EntreContos

Detox Literário.

Olhos de Gato (Pedro Luna)

Quando as noites costumavam ser tão frias, até mesmo os vampiros que perambulavam pelas sombras, os viciados em drogas, que encontravam na escuridão a camuflagem ideal para se envenenarem, preferiam se abrigar sob um teto. O cenário daquela noite era um decrépito prédio no centro, que nos velhos tempos costumava ser um hotel famoso. Alberto conhecia bem aquele prédio, já estivera ali em uma de suas buscas por Roberta. Mas naquela noite, ele não estava lá por ela.

O prédio era um reduto dos viciados, ficava próximo a uma cracolândia e regularmente sofria batidas da polícia, procurando traficantes ou menores de idade. Mas até então, nunca havia sido palco de um crime. Alberto era um dos policiais civil que sempre estavam por aquela área, junto de seu parceiro Carvalho. E por isso foi chamado ao local naquela noite, uma noite bem fria.

Já era madrugada quando os dois policiais receberam o chamado na delegacia. Duas vítimas, encontradas dentro do prédio, algo não tão bonito de se ver. Alberto sentiu o coração falhar, mas voltou a si quando soube que eram dois homens. Carvalho, que a essa altura já adormecia sua imensa pança em alguma cadeira, se interessou na possibilidade de conseguir um teco aquela noite e logo os dois parceiros estavam a caminho do local. Quando chegaram, já havia uma grande movimentação. Policiais militares, uma equipe de reportagem e viciados que se esgueiravam nas janelas e nas esquinas tentando ver algo.

– Odeio esses malditos viciados – resmungou Alberto, abrindo a porta da viatura e recebendo no rosto um sopro congelante.

Carvalho fez o mesmo e ajeitou a gola de seu casaco.

– Vamos, Alberto. Sem eles não teríamos diversão – disse Carvalho, e deu a sua típica gargalhada abafada.

Alberto o empurrou em direção ao prédio. Conhecia Carvalho desde os tempos da academia de polícia e sabia do gosto perigoso do parceiro. Mas, porra, era o Carvalho, ele podia. Ele não iria ferrar com tudo. Alberto aprendera a fechar os olhos para as atitudes de Carvalho, mesmo quando pensava em Roberta. Ele havia sido um amigo fiel, e lhe ajudou quando sua esposa falecera.

Os parceiros chegaram ao terceiro andar e passaram por uma barreira policial, cumprimentaram alguns conhecidos e encontraram a cena do crime.

Era um pequeno apartamento, sem móveis, com muito lixo espalhado, paredes sem reboco e janelas cobertas com jornais. Eram dois corpos, dois homens, altos e magros, vestiam trapos e tinham os braços e pernas marcados por feridas. Típico dos viciados. No entanto, o que mais havia ali não era nada típico. Carvalho assoviou e acendeu um cigarro enquanto Alberto se aproximava dos cadáveres para tentar entender tanta destruição. Ambos os homens mortos estavam sem os olhos. E pior que isso, as cavidades oculares haviam sido completamente estraçalhadas, como se tivessem sido  destroçadas por ratos.

– Aqui estão os olhos – disse um policial militar que Alberto já conhecia de vista, mas não sabia o nome. O policial mostrava um saco de coleta de provas e dentro haviam quatro globos oculares, todos bastante machucados. – Encontramos os olhos no chão, próximos aos corpos – completou o policial.

– Que diabos – resmungou Alberto. – Onde está o Dantas?

– Aqui – respondeu um homem que entrava no apartamento. – Já estou aqui há muito tempo seus dois molengas – ele lançou um olhar debochado para Carvalho, que deu de ombros e começou a andar pelo apartamento.

– O que houve aqui, Dantas? – questionou Alberto, acendendo o primeiro cigarro daquela madrugada.

– Exatamente isso que você está vendo – o delegado Dantas era conhecido pela pouca paciência. –  Os corpos foram encontrados por um outro viciado que saiu correndo aos gritos. O perito ainda não chegou, então não posso dizer mais nada. Só sei que isso está com cheiro de assassinato. Aposto minha mãe como foram mortos por alguém e depois tiveram os olhos arrancados. Ou quem sabe foram arrancados antes – ele suspirou e então de uma breve olhada ao seu redor. – Malditos viciados, olha só para este maldito buraco.

– E drogas? – perguntou Carvalho.

– Na cozinha. Cocaína – disse um dos policiais militares que estavam ali.

– Vou averiguar – disse Carvalho. Apagou o cigarro na parede e assumiu seu semblante de policial sério. Dantas o observou indo até a cozinha e depois lançou um olhar severo para Alberto.

– Um dia a casa vai cair, Alberto – disse o delegado, e depois saiu do apartamento.

Alberto suspirou e se aproximou novamente dos cadáveres. Apesar dos rostos desfigurados, ele tinha certeza que não conhecia aqueles homens. Será que Roberta os conhecia? Como se pudesse ter lido sua mente, um policial militar disse que não havia sido encontrados documentos. Alberto fez uma careta e sorriu para o policial.

– Vamos esperar o perito chegar, então.

***

Os corpos foram levados pela perícia forense e após interrogarem alguns viciados que haviam sido detidos pelos policiais militares para averiguações, Alberto e Carvalho foram embora. Passaram na delegacia para assinar o ponto e em seguida Alberto deixou o parceiro em casa, como fazia há mais de vinte anos.

– Esses drogueiros, sempre nos surpreendendo – gargalhou Carvalho, enquanto Alberto dirigia silenciosamente. – Ainda bem que somos bem recompensados pelo nosso trabalho – o gordo policial tirou do bolso do casaco um pino com um pó branco. Cocaína.

– Eu mereço isso por tanto trabalho, não é? – falou Carvalho. E ficou olhando para Alberto, esperando uma reação que ele sabia que não viria.

Alberto já sabia que Carvalho havia pego a droga na cena do crime. Não desviou o olhar da pista e se manteve calado até chegar na casa de Carvalho. Quando parou em frente ao portão do prédio, o parceiro lhe deu um tapa nas costas.

– Eu amo você seu filho da mãe.

Carvalho desceu e Alberto arrancou. Aquela noite fria terminaria como todas as outras. Amanhã seria outro dia e a investigação iria continuar.

Alberto chegou em seu apartamento e cumpriu o seu ritual antes de dormir. Tomou banho, comeu um prato requentado e fumou um cigarro na sacada de sua varanda. Esperou os primeiros raios de sol surgirem e em seguida andou por todo o apartamento, acessando memórias. Deitou-se na cama e beijou o retrato com a foto da esposa. Dormiu. Sozinho.

No dia seguinte, Alberto acordou ao meio-dia e conferiu os noticiários policiais. Todos transmitiram sobre os corpos encontrados no centro. Ele sabia que aquela história ainda ia render muito. Tomou um banho e saiu para buscar Carvalho para almoçar.

Chegou ao prédio de Carvalho e ligou para o seu celular. Nada. Então desceu do carro e foi até a portaria. Usou o interfone, mas Carvalho não atendia. O porteiro disse que não tinha visto o policial sair e assim deixou Alberto subir até o prédio com uma chave extra. O apartamento ficava no quarto andar. Alberto abriu a porta sem cerimônia e encontrou o apartamento na penumbra, com as cortinas fechadas.

– Acorde seu porco – gritou, enquanto se dirigia ao quarto. Encontrou a porta entreaberta e antes de empurrar, soube logo que havia algo errado. Apesar do receio, empurrou a porta com os dedos e o que viu foi um mar de sangue. Carvalho estava deitado na cama, completamente nu, a pança enorme banhada do sangue que vinha de seu rosto. Alberto prendeu a respiração e se aproximou lentamente. Sentiu as pernas tremendo, mas se manteve firme. O rosto de Carvalho estava completamente destruído. Os olhos haviam sido arrancados e as cavidades oculares estavam dilaceradas. A boca se mantinha aberta, como índice da agonia.  Antes de sair do quarto e ligar para Dantas, Alberto notou que Carvalho segurava uma faca na mão direita e na outra mão, os dois olhos removidos.

Ligou para Dantas e enquanto esperava os policiais chegarem, voltou ao quarto e encontrou a cocaína espalhada em um prato embaixo do lençol. Pegou o pino que estava do lado e coletou um pouco. Não limpou os vestígios, não daria para salvar o Carvalho dessa. Mas uma terrível intuição o incomodava.

Quando as equipes chegaram, Alberto prestou os esclarecimentos e pediu pessoalmente para o perito criminal examinar a cocaína. O perito era André, um antigo conhecido. Alberto disse que queria ser avisado o quanto antes da análise da droga. Dantas chegou em seguida e assumiu a situação, profundamente abalado por saber que não teria como esconder o envolvimento do policial morto com as drogas, além de não saber explicar o que estava acontecendo.

– Quer apostar como o governador vai me fuder? – perguntou para Alberto. – O que diabos está havendo aqui, Alberto? Os mesmos olhos arrancados?

Alberto engoliu a seco.

– Você aposta demais, Dantas. Eu preciso sair.

Alberto tinha o que fazer. Saiu do prédio e quando entrou no carro, quis deixar o choro vir, mas ele não veio. A angústia era cruel e solitária. Então, lembrou de Roberta, ligou o carro e saiu.

Alberto rodou um pouco no centro e quando anoiteceu, os viciados começaram a surgir. Não demorou para ele encontrar Macaúba, um dos drogueiros que ele já havia prendido várias vezes. Macaúba estava encostado em um poste, fumando crack e não percebeu o carro de Alberto. O policial parou ao seu lado e esperou um pouco. Como odiava aquele maldito drogado. Então o viciado percebeu quem estava ali e fez uma risível cara de espanto, mas não tentou fugir. Alberto se esgueirou e abriu a porta do passageiro, depois indicou o banco para o viciado. Macaúba refletiu um pouco, olhou para os lados e coçou a cabeça. Guardou o cachimbo no bolso do calção e entrou no carro.

Após uma hora, chegaram a um galpão abandonado fora da cidade. O policial estacionou e ficou em silêncio.

– O que viemos fazer nessa quebrada? – perguntou Macaúba, enquanto coçava furiosamente as feridas que lhe cobriam as pernas. Visivelmente nervoso.

– Desça – limitou-se a dizer, Alberto.

Os dois homens desceram e seguiram para dentro do galpão. Macaúba começou a tossir e a se tremer, e Alberto apenas o empurrava quando ele empacava. O lugar era escuro e sombrio, cheio de ratos que caminhavam pelas vigas de metal enferrujado. O galpão era enorme. Alberto guiou Macaúba até os fundos e entraram em uma sala onde havia um velho birô próximo a uma janela. Apenas isso. Alberto mandou Macaúba sentar e quando o viciado o fez, o policial jogou o pino com cocaína em cima da mesa.

– Use – ordenou.

Macaúba ficou confuso, pegou o pino e o analisou, em seguida olhou para os lados e soltou o pino.

– Porque?

Alberto acendeu um cigarro e dispensou explicações.

– Apenas use. Garanto que é do bom.

Macaúba gargalhou e abriu a boca cheia de dentes amarelados.

– Que tipo de armadilha é essa?

Alberto perdeu a paciência e sacou a sua pistola. Macaúba quase se levantou, mas percebeu que seria melhor ficar onde estava.

– Escute aqui seu viciado de merda, eu o trouxe aqui porque ninguém dá a mínima para você. Então você já entendeu que se eu quiser, você não irá sair daqui vivo – gritou Alberto, com a pistola apontada para os olhos de Macaúba. – No entanto, não pretendo acabar com você. Pelo menos não hoje. Mas agora, quero que você enfie esse pó dentro desse nariz. E rápido.

Macaúba afirmou com a cabeça, completamente aterrorizado. Despejou a cocaína na mesa e desmontou o seu cachimbo, usando a piteira para aspirar o pó. Alberto observou aquele processo enojado. Quando terminou de cheirar, Macaúba coçou o nariz e ficou esperando.

– E agora?

– Agora, a gente espera – respondeu o policial.

Não foi preciso esperar muito. Menos de uma hora depois, Macaúba entrou em transe. Ficou travado e suas pupilas ficaram completamente brancas. Alberto pensou ter visto algo naquelas pupilas. Parecia um rosto. Um rosto monstruoso. Mas então Macaúba Começou a agitar impacientemente as mãos e logo os gritos vieram. O viciado começou a uivar de dor, e seus olhos começaram a verter sangue. Alberto se afastou um pouco quando viu Macaúba começar a se descontrolar. O sujeito apertava os olhos, como se quisesse fazer a dor parar e logo começou a enfiar os dedos nas cavidades oculares. Se jogou no chão e num acesso de fúria arrancou o olho esquerdo. O sangue jorrava. Alberto não acreditava no que via, era surreal.

Macaúba grunhia como um bicho e então usou as duas mãos para arrancar o outro olho. Quando conseguiu, ficou de joelhos, arfando. Os gritos pararam. Passados alguns segundos, Macaúba morreu. O corpo ajoelhado, imóvel, banhado em sangue.

Era a droga. Era a maldita droga.

Alberto saiu como uma bala do galpão. Precisava encontrar Roberta e alertá-la. E ele sabia bem aonde ir. De volta o centro, ele estacionou em uma esquina, próximo à entrada de uma boate.  Observou pacientemente a movimentação e então ela chegou.

Roberta chegava na garupa de uma moto. Alberto não reconheceu o motorista, mas era um homem. Das últimas vezes que ele a havia encontrado ali, ela estava sozinha. Roberta e o homem entraram na boate e então Alberto os seguiu. Conferiu a pistola ao descer do carro. Ao se aproximar da portaria, o segurança percebeu sua presença e murchou como uma planta sem água. Alberto o encarou friamente e passou direto pela porta. Já havia feito batidas policiais naquela boate, e os seguranças não ousavam mexer com ele.

Roberta estava em uma mesa no fundo da boate, com muitas outras pessoas, bebendo e fumando. Ela percebeu a chegada de Alberto e se antecipou a ele, se levantando e entrando em uma porta próxima ao bar. O policial a seguiu e quando cruzou a porta, viu Roberta apoiada na parede de um longo corredor.

– O que você quer aqui de novo? – perguntou a moça. – Já não bastava a confusão que o senhor fez da outra vez?

– Eu vim para lhe ajudar, minha filha. Por favor, me escute – suplicou Alberto.

O policial já estava acostumado, mas ainda se emocionava quando via a filha. Como ele podia ter errado tanto? Como ele perdeu aquela linda garota ruiva para as drogas?  A doce menina agora era uma traficante, uma viciada, puta de bandidos.

Roberta fingiu surpresa e fez um sinal com a cabeça para que Alberto continuasse a falar.

– Eu estou no meio de uma investigação agora, e descobrimos que tem uma nova droga na rua. Um tipo de cocaína, mas mortal. Ela mata quem consome – disparou Alberto e não percebeu que se aproximava da filha. Ele tentou tocá-la, mas ela se afastou. – Você está correndo perigo, Roberta – finalizou o policial, enfiando a mão no bolso da calça.

Dessa vez, Roberta ficou realmente surpresa e escancarou a boca, como se não pudesse acreditar. Alberto percebeu que ela não iria acreditar.

– É verdade, minha filha. Os olhos, eles…

– Eles arrancam os olhos – disse uma voz masculina atrás de Alberto. O policial se virou para ver um grupo de homens passar pela porta. Eram os homens que estavam na mesa com Roberta. Eram perigosos.

– Como? – balbuciou Alberto, dando alguns passos para trás. Em uma fração de segundos conseguiu notar que todos os quatro homens estavam armados.

– Quem usa o pó, arranca os olhos – disse um deles, que tinha mesmo cara de líder. Alberto não o conhecia. Seria um novato na praça?  O homem era alto e magro, usava barba e tinha muitos brincos e piercings no rosto. – Eu sei disso, pois somos nós que fabricamos o pó.

Alberto sentiu o coração congelar e quase sacou a arma para atirar, quando Roberta lhe tocou o ombro e o conteve.

– Pai. Fica quieto – ela sussurrou. Em seguida lançou um olhar frio para o homem dos brincos. – Você disse que não iríamos vender na cidade, Russo.

O homem dos brincos, Russo, gargalhou descontroladamente. Então se recompôs e apontou para Roberta.

– Eu faço o que eu quero, minha cadela.

Alberto quis agir, mas Roberta segurou o seu braço. Russo percebeu a intenção do policial.

– Mandei o pó de presente para dois inimigos – disse o bandido. – Mas não tem problema. A polícia não irá nos ligar ao fato.

Alberto ficou ainda mais nervoso. Aquilo significava que eles não o deixariam ir.

– O que tem na droga? – perguntou o policial, tentando não demonstrar nervosismo.

Russo se divertiu.

– Não há nada na droga, seu policial escroto. A não ser o que você não pode compreender. Ingredientes poderosos.

– E o que eu não posso compreender? – desafiou Alberto.

– A ARTE DO DEMÔNIO – gritou Russo e nessa hora os seus capangas pularam em Alberto. Roberta gritou, mas levou um soco de um dos bandidos. Russo tirou a carteira do bolso e despejou em cima dela um pó branco. Os outros bandidos imobilizaram Alberto no chão e tiraram sua pistola.

– Faremos assim – disse Russo, com uma tranquilidade assustadora. – Você irá cheirar esse pó. Se nada lhe acontecer, deixaremos você ir.

Alberto fungou e negou com a cabeça.

– Como vou saber se não é a sua droga envenenada?

Russo arregalou os olhos e sussurrou.

– Você não sabe. Essa é a graça.

– Não irei cheirar nada, seu viciado de merda.

– Ah, não? – Russo deu uma piscada para seu capanga e este chutou a barriga de Roberta, que estava caída no chão. A moça uivou de dor. O grito da filha e o som alucinante que vinha da boate atrás da porta estavam deixando Alberto maluco.

– Ou cheira, ou ela morre – ordenou o bandido.

Alberto concordou e sem tirar os olhos de Russo, pegou um canudo que um capanga lhe estendia. Russo aproximou a carteira do rosto do policial e Alberto aspirou o pó sem cerimônia. Toda uma vida combatendo as drogas, e só agora ele sabia como era usar uma. O pó entrou queimando suas narinas, e ele sentiu um pouco de ânsia. Começou a suar frio e abaixou a cabeça. Estava derrotado.

Russo saboreou o momento em silêncio e Roberta chorava baixinho estendida no chão.

– É corajoso, policial – disse o bandido. – Essa droga não irá lhe fazer arrancar os olhos. Essa não é a droga do castigo.

Alberto respirou aliviado.

– O castigo do inferno não irá cair nessa cidade, pelo menos não por enquanto – continuou Russo. – Essa ainda não é a vontade do senhor. Estamos de partida para iniciar a nossa missão em outro lugar – ele olhou para Roberta. – Não é isso, meu amorzinho? Logo, logo, a mensagem de nosso mestre estará se difundindo pelo mundo. Essa droga irá trazer a destruição para a terra.

Roberta ainda chorava. Alberto sentiu vontade de chorar também, mas não conseguiu. Ele nunca conseguia.

– Vou ficar bem, papai – ela conseguiu dizer. – Preciso cumprir a minha missão.

Dois capangas a ajudaram a levantar-se e saíram pela porta. Russo observava Alberto com curiosidade.

– Você é durão, policial. Você tem o que costumamos chamar de olhos de gato – dito isso, Russo aproximou-se do rosto de Alberto, que ainda estava entorpecido pela cocaína. Sentindo uma euforia alucinante. – Você enxerga bem na escuridão desse mundo podre. Sabe como ele funciona. Quem sabe um dia o mestre tenha uma missão para você.

O bandido abriu a boca e Alberto pôde ver no fundo de sua garganta a marca do mal. A marca do demônio. O rosto monstruoso, e ele gritava. O coração do policial se encheu de coisas terríveis em apenas um segundo e ele desejou arrancar os olhos para não ver aquilo.

Acabou mesmo mergulhando na escuridão.

Quando acordou, Alberto estava deitado na areia de uma praia deserta. Estava vestido. Já era manhã, mas o sol ainda não estava forte. Levantou-se vagarosamente, pois sua cabeça latejava de modo infernal. A sua frente, o mar agitado bradava sua fúria. Um filete de sangue quente desceu de seu nariz e ele lembrou de tudo.

Roberta. Como se envolveu com essa coisa terrível?

Ao mesmo tempo que pensou na filha, seu celular tocou no bolso de sua calça. Era André, o seu amigo na perícia criminal. Alberto atendeu e ouviu André dizer que a cocaína era pura. Com todos os ingredientes químicos que tinha direito. Alberto perguntou se ele não havia encontrado algo diferente e André negou.

O policial então desligou e continuou observando o mar. Havia perdido tudo: a mulher, o amigo, a filha. Mas agora tinha certeza de que não havia por que lamentar.  Ele tinha olhos de gato. Ele sobreviveria naquele mundo escuro. Havia sido feito para ele. Ainda mais agora, que ele tinha certeza de que muitas pessoas, mais cedo ou mais tarde, iriam sair por aí arrancando os olhos.

– É só esperar – sussurrou para o vento.

É só esperar.

Anúncios

20 comentários em “Olhos de Gato (Pedro Luna)

  1. Gabriel
    7 de janeiro de 2014

    Acho que o grande lance do conto é um novo desfecho, aguardem, ficou algo no ar.
    O autor usou com essa linha de desfecho solto com sabedoria prendendo o leitor de forma nada casual.
    Então “é só esperar”

  2. Pedro Luna Coelho Façanha
    6 de dezembro de 2013

    Então, rapaziada. Vim agradecer as leituras e críticas. Não pretendo reescrever esse conto, mas com certeza tirei lições daqui. As malditas repetições que eu achei que tinha superado, voltaram com força total. kkk. Quanto ao final, é essa maluquice aí mesmo. Quis fazer algo bem pessimista, desanimador. Bom, té a próxima 😉

  3. Leandro B.
    3 de dezembro de 2013

    Uma boa história, embora precise de algumas revisões.

    Uma das coisas que mais me incomodou foi a repetição de nomes, principalmente no início do texto. Além disso, a morte do “tira mal”, com o “tira bom” chegando ao final também não me agradou muito. Teria preferido ler uma inversão.

    É um conto que prende bem a atenção, o que é um mérito enorme quando se carrega tantos problemas de repetição. Espero que o autor(a) revise o conto, este é um texto que merece ser apresentado com muito mais carinho.

    Bom conto

  4. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE
    A atmosfera bem construída. O mistério por trás das mortes é suficiente para suscitar curiosidade. Também gostei muito da constatação final do personagem.

    SUGESTÕES

    Algumas cenas e sensações poderiam ser descritas com um pouco mais de riqueza, como quando o protagonista aspira a droga pela primeira vez, ou quando observa passivamente a morte do Macaúba etc. Desenvolver melhor o encontro do protagonista com os antagonistas também seria interessante… eles aparecem muito “do nada” e revelam o plano todo de maneira gratuita.

    Revisar e editar mais. Por exemplo, o plural em “um dos policiais civil”.

    TRECHO FAVORITO

    “Ele tinha olhos de gato. Ele sobreviveria naquele mundo escuro. Havia sido feito para ele”.

    […]

    “– É só esperar – sussurrou para o vento.

    É só esperar.”

  5. Alana das Fadas
    3 de dezembro de 2013

    Ótimo conto! Ao contrário da maioria, achei o final sensacional! Ele estava de mãos atadas… E se casa perfeitamente com o título!

  6. Felipe Falconeri
    29 de novembro de 2013

    O conto tem uma ideia bem bolada e prende facilmente o leitor com o mistério, o que conta muitos pontos nesse tipo de texto.

    O conto carece de uma revisão mais apurada. Tem alguns erros e muitas repetições. O nome Alberto aparece incontáveis vezes. Esse vício acaba travando a leitura, é preciso tomar cuidado com isso.

    Não curti o final, deixou muitas pontas soltas. Não fica claro se a droga que Alberto consumiu era a cocaína letal ou não ou se realmente havia algo de sobrenatural aí. Sem contar que a conclusão a que ele chega é meio estranha. As pessoas vão morrer e ele não, então tá tudo bem, é isso? E ele simplesmente desistiu de pegar os criminosos e tirar a filha das mãos deles?

    Enfim, achei um desfecho bem fraco. Mas não é um conto ruim. Só acho que precise de um pouco mais de trabalho.

  7. fernandoabreude88
    29 de novembro de 2013

    Porra, achei o conto bem foda. Esse final aí, é o tipo de final que eu gosto. Não tá truncado, bem organizado, com personagens bacanas e uma história criativa que tem uma simplicidade que gosto de ver em contos. Parabéns.

  8. charlesdias
    29 de novembro de 2013

    Apesar da trama estar ainda um pouco confusa por conta de precisar de melhor desenvolvimento, é um conto interessante que merece ser melhor trabalhado. No geral gostei.

  9. Agenor Batista Jr.
    27 de novembro de 2013

    Fiquei tentando entender por que o desfecho foi tão abrupto depois do personagem ter passado por horrores. O fato de não ter havido uma solução para os crimes também me incomodaram. Salvou-se o desenrolar bem concatenado até o fechamento.

  10. rubemcabral
    27 de novembro de 2013

    Olá, muito boa a trama. Bons personagens também, pois o drama do pai com a filha viciada deu mais “carne” ao policial. Agora, quanto à escrita, esta deixou um tanto a desejar, não? Muito o que revisar, muita repetição (nomes, palavras). O final com o Alberto na praia é estranho, penso que seria melhor ele ter acordado na boate.

  11. Gustavo Araujo
    26 de novembro de 2013

    Como alguns dos melhores contos do desafio, este aqui também consegue envolver o leitor em uma trama bastante interessante já nas primeiras linhas. O mistério proposto é bem bacana e funciona realmente como gatilho, impulsionando a leitura adiante. Os diálogos foram bem construídos e os personagens também foram apresentados adequadamente, com a profundidade que se espera considerando o limite de 3500 palavras. O desenvolvimento em si ficou OK, apesar de erros ortográficos pontuarem a narrativa aqui e ali, mas nada que comprometa a fluidez da história.

    O que não gostei foi da maneira como o conto terminou. Quer dizer, não terminou. O protagonista se transforma em alguém que não é atingido pela droga assassina. Tem, por assim dizer, o corpo fechado. Esse subterfúgio já fica bem deslocado em uma narrativa noir, mas aqui foi usado para justificar um final fraco: o policial acordando na praia sem ter resolvido nada. Ou melhor, sem que a história tenha sido resolvida.

    Como leitor, fiquei frustrado, especialmente porque estava gostando do conto. Do modo como tudo terminou, fiquei com a sensação de que o autor optou por encerrar a história abruptamente. A justificativa poderia ser a ideia de fornecer ao leitor um final aberto, ou que tudo seria apenas um primeiro capítulo de um romance maior. Para mim, contudo, pareceu uma fuga. Sem saber como terminar a história, optou-se por cortá-la no momento mais interessante. Não me entenda mal: falo isso por experiência própria. Muitas vezes tenho a ideia, consigo desenvolvê-la a contento, mas tenho uma dificuldade gigantesca em amarrar as pontas no fim.

    Sei que isso pode soar pretensioso, mas foi essa a minha sensação. Claro que posso estar errado. Claro que esse fim pode ter sido arquitetado desde o princípio pelo autor e eu estou aqui jogando pedra na cruz, julgando a obra alheia por mim mesmo. Se for esse o caso, peço que me perdoe, mas a mim faltou um final mais condizente com a qualidade apresentada no início.

  12. Thata Pereira
    19 de novembro de 2013

    Parabéns pelo conto! Adorei. Ao contrário de todo mundo — eu tenho disso de contradizer a maioria, mas não é intencional — gostei do final. O texto é por completo tenso, gostei do fim mais brando. =D

    A única coisa que me incomodou foi que “papai”, no meu ponto de vista, soou forçado. :/

  13. Marcellus
    18 de novembro de 2013

    Gostei muito do conto, parabéns! Minhas duas únicas críticas seriam o relacionamento raso entre pai e filha e a falta de uma rápida revisão, como, por exemplo, no trecho: “Alberto não reconheceu o motorista, mas era um homem.”. Uai, se era “o motorista”, só poderia ser “um homem”. Mas são detalhes. No geral, muito bom! Parabéns!

  14. Henrique Silveira
    16 de novembro de 2013

    O melhor conto que li até agora. Desde o início prendeu minha atenção, mas teve apenas um fator que não me agradou, que foi o desfecho. Acredito que a emoção poderia ser maior, mas sem dúvidas é um grande conto.

  15. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    16 de novembro de 2013

    Quando o leitor se dá conta já terminou de ler o conto. Tenso, satânico, aflitivo, mas muito bom. A narrativa vicia…rs. Parabéns.

  16. Jefferson Lemos
    15 de novembro de 2013

    Gostei do texto. Porém, achei que o desfecho sobre a composição da droga ficou fraco. Faltou um clímax maior, um pouco mais de emoção para deixar o texto melhor.
    No geral, foi um bom conto, apesar das coisas que não gostei.
    Parabéns!

  17. Bia Machado
    15 de novembro de 2013

    Gostei muito do texto, prendeu mesmo a minha atenção e não foi cansativo. O que me incomodou um pouco foram alguns diálogos, um pouco contidos, quando Alberto conversa com a filha e você diz que ele “suplicou”, mas a forma como você escreveu a fala dele não me mostrou isso. E achei engraçada essa fala: “Só sei que isso está com cheiro de assassinato. Aposto minha mãe como foram mortos por alguém e depois tiveram os olhos arrancados.” Bem, como o cara não tinha ideia dessa droga do demônio, acho que a coisa estava mais do que óbvia… O engraçado foi que, a partir dessa frase, comecei a pensar: “Então há uma possibilidade de não ser assassinato? Mas como?” O final também me incomodou, achei fraco, morno, digamos, em relação ao restante do texto, que foi “aquela tensão”. Mas gostei mesmo!

  18. Ricardo Gnecco Falco
    15 de novembro de 2013

    Daria uma boa série televisiva. Não é muito o meu estilo, mas o conto tem o seu valor. Um FC travestido de realidade nua e crua. Gera boa visualização das cenas em quem o lê. Não está nem de longe no mesmo nível dos melhores deste Desafio apresentados, mas também se distancia em demasia dos piores. Digamos, portanto, que seja um conto mediano. Nota entre 6 e 7, dependendo da média para passar sem recuperação. 🙂
    Um aprofundamento psicológico do relacionamento pai-filha (e mãe, já morta, que inclusive poderia se relacionar com os acontecimentos estranhos e macabros ocorridos na vida do protagonista) cairia bem neste conto e seria possível, mesmo com a limitação de palavras ora imposta. Poder-se-ia, inclusive, como muito bem apontado pelo Masaki, trabalhar em outros contos, na forma de continuações da história, com desenvolvimento das personagens aqui apresentadas e, também, com o acréscimo de novas.
    #ficadica!
    😉

  19. Frank
    14 de novembro de 2013

    Caramba! Um senhor conto! Sem dúvida alguma um dos melhores ou melhor até agora! A ambientação da rotina policial, os comportamentos tudo ótimo. Duas coisas me incomodaram, contudo: fiquei imaginando o cheiro do viciado entrando no carro (não é um incômodo sério) e o parágrafo final (essa é séria). Não sei, pra mim destoou e ficou parecendo chamada de novela ou de filme B (sem ofender, só não consigo descrever melhor). Por último, o lance da droga me lembrou Max Payne (o game). Parabéns e, confesso, tive um inveja do bem por esse conto!

  20. Masaki
    14 de novembro de 2013

    Uma trama envolvente e quente! Gostei da maneira que o autor conduziu o texto. Com diálogos curtos, porém na medida para o roteiro, a história prende a atenção do leitor até o final. A ideia da qual tive sobre a droga é ser amaldiçoada. O protagonista é o único a se safar deste mal. Quem sabe pode até rolar uma continuação para o desfecho da “Arte do Demônio”?
    Parabéns!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 13 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .