EntreContos

Detox Literário.

Ponto Final (Maurem Kayna)

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Tudo na natureza, tanto no mundo animado como no mundo inanimado, acontece segundo regras, muito embora nem sempre conheçamos essas regras. A água cai segundo leis da gravidade e, entre os animais, a locomoção também ocorre segundo regras. […] A natureza inteira em geral nada mais é, na verdade, do que uma conexão de fenômenos segundo regras.” Kant. 

A conversa sobre o suicídio coletivo dissipou sua sonolência, mas Bruno não abriu os olhos. Acompanhou o ritual, mais de quatrocentas pessoas ingerindo uma beberageme tombando pelo chão, em plena floresta. A senhora de pronúncia correta e voz rouca se dirigia a outra mulher, provavelmente mais jovem, falando como se a tragédia tivesse ocorrido há poucos dias. Sem saber que o veneno utilizado fora o cianeto de potássio misturado a substâncias sedativas e suco de frutas, ela repetiu o número de mortos como se o dado sublinhasse o absurdo e terminou o relato em tom apocalíptico:

– Ainda vai surgir outro demônio desses que conseguirá atingir a humanidade inteira, ouve bem o que estou dizendo.

O silêncio que seguiu a frase, logo que as portas do metrô se fecharam e a composição se movimentou,fez Bruno abrir os olhos e procurar pela dona da voz. Nada. Tentou voltar ao cochilo, havia ainda sete paradas antes de seu ponto de descida, distante seis quadras do prédio elegante onde passava o dia entregando correspondências e material de escritório para os departamentos jurídico, de engenharia e de recursos humanos da siderúrgica.

Após as entregas, tinha de atualizar os controles de estoque de materiais e conseguiu aproveitar para pesquisar na internet os dados que completariam as lacunas da história ouvida pela manhã. A selva úmida tomou contornos precisos e Bruno quase pode distinguir o semblante das pessoas confortadas pela promessa do reverendo reunindo-se para um sono sem traumas, definitivo. A descoberta de que tudo havia se passado nove anos antes do seu nascimento o surpreendeu. Depois da incredulidade ao ver as datas no blog sobre seitas, a primeira lembrança que lhe veio foi o velório do pai, quando foi obrigado pelos avós a se despedir e sentiu inveja do homem tranquilo que descansava em meio a flores, livre da chateação de ouvir a missa, de ser obrigado a comer vagens e emprestar seus brinquedos ao primo mais novo. Aos cinco anos, Bruno não sabia ainda que aquele repouso significava o fim das disputas de batalha naval que o pai tentava lhe ensinar, das perseguições fictícias na sala de estar onde ele era polícia e o pai fazia o ladrão e da carona para a escola no Opala azul escuro.

Naquele dia, antes de enfrentar o metrô superlotado para retornar ao apartamento minúsculo onde tentava se esquivar das conversas fiadas da mãe, passou no sebo da rua Augusta. Normalmente ia lá para garimpar quadrinhos adultos, mas dessa vez mostrou o papel meio amassado com os nomes do reverendo e da seita, o ano das fatalidades indicado entre parênteses. O atendente recorreu ao cadastro e logo encontrou quatro livros sobre o tema – um romance e três obras na categoria não ficção. O dinheiro que tinha na carteira deu para dois volumes apenas – escolheu o relato que lhe pareceu mais completo e o romance.

Não leu durante a viagem. Sonhou com um terreno árido sobre o qual se deslocava sem sentir a dureza do chão, como se deslizasse acima da aspereza, abençoando pessoas que jaziam de bruços, espalhadas ao longo do trilho que percorria. Um cão amarelo o seguiu com ar desconfiado e rosnou quando ele parou diante de uma criança que se espreguiçava ao lado da possível mãe, inerte. Acordou porque o corpo já estava treinado quanto à duração do percurso.

Em casa, a mãe preparava o jantar e surpreendeu-se com o cumprimento bem humorado e com as perguntas de Bruno sobre o cardápio. Àquela hora já não contava com a companhia do filho para a refeição. O costume era comer no quarto, derrubando farelos sobre o teclado do computador e resmungar qualquer resposta ao seu “dorme bem” depois que acabava a novela.

A satisfação de Telma foi tanta que ela evitou chamar a atenção para o fato dele estar falando com a boca cheia, na ânsia de perguntar se ela sabia da tal história das pessoas que se mataram na Guiana no final dos anos setenta. Telma sabia, dessa e de outras histórias de seitas em que as pessoas acabavam se matando, somente aquilo que os telejornais divulgaram. Comentou os detalhes que lembrava naquele caso dos malucos da Califórnia que pretendiam, com a morte, se encontrar com extraterrestres.

– Será que os caras tiveram mesmo alguma visão antes de juntar aquela gente toda?

– Visão o quê, Bruno. Uns loucos ou interesseiros que tiravam dinheiro dos seguidores, se esbaldavam com as mulheres que queriam e ainda diziam ser em nome de deus.

– Mas e se eles acreditavam mesmo ter uma missão?

– Sei não. Acho que no fim das contas eram mais filhos da puta do que fanáticos.

Bruno não seguiu no assunto. Agradeceu o macarrão, colocou o prato na pia e foi para o quarto. A empolgação com a leitura fez sobrarem poucas horas para descanso e se não fosse a intervenção da mãe quando o celular estridente foi ignorado, Bruno teria perdido o horário.

Os olhos ardiam, mas ele aproveitou o benefício de embarcar no trem antes que todos os assentos estivessem ocupados e aproveitou para terminar a leitura do livro O Culto do Suicídio, atento aos trechos sublinhados pelo dono anterior. Vez ou outra, levantava os olhos da página e apurava o ouvido, tentando reencontrar a voz que lhe revelara o desejo de investigar o tema. Mas a fonte do timbre rouco e ritmado como se tropeçasse em pedras arredondadas, não foi encontrada.

Os relatos que encontrara nos dois livros – tanto o jornalístico como o da ficção – lhe pareceram injustos, ocupando-se principalmente de acusar os líderes religiosos como usurpadores, assassinos ou meros desequilibrados mentais. Os poucos trechos que explanavam as teses da seita despertaram o interesse de Bruno e as anotações às margens das páginas amareladas – uma caligrafia incisiva –serviam de estímulo. Os alertas sobre a proximidade do final dos tempos eram tão lógicos, que ele se surpreendia por tantos insistirem em ignorar os sinais mencionados. O fato de as datas mais comentadas não terem se confirmado não lhe parecia um desmentido, mas um provável erro de cálculo em virtude das limitações tecnológicas de então.

No trabalho, Bruno não deixou de lado a cordialidade com as secretárias ou com o pessoal engravatado, mas a vontade de mergulhar mais fundo em busca de respostas que acreditava ser capaz de encontrar o fez trocar o papo furado no cafezinho para se concentrar em pesquisas pantanosas. A moça alta do jurídico que simpatizava com ele o achou um pouco menos sorridente e quis saber se estava com algum problema.

– Só estou usando o tempo sem tarefas para terminar uma pesquisa. É um trabalho de aula que preciso entregar amanhã. Acabei me atrasando e não deu para terminar em casa, mas não tem nenhuma entrega pendente.

Nada em seu semblante fez a jovem advogada duvidar da sua dedicação acadêmica, pois ela não sabia que ele ainda não havia passado no vestibular e vagava em indecisões quanto a insistir com o Direito ou tentar algo diferente.

– Ah, claro. Não há problema, isso não foi um puxão de orelhas, só fiquei preocupada com seu ar sisudo.

Bruno tranquilizou-a e interpretou bem o papel de aluno dedicado. Em um bloco de notas recolheu o que pode de referências e anotou uma lista de livros sobre o assunto, inclusive alguns em inglês e francês. Não procuraria todos no mesmo sebo e ainda não tinha certeza sobre o meio para contornar sua ignorância de outros idiomas.

A ansiedade fervilhava em Bruno como uma alergia que tivesse lhe coberto a pele. A enxurrada de conceitos e formas de ver o mundo que encontrara nas páginas faziam crescer uma vontade urgente de decifrar os mistérios de existir. Os livros pareciam conter todas as respostas, era questão de conseguir o tempo necessário para absorvê-las. Ficava a dúvida: por que a humanidade não conseguia aceitar? Talvez fosse preciso entender ainda o mundo por dentro das descrenças humanas e, então, vencê-las.

À noite comunicou à mãe que começara a se preparar para o vestibular de Psicologia.

– Vou passar na federal, mãe.

– E de onde veio essa decisão assim tão de repente? Achei que sua vontade era ser advogado.

– Não foi de repente, tenho conversado com pessoas lá da empresa e me informado sobre vários cursos.

– Bom, fico muito feliz. De verdade, mas não temos reserva pra pagar cursinho ou coisa parecida.

– Não esquenta, vou estudar por conta. Tem muita coisa de graça na internet.

– É, parece que você encasquetou com isso, então eu boto fé.

– Então dobra a fé Dona Telma.

Disse isso rindo, deu um beijo na testa da mãe e se trancou no quarto.Enquanto não conseguia todos os livros, ia se embrenhando nos links disponíveis e a cada ideia lida, revelações explodiam em sua mente.

Os poucos amigos não estranharam a dedicação, mas faziam piadas a cada recusa aos convites para o futebol ou balada, sem entender a batalha que Bruno parecia travar contra o tempo, sempre alegando urgência em aprender algo, terminar um livro ou assistir certo documentário.

Ao longo da graduação, mais do que passar sempre sem dificuldade em todas as disciplinas, Bruno empregou cada minuto disponível ao aprendizado de conhecimentos acessórios – de informática a idiomas, passando por correntes filosóficas e teologia. A meta de conhecer os caminhos da vontade e fraqueza humanas não permitia descansos.

Obrigado a abandonar o emprego para se dedicar ao estudo, mas ciente de que era desumano esperar que a mãe pudesse dar conta de tudo sozinha, Bruno descobriu meios de usar as habilidades que adquirira para ganhar dinheiro suficiente sem usar muito do seu tempo. O acordo com a própria consciência se dava pela seleção do público a quem favorecia a entrega dos produtos – Bruno direcionava seu serviço aos que considerava já perdidos, sem chance de recuperação.

No dia da formatura, dedicou flor e abraço à mãe, mas seu sorriso parecia mais triste que satisfeito. No jantar de comemoração com os familiares mais próximos, não demonstrou emoção quando comentaram o orgulho que teria o falecido pai. Feito o brinde,Bruno anunciou ter conseguido um emprego em Roraima.

Poucas semanas depois se despedia da mãe, partindo com pouca bagagem – algumas roupas, livros e o computador. Não quis que a mãe faltasse ao trabalho para leva-lo ao aeroporto e prometeu enviar o endereço e telefone assim que chegasse a Boa Vista.Bruno, entretanto não tomou nenhum avião naquele dia, passou ainda quatro meses em São Paulo, dando prosseguimento ao projeto que batizou de Missão Definitiva. Era preciso fazer uso da estrutura e facilidade de comunicação da megalópole, para preparar sua chegada à localidade isolada onde se instalaria. Não seria ingênuo usando panfletos ou postagens virais para anunciar o fim do mundo, tampouco incitaria pessoas a venderem seus bens para aguardar o dia derradeiro em algum arremedo de abrigo antiaéreo. Bruno havia estudado os argumentos que lhe permitiriam conduzir as pessoas no rumo pretendido. Não considerava sorte, mas uma espécie de predestinação que no momento em que se colocara à frente de tão ambiciosa empreitada houvesse ferramentas de informática úteis a seu fim. Lamentava um pouco a explosão recente de sites cheios de baboseiras referentes ao fim do mundo por conta das tais profecias Maias, que geravam desconfiança quando a informação correta era comunicada aos escolhidos para sobreviver, mas também aprendera as formas de prevenir e contornar eventuais resistências.

Ao desembarcar no aeroporto de Boa Vista, foi recebido por Ângelo, o pediatra agnóstico que se tornara seu braço direito havia cerca de um ano. Conheceram-se em São Paulo, durante a caminhada matinal que Bruno honrava mesmo nos dias de mau tempo. Naquela época a rede de contatos na web já estava consolidada e o olhar incisivo quando se cruzaram na pista de atletismo causou a Bruno a impressão de um reconhecimento. No terceiro dia depois de passarem a fazer o percurso juntos, o aperto de mãos selou a iniciação de Ângelo. Mesmo sem dar todos os detalhes do que pretendia executar, começou a envolver o médico e descobriu nele o complemento de habilidades e conhecimentos para alcançar seu objetivo.

A sobrevivência de Bruno estava assegurada pelo seu talento e agilidade em oferecer soluções para o tráfico através da internet profunda. Dar suporte ao maior grupo do crime organizado da américa latina rendia recursos suficientes para as instalações da sua base em BonFim. Os servidores foram instalados no porão do posto de saúde que Bruno coordenaria, camuflados entre geradores e bombas hidráulicas. Quanto à antena, todos acreditaram que servisse para amplificar o sinal de rádio que era o meio de comunicação mais eficiente por lá. Na pequena equipe, Ângelo era o pediatra e contornava como possível a falta de recursos e a ignorância da população. A técnica de enfermagem e os outros dois médicos desconheciam o projeto e nunca desconfiaram de nada.

Os algoritmos idealizados por Bruno e desenvolvidos pelos matemáticos do grupo já haviam permitido identificar os eleitos em cada país do mundo e a sequência de estímulos para todos os demais humanos conectados a qualquer tipo de equipamento ligado à teia mundial de computadores – de smartphones a televisões inteligentes – havia sido formulada com base em robusta engenharia social – nada de mensagens em massa, mas um recado pessoal com conteúdo vinculado às experiências mais íntimas de cada um, convencimento garantido. O mundo seria retirado das mãos dos vândalos e ignorantes para que os eleitos o resgatassem da desordem e da barbárie. Não o fim, mas o verdadeiro começo da humanidade.

O plano se estendia a detalhes práticos como a destinação dos corpos. Quando o processo tivesse início, Bruno não pretendia submeter os escolhidos de cada cidade ao impacto de toneladas de matéria orgânica se decompondo em qualquer rua ou shopping. Nas cidades mais populosas seria impossível eliminar completamente tamanho volume de material, mas o incômodo seria ínfimo se comparado às perspectivas que havia. Ao longo dos últimos três anos conseguira arrebanhar para o projeto as mentes mais capazes da área de química e engenharia, alguns em altos postos de conglomerados poderosos viabilizaram a construção de indústrias multifuncionais. Nelas seria possível dar conta da eliminação de imensas quantidades de corpos assim que cessasse sua atividade principal, cuja necessidade seria praticamente eliminada com a redução do número de habitantes – indústrias alimentícias e de cosméticos eram os principais suportes. As estratégias de coleta e destinação final dos eliminados também havia sido pensada por especialistas em logística e em diferentes meios de transporte. Cada um desses tantos colaboradores havia sido perfeitamente convencido por Bruno de que estariam entre os salvos, mas na verdade nem todos haviam atingido a pontuação mínima necessária.

Depois de três meses morando no local escolhido com precisão, Bruno já conquistara todos na comunidade e ninguém chegou a desconfiar das tantas caixas com equipamentos – algumas haviam chegado pouco antes dele, ficando sob os cuidados de Ângelo que havia assumido o cargo há poucos meses. Assim que Bruno assumiu a coordenação do posto de saúde houve a inauguração do modesto consultório odontológico, fachada perfeita para justificar os caixotes com remetente estrangeiro – o dentista que veio em seguida era um apoiador de terceiro escalão. Ambos trabalhavam com paciência, ouviam as queixas dos colegas que em geral suportavam por pouco tempo a vida naquelas distâncias, o calor, as chuvas, a opressão da selva. Bruno enviava notícias à mãe a cada semana e dormia pouquíssimo, dedicando as madrugadas aos contatos com associados do mundo todo.

Sua alcunha nas redes da web profunda era The Last King e seu ministério virtual contava com algumas centenas de cérebros geniais e desconectados emocionalmente das sociedades em que viviam.

O tempo de colocar em marcha todas as ações planejadas se aproximava – o equinócio de outono fora a data escolhida –, logo o dominó cuidadosamente armado começaria o sinuoso movimento de modo simultâneo no planeta inteiro. Não havia mais tarefas a executar, restava o auto controle até que a hora se apresentasse.

Na semana anterior à limpeza, ele e Ângelo decidiram realizar uma excursão à floresta, do outro lado da fronteira, como uma espécie de ritual preparatório para o capítulo final. Contratam um mateiro para guiá-los e se comportaram como se estivessem apenas interessados em fazer fotografias da floresta. Bruno e Ângelo não conversavam durante a caminhada, limitavam-se a responder os comentários do caboclo com pele tingida de sol e floresta. Quando chegaram à margem do Rio Tacutu, pediram que os deixasse seguir sozinhos até a castanheira cujo tronco avistavam daquele ponto. O homem não gostou da ideia, alertou dos perigos. Queriam apenas fazer uma oração, responderam. Contrariado, o mateiro disse que esperaria ali mesmo, mas achou loucura aqueles doutorezinhos sem calos nas mãos se embrenharem em distância que não sabiam medir.

Caminharam, ainda quietos, no rumo do tronco que se destacava dos demais. Aos pés da castanheira os olhares de Ângelo e Bruno se sustentaram. Os dois homens magros, de baixa estatura, se tornavam insignificantes em meio à vegetação e aos sons que não sabiam interpretar. Mediam-se mutuamente – Bruno seguro da necessidade que Ângelo tinha de segui-lo, equivocado, no entanto. Foi Bruno quem falou, voltando-se para o longo fuste da árvore.

–        No dia vinte, três minutos antes das cinco da tarde.

–        Vai levar quanto tempo até estar concluído?

–        Menos de quarenta e oito horas.

Mal concluiu a frase, decretou que era hora de retornarem e voltou as costas para Ângelo. Tomou o caminho na direção do rio com passo seguro, indiferente ao polinômio das interações selvagens que não fora elaborado por ele ou por seus seguidores, ignorando o estalido das folhas secas sobre a maciez do solo camuflava a atividade de pequenos vertebrados, minúsculos insetos e aracnídeos, incontáveis seres.

– Você sabia que a castanheira para se reproduzir depende de uma rede intrincada de animais e plantas?

Bruno manteve o passo ritmado, sem responder.

– A flor precisa de um tipo específico de abelha para ser polinizada, mas elas só aparecem se uma determinada espécie de orquídea florescer por perto da árvore.

–        Hum.

–        Então quando a flor é polinizada, vem a dificuldade das sementes serem liberadas da forte casca em que se formam. É preciso que uma cutia roa essa casca e que a sorte permita que sobre alguma semente para então germinar, o que pode levar um ano e meio. Quase milagre.

–        Você estudou botânica?

–        Não, mas aprendo essas coisas com as mulheres da comunidade quando atendo seus filhos.

Bruno não deu margem para que a conversa prosseguisse, a vontade concentrada na proximidade do outono, enquanto Ângelo o seguia, contagiado pela pulsação da floresta. Segundos antes do bote, o pediatra pressentiu o movimento sob a folhagem, mas decidiu apenas diminuir a passada e não deu o alerta que poderia livrar Bruno da picada, limitando-se a ampará-lo quando ouviu o grito.

Com a ajuda do caboclo, Ângelo improvisou uma maca com galhos e cipós. Enquanto o velho experiente retrucava dizendo que tinha avisado dos perigos, Bruno transpirava e começou a passar orientações ao pediatra, detalhando o que Ângelo deveria fazer no dia do equinócio. O pediatra pedia calma e tentava indicar com o olhar censor a inconveniência de falar aquilo na frente do velho, mas Bruno ignorava e mesmo quando o nariz começou a sangrar, continuou a listar as recomendações, já confundindo os nomes dos contatos da Venezuela, México, Uganda e Austrália. Quando Bruno mencionou a incineração dos corpos da região o mateiro, que ia à frente chegou a perguntar que história era aquela, e Ângelo disse que o delírio era sintoma da intoxicação.

Ao embarcar no jipe Bruno estava prestes a desmaiar e não voltou a falar durante o longo percurso cheio de solavancos até o posto de Bonfim. Ângelo pediu ao médico de plantão que administrasse o soro,mas o fim já estava tocando as pálpebras de Bruno.

28 comentários em “Ponto Final (Maurem Kayna)

  1. jggouvea
    5 de abril de 2014

    A história é interessante, mas a execução é muito falha. Isto não é assunto para um conto. Faz parte da competência de participar de um concurso desses a escolha de uma história que caiba no limite.

    O autor deve desenvolver isso, talvez até o tamanho de uma noveleta ou novela. Com um pouco mais de desenvolvimento dos personagens, especialmente do Dr. Ângelo, que se revela. Aliás, esta é a melhor sacada do texto. Digna de Hitchcock. Pena que do meio para o fim a hsitória corre demais e peca na inverossimilhança justamente por correr demais.

  2. Pétrya Bischoff
    5 de abril de 2014

    Não consegui me ligar à trama, tampouco ao personagem. Por esse motivo, tornou-se cansativo para mim lê-lo. Espero q outros possam absorver melhor. Boa sorte.

  3. Weslley Reis
    5 de abril de 2014

    Parece que o tamanho não foi o suficiente, ou eu não compreendi o autor. Algumas coisas passaram a revisão mas não prejudicou a leitura. Mas o final me decepcionou.

  4. Alexandre Santangelo
    5 de abril de 2014

    Acho que se pensou grande demais nesse conto e prejudicou a estória. A narrativa é um pouco extenuante e fiquei tentado a dar uma pausa. É isso, não me prendeu.

  5. Marcelo Porto
    4 de abril de 2014

    Muito mais um relato do que um conto. Pra mim faltou enredo. O conteúdo é muito extenso e a narrativa (apesar de qualificada) não me fisgou.
    Acho que a autor tem uma boa base para uma história interessante, mas do jeito que tá ficou cansativo e não me envolveu.

  6. Vívian Ferreira
    4 de abril de 2014

    Foi um pouco cansativo no começo, mas depois foi melhorando. Ainda assim não consegui me conectar com a história ou com o protagonista. Bem escrito, mas amigo, muda esse final? Boa sorte!

  7. Wilson Coelho
    4 de abril de 2014

    Gostei da trama inspirada em fatos reais. Estranhei, no entanto, a trajetória do Bruno e a facilidade com que ele rapidamente alcançou uma posição de disparar um evento de proporções globais.

  8. Ricardo Gnecco Falco
    3 de abril de 2014

    Não curti muito a história e tampouco me apeguei ao personagem. Contudo, Bruno causou-me um paradoxo: como não gostar de um texto tão bem escrito e com uma condução tão bem engendrada?
    Ah, já sei… Bruno. 😉
    Mas desejo boa sorte ao autor!

  9. fernandoabreude88
    2 de abril de 2014

    Não consegui ver em Bruno um louco em potencial, ele parece uma garoto normal, nem mesmo como um chapado ele convence. Mas a narrativa flui legal quando se leva em consideração a busca de alguém pelo conhecimento, algo interessante no conto, a busca do protagonista pela história, pela ideologia dessas seitas. No mais, achei a ideia boa e a execução mediana.

  10. Hugo Cântara
    1 de abril de 2014

    Perdi-me no início, voltei a encontrar-me a meio e perdi-me novamente no fim com tantos detalhes técnicos. Faltou uma maior ligação com as personagens, muitas vezes tive a sensação de estar a ler uma notícia.
    O fim não me agradou.
    Parabéns e boa sorte!

    Hugo Cântara

  11. Gustavo Araujo
    31 de março de 2014

    Um escrita agradável e isenta de erros. A narrativa levanta o interesse ao aproveitar-se da história de Jim Jones. O problema é que quatro mil palavras parece pouco para contar uma saga tão instigante. O resultado é um texto que lembra mais um relato do que uma história em si. Talvez por isso não surjam características que nos façam torcer por Bruno ou mesmo odiá-lo. Bruno, nesse sentido, parece mais um burocrata do auto-apocalipse. Com um desenvolvimento adequado – principalmente dos personagens – a ideia apresentada pode se tornar fantástica e o texto realmente prender o leitor. Claro, desde que o final seja reescrito. Para mim ficou meio “deus ex machina…” Só faltou dizer que era só um sonho…

    De todo modo, não quero deixar a impressão de que o texto é ruim. Não é. Quem escreveu sabia o que estava fazendo. É alguém que tem as ferramentas necessárias para envolver o leitor e fazê-lo pensar. Isso fica claro em alguns momentos do conto. A sugestão é que o autor invista nisso, nessas características que aproximam o leitor da história, que limite o tempo e o espaço para adequar a trama aos limites de um conto.

  12. Felipe Rodriguez
    31 de março de 2014

    Apesar das frases longas, o texto consegue manter o ritmo. A jornada de Bruno, embora instigante, torna-se cansativa com as minúcias sobre o cotidiano do jovem. O personagem não parece imerso num mundo interno que o leve a tal obsessão com a seita. A temática, aliás, poderia ter sido melhor desenvolvida, com mais citações e coisas bem curiosas que se lê sobre esses grupos de doidos. Se não me engano, uma delas esperava pegar carona em um cometa antes do fim do mundo, enfim, são coisas que podiam enriquecer e leitura, dar ninho ao leitor. O personagem da mãe é forte, gostei, mas achei o conto mediano. O legal aqui foi a ideia, tão interessante, e não vi em outro conto daqui.

  13. Marcellus
    31 de março de 2014

    Confesso: sou um leitor mimado e birrento que adora finais sem nenhum anticlímax.

    Mas boa sorte ao autor.

  14. Thata Pereira
    30 de março de 2014

    A escrita é realmente muito agradável, parabéns! Mas não me senti conectada com a história, nem com Bruno. Aliás, a repetição do nome do personagem me incomodou durante a leitura.
    Mas quando a escrita agrada e a história não considero que isso seja algo pessoal e que o autor é completamente capaz de escrever algo que eu goste. Mas, infelizmente, não foi dessa vez.

    Boa Sorte!!

  15. bellatrizfernandes
    28 de março de 2014

    O estilo é bom, e, assim como o título, me deixou animada. A medida que avançava, esperava alguma coisa realmente UAU, um final surpreendente que fizesse jus à um tema tão vasto para ser explorado.
    Bruno, que começou tão vibrante e interessante, depois de um tempo ficou chato, obcecado, mas não de uma forma que parece crível.
    Lá pelo meio fiquei um pouco confusa em termos de progressão temporal. Ficava indo para frente e voltando algumas vezes. Perdi-me totalmente por um ou dois parágrafos.
    E então me decepcionei amargamente com o final…
    Não gostei…
    De qualquer forma, boa sorte!

  16. Eduardo B.
    27 de março de 2014

    O conto é longo, mas a escrita é de qualidade e não cansa o leitor. Contudo, devo dizer que a trama não me envolveu (burocrática e muito focada em explicações técnicas) e me frustrei com o final.

    Continue escrevendo. 😉

  17. rubemcabral
    26 de março de 2014

    Eu gostei bastante do enredo do conto. Essa coisa conspirativa e tudo mais. Só achei um tanto irreal a forma como o Bruno galgou tão rapidamente os degraus até colocar seu plano em ação.

    Qto à escrita, tem umas coisinhas pra arrumar e, principalmente, muita repetição do nome do protagonista.

    O final sem final é atrevido, não chega a ser ruim, mas deixa mesmo o leitor curioso frustrado.

  18. Helena Frenzel
    25 de março de 2014

    Concordo em vários pontos com o Eduardo Selga em seu comentário neste post. Acho que já consegui ler uns 15 contos deste desafio e dentre os já lidos, este texto, que até então havia recebido poucos comentários e parece que ninguém gostou da narrativa ou do final, foi o que me pareceu ter mais ‘substância’ em termos de argumento. A começar pela abordagem do tema: frustrar uma tentativa de destruição do mundo e suscitar a reflexão de quantos loucos não existem por aí que um dia acordam pela manhã e, do nada, saem dispostos a acabar com o mundo de alguém ou o mundo de muitos, os jornais estão cheios de casos assim. A abordagem da maioria dos outros contos (dos 15 já lidos, pelo menos) fica só na questão do velho clichê “o que você faria se só te restasse esse dia” ou o fim do mundo relacionado à figura da morte ou da suposição de não estarmos sozinhos no mundo, ou de um ataque de monstros ou da destruição do planeta pelo próprio homem num estilo Mad Max, se bem que um outro texto que foi por esse caminho de que o homem destruirá o mundo com o seu modo de viver agradou-me bastante, pelo realismo. Naturalmente percebe-se que a caracterização dos principais personagens deixa a desejar nesta versão, ou que talvez muitos detalhes pudessem ser eliminados na narrativa sem prejuízo à história, muito pelo contrário, quanto mais compacto, maior a probabilidade de um texto funcionar bem como conto, onde nenhuma palavra nem o título ou citação deixa de ter função, também os nomes dos personagens e a escolha interessantíssima da víbora como ‘solução’. A estrutura também poderia ser facilmente modificada para adequar-se mais à estrutura de conto do que a romance (como alguém já observou) e imagino que o autor ou a autora não tenha tido o tempo necessário para deixar a idéia fermentar e transformar-se em uma melhor versão do que a que temos aqui. Bom, essa apenas minha impressão e posso estar errada. Sou uma leitora muito chata, reconheço, e os gostos são distintos- graças a Deus! Pelo trabalho com as frases, percebe-se que a escrita é muito boa, uma das melhores que já vi dentre os textos já lidos até este ponto. Parabéns ao autor ou à autora, gostei muito!

  19. Maurem Kayna
    24 de março de 2014

    A associação com o tema fim do mundo talvez não seja tão explícita, mas creio que o problema mesmo é a falta de desenvolvimento da personagem que faz com que as expectativas mais óbvias da trama não se concretizem. Um Ângelo surgindo sem maiores explicações não funcionou bem mesmo.

  20. Eduardo Selga
    24 de março de 2014

    A necessidade que o autor tem de ver seu texto bem aceito pelo público leitor pode fazer com que ele fique excessivamente preso a fórmulas e à “necessidade”, de surpreender, o que é um tanto paranoico nessa pós-modernidade na qual tudo é instantâneo, é adrenalina, ou, como sustentam alguns teóricos, tudo é líquido.

    ***

    Este conto tira o leitor de seu lugar de conforto, do seu trono a partir do qual ele bate palmas e diz ao conto: “divirta-me”, na medida em que as expectativas criadas no leitor ao longo do texto não são satisfeitas ao fim. Porque não existe o clímax, e sim ANTICLÍMAX.

    ***

    É um movimento arriscado nesse tabuleiro de xadrez, não apenas porque o leitor gosta de ser mimado: o anticlímax pode gerar a sensação, por vezes falsa, de que nada aconteceu no conto, e consequentemente, todo o escrito antes foi apenas balela para iludir o leitor, tadinho dele, tão frágil. Sob esse aspecto, parabenizo o autor. Acho mesmo que o leitor, às vezes uma criança birrenta, precisa de umas palmadas na bunda.

    ***
    Mas não, o desenvolvimento do conto não é nenhuma balela, embora esteja longe de ser brilhante. O maior conteúdo deste conto não é o enredo, personagens ou a tecitura textual: é o exercício estilístico do anticlímax.

  21. Rodrigo Arcadia
    24 de março de 2014

    Ah, que final perdido.
    A história também não ajuda muito, A narrativa não é ruim, mas, acho wue faltou algo que chamasse a atenção.
    Abraço!

  22. Bia Machado
    23 de março de 2014

    Só consigo pensar em uma coisa: por que este final, por quê? Não sei, eu sempre digo que o autor é o dono do texto, ele tem o direito de terminá-lo como acha melhor. Ao leitor, só cabe reclamar, rs… O caso Jim Jones me traz muita curiosidade, é um episódio triste da história da humanidade, uma vez tentei escrever um texto, mas que não foi além de umas poucas linhas. Com relação ao corpo do texto, tem algumas partes que são cansativas, não sei, ou eu que não me envolvi muito com a narrativa.

  23. Felipe Moreira
    23 de março de 2014

    Tem uma boa escrita. O problema pra mim foi a história mesmo, sem muita densidade do ponto de vista de Bruno e assim acabou se arrastando por um bom pedaço do conto. Só na reta final com Ângelo que eu retomei o interesse.

    Gostei da abordagem do caso do Jim Jones. Parabéns e boa sorte.

  24. Claudia Roberta Angst
    22 de março de 2014

    Quando estava na escola (milênio passado, senhores), fiz um trabalho de História que abordava três acontecimentos marcantes: o primeiro bebê de proveta, um segundo evento que não deve ter sido tão marcante porque me esqueci completamente dele…rs e o suicídio coletivo na Guiana. Ainda menina vi as fotos na revista Manchete e aquilo tudo me chocou um bocado. Não é o caso do conto, só a lembrança é que mexeu em pontos perdidos na memória.
    Boa escrita, mas a narrativa arrastou-se um pouco para mim. Muita coisa acontecendo sem muita profundidade. Pelo menos, eu não consegui me ligar muito à história. Falha minha, talvez. Boa sorte!

  25. Fabio Baptista
    20 de março de 2014

    Está escrito corretamente, do ponto de vista gramatical.
    Algumas vírgulas poderiam ter resolvido melhor e dado mais vida a certas frases.

    Tem uma cacofonia engraçada perdida aí – “procurava ‘pela dona’ da voz…” 😀
    E em um parágrafo só a palavra “floresta” de repete por 3 vezes.

    Enfim… a escrita é correta, a narração flui, às vezes um pouco obscura, mas flui, porém em nenhum momento ela brilha. Não tem nenhuma frase marcante no texto, nada que volte à memória do leitor depois que as luzes se apagam na hora de dormir. A figura de linguagem que mais se destaca é “como uma alergia que tivesse lhe coberto a pele”, que, convenhamos, não é das melhores.

    Isso leva a uma leitura simplesmente burocrática, sem maiores envolvimentos.

    Nesse cenário, o que poderia diferenciar o conto dos demais seria a trama. Mas é aí que os problemas realmente começam…

    Em um romance, é bacana que o personagem passe por diversas situações, mude de emprego, troque de namorada, brigue com a mãe, etc. Mas em um conto, simplesmente não dá tempo pra isso. Achei que o autor quis passar informações demais, quis contar muita coisa e acabou não contando nada. Tudo acontece muito rápido… o cara chega lá, começa a vender drogas e parece que no dia seguinte já está com uma puta estrutura montada para… o quê? Ele ia matar as pessoas? Ele ia escolher quem seria protegido? Como exatamente se daria esse processo?

    E esse final… ???

    Me deu a impressão que havia mais coisas escritas e, em vez de resumir, o autor resolveu simplesmente fazer um corte seco próximo ao limite. Sei que não foi isso, acabei de contar e ainda tinha umas 700 palavras sobrando… mas que deu impressão, deu.

    Esse conto não ficou bom, mas a escrita dá sinais que o autor pode fazer melhor numa próxima oportunidade.

    Abraço!

    • Thata Pereira
      30 de março de 2014

      Fábio, que olho!! haha’ Nem eu que estou revendo vícios de linguagem na faculdade enxergaria a cacofonia.

  26. Anorkinda Neide
    20 de março de 2014

    Olha gostei do texto. Bem escrito.
    A história boa, mas que final foi esse?
    Eu esperando pelos corpos incinerados e pá… frustrou! hehehe
    Mas não desmerece o conto, bastante interessante sim!
    Parabens

  27. Jefferson Lemos
    20 de março de 2014

    O texto tem uma escrita agradável, sem nos cansar ao longo do percurso. Porém, a história pareceu-me muito fraca. Ele de repente decidi que quer acabar com as coisas e isso dá certo. Ângelo surge na história do nada, e depois se torna o ápice final dela. Acho que se tivesse sido introduzido com mais detalhes, seria mais plausível. E esse final também não me agradou, desvalidou todo o resto do texto, pelo menos para mim.

    Enfim, uma boa escrita, mas uma história que não me agradou. O caso Jim Jones é bem interessante, tanto que também estou escrevendo algo sobre isso, mas não sei se funcionou direito aqui. Quem sabe com mais veracidade, o conto possa funcionar melhor.

    Enfim, apenas minha opinião. Espero que outros possam gostar.
    De qualquer forma, parabéns e boa sorte!

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Publicado às 20 de março de 2014 por em Fim do Mundo e marcado .
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