“If from great nature’s or our own abyss
Of thought we could but snatch a certainty,
Perhaps mankind might find the path they miss
But then ‘t would spoil good philosophy.”
“Se do grande abismo da natureza ou do nosso
Próprio pensamento pudéssemos arrebatar uma certeza,
Talvez a humanidade encontrasse o caminho que perde,
Mas então isso estragaria a boa filosofia.”
Lord Byron
I
Por certo, seria prisioneiro daquelas recordações pelo resto da vida. Bastaria um elemento: a textura da areia, o ar saturado vindo do oceano ou, de modo mais pungente, a visão de um barco.
Um barco.
Quando chegaram à praia, o sol se esgueirava por entre as nuvens no horizonte, incerto ainda, como se avaliasse a geografia antes de se derramar. Naquele lado da ilha, a faixa de areia em meia-lua era banhada por um mar acinzentado, que avançava e retrocedia, plácido, a despeito do vento fortuito que lhe açoitava as costas.
Do alto da trilha, perceberam um grupo de aves reunidas à beira d’água. Por certo planejavam uma estratégia de ataque em busca de alimento, já que as chances de sucesso eram maiores nas primeiras horas do dia. Uma delas alçou voo, planando em círculos por alguns momentos até recolher as asas num átimo, mergulhando como uma flecha, ressurgindo triunfante com um peixe no bico.
O homem sentiu quando o menino, em êxtase, soltou sua mão. Os pássaros, imunes à cena, permaneceram em terra em seus caminhares erráticos, longe de qualquer alvoroço. Talvez fosse culpa do frio, daquele frio cortante da manhã.
Tomou a mão do garoto novamente. Era um prolongamento de seu próprio braço. Queria ter certeza de sua presença. Sentia a calosidade da palma, os pequenos dedos dobrados uns sobre os outros. Ele estava ali. De verdade.
O caminho dourado refletido na ondulação fez com que o menino levasse a mão à testa, como uma aba para proteger a vista. Como não se encantar com aquela miragem formada por um milhão de lâmpadas, convidando qualquer um a misturar-se ao mar, a correr milagrosamente sobre a superfície líquida, embriagando-se de luz?
O estrondo das ondas nos rochedos fez com que despertasse do devaneio, a lembrança de que as águas guardam o perigo e o abismo na mesma medida em que espelham o céu.
O homem agachou-se, observando a pequena baía de ponta a ponta. Quantos meses haviam se passado desde sua última visita àquela praia? Seis? Dez? Nos morros circundantes notou árvores despidas de folhas, com troncos esbranquiçados e galhos esqueléticos, como se entoassem em vão uma prece, um cenário pouco familiar. Desanuviou a mente quando avistou o bote a uma centena de metros abaixo, balançando sobre a linha d’água, preso a uma corda. Pelo que se recordava, tinha a deixado sob as árvores ali próximas, em terreno seco. Possivelmente as marés a sequestraram numa noite de ressaca qualquer, lançando-a às águas.
Fez sinal para o menino indicando a direção a seguir e assim puseram-se a caminhar, os pés chapinhando na trilha enlameada. Traziam consigo varas de pesca, feitas de bambu, além de uma pequena caixa com equipamentos e um balde vazio, onde esperavam colocar os peixes.
Normalmente, pescavam em outras praias, mais próximas do farol, usando redes e armadilhas. Dessa vez, decidiram inovar, aventurando-se em um local mais remoto. O menino se entusiasmara com a ideia. Sua vida ainda se limitava às proximidades do farol, não sendo raros os lugares da ilha que ele desconhecia. Normalmente, passava os dias concentrado em estudos, em afazeres de rotina, sem tempo para explorações mais ousadas e muito menos solitárias.
“Chegará o tempo em que você conhecerá o mundo”, o homem disse a ele certa vez. De qualquer modo, jamais o ouvira reclamar. Era como se a resignação estivesse entranhada em sua consciência desde o nascimento. Obedecia. Aguardava. Aprendia. Extraía óleo de plantas e de peixes. Ajudava na horta e na pescaria. Na limpeza das instalações. Talvez soubesse que era essa sua sina. Viver a ilha. Viver o farol. Por isso aquela manhã era tão especial. Era diferente, uma rachadura na rotina que os abrigava.
Observando-o, lembrou-se de quando era ele próprio uma criança. De como acreditava em sereias e nos seres mitológicos que via nos livros antigos do baú, nas ilusões que seriam eventualmente demolidas ao crescer.
“Não seria o máximo se encontrássemos o próprio Netuno hoje?”, perguntou ao menino.
Ele riu. Era bom quando ele sorria.
Seria pedir demais que fossem surpreendidos por algo fantástico naquela manhã?
Ao se aproximarem do bote, pediu ao garoto que aguardasse na areia e, sem cerimônia, irrompeu mar adentro, reprimindo qualquer sinal de desconforto. Alguns passos adiante e a embarcação adquiriu mais nitidez. Era um barco de madeira, desses cujas tábuas de forro se alinham estreitas de um extremo a outro. Certamente pintado de branco quando novo, se assemelhava agora a um esquife de tempos bíblicos, a umidade encardindo suas longarinas.
Inspecionou o interior da embarcação. Não era possível saber há quanto tempo estava boiando a esmo, refém do sal e dos ventos. Tudo parecia em ordem, porém. Notou então os dois remos presos com um arnês no fundo e a poita com sua corda enrolada. Exatamente como havia deixado na última vez. Colocou ali a caixa, o balde e as varas que haviam trazido. Satisfeito, voltou-se para o menino, ainda na areia. Ele o observava com olhos escuros, os braços cruzados à frente. Vestia uma jaqueta grande demais. “Precisamos nos mexer para espantar o frio”, disse o homem, fazendo sinal para que ele se aproximasse. O menino obedeceu, o mar gelado envolvendo seus pés já no primeiro passo, chegando aos joelhos logo em seguida, fazendo-o prender os lábios em reflexo.
O homem ergueu-o pela cintura e colocou-o dentro do bote. Ainda na água, liberou a embarcação, desfazendo os nós que a prendiam. Segurando-a pela popa, deslizou com ela por alguns metros, superando as pequenas ondulações. Em seguida, com um salto ágil, projetou-se para dentro também. Acomodando-se, disse ao garoto para sentar-se no banco à frente, como mestre observador. Por fim, apanhou os remos, contemplando o cenário. O mar, as elevações com as árvores fantasmas e o céu.
Ali deu-se conta, talvez pela claridade que lentamente se impunha, que as nuvens ganhavam volume sobre eles. Um pensamento cruzou sua mente. Talvez fosse melhor voltar, deixar aquela aventura para outro dia, um dia de céu claro, limpo e com pouco vento. Olhou para o menino, sentado de costas à sua frente, mirando no infinito. Não, não seria justo com ele. Podia não ser o clima perfeito, mas era o que tinham. De qualquer forma não sairiam daquela baía. Estariam abrigados.
Ergueu os remos e retalhou com vigor a superfície do mar, o impulso brusco fazendo o garoto agarrar-se às bordas com ambas as mãos.
Afastaram-se um tanto, o suficiente para que a ondulação ganhasse força, o barco subindo e descendo, subindo e descendo enquanto avançava. Depois de algum tempo, o homem suspendeu os remos e sugeriu que talvez aquele fosse um bom local para a pesca. Ante a concordância do garoto, lançou a poita, a corda se desenrolando e mergulhando no mar com ela. Com o menear apaziguado das ondas, apanhou os anzóis na caixa e deu-os ao menino, para que preparasse as linhas. Pescar daquela forma era muito mais interessante do que lançar redes ou usar armadilhas. Podiam conversar ou mesmo dividir o silêncio se os peixes demorassem a responder.
Em certo momento, o sol foi encoberto. Uma série de cumulus havia se formado, como que rebeldes. O mar mexeu-se em desconforto. Num primeiro momento, quis ignorar os sinais, dizendo a si mesmo que não era nada, só um instante de capricho. Ao apurar a vista, porém, notou nuvens carregadas ganhando forma com rapidez.
“Melhor voltarmos”, disse ele. “Guarde o equipamento.”
Enquanto recolhia a poita tentava não pensar no erro. Nesse instante, uma chuva leve começou a cair.
“Rápido”, disse ao menino.
Com o deslocamento do bote, a precipitação ganhou força. Ondas logo se arremessaram contra o casco, derramando-se invasoras em seu interior. A urgência se impôs em pouco tempo. O homem calculou a distância até a praia, a areia visível e invisível alternando-se entre a crista e o cavado das vagas. “Segure firme.” Agora precisava remar, erguendo, girando, cortando e puxando as pás dos remos.
A praia. Logo ali. Ergue, gira, corta, puxa. Concentração. Ergue, gira, corta, puxa. A respiração no mesmo ritmo, os olhos fixos na terra. Subindo e descendo. A chuva ganhando força. Mais ondas. Mais espuma. Mais água dentro do barco. Ergue, gira, corta, puxa. “Segure-se, marujo”, disse ao menino, num arremedo de jovialidade desfeito de imediato pelo mar encolerizado. Tentou convencer-se de que estava tudo sob controle, que já enfrentara situações como aquela. Não parecia avançar, porém. O peito arquejava, a vista ardia. A água, a maldita água arremetendo contra a embarcação. O vento, o gosto de sal. Ergue, gira, corta, puxa. Os braços queimando, as pernas retesadas. Força! Mais força! Ergue… Gira… Corta… A água, as ondas, o barco… O menino se abaixando, recolhendo com o balde a água no fundo do bote, jogando o conteúdo costado acima. E de novo. E de novo. “Não”, disse o homem, os dedos crispados aos remos. “Não adianta. Não adianta”. O menino, porém, não o ouvia, ou o ignorava, repetindo o movimento, o balde trêmulo em suas mãos, derramando o pouco que conseguia juntar, incapaz de vencer. Era ele seu próprio reflexo. “Você vai cair do barco”, disse o homem. “Volte para o seu…” O choque de uma série de ondas, jogando o barco como um brinquedo, fez o balde escapar para o vazio. A cena pareceu arrancar o homem da realidade, oferecendo um vislumbre do inevitável. Iriam morrer. Impossível sobrepujar o mar enfurecido, chegar à praia. “Não, não, não… Segure. Erga, gire, corte, puxe. De novo. De novo.” Ali, o menino, abraçado ao banco transversal, imóvel, os olhos fechados, a jaqueta encharcada. O menino… “Não. Hoje, não.” Ergue, gira, corta, puxa. De novo. De novo. Mais ondas, mais água. O vento. A chuva. O que fazer quando tudo parece ruir? “Meu Deus, a praia.” A praia ao alcance dos olhos! Ergue, gira, puxa… A água como milhões de agulhas ferindo seu rosto, a barba esgarçada, pingando. “Vamos, vamos!” Coração, braços… O menino. O menino se abaixando de novo, as mãos em concha recolhendo a água no fundo… “Não, não…” O estrondo. O pequeno corpo voando sobre a amurada, uma visão irreal, impossível. Chamou por ele, paralisado num átimo. Largando os remos, mergulhou. “Não, não hoje.” Nadou na direção onde o menino afundara, pernas e braços se alternando, os olhos abertos, embotados, tentando divisar uma forma, uma silhueta que fosse, em meio ao chumbo liquefeito. A jaqueta, a jaqueta enorme, encharcada. “Não, não… Onde está? Onde está?” Subiu para tomar fôlego, mergulhando novamente em seguida. “Eu vou te achar. Vou te achar de novo.” Deus, por favor, não me abandone. Uma sombra. Ali. Uma sombra. É ele. É ele.” Com o peito explodindo, coração, nervos e braços e pernas exaustos, nadou naquela direção até alcançá-lo. Era ele. Era ele. Abraçou-o pela cintura e voltou à superfície. Uma tosse. Outra. Lágrimas pelo rosto redondo, os olhos avermelhados. “Desculpa…” O homem o abraçou e sorriu. A chuva amansava agora. Estavam salvos. Salvos.
II
Se fosse possível escolher um momento para fazer-se cativo pela eternidade talvez jamais optasse por outro. Ali sentia-se no centro do universo, abençoado por ter na vida um propósito.
Chamava-se Jonas.
Mesmo acostumado à ilha, não deixava de se arrebatar pela audácia daquele pedaço de terra. Remanescente da fúria de antigos vulcões, teria um dia rasgado aquelas águas revoltas, derramando-se em lava, constituindo-se, milhões de anos depois, em um refúgio sólido e seguro. O único até onde a vista podia alcançar.
Enxergava em seu relevo a imagem de uma cruz. No eixo maior, a extensão não era superior a duas horas de caminhada. No menor, menos de quarenta minutos. No lado sul, a elevação era mínima, com três pequenas baías protegidas por morros e densa vegetação. Em direção ao norte, a terra se elevava num átimo criando um topo amplo e achatado, despido de verde, até precipitar-se rumo ao mar em paredões vertiginosos, como se decepados por um deus irascível.
No exato ponto em que os eixos se encontravam, no centro do platô, fora erguido o farol. Sua torre contava com quarenta e cinco metros de altura. Tinha formato cônico, perfeito para suportar os ventos mais severos. Construído com tijolos e pedras seladas com alcatrão, possuía paredes duplas, conectadas por contrafortes internos. No topo, a câmara da lanterna era protegida por vidros espessos, montados sobre nervuras de ferro, havendo ali ainda um passadiço, circundado por um corrimão de bronze.
Ali, no alto, contemplando a respiração do oceano, carregada de maresia, Jonas se agarrava à balaustrada. Tinha o rosto pinçado por pregas que projetavam ravinas rasas feição abaixo, no mais escondidas por uma barba farta e ainda negra. Vestia uma jaqueta de lã cinza escuro, abotoada sobre uma blusa branca, de gola alta. Nos colarinhos havia um par de estrelas amarelas bordadas. Na cabeça, um quepe escuro, um tanto surrado, com uma âncora vermelha sugerindo um inútil símbolo de autoridade.
O sal. O preço de existir ali se traduzia na necessidade constante de minimizar a contaminação. O sal. Sempre o sal. Corroendo as vigas, penetrando as paredes, contaminando os prismas. Polir, limpar, lubrificar. Polir, limpar, lubrificar. O trinômio a que estava acorrentado.
Chama extinta. Do chão, apanhou uma maleta contendo os equipamentos: chaves de diversos bocais, alicates, pinças, parafusos, tesouras; aventais, óculos, lupas e panos, muitos panos, aliás, feitos de linho, todos imaculados, dobrados com capricho religioso. Apanhou também um balde repleto de um líquido de odor pungente, uma mistura de vinagre e rouge, imprescindível para a tarefa de todas as manhãs.
Entrou enfim na colmeia envidraçada. O alívio pela ausência do vento foi imediato. Diante de si a estrutura imponente, que lembrava um grande barril translúcido com seus dois metros de altura, composto por prismas calculadamente dispostos de cima a baixo. Os benditos prismas que capturavam a luz e impediam que ela se perdesse no céu ou nas profundezas, curvando seus feixes na direção do horizonte.
Esgueirando-se por uma portinhola, penetrou no minúsculo espaço entre as lentes e sentou-se num banco metálico ao lado do bocal. Cercado pelas paredes espelhadas que multiplicavam sua imagem, observou seus próprios movimentos, abrindo a maleta, retirando os panos, ordenando as ferramentas, tudo amplificado em uma coreografia infinita, perfeita. Era o único local de toda a ilha em que se deixava encantar pela miragem de haver ali uma multidão, todos engajados no esforço repetitivo e hipnótico de manter o farol funcionando.
Para isso estava ali. Para que à noite, ou em meio a tempestades, ou em nevoeiros, o farol se erguesse como guardião perpétuo, garantindo que ninguém viesse a se perder, que ninguém viesse a perecer. Garantindo que aqueles que para casa retornassem o fizessem em segurança.
Os prismas se encaixavam em um esqueleto de latão. Apurando a vista, examinou as frestas, o vão diminuto em que a fuligem e o sal se acumulavam criando uma crosta venenosa que, no limite, poderia fraturar as lentes, comprometendo ou até mesmo inutilizando suas propriedades reflexivas. Mergulhou um dos panos no composto líquido e pôs-se a esfregá-las em movimentos circulares, com intensidade calculada, admirando a alcalinidade dissolvendo a fuligem, ressuscitando a transparência plena dos prismas que, ao fim, permitiriam à luz romper o vazio, propagando-se mar afora.
“Para que ninguém navegue só”, murmurou, deixando a mente derivar.
Dia a dia, não apenas o farol demandava sua atenção. Também sua própria sobrevivência se sujeitava ao cumprimento de tarefas recorrentes e sistemáticas. Plantar, colher, cuidar das ovelhas, das galinhas, das cisternas, dos reservatórios. Para que se fizesse a luz, também ele precisava estar bem. Só assim ninguém seria arrastado para os rochedos, tragado para o fundo do oceano.
Não que fosse imune a erros, a enganos, a exaustão. Vezes houve em que sucumbira às tempestades, internas e externas. Em que cedera ao cansaço, dormindo além do permitido, entregando-se a um sono longo e sedutor para depois despertar coberto de vergonha e arrependimento. Não gostava de pensar nisso, nas vezes em que, esgotado, deixara de recolher as cordas, de regular o nível do mercúrio. Porque talvez aí tivesse afetado o funcionamento da lâmpada, condenando ao mar quem nele lutasse para se manter vivo.
Deveria ter resistido.
Estava acostumado a esses devaneios, mas era difícil, senão impossível, erguer uma barreira para contê-los. Faziam parte de sua rotina. Tentava sufocá-los com um cobertor de racionalidade, dizendo a si mesmo que tudo, absolutamente tudo naquela coluna de luz, possuía um sistema de acionamento emergencial, que mesmo nos casos mais extremos haveria luz. Que mesmo funcionando de modo imperfeito, mesmo que com um brilho débil, no fim, o farol cumpriria seu propósito, dizendo, a qualquer dos infelizes no mar: tenha fé.
“Por que a demora então, meu Deus? Quanto tempo, filho, quanto tempo?”
Ao finalizar o polimento percebeu que o sol já ameaçava ceder ao próprio peso. Precisava ainda preparar o sistema de rotação. Descendo ao nível inferior à lâmpada, notou o tambor de latão, onde as cordas de cânhamo deveriam ser enroladas. Sem pensar, agarrou as alças e fincou os pés no chão. Sucessivamente, braço esquerdo e braço direito se alternaram puxando e puxando, minutos sem fim, recolhendo as tramas que sustentavam dois blocos de ferro maciço. Seu peso acionaria engrenagens que permitiriam a lente girar suavemente sobre o mercúrio, levando a luz a varrer o oceano em pulsos regulares.
As primeiras estrelas se anunciavam, ainda que um tanto encabuladas, quando ele deu o trabalho por terminado, os músculos latejando. Talvez estivesse um tanto velho para tudo isso, pensou, mas não havia alternativa. Voltando à colmeia, com a ajuda de fósforos, fez arder a chama.
“Propague a luz. Propague a luz.”
Passando por uma pequena rampa, chegou à escada de ferro que se espiralava até a base do farol, junto à parede interna. Tinha o costume de descer lentamente, acompanhando o ocaso pelas janelas, já que ofereciam um vislumbre do exterior de diferentes posições. Não raro, detinha-se por completo, as mãos apoiadas nos batentes, mirando pelos vidros até a vista borrar-se na linha em que o mar e o céu se tocavam, deixando-se consumir por um segundo pela esperança de testemunhar algo incomum.
Esperar e esperar. Mais do que o ofício, a expectativa era um traço comum a todos os seus.
Aprendera com seu pai, que por sua vez aprendera com seu avô, que antes aprendera com seus ancestrais, de geração em geração rumo ao passado, até onde era possível conceber. Filhos dos filhos dos filhos haviam sido ensinados a proteger aquele farol, consertando seus mecanismos, lançando cabos, derrubando e reconstruindo paredes com pedras e piche, erguendo degraus circulares e polindo lentes, encaixando e ajustando espelhos, ora benditos, ora ilusórios, como aranhas enclausuradas.
Tudo para que ninguém navegasse só, para que fosse possível encontrar o caminho para o continente. Para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. Fosse num mundo como aquele, fosse num mundo despedaçado.
III
Em terra, chegando à pequena habitação de alvenaria onde teimava em existir, girou a maçaneta de uma porta lateral. Num instante, julgou ouvir algo atrás de si, uma voz que sussurrava “Jonas”, seguido de “estou aqui”. Acostumara-se a ela, a seu fantasma, em verdade o vento que assobiava por entre as rochas na maré baixa.
Desprezando o chamado, entrou enfim, os passos lentos e calculados. Apanhou a lamparina sobre uma mesa fazendo nascer uma pequenina labareda, suficiente para matizar de âmbar paredes descascadas e manchadas pela umidade onipresente. No lado esquerdo havia uma pia de metal, montada sobre um armário de madeira. Nela se via também, em um escorredor de louça, um prato fundo e uma caneca de ferro. À direita, um fogão à lenha repousava junto a uma parede com azulejos à meia altura. Sobre a chapa, uma panela com restante da sopa de legumes feita na noite anterior.
Apanhou dois pedaços de lenha no cesto adjacente, abriu a portinhola do fogão e encaixou-os no compartimento em meio às cinzas. Em seguida, com o auxílio de um jornal velho, acendeu o fogo. Esfregou as mãos com sabão ali mesmo, na pia, a água gelada vertendo em um filete, na esperança de que o cheiro da mistura de polimento cedesse um pouco. Apesar do esforço, um odor vago, recendendo a éter, parecia impregnado no ar. Jonas cheirou as roupas e os dedos, sem contudo identificar de onde vinha.
Com a lamparina em mãos, dirigiu-se a uma saleta onde um rádio telégrafo descansava indiferente. Um tanto antigo, ainda que operacional, mantinha-se refém da frequência 2182 kHz desde que Jonas podia se lembrar. Girando um dos botões, ligou-o, posicionando os fones na cabeça. Informou seu prefixo, indagando se haveria alguém na escuta. “CQ-CQ” Seek You. Seek You. Sem resposta, porém.
Oposto ao telégrafo havia um grande armário de madeira, de portas envidraçadas, frágil demais para um ambiente como aquele. Abrindo-o com cuidado, deixou os olhos correrem pelas prateleiras. No topo viam-se cartas náuticas antigas, enroladas e presas com barbantes, além de instrumentos de navegação cobertos de poeira. Abaixo, tomando todo o espaço restante, três centenas de livros apoiavam-se uns nos outros, suas lombadas enegrecidas exibindo números sequenciais. Tratava-se de diários com registros sobre o farol, sobre a estrutura e os equipamentos, sobre os procedimentos de manutenção, sobre as condições meteorológicas, sobre o volume das chuvas, sobre os horários do alvorecer e do crepúsculo, sobre o estado da horta, dos animais, das cisternas. Ano a ano. Somados, esses apontamentos contavam a história da casa de luz, de suas fundações, de seu passadiço, de seus componentes mecânicos, de seus cabos, de seus tubos, de suas alavancas e de suas manivelas. De seus vidros, de suas lentes. Do óleo, do mercúrio, dos componentes elétricos, da água, dos animais.
Jonas apanhou o exemplar mais recente, além de material de escrita, voltando em seguida à cozinha. Notou que a sopa já borbulhava no fogão, desprendendo um odor adocicado de batatas cozidas. Com o diário sob o braço, moveu a panela para o lado mais frio da chapa, apanhando depois um bule com água e um par de trouxas de chá, avaliando o local exato em que poderia deixá-lo para que não esquentasse demais.
Por fim, sentou-se à mesa, a sombra alongada eclipsando parcialmente as paredes. Abriu o livro, segurando o lápis entre os dedos rachados. Passando as costas da mão na borda interna, firmou a página. A empunhadura, trêmula até então, ganhou firmeza quando o grafite feriu o papel, transformando seu rastro em letras, palavras, números e parágrafos. Como em todas as noites. Como tantos e tantos antes dele. Anotar tudo, escrever tudo, para que um dia outros absorvessem essas informações e depois as esquecessem.
Enquanto escrevia, pensava naqueles que um dia haviam se sentado àquela mesa, registrando tudo o que se devia registrar. Desenhando tudo o que se devia desenhar. Calculando tudo o que se devia calcular. Desde o início. Imaginava aqueles que haviam chegado à ilha quando nada existia e decidiram erguer ali um farol. Aqueles que os substituíram, aqueles que vieram depois. Aqueles que puseram o farol abaixo e depois o reconstruíram. Uma, duas, três vezes. Gente tão antiga que suas existências remetiam a fábulas distantes.
Em sua mente se assemelhavam a heróis, talvez pela distância no tempo, talvez porque tivessem vivido o extraordinário, padecido de devastação, de doenças, superando furacões, intempéries, frio e calor. Talvez porque tivessem ousado existir naquele ambiente incompreensível, atravessados pela hostilidade e pelo desprezo dos elementos. Talvez porque se fragmentaram em suas próprias desilusões, encontrando ainda assim um motivo para perseverar juntos. Talvez por terem protagonizado os mesmos capítulos de vida, deixando de lado diferenças, desejos e receios em nome de algo maior do que eles próprios. Talvez porque encontraram a saída de seus labirintos morais, superando os golpes do destino, a morte inesperada de um pai, a queda fatal de um irmão que substituía os cabos dos contrapesos, o desaparecimento de uma mãe que se atirara de propósito no mar, vítima de melancolia.
Era o que imaginava, já que os registros não ultrapassavam a mera burocracia. Era das reticências ali deixadas que Jonas criava deles o passado, extraindo resignação para prosseguir, para sentir-se à altura do legado. Para esperar.
O farol nada mais era do que um universo singular, eterno, imutável.
Quando terminou, voltou ao armário envidraçado e depositou o diário de volta em seu espaço. Em seguida, de um móvel baixo apanhou uma revista antiga cujas reportagens ele conhecia de cor. Retornando à cozinha notou a panela de sopa sobre o fogão. Tinha esquecido de comer. Tudo bem, não estava com fome. No dia seguinte apanharia um arenque salgado de um dos barris. Claro. Um arenque. Lembrou-se então que nas primeiras horas da manhã, antes mesmo de extinguir a chama, deveria entregar-se à ordenha semanal, além de conferir a horta. Respirou fundo. “Amanhã… Amanhã.” Por ora, poderia sentar-se na cadeira de balanço, na varanda, e descansar.
À luz amarelada da lamparina, com uma caneca de chá em mãos, contemplou o céu sem lua, prenhe de estrelas, uma vista incomum para aquela época do ano. O ar frio encheu-lhe o peito enquanto a intermitência do farol revelava em pulsos a cruz da capela trilha abaixo.
Tentou ler, mas as pálpebras se recusavam a manter-se abertas. Vencido, dobrou a revista sobre o colo e fechou os olhos, deixando-se embalar pelo chiado do mar que se insinuava desde as praias.
Sem que pudesse precisar o tempo, despertou com um sussurro.
“Boa noite, meu pai”, disse Tarsis, os olhos grandes como os da mãe se destacando no rosto magro. Vestia uma jaqueta de lã azul e calças de cor cinza. Nas mãos, luvas encardidas e sem dedos traduziam um dia de trabalho intenso. Na cabeça, um gorro verde escuro.
“Boa noite, meu filho”, Jonas respondeu, ainda desorientado, a cadeira rangendo levemente. “Como foi hoje?”
“Nada muito especial…”, respondeu Tarsis, encostando-se na viga principal da varanda, tirando as luvas, com uma expressão ensaiada de enfado. “Meia dúzia de cavalinhas, góbios…”
“Não foi mal”, disse Jonas, percebendo o caixote com os peixes aos pés do rapaz.
“Ah, mas eu trouxe algo que o senhor vai gostar…”, disse Tarsis, um sorriso iluminando o rosto.
“O que é?”
“Arenque, pai”, disse abaixando-se, remexendo os peixes. “Finalmente consegui.”
“Um arenque…”, repetiu Jonas. “Ah, menino, você quase me enganou com esse ar de decepção.”
“Amanhã teremos um almoço diferenciado!”
“Mal posso esperar.”
“Vou guardá-los agora”, disse Tarsis, pondo-se em pé. “Volto já.”
“Arenque…”, murmurou Jonas enquanto o menino se afastava, desaparecendo por trás do pequeno galpão que servia como depósito.
Fechou os olhos novamente, despertando quando o filho voltou, sentando-se ao seu lado em um banco de madeira.
“O dia foi longo, não?”, perguntou Jonas.
“Ainda tenho que limpar o bote”, respondeu Tarsis.
“Você precisa comer, meu filho. Tem sopa na panela.”
“Não tenho fome.”
Analisou-o por um instante. Estava de perfil, mirando um ponto invisível no céu. Sua barba era rala e o bigode, esfiapado, tentava se firmar. Os cabelos bastos e rebeldes se estendiam pelos ombros. O nariz proeminente, de fartas aberturas, lhe conferia um ar de invencibilidade. Parecia muito mais velho do que os dezoito anos que tinha.
“Pretende partir quando?”, perguntou Jonas, embora já soubesse a resposta.
“Em dois ou três dias”, respondeu o rapaz. “Tão logo eu dê um jeito no casco.”
“Aquele casco já foi bom.”
“Ainda dá conta do recado. Só preciso tirar o limo e os mexilhões.”
Deixaram que as palavras decantassem. Num instante, tudo o que ouviram foi o rebentar das ondas, intensificado pela subida da maré.
“Eu bem me lembro bem quando foi comigo, quando saí…”, disse Jonas, rompendo a quietude.
“É algo que todos temos que fazer, não é?”
“Sim… Todos nós.”
“Pai?”
“Sim, filho.”
“O senhor ficou com saudades?”
“Você diz, quando eu parti?”
“Sim, quando o senhor partiu. Teve saudades da ilha, do farol?”
“Se tive saudades… Acho que saudades não é a palavra certa. Foi mais apreensão, não sei… Angústia, talvez… Não conhecia nada… Mas sabia que iria voltar e isso me confortava.”
“E como o senhor sabia?”
“Eu… Simplesmente sabia… É a nossa sina. Voltar. Render quem nos espera.”
“Mas o senhor não ficou tentado a permanecer lá?”
“Lá…?”
“No continente, pai. Não ficou com vontade de ficar lá para sempre? Não voltar?”
Jonas calou-se por um momento, revolvendo memórias insondáveis. Depois de algum tempo disse:
“Claro que pensei, filho. Claro que pensei. Ainda penso… Como teria sido a vida se eu tivesse permanecido no continente?”
“E mesmo assim o senhor voltou.”
“Sim, voltei. Não dá para pensar no que poderia ter sido. A vida simplesmente é o que é… Mas no fundo eu tinha certeza do que devia fazer. Tinha certeza do meu propósito. Do meu dever.”
“Dever…”, repetiu Tarsis.
“Meu pai sabia o que eu estava passando”, disse Jonas. “Assim como eu sei o que se passa agora com você. Mas confie em mim. No momento certo você vai voltar. E eu estarei aqui, esperando.”
“Como dizia mesmo meu avô? Case-se, estude…?”
“Ah, sim, era algo glorioso: estude, case-se, tenha filhos. E depois retorne. Encha de vida este farol…”
“Ah, sim, é verdade. Voltar e encher de vida.”
“Voltar e encher de vida… O mais curioso é que não foi seu avô que disso isso, não… Na verdade, foi alguém muito antes, muito mais antigo, muito mais velho que ele, de outras gerações…”
“Eu não vou demorar, pai. Prometo.”
O vento assobiou, esgueirando-se por entre as pedras, preenchendo os minutos em que nenhum deles falou.
“Onde está a revista?”, perguntou Jonas. “Ah, aqui…”
“Quer que leia, pai?”
“Claro, filho. É o que mais quero.”
Tarsis clareou a garganta e então pôs-se a ler, a voz se perdendo num eco de infinitude enquanto o pai cerrava os olhos uma vez mais, murmurando as mesmas palavras lidas em repetição.
A luz intermitente desvelando a cruz da capela em intervalos regulares. Os contrapesos cedendo à gravidade na torre. O céu estrelado girando em espirais. O vento. O sal. Os sussurros.
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