EntreContos

Detox Literário.

Gelo Negro (José Geraldo Gouvea)

Fjálar saiu de casa ainda em jejum em outro dia cinzento de outono. Não estava feliz, haviam ligado da delegacia avisando que Oláfur não fora trabalhar e teria de fazer a patrulha matinal com algum novato. Dormira mal. Doíam-lhe os joelhos, doíam-lhe as costas, doía-lhe a alma. Tudo de que não precisava era tentar acompanhar um novato animadinho. Por isso regurgitou algumas ofensas ao maldito beberrão e seus antepassados. Ele estaria certamente em casa de ressaca, depois de outra noite de apostas e de envolvimentos suspeitos em alguma espelunca do porto. Ao acordar encontrara a mensagem de Oláfur no telefone: “Takk, vinur. Não vou ao trabalho hoje. Estou em algo grande. Não me ligue.”

Ele podia enganar o chefe de polícia se fazendo de investigador, mas não a Fjálar, que sabia muito bem de seus passos. Todos no departamento de polícia sabiam que Oláfur andava em cima do muro, mas ninguém ainda questionara o que andava bebendo, porque voltava de suas noitadas carregado de informações frescas sobre o submundo. Intoxicado, sujo e às vezes ferido, mas sempre com a pista de algum crime, a dica de algum espião ou o fio da meada de uma conspiração.

Algum dia talvez Fjálar tivesse pena do colega, mas não naquela terça-feira. Era outro dia para amaldiçoá-lo. “Algo grande” poderia ser uma investigação ou os peitos de uma prostituta estrangeira, destas que haviam recentemente aparecido no porto, talvez uma americana de tetas grandes, que nem sabia falar islandês. E Fjálar ainda sofria a falta de Halldóra.

Andava distraído, contemplando a triste imponência do Esja, e nem percebeu as luzes na esquina até que sirene foi acionada quando ele passou pela viatura, causando-lhe um sobressalto. Ao se virar, reconheceu o rosto amigo:

 Skít, Ásgeir. Vai assustar a mãe!

— Góðan daginn, Fjálar. Você ia passando sem me ver, só chamei a atenção. Entra aí.

Já dentro do carro, recebeu um envelope pardo:

— Vem comigo. Ordens do chefe. Notícias quentes.

— Aqui na Islândia? Que horas são?

— Seis e vinte. Abra o jornal e veja.

— Mataram alguém?

— Sim, em Grafarvogur.

— Oh, Nei! Em Grafarvogur não!

. Abra o jornal.

Ao abrir o envelope, percebeu a gravidade do assunto. Mesmo o respeitável Morgunblaðið ganhara uma aparência de tabloide com aquela manchete.

— Não ligue para o Blaðið. São muito comedidos. A diversão está no DV.

Tinha razão: o tabloide pingava sangue. A manchete — letras brancas em fundo preto — era meio ilegível com tanto sangue e miolos. Na capa, o cadáver. Senhor grisalho, roupas joviais, “cabeça aberta”.

— Grafarvogur?

— . E você não nota algo familiar?

— Difícil, o efeito do disparo foi bem “dispersivo”…

— Identificaram pelas digitais. Gunnar Davíðsson.

— Qual Gunnar Davíðsson? “O” Gunnar Davíðsson?

— Ele.

Skít, Ásgeir! Você me traz isso em um dia como hoje!

— Você é esperto. O que temos de melhor.

Fjálar sentia o estômago embrulhando, só com a possibilidade de envolver-se em uma investigação tão complicada. Tão cedo na carreira. Poderia se ferrar para sempre, ou ficar famoso.

— Vamos tomar um café antes, Ásgeir? Estou ficando cansado de toda essa agitação dos últimos tempos. Este país não é mais o mesmo, com tantos cabeças pretas pelas ruas.

— Nei, Fjálar. Sem café. O chefe mandou que te buscasse e levasse à casa do velho antes das oito.

— Temos uma hora, Ásgeir. Vinsamlegast! Não terei apetite depois.

— Certo. Mas num bar lá perto, caso algo saia errado.

Quando entraram em Grafarvogur havia três carros de polícia bloqueando a entrada logo da primeira uma rua, e um cordão de isolamento já na segunda casa.

— Maldito, Ásgeir. Você me trouxe direto!

— Ordens são ordens, Fjálar.

Os dois atravessaram a barreira e se dirigiram à casa do velho Gunnar, um dos mais respeitados membros do Alþingi, não por acaso recém eleito à presidência da república. Tomavam e coragem para entrar quando ouviram um tiro.

Segundos depois uma mulher saiu de uma casa e veio correndo em direção a eles e gritando:

Náið í lögregluna! Náið í lögregluna!

— Calma, senhora — disse Ásgeir — nós somos a polícia. Conte-nos o que houve?

— Meu marido viu o assassino saltando a janela.

Ásgeir e mais dois uniformizados saíram na direção indicada. Fjálar, menos preparado fisicamente, os seguiu com dificuldade. Mas chegou ao quintal a tempo de ver que havia mesmo marcas de sangue no chão, sem nenhum cadáver.

— O suspeito foi atingido após saltar a janela, mas o tiro não foi fatal. O ruído do tiro parecia uma pistola esportiva.

— Uma dessas não mata — concordou Ásgeir.

— A essa distância, não — disse Fjálar, apontando a janela do vizinho, onde um senhor em cadeira de rodas parecia mais perto da morte que o suspeito alvejado. Mesmo assim, não creio que você me permitisse dar-lhe um tiro com uma dessas coisinhas de brinquedo.

— Conhecendo você, não deixaria que você atirasse em mim nem com uma atiradeira de elástico.

— Recolham o sangue para análise. Logo teremos o sequenciamento de DNA. Se o suspeito é islandês, em 24 horas teremos nome, endereço, fotografia…  saberemos até o que comeu no desjejum.

Os policiais terminaram de vasculhar os quintais:

— Não há mais nenhuma marca de sangue, Fjálar — disse o último a retornar, tirando luvas para esfregar as mãos.

Pareceia estrangeiro, não acostumado ao clima subártico do país. Fjálar teve até um pouco de pena daquele refugiado que buscara asilo na terra do gelo. Mas ao mesmo tempo o admirou a perfeição do seu islandês. Era um cabeça preta, mas não do tipo que desgraçava o país.

— Quanto tempo na Islândia… Jon? — o nome ia na etiqueta.

— Desde que nasci. Me chamo Jon Bryndisar, minha mãe é Bryndis Sigurdsdottir, de Akureyri, mas eu nasci aqui mesmo em Reykjavik.

“Nada é o que parece”. O novato era tão islandês quanto todos. Preferiu não especular mais. Deveria ser filho de alguma moça que se encantara por um marinheiro. Não precisava especular, só supor. O investigador confiará em suas suposições e preconceitos. E checará no fim se estava certo ou não.

— Jon, Davíð, Ásgeir. Acharam pegadas?

— Poucas. Parece que o fugitivo estava descalço, deixou poucas marcas no chão gelado — respondeu Jon.

— Descalço?

Jon apontou para o chão, onde uma marca de pé apontava em diagonal para a linha imaginária entre as casas vizinhas.

— Descalço não vai longe. Isso é claro. Vamos procurar. Davíð, peça a todos os patrulheiros que fiquem atentos a roubos de carros. Ásgeir, peça reforços para um pente-fino em toda Grafarvogur. Jon, vá monitorar a televisão para mim e me relate qualquer coisa inusitada.

Davíð e Ásgeir saíram a cumprir os pedidos, Jon ficou.

— O que foi, garoto? Não vai cumprir a missão.

— Perfeitamente, mas depois de acompanhá-lo à casa do nosso atirador esportivo.

Fjálar sorriu no canto da boca. O garoto era esperto.

— Venha de arma em punho, vai ser perigoso.

Os dois se dirigiram à porta dos fundos, ladeando pela cerca. Tão logo a avistaram, perceberam que estava entreaberta, sem marcas de arrombamento.

— Como adivinhou o meu pensamento, Jon?

— Porque, diferente daqueles hálfviti, eu acompanhei o seu olhar, em vez de admirar o sangue. Vi perfeitamente que olhava fixamente para a janela, que seguiu a pegada exatamente por esse caminho que estamos fazendo agora, e procurou se livrar dos outros de forma estúpida, sem que percebessem. Mas essa cabeça preta aqui não é vazia.

— Não há nada de estúpido no que mandei vocês fazerem.

— Seja franco, Fjálar. Roubar um carro e fugir para onde? Contornar o país, enfrentando a polícia em cada vila? Penetrar no interior? Tentar sobreviver no deserto? Não somos esquimós, detetive. Se eu fosse esse homem eu não fugiria de Reykjavik, mas tentaria chegar ao porto o mais depressa que pudesse. Aliás, é de lá que deve ter vindo.

— Muito bem, Jon. Estou começando a gostar de você.

Entraram na cozinha vazia, iluminada apenas pela luz oblíqua da manhã. A cena era quase bucólica.

— O que vai fazer aí, Fjálar? — sussurrou Jon.

— Calma, garoto. Só ligando a cafeteira para um espressó. Graças ao idiota do Ásgeir, estou até agora em jejum.

Jon deu uma risadinha e apontou a mesa junto à pia:

— Aproveita e faz torradas também.

Fjálar pegou quatro fatias, passou manteiga e pôs na torradeira, sussurrando:

— Duas para cada. Temos cinco minutos.

Antes de deixarem a cozinha, porém, Fjálar pediu a arma de Jon:

— Preciso de um calibre mais forte. Você se importaria de trocar comigo se eu for na frente?

Ekkert vandamál!

Feita a troca, cruzaram o saguão central silenciosamente como o inverno. A casa estava imersa numa quietude apavorante e foi muito devagar que chegaram à escada.

— Veja isto — apontou Jon.

Era o diploma na parede. Ao lado de uma foto emoldurada da mesma mulher que fora dar notícia do foragido. Mais jovem, em um belo vestido azul, usando condecorações e um chapéu um tanto cafona, desses que as nobres britânicas usavam para ir aos hipódromos. As palavras no diploma tornavam tudo mais interessante: Forseti Lýðveldiðs.

— Agora sim estamos fritos, garoto. Ou resolvemos o caso ou estamos acabados. Ou resolvemos e ainda assim estamos.

— Já estou arrependido de não ter ido ver televisão.

— Ninguém nunca se ferrou na vida por ver televisão durante uma crise. Aprenda isso se nos safarmos desta.

Aquela não era uma morte como qualquer outra, ainda que qualquer assassinato já fosse uma comoção. Era o assassinato do futuro chefe de estado, cometido por alguém que se escondera na casa de uma ex presidente depois de ter sido alvejado ao fugir. E alvejado por quem!

— Fez faculdade, Jon?

— Cursando direito, Fjálar.

— Qual a chance de ir para a cadeia o atirador da janela?

— Menor que a de nós dois, por invasão de domicílio.

Ao fim do corredor havia um quarto praticamente vazio. Junto à janela uma simples cadeira de rodas. O velho continuava imóvel, palidíssimo. A perna engessada servia de cabide para um guarda-chuva e uma toalha de rosto.

Jon penetrou no quarto algo descuidadamente, fruto da falta de costume com casos perigosos. Felizmente não havia nenhuma ameaça dentro, nem mesmo o velho:

— Está frio, Fjálar.

— Tire as mãos dele, seu idiota.

Jon recuou as mãos como se o cadáver desse choque. Mas apenas testara a fronte usando as costas da mão.

— Ele morreu, Fjálar. Não me dê sustos.

— Ele foi morto, você quer dizer.

Onde o dedo do detetive apontava se via claramente um colar de equimoses em torno do pescoço. O cachecol agora pendia frouxo, quase não parecendo fatal.

— Quantas horas, Fjálar?

O detetive usou sua caneta para suspender as pálpebras e forçar a musculatura da boca, rígida.

— Mais tempo do que o transcorrido desde o tiro. Mas certeza mesmo, só quando o legista vier.

A arma responsável pelo disparo jazia ao lado do cadáver, tão obviamente quanto possível.

— Quem era ele?

— Haraldur Guðmundsson. Economista, filatelista, filólogo. Porém mais conhecido como o marido da presidente Jóhanna Þorláksdottir.

— Faz-se muito esforço na vida para ser reconhecido desta forma. Acho isto triste.

— Não se fica famoso como filatelista ou filólogo, Jon.

— Ele era economista.

— Fama e infâmia, tanto faz, não é?

— Pensando bem, não.

— Vamos sair, não podemos mais ajudar o velho Haraldur, e o nosso suspeito não está aqui.

Um apito como o de um relógio de alarme soou no andar de baixo, e logo com ele um barulho de coisas caindo.

— Funcionou.

— O que funcionou?

— Corre, Jon. Vem comigo.

Os dois desceram as escadas correndo, a tempo de ver um homem estonteado que tentava se esconder de novo dentro de um armário cuja porta ficava quase perfeitamente escondida pelo papel de parede do saguão. Era um homem muito esquálido, com a barba de vários dias.

— Acabou, Oláfur.

Ele ergueu as mãos, consternado.

Skít, Fjálar. Tinha de ser logo você?

— A vida não é justa, amigo. Tinha de ser alguém. Pelo menos prometo que não vou lhe matar e nem bater. Quero respostas, e quero meu amigo de volta, se for possível.

Nesse momento, com toda a sua autoconfiança, Fjálar se aproximou do suspeito mais do que devia. O bastante para ele, apesar de uma perna ferida, conseguir subjugá-lo.

— Desculpe-me, Fjálar. Não posso me entregar.

— Eu sabia… que você… não se entregaria — rosnou entre dentes o Fjálar.

Oláfur já lhe tomara a arma e o usava como escudo, segurando o amigo pelo pescoço. Haviam sido muitas aulas de defesa pessoal, as artes marciais do mundo, as técnicas para enfrentar as gangues que pudessem sonhar em assombrar o porto.

— Não estou entendendo nada, Fjálar! — berrou o pobre Jon, sem saber o que fazer com a sua pistola.

Oláfur estava claramente transtornado. Seu coração batia descompassado e ele suava em pleno outono.

— O que você tomou dessa vez, Oláfur? — conseguiu perguntar o Fjálar, quase se desenvencilhando.

Oláfur não respondeu, claro. Fosse o que fosse, o efeito recrudescera com a subida da adrenalina e, apesar de armado, fez ao Jon a mais descabida das ameaças:

— Saia de perto de mim ou vou morder a cabeça dele!

— Oláfur, acalme-se!

Nei, Fjálar. Está tudo acabado para mim!

Um estalo metálico se ouviu na cozinha. Na fração de segundo em que Oláfur olhou para o lado, Jon mostrou que treinara bem na academia e lhe acertou um tiro na testa, que pegou de raspão na bochecha de Fjálar. Um tiro que quase não se ouviu, por causa do silenciador.

O cadáver caiu leve no chão, quase sem fazer barulho.

— Pobre Oláfur — comentou Fjálar, apalpando-o — não deve pesar mais do que uns quarenta e oito quilos.

— Mas parecia bem forte.

— A força que tem os que vão morrer, Jon. Nos velhos tempos diriam que é a força que a cavalgada das valkyrjur traz aos exaustos.

— Ele matou Gunnar Daviðsson?

— Aparentemente sim, mas pouca coisa do resto parece fazer algum sentido. E agora saberemos menos ainda, pois você matou o suspeito.

— Eu… me desculpe, Fjálar.

— Relaxe, garoto. Eu estaria bravo com você se o tiro tivesse acertado em mim. Vamos tomar o café?

As torradas estavam frescas, exalando um delicioso cheiro de manteiga quente. O café nem acabara de gotejar na cafeteira. Serviram-se usando os copos de cristal.

— Logo vão procurar por nós, inclusive aqui.

— Quando chegarem diremos que o assassino também matou nosso amigo Oláfur Haraldsson, agente das forças especiais da polícia nacional da Islândia. Ele terá um enterro de herói, todas as aparências serão salvas, novas eleições terão de ser feitas para a presidência, mas o país vai seguir funcionando normalmente enquanto isso. Melhor do que divulgar para a imprensa que o herói da polícia provavelmente se viciou em alguma coisa pesada, vendera objetos de casa para pagar pelas suas doses e, no fim, cometera um latrocínio contra o vizinho que, por uma dessas grandes coincidências, era o futuro presidente.

— O DV adoraria noticiar isso.

Mas nesse momento ouviram, lá fora, outro estrondo:

Skít, Fjálar. Sua teoria parece não fazer muito sentido agora. Temos mais um atirador.

— Não se preocupe, vinur. É até bom que o impacto seja dividido. Se eu fosse do partido do falecido, estaria agora dando tiros por toda Reykjavik.

O estrondo foi seguido por um longo rangido.

Hvað!? Isso não foi nenhum tiro.

Os dois saíram ao quintal sobressaltados, entornando café na cozinha. Lá fora, pendente de um galho, estava o corpo do obeso Lárus Davíðsson, irmão mais novo do ex futuro presidente. A morte tinha sido há horas, o corpo estava azulado pelo frio da manhã.

— Esse caso está cada vez mais interessante. Como não vimos isso ao entrar na casa?

— Talvez estivesse entre os galhos.

— Só sei que será difícil deixar os tabloides fora disso.

Os dois se encaminharam para a concentração de agentes de polícia diante da casa de Gunnar Davíðsson, ainda com um gosto de café na boca.

— Devia ter comido as torradas, Jon. Será um longo dia.

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29 comentários em “Gelo Negro (José Geraldo Gouvea)

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  2. José Geraldo Gouvêa
    7 de dezembro de 2013

    Bem, já que o Rick Falco e o Rubem estragaram meu disfarce (que eu passei duas semanas construindo) eu vou revelar então tudo que há para se dizer sobre esse conto.

    Primeiro, as razões: parabéns a todos que se incomodaram com os estrangeirismos, este conto foi escrito para satirizar o emprego desmedido de barbarismos léxicos por autores nacionais. Parabéns também aos que acharam o cenário mal construído: ele foi desenvolvido pela leitura de quatro ou cinco artigos da Wikipédia, e se você achou o cenário supimpa, é sinal de que você não sabe reconhecer uma boa ambientação. Pensar enlouquece, pense nisso.

    Por ser uma sátira ao estilo da maioria dos jovens autores que comentariam, eu já supunha que ele teria poucos votos, por isso eu concebi a ideia de postá-lo em total anonimato, escondendo minha identidade até dos administradores do blogue, para evitar que alguém deixasse de votar no conto por causa de estripulias passadas (agora esta estripulia já vai me queimar com dezenas de pessoas que poderiam votar em mim futuramente)…

    De fato eu acho muito tosco ambientar histórias em lugares exóticos onde a gente nunca esteve ou, mesmo tendo estado, fazendo questão de demonstrar em cada parágrafo a condição de testemunha ocular… Acho imaturo e tosco quando isso é feito porque o lugar está na mídia, porque os States são lindos e vitaminados ou porque história de vampiro no Brasil fica ridícula (entendam a ironia). Se a história é boa e o lugar se impõe, então não há problema. Dois dos melhores romances do Ignacio de Loyola Brandão são sobre seu auto-exílio em Berlim. E não há nada de mau nisso.

    Então eu tentei colocar nesse texto todos os defeitos possíveis: excesso de estrangeirismos, ambientação estrangeira totalmente fake construída com uma pesquisa mais rasa que um pires, falta de personagens convincentes, história sem sentido, final excessivamente aberto, etc. etc. etc. Não consegui, claro, pois eu teria dó de fazer um texto totalmente ruim. Então resolvi que ele apenas teria defeitos que fizessem as pessoas lamentar, mas não odiar.

    Agora vamos as explicações:

    As repetidas referências de nomes ajudam a entender os parentescos dos personagens. Personagens cujo sobrenome termina em -dottir são mulheres. Termina em -sson são homens. Uma sobrenome terminado em -ar indica que o pai é desconhecido e o filho foi registrado com o matronímico. Por isso o detetive acha que o policial Jon é filho de uma puta do porto.

    Grafarvogur é o bairro mais chic da capital da Islândia, onde costumam morar os ricaçoes e os políticos profissionais. Simplesmente ambientar a história lá remete a um universo à la Chinatown (minha grande inspiração para esse “noir”) onde a lei entra pisando leve.

    Os policiais islandeses raramente agem de forma violenta. Durante a vigência do concurso, porém, eles mataram alguém PELA PRIMEIRA VEZ. Isso deu verossimilhança à execução do pobre Oláfur.

    As traduções:

    vinur (amigo), cognato de “friend”
    takk (olá), cognato de “thanks”
    skít (pronúncia “shkiit”: merda), cognato de “shit”
    góðan daginn (bom dia)
    Morgunblaðið (folha da manhã), o principal jornal de Reykjavik, o mais sério e sisudo (mas não o mais antigo).
    DV, um tabloide de Reykjavik, não exatamente sensacionalista (Extra), mas provocativo (The Sun)
    Vinsamlegast (por favor)
    Alþingi (Parlamento)
    Náið í lögregluna! (chamem a polícia!). como vocês viram nas fotos ao ler a notícia, os policiais levam “LÖGRENGLUN” escrito às costas. A pronúncia é “Lôkrenklun”
    hálfviti (estúpidos), em inglês seria “half-witted” (metade da inteligência)
    Ekkert vandamál (“nenhum problema”)
    Forseti Lýðveldiðs (“Presidente da República”), “forseti” é cognato de “first”. A pronúnicia aproximada é “fórseti laithfeldtiths”
    Hvað (“O que???”), cognato de “what”.

    • Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
      7 de dezembro de 2013

      Não acreditei nem por um minuto que você não fosse participar do desafio. Devido ao excesso de contos a ler e comentar, foi impossível gastar minha energia e pouco conhecimento para descobrir o texto de sua autoria. Mas pensando bem, de quem mais poderia ser essa assinatura no gelo?

  3. Pedro Luna Coelho Façanha
    6 de dezembro de 2013

    Achei o autor muito corajoso ao escolher a ambientação do conto, e é isso mesmo. Escrever é desafio. Agora, não gostei dos personagens e não me envolvi, foi difícil se concentrar. As palavras estrangeiras não atrapalharam, me senti lendo O Caçador de Pipas novamente..rs.

  4. Frank
    5 de dezembro de 2013

    Interessante a coisa da Islândia. O conto está bem escrito, embora, esteja um pouco confuso (talvez pela limitação de espaço). De qualquer forma, gostei.

  5. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    Ambientação bastante diferente e criativa para um autor brasileiro. Acho que nunca li uma história policial que se passasse na Islândia antes. O português está perfeito. Já o islandês, não tenho como saber…

    SUGESTÕES

    Eu não sei como sugerir isso objetivamente, mas fiquei meio perdido no cenário com tantos assassinatos diferentes. Talvez os arredores da cena dos crimes pudessem ser descritos um pouco mais.

    TRECHO FAVORITO

    “Ninguém nunca se ferrou na vida por ver televisão durante uma crise. Aprenda isso se nos safarmos desta.”

  6. Alana das Fadas
    3 de dezembro de 2013

    Em suma, não gostei. Como já pontuei aqui no desafio, não consigo ter uma leitura fluida em um conto com muitos diálogos, eles me perturbam, por melhor que a história seja, não me apetece! Em um romance, a história já muda, mas em um conto? O excesso de estrangeirismo também não me agradou. O autor escreve bem, mas não me convenceu.

  7. Masaki
    2 de dezembro de 2013

    Um conto ambientado na Islândia… Que original! Eu gostei. Apesar que o autor poderia ter trabalhado mais a trama, principalmente o final. Creio que expressões islandesas, sem suas traduções, dificultaram um pouco a leitura. Afinal, não são expressões básicas de línguas como o Francês, Inglês ou Espanhol, do conhecimento da maioria, e aquele trecho torna-se uma incógnita. Valeu a leitura. Parabéns!

  8. Marcellus
    2 de dezembro de 2013

    Achei que fosse aparecer outra “guerra geopoliticamente correta” nos comentários, do tipo “…mas por que não ambientar na serra gaúcha, com neve e tudo mais?”. Por sorte não aconteceu, mas o excesso de expressões e nomes estrangeiros dificultou a leitura.

    O conto seria muito mais interessante com uma boa ambientação e descrição dos personagens. Sem isso, ficou muito raso e um pouco chato. Como o final é muito aberto, nota-se que há mais história por aí. Portanto, boa sorte!

  9. Rodrigo Sena Magalhaes
    29 de novembro de 2013

    Gostei dessa doideira! As expressões islandesas não atrapalharam a leitura. Os diálogos são bons, o texto é bom, o autor(a) conhece. Gostei.

  10. Felipe Falconeri
    29 de novembro de 2013

    Achei o conto bem fraco. Praticamente inexiste uma ambientação – que é algo extremamente importante num conto noir – os personagens são desinteressantes e a trama é um bocado enrolada.

    As expressões islandesas inseridas nas falas do personagens não fazem sentido, uma vez que o conto se passa na Islândia e teoricamente estão todos falando islandês o tempo todo. Então por que colocar uma ou outra expressão não traduzida? E no caso não foi bem uma ou outra expressão, foi um dilúvio delas. Também achei estranho a maneira como os personagens retomam insistentemente os nomes uns dos outros em suas falas.

    Por fim, não gostei do final, mas ele praticamente só acompanha a toada da trama como um todo.

    Curiosamente, apesar de não ter gostado de nada do conto, não pude deixar de notar que o autor tem um certo traquejo com as palavras. Se houver uma preocupação maior com a construção do texto, creio que podem vir coisas boas daí.

  11. fernandoabreude88
    26 de novembro de 2013

    Hahaha, gostei muito disso aqui. Achei os diálogos leves, bem elaborados, são o ponto alto do conto. Fora isso, não me importei com a ambientação na Islândia, achei muito bacana e me lembrou um filme chamado Fargo, uma comédia de erros dos irmãos Coen que se passa no gelo de Dakota do Norte (EUA). Há uma força irônica nesse conto, uma espécie de humor fanfarrão à Flann O’Brien que torna toda a atmosfera do texto genial. MUITO BOM!

  12. Agenor Batista Jr.
    25 de novembro de 2013

    Poderia ter sido algo bem conveniente caso houvesse interesse do criador em torná-lo ssim. Em qualquer lugar do mundo poderia ocorrer algo possível mas as palavras ficaram soltas no ar. Aproveitei para colocar meu islandês em dia… Me desculpe o autor a honestidade: muito ruim!

  13. Claudio Peixoto dos Santos
    20 de novembro de 2013

    Não gostei. Mas como todos gostam de originalidade, este é um conto original.

  14. Thata Pereira
    19 de novembro de 2013

    A utilização de termos estrangeiros foi o que mais me desagradou. Caso fossem usados com moderação, talvez não me incomodassem.

    Também não gostei do fim :/ Existem finais abertos que permitem aquele sentimento de “esperança?”. O final aberto apresentado me desagrada, porque o sentimento que fica e de “e aí? Acabou?”.

    Boa sorte!

  15. charlesdias
    18 de novembro de 2013

    Concordo que usar a Islândia e islandeses como personagens foi diferente … mas o uso mais que exagerado de estrangeirismos que o pobre leitor que não tem noções de islandês não faz a mínima ideia do que sejam acabou por comprometer a dinâmica da leitura. Quanto ao conto em si … muito enrolado, enredo fraco, no final a história é um tanto maçante.

  16. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    15 de novembro de 2013

    Islândia foi uma escolha bem diferente para ambientação do conto. Claro que um noir pode acontecer em qualquer lugar desde que a criatividade do escritor consiga extrair os elementos necessários para compor o cenário. Estrangeirismo não chegou a me incomodar, mas poderia ser descartado. Bom conto. Boa sorte.

  17. rubemcabral
    15 de novembro de 2013

    A ideia inusitada de ambientar um noir na Islândia é interessante. No entanto, o texto peca por não prover boas descrições (do ambiente, das pessoas) e, principalmente, por insistir em mesclar islandês aos diálogos, feito numa novela da Glória Perez (onde todo mundo fala português na Turquia, Marrocos e Índia, só soltando de vez em quando um “Are baba” ou “Ishalá”).

    As personagens, também, estão muito unidimensionais.

    Por fim, algumas informações sobre a Islândia estão talvez meio exageradas: apesar na localização tão ao norte, devido à Corrente do Golfo e as muitas fontes termais, Reykjavík não é nenhuma Sibéria, e nos dias mais gelados de inverno raramente registram-se temperaturas inferiores a -10.

  18. Jefferson Lemos
    15 de novembro de 2013

    Eu, particularmente, não gostei. O conto é muito bem escrito, mas a história não colou para mim. E como já foi dito, essas palavras estrangeiras distribuídas no texto, atrapalharam um pouco a leitura.
    Enfim, apesar de eu não ter gostado da história, dou meus parabéns ao autor, que escreve muito bem.

  19. Bia Machado
    15 de novembro de 2013

    Gostei da ideia do conto, mas acho que esses estrangeirismo ficaram desnecessários. Fazem a coisa dispersar um pouco. Como disse ali no comentário do Gustavo, li esse ano um policial de um escritor islandês, o Indridasson, mas a editora preservou apenas os nomes das personagens, o restante foi todo colocado em português… É uma coisa minha, certo? Outras pessoas provavelmente não se incomodarão. Achei o final aberto um tanto demais para mim, que não costumo me incomodar com isso… Mas se for um início de um texto maior, aí já é outra coisa! =)

  20. Ricardo Gnecco Falco
    15 de novembro de 2013

    Muito doido…! Só uma mente beirando a insanidade para conseguir visualizar as cenas descritas. Talvez seja pretensão demais de minha parte, mas acredito que saiba quem escreveu este conto. E, estiver certo, acho que ele fez de propósito esta construção tão “diferente”, para não dizer incômoda! (rs!)
    Vale a leitura!
    🙂

  21. Gustavo Araujo
    14 de novembro de 2013

    Quem já ouviu falar de um noir islandês? Aliás, quem aqui sabe exatamente onde fica a Islândia? Apesar da ambientação diferente, o conto, na essência, preserva os elementos clássicos de uma (boa) história policial. Diálogos rápidos e cheios de ambiguidade, além de um final que não é, assim, um final propriamente dito. Evidentemente, trata-se de um capítulo inicial, ou o prólogo de uma história maior, que pode ser bem interessante. Entretanto, receio que o uso das expressões estrangeiras possa ser um empecilho para a leitura fluida do texto. Confesso que fiquei um pouco travado com isso, mas, claro, pode ser apenas birra de minha parte. De todo modo, um bom conto.

    • Ricardo Gnecco Falco
      15 de novembro de 2013

      Islândia…? Ah, deve ser ali… Perto de Nárnia.
      😛

    • Bia Machado
      15 de novembro de 2013

      Olha, esse ano li um livro policial de um islandês, Arnaldur Indridasson, chamado “O Silêncio do Túmulo”, com bons ares de noir! Acabei comprando outros dois livros dele, pra conferir também, rs…

  22. selma
    14 de novembro de 2013

    estou aguardando o desfecho…! e esse estrangeirismo, ein! chaaato…

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Informação

Publicado às 14 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .