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Detox Literário.

Recordações Desvairadas de Três Funerais (Fernando Abreu)

A primeira vez marcou, perdi a virgindade sepulcral no dia que minha avó materna se foi. Calma, eu não sou um necrófilo. Pra mim ela era o Highlander. Sendo assim, nem aquele tubo de oxigênio na garganta da senhorinha, nem as manchas redondas e pretas na pele (o pulmão roubando O2 do tegumento), nada, nada disso me comovia. O motivo? O Highlander era imortal, detonaria os obstáculos piscando seus olhos de raio. Trim. Trim. Ligaram do hospital. Padrasto e mamãe foram vê-la em desespero. Aproveitei para assistir pornografia na internet. Notícias Populares informa: VOVÓ MORRE E NETO FICA NA PUTARIA. Meu avô na solidão da sala, expressão inalterada, pernas em cruz na cadeira e soltando um tubo de choro pelo olho esquerdo. Chorei como nunca. Ah, chorei! Chorei até as lombrigas doerem e a testa rachar.

Foi o primeiro defunto da minha vida. A avó debruçada na cama miserável de madeira. Mil e um suspiros no consórcio de presuntos. Mandaram flores pobres, mancharam as paredes e o esquife. Banalizaram a mortalha. A vovó de boca semi-aberta, a pele mais escura do que o habitual. Uma pequena janela de vidro no caixão, na frente do rosto. Lágrimas correm o vidro e choro novamente como criança. A sensação me leva a correr do ambiente, sento na calçada como um moleque de rua, acendo um cigarro, fujo do abraço de tias sentimentais. A avó manca formiga-me o corpo. Enfia um aspirador de pó no meu peito, suga até que eu pare de respirar. Me bronqueia, me odeia. Trinta e sete anos de trabalho e miséria numa fábrica de tecidos. Milhões de microfibras por dia no sistema pulmonar. Fibrose, morte, tédio, secreções. Antes de ir embora, me lembra que sou um desgraçado. Comecei a fumar enquanto morava na casa dela.

Sorocaba é uma cidade quente do interior de São Paulo. Quando penso no lugar, lembro de areia, lembro de um mercado chamado Tulha e de ter assistido Gasparzinho no cinema com o vovô. “Que gritaria do caramba”, reclamava ele na muvuca da sala escura. Fomos andando em procissão pela terra batida do cemitério. A caixa de madeira desceu ao buraco, dois coveiros indiferentes jogando montes de terra, movimentos mecânicos cobriam minha avó pra sempre. Andei pelos campos de morte do lugar. “Agora que sou espírito preciso atravessar os campos de verão”, escreveu um artista japonês antes de morrer. Seriam esses os campos? Acho que sim. Naquela cidade, o que tinha era calor e andantes desesperados. Indo embora, vi flores, estátuas de santos, fotografias, bilhetes e garrafas abandonadas pela grama.

As garrafas me lembram bêbados. Uma velha sobe pela trilha seca de um cemitério da cidade de Natal. Deixa uma garrafa transbordando água para João Baracho. O túmulo rodeado de vasilhames cheios. Segundo dados oficiais da polícia potiguar, Baracho foi um psicopata que assassinava trabalhadores noturnos da capital. Cabra macho, agia sempre à noite eliminando de putas a vigilantes. Para se esconder da polícia, tentou entrar na casa de uma senhora pedindo-lhe um copo d’água. Ela negou e ainda o entregou aos policiais. O Santo João Baracho tomou mais de trinta tiros e virou lenda. Notícias Populares informa: PEDIU ÁGUA E LEVOU BALA! Os visitantes do cemitério do Bom Pastor têm o costume deixar recipientes cheios na sepultura dele. Nunca mais lhe faltará. Dizem que ele foi pro céu, pois morreu com sede. Fica a lição. Água não se regula. Um bom castigo para a avarenta: 30 mil anos engasgando-se com o mesmo líquido negado, como Prometeu. Morrendo e voltando. Morrendo e voltando.

E a turminha da “melhor idade” ia falecendo em parcelas do Baú. Dona Morte levou, dessa vez, o pai do meu pai. Gripe de rotina. O velho sergipano era forte, mas não era de ferro. Chegou vivo ao hospital do Mandaqui, em São Paulo, onde loucos e doentes dividem o mesmo espaço. Não lembro a causa mortis e não consegui ficar triste. Vovô foi cremado e minha avó quis jogar parte das cinzas no cemitério. Fiquei novamente olhando aquele amontoado de mato e símbolos cristãos. Lembro de sepulturas rachadas, o gramado úmido e as trilhas de terra que se cruzavam até o horizonte. Forcei o choro. O vento balançando o capim alto e algumas lembranças do velho empurraram lágrimas abaixo. A coisa mais digna a se fazer num cemitério é chorar.

O pai do meu padrasto morreu. O vovô das minhas irmãs via certo charme no movimento que um homem faz ao levantar o copo, na espuma e nas cores diversas que álcool ganha nas embalagens e na nossa visão entorpecida. Certo dia a gente estava perto da casa dele e um homem passou com um jegue cheio de enfeite s. Ele cobrava pra tirar fotos das pessoas ao lado do bicho. O avô se interessou e levou minha irmã para fazer uma fotografia. Foram caminhando para um lugar alto, o “fotógrafo” queria uma luz mais direta. Fiquei esperando com o meu padrasto. Quinze minutos, meia hora, uma hora. Não voltavam. Ele me levou para a casa do velho e ficamos lá esperando os dois voltarem. Nada. Perguntei se algo de ruim podia acontecer com a pequena, mas meu padrasto refutou nervoso. “Meu pai não é ruim”. E não era mesmo, tanto que voltou sorridente, a menina brincando no seu colo. A foto dela com o tal jeguinho está no álbum de família.

O velho do álcool foi velado no bairro da Cachoeirinha, em um grande cemitério. Defunto de moral baixa deixa o pessoal mais à vontade no velório. Era uma falação ininterrupta. Caminhei até o magro corpo deitado no esquife, as mãos secas e duras acima do peito. Alguém começou a ler textos em voz alta, era meu padrasto empunhando um livro na mão, a última conversa com o pai. Saí caminhando com um pessoal pelo cemitério. Parei com eles no meio de um gramado extenso e íngreme. Era tarde da noite, já. A vista d ava pros morros periféricos que envolvem a cidade. Fiquei olhando as esparsas luzes de moradias na escuridão em relevo. Ouvia histórias sobre o morto, tinham até um certo humor. Alguns fumavam e me senti bem em acender um cigarro ali. Cigarros e cemitérios, essa é a minha última lembrança. Decidi que enquanto meu pai e minha mãe vivessem, eu nunca mais encararia a sensação estranha de pisar nesses gramados assombrosos.

22 comentários em “Recordações Desvairadas de Três Funerais (Fernando Abreu)

  1. Fernando
    30 de setembro de 2013

    Muito obrigado a todos que leram e comentaram! Fiquei impressionado com as avaliações. Vamos ver agora o segundo concurso como vai ser! Abs!

  2. Felipe Holloway
    29 de setembro de 2013

    Embora não componha um panorama narrativo linear, como o próprio título já sugeria, este conto atingiu um nível de excelência que eu até agora não tinha visto neste concurso — e olha que o concurso está apinhado de histórias para lá de profissionais. Os recortes memoriais do narrador são de uma organicidade assustadora, tornando-os mais reais (e empáticos) que os de muita gente “não-ficcional”. Ora amargo, ora doce, ora de um sabor indefinido entre os dois extremos. Um conto que se divide como um feixe de luz atingindo um prisma, sendo cada frequência resultante mais bela, humana e lírica que a anterior. Lembra (e até vai além, em certos momentos) os melhores textos do mestre Luiz Vilela. Em uma palavra: perfeito. Top 3.

    Ao autor ou autora, minha veneração.

  3. Claudia Roberta Angst
    29 de setembro de 2013

    Gostei do modo como conduziu a narrativa com humor (ou ironia?) e objetividade. Pedaços do cotidiano para formar um cenário forte que “cutuca” o leitor.

  4. vitorts
    28 de setembro de 2013

    Não tem como ler “virgindade sepulcral” em um baita dum tabu, hahahaha.
    Adorei o humor do texto. Está recheado de passagens bens espirituosas.

    “Defunto de moral baixa deixa o pessoal mais à vontade no velório.”

    Enfim, agradou bastante.

  5. Arlete Hamerski
    28 de setembro de 2013

    Texto bem escrito, inspirado, atendeu ao que foi proposto pelo tema.

  6. Bia Machado
    28 de setembro de 2013

    Gostei muito! Achei divertido imaginar essas situações abordadas, rs. Poderia ser desenvolvido em algo maior, esse narrador teria muita história pra contar sobre esses mortos da família dele. 😉

  7. diogobernadelli
    27 de setembro de 2013

    Foi como passar os olhos por um mural repleto de fotografias afixadas. Outro texto com as saliências de uma crônica; simplesmente adoro tatear tais superfícies. Me apanhei, a certa altura, sorrindo. O texto tem fôlego, não chega a ser brilhante, mas se faz ouvir. Aliás, ele cheira a cigarro.

  8. Rubem Cabral
    27 de setembro de 2013

    Não é um conto, tem mais jeito de crônica ou algo do tipo. Ótimo texto, marcante, regional, agradável de ler, que faz rir e refletir. Tem lá alguns errinhos, mas o resultado geral foi muito bom.

  9. Sandra
    25 de setembro de 2013

    Retalhos do cotidiano capturados por um narrador muiito louco… O humor que permeia o texto arranca algumas boas risadas.

  10. Marcelo Porto
    24 de setembro de 2013

    Não se pode negar que o autor(a) tem estilo.

    Não é uma narrativa linear e por isso exige um pouco mais de atenção, compartilho a opinião de alguns ao ver uma trama maior por trás desse texto. Os retalhos desta colcha se encaixam no todo que está em algum lugar, ou talvez somente na cabeça de quem o escreveu.

    Bom conto(??).

  11. feliper.
    24 de setembro de 2013

    Como diria o Silvio Luís, “minha nossa senhora!”. Há certas imagens que perturbam. Porém, merece uma revisão e organização de frases mal colocadas. O texto é bom.

  12. Martha Angelo
    23 de setembro de 2013

    Gostei da crueza, do realismo, da intensidade, mas o texto me passou a impressão de uma colcha de retalhos, ainda assim, um bom texto. Original, diferente.

  13. Emerson Braga
    23 de setembro de 2013

    Intenso, envolvente! Parabéns!

  14. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    21 de setembro de 2013

    O autor deste texto é melhor do que ele. Nota-se maturidade na escrita, segurança. Apesar de uma escorregada no início, que se corrige lá pelo terceiro parágrafo. Tem estilo, tem uma história para contar, só não tem muita técnica. Este não é um texto de ficção fechado em si, parece mais com pedaços retalhados de um grande livro de memórias. Esta é a minha maior implicância com concursos de contos: em sua maioria os textos NÃO SÃO contos. Às vezes me dá vontade de inscrever uma caricatura num concurso de poesia ou uma trova num concurso de contos. Nesse caso isso dá até mais raiva, pois o autor é alguém que sabe o que está fazendo, ele tem talento e leitura suficiente para saber que seu texto não se enquadra, e mesmo assim inscreve um texto que falha com a característica principal da ficção curta que é a narrativa de um único episódio. Mesmo assim eu tenho vontade de votar nesse texto, porque apesar dessa transgressão de gênero literário, ele claramente mostra mais talento do que a maioria, e é errado desclassificar o talento, mesmo que ele este transgredindo.

    Vou pensar bem neste texto antes de votar.

  15. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    20 de setembro de 2013

    O texto Flui. É pesado, é marcante, forte! Mas ao mesmo tempo leve, pois flui. Gosto de textos assim, mas fiquei com o coração na mão… (rs’) entendi o que entendi?

  16. piscies
    16 de setembro de 2013

    Me amarro em ler estilos diferentes. Sua objetividade e seu realismo me impressionaram. Também gostei do toque de “crueldade” envolvida no texto. Tudo no texto é bem diferente, único, “seu”.

    Eu falaria que senti falta de algo linear, mas isto é por que seu estilo é diferente. No fim, gostei bastante do que li e fiquei até com vontade de ler outros trabalhos seus!

    • piscies
      16 de setembro de 2013

      Esqueci de dizer que gostei bastante do teor cômico. Não gargalhei em nenhum momento (e nem acho que esse era o objetivo), mas não consegui deixar de sorrir em diversos pontos do texto =)

  17. selma
    15 de setembro de 2013

    bem escrito, historia interessante, é diferente e poderia ficar chata, mas a forma como está colocada prende a atenção. gostei! parabens!

  18. Fernando Abreu
    14 de setembro de 2013

    Nossa, não é um conto com história, não é poesia, mas é bem bacana. Achei algumas imagens bem pesadas, mas que combinam com o tom urgente da escrita. Sinceramente, gosto mais de textos lineares, com começo, meio e fim. Palmas para a história do Baracho!

  19. Gustavo Araujo
    14 de setembro de 2013

    Narrativa muito boa. A maneira crua com a qual algumas expressões foram empregadas conferiu grande honestidade ao texto. Por vezes forte, mas sempre sincero. Há uma veracidade incômoda na escrita, algo raro de se ver, que torna o conto bastante original. Não é uma história no sentido linear da expressão, mas isso não me incomodou.

  20. Reury Bacurau
    13 de setembro de 2013

    Gostei muito da narrativa! Parabéns!

  21. selma
    13 de setembro de 2013

    gostei! muito forte. fico tentando acompanhar essa forma doida de se expressar, mas fiquei na historia, entendi o recado. parabens!

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Informação

Publicado às 12 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .