EntreContos

Detox Literário.

O Caso de Natanael (Frederico Guimarães)

Faltava pouco tempo para o prazo se esgotar. Enquanto perambulava de um lado pro outro, acendia um cigarro, esfregava as mãos, sentava-se pra se levantar. Com a cabeça pesada, contava as horas, calculava os minutos, angustiava-se com os segundos que ainda ia matar.

“Arre égua”, resmungava o nordestino, carregando um terço no peito sedento de fome do medo de amar.

Desde que tomou conhecimento do emprego, num rabisco de jornal, interessou-se sobremaneira pela forma como ele foi colocado: “precisa-se de homem frio, sem sentimentos, paga-se bom dinheiro”, e assim se foi Natanael.

Chegou num ou dois dias, cambaleando tropeço, queria o emprego, o dinheiro, estava faminto.

– O senhor sente-se aí – replicou-lhe um homem gordo na penumbra do quarto.

Natanael se sentou. Esfregou uma mão na outra, ouviu qualquer ladainha, e carimbou um documento branco com o seu polegar. Depois, desceu escada afora com um 38, o cano desgastado da vida, a ferida cravada no olhar.

– Como vai Natanael? – perguntou-lhe Luiza, tentando travar conversação com o sertanejo.

Natanael assentiu com a cabeça, colocou o pé pra fora de lá e foi fazer o serviço num cortiço da Bela Vista, no centro de São Paulo.

– Venho trazer boas novas! – e assim trouxe, um tiro no peito e outro na cara, sem explicações ou meias palavras.

Foi o suficiente pra se sentir Lampião. Natanael matava como lhe pediam. O gordo trazia o papel, ele carimbava, e logo estava com o cano na cabeça do recém-falecido.

“Vale um bom dinheiro”, e se benzia pra espantar o mal.

******

Natanael era bom sujeito, família de bem, com vontade de amar. Não sabia por que matava, mas fazia ordenado, e aos poucos começou a responder os cortejos de Luiza.

– Tu é mulher do gordo, não falo contigo não -, e saía em busca de mais uma vítima.

Quando matou o décimo, Natanael deixou a modéstia de lado, deitou-se com Luiza, fez amor como se faz um calango.  Em seguida adoeceu.

– Por quê não se levanta dessa cama, diacho? – perguntava Luiza impaciente.

Natanael não sabia o que se passava. Queria ganhar mais dinheiro, aumentar sua lista, conquistar o coração de Luiza. Se possível matar o gordo.

– Preciso me levantar – e suas pernas pesavam, os braços amolecidos, a culpa veio lhe açoitar.

“O anúncio dizia homem frio”, e começava a delirar consigo.

O jeito foi meter o pé na rua, deixar a cabeça respirar, espantar a febre que lhe açoitava. Entrou num coletivo cheio de gente, o 38 na cintura, a camisa por cima da calça, abafando a suspeita do olhar.

“Queria mesmo era matar toda essa gente”, replicava consigo o desgraçado.

Enquanto seus ombros pesavam, andava sufocado pelo corredor abarrotado de gente. Desceu num ponto qualquer, perambulou sem entender nada, começou a indagar a si mesmo.

“Quem era aquela gente meu Deus? Quem é que eu matei? Quem é o gordo? Quem é Luiza?”, e foi saber o que se passava.

*****

Não encontrou o patrão, tão pouco Luiza no escritório abandonado. Achou somente uma fita de vídeo na mesa com uma gravação feita pelo canalha do gordo.

Ele queria a cabeça de Natanael, mas poupava-lhe em troca da cabeça de Luiza.

E assim Natanael se foi novamente. Contava as horas, calculava os minutos, angustiava-se com os segundos que ainda ia matar.

Veio Luiza. O vestido decotado na parte de cima, a arma engatilhada nas mãos, a fraqueza na hora de matar a mulher amada.

O gordo veio logo em seguida, matando a prostituta e o desgraçado, chamando a polícia, saindo do cabaré com a fita debaixo do braço.

No jornal do dia seguinte, a manchete trazia Natanael na página policial, incriminado por matar Luiza e mais dez escritores.

Na página de cultura, o caso virara conto, ganhara uma vírgula, um ponto e um elogio editorial. O autor da história era gordo, de nome, renome, com coluna social.

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25 comentários em “O Caso de Natanael (Frederico Guimarães)

  1. Pedro Luna Coelho Façanha
    5 de dezembro de 2013

    ”Quando matou o décimo, Natanael deixou a modéstia de lado, deitou-se com Luiza, fez amor como se faz um calango.” HAHAHAHA. Ri muito..kkk. Agora, não curti muito o texto. Muito curto e simplório. Não me envolvi.

  2. Leandro B.
    4 de dezembro de 2013

    Achei uma história agradável. Nada muito além disso. Senti, também, certa distância com os elementos noir… De todo modo, uma história bacana de se ler.

  3. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    *O Caso de Natanael (Severino Ramos)

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    O estilo despojado, rítmico, meio “literatura de cordel”, dá ao conto personalidade e irreverência.

    SUGESTÕES

    A narrativa das circunstâncias da morte do Natanael e da Luíza ficou muito confusa. Aliás, se o gordo pretendia matar os dois, pra que se dar o trabalho de deixar a fita pro Natanael?

    TRECHO FAVORITO

    “Enquanto seus ombros pesavam, andava sufocado pelo corredor abarrotado de gente. Desceu num ponto qualquer, perambulou sem entender nada, começou a indagar a si mesmo.

    ‘Quem era aquela gente meu Deus? Quem é que eu matei? Quem é o gordo? Quem é Luiza?'”

  4. Claudio Peixoto dos Santos
    3 de dezembro de 2013

    Legalzin.

  5. Felipe Falconeri
    2 de dezembro de 2013

    Não gostei.

    Achei a história muito genérica e não curti as rimas. Como elas aparecem e somem em momentos aleatórios do texto, acabam quebrando o ritmo. Além disso tem uns erros de pontuação que atrapalharam bastante minha leitura.

    A analogia com o calango foi uma das mais estranhas que vi na vida.

    É isso. O conto não funcionou pra mim. =\

  6. Alana das Fadas
    2 de dezembro de 2013

    Narrativa curta, simples, agradável. Mas não me encantou como um todo, faltou um “quê” a mais. Questão pessoal, sem tirar o mérito de quem escreveu!

  7. Agenor Batista Jr.
    30 de novembro de 2013

    Um conto meio insosso, inodoro, insípido e incolor. Nada de “noir” a não ser por uma violência gratuita e sem significado em que o autor poderia ter sido mais dedicado e menos enxuto. Pareceu-me uma crônica ligeira em que não se alonga com medo do editor cortar os excessos por falta de espaço. Pelo menos a gramática não foi aviltada com despudor. Pequenas falhas quase imperceptíveis. Boa sorte!

  8. rubemcabral
    29 de novembro de 2013

    Simpática e diferente a história! Achei que o noir só passou de raspão, mas gostei do conto.

  9. Thata Pereira
    26 de novembro de 2013

    Há! Que máximo!
    Levei um susto quando vi o tamanho do conto, mas que susto bom foi lê-lo! Fiz a mesma associação com a música Faroeste Caboclo — que sou mega apaixonada — já mencionada. Adorei: tamanho, localização e palavras utilizadas.

  10. Fernando Abreu
    25 de novembro de 2013

    Ah, eu estava gostando muito desse conto, até que o escritor veio com a velha história da surpresa desagradável no final. Estava tão legal, essa coisa do homem que vai matando por nada sentir, como se fosse uma trabalho, mesmo, uma profissão miserável. Mas aí…

  11. Masaki
    24 de novembro de 2013

    O conto está bem escrito e pareceu-me uma prosa tupiniquim. Lembrou-me da música “Faroeste Caboclo”. Não pelo tamanho, mas achei muito vago… Faltou algo mais consistente… além de fugir totalmente ao tema proposto. Entretanto, parabéns ao autor por nos presentear com algo o qual muitos não estão acostumados.

    • Thata Pereira
      26 de novembro de 2013

      Eu também fiz a associação com a música do Legião Urbana.

      • Masaki
        28 de novembro de 2013

        A primeira coisa que veio à minha cabeça, Thata.

  12. Marcellus
    23 de novembro de 2013

    Só eu enxerguei aqui uma ameaça? Espero que meu endereço não esteja compartilhado no Facebook ou me mandam dessa para melhor antes que acabe esse desafio!

    “Forando” isso (e o maldito calango que agora não me sai da cabeça) foi um ótimo conto! Ou uma crônica. E se pudermos alargar um pouco o tema, adicionando uma cachacinha e uma carne-seca, então o texto se enquadra.

    Parabéns ao autor!

  13. Marcelo Porto
    22 de novembro de 2013

    Gostei do Conto pela objetividade.

    O que é “fazer amor como se faz um calango”?? Tô aqui matutando tentando visualizar um calango fazendo amor (rsrs). É bom conto, gostei principalmente pela tentativa de trazer o tema para o Brasil.

    Parabéns.

  14. charlesdias
    21 de novembro de 2013

    O conto é interessante, foi bem escrito, apesar de algumas incongruênias … mas definitivamente fugiu do tema.

  15. Gustavo Araujo
    20 de novembro de 2013

    Rápido e certeiro, com um jogo de palavras de causar inveja. Tudo cai perfeitamente. Admiro quem consegue escrever dessa forma porque eu sou refém do detalhismo e consorte da prolixidade (viram?). Parece uma daquelas crônicas dominicais escritas por alguém de renome, talvez gordo de fato e de inteligência. Em suma, gostei. Inclusive do decote.

  16. Jefferson Lemos
    20 de novembro de 2013

    Diferente dos amigos abaixo, eu não gostei. D:
    Achei que faltou algo mais no texto, foi muito rápido, sem sentido (pelo menos para mim).
    Enfim, eu não gostei, mas creio que outros irão gostar.
    Parabéns!

  17. Ricardo Gnecco Falco
    20 de novembro de 2013

    Muito bom! (rs!) Lembra mesmo o “Rubão”, como bem disse o parceiro Sena, abaixo. 😉
    Não é qualquer um que consegue escrever tanto em tão poucas linhas. Na verdade, isso é para muito poucos. Mérito do autor que, mais que provado aqui, conhece muito bem do ofício.
    Trago boas novas: vou votar em seu conto!
    😀
    Parabéns!

  18. Rodrigo Sena Magalhaes
    20 de novembro de 2013

    Mto bom! Tbm gosto de contos curtos. Me lembrou o Zé, de o Seminarista, de Rubem Fonseca. Parabéns, Severino.

  19. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    20 de novembro de 2013

    Decote pode ser em outro lugar a não ser na parte de cima? Ficou redundante. O conto é curto, o que muito me agrada. Eu sei e admito: tenho preguiça de ler textos longos, inclusive os meus. Acho que ficou faltando alguma coisa, uma explicação a mais para dar corpo à narrativa. Crime e a mulher, o detive trocado pelo matador profissional. Humm… noir? Deve ser. Não achei ruim, mas não me encantei. Boa sorte.

    .

    • Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
      20 de novembro de 2013

      * detetive

    • Ricardo Gnecco Falco
      20 de novembro de 2013

      Claudinha, para homens, decote pode ser em cima, embaixo, na frente e/ou atrás. Para homens, principalmente “cabras machos” como a personagem apresentada pelo autor desta obra, decote é aquele (qualquer) lugar da roupa (qualquer) que mostra um pouquinho à mais do que “deveria mostrar”… 😉
      Pelo menos foi assim que eu interpretei a frase do autor (que não sou eu!).
      🙂

      • Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
        21 de novembro de 2013

        Ah, agora você jogou luz sobre o meu decote, digo, sobre a questão do decote, Ricardo. Tá, fui chata, porque sendo mulher, não me encanto tanto com o decote alheio…rs. E pelo jeito, o tal decote deixou o cabra macho desorientado.

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Publicado às 20 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .