EntreContos

Detox Literário.

Na Pista… (Ricardo Falco)

Por trás da persiana ela olhava para fora do quarto. A luz do Sol fazia com que enxergasse tudo envolto em uma espécie de névoa. Uma aura luminosa que lhe ofuscava os olhos tanto ou mais do que a desprevenida mente.

Era Carlos quem vinha em direção à porta. Ajeitava a camisa florida por dentro do elástico da bermuda que lhe deixava os machucados dos joelhos à mostra. Quando entrou, ela reparou nas casquinhas que agora cobriam os ferimentos do rapaz, dando um tom ameno ao que poderia ter sido muito pior…

Lembrou-se do namorado rodopiando no meio da pista, com as costas tangendo o solo em um efeito idêntico ao de um pião. Tinha sido muito engraçado… Só mesmo ele para arriscar passos de hip hop, toscos, em pleno baile de carnaval, ao som de uma antiga marchinha que se negara a perder-se no passado; da mesma forma que aquela leda lembrança…

Ela ainda se culpava pelo acidente, mesmo tendo sido um descuido de Carlos o que acabara ocasionando a queda dos dois. Se bem que fora ela quem pedira para o namorado mudar de faixa… Ele, como sempre o fazia, apenas quis brincar com sua amada, trocando de lado na pista, embora sabendo que ela havia se referido à faixa da música que escutava no discman, e não a da estrada, na volta do baile.

Sem volta…

Ela estava na garupa e, mesmo sem capacete, não sentira a batida com a cabeça no asfalto, parecendo não ter sofrido sequer um arranhão. Contudo, ao ver agora o estado em que a moto ficara — colocada sobre a caçamba de uma picape da polícia rodoviária, estacionada ali do lado de fora do quarto —, ela percebia a sorte que também Carlos, exibindo apenas algumas pequenas escoriações, tivera.

A moto estava totalmente destruída…

Aqueles machucados eram como um lembrete; notas de rodapé em uma página… Neste caso, notas de joelho. Nos joelhos dele. Como que a lembrá-los do que poderia ter sido tudo aquilo. Um texto autoexplicativo…

Mas era Carlos quem gostava de procurar a explicação de tudo nos fatos. Costumava dizer que toda e qualquer pergunta já detinha, invariavelmente, a resposta dentro dela mesma. Afirmava para quem quisesse ouvir, sempre em alto e bom som, que todo fato provinha da consequência de um ato, que por sua vez era oriundo de um pensamento, que era, basicamente, produto de um desejo. E tudo estaria à mostra, disponível…

Embora não evidente.

Assim ia Carlos discorrendo sobre o que quer que fosse que, à primeira vista, se demonstrasse enigmaticamente obscuro. Gostava de solucionar problemas, descobrir coisas, mudar os paradigmas… Contudo, ela sabia que, na verdade, Carlos tinha mesmo era uma “alma de caçador”. Ele era um ávido — e incansável! — caçador de respostas.

Talvez fosse isso a passar pela cabeça dele agora. Carlos estava quieto demais; quase tenso… Quem sabe até um pouco fora da realidade, tentando explicar o inexplicável, exprimir o inexprimível, encontrar o detalhe faltante… Enquanto ela perdia-se em pensamentos não tão distantes, como a quilometragem existente entre aquele quarto de hotel de quinta e os cacos de vidro que ficaram sobre o asfalto quente da pista.

Quente e acolhedor…

E novamente o brilho invade seu semblante, como um farol a delatar uma longínqua e até então despercebida embarcação. Ofuscando agora até as lembranças através da luz que aqueles pequeninos cacos espalhados no revolto mar de sua confusa mente refletiam.

Purpurinas do baile de carnaval… Batuques ferindo gravemente o couro dos tambores, joelhos… Serpentinas vibrantes… Cor de sangue. Agora tudo misturado e exposto; espalhado por aquela estrada. Migalhas de vidro na pista… Brilho esmigalhado. Os reflexos…

O Silêncio.

Somente então repara: não havia som naquele quarto. Nem mesmo barulho vindo do lado de fora. Só o silêncio… O momento a silenciar o que o vento, sem ciência do fato, sentenciava. As árvores balançando lá fora num vai e vem confuso e melancólico…

Tudo melancolicamente mudo.

Carlos puxa do bolso de sua bermuda o que sobrara do aparelho que, com a outra parte ainda a repousar no pescoço dela, completar-se-ia. Esmigalhara-se por fora… Mas, os fones que pendiam das pontas do metálico arco e tocavam a jugular da namorada, agora aumentando gradativamente a pressão naquela área, não detinham sequer um arranhão. Estavam intactos, assim como ela.

Intacta…

Intacta e aflita. Ela fita as mãos de Carlos que, após livrar-se dos restos do aparelho, segurava agora, entre cortes, arranhões e manchas de sangue, apenas o CD com os enredos das escolas de samba deste ano, comprado já na saída do baile, após muita insistência por parte dela. Ele não queria comprar. Ele não devia…

Fato.

Carlos chora. Copiosamente. Deixa-se cair por sobre os restos do discman que são então prensados entre a colcha encardida daquela cama de hotel de beira de estrada e o machucado corpo que sobre a mesma tombara, derrotado. Corpo… E alma.

Carlos estava estranho…

Não trocara uma só palavra com ela desde que ali chegara. Como se nem a tivesse visto. Como se ela não existisse; como se ele não estivesse ali. Agia friamente. Talvez a culpasse pelo acidente; talvez culpasse a si mesmo… Mas não houvera nenhuma acusação; nenhum carinho…

Nada.

Tinham as suas diferenças. Ela gostava de samba; ele de música eletrônica. Ela falava em aprender a tocar violão; ele queria comprar uma mesa de som. Um gostava de correr no calçadão; a outra se esforçava em caminhar dia sim, dois não. Ele adorava a chuva; ela desafiava o sol. Mocidade porque estava bonita na televisão; Mangueira de berço e coração… Leite quente versus leite frio; um no Engov a outra no Doril

Ela não era de beber. Na verdade, não gostava mesmo era de cerveja. Mas, naquele baile, haviam realmente caprichado… Parecia até que os organizadores tinham feito uma pesquisa pré-carnaval, como se tivesse sido possível descobrir, já no ato da compra dos ingressos, a preferência etílica de cada comprador. Tipo um elo mental mesmo, que fosse direto ao ponto do cérebro capaz de revelar, instantaneamente, a preferência por esta ou aquela bebida.

Sim… Havia uma mesa enorme e absurdamente apinhada de copos transbordantes no baile, repletos de uma verdadeira e irresistível tentação. Uma mesa que era constantemente renovada… Que ressurgia, a cada olhadela, impávida e convidativa. Um a um, os copos vazios colocados sobre ela eram, todos, substituídos por outros, cheios. E, por mais que tentassem, eles não conseguiam dar conta… O nome da tentação?

Cuba Libre.

Uma marchinha antiga pra lá, um samba-enredo famoso pra cá, e lá iam eles para a pecaminosa mesa. Carlos — é verdade — nem era assim tão vidrado na perfeita mistura de rum, Coca-Cola e limão, mas fizera questão de acompanhar, durante toda aquela noite, a namorada em sua rara expedição alcoólica.

Já ela… Era fã mesmo. Profunda conhecedora e admiradora. Gostava tanto que até a história desse drinque ela fazia questão de difundir, lembrando a todos que a invenção do mesmo era atribuída aos soldados norte-americanos que ajudaram nas guerras da independência cubana — daí o nome — e que, muito provavelmente, inspiraram-se no calor dos campos de batalha para a criação da explosiva bebida.

Porém, o calor que ela sentia agora não se devia mais ao efeito da bebida ingerida em demasia naquele baile. Nem da animação das marchinhas ou do rebolar frenético das mulheres no meio da pista lotada…

Tampouco vinha de fora daquele quarto de hotel de beira de estrada. Nem da claridade que agora ultrapassava as persianas e tomava conta de tudo à sua volta, misturando-se ao crescente batuque dos tamborins que voltava a ouvir através dos fones desplugados e que, cada vez mais, pressionavam seu pescoço…

Ela sentia o calor da estrada. Do asfalto quente e acolhedor. Das serpentinas vibrantes cor de sangue se abrindo naquela pista. Do repique metálico e do chamativo brilho dos pequeninos cacos de vidro, espalhados pela imensidão daquele cruzamento, que lhe invadiam a alma ao refletirem seus próprios olhos…

De dilatadas pupilas.

*  *  *

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24 comentários em “Na Pista… (Ricardo Falco)

  1. Frank
    15 de janeiro de 2014

    Excelente escrita, mas o desfecho ficou previsível.

  2. Leandro B.
    14 de janeiro de 2014

    Não achei a escrita cansativa, mas não me cativou muito. De todo modo, é um texto bem escrito, com uma linha poética interessante. Diria que é o tipo de leitura que, ao final, agrega algum valor ao leitor. Então, obrigado!

    Parabéns e boa sorte.

  3. Paula Melo
    13 de janeiro de 2014

    Gostei bastante do texto,bem escrito e muito bem desenvolvido, confesso que em algumas partes ficou cansativo,mas fora isso ótimo conto.

    Boa Sorte!

  4. Pedro Luna Coelho Façanha
    13 de janeiro de 2014

    Bem narrado e escrito..só não me empolguei com a história. No entanto, mais um grande trabalho.

  5. Pedro Viana
    12 de janeiro de 2014

    É um texto muito bem escrito. Embora eu deva concordar com meus colegas que o descreveram como cansativo, dou meus louvores ao(à) autor(a) pela escrita bem elaborada e permeada por metáforas. Infelizmente, não me surpreendeu, mas numa segunda análise, desde o começo é bem nítida a situação em que o personagem se encontra – então, creio eu, surpreender não era a intenção do(a) autor(a). Parabéns.

  6. Raione
    11 de janeiro de 2014

    Não sei muito bem como comentar este conto. Tem bastante potencial, que se desperdiça às vezes. É o caso (para dar um exemplo) do parágrafo que especula sobre telepatia apenas para dizer que havia cuba libre no baile. Tá bem escrito, gostei muito da forma como foi narrado, como uma colagem. Mas escolha de alguns elementos, não sei… por exemplo: o discman, pressionado pelo corpo de Carlos, cravado no corpo da moça, é bastante aberrante, insólito. Aqueles sinais de ela estar morta, disseminados pelo texto, como a parte em que é dito que ela não sentiu o impacto na cabeça, poderiam ser cortadas, pois já lançam suspeitas demais.

  7. Marcelo Porto
    10 de janeiro de 2014

    Quem escreveu esse sabe o que faz.

    Uma narração redondinha, que apesar de entregar de cara o que está acontecendo, não é anticlimática, muito pelo contrário.

    Não sou fã de histórias sem diálogos, e talvez por isso tenha achado o texto um pouco longo, mas isso não me tirou o prazer da leitura e a curiosidade em saber como ele terminaria.

    Um bom conto.

  8. Tom Lima
    2 de janeiro de 2014

    Gostei bastante.

    Tem ritmo de marchinha de carnaval.

    Parabéns.

  9. Bia Machado
    30 de dezembro de 2013

    Gostei muito, a narrativa foi crescendo, entrecortada com as lembranças, com os detalhes. Talvez seria interessante encurtar um pouco, ou quem sabe, esticar mais, detalhando a relação dos dois antes dessa situação… Seria trágico, concordo, mas é uma história muito bonita, para quem gosta de ler e escrever esse estilo, é um prato cheio! =) Parabéns!

  10. Ricardo Gnecco Falco
    30 de dezembro de 2013

    Quando eu crescer, quero escrever assim…! 😀
    Mais um conto para meu “Top 3” do mês!
    Parabéns pela obra!
    E Feliz 2014! 🙂

  11. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    Achei o texto um pouco cansativo, poderia ser melhor trabalhado uma outra vez, mas de qualquer forma, a trama despertou um pouco o meu interesse.

    Parabenizo ao escritor pelo escrito.

  12. Ana Google
    26 de dezembro de 2013

    Gostei muito do título, enxerguei um trocadilho bacana: na pista (de dança) e na pista (da estrada). Parabéns!

    A escrita é impecável, as metáforas são lindas, a linguagem é poética.

    Embora a temática (acidente de carro/moto) esteja sendo recorrente nesse desafio, creio que esse foi o que melhor cumpriu com o seu papel.

    Perfeito, mais uma vez parabéns!

  13. Weslley Reis
    24 de dezembro de 2013

    A questão da previsibilidade do final, ao meu ver, me incomodou um pouco. A levada do texto é boa, mas, particularmente, a história não em cativou.

  14. Gunther Schmidt de Miranda
    23 de dezembro de 2013

    Sem surpresas, texto cansativo, ausência de diálogos; e, para variar um pouco, sem nenhuma noção de espaço tempo. Tudo bem que “fantasmas” habitam o limbo, um lugar incerto e sem tempo, mas eu não gosto disso! Boa sorte. Vai precisar.

    • Gunther Schmidt de Miranda
      24 de dezembro de 2013

      Vendo a observação acima não me resta outra ação que pedir desculpas por tamanha falta de sutileza em minhas palavras. Solicito perdão a este que produziu testo tão longo e atencioso. Boa sorte.

  15. Jefferson Lemos
    23 de dezembro de 2013

    Texto bem escrito, mas achei cansativo. Algumas partes poderiam ser menos extensas.
    Esse tipo de linguagem não me interessa, mas vejo que o autor fez um bom trabalho.
    Parabéns e boa sorte!

  16. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    23 de dezembro de 2013

    Gostei da linguagem, das frases curtas, mais objetivas e ao mesmo tempo carregadas de delicadezas.
    Nada contra o título. Acho uma das coisas mais difíceis a se fazer: determinar um título para o conto.
    Apreciei a condução da narrativa, como em uma pista de dança. Talvez, ficasse ainda melhor se enxugasse algumas passagens que ficaram à margem da história.
    Sem grandes mistérios quanto ao fantasma, mas isso em nada atrapalha o interesse do leitor. Boa sorte.

  17. Sandra
    23 de dezembro de 2013

    Narrativa redondinha… Apesar da ambientação, do cenário de tragédia, somos levados por um narrador que se entrega ao texto, como se fosse um personagem que observa e sente. As reticências, as palavras ou frases curtas, como poemas que se esquivaram da prosa… Gostei bastante. Se lermos somente esses fragmentos, essas lascas, podemos até tocar a aura do texto.
    Esse remexer de memórias com a natureza do acidente, nos arremessa a fragmentos poéticos.
    Por essa capacidade de o autor tratar de um assunto que mexe tão negativamente – pelo menos, em mim -, com medos maiores, quase beirando ao lirismo: por vezes, oferece-nos uma bebericada -, já recebe minha intenção de voto.
    Apreciado!

  18. Thata Pereira
    23 de dezembro de 2013

    Gostei do conto, gostei do título. E apesar de ter entregado todo o restante já no começo, não me incomodei. Gostei muito do 27º parágrafo. Lembrei da música Eduardo e Mônica do Legião Urbana rs’ Li ele umas três vezes.

    Boa sorte

  19. Gustavo Araujo
    22 de dezembro de 2013

    Ótimo texto, bem escrito, com o peso da mão de quem sabe do assunto. Acho, entretanto, que dá para enxugar um pouquinho. Mudar o título também pode ser interessante. Mas, de modo geral, gostei da prosa, do ritmo e das expressões empregadas. É quase como um embalo. Parabéns.

  20. Inês Montenegro
    22 de dezembro de 2013

    Não há surpresa no final, e por vezes pareceu-me que o texto enrolava demais. Também notei a dúvida temporal mencionada pelo Caio. Contudo, no geral está bem escrito e conseguido.

  21. caio523
    22 de dezembro de 2013

    Olá. É um ótimo conto, mas acho que sob as condições do desafio, já que todo mundo espera ser sobre fantasma, fica fácil entender na primeira menção que a pessoa está morta. Fosse outra situação, talvez o final se esgueirasse mais e nos surpreendesse. Me peguei pensando apenas que algumas passagens estão escritas meio à toa, elas não cumprem função nem adicionam muito ao enredo ou à construção dos personagens. Por exemplo, a parte em que você conta a história da Cuba Libre, ela podia parar de contar no meio da história, e dizer algo sobre como Carlos sempre fingia dormir quando ela se punha a contar fatos assim. Criaria mais um ponto de explicação da personalidade dos dois e da relação que tinham.

    Outra coisa é a questão do tempo. Eu não entendi direito quanto faz desde o acidente. Ela narra ele no hotel e ela mesma no acidente como se fossem simultâneos, mas se o acidente acabou de acontecer Carlos tinha que estar com a polícia, ou esperando sua família ou esperando uma ambulância, não num hotel. O fantasma é atemporal?

    Fora isso, acho que o foco em personagens funcionou (embora nesses casos acho que quanto mais sutil e mais fundo você for, melhor, e daria pra desenvolver ainda mais), fosse mesmo outro cenário talvez o final passasse como surpresa e teria sido uma experiência mais forte de leitura. Mas ainda foi bom, com certeza. Abraços

  22. Marcellus
    21 de dezembro de 2013

    Texto muito bem escrito, gostei bastante. Mas o título entregou o final, o que tirou um pouquinho da graça.

    De qualquer forma, parabéns e boa sorte!

  23. bellatrizfernandes
    21 de dezembro de 2013

    Adorei!
    Quando ela mencionou o acidente pela primeira vez minha suspeita já foi acionada. Muito bem contado, de forma seccionada, sem revelar nenhuma informação a mais do que a necessária.
    Parabéns!

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Publicado às 21 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .