EntreContos

Detox Literário.

Lusco-Fusco (Vitor Stuani)

clariceA desesperança emanada feito estranho mana pelas paredes do Cabeça de Rato fazia com que aquele fosse um de meus lugares favoritos. Não que me deixasse confortável, mas sentia pelo bar o magnetismo instintivo das mariposas pelo fogo. Não raro, terminava com minhas asas chamuscadas.

 “—Este golpe covarde feriu não só a nação, mas também a fé, porque Dom Henrique III foi um homem de Deus.”

Em meio aos chuviscos da tevê, o velho convulsionava a papada enquanto cuspia sua bajulação em um buquê de microfones. Já contava cinco dias desde o atentado, mas o arcebispo Dom Marceli ainda encontrava subterfúgio para manter-se na mídia. O homem da Igreja tinha um fraco pelos holofotes. Não o condeno. Cada um com seus demônios. No meu, dei dois goles e voltei a escondê-lo embaixo do balcão engordurado. Solange, a proprietária, mostrou cumplicidade com meu ato em uma piscadela enquanto eu tirava meus dedos da garrafa de cachaça. Com um maneio de cabeça, a cabeleira ruiva roçando o busto, pediu por uma ronda entre as mesas. Afinal, tinha que fazer valer meu troco.

 

“—A Imperatriz Augusta Bragança desocupou um lugar que dificilmente será tomado por alguém de tamanha candura. Mãe dessa nação e mãe do nosso novo imperador. Pobre criança. Oro para que o Pai guie os passos de Dom Felipe Bragança.”

Solange e eu nos mantínhamos em uma equação simples: eu cumpria o papel de segurança daquela boca de bueiro e ela me retornava um punhado de coroas e alguma bebida para engrossar essa miséria. O que não foi verbalizado no trato, mas mostrou-se fundamental para seu sustento, foram as trepadas ocasionais com que ela me contemplava. Não que eu fosse negar aquela fartura balzaquiana, mas creio que, não fosse isto, ela já haveria de ter me jogado na rua.

 

“—Bem, é evidente que Dom Felipe irá precisar de um tutor. Não podemos esquecer que ele ainda é uma criança em seus quinze anos. É necessário alguém que o guie pelos caminhos da liderança. Antes disso, pelos caminhos da fé! Um líder apenas é justo em Cristo.”

As lâmpadas oscilavam pêndulas sob o teto, fazendo com que sombras dançassem sobre o tampo das mesas. Ajeitei meus óculos escuros e continuei caminhando pelo bar, tomando o cuidado de fazer-me ser notado pelos outros clientes, que em geral se resumia a um pessoal da pior linhagem. Contudo, Solange não fazia o tipo preconceituoso. Sendo dinheiro, pouco se importava se visse da boca de fumo ou da caixa de doações da paróquia. Santa mulher.

“—Os juízes da fé já tiveram avanços significativos no caso. Não posso falar de detalhes sem comprometer a investigação, mas…”

—Façam esse gordo calar essa a boca! ‘Tá rolando aquele amistoso em Dubai. Muda essa porcaria aí!

O silêncio que o inesperado criou, feito o vácuo que segue um disparo, foi paulatinamente preenchido por murmúrios de concordância. Um motim de bêbados mijados pelo poderio do controle remoto. Contrariada, Solange gritava com os mais exaltados enquanto mudava o canal do televisor velho e estabilizava a imagem em três pancadas. Enquanto isso, eu esquadrinhava o salão na busca do filha da mãe que havia começado com aquilo. Foi então que o vi, sentado ao fundo em uma mesa solitária. Bebia com gosto uma cerveja barata enquanto lascava o reboco da parede com seus dedos afinados. Percebi que aqueles olhos saltados, desproporcionalmente pregados à cabeça diminuta, já me seguiam antes mesmo de eu notá-lo. Quando caminhei em sua direção, sua boca abriu-se no sorriso que lhe era tão característico, algo como um cemitério abandonado, onde as lascas de dentes faziam a vez de lápides depredadas. Só de vê-lo, me veio a vontade de quebrar uns cinco túmulos em um gancho de direita.

—Vaza daqui. – sussurrei imperativo.

—Pô, Lúcio! Já foi mais gente fina com os camaradas! Ok, ok. Pela amizade, ‘tá perdoado. Vai, chega aí. Senta pra tomar uma. Te pago essa. – emendou o sujeitinho.

—Vai à merda, Piranha.

—Lúcio, Lúcio. Que isso, meu preto? Tanto tempo junto, e me trata assim? Esqueceu dos bons tempos? Esqueceu daquela vez, na mansão dos bacanas na Via Augusta? Fiquei um mês usando grana até para limpar a bunda. Deixa disso, cara. Senta aqui, preciso tratar contigo.

—Vai precisar é tratar com um cirurgião se não se mandar.

—Vixe! Teu humor já foi melhor. ‘Tá um babaca. ‘Tá certo. Me mando. Mas antes, pelo menos escuta. Tenho um serviço. Você deveria ouvir. O Camargo não arreda o pé, diz que precisa ser você.

—Sabe que saí dessa. Estou em outra. E, na real, não estou nada a fim de ser ferrado pelo Camargo de novo.

—Segura a onda aí, cara. Papo sério. Grana alta. – Piranha aproximou-se de modo que a conversa seguiu em um sussurro digno de qualquer adúltera no confessionário. – ‘Tá ligado na explosão que ferrou com os Bragança? Pois é, fodeu a gente também. A Banca dos Oligarcas está na nossa cola achando que fomos nós que armamos tudo. As Guildas dos Ladrões estão todas na mira. Três facções foram fuziladas nesses dois dias. Pegaram o Perna e o Carniça da nossa.

—Os Oligarcas? Deixa disso, os caras que normalmente contratam vocês!

—Eu sei! Todos sabem! Mas querem encontrar em quem meter a culpa. Como dizem naquele lance do bode? Respiratório? Querem aparecer bem para pegar a tutela do garoto imperador. Sabe, até fazer os dezoito. O Conde Gorman está feito cachorro que farejou um cio. Se bobear, ainda aposto que o puto tem coisa a ver com a bomba.

—E que tenho eu com isso?

—Estão nos monitorando. Você, como já pulou fora, ‘tá limpo. Precisamos de ajuda externa para resolver essa parada, descobrir o responsável. E… bem, você tem tuas esquisitices. – disse ele, indicando com o nariz meus óculos de sol.

—E que ganho com isso?

—Sua dívida com Camargo fica perdoada. E te volta cinquenta mil coroas. Mais do que você ganharia em toda sua vida nesse lixo.

—E que preciso fazer?

—Vá atrás do Clã Orin Majo. Já fechamos esquema com eles. Vão dar uma mão para você. – respondeu, visivelmente satisfeito com sua atuação. Meteu a mão no bolso e jogou cinco coroas sobre a mesa, arreganhando-se em seu fiasco de sorriso. – Fique com o troco.

—Piranha.- parei-o segurando-lhe o braço. – Me ferrem outra vez, e mato vocês.

O sujeitinho deu um riso curto e assentiu com a cabeça, mexendo-se para fugir de meus dedos.

—E promessa é dívida. Fique tranquilo, Lúcio. Ah, sim – finalizou com malícia antes de sair – e vá pela sombra.

****

Não sou um cara bom. Também não seria justo dizer que sou mau. Aí esta a ironia divina de minha criação; nada mais sacana que privar à vista de um sujeito cinza as demais cores. Aos cinco, a creche marcou uma reunião com meus pais. Sem pudor, a professora rasgou o verbo: “Seu filho é retardado”. Na mesa, expôs com uma perícia detetivesca aquelas que eram as provas de sua defesa: um punhado de desenhos infantis mal coloridos. Pegou um, onde um céu esmeralda unia-se ao horizonte com uma campina escarlate.  “A tarefa das crianças já é uma porcaria, mas nisso seu filho é um prodígio”.Na época, já pouco saia de casa e era inegável meu desconforto com lugares abertos. Isso apenas serviu para corroborar com o julgamento. Foram quatro meses dopado até perceberem o erro no diagnóstico. Não a cabeça, mas os olhos. Tinha seis anos quando soube que tinha acromatopsia. Desde então, sei por que vivo em um mundo em escala de cinzas e tenho uma tremenda intolerância à luminosidade. E com essa ciência, também veio minha afinidade com as sombras.

Por isso, quando vi o céu acinzentado coroando o morro de Nova Nipônia, fiquei agradecido pelas nuvens de chuva. Não cairia bem atravessar a comunidade de certo ponto em diante de carro. Soaria uma afronta. Mesmo sendo um povo mestiço, a população local desconfia dos gaijin, o que engloba praticamente o restante do país. A favela era um dos reflexos da imigração japonesa massiva no início do Império.

Caso fosse de meu interesse, poderia atravessar todas aquelas ruelas tortuosas sem ser visto. Este é meu dom. Mas não sou burro. Sei que seria uma cuspida na cara dos Orin Majo. E se você mexe com o clã, você morre. Por isso, caminhei sempre pelas ruas mais iluminadas, longe de qualquer penumbra. Sabia que observavam.

Soube que estava chegando ao lugar quando encontrei dois ninjas do clã em vigília. Sua leveza anormal mantinha-os suspensos sobre o telhado de zinco de um barraco como corvos velando o fim da tarde. Usavam havaianas e camisetas enroladas ao redor do rosto, apenas se abrindo em uma fenda para seus olhos puxados. Ladeando seus troncos negros, traziam cada qual sua katana. É preciso um leve entendimento para compreender as sutilezas daquela comunicação. Ao se mostrarem, diziam que me receberiam. Fosse o contrário, estaria morto.

Após superar o último aclive, vi os barracos abrirem espaço, como que em respeito, a um decadente santuário xintoísta. Suas paredes cor de fuligem eram uma quimera de madeira e papelão. De qualquer forma, a despeito da pobreza, carregava consigo a elegância da arquitetura oriental. Parei em frente ao pátio frontal e aguardei. Vieram então três badaladas de sino e a fusumá da entrada abriu-se. Caminhei até a porta, tirei meu coturno e entrei.

Meus pés colavam na frieza daquele piso. Um cheiro de incenso e arruda tomava o ar, inebriante. Tateei as sombras numa busca instintiva de familiaridade. Uma rota de fuga.  Ao menos, escuridão era algo que não faltava ali. Ao lado do batente, uma bandeja abrigava um punhado de pipoca, frutas e velas sob a imagem de Iemanjá. Percebi que estava em um longo corredor ornamentado por deidades e oferendas. Não sou homem de temer quebrantos, mas não procurei perder tempo.

Mais a frente, outra porta de papel se abriu. Ao contrário do corredor, uma luminosidade cobria o lugar. Não consegui deixar de pensar que aquilo era proposital. Em seu centro, sentada no tatame, estava a figura imensa da sacerdotisa. Envolta em um trabalhado branco de rendas, ela, como todos ali, possuía traços afronipônicos. Aproximei-me enquanto a velha dava longos tragos em seu charuto de terceira. Sentia o fedor quente de suas baforadas quando me inclinei a sua frente em sinal de respeito, totalmente ciente dos olhos que surgiam e sumiam pelo cômodo.

—Venho a mando do Camargo, senhora.

—Os caminhos são limpos pros conhecedores dos mistérios, meu preto. Sabia da tua vinda. – respondeu a mulher, perdida que estava entre a névoa alvacenta de suas tragadas.- Não por Camargo. Ele confirmou um dos segredos. Sei das encruzilhadas do futuro, das tramas dos orixás. Vou levá-lo para a melhor delas – sentenciou, parando por um instante para saborear o roçar do charuto contra os lábios. Virando-se como que para ninguém, não fosse um borrão negro a sua direita, ordenou – Chame Masumi.

O negrume espectral tremeluziu como o calor desprezado de uma vela, e no instante seguinte, não estava mais lá. Fique então sob o olhar ancestral daquela santidade herege. Sentia como se no ambiente houvesse uma batalha invisível entre o funesto e o sagrado. Descendo os dedos carregados de anéis e talismãs, pegou um tokkuri de sake e deixou o líquido descer para dois guinomis. Esticando uma das mãos graúdas, me entregou um dos copos. Enquanto ambos segurávamos o recipiente, deixou-se demorar no contato de nossas peles. Satisfeita, soltou minha bebida e ocupou-se de bebericar a sua. Usando a mão oposta, abanava-se despretensiosamente com uma folha de graúna.

—Desculpe… alguma coisa? – segui cauteloso, ponderando entre o risco de declinar a bebida e de considerar que o sake estava puro. Com prudência, sorvi um rápido gole apenas para cumprir o cerimonial.

—Sabia que viria um nagô. Tem sangue yorubá em tua carne, Lúcio Ojiji.

—Sim. Tive avô escravo, madame. Na verdade, sinto que estou em desvantagem aqui, dona. Sabe tanto de mim, e da senhora não tenho nem o nome.

—Nomes são fortes, menino. Besteira tua manter o seu estampado na cara. Não te entregarei o meu. Mas posso te dar outra coisa. – a velha pareceu contrair-se em seu centro, mas então vi que buscava uma pulseira. – Leve esse patuá ungido nas ervas de Tengu, o homem pássaro dos shinobi. Afinal também tem um gosto pelas sombras, não?

—Cai bem para o meu paladar, não nego.

Peguei o paduá dos dedos pinçados da sacerdotisa. Era feito de tiras de couro cozido trançadas com plumas cinzentas interpostas entre os nós. A fragrância de fumo de corda, azevinho e uma nota cáustica trouxeram uma comichão para meu nariz. Mesmo não crendo em mandinga, agradeci à feiticeira e amarrei a pulseira em meu punho. Nesse ínterim, ouvi um crescente de passos vindos do interior do templo. Silêncio. A porta desliza. Ela entra.

Não seria exagero dizer que aquela mulher teve o egoísmo de tomar para si apenas o que julgou melhor de cada raça. As proporções das curvas de seus quadris e o gingado com que se articulava denunciavam sua parte do continente negro. A cor de sua pele pendia para o colapso do yin-yang. Os cabelos pretos desciam lisos com deságue em suas clavículas desnudas. A boca volumosa estava pintada em algum tom escuro. Talvez vermelho. Já dos olhos, não pude confirmar a sutileza nipônica que supunha carregarem. Seguindo transversalmente de orelha a orelha, uma venda branca lhe cobria a vista.

—Lúcio, esta é Masumi.

Ante a apresentação da velha, a jovem dobrou-se em respeitosa saudação. Intrigado, não me contive:

—Mas é cega?

Com a risada longa que os que muito sabem direcionam para as crianças, a sacerdotisa respondeu:

—Leve ela até onde morreu o imperador. Lá ela tirará a venda. Então verá que o cego não é ela.

***

O céu era uma uniformidade de chumbo que hora ou outra se abria em uma veia luminosa. A garoa chorava mansa quando chegamos aos portões da Catedral Jurídica Imperial. Mesmo naquela hora avançada, era certo que os juízes da fé estariam percorrendo aqueles corredores estreitos, riscando pergaminhos e beliscando prostitutas. Embora seja de arquitetura gótica, creio que aquelas paredes nunca fizeram figura mais funesta. Olhando-as pela primeira vez após o atentado, parecia-me um cadáver. A cabeça, onde ficaria a ala norte, estourada com o impacto de um tiro de 12. Era àquilo que me remetia a massa carbonizada retorcida que florescia nos campos da explosão.

Masumi e eu estávamos sós, entregues à noite. Embora afirmasse não ser cega, ela utilizou uma bengala para se orientar, nunca confiando inteiramente em meu direcionamento. Precisava então levá-la até o antigo Pátio de Cerimônia para que pudesse fazer o seu hocus pocus, ou seja lá o que fosse. Mas estávamos fora, refugiados da chuva na marquise do prédio comercial vizinho. E ali, era eu quem faria a mágica.

—E então, qual o lance dos olhos? – perguntei, tentando quebrar o gelo.

—Ainda não é a hora. – disse com firmeza. Tinha o tom na frequência que concentra o fascínio masculino.

—Ora, qual é! Farei meu truque agora. Parece injusto. Como é que dizem, eu mostro o meu se você mostra o seu?

Masumi tentou travar o sorriso com as covinhas de sua bochecha, mas acabou cedendo.

—É com essa lábia que convence as garotas?

—As vezes funciona.

—Só se o seu for bom o suficiente. – tateando o ar, ela tocou meu peito com a ponta dos dedos. – Você primeiro.

A luz solitária do poste com custo despregava uma réstia de luminosidade sobre a marquise acima de nós. Em resultado, uma penumbra densa ocupava todo o espaço entre nós e a parede. Passei a mão pela escuridão, deixando o negrume escorrer por entre os dedos. O toque glacial das sombras correu por minhas veias conforme me entregava. Com força, segurei o braço de Misumi. Vi seus pelos se arrepiarem quando o véu negro passou de meu corpo para o seu.

—Não se preocupe – sussurrei – elas sempre arrepiam.

Sem esperar por sua resposta, em um rompante a puxei contra mim e deixei-me cair no abismo oculto. Éramos um com a sombra. Agora, precisaria esperar.

O tempo parece correr muito mais devagar quando se está de tocaia, e dessa vez não foi diferente. Custou uma eternidade até que finalmente um vigia da Catedral aparecesse perto do portão de entrada. Precisei atirar algumas pedras para atrair sua atenção. Depois da quinta, armado, decidiu averiguar a esquina . Destrancou o portão e, passo a passo, aproximou-se. A arma em riste, esperta para qualquer anormalidade. A luz do poste lhe banhando, derramando sua sombra próxima à calçada. Mais alguns passos. Parou pouco mais de um metro a minha frente. Ele me olhou, mas não me via. Perto. O homem dá mais um passo. Sua sombra funde-se à da marquise. Eu saltei. Fora um arrepio, ele nada sentiu. Mal imaginou que, ao retornar Catedral adentro, trazia dois na boleia.

***

Dentro da Catedral foi fácil rastejar de sombra em sombra até alcançar o Pátio de Cerimônia. Restava voltar para a luz, o que para mim é mais complicado que o oposto. Forcei o braço contra a resistência do ar noturno. O calor começou a roer a ponta de meus dedos até que, com um desequilíbrio, cai no piso de madeira com uma Misumi arfante ao meu lado.

—Sua vez.

Com pompa, ela se levantou e bateu a poeira da calça. Perdendo as mãos entre os cabelos, desfez o nó que lhe negava a visão e revelou seus olhos puxados.

—Não notou nada de estranho aqui? Digo, aqui é a Catedral Jurídica Imperial! Nunca pensou que não faz sentido que em um dos lugares mais seguros do Brasil não tenha nenhum registro do atentado? As filmagens sumiram, foi o que disseram. Tentaram esconder. Mas não de mim.

—O que quer dizer?

—Cada foto, cada filmagem gera um eco no tempo. Deixa um registro no espaço. Algo sutil, mas atemporal e imutável. Eu enxergo todos eles.

—E a venda?

—Pela minha sanidade. Custa enxergar tanto. Perco o fio da realidade. Agora mesmo, vejo uma multidão sobre você. Muitos mortos com honrarias, estudantes, juízes da paz. Agora é preciso fazer como um álbum de fotos; com esforço, consigo folhear as memórias e destacar a que busco.

Surpreso, estanquei em meu lugar. Masumi , em silêncio, franziu a testa e apertou as têmporas.

—Um homem… um velho. Dá para ver ele ali, instalando algo embaixo da mesa de banquete.– Ela aproximou-se do centro da sala, desviando-se dos destroços.- Mas… Dom Marceli?

—O arcebispo? – surpreendi-me ao mesmo tempo em que notei uma nova presença. Era Dom Marceli trazendo em seu encalço seu pupilo,o imperador. Ao fundo, Camargo e Piranha apontavam-me suas armas.

—E confirmo. Pequei. Apenas para salvar a nação do liberalismo de Dom Henrique III!  Seu filho que reinará segundo pede Deus!

Desviando-me das pregações do arcebispo, encarei o olhar frio de Dom Felipe. Sei reconhecer de onde vem o fedor.

—O que quer com isso?

—Ora, não vê? – respondeu o garoto em sua voz de falsete. – Poder. E preciso agradecê-los. Não fossem vocês, não montaria esta ópera. As guildas estão em guerra com os Oligarcas. Agora, temos Arcebispo morto por uma ação conjunta de ladrões e dos clãs.

—Morto? – surpreendeu-se o velho, pouco antes de uma bala sair da arma de Piranha contemplando sua cabeça.

— Morto.- respondeu o jovem ao corpo estirado.- Adivinhem a resposta da Igreja quando souberem da participação de uma herege? Entraremos em colapso! Logo será minha hora de centralizar o poder. Irão clamar por isso. Não chore. Dançaram bem a música que toquei, mas tenho que acabar com isso.

Com a ordem, Piranha faz mira contra meu peito. No mesmo instante, senti o cheiro de tabaco e um ardor no patuá. Súbito, uma katana surgiu das sombras, decepando a mão de Piranha, que ficou sangrando feito porco no abate.

—E quem disse que é sua a música?- ressoou uma voz no fundo do corredor. Com passos curtos, Conde Gorman ficou de frente para Dom Felipe, segurando-o pelo colarinho. – Ponha-se em seu lugar, garoto. Não ferrasse com teu pai e teria aprendido um pouco mais! Quem disse que a coroa manda porra alguma por aqui? Que dinheiro acha que sustenta teus luxos, seu merdinha? Acha que minhas petroleiras não servem de nada?

—Me larga, seu porco!

—Cale a boca e escute. Imaginava de sua ligação com alguma guilda, por isso farejei até encontrar quem abrisse o bico. Depois, paguei o dobro do que ofereceu para os Orin Majo e os trouxe para meu lado. Aprenda: manda quem tem mais. Agora vamos, é hora de te ensinar outras lições, senhor Imperador.

O conde já ia saindo, Dom Felipe sobre o ombro, quando virou-se para mim e Masumi.

—Antes que me esqueça, manterei a oferta feita por Camargo, rapaz. Cinquenta mil?

—Sim, mas gostaria de pedir mais uma coisa.

Dando uma olhadela para Camargo, o homem abriu-se em sorriso.

—Até duas.

Olho os dois homens apavorados, as calças mijadas. Com gosto, engatilho a arma. Faço a pontaria.

—Vão pela sombra.

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25 comentários em “Lusco-Fusco (Vitor Stuani)

  1. vitorts
    7 de dezembro de 2013

    Agora que já caíram as cortinas, gostaria de agradecer ao pessoal que dispôs de um tempinho para gastar com minhas loucuras. E desculpem por minha participação não ter sido representativa nesse mês. Agora em dezembro irei me organizar melhor para não ficar devendo leitura.

    Quanto ao texto, logo que enviei para o Gustavo, disse que tinha duas certezas:

    1- Que iam dizer que estava muito corrido;
    2- “Cadê a porra do Noir?!”

    Pois é. Concordo com tudo que disseram. Mais uma vez, tentei colocar um elefante na sala de estar. Já beirava os 3.200 quando vi que não havia chegado nem ao meio do conto. Resultado, apelei para a amputação. Sem dó. Cortei um bom tanto do início para dar uma folga para o desfecho, que ainda assim saiu com cara de final do Scooby-doo. Assumo a culpa.

    Quanto ao Noir, ficou um tanto em segundo plano, mesmo. Confesso, joguei sujo. Não tenho muita familiaridade com o noir, então o trouxe para minha zona de conforto. Usei de uma boa dose de fantasia. Por isso esse jeitão de Fantasia Urbana com Realidade Alternativa. Isso porque não houve espaço para colocar meus elfos craqueiros! hahahaha

    Bom, mais uma vez, obrigado mesmo pela leitura e pelos comentários. Espero fazer melhor na próxima vez. 🙂

    • Bia Machado
      7 de dezembro de 2013

      Faça o favor de entregar a versão livre de cortes? =D

    • Felipe Falconeri
      7 de dezembro de 2013

      Faço coro à Bia. Até porque já me diverti pra caramba lendo essa versão “amputada”, adoraria ver a integral. 😀

      • vitorts
        10 de dezembro de 2013

        Yes, sir! 😀

  2. Bia Machado
    4 de dezembro de 2013

    Gostei, por essa mistura toda e pela ousadia. Me senti tonta em alguns momentos, rs. Certamente deixei escapar muita coisa… O espaço foi pouco para o que ele podia ser. Mas gostei muito desse “lance” todo, gostaria de ver uma graphic novel disso, ou então uma versão livre de cortes… Parabéns! 😉

  3. Leandro B.
    4 de dezembro de 2013

    O Falconeri tirou as palavras da minha boca. Me senti lendo uma HQ. Eu juro que visualizei a parte dos ninhas de havaiana em um quadro numa página. Aliás, o poder da Masumi me lembrou a perspectiva do Dr. Manhattan sobre o tempo. Um texto excelente.

    Ainda assim, recomendo que se considere rearranjar um pouco o início e dar algumas pistas do que vem pela frente. Fiquei muito, MUITO perdido quando toda a mistura começou. O final também me confundiu bastante. Imagino que isso tenha sido consequência do limite de palavras.

    Enfim, ótimo conto.

  4. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    Maneiríssimo! Não esperava ver um conto de fantasia nesse desafio. E se me permite dizer, achei o setting promissor. A mistura cultural foi muito bem explorada nessa realidade alternativa, e gostei dos “poderes” dos dois personagens. Fiquei um pouco surpreso com o fato do protagonista enxergar em preto e branco, como outro personagem de outro conto no desafio, mas esse ainda tinha algo a mais: a capacidade de habitar as sombras. Sensacional. Consigo ver essa história como uma espécie de “anime brasileiro”. Noir + Fantasia + Brasil + Japão + Ninjas + Orixás. O que pode dar errado?

    SUGESTÕES

    Quando o Piranha menciona o Conde, que terá grande importância mais tarde, sugiro que haja menção mais detalhada a quem é esse Conde, de modo que não pareça tão estranha sua aparição no final.

    TRECHO FAVORITO

    “—Mas é cega?

    Com a risada longa que os que muito sabem direcionam para as crianças, a sacerdotisa respondeu:

    —Leve ela até onde morreu o imperador. Lá ela tirará a venda. Então verá que o cego não é ela.”

  5. Pedro Luna Coelho Façanha
    3 de dezembro de 2013

    Eu iria mentir se não disser que achei o texto confuso. Só que insisti e achei muito bom. Quando vi os ninjas entrarem na história, percebi que era melhor abrir a cabeça e deixar rolar. Ainda acho que poderia ficar mais claro, principalmente no início, mas o autor não tem a obrigação de fazer isso. O texto é bom.

  6. Claudio Peixoto dos Santos
    3 de dezembro de 2013

    Sou meio do contra. Não gosto dessas misturebas, fica parecendo aquelas calças coloridas tipo Restart… não rola pra mim. Sorry.

  7. Felipe Falconeri
    2 de dezembro de 2013

    Gostei! Gostei muito!

    Engraçado ver como algumas ideia, mesmo não sendo óbvias, acabam se repetindo em alguns contos. Assim como tem dois textos que misturam noir com contos de fadas, esse é o segundo texto em que o autor pega emprestada a visão monocromática do personagem para reforçar a ambientação noir.

    Mas esse não foi o único elemento noir no conto. A escuridão que permeia o texto, a chuva, a importância da cidade na formação dos personagens, a idealização da figura feminina (que nem sempre vem através de uma femme fatale), o protagonista com um quê de anti-herói… Tá tudo aí!

    Essa mistura da cultura afro com a nipônica ficou muito bem feita. E foi muito bem adaptada também ao cenário nacional (os ninjas com havaianas e camisetas no rosto foram uma excelente sacada). Até mesmo os “poderes” dos personagens, coisa que sempre estranho em textos, ficaram muito bem colocados. Esse enredo, somado ao fato do conto ser bastante visual, fez com que eu me sentisse lendo uma HQ. Uma boa HQ.

    O conto é um recorte de um universo muito mais amplo. Mas ele não deixa uma sensação de incompletude. O texto consegue se sustentar sozinho.

    Não notei muitos erros de escrita. Mas confesso que a trama me envolveu e não reparei muito nisso, rs.

    A única coisa de que não gostei foi não saber o que o Lúcio pediria ao Conde. Pô, fiquei curioso. 😛

    De resto, nada mais a reclamar. Achei o conto excelente. 🙂

    • Felipe Falconeri
      2 de dezembro de 2013

      P.S.: Muito boa a imagem, casou perfeitamente com o conto.

  8. Alana das Fadas
    2 de dezembro de 2013

    Não creio que eu tenha sido a única que achou a história deveras confusa. Precisei reler, pois foi muita informação em pouco espaço. No final, ficou muito perdido! Sinceramente, não gostei da trama em todo o conjunto, mas que o autor domina a arte da escrita e o faz com maestria, isso sim. Gostei especialmente dos jogos de palavras!

  9. Agenor Batista Jr.
    30 de novembro de 2013

    Posso dizer que no todo foi um conto atraente mas que ficou meio apressado. Embora tenha elementos “noir” não tem a alma. Interessante pelo amálgama cultural e político e ainda pelo sincretismo religioso. Enfim, uma mistura que deu certo. Ah, fiquei apoquentado com o “mana” do início que, creio, tratar-se de “maná”: iguaria ou prazer. Mas li com o prazer dos iniciados recentemente.

  10. emptyspaces11 (@emptyspaces11)
    29 de novembro de 2013

    Isso me lembrou uma colagem. Uma daquelas colagens que os dadaístas faziam com os textos ou imagens. Não é uma crítica ruim, não. Eu gostei muito do que eu li, mas sério… Precisei reler a história. Muita informação para o meu cérebro de dois neurônios. Muito criativo. Tem coisas que não se explicam, apenas se diz, gosto, ou não gosto. Eu gostei.

  11. Thata Pereira
    28 de novembro de 2013

    Estava empolgada para ler esse conto por conta do pseudônimo, tenho algumas amigas que me chamam de Lispector, — não, não sou o(a) autor(a) — mas travei na primeira linha. :/ Continuei , mas precisei voltar algumas partes para entender a história. Acredito que o limite de palavras foi o que atrapalhou o conto.

    De qualquer forma, após o desafio quero voltar e reler.

  12. Masaki
    28 de novembro de 2013

    Realmente… Creio que a palavra que mais se encaixa a este conto é: insanidade. Contudo é uma insanidade boa. Àquela que você tem o prazer momentâneo de ficar. A trama em alguns trechos dá uma travada, mas acredito que seja proposital. O autor soube explorar o universo da multiplicidade muito bem, entretanto não vi muito elemento noir. Há alguns erros básicos, como, por exemplo, crase a sobrar e em outra ocasião a faltar. O nome da personagem Masumi aparece alterado em alguns pontos. Porém… gostei muito de ficar “insano” com esta história. Parabéns!

  13. fernandoabreude88
    26 de novembro de 2013

    Olha, esse conto é tão livre e insano que não tenho nenhuma crítica a fazer. Gosto de coisas assim, a mistura das culturas, uma espécie de história alternativa e os personagens e descrições criados por uma mente genial. É, até mesmo, uma terapia, pois vamos passando os olhos pelo textos, nos deliciando com as pluralidade de imagens, muito bom mesmo!

  14. Marcellus
    24 de novembro de 2013

    A ideia é muito boa! Mas o limite de palavras do desafio cobrou um preço alto do conto.

    Se o autor quiser lançá-lo como livro, já tem um leitor! Parabéns!

  15. Gustavo Araujo
    24 de novembro de 2013

    O problema deste conto é que ele tem ideias – muitas ideias – que são boas demais para caber em um espaço tão diminuto. Esse clima multicultural que permeia o texto ficou sensacional, mas não foi capaz de ocultar o ritmo por demais acelerado imposto no fim. Trechos do desenvolvimento também ficaram um pouco estranhos, como se o autor tivesse editado o texto para adequá-lo ao limite. De todo modo, pela criatividade – seguramente é um dos contos mais imaginativos deste desafio – o autor está de parabéns. Queria muito ver esta história na íntegra depois 😉

  16. mportonet
    22 de novembro de 2013

    Eu achei fantástico!

    Uma espécie de X-Men noir (ou não), o universo do autor funcionou muito bem.

    Gostei da criatividade e acho somente que precisa de um pequeno esmero na narrativa (pequeno mesmo), já que a história tem muita informação e nem todo mundo tem paciência de ir e voltar para tentar entender o que tá acontecendo.

    Essa dupla, Lucio e Masumi dá um bom caldo, grandes histórias de super-anti-heróis virão por ai.

  17. charlesdias
    21 de novembro de 2013

    Muito confuso o conto. Li até metade e desisti de entender. Não consegui nem identificar o gênero! Não adianta, tudo que temClarice Lispector no meio eu não entendo nadinha de nada!

  18. Jefferson Lemos
    21 de novembro de 2013

    Achei muito louco! Uma mistura que de certo modo, deu certo.
    Gostei da forma como foi narrado, pois o autor soube conduzir o texto. Gostei dos elementos incomuns utilizados e gostei da história em si. Entretanto, achei que faltou mais, senti um vazio em certa parte do texto.
    Enfim, foi um bom conto, mas poderia ter sido melhor. Digo isso pelo fato de ser uma coisa nova, que mistura um bocado de elementos.
    Parabéns!

  19. Ricardo Gnecco Falco
    20 de novembro de 2013

    Sei lá… Me senti meio retardado lendo isso… Ou estou diante de um gênio literário ainda não descoberto, ou lendo um gênero literário ainda não cadastrado, ou sofrendo de alguma doença degenerativa do cérebro, ou simplesmente perdendo alguns minutos de minha vida.
    Quando descobrir, volto aqui para contar.
    Ou não.
    :O

  20. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    20 de novembro de 2013

    Também fiquei confusa quanto à primeira frase – emana – mana – era irmã de quem? Da desesperança? Emanada? Não entendi.
    Reli algumas passagens para tentar me situar. Achei que estava meio lesada pelo feriado, sei lá. Muita informação ao mesmo tempo.. Entretanto, é uma narrativa bem interessante, rica em elementos culturais e arranjos criativos. Uma boa leitura. Boa sorte.

  21. rubemcabral
    20 de novembro de 2013

    Opa, bem bacana o conto! A doidice da mistura do cenário de história alternativa + fantasia deixou-me tonto de inicio, e obrigou-me a reler algumas informações. Incrível a mescla de culturas japonesas e afros, com direito a mãe-de-santo, ninjas e tudo mais. Nota 10 pela criatividade!

    Bem, depois das flores, alguns “espinhos”:

    – a frase de abertura está bem estranha: é “maná” ou é o verbo “manar” conjugado? Não entendi o sentido da frase com “mana” (e “emana” e “mana” na mesma frase dá um eco horrível);
    – o final tá em fast-forward; entra o Piranha, o Camargo, o futuro rei, o bispo. Só faltaram babalorixás e ninjas, rs. Li e reli e não consegui absorver bem tudo o que aconteceu. Tá meio “epilético”, sei lá, na falta de expressão melhor;
    – há elementos de noir (anti-herói, investigação, crime), mas poderia ter injetado mais alguns, não?

    Fora esses pequenos pontos, achei muito bom!

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Informação

Publicado às 20 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .