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Detox Literário.

Poncho de la Pachamama (Anorkinda Neide)

PONCHO DE LA PACHAMAMA

‘contra mim bate a esperta difusão
do tempo, a extensa confusão do
olhar, a vibrante galeria da
cor: o espaço. durante uma
pequena e qualquer loucura, não
me componho.
se não somos mudos, ficarei
surdo. nestas rochas onde o
sol se desleixa e persegue as
águias que escondem ninhos
secos.
e é quando tento agarrar
o sol que reparo ter
as mãos convexas’ ¹

 

Com uma inspiração profunda e um suspiro, Pablo, defronte da placa indicativa de sua villa nativa, exclama:

– Enfim, voltei!

Foram 15 anos metidos em sandices e todo tipo de revezes, que culminaram neste regresso inusitado. Se Pablo soubesse, de antemão, a que conseqüências suas escolhas levariam, jamais teria saído de Purmamarca. Uma cidadezinha ao pé da Serra das Sete Cores, Argentina.

“Ah… Pachamama²… Guardastes minha Estrella, sob tua proteção por todos estes anos?’

Pablo, incitou o cavalo e pôs-se a descer pela estradinha das mulas, único acesso à villa.

Caminhos de seus ancestrais Incas, as colinas e serras do noroeste da Argentina estavam povoadas por pequenas aldeias, de casas baixas de alvenaria. Especialmente Purmamarca, nasceu sob o Poncho de la Pachamama, como Pablo chamava a sua serra colorida. A montanha lhe lembrava um poncho a agasalhar seu povo, sempre tão necessitado de proteção.

La Pensión, o albergue da aldeia recebia os viajantes que vinham pela estradinha das mulas. Comerciantes e criadores, pernoitavam ali, refugiando-se do frio e do vento gelado. Vagabundos e andarilhos também por ali paravam, recebendo acolhida de D. Concepción, dona da pensão e de um imenso coração.

Viúva, mãe de duas filhas, conseguira consolidar a família, mantendo sua filha mais velha, Violeta, casada e com filhos, sob o mesmo teto, todos auxiliando no funcionamento do estabelecimento. Estrella, a filha mais nova, também permaneceu por ali, alegrando as noites de Purmamarca com sua cantoria nas noites festivas em La Pensión.

O céu estrelado e o clima ameno trouxeram Estrella a dedilhar seu violão do lado de fora do albergue. Zilito, o bêbado forasteiro adotado pela villa como se fora morador local, aproximou-se e sentou a um canto ao lado da porta:

– Señorita, fico aqui, de longe, pra ouvir suas cantigas… Assim não sentes o bafo de aguardente.

A moça seguiu cantarolando baixinho e sorrindo para o amigo. Estrella gostava demais da companhia dele… Era um homem simples e simpático com quem ela conversava confiantemente, posto que no dia seguinte, ele nada lembrava da conversa. Sempre borracho, o pobre homem chegou à villa como um andarilho, nunca disse de onde veio nem que tristezas carregava consigo.

– Esta canção é tão triste, señorita… Falas de algum amor perdido?

– Estás cansado de ouvir minha história triste, Zilito.

– Jamais contou-me coisa alguma, señorita! – E Zilito gargalhou como somente os bêbados conseguem. Até perder o fôlego.

A amiga desconfiou, por alguns segundos, de sua amnésia alcoólica, mas logo sucumbiu à vontade de falar-lhe das coisas do coração…

– Todas as noites rezo a Mama Quilla³ para que oriente os caminhos de Pablo…

Já recomposto da risada, o borracho pergunta:

– Quem é Pablo? Nunca vi aqui na villa…

– Ele foi embora há 15 anos. Recebeu uma proposta de um desconhecido, para trabalhar sabe-se lá no quê, não sei onde. Eu sabia, mas fiz questão de esquecer. Não gostei do sujeito e não confiei nele. Mas Pablo ficou encantado com as histórias e promessas. Hipnotizado, eu acho… Era muito jovem. Não prometeu voltar, mas eu o espero. Eu sei que ele volta.  Sua serra colorida está aqui, ele vai querer voltar pra ela.

– Não é pra señorita que ele vai voltar?

– Também. No coração dele, eu e a sua terra somos a mesma coisa.

– Não entendo, señorita…

– Deixe assim, meu amigo… Deixe assim.

D. Concepción apareceu à janela:

-Vocês dois aí… Vamos entrar para dormir.

Ao fechar as portas, a boa senhora pergunta-se:

“Que destino terá minha filha, tão sonhadora e amiga de vagabundos?”

Suspira e apaga as luzes do albergue.

Pablo chegou próximo a Purmamarca naquela mesma noite, mas decidiu acampar antes de entrar na aldeia. Pensou ter ouvido a voz de Estrella cantando baixinho e dormiu sob o luar embalado pelo mais doce acalanto.

Ao amanhecer abateu-lhe o mais profundo acanhamento por voltar assim, de repente, tanto tempo depois. Como o receberiam?

Andou, de longe, em torno da villa observando a movimentação. Parecia que algumas pessoas se preparavam para um ritual…

“A oferenda a Pachamama! É hoje! Como eu pude esquecer?”

Depois que um bom número de pessoas seguiu em direção à montanha, Pablo dirigiu-se ao albergue.

– Buenos dias, amigo!

– Bem-vindo! Em que posso servi-lo?

– Um café forte, por favor.

Ao servir o viajante, Martin, genro de D. Concepción, pergunta:

– Vens de longe? Aparentas cansaço, amigo…

– Viajei muito, mas venho daqui mesmo. Não me reconheces, Martin?

E quando o homem abre um sorriso largo, ainda que temeroso, o amigo exclama:

– Pablo? Não pode ser! Não poderia te reconhecer… Estás muito diferente! Que aparência é esta, meu amigo?

E abre os braços para estreitar o amigo entre eles.

– Deixa só a Estrella te ver! Que felicidade!

– Onde ela está?

– Está na Corpachada º, é claro!

– Melhor assim, minha filha não pode te ver neste estado! Parece um bandido, um vagabundo da pior espécie! – Disse, enfática, D. Concepción, enquanto dava-se a avistar ao recém-chegado.

– Mamá! – Pablo intenta abraçá-la. mas a senhora permanece imóvel.

– Não sou sua Mamá! Então tu vais embora e reapareces com esta cara de cão maltratado?

– Eu quero contar por tudo o que passei, Mamá Concepción…

– Isto tu tens que contar pra Estrella… Agora precisas tomar um banho e melhorar essa aparência. Violeta, prepara uma refeição fortalecida pra este morto de fome aqui.

– Estrella me esperou por todos estes anos?

– Mas, se ela não fez outra coisa!

Pablo tentou sorrir, mas o fato era sério demais para felicidades e sorrisos.

De banho tomado e barba feita, o homem conseguiu relaxar e esquecer do motivo de ter voltado, partilhando a expectativa dos amigos em ver a surpresa que Estrella, sua Estrella, teria ao vê-lo.

Mandaram que ele fosse até o Algarrobo, a árvore centenária que simbolizava e presenciava todos os grandes eventos de Purmamarca, e esperasse que Estrella fosse encontrá-lo lá.

O peito de Pablo se apertou com uma lembrança terrível, mas ele não podia pensar nisso agora.

“Ai, que meu coração bem sabe o que se passa… Os rostos de minha família, denunciaram tudo… Será possível?’

A moça pensava a caminho do Algarrobo.

E, sim, lá estava Pablo com seu inconfundível sorriso aberto, ele voltou! E num abraço significativo, os namorados confirmaram, que, enfim, estavam juntos novamente.

– Que barbaridade eu fui fazer, meu amor! Serás capaz de me perdoar?

– Não há nada a perdoar, que idéia extravagante! – E Estrella fez com que ele mirasse a montanha colorida. – Eu sou como o Poncho de la Pachamama, sempre estive aqui para te envolver com meu amor.

– Nem sei por onde começar a te explicar porque parti…

– Disso eu sei bem, queria saber o que lhe aconteceu… Pareces tão castigado e sofrido, meu bem…

De repente, Pablo sentiu um peso enorme no coração e no corpo todo.

– Para contar tudo eu precisaria de muito tempo.

– É melhor mesmo me contares tudo em outra hora, outro dia, num outro momento!

Estrella percebeu a tristeza dele e quis reanimá-lo:

– Diga apenas que voltou para sempre…

– Ah… Isso certamente…

– Então te encontrei, hein, Pablo?

O homem truculento, de sorriso vitorioso nos lábios, acertou uma direita certeira no rosto do ex-amigo.

– Pensou, realmente, que iria fugir de mim por toda a vida?

Pablo não reagiu, num bar lotado, com mulheres e idosos, achou melhor colocar em prática o que planejou para aquele momento:

– Buenas, Gregório, temos contas a acertar.

– Temos contas? – O homem agarrou o outro pela gola da camisa. – Eu tenho uma conta a cobrar de ti, seu bastardo!

Pablo fez um gesto pedindo paz…

– Vamos resolver isto de forma civilizada? Temos aqui muitas testemunhas, eu quero propor um duelo. Com pistolas, hora marcada e a solução definitiva para nossa briga.

Gregório soltou o imprudente dando uma gargalhada:

– Queres apenas adiar o dia de tua morte!

– Que seja… Daqui a três dias em Purmamarca, ao amanhecer.

Estrella e Pablo passaram a tarde juntos, foram ao local do ritual a Pachamama e rezaram a ela por motivos diferentes. Ele visitou seus lugares preferidos e cobertos de lembranças, soube notícias dos parentes, quase ninguém restava ali na villa, que faleceram ou mudaram para outras cidades.

À noite, puderam, enfim, viver o seu amor da forma mais íntima sob o luar abençoado de Mama Quilla… Depois, Estrella ficou cantarolando baixinho no ouvido de Pablo, até que ele dormisse com a sensação de estar acolhido no ventre de uma grande mãe.

O dia amanheceu de forma calma e brilhante em Purmamarca. Parecia, inclusive, que os raios de sol estavam especialmente alegres, mas…

Dois tiros foram ouvidos. Estrella abriu os olhos, sobressaltada. Esperou ouvir mais alguma coisa, mas o silêncio era aterrador. Percebeu que Pablo não estava na cama. Sentiu-se desfalecer. Fechou os olhos e viu a imagem dele morto no chão.

Pablo caiu de costas, com o tiro certeiro de Gregório na altura de seu estômago. O seu tiro? Não sabe que direção tomou… Ele nunca fora bom com armas…

Ali, à meia-sombra do Algarrobo, Pablo olhou para a serra colorida. Sua visão estava turva, mas ele viu o Poncho de la Pachamama vir sobre ele, a encobri-lo num aconchego final.

Estrella correu até a árvore centenária, mas ainda longe, viu Zilito aos pés do morto, rezando e encomendando aquela alma. De certa forma, sentiu como se ela mesma estivesse a velar Pablo. Deu meia-volta e trancou-se no quarto. Jogou-se na cama onde o cheiro e a presença dele ainda eram marcantes. Chorou todo o dia. E quando a noite chegou, a energia de sua Mamá Quilla lhe deu forças para erguer-se. Só então viu uma carta em cima de sua penteadeira.

Era de Pablo.

A moça percebeu que ele contava ali, naquelas linhas apressadas, o que viveu fora de Purmamarca. Estrella foi passando os olhos ligeiramente pela carta, mas, enevoados, não ajudavam na leitura. Ela esforçou-se em ler as últimas linhas com atenção: “Eu tinha certeza, minha Estrella, que a encontraria casada, com filhos, de todo esquecida de mim. Isso teria me ajudado a aceitar a morte, pois que eu sentiria uma dor egoísta, digna do final que terei. Mas reencontrá-la a minha espera, além de não merecer tamanho amor, me conduz, neste momento, a mais profunda dor, a dor de fazer-te sofrer. Peço que Pachamama cuide de ti, para sempre. Com amor, Pablo.”

Dez dias depois da morte de Pablo, Estrella estava pronta para partir. Não iria para longe. No alto da Serra de Sete Cores, seus pais criavam cabras quando ela era criança e era para lá que a moça decidiu voltar.

Sua mulinha estava carregada, dois sobrinhos iriam com ela para ajudá-la a instalar-se na casa de sua infância.

– Tem certeza, minha filha, que é isso que queres fazer?

– Minha mãe… Todo o tempo que vivi aqui foi à espera de Pablo. Agora não há mais o que esperar… Ficarei perto dele, lá na montanha. Estarei bem, acredite, Mamasita.

– Eu sei que estará, minha querida!

Estrella, com o violão amarrado às costas, incitou seu cavalo num trote lento e partiu. A família lhe dizia ainda palavras de despedida, saudade e as últimas recomendações, cuidados de quem se ama.

Logo atrás, Zilito, montado em uma mula, seguia a moça e os meninos. D. Concepción lhe pergunta, fingindo-se surpresa:

– Onde vais, homem?

– Viver na montanha. Alguém precisa escutar as cantigas lindas dessa moça, não é mesmo?

E, piscando marotamente para a viúva, gargalhou como somente os bêbados conseguem…

…………………………………………..

¹ – poema de vitor hugo mãe

² – Pachamama é a grande divindade da Cordilheira dos Andes da América do Sul. Representa a Terra em sua totalidade.

³ – Mama Quilla, divindade feminina. Os incas acreditavam que ela reinava sobre todas as estrelas, que estavam todas a seu serviço.

° – Corpachada, este é um dos ritos consagrados à Pachamama.

Para tanto, cava-se profundas covas, onde se enterram todo o tipo de comida e bebida. Este ritual é acompanhado de rezas e invocações à deusa.

35 comentários em “Poncho de la Pachamama (Anorkinda Neide)

  1. vitorts
    20 de maio de 2014

    Posso estar sendo muito restrito no conceito, mas não enxerguei o western aqui. A aparição de Gregório também poderia ser mais explorada. Afinal, qual o motivo da desavença? Um conto de amor bonito, mas acho que com uma engrossada o caldo sai mais saboroso!

    Boa sorte no desafio!

  2. Bia Machado
    18 de maio de 2014

    Gostei do conto fora do comum do que pode se dizer que seja um western, mas acho que poderia ter sido melhor elaborado, o começo para mim foi meio parado, é preciso reestruturar algumas coisas. Ainda assim, um bom conto.

  3. Marcellus
    17 de maio de 2014

    Este também não é um “faroeste” digamos assim… “clássico”.

    Talvez na hora de exportar o conto para o site tenha havido algum problema, pois o conto sem embaralha ao mudar de narrador, coisa que um simples parágrafo extra resolveria.

    Além disso, o que incomodou um pouco foi a quantidade de verbetes. E, talvez, o Hugo Mãe.

    Desejo sorte ao autor.

    • Anorkinda Neide
      25 de maio de 2014

      Sim! Como de costume, algo acontece com o arquivo q envio.. rsrrs
      mas desta vez, o problema foi pequeno, comparado aos outros desafios!
      Observastes bem.. teria uma separação de parágrafos maior entre um narrador e outro.
      Obrigada pela leitura! 🙂

  4. Swylmar Ferreira
    14 de maio de 2014

    Gostei do conto, li até o final com interesse. Enredo legal, ambientação legal, muito bom. Creio que o tamanho máximo permitido para o conto fez com que o autor encurtasse a trama. Daria uma excelente novela. Parabéns!

  5. Leandro B.
    13 de maio de 2014

    Então,
    até achei interessante colocar em destaque a mocinha na história. É um enfoque diferente sobre quem realmente sofreria com os duelos.
    Sobre o texto, achei ele… um pouco pálido, talvez. Como disse, achei interessante enfocar na moça, mas talvez fosse bacana entender o porque do duelo. Do jeito que está parece que ele ocorreu apenas para algo diferente acontecer na história, entende? Artificial, acho que é essa a palavra. O duelo pareceu um pouco artificial.
    Passaram-se três dias desde o encontro no bar e Pablo não se preocupou em contar para sua amada o porque ele arriscaria a vida na batalha. E, se contou, o narrador não repassou isso para os leitores.
    Que dívida é essa que Gregório veio cobrar? Divida de dinheiro, de sangue? Qual a relação disso com a sua primeira saída da cidade? Quais barbaridades ele cometeu?
    Entendo que talvez nada disso importasse para Estrella naquele momento, mas você atiçou a curiosidade do leitor (a minha, pelo menos) e não respondeu a essas perguntas.
    Acho que é isso. Achei um conto bacana, mas não consigo me animar tanto com ele com todas essas questões não resolvidas. Por isso, humildemente recomendo que você reveja essas partes. As contradições que devem emergir dessas questões certamente tornarão o duelo mais profundo e, por isso mesmo, mais envolvente.

  6. Pedro Luna
    9 de maio de 2014

    Olá… achei o texto bem construído. Os personagens estão bem legais. Zilito me lembrou um bebum de um livro que li ontem..hahaha. O que faltou mesmo foi uma ação melhor. Não que isso queira dizer muita coisa, já que nem todo texto precisa explorar essa veia agitada, mas no caso do tema, e do meu gosto pessoal, isso pesou. No entanto, é um bom conto. O final, com o fiel bebum seguindo a personagem foi bem bacana para encerrar. Abraços.

  7. Felipe Moreira
    8 de maio de 2014

    Não encontrei exatamente a relação ao tema, mas o conto é muito bom, sobretudo pela ambientação. Gostei da cidadezinha, da cultura, da linguagem entre eles. E me encantei com Estrella. Curti a morte de Pablo e a chegada de Zilito… haha. O final foi excelente. \o

    Parabéns e boa sorte.

  8. Thata Pereira
    5 de maio de 2014

    Diferente do esperado. Além da ambientação, o personagem em destaque é uma mulher. Corrijam-me se eu estiver errada, mas acho que nenhum conto fez isso até agora. Gostei. Algumas partes que pareceram corridas e como não é narrado em primeira pessoa, acho que dava para explorar um pouquinho mais o duelo.
    Boa sorte!!

    • Jefferson Lemos
      5 de maio de 2014

      Tente um Pouco de Carinho tem uma mulher como protagonista.

  9. Eduardo Selga
    3 de maio de 2014

    Teria dado um excelente conto a cidadezinha no meio do nada, rodeada por uma geografia surpreendentemente cromática, na qual há o infalível duelo. Mas há algumas fragilidades.

    Parece-me que a transposição do único elemento que neste conto liga o leitor ao western, o duelo, do interior dos Estados Unidos às montanhas da América do Sul faz com que não se trate de um texto de western, e sim um conto no qual há um duelo. Algumas outras obras aqui fizeram essa mudança de cenário e em um e noutro caso funcionou bem porque havia mais que um duelo não descrito, ao passo que neste conto ele apenas é mencionado (a consequência dele, sim, é narrada).

    Dois personagens têm um viés romântico bem acentuado, Estrella e Zilito. Ela possui esse tom por um motivo evidente: a esperança de que o amado um dia talvez retorne. Mote, aliás, muito batido.

    E justamente pela exaustão que esse tipo de personagem representa, ela merecia um dos dois caminhos: ou a radicalização romântica franca e aberta(o que quase aconteceu), ou essa característica deveria ficar à sombra de uma outra, oposta porque notadamente não romântica. No entanto, como com essa personagem não houve um bom trabalho, ela se transformou apenas numa mulher conformada ao sofrimento por amor, capaz de reagir tão modestamente ao retorno do amado longe por quinze anos. Nem possui a intuição trágica das mocinhas do Romantismo, nem a rebeldia das heroínas contemporâneas.

    Zilito, personagem de apoio, espécie de Sancho Pança sem Dom Quixote, não poderia mesmo ter ido muito mais longe do que foi. Contudo, há um traço nele que é apenas esboçado, mas que, uma vez acentuado, o enriqueceria muito: sua ambiguidade, no que tange à memória pós-bebedeira. Será mesmo que ele se esquecia? Essa suspeita surge no texto, mas não passa de uma conjectura sem maio aprofundamento. Outra possibilidade seria, ao invés de explorar esse ponto, acentuar um possível amor dele por Estrella.

    O protagonista não apresenta o riqueza que deveria apresentar. Não tem grandes conflitos internos, parece um tanto indiferente ao sentimento de Estrella. Ele é muito mais uma função dentro de um texto ficcional em prosa do que propriamente uma personalidade de ficção, e esse “vazio existencial” prejudica a qualidade do texto.

    Se Estrella tem mais brilho que Pablo, não seria ela, de fato, a protagonista? E se nós a considerarmos assim, o duelo não terá sido cenário para uma estória de amor que, brevemente reatada após tanto tempo, não segue à frente? Nesse caso não caberia muito falar em western.

  10. Isabella Andrade
    3 de maio de 2014

    Entendi o artifício usado para esse conto, noutro ambiente, o romance, toda dose de poesia aliada a boa qualidade do(a) autor(a), mas penso que descaracterizou demais o tema por aqui. Mas é só uma opinião. Desejo-lhe sorte!

  11. Rodrigo Arcadia
    2 de maio de 2014

    Gostei. os personagens nos atraem a seguir a história. um ponto positivo, é o ambientação fora do país do western. bem sacado por sinal. um gosto lirico e poético aqui.

    Abraço!

  12. rubemcabral
    2 de maio de 2014

    Gostei bastante, achei que o autor foi muito feliz com a troca da ambientação padrão dos westerns. Formei belas imagens enquanto lia e até fiquei curioso em conhecer o norte da Argentina.

    • Gabo
      2 de maio de 2014

      Que bom! Obrigada pela leitura!
      Pois que Purmamarca é hoje uma cidade turística, também fiquei com vontade de conhecer a serra colorida.
      Abraço

  13. Tom Lima
    2 de maio de 2014

    Belo conto. Mas parece que o limte de palavras influenciou a qualidade.

    São personagens tão belos que mereciam maior trato. Ou isso seja só eu querendo passar mais tempo com eles. Sei lá. 🙂

    Parabéns e boa sorte!

  14. mariasantino1
    29 de abril de 2014

    Este conto é diferente… Além de ser ambientado fora tem um toque diferente nos diálogos… Não achei ruim, achei diferente e que merece ser lido com carinho, para não deixar nada perder entre um diálogo e outro.

    Boa sorte no desafio.

    • mariasantino1
      29 de abril de 2014

      Repeti zilhões de vezes a palavra diferente 😦 Em resumo, não disse nada com nenhuma coisa. Parabéns pelo seu trabalho.

  15. Fabio Baptista
    28 de abril de 2014

    Mais um conto bem escrito e ambientado, mas que não me cativou.
    Achei o desenvolvimento muito arrastado e os diálogos me confundiram um pouco. Ficou meio “crú”. Como observou o Sérgio, talvez alguns detalhamentos ajudassem nesse sentido.
    O duelo não empolga e o fim, apesar de bem sacado ao relembrar uma frase do começo (gosto desse recurso), não emociona.

    Bom, essa é minha análise (totalmente subjetiva). Infelizmente não gostei.

    Abraço!

  16. Sérgio Ferrari
    28 de abril de 2014

    Ah, não gostei. Uma pena. As personagens não me interessaram, no meio já não queria masi saber o que aconteceria, no fim, confirmei que não queria mesmo saber, pois nem aconteceu “grandes coisa” tsc….acho que é pq o diálogo é muito cru. Se vc passar bastante tempo relendo o diálogo, pode notar que falta um pouco de descritiva de caras e bocas e trejeitos e ambientação de como falam, o que fazem enquanto falam e os resultados disso. Acho q foi isso. Boa sorte.

  17. R. Sollberg
    27 de abril de 2014

    Incrível o trabalho de pesquisa. Minucias que criam uma verdadeira sinestesia no leitor. Uma estória triste que por pouco não atinge um clímax arrebatador, como uma solitária viúva que não consegue alcançar o cume. Impecável no tratamento e no enredo, no entanto, faltou um pouquinho de força para emplacar o final.
    Parabéns e boa sorte.

  18. Weslley Reis
    27 de abril de 2014

    Um conto realmente bem escrito e com uma riqueza cultural interessante. Ressalto também a construção dos personagens que, mesmo não detalhada, funcionou bem comigo. O único porém é, pra mim, soar um tanto morno. O clímax não teve o efeito desejado.

  19. Thiago Lopes
    26 de abril de 2014

    Mesmo concordando com o Thiago Albuquerque, que pelo visto é bom conhecedor do tema e de literatura, acho natural a fuga dos Estado Unidos para outras regiões, mesmo que o Faroeste tenha nascido lá. Mas acho que aí está a graça da coisa: quando reutilizamos alguns recursos de um gênero, ao mesmo tempo em que o questionamos. Acho que legal é a brincadeira com o gênero. E aqui, neste conto, deu certo.

  20. Claudia Roberta Angst
    26 de abril de 2014

    Gostei das imagens, mas desanimei quando vi o tamanho…rs. Conto bem escrito, revelando domínio das palavras.
    O começo pareceu-me um tanto arrastado, em andamento ralentando, mas depois ganhou um ritmo mais interessante.
    A história não é surpreendente, mas se encaixa bem no tema faroeste e o toque de romantismo me agradou. O final que podia ser melancólico e triste foi suavizado pela presença de Zilito que deu um toque de humor e esperança. Boa sorte!

  21. Thiago Tenório Albuquerque
    26 de abril de 2014

    Gostei do conto, bem escrito e com uma ambientação que foge do “padrão”.
    Mas é justamente aí que ele me incomoda, a riqueza cultural exibida diverge do tema demasiadamente. O western é o gênero (tanto no cinema, literatura e banda desenhada) por excelência norte americano. Ele fala sobre um período de construção de um país e da desconstrução de uma sociedade em evolução. O western não só retrata a vida difícil do oeste americano e cercanias, como discorre acerca das transformações sociais derivadas do avanço tecnológico e da falência do sistema escravocrata. Fora os massacres de nativos.
    O conto é muito bom, mas essa fuga da América do Norte para a do Sul foi estranha.
    Parabéns por sua escrita e boa sorte no desafio.

    • Gabo
      26 de abril de 2014

      Obrigada pelo comentário.
      Só vim esclarecer, que ao pesquisar o tema, deparei-me, sim, como espraiamento do faroeste para outras ambientações, como Japão, Rússia e até o nosso cangaço é considerado faroeste.

      ‘Devido aos estudos dos géneros, tornou-se habitual argumentar que os westerns não teriam, obrigatoriamente, de se passar no Oeste americano nem no século XIX. Filmes como Hud, com Paul Newman; Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa; O Cangaceiro, do brasileiro Lima Barreto; ou alguns filmes de John Carpenter, como Assault on Precinct 13 (Assalto à esquadra 13, em Portugal) seriam, da mesma forma, westerns. Por outro lado, alguns filmes, apesar de se localizarem no faroeste, não seriam, necessariamente, westerns. É frequente ouvir alguns críticos classificarem alguns filmes como “westerns urbanos”, por exemplo.’
      direto da wikipedia.. rsrsrs

      • Thiago Tenório Albuquerque
        26 de abril de 2014

        Olá, verdade que alguns estudiosos tentaram quebrar esse paradigma sobre o western, mas se notarmos bem, a maioria das fontes citadas (filmes) se apropriaram da imagética e ideário do mesmo.

        O cangaceiro de Lima Barreto se utiliza dessa mesma imagética e alguns momentos técnicas narrativas (como a cena onde uma panorâmica, recurso utilizado ao extremo no western, mostra o vazio do cangaço e a construção das personagens).

        Particularmente não aprecio o filme, as falas demasiadamente cultas e castas tiram o realismo da coisa. Um cangaceiro que fala como um lorde acadêmico é demasiado chato.

        Os sete samurais de (Sama) Kurosawa se apropriou tanto do western que em 1960 filmou-se seu clone ocidental Sete Homens e Um Destino, que é considerado um dos maiores filmes do western americano, mas o original nipônico ainda é uma obra insuperável. Sobre J. Carpenter… Deixemos para lá.

        Não acredito no “western urbano”, as personagens continuam seguindo os mesmos padrões criados entre as décadas de cinquenta e o fim da década de setenta. E as tramas seguem em sua maioria com pieguismos sedativos.

        Não entenda mal o comentário que fiz, apenas sou purista e acredito que se o conto estivesse situado na área tão conhecida abordada no gênero, poderia ser comparado a alguns clássicos tanto da literatura quanto da banda desenhada (vide Mágico Vento que se apropria até mesmo de Poe como personagem em suas estórias).

        Um bom conto, rico culturalmente devido ao conhecimento amealhado pelo autor e bem escrito, mas que não me alcançou como eu esperava.

      • Gabo
        26 de abril de 2014

        Entendo perfeitamente o teu comentário.
        Apenas quis mostrar porque me achei no direito de usar outra ambientação, por isso trouxe a wikipédia q sei muito bem naõ ser a mais balizada fonte de informações.. rsrsrs
        Obrigada por seus esclarecimentos, eles são enriquecedores!

  22. Pétrya Bischoff
    26 de abril de 2014

    Bueno, gostei da escrita e vocabulário; apesar de não me agradarem as muitas expressões em espanhol. A estória é mediana, mais um amor sofrido com final previsível. Mas não desgostei. Parabéns e boa sorte.

    • Pétrya Bischoff
      27 de abril de 2014

      Ah, algo que deixei passar -e não poderia- é o destaque à Divindade feminina. Essas coisas me agradam ^^

  23. Anorkinda Neide
    26 de abril de 2014

    hummm.. western romântico.. gostei!
    Argentina.. belo lugar!
    Gostei muito do poema no início.
    Parabens!

  24. Brian Oliveira Lancaster
    26 de abril de 2014

    Em minha opinião, começa muito bem, conseguimos sentir o que os personagens sentem. Mas quando chega ao ponto alto, a montanha russa desce depressa demais – também tenho problemas com isso. No entanto, no geral, lembrou muito o clima de ‘México, índios e estradas de chão’, sem se apegar aos clichês “exigidos” para este desafio. Ponto para ambientação e início poético.

  25. Jefferson Lemos
    26 de abril de 2014

    Gostei da forma de como a história foi conduzida. Mesmo que a trama não tenha sido de todo agrado, eu não me cansei e até mesmo quis saber o que acontecia a seguir.
    (SPOILER)
    Não gostei de Pablo ter morrido, mas isso era meio inevitável, pois sem isso, o amor se tornaria apenas mais um amor.

    Enfim, eu gostei do conto, e mesmo ele não me agradando muito, e não tendo muito do western, ele ainda está mais dentro do tema do que outros aqui.

    Espero que outros possam apreciar mais do que eu.
    Parabéns e boa sorte!

  26. Thales Soares
    26 de abril de 2014

    Sempre gosto de ser o primeiro a comentar, pois assim não me influencio pelas análises de meus amigos.

    Achei o conto bem escrito, o autor com certeza sabe o que faz. No começo a narração estava meio ralentada e a leitura estava cansativa. Achei que seria custoso chega ao final. Porém, dei uma segunda chance ao conto e vi que o ritmo foi melhorando. A parte de amor água com açúcar me entediou um pouco novamente, mas a partir daquela parte que o texto está em itálico a história finalmente engrenou e a narrativa ficou muito boa.

    O que mais estou apreciando nesse desafio é que no final sempre tem um duelo, e eu adoro isso. No caso deste conto, há um foco nas consequências do duelo. Gostei da carta do Pablo e o final da história foi bem bacana.

    Resumindo: o conto realmente é bom, mas demorou demais para a história pegar no tranco, o que é um ponto negativo. Se não fosse meu compromisso ético de ler o conto até o final antes de realizar um comentário, eu desistiria dele na metade. Mesmo com essa vontade de parar de ler, fui até o fim… e não me arrependi, pois é lá que se encontra a alma desta história, onde tudo começa a se encaixar.

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Publicado às 26 de abril de 2014 por em Faroeste e marcado .
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