EntreContos

Detox Literário.

Um Feixe de “Eus” (Sandra Datti)

O museu de Ribeirinha se estampou nas manchetes dos principais jornais do Brasil. O povo daquela vila pacata ficou em polvorosa com os boatos de que o museu estava mal-assombrado. Ninguém mais queria trabalhar naquele lugar esquisito, pois muitas pessoas juravam que o fantasma de um homem rondava todos os dias as dependências do museu e, muitas vezes, o espectro se refletia nos janelões encardidos do  palacete. Até então, ninguém havia provado o misterioso caso do fantasma de Ribeirinha. Também contavam as bocas faladeiras, que em noites de lua cheia, um lobo solitário uivava pelas redondezas. Muitos diziam que era ele: o espectro faminto do falecido proprietário da mansão que se transformava em canino.  Contudo, os que os mais céticos certamente não podiam imaginar é que a história era permeada de fundamento.

Há muitos e muitos anos, quando Ribeirinha ainda não havia rompido a terra, um jovem belíssimo e muito rico mandou construir uma magnífica residência assobradada em meio a um bosque, perto de uma nascente de águas claras, cantantes. Quando terminaram a construção da exuberante mansão, Arthur de Ribeirinha resolveu contratar um artista para lhe  esculpir a  beleza jovial e sem precedentes. O genial escultor deu a luz uma arte divina que logo foi colocada em frente à residência do afortunado cliente, a fim de que fosse admirada por todos que passassem por ali. O artista foi tão perfeito, que ficou famoso da noite para o dia. Pessoas vinham de longe para apreciar aquela obra de rara beleza.  

Assim, Ribeirinha nasceu.

Arthur parecia um de semideus grego, de pele alva, corpo esguio e cabelos anelados, que lhe desciam aos ombros, como fios de ouro. Seus olhos eram claros e frios, e neles  flutuava uma tristeza profunda de animal solitário. Como homem, era um escritor bem sucedido, apaixonado pela poesia e pela beleza.  Tinha-se como referência da perfeição, do exato, da poesia, que acreditava cristalizada em si. Como canino, era taciturno, encoberto por grossas camadas de medo e alguma tristeza: um feixe deles.  

Com o passar do tempo, Arthur foi perdendo sua beleza e jovialidade. Sua presença se tornou cada vez mais rara. Ainda assim, deixava-se envaidecer pela admiração das pessoas pela formidável obra de arte. Arthur nunca se casou, nunca fora visto com parentes ou amigos, passara uma vida de luta entre o homem e o animal cru que agonizava em silêncio. Morrera numa noite de lua minguante, não muito velho, mas com a juventude já desfolhada, em duvidosa solidão, em sua vasta biblioteca: quando o encontraram, o lobo ainda arreganhava os dentes afiados para o homem, cujo corpo jazia sem vida. Arthur tinha os braços machucados e as mãos endurecidas sobre a goela forte do canino. Dois pares de olhos vidrados cruzavam-se e  transcendiam a vida. O sangue corria rubro pelas duas bocas. Tufos de pelo cobriam o chão acarpetado salpicado de pequenas poças e gotas vermelhas.  Após a morte de Arthur de Ribeirinha, o casarão taciturno se transformou em museu da Vila Ribeirinha – que anos depois se emancipara – e a obra de arte recolhida na própria mansão.

Quem encarava aquela magnífica escultura podia sentir que havia alguma coisa viva dentro daqueles olhos frios: era o fantasma de Arthur – homem e lobo – que ficava ali para ser admirado por todos.

 

Era um dia de sol, e o céu ainda estava alaranjado quando os últimos raios se puseram a rimar com as chamas que anunciaram o fim do casarão. Focos de fogo e fumaça se alastraram rapidamente pelas antigas cortinas empoeiradas e foram consumindo toda História da fundação de Ribeirinha. Mulheres choravam. Cigarras cantarolavam ao longe, competindo com o vozerio das gentes que chegavam de todos os cantos, desgarrando-se da rotina bucólica na tarde que se apagava. Vários vizinhos se uniam para apagar o fogo, outros apenas observavam o desenrolar de um final já sabido por todos.

De repente, a plateia presenciou um vulto à luz do céu quase em luto, iluminado apenas por uma grinalda de nuvens semitransparentes que refletiam um resto de sol já enfiado no buraco da noite. O espectro perambulava cabisbaixo e parecia chorar em meio às ruínas ainda incandescentes. Saíra de dentro da estátua chamuscada, de cabeça quebrada, caída abaixo de uma coluna que despencara do extinto segundo andar. Arthur parou em frente ao córrego que ladeava o museu e acocorou-se próximo a terra já úmida. A lua cheia  apareceu, e o fantasma a observou pelo  reflexo do espelho escuro das águas. “Talvez, a última gota de poesia que precede à morte”, sentiu em si. Arthur fitou o ser enlutado do outro lado do espelho e viu: o homem, cujos sonhos morreram. O poeta de mãos postas sobre o peito. O homem dominado pelo animal. A dor. O descaminho. Via também o canino que uivava em agonia. E viu um feixe de si descair nas águas escuras. Suspirou. Uma lágrima fantasma desceu de seu horror. Havia desespero em seu coração, mas não tinha um caminho a seguir. Nem forças para gritar.

Algumas nuvens esconderam parte da lua gorda por alguns instantes, e Arthur, o lobo solitário, o poeta anoitecido que pensava se despir da vida, esbugalhou os olhos refletidos na água escura, silenciosa: surpreendeu-se: havia mais alguém ao seu lado. Mas não era parte de si. Reconhecera. A lua redonda e amarela voltou a brilhar, vestida de luz alheia, no céu. Um menino de traços que lhe eram familiares se desenhou no espelho das águas. Uma alma de traços infantis o observava. Arthur olhou para trás de si, mas nada viu.  Voltou o olhar às águas que remexiam timidamente.

— Não queria que chorasse… – suspirou a voz infantil de dentro das águas.

Desconcertado, por desexistir por tanto tempo, por ter quebrado dentro de si a correlação com a realidade, Arthur arregalou os olhos vazios, mas repleto de lágrimas.

— Quem é você? A morte que me espreita? – rosnou baixinho, com a tristeza encovada em cada palavra.

— Sua dor, Arthur, ela me incomoda… – respondeu ainda tímido o menino, mas com uma força que arrepiou o homem-lobo.

— Você viu? O fogo consumiu tudo o que restou da minha beleza, dos meus sonhos, tudo que eu possuía na vida… Agora veja, não sei o que fazer: parte de mim quer dormir para sempre; mas a morte, essa covarde – disse retesando os lábios e mostrando os dentes perfeitos – não aparece… Um pedaço de mim torce para que eu não me afogue em agonia…  – concluiu já em soluços, deixando pender a cabeça.

O menininho regou o silêncio de Arthur com o seu e, nesse hiato, selou sua cumplicidade.

— Estou aqui para ajudar você.

Arthur levantou a face molhada.

— Como? O que o fantasma de uma criança fará por mim? Um lobo solitário a aguardar a morte que se deleita com minha agonia…

O meninote sorriu um riso triste.

— Mas não existe a morte. Como poderá encontrar algo que…

— Então estas ruínas serão o meu único consolo…

— Para sempre?

— Para sempre…

As águas ficaram estáticas como por encanto. A lua pançuda jorrou a luz alheia sobre os olhos do guri. Arthur conhecia aquele olhar, mas não se recordava. Então a imagem se metamorfoseou.

— Sou o artista que deu forma a sua vaidade, e então você se tornou escravo dela. Fiquei muito rico, mas morri muito jovem. Voltei. Hoje dei minha vida em troca de sua liberdade. Somente não poderei obrigá-lo a aceitá-la.

Pela primeira vez em sua vida, Arthur saiu de si. Desfocou o próprio olhar enraizado, desconversou com o lobo que lhe capitaneava os sentidos: absorveu-o. O animal uivou pela última vez.  Meio tonto por acoplar duas almas num mesmo coração, o fantasma inspirou profundamente. Olhou a lua redonda, grávida de poesia. Sentiu um alívio inesperado. Voltou o olhar renovado para as águas escuras e olhou fundo, no coração do miúdo.

— Pode me explicar melhor?

— Eu ateei fogo no museu depois que todos saíram, mas não consegui fugir. As labaredas me atingiram rapidamente.

— Por que fez isso?

— Porque jamais tive paz por vê-lo prisioneiro de sua vaidade… Senti-me em parte responsável e voltei.

— Você deu vida a minha beleza… E eu a perdi pela segunda vez… – resmungou Arthur, inspirando profundamente.

— Mas Arthur… Você – frisou com autoridade – é muito maior do que ela.

Maior. Maior que a beleza? Como pode? – pensou, a princípio, sem compreender.

Arthur de Riberinha se pôs a chorar copiosamente. Gotas grossas começaram a remexer as águas, deformando a imagem do artista que sumia aos poucos, dando lugar a sua própria imagem. Sentiu uma brisa fria a bater em seu rosto de fantasma (possuía ainda os sentidos!). A lua se escondia por detrás de uma formação de cúmulos nimbus que derramava algumas gotas de chuva fina sobre as águas. Deformando-as até que a escuridão a tudo apagasse.

Era a primeira vez, que alguém se preocupava com ele! A primeira vez, que saía do avesso  e sentia algo tão terno fazendo cócegas em seu coração.

Em certo momento, escutou vários soluços incontidos e olhou para o meio das ruínas. Uma mulher, ainda jovem, enterrava milhões de lágrimas sentidas naquele resto dolorido de passado. Ela chorava pelo filhinho que fora encontrado morto no meio dos escombros. Ao seu lado, Arthur viu o fantasma do guri beijando demoradamente a fronte da mulher.

Por fim, quando a noite envelheceu, e as cinzas se espalhavam ao sopro da brisa fria da madrugada, os dois fantasmas elevaram enormes asas e subiram aos céus. As luzes ainda enfraquecidas do sol já penetravam tímidas na escuridão que se entregava abnegada. No mesmo dia, toda Ribeirinha e comentava a história dos fantasmas que alçaram voo sobre as ruínas do museu.

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37 comentários em “Um Feixe de “Eus” (Sandra Datti)

  1. Sandra Datti
    16 de janeiro de 2014

    Agradeço, galera, pelo incentivo e críticas que certamente ajudarão – e muito – na condução das próximas rabisqueiras. Um grande abraço e até a próxima! 🙂

  2. Leandro B.
    15 de janeiro de 2014

    Gostei.
    Um texto denso. Como mencionaram, talvez fosse melhor tentar clarear algumas passagens. Não posso deixar de dizer o quanto gostei de alguns trechos, com descrições belíssimas, como a descoberta do corpo de Arthur.

    Infelizmente acabei me perdendo algumas vezes na densidade já mencionada que me parece um dos pontos fortes e, ao mesmo tempo, fracos do texto. O saldo geral, para mim, foi muito positivo.

    Parabéns pelo trabalho.

  3. Frank
    15 de janeiro de 2014

    Fiquei um tanto confuso com o texto, não pela escrita que está ótima, mas talvez, pela quantidade de informações.

  4. Paula Melo
    13 de janeiro de 2014

    Gostei bastante do texto,mas confesso que fiquei confusa em algumas partes e no final não sei se entendi muito bem.
    O Autor (a) escreve muito bem e tem uma bela ideia em mãos.
    Bos Sorte!

  5. Pedro Luna Coelho Façanha
    13 de janeiro de 2014

    Lembrei de Dorian Gray. Acredito que o texto ficou um pouco confuso, com muitos elementos inseridos em um conto não muito extenso.

  6. Pedro Viana
    12 de janeiro de 2014

    Primeiro, parabéns pelo título. Eu gostaria de saber colocar bons nomes nas histórias, mas não sou agraciado com esse dom; então, quando vejo um(a) bom(oa) titulador(a), só posso parabenizá-lo(a), rs. Agora, sobre o conto. A história é interessante, a narração poética e alguns elementos alegóricos trouxeram profundidade ao texto. No entanto, é meio confuso, não me prendeu, e o início me deixou com um pé atrás. Há várias maneiras de iniciar uma história, e contando a situação inicial para mim é uma das piores. Me lembra o clichê “Era uma vez…” que jamais gostei. Apesar de tudo, parabéns!

  7. Raione
    11 de janeiro de 2014

    Me sinto meio incapaz de comentar o conto porque achei a história muito confusa, os elementos (o homem e seu lobo alegórico, o ideal de beleza, o escultor, o menino) ligados quase à força, e não de forma orgânica. A escrita carregada, na minha opinião, apenas reforça o aspecto disforme da história, e os grandes temas, como a beleza, a poesia, a finitude, a fragmentação e os conflitos da alma humana, pairam um tanto soltos, e meio sem querer dão ao conto um tom pretensioso. Tive a impressão de que lia Dorian Gray numa pegada solene e espiritualizada. Ribeirinha também me pareceu ter contornos muito vagos. O conto ganharia se tivesse um desenvolvimento mais detido, dosado. Me sinto incomodado apresentando uma opinião tão negativa, sem saber discernir nela o que se deve exclusivamente ao meu gosto pessoal. Por isso peço desculpas caso algo tenha soado grosseiro.

  8. Marcelo Porto
    9 de janeiro de 2014

    Um conto complexo, pelo menos pra mim.

    Só no final entendi (não sei se totalmente) que o lobo é uma alegoria, fiquei esperando um lobisomem praticamente o texto inteiro (rs). A agonia à lá Dorian Gray do fantasma é uma grande sacada e deu um bom mote para a excelente escrita da autora.

    Ainda estou meio confuso quanto à motivação da criança que morreu ou se suicidou por causa do fantasma, não ficou muito claro qual o papel dela, além é claro, da redenção do protagonista.

    Vale uma releitura, o que não é nenhum esforço pela qualidade da narrativa.

  9. Tom Lima
    4 de janeiro de 2014

    Acho que o que faltou foi aprofundar um pouco a personagem principal.
    Talvez isso criasse uma empatia maior no leitor.

    Fora isso gostei bastante. Você tem uma escrita poética muito bonita, muito agradável.

    Parabéns.

  10. Bia Machado
    30 de dezembro de 2013

    Gostei da sua escrita, parabéns! Mas confesso que cheguei ao final do conto sem entender alguns pontos da narrativa, o que consegui fazer com a ajuda dos comentários, ainda bem que deixei para ler depois! Parabéns, um ótimo material!

  11. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    Outro texto que gostei, porém não tanto quanto outros. De qualquer maneira, parabenizo à autora pelo texto.

  12. Ana Google
    24 de dezembro de 2013

    Belo conto! O autor sabe usar as palavras… O jogo que faz com elas é lindo e emocionante! Gostei bastante. Contudo, infelizmente, creio que este belo conto seja ofuscado por outros nesse desafio. Mas, de qualquer forma, parabéns para o autor!

    Na passagem: “Contudo, os que os mais céticos certamente”, o correto é “Contudo, o que os mais céticos certamente”; “Arthur parecia um de semideus grego”, o correto seria “Arthur parecia um semideus grego”; nessa passagem há repetição sucessiva de dois pontos, o que não é recomendado: “silenciosa: surpreendeu-se:”; “toda Ribeirinha e comentava”, o correto seria “toda Ribeirinha comentava”.

    Boa sorte!

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Cara Ana,
      Agradeço pelos comentários e apontamentos!
      Valeu!

  13. Gunther Schmidt de Miranda
    23 de dezembro de 2013

    Um texto que apesar de ter lugar, flutua no tempo; sendo que acabo sem saber se estou nos primórdios da cidade ou nos dias atuais… Texto confuso… Não gostei: um dos cinco piores que já li em todo esse concurso!

    • Gunther Schmidt de Miranda
      24 de dezembro de 2013

      Revendo a observação acima não me resta outra opção que pedir desculpas por tamanha grosseria por mim executada: quem sou eu para apontar o pior mediante tamanha diversidade de formas e idéias?! Mediante a resposta negativa, assim como a nota acima, Peço perdão a este escritor pelo comentário até maldoso (quase infantil) por mim postado. Sem dúvidas um bom texto que nosleva à perguntas. Boa sorte.

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Gunther,
      Realmente, a gente está aqui para aprender. A maioria de nós não é profissional e tudo é feito com muito carinho. É importante que as críticas sejam pontuais e não tenham outro objetivo senão ampliar o campo de visão de quem está do outro lado. Porque a gente só se completa com a parceria do outro. Mas não fiquei em momento algum, preocupada com suas palavras; visto que, quando faço algo muito ruim, sou a primeira a sentir. E “Um Feixe de “Eus” embora não esteja afinado como gostaria, está dentro do que acredito não ser um texto ruim.
      Só pelo fato de ter se pronunciado nos posts da galera retratando os comentários anteriores já valeu a pena.
      Obrigada!

  14. Jefferson Lemos
    23 de dezembro de 2013

    Achei o texto bem escrito, porém não me agradou.
    A história não me prendeu e eu não consegui me conectar com o personagem.
    No meu caso é questão de gosto, então espero que outros possam gostar.
    Parabéns e boa sorte!

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Olá, Jefferson

      Fiquei cismada com a falta de empatia com o personagem (penso em retrabalhá-lo). Talvez, por tê-lo deixado tempo demais na boca do narrador. Mas vou repensar nessa questão com carinho.
      Abs!

  15. Weslley Reis
    23 de dezembro de 2013

    Gostei muito da levada poética do conto. Você acaba sendo levando sem notar pelas toque sutis do texto.

    Por outro lado, a mudança de ponto repentina, causa certa confusão até se recuperar o rumo da história. Gostei do personagem, mas ao menos pra mim, faltou profundidade.

    No geral é um ótimo conto.

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Valeu, Weslley!

  16. Gustavo Araujo
    22 de dezembro de 2013

    Não é um texto fácil. As descrições e a narrativa demandam um grau de abstração e de imersão bastante profundos. No entanto, se o leitor tiver paciência para tanto, será recompensado com uma ótima história, repleta de nuances e significados ocultos que seguramente não são perceptíveis à primeira vista. Gosto do tom poético, corajoso mesmo, que o autor emprega. Não há medo em parecer prolixo. O resultado é um conto excelente, ainda que não isento de defeitos, acima da média. Parabéns.

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Olá, Gustavo
      Sou teimosa, rs..Sei que enfiar uma ideia bacana dentro de algo simples é o ideal, mas é o mais difícil a ser alcançado. Tenho que trabalhar com os instrumentos que possuo, e o material me vem aos blocos, com o coração a ferventar essa casa das máquinas. Então preciso seguir em frente, com cuidado para podar meus defeitos, porque neste caso – parafraseando Clarice Lispector – a gente não sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
      Grata pelo comentário generoso.

  17. Inês Montenegro
    22 de dezembro de 2013

    No geral, concordo com os comentários feitos até aqui. Também me pareceu que falhava na contextualização, as coisas não estão bem explicadas, ou mudaram com uma repentinidade enevoada, e o leitor tem dificuldade a compreender o contexto.
    Quanto à escrita, também não irei diferir muito: destacam-se as descrições, pela positiva.

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Cara Inês,

      Muito obrigada pela leitura e comentários!

  18. caio523
    22 de dezembro de 2013

    Olá. Muito legal. A menção à Grécia, ao ideal de perfeição em contraste com a metáfora do lobo, a morte/suicídio pelo conflito entre essas partes, a aceitação no final, tudo me fez muito feliz quando lendo. Talvez fosse legal usar um animal brasileiro, mas seria só pelo lado patriota de criar símbolos nossos, porque o animal não precisa existir mesmo, eu acho.

    Agora eu acho também que a escrita na verdade cai em comparação com o subtexto. Eu ainda tava me vendo consciente de que tinha um escritor me falando tudo, não me perdi no conto, entende? É difícil apontar mesmo por quê ou como isso podia mudar, mas acho que há um sentimento de que o autor está tentando ativamente criar a alegoria. Um passo a mais seria, talvez, a alegoria se mostrar sem esse esforço, cair mais ao fundo, enquanto um enredo mais claro e simples acontece. Assim mesmo se a pessoa não pegasse a alegoria ela ainda teria uma história pra ler e gostar. Você podia colocar a criança do final como o narrador, por exemplo. E ele contaria do homem que tinha um lobo, de um jeito quase que em forma de fábula, mas que manteria a alegoria correndo pra quem quisesse, e quem não quisesse ainda teria uma história fantástica contada por uma criança que viveu curiosa com o museu e ajudou o dono a se encontrar e deixar de assombrar.

    É um exemplo de como dava pra manter sem deixar tão em primeiro plano, a alegoria, porque se ela não está como pano de fundo não entendê-la significa perder quase o conto inteiro, o que não é ideal. Espero que ajude, abraços

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Caio,
      >>> SPOILERS <<<
      Por seu post, já valeu, ter escrito a história, rs. Consegui relê-la através de sua visão e encontrei outras ideias para lacrar algumas lacunas. Você mergulhou na ideia original e me trouxe de volta. A sugestão de uma história simples sob a outra densa, como uma pele, é muito feliz… Só preciso verificar se tenho cacife para isso…
      Ajudou e muito! Valeu!

  19. Thata Pereira
    22 de dezembro de 2013

    Poxa, adorei essa escrita poética, umas descrições muito boas de ler e imaginar… mas a história não foi bem conduzida. Gostei muito do título e ele me fez entender que o lobo, o menino e o outro rapaz que aparece são, na verdade, a mesma pessoa. Arthur?

    Ficou confuso. Gostei da ideia do título e de como entendi o conto. Quero reler, para ver se entendo melhor, mas como sempre deixo meu comentário na primeira leitura, fica aqui a dica: o conto precisa de um melhor desenvolvimento.

    Boa Sorte!

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Oi, Thata
      >>> SPOILERS <<<
      Valeu pela leitura e comentário!
      Somente o lobo é um feixe de Arthur.
      Obrigada pela presença.

  20. Ricardo Gnecco Falco
    22 de dezembro de 2013

    Vejo muito futuro aqui, por trás de grossas camadas de emoção e alguma excentricidade: vislumbro um estilo próprio de escrita.
    Boa escrita. Talvez falte prática ou certo grau de sobriedade, mas o dom está aqui e faz-se presente, mesmo que ainda como um lobo em pele de Arthureiro…
    Parabéns!
    😉
    Boa sorte!

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Olá, Ricardo

      Obrigada pelas palavras generosas. Creio que tenha acertado no alvo. Falta-me prática e muita sobriedade… É que as ideias pulam como pipocas e não tenho outra escolha senão “encaixotá-las” assim… Talvez, o tempo, esse mestre sem piedade, me dê as coordenadas para acertar a mão, rs.

      Valeu!

      • Ricardo Gnecco Falco
        31 de dezembro de 2013

        Com certeza irá, Lis! O segredo é não parar! 😉
        Abrax!

  21. Marcellus
    21 de dezembro de 2013

    >>> SPOILERS <<<

    O texto é um pouco confuso, especialmente a parte do lobo. Tive que voltar algumas vezes para procurar se o sujeito era um lobisomem ou se o lobo era apenas uma alegoria, mas continuo sem entender muito bem.

    Concordo com a bellatriz: por aqui só existem lobos-guará. E são bichos simpáticos, que não provocam nenhum medo ou receio. Quem já visitou o Caraça, inclusive, deve tê-los alimentado.

    Outra coisa que não entendi bem: a criança era o escultor renascido? E ele mantinha as memórias da vida passada?

    Mas o autor tem mesmo potencial. Com algumas correções e um pouco de retrabalho, pode conseguir um ótimo conto. Boa sorte!

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Olá, Marcellus

      >>> SPOILERS <<<
      O lobo foi uma alegoria. E a criança não era a reencarnação do escultor, mas alguém com quem ele conviveu (o artista sentiu-se em parte responsável, por ter “sentenciado” Arthur à prisão da vaidade). Algo tão forte, cujo fim culmina no suicídio do protagonista.
      Valeu pela leitura!

  22. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    21 de dezembro de 2013

    Narrativa com lirismo delicado, com explicações que eu sempre evito. Tenho preguiça de dar satisfações demais.
    NÃO sei se entendi bem – o lindo moço era um ser dividido? Um lado humano e outro animal? Um misto de fantasma com lobisomem, é isso? Na lua cheia, ele se transforma.
    Outra dualidade são os fantasmas-anjos. Talvez, tenha sido mesmo a intenção do autor apresentar a ambiguidade dos sentimentos.
    Muita informação para assimilar. Precisarei reler algumas vezes.
    Contudo, o conto foi muito bem escrito. Boa sorte!

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      Oi, Claudia
      Agradeço imensamente pelos apontamentos. De certa forma, o texto inteiro foi uma tentativa de brincar com os laços terra/céu. Do material de que somos feitos: os feixes mais profundos são produtos de nossa interação com essa energia.
      Valeu!

  23. bellatrizfernandes
    21 de dezembro de 2013

    Dá para ver que o(a) autor(a) tem muito potencial através das descrições muito bem feitas e poéticas. Porém em questão de contexto… Precisa melhorar.
    Primeiro, ele assombrava a própria casa que virou museu. Depois, ele virou (?) um lobo que uivava por aí (nesse caso, o lobo era de verdade ou real?).
    Ribeirinha é um nome tão brasileiro – o que nos leva a crer que tudo se passa no interior do Brasil – mas ele foi morto atacado por um lobo (acho que o único que existe por aqui é o lobo-guará). Afinal, depois da morte ele possuiu o lobo (eram um ou dois?) que o matou ou virou um, o próprio animal que era sua vaidade(?).
    E então, já morto, ele pergunta, quando encontra a criança, se é a morte que veio lhe buscar. Mas ora… Ele já está morto! Certo?
    Todos sabiam que o museu era assombrado – logo, podiam ver o fantasma ou ele interagia de alguma forma com o mundo vivo – e se ele também tinha os sentidos, qual a diferença entre a vida e a morte, então?
    E por último… Uma criança com todo o discernimento para se matar pelo fundador da cidade? Eu acho que criança não se mata, não pensa nessas coisas. Achei pouco crível.
    Como eu disse anteriormente o autor tem potencial, e MUITO, mas é preciso trabalhar para que faça sentido não só para você, mas para todos nós.

    • Lis Haller
      27 de dezembro de 2013

      (spoiler)

      Olá, Bellatriz
      Agradeço pelo comentário e pela leitura! Realmente, rabisquei um texto um mais denso que numa primeira leitura pode desnortear o leitor (preciso repensar essa possibilidade).

      “Primeiro, ele assombrava a própria casa que virou museu.”

      Na verdade, Arthur viveu parte de sua vida nessa mansão. Depois de sua morte, a casa se transformou em museu. Note que a história se inicia no presente (1º parágrafo) e volta ao passado.

      “Depois, ele virou (?) um lobo que uivava por aí (nesse caso, o lobo era de verdade ou real?)”

      “Como homem, era um escritor bem sucedido, apaixonado pela poesia e pela beleza. Tinha-se como referência da perfeição, do exato, da poesia, que acreditava cristalizada em si. Como canino, era taciturno, encoberto por grossas camadas de medo e alguma tristeza: um feixe deles.”

      Salpiquei algumas pistas pelo texto, características abstratas (inclusive no título) de Arthur, na tentativa de informar o leitor que o conflito entre o Homem (espiritual) e o Lobo (animal) era uma briga, um conflito interno. A beleza, que deveria ser a ponte de união das duas faces, tornou-se sua perdição.
      Ribeirinha é um nome tão brasileiro – o que nos leva a crer que tudo se passa no interior do Brasil – mas ele foi morto atacado por um lobo (acho que o único que existe por aqui é o lobo-guará).
      O simpático Lobo-Guará não responderia pelo símbolo, rs.

      “E então, já morto, ele pergunta, quando encontra a criança, se é a morte que veio lhe buscar. Mas ora… Ele já está morto! Certo?
      Todos sabiam que o museu era assombrado – logo, podiam ver o fantasma ou ele interagia de alguma forma com o mundo vivo – e se ele também tinha os sentidos, qual a diferença entre a vida e a morte, então?”
      Mas Bellatriz, como alguém pode estar morto (bem mortinho) se ainda possui os sentidos? Digo, não seria a morte a destruição do ser? Mas ele se sentia vivo: “Sentiu uma brisa fria a bater em seu rosto de fantasma (possuía ainda os sentidos!”), angustiado, sem saber o que fazer com aquele resto de “vida” que lhe restava após a metamorfose (separação corpo-alma).

      “E por último… Uma criança com todo o discernimento para se matar pelo fundador da cidade? Eu acho que criança não se mata, não pensa nessas coisas. Achei pouco crível.”
      Não, o menino não se matou. Essa ideia teria derrubado o texto inteiro, realmente. Mas olhe o que ele fala para Arthur nesta passagem:
      — Eu ateei fogo no museu depois que todos saíram, mas não consegui fugir. As labaredas me atingiram rapidamente.

      Enfim, seus apontamentos mexeram comigo de uma forma muito positiva. Primeiro, porque como aprendiz, a gente precisa aprender a “ouvir” os outros olhos. Nesse repensar, possivelmente, encontrarei as falhas, os caminhos que possam ter me conduzido a falhas de coesão/coerência.
      Muito obrigada pela paciência!
      🙂

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Informação

Publicado às 20 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .