EntreContos

Detox Literário.

O Convite (Frank Bacurau)

Douglas estava de costas para a rua fechando o portão de casa quando ouviu a voz que até uma semana atrás era desconhecida, mas que agora parecia sua sombra. Virou-se com calma para encarar o Delegado Mechior e ter com ele a quarta conversa da semana, ou poderia se dizer, participar de mais uma sessão de sopapos na delegacia da cidade. Sentiu que uma irritação começava a fermentar dentro de si, mas então lembrou-se que passava o dia vendo gente cujos estresses ao longo da vida não significavam mais nada. Esse pensamento levou a outro que o fez rir, imaginou parentes a enterrar seus entes queridos caso alguém mais tivesse de faltar ao trabalho naquela manhã.

Inflexível quanto a sua metodologia, o policial ordenou ao investigador-capanga que algemasse Douglas e o pusesse na viatura para que este fosse sendo convenientemente “amaciado” no trajeto até a delegacia. Lá chegando, o rapaz se não se conteve e riu mais uma vez para si: a delegacia era desproporcionalmente grande para a pequena cidade e ele ficava imaginando aonde Melchior encontraria ocupantes para aquele mausoléu. A face do investigador ruboreceu de ódio, provavelmente achando que o prisioneiro sem crime, iria dele ou de seu chefe e deu-lhe um forte tapa na nuca.

Sentando na sala de interrogatório que Douglas suspeitava ter inaugurado, as mesmas questões dos dias anteriores foram postas a ele pelo delegado. Embora a coleção de hematomas fosse maior que na primeira sessão de tortura, as respostas foram as mesmas.

“Onde você trabalhou antes de chegar à minha cidade?”

“No cemitério de Penápolis exercendo a mesma função de coveiro”.

Se a resposta já era irritante por não ser a que Melchior queria ouvir, ela tinha um efeito ainda mais nefasto ao ouvido do delegado por saber que aquele sujeito tinha trabalhando em sua cidade natal sem que ele jamais tenha ouvido falar dele.

A ladainha continuava com o chefe da delegacia querendo saber motivo Douglas tinha escolhido aquela cidade e como tinha conhecido a família de seu Laurindo Miranda, o fazendeiro mais rico da região. Tomando fôlego ele respondeu à primeira questão:soubera da vaga de coveiro na atual cidade onde o pagamento era melhor. Por outro lado, encontrou o referido patriarca da família Miranda pela primeira vez durante o sepultamento de uma tia centenária.

Melchior já tinha ouvido tudo aquilo e voltava a repetir sua cara de não convencimento. Tornava a indagar como Douglas poderia ter visto os membros da família Miranda há apenas poucas semanas, mas ter cortejado de forma tão impertinente a caçula da casa, Marília Miranda. Ao que calmante o rapaz respondeu:

“Me apaixonei à primeira vista.”

O coveiro também lembrou ao delegado que inicialmente seus galanteios tinham sido correspondidos com bilhetes carinhosos deixados nos mesmos locais nos quais ele deixava flores e lembranças para a garota. O Melchiorretrucou aos berros que a aparente anuência da moça, contudo, não passou de um grande engano: pensando que o autor dos misteriosos presentes fosse um antigo namorado, pelo qual ainda era apaixonada, a moça agiu da maneira que agiu.

Infelizmente para Douglas, quando soube do engodo, a indignada foi direto a seu pai, Laurindo Miranda, relatar a ousadia do coveiro. Foi assim que o patriarca dos Miranda entrou na vida de Douglas.

Claro que uma paquera inocente não iria render tantas surras! Douglas sabia que nem um fóssil imbecil como Laurindo Mirana perderia seu tempo mandando seu delegado-capanga espancar quem quer que fosse. O que o Melchior realmente queria saber se o coveiro tramava algo. Afinal, desde o primeiro encontro com os Miranda, mais dois de seus parentes tinham morrido, sua mãe e filho mais novo! Obviamente, nada podia ser atribuido ao rapaz e o delegado sabia disso, afinal, a genitora do médico amanheceu morta (algo bem comum para idosos) enquanto seu filho de Melchior morrera aos quinze anos de um extenso derrame hemorrágico. Tudo num intervalo cinco dias!

Contudo, por mais irracional que pudesse parecer, o delegado perguntava ao rapaz qual seu envolvimento naquelas mortes. Sarcástico, o conveiro não pode privar-se de dizer que o autor das mortes era Deus, ele só enterrava. Esse novo gracejo foi premiado com um belo soco ao pé do ouvido como sempre dado pelo capanga-investigador do delegado-capanga.

Sabedor dos álibis do jovem, o delegado não deve alternativa senão liberá-lo pela quarta vez deum aprisionamento ilegal. Pouco tempo depois, sozinho em sua sala, ele revisava todos os passos da investigação que fez sobre Douglas. Toda a história contada por ele estava respaldada em fatos.

Tendo visitado o antigo cemitério no qual o coveiro trabalhara em sua cidade natal a cerca de cento e setenta quilômetros dali, foi ter com os antigos colegas do rapaz. Dois deles, confirmaram que ele havia trabalhadolá e que era um trabalhador exemplar. Embora ambos não fossem próximos do rapaz e na verdade dissessem que ele lhes causava arrepio. Fato que os dois funcionários do cemitério reconheceram ser estranho; não esperavam se assustar com nada considerando a natureza de seu ofício.

Acontece que eles contaram que como cidade não era muito grande,na maioria dos dias não havia serviço, mas que isso não impedia Douglas de limpar lápides e abrir jazigos familiares  para manter tudo organizado. Até aí tudo bem, mas ambos tiveram a impressão de que em algumas ocasiões o coveiro sob investigação havia deixado jazidos abertos pouco antes da morte repentina de algum membro da família dona da cova. Por isso, o medo que Douglas lhes inflingia, mas ambos admitiram que aquilo não passava de uma superstição boba.

Já de volta à cidade na qual era delegado titular, Melchior foi ao atual emprego de Douglas perguntou a um outro coveiro se ele tinha visto alguma coisa suspeita sobre o rapaz em relação a seu serviço no cemitério. O homem, um senhor alcóolatra de meia idade que se mantia sóbrio apenas o suficiente para ajudar na tarefa de descer os caixões na cova,fez cara de espanto.

“Que tipo de coisa estranha?”

Melchior não tinha como dizer ao homem se ele vira seu colega mexendo em túmulos de modo a causar mal a pessoas sem parecer débil mental e respondeu dizendo:

“Qualquer coisa.”

Obteve um não como resposta e percebeu que o máximo que sua investigação fez foi sugerir que o rapaz era um trabalhador bom e honesto. Não que ele se importasse em dar-lhe quantas surras fossem necessárias, mas precisava de algo “sólido” para metê-lo a ferros por bastante tempo. O fato de Douglas ter cortejado a filha de Laurindo Miranda não era crime. Pedro Mendoça, o juiz da cidade, não autorizaria uma prisão de outra forma.

Melchior sabia que fora Douglas ser extremamente inteligente e articulado, algo que ficava ainda mais gritante quando se pensava em sua ocupação, o rapaz nada tinha digno de nota.

O delegado tinha marcado almoçar com Miranda para relatar o que havia descoberto sobre o investigado e sabia que o fazendeiro enlouqueceria ao ouvir aquilo que Melchior tinha para lhe contar: nada. O velho estava obcecado com a ideia de que a desgraça que se abatera sobre sua família era culpa do coveiro; dizia que era intuição e que ela nunca falhara.

De repente o delegado sente a fibração do celular ao bolso e pensa “falando no diabo”. Inesperadamente quem tinha novidades era Miranda:

“Quero que você prenda esse maldito coveiro e perca a chave da cela. Ele teve a ousadia de surpreender minha filha na saída da escola! Está ouvindo, Melchior?”

E antes que este pudesse responder:

“Mas não ficou só nisso. Ele disse para Maristela que poderia protegê-la dessas mortes na minha família, caso ela o aceitasse. Se não, ela estaria por sua conta risco! Está ouvindo, seu palerma? Eis a sua maldita “prova”. Ele ameaçou minha filha”.

Dito isso, Miranda parou de falar…

O delegado entendeu o recado e desligou. Agora, como dizem,iria arrancar o couro do moço. Obviamente que o primeiro lugar no qual procurou Douglas foi o cemitério, mas só o pobre diabo do vigilante bêbado estava no local. Ele garantiu a Melchior quecomo não havia mais sepultamentos marcados para aquele dia, fora ele e os “moradores” do local, não havia ninguém ali; todos os outros funcionários já tinham ido.

Quando já havia virado as costas, o delegado ouviu uma ressalva curiosa feita pelo homem. Ele vira Douglas indo com pás e ferramentas para alguma parte do cemitério bem cedo, antes de amanhecer, e depois não o viu mais. Mechior não se considerava um sujeito dado a “frescuras”, mas um tremor percorreu todo seu corpo com aquela notícia. Perguntou ao vigia se podia dar uma olhada pelo cemitério e esse deu de ombros advertindo sobre o fato de estar quase totalmente escuro; não queria que alguém, muito menos o delegado da cidade, se machucasse em seu turno.

Com passos rápidos Melchior sabia para onde dirigir-se e novo calafrio percorreu seu corpo quando confirmou sua suspeita: o jazigo dos Mirandas estava aberto! Saiu furioso e ordenou ao vigia que fechasse o mesmo. Este arregalou os olhos e disse que não sabia como fazê-lo. Espargindo saliva para todos os lados o delegado ameaçou:

“Se aquele jazigo não estiver fechado quando eu voltar, o senhor estará preso!”

Não parou para ver a cara de horror do homem, mas por algum motivo arremessou-lhe 50 pratas antes de entrar em seu carro.

Na próxima parada, no bar onde o coveiro fazia suas refeições e queimava o restante de seu dinheiro com bebidas também não o tinham visto. Depois de procurar por toda a cidade desistiu, o rapaz havia desaparecido.

Estava sem alternativa, era quase hora do jantar e teria de encarar, mais uma vez, o mal humor de Miranda. Pegou o telefone e ligou para o fazendeiro para avisar que se atrasaria alguns minutos. Segundos depois um homem atendeu ao celular do fazendeiro.

“Quem está falando?”- perguntou o delegado.

Então, ouviu de Estáquio, um dos funcionários de Miranda contando que seu patrão tinha falecido a cerca de três horas enquanto falava ao telefone! Segundo o médico que foi chamado para atender o caso, o fazendeiro fora vítima de um AVC ou infarto fulminante; algo esperado para um hipertenso que fingia tomar a medicação.

Com o corpo todo trêmulo Melchior desligou o celular, mas segundos depois esse vibrou novamente. Apertou o botão para atender a chamada, mas um calafrio muito mais forte que os anteriores o fez ter a sensação de que iria desabar, mas teve determinação para dizer:

“Alô…”

“Doutor, Melchior – foi dizendo de sopetão a voz – o senhor pediu para ligar se o Douglas aparecesse. Pois então, ele chegou aqui antes de mim,por volta de quatro da tarde, deu uns trocados para meu colega dizendo queria ver algo. Assim que cheguei e percebi o expulsei daqui; não quero ninguém que não seja funcionário por aqui. A única coisa que ele fez foi abrir um jazigo, doutor, o de sua família, mas vou fechar tudo! Pode deixar, doutor. Doutor?…”

Inerte, o coração de Melchior já não batia pela falta do sangue que esvaia pelos nariz, olhos e boca dele…

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18 comentários em “O Convite (Frank Bacurau)

  1. Claudia Roberta Angst
    29 de setembro de 2013

    Gostei muito do ritmo e do suspense. Fora os erros de digitação, considero o conto bem escrito, elaborado no sentido de prender a atenção e levar o leitor até o fim para descobrir o que estava de fato ocorrendo.

  2. vitorts
    28 de setembro de 2013

    Gostei bastante deste. Tem lá seus errinhos, mas considerando a questão do prazo, difícil o autor que conseguiu revisar o texto tanto quanto quis. Gostei do rumo da narrativa e da falta de explicações.

    Se bem que, se tratando de Brasil, se um fazendeiro quisesse dar um sumiço em um coveiro, teria conseguido em uns três dias e dois disparos.

    Parabéns pelo texto!

  3. Sandra
    28 de setembro de 2013

    Dei uma ‘amolecida’ no início, mas, aos poucos, a narrativa amarra o leitor: é uma leitura que realmente vale a pena. Gostaria – e muito – de relê-la após os devidos ajustes.

  4. Diogo Bernadelli
    27 de setembro de 2013

    Outro conto que transmite a impressão de duas (quatro) mãos trabalhando.

    Inicialmente eu quis abandonar a leitura, pois não foram poucas as ocasiões em que verifiquei “síncopes” ao longo da redação. Principalmente preposições suprimidas; mas igualmente não tiveram vez palavras maiores e os espaços. A revisão é crucial a fim de conceder maior refinamento e evitar deslizes como “fibração do celular”, além de dar à história a oportunidade de ela própria lhe dizer em quais aspectos amadureceu sozinha, dizer-lhe quais são estes aspectos que devem ser trazidos à superfície. Não empurrei o conto pro lado, uma vez que os comentários me deixaram curioso a propósito do final. E ele, de fato, devolve-nos um impacto terrivelmente positivo a despeito de tudo.

    Por isso retomo o que disse: o autor que ao mesmo tempo se deixava levar por escorregadas bobas também conseguia lançar mão de sacadas ótimas, porque eram duas cabeças trabalhando.

    Ler esta obra foi como enxergar uma paisagem bonita por meio de uma janela encardida.

  5. rubemcabral
    27 de setembro de 2013

    Gostei do conto, como o mistério se mantém até o fim. Fora a já citada revisão, não há do que se reclamar.

  6. feliper.
    24 de setembro de 2013

    História sombria e cheia de nuances espertas. Resultado bacana ao final, mas merece alguma verificações. Clima divertido de caça ao rato entre o detetive e o matador obscuro. Gostei mesmo. Seria uma maldição? Riso

  7. Frank
    23 de setembro de 2013

    Interessante! O final é legal!

  8. Martha Angelo
    23 de setembro de 2013

    Um bom conto, sem dúvida. No começo, achei um pouco cansativo, mas o final compensa.

  9. Emerson Braga
    23 de setembro de 2013

    Os erros de digitação nos dão ainda uma ideia clara da maneira frenética com a qual seu conto foi escrito! Rs! Apesar dos problemas de correção ortográfica, gostei bastante.

  10. Bia Machado
    22 de setembro de 2013

    Muito bom o conto, não achei o ritmo apressado, apesar dos erros de digitação… Ou talvez ele tenha me prendido, que nem percebi isso…

  11. selma
    20 de setembro de 2013

    eu tambem gostei. parecia que ia ser chato mas não foi. a ideia do coveiro deter algum tipo de poder “macabro” prendeu a atenção. parabens!

  12. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    20 de setembro de 2013

    Não é o tipo de conto que costumo ler. Bem, adoro me aventurar por coisas diferentes e foi realmente surpreendente. Algumas partes cansativas, mas um final que me agradou bastante!! Parabéns!

  13. Maria Inês Menezes
    18 de setembro de 2013

    História muito boa! A narrativa nao prende logo de início, mas no decorrer da leitura o suspense aumenta e fica bem mais interessante! Gostei.

  14. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    18 de setembro de 2013

    Esta é uma das melhores histórias do desafio. Talvez a melhor. O terror funciona eficientemente porque NÃO SE INFORMA o que está acontecendo. Não sabemos se o coveiro mata as pessoas de alguma forma sobrenatural, ou se apenas prevê as mortes. Tudo pode ser coincidência ou não. O defeito deste conto é que ele tem assunto demais para um conto, merece ser expandido. Mas considerando a proposta de conto em dez mil caracteres, está muito bom.

    Não achei o ritmo corrido, ao contrário do que outros comentaram. Achei justo, medido. Não me incomodei com os erros de digitação (sou péssimo em perceber erros miúdos quando estou gostando da leitura).

    Na verdade a única coisa que me incomodou nesse texto é justamente o fato de ser “só” um conto.

  15. piscies
    16 de setembro de 2013

    Excelente conto de terror! Ou suspense / terror, que seja. Uma empolgante ideia macabra que deixa o leitor pensando em quem era o maldito coveiro afinal de contas. Muito interessante mesmo!

    Gostei do ritmo corrido, que as vezes se torna necessário devido ao limite de palavras do concurso. Acabou dando um tom de urgência no conto, fazendo o leitor querer saber logo o que estava acontecendo.
    Discordo um pouco do Marcelo Porto que falou que não foi legal a mudança do ponto de vista do conto. Mudanças assim são normais e até acho legais, mas concordo que ela deveria ser feita de forma mais clara.

    Assim como todos falaram, o texto precisa de uma boa revisão para erros de digitação. Também vi alguns erros que são comuns, como, por exemplo, a narrativa começar no pretérito, então ir para o presente e então voltar para o pretérito. Me pego fazendo isso várias vezes durante as minhas revisões.

    Show de bola, ótimo conto!

  16. Gustavo Araujo
    14 de setembro de 2013

    Gostei bastante do conto. Tem uma excelente dose de suspense que se resolve de forma perfeita lá no finalzinho. Muito bom mesmo. O único porém, como o pessoal já observou, foi o excesso de erros de digitação. Uma revisão mais detida teria suprimido a maioria deles.

  17. Fernando Abreu
    13 de setembro de 2013

    Muito boa a história! No começo achei meio cansativo passar por algumas frases mal colocadas e erros de digitação, mas é um conto que realmente prende. O final é muito bom. Com uma revisão e melhor caracterização dos personagens secundários, ficaria redondo! Parabéns!

  18. Marcelo Porto
    12 de setembro de 2013

    Excelente conto. Merece estar entre os melhores.

    Mas a escrita precisa ser burilada, fiquei incomodado com o ponto de vista da narrativa que começa com o Coveiro e logo muda pro Delegado, denotando falta de cuidado ou pressa. Da mesma forma, o texto peca por descrições desnecessárias e também pela forma rasa com que expõe os sentimentos, também denotando afobamento.

    O autor deveria ter deixado o conto “amadurecer” por algum tempo antes de enviar. Tá na cara que faltou uma leitura crítica e o ajuste fino.

    Independente da técnica, a história é muito boa. Parabéns.

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Informação

Publicado às 12 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .