menino!!!! O Severino vai voltar pra te meter porrada agora!!!!!

    Olha, eu nem tenho nada a dizer sobre esse conto, sério.
    O que era pra ser dito meus amigos já disseram.
    Fora isso… bom, parabéns, se o desafio se encerrasse hoje, você seria o grande campeão, disparado. Aposto que ao conferir o tamanho do texto antes de lê-lo, ninguém imaginou que estava diante de uma obra de arte tão singular quanto essa. Mas você conseguiu surpreender com poucas linhas, com poucas ideias. Apenas com uma ideia central e simples e uma escrita extremamente envolvente.

  24. Weslley Reis
    27 de abril de 2014

    O ponto alto para mim é o dizer tanto com tão pouco. É um texto curto, mas que te leva a imaginar diversas questões que possibilitaram essa situação.

    Fora a ótima transcrição para o cenário nacional.

  25. Eduardo Selga
    27 de abril de 2014

    Ambientar um enredo de faroeste no Brasil é uma ideia muito boa e original, e estava esperando aparecer quem o tentasse. No entanto, pecou quanto ao tamanho. A trama pedia mais desenvolvimento, mas o(a) autor(a) não ouviu a voz do texto. O resultado, por isso, deixou a desejar.

    Positivo foi, pelo fato de o espaço ficcional situar-se no Brasil (Padre Cícero, Lampião, caatingas, pai de santo), alguns marcadores do gênero estarem ausentes (saloon, a cidadezinha de rua única, etc), mas, ainda assim, poder ser classificado (mas não sem dúvida) no western. Isso por causa da postura de Severino Cascavel diante da possibilidade de ser golpeado, à explícita menção à famosa marca de arma de fogo, ao clima de tensão entre os três, a mesma que vemos naqueles duelos ao por do sol.

    Outro ponto positivo é a a inexistência do herói, nos moldes clássicos. Ou seja, se Severino é o vilão, o avô não é menos. E o menino também não se enquadra no protótipo de herói, dado que sua intenção não se concretiza. ele é um quase herói. Quebrar a relação maniqueísta do western clássico é uma estratégia interessante e funcionou bem.

  26. mariasantino1
    27 de abril de 2014

    Que pena! Era pra tá carregada. rsrsr. Brincando aqui, adorei o conto, um pequeno recorte. Um conto breve, tenso e muito bom. Não sei quanto aos outros, mais eu sempre prefiro o que é ambientado em nosso pais. Boa sorte. Sucesso.

  27. Jefferson Lemos
    26 de abril de 2014

    Que final foi esse, hein? hahaha

    Gostei do conto do começo ao fim! Esses dias eu estava conversando com a minha namorada, e dizendo que os melhores contos do desafio provavelmente seriam os maiores, pois iriam trabalhar mais o estilo western e tudo mais, Mas esse texto calou a minha boca. haha

    Achei o conto muito legal, e a ambientação no Brasil ficou tão suave que nem se fez perceber.
    Parabéns e boa sorte!

    P.S.: Tenho uma vaga ideia de quem possa ser o autor.

  28. Claudia Roberta Angst
    26 de abril de 2014

    Gostei mesmo! Curto, interessante, ágil. O eco do “eis que…” e o silêncio sem acento foram as únicas coisas que notei de menos apropriado ao texto.
    A narrativa prende a atenção e surpreende. Fugiu do lugar comum e agradou bastante. Parabéns! Boa sorte.

  29. Pétrya Bischoff
    26 de abril de 2014

    Aaaah! PARABÉNS! Arrepiei com esse conto. Não é exatamente do estilo e narrativa que gosto, mas foi uma ideia maravilhosa. Um faroeste do cangaço. Um guri mais que cabra macho. Certamente estará entre meus eleitos. Boa sorte!

  30. Thiago Tenório Albuquerque
    26 de abril de 2014

    Olha gostei do conto. Meio curto, mas se fez entender.
    Gostei dessa fuga do western para o cangaço, só não estou certo se pode ser considerado como pertencente ao gênero.
    De qualquer forma parabéns pelo texto e boa sorte no desafio.

  31. Anorkinda Neide
    26 de abril de 2014

    corrigindo: o final foi melhor ainda!

  32. Anorkinda Neide
    26 de abril de 2014

    huahiuha muito bom! eu queria uma ambientação fora dos Estados Unidos…
    já ri gostosamente, quando li:’e eis que o bote mais inesperado…’
    o melhor foi melhor ainda!
    Parabens!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 26 de abril de 2014 por em Faroeste e marcado .