EntreContos

Detox Literário.

Homem não chora (Rodrigo Sena)

homem.nao.chora

O homem mata. Está em suas veias. Para ele é tão natural como as queimadas de agosto ou as águas de março, fechando o verão.

O homem é gelo e fogo, neve e lava. Ele, simplesmente mata.

Acordou com a boca seca. O gosto de tabaco e álcool destilado fez o estômago revirar.A cabeça doía, era sempre assim depois do trabalho e de meio litro de cachaça. Podia comprar os mais caros uísques, o que evitaria a ressaca do dia seguinte, entretanto preferia aquela aguardente barata armazenada em tonéis azuis de plástico vendida no boteco da esquina. Jogou dois comprimidos de Neosaldina na boca e os engoliu com um bom gole de água gelada tomada no bico da garrafa PET.

Levantou-se e, lentamente, foi para o banheiro. Parou diante do espelho para contemplar seu rosto. A barba estava por fazer, na parte branca dos olhos brotavam raízes vermelhas, os lábios arroxeados exibiram um sorriso. Talvez rissem daquela figura esquálida que parecia mais zumbi que homem. Enquanto a água do chuveiro lavava sua pele coberta de manchas negras, recitava, mentalmente, um poema de Drummond. Não percebeu, que a cor escura tinha se transformado num vermelho claro, desbotado e escorria pelo ralo.

Nem sempre o homem foi assim…

*****

O menino brinca tranquilo no quintal da casa. As mãozinhas sujas lambuzam o rosto, as pernas e a camisa branca com a estampa do Super-Homem. Ele sorri. Pula e estica os bracinhos tentando, em vão, agarrar a borboleta azul que baila no ar, um pouco acima de sua cabeça. Talvez quisesse voar como seu super-herói favorito. Para de repente. Os olhinhos assustados fitam a casa ao fundo. Ouve gritos. Caminha lentamente, temendo o que tem pela frente, como se adivinhasse o futuro. Um futuro nebuloso, frio e triste.

Um futuro que agora era seu presente.

*****

O homem sai do banho e veste suas roupas habituais. É seu uniforme de trabalho. Sempre gostou de uniformes. Apanha as chaves e a bolsa de ferramentas. Cumprimenta o vizinho que, apressado, não responde.

Sorri.

Pressa: inimiga da perfeição. Pensa, enquanto desce a escadaria iluminada por uma luz mortiça.

Na calçada, o sol atravessando as cortinas de nuvens brancas acerta seus olhos como um gancho de direita bem colocado. Esfrega o rosto e põe os óculos escuros. Não precisa andar muito até o estacionamento. Apanha as chaves com o manobrista que o cumprimenta com cara de sono.

Mais uma vez sorri.

Sono: distração dos pobres! Pensa, enquanto dá partida no motor.

Dirige pelas ruas com desenvoltura de um taxista veterano. Sabe o endereço. Não precisa de GPS. A metrópole está enraizada dentro dele, é como se fosse parte do seu corpo, é como se fosse sua segunda alma. Ele tem outra alma… Poucos a conhecem.

*****

Natanael Mol chegou ofegante ao 25º DP. Era seu primeiro dia de trabalho depois das férias e da transferência, e ele estava atrasado. Foi recebido por um homem baixinho de cara amarrada que o encaminhou à sala da delegada Ana Duarte.

Após duas batidas, a voz do lado de dentro autorizou a entrada.

Bom-dia, Natanael. Sente-se.

Bom-dia, doutora. Saiba que é uma grande honra fazer parte da sua equipe.

Ana sorriu.

Nem sempre foi assim, meu caro.

Eu sei. Acompanhei a história de perto, por isso tenho grande admiração por você e pela equipe do 25º. Seguraram uma barra.

Foi bom. Deu para divertir bastante.

Imagino.

Natanael, você vai ficar, por enquanto, na região norte. Depois vemos outro lugar. Concorda?

A doutora manda!

*****

O homem encosta o carro no lote baldio e certifica que não há mais nada ao seu redor além dos vira-latas pesteados atrás de um pouco de comida nas lixeiras da rua adjacente. Os olhos encobertos pelo vidro escuro dos óculos sorriem.

Fome: o combustível do mundo. Pensa, enquanto abre o fecho ecler da bolsa preta. Retira as ferramentas e as coloca nos bolsos do uniforme. Caminha até um prédio malcuidado, passa pela entrada vazia, sobe os degraus sem presa, usando o corrimão como guia. À esquerda, uma fileira de portas com números tortos escritos por um pintor analfabeto.

Analfabetismo: cegueira do povo. Pensa, enquanto retira do bolso uma chave. Destranca a porta e a mão protegida por luva de couro gira a maçaneta. O cheiro de álcool e cigarro faz seu estômago embrulhar. Um garoto assustado se levanta e encosta na parede, abaixa a cabeça, e com as mãos em concha encobre as partes íntimas. O homem é invisível naquele momento. A aba do boné abaixada, os óculos negros encobrem totalmente o rosto. Deitado na cama, um homem gordo tenta argumentar. Seus olhos expressam espanto, medo e vergonha. Começa a chorar. Suspira duas ou três vezes. O homem caminha em direção à cama. Os passos são cadenciados, parece seguir o ritmo de uma música, uma música que toca apenas em seus ouvidos. Retira um lenço imaculadamente branco do bolso. O cheiro é bom. De lavanda. Igual ao que sua mãe usava em suas roupas quando era criança. Entrega-o ao homem gordo.

Homem não chora… — diz, enquanto a lâmina da navalha afunda na garganta, cortando a pele como se fosse um pedaço de manteiga.

Coloca a ferramenta no bolso do uniforme, acena, com a cabeça, para o garoto aterrorizado no canto da parede, fecha a porta e sai.

Descendo os degraus, pensa na morte como a grande piada de Deus.

*****

Natanael Mol chegou ao hotel Star Way, um pardieiro localizado na pior área da zona norte. Olhou para o letreiro em neon.

Por que esses muquifos sempre têm nome inglês? Mania de pobre querer ser “chique” — respondeu para si mesmo.

Subiu a escada, a perícia já estava cuidando de tudo. Paulo Mendonça, o chefe dos peritos, gaguejava feito um disco arranhado. Parecia estar nervoso:

Que… que… porra é essa!

Natanael esticou a mão, cumprimentando-o.

Natanael Mol, a doutora Ana me encarregou da área.

Ela… ela me falou. Pa… Paulo Mendonça. Chefe dessa merda.

Qual o motivo da raiva, velho?

Estou de saco cheio de ver sangue… gente destruída, gente mutilada. Ainda bem que no final do ano me aposento. Pela sua cara, ainda vai ver muito disto — disse, levantando o lençol manchando de vermelho.

Natanael calçou as luvas estéreis e tocou o rosto da vítima, empurrando-o para o lado.

Que beleza, hein! Quase arrancou a cabeça.

Um corte seco. Deve ter sido uma navalha de aço, daquelas de antigamente.

Mais alguma coisa?

E precisa de mais alguma coisa para matar alguém?

O detetive sorriu.

O safado estava com um garotinho, está no quarto do lado com a psicóloga. Viu tudo!

Quantos anos?

Onze…

Filho da puta! Teve o que mereceu!

O menino estava sentado numa cama ao lado de uma mulher nova e bonita, Ela usava tailleur de cor pastel e óculos de armação redonda. Exibia, propositalmente ar professoral. Natanael Mol sentiu seu coração bater mais forte. Adorava mulheres bonitas e aquela era seu número. Os olhos do garoto miravam o vazio. A pele negra havia perdido o brilho do ébano, estava esbranquiçada, lívida como a pele de um cadáver.

Cumprimentou a mulher, tentando não mostrar interesse, e sentou ao lado do garoto.

Olá, amigão! Qual é o seu nome?

Um soluço forte. Parecia estar segurando as lágrimas.

Pode chorar, amigão…

Homem não chora… homem não chora… — as lágrimas, agora, saiam sem esforço.

Quem disse isso? Claro que homem chora!

O menino encarou o detetive com um olhar de medo.

O homem.

Que homem?

O homem com cheiro bom…

Como ele era?

Ele falou que homem não chora e matou o…

Quem era esse homem? Você o conhece? Ele era alto, baixo, magro, gordo… qualquer coisa que você se lembrar pode nos ajudar a encontrá-lo.

Não houve respostas.

Por favor. Tente lembrar…

Não vi… a voz era grossa, muito grossa, ele foi anjo que pedi Papai do Céu para enviar para salvar a gente. Ele me salvou e salvou os outros…

Natanael encarou o garoto. Talvez, naquele momento, não quisesse prender quem quer que fosse que tivesse feito aquilo. Mas era preciso. É a Lei. A justiça dos homens. A divina fora feita. Agora, precisava fazer seu trabalho.

Pode me falar como ele era? Tenta lembrar.

Tinha boné, óculos e luva. A voz grossa…

A mulher bonita interrompeu:

Detetive, sou a doutora Teresa Ávila. Ele está num processo de introspecção. Não adianta fazer perguntas agora. Sofreu dois traumas muito grandes no mesmo dia. Dá para entender a situação, não é?

O investigador aquiesceu.

Avisaram os pais?

Ele é órfão. Mora no orfanato mantido pela igreja que o padre Alberto Bettelli era pároco.

Anúncios

22 comentários em “Homem não chora (Rodrigo Sena)

  1. Leandro B.
    7 de dezembro de 2013

    Do jeito que está, não gostei. Parece que o texto está incompleto. Não consigo apreciar o conto assim.

  2. Pedro Luna Coelho Façanha
    6 de dezembro de 2013

    Não curti muito porque também achei o final bem abrupto. Achei bem escrito, mas não me empolguei muito com o conto.

  3. Frank
    5 de dezembro de 2013

    A história é interessante, mas precisa ser finalizada. Quando eu achei que ia, acabou…sniff.

  4. Lúcia M Almeida
    4 de dezembro de 2013

    Gostei do conto do início ao meio, mas faltou o final.

  5. Marcelo Porto
    4 de dezembro de 2013

    Quando engrenei, o conto acabou.

    Se prosseguir será uma grande história, mas por enquanto está inacabada.

  6. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    Cenas curtas e eficientes ajudam a manter o leitor interessado.

    SUGESTÕES

    Primeiro: terminar o conto. Não houve desfecho. Não chegou nem a ser um final anticlimático, ou um cliffhanger… sequer foi um final. A interrupção da doutora também merece ser revista. Como “não adianta fazer perguntas”? O menino já estava respondendo tudo!

    O português também está precisando de uma revisada boa.

    Exemplos: “Ele, simplesmente mata.” (tirar essa vírgula).

    “Para ele é tão natural como as queimadas de agosto” (aqui cabe “tão natural quanto” ou “natural como”).

    “Não percebeu, que a cor escura tinha” (não tem essa vírgula).

    TRECHO FAVORITO

    “Dirige pelas ruas com desenvoltura de um taxista veterano. Sabe o endereço. Não precisa de GPS. A metrópole está enraizada dentro dele, é como se fosse parte do seu corpo, é como se fosse sua segunda alma. Ele tem outra alma… Poucos a conhecem.”

  7. Alana das Fadas
    3 de dezembro de 2013

    Gostei da escrita, tem frases poderosas espreitando o texto!
    Mas você jura que o final é um final? Dá impressão que o autor ficou com preguiça e finalizou o texto!

  8. Marcellus
    3 de dezembro de 2013

    Quando comecei a gostar do conto, ele acabou. Como já comentei, finais abertos demais não me agradam, especialmente quando usam de um clichê (o padre pedófilo, no caso). Mas é um conto com potencial.

  9. fernandoabreude88
    2 de dezembro de 2013

    Não gostei do texto, apesar de ter gostado do “Sono: distração dos pobres!”, rs. Bem sacado. Há um clima miserável e obscuro, mas falta um pouco de emoção na escrita. A história até chega a prender, mas falta um pouco de substância às ações e aos personagens. Como o Rubem, também achei algumas metáforas meio fracas.

  10. Felipe Falconeri
    30 de novembro de 2013

    Não gostei.

    O conto está até bem escrito, só com um ou outro problema com as vírgulas, mas o conteúdo me pareceu pobre. A ladainha dos dois primeiros parágrafos quase me fez desistir de ler o texto. E a vírgula separando sujeito de predicado em “Ele, simplesmente mata.” foi de doer a alma.

    Daí para frente o conto mescla boas descrições com um enredo fraco. E achei estranha a maneira como o homem pensa numa palavra e dá uma definição a ela.

    No final parece que todo o texto foi construído só para o impacto de se descobrir que a vítima era um padre pedófilo.

    Curiosamente, li o texto logo que ele foi postado, mas não o comentei. Só que esqueci completamente que tinha lido. Relendo o texto agora, só lá pela metade que comecei a perceber isso e ainda assim não conseguia me lembrar do final. Isso define o que o texto foi para mim: não é um desastre, mas é completamente esquecível.

  11. Agenor Batista Jr.
    27 de novembro de 2013

    Um conto que, apesar de bem escrito, não carrega nenhuma emoção seja ela “noir” ou não. Pareceu-me apenas uma história policial bem contada e sem um desfecho esperado. Não me entusiasmou.

  12. Thata Pereira
    22 de novembro de 2013

    Gostei da história e da leitura dinâmica, mas o fim me decepcionou. :/

  13. Claudio Peixoto dos Santos
    20 de novembro de 2013

    O melhor disparado. Escritor que se ainda não é profissional não demora a ser. Tu sabes conduzir a história, o final realmente merecia mais, mas não tira o mérito. Dou-lhe os parabéns. Discordando do comentário do Rubem, não sei se precisa de revisão… Acho que sei quem é o autor… kkkk começa com F…

  14. Ricardo Gnecco Falco
    18 de novembro de 2013

    Um conto fragmentado, diferente. Algo inovador… Pareceu-me ainda um trabalho experimental, não finalizado. Mas o caminho é promissor!
    😉

  15. Masaki
    17 de novembro de 2013

    A introspecção do protagonista e a ligação destes pensamentos com o cenário no entorno foi uma sacada genial do autor. No começo fiquei um pouco confuso, mas depois consegui ligar direitinho o começo com o “quase final” da história. Uma trama que prende a atenção do leitor. É suave. Achei que o final poderia ter uma maior consistência. Deu aquele “ar” de continuação… Parabéns pelo conto!

  16. Gustavo Araujo
    17 de novembro de 2013

    Gostei do conto. Está muito bem escrito, tem uma excelente dose de suspense e gera a repugnância necessária nesse tipo de narrativa. Se formos pensar em “noir clássico”, o texto não se encaixa, mas creio que podemos elastecer essa noção, afinal, há um detetive, uma mulher bonita (ainda que a personagem seja beeem secundária, e um mistério muito interessante. Pela aflição que o conto gera, é, para mim, um forte candidato.

    • Ricardo Gnecco Falco
      18 de novembro de 2013

      Anfitrião… Adorei o “elastecer”! (rs!) 🙂 Esse eu vou anotar no meu caderninho preto de palavras para um dia utilizar! rs!
      Um enaltecimento elástico! Hauhauhauhauhau!
      Gostei, parceiro! 😉

  17. charlesdias
    16 de novembro de 2013

    Conto curto bem escrito e agradável de ler apesar do final um tanto abrupto e lugar comum. Mas de noir o conto não tem nada.

  18. Henrique Silveira
    16 de novembro de 2013

    Gostei, um conto bem escrito e que prende bem a atenção do leitor, meus parabéns.

  19. Jefferson Lemos
    16 de novembro de 2013

    Gostei!
    A história bem densa e que prende o leitor. Apesar de ter achado que o final foi fraco, deveria ter tido mais, o conto foi bom.
    Parabéns!

  20. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    15 de novembro de 2013

    Fiquei com a impressão de estar assistindo takes de um filme. Não muito longo, o que é bom. Direto, forte, nem tão noir (mas quem sou eu para dizer isso???). Leitura interessante. Boa sorte.

  21. rubemcabral
    15 de novembro de 2013

    Boa e forte história, embora precise de alguma revisão. Quanto ao estilo, achei mais próximo de policial “pulp” que “noir”. Algumas metáforas soaram meio pobres, em especial no inicio.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Informação

Publicado às 15 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .