“If from great nature’s or our own abyss
Of thought we could but snatch a certainty,
Perhaps mankind might find the path they miss
But then ‘t would spoil good philosophy.”
“Se do grande abismo da natureza ou do nosso
Próprio pensamento pudéssemos arrebatar uma certeza,
Talvez a humanidade encontrasse o caminho que perde,
Mas então isso estragaria a boa filosofia.”
Lord Byron
I
Por certo, seria prisioneiro daquelas recordações pelo resto da vida. Bastaria um elemento: a textura da areia, o ar saturado vindo do oceano ou, de modo mais pungente, a visão de um barco.
Um barco.
Quando chegaram à praia, o sol se esgueirava por entre as nuvens no horizonte, incerto ainda, como se avaliasse a geografia antes de se derramar. Naquele lado da ilha, a faixa de areia em meia-lua era banhada por um mar acinzentado, que avançava e retrocedia, plácido, a despeito do vento fortuito que lhe açoitava as costas.
Do alto da trilha, perceberam um grupo de aves reunidas à beira d’água. Por certo planejavam uma estratégia de ataque em busca de alimento, já que as chances de sucesso eram maiores nas primeiras horas do dia. Uma delas alçou voo, planando em círculos por alguns momentos até recolher as asas num átimo, mergulhando como uma flecha, ressurgindo triunfante com um peixe no bico.
O homem sentiu quando o menino, em êxtase, soltou sua mão. Os pássaros, imunes à cena, permaneceram em terra em seus caminhares erráticos, longe de qualquer alvoroço. Talvez fosse culpa do frio, daquele frio cortante da manhã.
Tomou a mão do garoto novamente. Era um prolongamento de seu próprio braço. Queria ter certeza de sua presença. Sentia a calosidade da palma, os pequenos dedos dobrados uns sobre os outros. Ele estava ali. De verdade.
O caminho dourado refletido na ondulação fez com que o menino levasse a mão à testa, como uma aba para proteger a vista. Como não se encantar com aquela miragem formada por um milhão de lâmpadas, convidando qualquer um a misturar-se ao mar, a correr milagrosamente sobre a superfície líquida, embriagando-se de luz?
O estrondo das ondas nos rochedos fez com que despertasse do devaneio, a lembrança de que as águas guardam o perigo e o abismo na mesma medida em que espelham o céu.
O homem agachou-se, observando a pequena baía de ponta a ponta. Quantos meses haviam se passado desde sua última visita àquela praia? Seis? Dez? Nos morros circundantes notou árvores despidas de folhas, com troncos esbranquiçados e galhos esqueléticos, como se entoassem em vão uma prece, um cenário pouco familiar. Desanuviou a mente quando avistou o bote a uma centena de metros abaixo, balançando sobre a linha d’água, preso a uma corda. Pelo que se recordava, tinha a deixado sob as árvores ali próximas, em terreno seco. Possivelmente as marés a sequestraram numa noite de ressaca qualquer, lançando-a às águas.
Fez sinal para o menino indicando a direção a seguir e assim puseram-se a caminhar, os pés chapinhando na trilha enlameada. Traziam consigo varas de pesca, feitas de bambu, além de uma pequena caixa com equipamentos e um balde vazio, onde esperavam colocar os peixes.
Normalmente, pescavam em outras praias, mais próximas do farol, usando redes e armadilhas. Dessa vez, decidiram inovar, aventurando-se em um local mais remoto. O menino se entusiasmara com a ideia. Sua vida ainda se limitava às proximidades do farol, não sendo raros os lugares da ilha que ele desconhecia. Normalmente, passava os dias concentrado em estudos, em afazeres de rotina, sem tempo para explorações mais ousadas e muito menos solitárias.
“Chegará o tempo em que você conhecerá o mundo”, o homem disse a ele certa vez. De qualquer modo, jamais o ouvira reclamar. Era como se a resignação estivesse entranhada em sua consciência desde o nascimento. Obedecia. Aguardava. Aprendia. Extraía óleo de plantas e de peixes. Ajudava na horta e na pescaria. Na limpeza das instalações. Talvez soubesse que era essa sua sina. Viver a ilha. Viver o farol. Por isso aquela manhã era tão especial. Era diferente, uma rachadura na rotina que os abrigava.
Observando-o, lembrou-se de quando era ele próprio uma criança. De como acreditava em sereias e nos seres mitológicos que via nos livros antigos do baú, nas ilusões que seriam eventualmente demolidas ao crescer.
“Não seria o máximo se encontrássemos o próprio Netuno hoje?”, perguntou ao menino.
Ele riu. Era bom quando ele sorria.
Seria pedir demais que fossem surpreendidos por algo fantástico naquela manhã?
Ao se aproximarem do bote, pediu ao garoto que aguardasse na areia e, sem cerimônia, irrompeu mar adentro, reprimindo qualquer sinal de desconforto. Alguns passos adiante e a embarcação adquiriu mais nitidez. Era um barco de madeira, desses cujas tábuas de forro se alinham estreitas de um extremo a outro. Certamente pintado de branco quando novo, se assemelhava agora a um esquife de tempos bíblicos, a umidade encardindo suas longarinas.
Inspecionou o interior da embarcação. Não era possível saber há quanto tempo estava boiando a esmo, refém do sal e dos ventos. Tudo parecia em ordem, porém. Notou então os dois remos presos com um arnês no fundo e a poita com sua corda enrolada. Exatamente como havia deixado na última vez. Colocou ali a caixa, o balde e as varas que haviam trazido. Satisfeito, voltou-se para o menino, ainda na areia. Ele o observava com olhos escuros, os braços cruzados à frente. Vestia uma jaqueta grande demais. “Precisamos nos mexer para espantar o frio”, disse o homem, fazendo sinal para que ele se aproximasse. O menino obedeceu, o mar gelado envolvendo seus pés já no primeiro passo, chegando aos joelhos logo em seguida, fazendo-o prender os lábios em reflexo.
O homem ergueu-o pela cintura e colocou-o dentro do bote. Ainda na água, liberou a embarcação, desfazendo os nós que a prendiam. Segurando-a pela popa, deslizou com ela por alguns metros, superando as pequenas ondulações. Em seguida, com um salto ágil, projetou-se para dentro também. Acomodando-se, disse ao garoto para sentar-se no banco à frente, como mestre observador. Por fim, apanhou os remos, contemplando o cenário. O mar, as elevações com as árvores fantasmas e o céu.
Ali deu-se conta, talvez pela claridade que lentamente se impunha, que as nuvens ganhavam volume sobre eles. Um pensamento cruzou sua mente. Talvez fosse melhor voltar, deixar aquela aventura para outro dia, um dia de céu claro, limpo e com pouco vento. Olhou para o menino, sentado de costas à sua frente, mirando no infinito. Não, não seria justo com ele. Podia não ser o clima perfeito, mas era o que tinham. De qualquer forma não sairiam daquela baía. Estariam abrigados.
Ergueu os remos e retalhou com vigor a superfície do mar, o impulso brusco fazendo o garoto agarrar-se às bordas com ambas as mãos.
Afastaram-se um tanto, o suficiente para que a ondulação ganhasse força, o barco subindo e descendo, subindo e descendo enquanto avançava. Depois de algum tempo, o homem suspendeu os remos e sugeriu que talvez aquele fosse um bom local para a pesca. Ante a concordância do garoto, lançou a poita, a corda se desenrolando e mergulhando no mar com ela. Com o menear apaziguado das ondas, apanhou os anzóis na caixa e deu-os ao menino, para que preparasse as linhas. Pescar daquela forma era muito mais interessante do que lançar redes ou usar armadilhas. Podiam conversar ou mesmo dividir o silêncio se os peixes demorassem a responder.
Em certo momento, o sol foi encoberto. Uma série de cumulus havia se formado, como que rebeldes. O mar mexeu-se em desconforto. Num primeiro momento, quis ignorar os sinais, dizendo a si mesmo que não era nada, só um instante de capricho. Ao apurar a vista, porém, notou nuvens carregadas ganhando forma com rapidez.
“Melhor voltarmos”, disse ele. “Guarde o equipamento.”
Enquanto recolhia a poita tentava não pensar no erro. Nesse instante, uma chuva leve começou a cair.
“Rápido”, disse ao menino.
Com o deslocamento do bote, a precipitação ganhou força. Ondas logo se arremessaram contra o casco, derramando-se invasoras em seu interior. A urgência se impôs em pouco tempo. O homem calculou a distância até a praia, a areia visível e invisível alternando-se entre a crista e o cavado das vagas. “Segure firme.” Agora precisava remar, erguendo, girando, cortando e puxando as pás dos remos.
A praia. Logo ali. Ergue, gira, corta, puxa. Concentração. Ergue, gira, corta, puxa. A respiração no mesmo ritmo, os olhos fixos na terra. Subindo e descendo. A chuva ganhando força. Mais ondas. Mais espuma. Mais água dentro do barco. Ergue, gira, corta, puxa. “Segure-se, marujo”, disse ao menino, num arremedo de jovialidade desfeito de imediato pelo mar encolerizado. Tentou convencer-se de que estava tudo sob controle, que já enfrentara situações como aquela. Não parecia avançar, porém. O peito arquejava, a vista ardia. A água, a maldita água arremetendo contra a embarcação. O vento, o gosto de sal. Ergue, gira, corta, puxa. Os braços queimando, as pernas retesadas. Força! Mais força! Ergue… Gira… Corta… A água, as ondas, o barco… O menino se abaixando, recolhendo com o balde a água no fundo do bote, jogando o conteúdo costado acima. E de novo. E de novo. “Não”, disse o homem, os dedos crispados aos remos. “Não adianta. Não adianta”. O menino, porém, não o ouvia, ou o ignorava, repetindo o movimento, o balde trêmulo em suas mãos, derramando o pouco que conseguia juntar, incapaz de vencer. Era ele seu próprio reflexo. “Você vai cair do barco”, disse o homem. “Volte para o seu…” O choque de uma série de ondas, jogando o barco como um brinquedo, fez o balde escapar para o vazio. A cena pareceu arrancar o homem da realidade, oferecendo um vislumbre do inevitável. Iriam morrer. Impossível sobrepujar o mar enfurecido, chegar à praia. “Não, não, não… Segure. Erga, gire, corte, puxe. De novo. De novo.” Ali, o menino, abraçado ao banco transversal, imóvel, os olhos fechados, a jaqueta encharcada. O menino… “Não. Hoje, não.” Ergue, gira, corta, puxa. De novo. De novo. Mais ondas, mais água. O vento. A chuva. O que fazer quando tudo parece ruir? “Meu Deus, a praia.” A praia ao alcance dos olhos! Ergue, gira, puxa… A água como milhões de agulhas ferindo seu rosto, a barba esgarçada, pingando. “Vamos, vamos!” Coração, braços… O menino. O menino se abaixando de novo, as mãos em concha recolhendo a água no fundo… “Não, não…” O estrondo. O pequeno corpo voando sobre a amurada, uma visão irreal, impossível. Chamou por ele, paralisado num átimo. Largando os remos, mergulhou. “Não, não hoje.” Nadou na direção onde o menino afundara, pernas e braços se alternando, os olhos abertos, embotados, tentando divisar uma forma, uma silhueta que fosse, em meio ao chumbo liquefeito. A jaqueta, a jaqueta enorme, encharcada. “Não, não… Onde está? Onde está?” Subiu para tomar fôlego, mergulhando novamente em seguida. “Eu vou te achar. Vou te achar de novo.” Deus, por favor, não me abandone. Uma sombra. Ali. Uma sombra. É ele. É ele.” Com o peito explodindo, coração, nervos e braços e pernas exaustos, nadou naquela direção até alcançá-lo. Era ele. Era ele. Abraçou-o pela cintura e voltou à superfície. Uma tosse. Outra. Lágrimas pelo rosto redondo, os olhos avermelhados. “Desculpa…” O homem o abraçou e sorriu. A chuva amansava agora. Estavam salvos. Salvos.
II
Se fosse possível escolher um momento para fazer-se cativo pela eternidade talvez jamais optasse por outro. Ali sentia-se no centro do universo, abençoado por ter na vida um propósito.
Chamava-se Jonas.
Mesmo acostumado à ilha, não deixava de se arrebatar pela audácia daquele pedaço de terra. Remanescente da fúria de antigos vulcões, teria um dia rasgado aquelas águas revoltas, derramando-se em lava, constituindo-se, milhões de anos depois, em um refúgio sólido e seguro. O único até onde a vista podia alcançar.
Enxergava em seu relevo a imagem de uma cruz. No eixo maior, a extensão não era superior a duas horas de caminhada. No menor, menos de quarenta minutos. No lado sul, a elevação era mínima, com três pequenas baías protegidas por morros e densa vegetação. Em direção ao norte, a terra se elevava num átimo criando um topo amplo e achatado, despido de verde, até precipitar-se rumo ao mar em paredões vertiginosos, como se decepados por um deus irascível.
No exato ponto em que os eixos se encontravam, no centro do platô, fora erguido o farol. Sua torre contava com quarenta e cinco metros de altura. Tinha formato cônico, perfeito para suportar os ventos mais severos. Construído com tijolos e pedras seladas com alcatrão, possuía paredes duplas, conectadas por contrafortes internos. No topo, a câmara da lanterna era protegida por vidros espessos, montados sobre nervuras de ferro, havendo ali ainda um passadiço, circundado por um corrimão de bronze.
Ali, no alto, contemplando a respiração do oceano, carregada de maresia, Jonas se agarrava à balaustrada. Tinha o rosto pinçado por pregas que projetavam ravinas rasas feição abaixo, no mais escondidas por uma barba farta e ainda negra. Vestia uma jaqueta de lã cinza escuro, abotoada sobre uma blusa branca, de gola alta. Nos colarinhos havia um par de estrelas amarelas bordadas. Na cabeça, um quepe escuro, um tanto surrado, com uma âncora vermelha sugerindo um inútil símbolo de autoridade.
O sal. O preço de existir ali se traduzia na necessidade constante de minimizar a contaminação. O sal. Sempre o sal. Corroendo as vigas, penetrando as paredes, contaminando os prismas. Polir, limpar, lubrificar. Polir, limpar, lubrificar. O trinômio a que estava acorrentado.
Chama extinta. Do chão, apanhou uma maleta contendo os equipamentos: chaves de diversos bocais, alicates, pinças, parafusos, tesouras; aventais, óculos, lupas e panos, muitos panos, aliás, feitos de linho, todos imaculados, dobrados com capricho religioso. Apanhou também um balde repleto de um líquido de odor pungente, uma mistura de vinagre e rouge, imprescindível para a tarefa de todas as manhãs.
Entrou enfim na colmeia envidraçada. O alívio pela ausência do vento foi imediato. Diante de si a estrutura imponente, que lembrava um grande barril translúcido com seus dois metros de altura, composto por prismas calculadamente dispostos de cima a baixo. Os benditos prismas que capturavam a luz e impediam que ela se perdesse no céu ou nas profundezas, curvando seus feixes na direção do horizonte.
Esgueirando-se por uma portinhola, penetrou no minúsculo espaço entre as lentes e sentou-se num banco metálico ao lado do bocal. Cercado pelas paredes espelhadas que multiplicavam sua imagem, observou seus próprios movimentos, abrindo a maleta, retirando os panos, ordenando as ferramentas, tudo amplificado em uma coreografia infinita, perfeita. Era o único local de toda a ilha em que se deixava encantar pela miragem de haver ali uma multidão, todos engajados no esforço repetitivo e hipnótico de manter o farol funcionando.
Para isso estava ali. Para que à noite, ou em meio a tempestades, ou em nevoeiros, o farol se erguesse como guardião perpétuo, garantindo que ninguém viesse a se perder, que ninguém viesse a perecer. Garantindo que aqueles que para casa retornassem o fizessem em segurança.
Os prismas se encaixavam em um esqueleto de latão. Apurando a vista, examinou as frestas, o vão diminuto em que a fuligem e o sal se acumulavam criando uma crosta venenosa que, no limite, poderia fraturar as lentes, comprometendo ou até mesmo inutilizando suas propriedades reflexivas. Mergulhou um dos panos no composto líquido e pôs-se a esfregá-las em movimentos circulares, com intensidade calculada, admirando a alcalinidade dissolvendo a fuligem, ressuscitando a transparência plena dos prismas que, ao fim, permitiriam à luz romper o vazio, propagando-se mar afora.
“Para que ninguém navegue só”, murmurou, deixando a mente derivar.
Dia a dia, não apenas o farol demandava sua atenção. Também sua própria sobrevivência se sujeitava ao cumprimento de tarefas recorrentes e sistemáticas. Plantar, colher, cuidar das ovelhas, das galinhas, das cisternas, dos reservatórios. Para que se fizesse a luz, também ele precisava estar bem. Só assim ninguém seria arrastado para os rochedos, tragado para o fundo do oceano.
Não que fosse imune a erros, a enganos, a exaustão. Vezes houve em que sucumbira às tempestades, internas e externas. Em que cedera ao cansaço, dormindo além do permitido, entregando-se a um sono longo e sedutor para depois despertar coberto de vergonha e arrependimento. Não gostava de pensar nisso, nas vezes em que, esgotado, deixara de recolher as cordas, de regular o nível do mercúrio. Porque talvez aí tivesse afetado o funcionamento da lâmpada, condenando ao mar quem nele lutasse para se manter vivo.
Deveria ter resistido.
Estava acostumado a esses devaneios, mas era difícil, senão impossível, erguer uma barreira para contê-los. Faziam parte de sua rotina. Tentava sufocá-los com um cobertor de racionalidade, dizendo a si mesmo que tudo, absolutamente tudo naquela coluna de luz, possuía um sistema de acionamento emergencial, que mesmo nos casos mais extremos haveria luz. Que mesmo funcionando de modo imperfeito, mesmo que com um brilho débil, no fim, o farol cumpriria seu propósito, dizendo, a qualquer dos infelizes no mar: tenha fé.
“Por que a demora então, meu Deus? Quanto tempo, filho, quanto tempo?”
Ao finalizar o polimento percebeu que o sol já ameaçava ceder ao próprio peso. Precisava ainda preparar o sistema de rotação. Descendo ao nível inferior à lâmpada, notou o tambor de latão, onde as cordas de cânhamo deveriam ser enroladas. Sem pensar, agarrou as alças e fincou os pés no chão. Sucessivamente, braço esquerdo e braço direito se alternaram puxando e puxando, minutos sem fim, recolhendo as tramas que sustentavam dois blocos de ferro maciço. Seu peso acionaria engrenagens que permitiriam a lente girar suavemente sobre o mercúrio, levando a luz a varrer o oceano em pulsos regulares.
As primeiras estrelas se anunciavam, ainda que um tanto encabuladas, quando ele deu o trabalho por terminado, os músculos latejando. Talvez estivesse um tanto velho para tudo isso, pensou, mas não havia alternativa. Voltando à colmeia, com a ajuda de fósforos, fez arder a chama.
“Propague a luz. Propague a luz.”
Passando por uma pequena rampa, chegou à escada de ferro que se espiralava até a base do farol, junto à parede interna. Tinha o costume de descer lentamente, acompanhando o ocaso pelas janelas, já que ofereciam um vislumbre do exterior de diferentes posições. Não raro, detinha-se por completo, as mãos apoiadas nos batentes, mirando pelos vidros até a vista borrar-se na linha em que o mar e o céu se tocavam, deixando-se consumir por um segundo pela esperança de testemunhar algo incomum.
Esperar e esperar. Mais do que o ofício, a expectativa era um traço comum a todos os seus.
Aprendera com seu pai, que por sua vez aprendera com seu avô, que antes aprendera com seus ancestrais, de geração em geração rumo ao passado, até onde era possível conceber. Filhos dos filhos dos filhos haviam sido ensinados a proteger aquele farol, consertando seus mecanismos, lançando cabos, derrubando e reconstruindo paredes com pedras e piche, erguendo degraus circulares e polindo lentes, encaixando e ajustando espelhos, ora benditos, ora ilusórios, como aranhas enclausuradas.
Tudo para que ninguém navegasse só, para que fosse possível encontrar o caminho para o continente. Para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. Fosse num mundo como aquele, fosse num mundo despedaçado.
III
Em terra, chegando à pequena habitação de alvenaria onde teimava em existir, girou a maçaneta de uma porta lateral. Num instante, julgou ouvir algo atrás de si, uma voz que sussurrava “Jonas”, seguido de “estou aqui”. Acostumara-se a ela, a seu fantasma, em verdade o vento que assobiava por entre as rochas na maré baixa.
Desprezando o chamado, entrou enfim, os passos lentos e calculados. Apanhou a lamparina sobre uma mesa fazendo nascer uma pequenina labareda, suficiente para matizar de âmbar paredes descascadas e manchadas pela umidade onipresente. No lado esquerdo havia uma pia de metal, montada sobre um armário de madeira. Nela se via também, em um escorredor de louça, um prato fundo e uma caneca de ferro. À direita, um fogão à lenha repousava junto a uma parede com azulejos à meia altura. Sobre a chapa, uma panela com restante da sopa de legumes feita na noite anterior.
Apanhou dois pedaços de lenha no cesto adjacente, abriu a portinhola do fogão e encaixou-os no compartimento em meio às cinzas. Em seguida, com o auxílio de um jornal velho, acendeu o fogo. Esfregou as mãos com sabão ali mesmo, na pia, a água gelada vertendo em um filete, na esperança de que o cheiro da mistura de polimento cedesse um pouco. Apesar do esforço, um odor vago, recendendo a éter, parecia impregnado no ar. Jonas cheirou as roupas e os dedos, sem contudo identificar de onde vinha.
Com a lamparina em mãos, dirigiu-se a uma saleta onde um rádio telégrafo descansava indiferente. Um tanto antigo, ainda que operacional, mantinha-se refém da frequência 2182 kHz desde que Jonas podia se lembrar. Girando um dos botões, ligou-o, posicionando os fones na cabeça. Informou seu prefixo, indagando se haveria alguém na escuta. “CQ-CQ” Seek You. Seek You. Sem resposta, porém.
Oposto ao telégrafo havia um grande armário de madeira, de portas envidraçadas, frágil demais para um ambiente como aquele. Abrindo-o com cuidado, deixou os olhos correrem pelas prateleiras. No topo viam-se cartas náuticas antigas, enroladas e presas com barbantes, além de instrumentos de navegação cobertos de poeira. Abaixo, tomando todo o espaço restante, três centenas de livros apoiavam-se uns nos outros, suas lombadas enegrecidas exibindo números sequenciais. Tratava-se de diários com registros sobre o farol, sobre a estrutura e os equipamentos, sobre os procedimentos de manutenção, sobre as condições meteorológicas, sobre o volume das chuvas, sobre os horários do alvorecer e do crepúsculo, sobre o estado da horta, dos animais, das cisternas. Ano a ano. Somados, esses apontamentos contavam a história da casa de luz, de suas fundações, de seu passadiço, de seus componentes mecânicos, de seus cabos, de seus tubos, de suas alavancas e de suas manivelas. De seus vidros, de suas lentes. Do óleo, do mercúrio, dos componentes elétricos, da água, dos animais.
Jonas apanhou o exemplar mais recente, além de material de escrita, voltando em seguida à cozinha. Notou que a sopa já borbulhava no fogão, desprendendo um odor adocicado de batatas cozidas. Com o diário sob o braço, moveu a panela para o lado mais frio da chapa, apanhando depois um bule com água e um par de trouxas de chá, avaliando o local exato em que poderia deixá-lo para que não esquentasse demais.
Por fim, sentou-se à mesa, a sombra alongada eclipsando parcialmente as paredes. Abriu o livro, segurando o lápis entre os dedos rachados. Passando as costas da mão na borda interna, firmou a página. A empunhadura, trêmula até então, ganhou firmeza quando o grafite feriu o papel, transformando seu rastro em letras, palavras, números e parágrafos. Como em todas as noites. Como tantos e tantos antes dele. Anotar tudo, escrever tudo, para que um dia outros absorvessem essas informações e depois as esquecessem.
Enquanto escrevia, pensava naqueles que um dia haviam se sentado àquela mesa, registrando tudo o que se devia registrar. Desenhando tudo o que se devia desenhar. Calculando tudo o que se devia calcular. Desde o início. Imaginava aqueles que haviam chegado à ilha quando nada existia e decidiram erguer ali um farol. Aqueles que os substituíram, aqueles que vieram depois. Aqueles que puseram o farol abaixo e depois o reconstruíram. Uma, duas, três vezes. Gente tão antiga que suas existências remetiam a fábulas distantes.
Em sua mente se assemelhavam a heróis, talvez pela distância no tempo, talvez porque tivessem vivido o extraordinário, padecido de devastação, de doenças, superando furacões, intempéries, frio e calor. Talvez porque tivessem ousado existir naquele ambiente incompreensível, atravessados pela hostilidade e pelo desprezo dos elementos. Talvez porque se fragmentaram em suas próprias desilusões, encontrando ainda assim um motivo para perseverar juntos. Talvez por terem protagonizado os mesmos capítulos de vida, deixando de lado diferenças, desejos e receios em nome de algo maior do que eles próprios. Talvez porque encontraram a saída de seus labirintos morais, superando os golpes do destino, a morte inesperada de um pai, a queda fatal de um irmão que substituía os cabos dos contrapesos, o desaparecimento de uma mãe que se atirara de propósito no mar, vítima de melancolia.
Era o que imaginava, já que os registros não ultrapassavam a mera burocracia. Era das reticências ali deixadas que Jonas criava deles o passado, extraindo resignação para prosseguir, para sentir-se à altura do legado. Para esperar.
O farol nada mais era do que um universo singular, eterno, imutável.
Quando terminou, voltou ao armário envidraçado e depositou o diário de volta em seu espaço. Em seguida, de um móvel baixo apanhou uma revista antiga cujas reportagens ele conhecia de cor. Retornando à cozinha notou a panela de sopa sobre o fogão. Tinha esquecido de comer. Tudo bem, não estava com fome. No dia seguinte apanharia um arenque salgado de um dos barris. Claro. Um arenque. Lembrou-se então que nas primeiras horas da manhã, antes mesmo de extinguir a chama, deveria entregar-se à ordenha semanal, além de conferir a horta. Respirou fundo. “Amanhã… Amanhã.” Por ora, poderia sentar-se na cadeira de balanço, na varanda, e descansar.
À luz amarelada da lamparina, com uma caneca de chá em mãos, contemplou o céu sem lua, prenhe de estrelas, uma vista incomum para aquela época do ano. O ar frio encheu-lhe o peito enquanto a intermitência do farol revelava em pulsos a cruz da capela trilha abaixo.
Tentou ler, mas as pálpebras se recusavam a manter-se abertas. Vencido, dobrou a revista sobre o colo e fechou os olhos, deixando-se embalar pelo chiado do mar que se insinuava desde as praias.
Sem que pudesse precisar o tempo, despertou com um sussurro.
“Boa noite, meu pai”, disse Tarsis, os olhos grandes como os da mãe se destacando no rosto magro. Vestia uma jaqueta de lã azul e calças de cor cinza. Nas mãos, luvas encardidas e sem dedos traduziam um dia de trabalho intenso. Na cabeça, um gorro verde escuro.
“Boa noite, meu filho”, Jonas respondeu, ainda desorientado, a cadeira rangendo levemente. “Como foi hoje?”
“Nada muito especial…”, respondeu Tarsis, encostando-se na viga principal da varanda, tirando as luvas, com uma expressão ensaiada de enfado. “Meia dúzia de cavalinhas, góbios…”
“Não foi mal”, disse Jonas, percebendo o caixote com os peixes aos pés do rapaz.
“Ah, mas eu trouxe algo que o senhor vai gostar…”, disse Tarsis, um sorriso iluminando o rosto.
“O que é?”
“Arenque, pai”, disse abaixando-se, remexendo os peixes. “Finalmente consegui.”
“Um arenque…”, repetiu Jonas. “Ah, menino, você quase me enganou com esse ar de decepção.”
“Amanhã teremos um almoço diferenciado!”
“Mal posso esperar.”
“Vou guardá-los agora”, disse Tarsis, pondo-se em pé. “Volto já.”
“Arenque…”, murmurou Jonas enquanto o menino se afastava, desaparecendo por trás do pequeno galpão que servia como depósito.
Fechou os olhos novamente, despertando quando o filho voltou, sentando-se ao seu lado em um banco de madeira.
“O dia foi longo, não?”, perguntou Jonas.
“Ainda tenho que limpar o bote”, respondeu Tarsis.
“Você precisa comer, meu filho. Tem sopa na panela.”
“Não tenho fome.”
Analisou-o por um instante. Estava de perfil, mirando um ponto invisível no céu. Sua barba era rala e o bigode, esfiapado, tentava se firmar. Os cabelos bastos e rebeldes se estendiam pelos ombros. O nariz proeminente, de fartas aberturas, lhe conferia um ar de invencibilidade. Parecia muito mais velho do que os dezoito anos que tinha.
“Pretende partir quando?”, perguntou Jonas, embora já soubesse a resposta.
“Em dois ou três dias”, respondeu o rapaz. “Tão logo eu dê um jeito no casco.”
“Aquele casco já foi bom.”
“Ainda dá conta do recado. Só preciso tirar o limo e os mexilhões.”
Deixaram que as palavras decantassem. Num instante, tudo o que ouviram foi o rebentar das ondas, intensificado pela subida da maré.
“Eu bem me lembro bem quando foi comigo, quando saí…”, disse Jonas, rompendo a quietude.
“É algo que todos temos que fazer, não é?”
“Sim… Todos nós.”
“Pai?”
“Sim, filho.”
“O senhor ficou com saudades?”
“Você diz, quando eu parti?”
“Sim, quando o senhor partiu. Teve saudades da ilha, do farol?”
“Se tive saudades… Acho que saudades não é a palavra certa. Foi mais apreensão, não sei… Angústia, talvez… Não conhecia nada… Mas sabia que iria voltar e isso me confortava.”
“E como o senhor sabia?”
“Eu… Simplesmente sabia… É a nossa sina. Voltar. Render quem nos espera.”
“Mas o senhor não ficou tentado a permanecer lá?”
“Lá…?”
“No continente, pai. Não ficou com vontade de ficar lá para sempre? Não voltar?”
Jonas calou-se por um momento, revolvendo memórias insondáveis. Depois de algum tempo disse:
“Claro que pensei, filho. Claro que pensei. Ainda penso… Como teria sido a vida se eu tivesse permanecido no continente?”
“E mesmo assim o senhor voltou.”
“Sim, voltei. Não dá para pensar no que poderia ter sido. A vida simplesmente é o que é… Mas no fundo eu tinha certeza do que devia fazer. Tinha certeza do meu propósito. Do meu dever.”
“Dever…”, repetiu Tarsis.
“Meu pai sabia o que eu estava passando”, disse Jonas. “Assim como eu sei o que se passa agora com você. Mas confie em mim. No momento certo você vai voltar. E eu estarei aqui, esperando.”
“Como dizia mesmo meu avô? Case-se, estude…?”
“Ah, sim, era algo glorioso: estude, case-se, tenha filhos. E depois retorne. Encha de vida este farol…”
“Ah, sim, é verdade. Voltar e encher de vida.”
“Voltar e encher de vida… O mais curioso é que não foi seu avô que disso isso, não… Na verdade, foi alguém muito antes, muito mais antigo, muito mais velho que ele, de outras gerações…”
“Eu não vou demorar, pai. Prometo.”
O vento assobiou, esgueirando-se por entre as pedras, preenchendo os minutos em que nenhum deles falou.
“Onde está a revista?”, perguntou Jonas. “Ah, aqui…”
“Quer que leia, pai?”
“Claro, filho. É o que mais quero.”
Tarsis clareou a garganta e então pôs-se a ler, a voz se perdendo num eco de infinitude enquanto o pai cerrava os olhos uma vez mais, murmurando as mesmas palavras lidas em repetição.
A luz intermitente desvelando a cruz da capela em intervalos regulares. Os contrapesos cedendo à gravidade na torre. O céu estrelado girando em espirais. O vento. O sal. Os sussurros.
Olá, Gustavo, tudo bem?
Resolvi comentar o seu texto por pura curiosidade associada ao interesse de que você também leia o meu projeto de romance.
Antes de mais nada, gosto imenso de faróis, um misto de mistério e romantismo. Um farol abarca tantos símbolos, tantos significados sob camadas e camadas de interpretações. Há o lado histórico, a solidão do faroleiro, muitos ângulos para serem abordados em pinturas, músicas, filmes e textos literários.
E o título? Nada mais misterioso do que o silêncio. Já passa a ideia de solidão (enfatizada pela imagem escolhida e “um barco” como parágrafo isolado. A ausência de sons também remete a um ralentar do tempo. [Estou comentando ao mesmo tempo que estou lendo, parágrafo por parágrafo. Vamos ver o que vai sair disso, então já peço desculpas pelo comentário caótico. ]
O romance já começa com boas descrições do ambiente, fruto certamente das suas observações em viagens inesquecíveis.
A reunião de pássaros foi algo que me tocou, pois me lembrei de encontrar, ao caminhar na praia, bem cedo, várias gaivotas agrupadas como se estivessem se preparando para uma grande aventura. Uma cena linda e, ao mesmo tempo, perturbadora.
A citação de seres mitológicos fortalece a atmosfera de mistério.
Há um homem e um menino. Serão pai e filho? Avô e neto? Saíram para pescar dentro da baía, até que nuvens pesadas surgissem, anunciando tempestade. A sequência da luta para chegar à praia foi bem narrada, transmitindo o clima de tensão. O desespero do homem é quase palpável, o tom crescente na urgência dos sentidos aguçados: tato, paladar, visão, audição.
“Estavam salvos. Salvos.” Que alívio me deu ler essas duas pequenas frases. Pelo menos, até então, a criancinha foi poupada.
No segundo capítulo, descobrimos a identidade do homem: Jonas. Mais adiante, temos a caracterização do personagem, não é jovem. O responsável pelo farol, lutando contra os efeitos corrosivos do sal. Aqui em Santos, sabemos bem como a maresia provoca ferrugem em tudo.
E também temos a descrição do farol, que deve contar como personagem, creio. Muitos detalhes, tanto da construção como da manutenção necessária para preservar sua funcionalidade. Imagino quão vasta deva ter sido a pesquisa sobre o assunto. Virou especialista em faróis?
Também ficamos sabendo que cuidar do farol é uma atividade herdada de pai para filho, em gerações sucessivas.
“Tudo para que ninguém navegasse só, para que fosse possível encontrar o caminho para o continente. Para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. Fosse num mundo como aquele, fosse num mundo despedaçado.” > Lindo esse parágrafo. Fiquei com a impressão de que anuncia alguma revelação. O menino era o filho dele e se perdeu?
No terceiro capítulo, o “fantasma” aparece, uma voz que Jonas escuta chamar seu nome, produzida pelo vento. Agora é a habitação do faroleiro que recebe descrição minuciosa, dá para imaginar com detalhes a casa.
Jonas mantém um diário, onde anota o que considera importante. Por falta de outros registros, só pode imaginar como viviam os que o precederam naquela função.
O parágrafo com a repetição de “talvez” ficou ótimo. Traz todo o drama existente em tantas vidas, como hipóteses, como suposições. Vidas de heróis, de gente que viveu ali naquele mesmo ambiente, lidando com tantos desafios.
Tarsis é o nome do filho, que tem olhos grandes, iguais aos da mãe. O diálogo é verossímil, mas me pergunto se o personagem é real ou apenas fruto da imaginação ou memória de Jonas. A conversa prossegue com naturalidade e a idade de Tarsis é revelada: dezoito anos. Ele está de partida para o continente, onde deve estudar, casar, ter filhos para, depois, retornar. Jonas afirma ser essa a sina da família, se afastar e depois voltar para encher de alegria o farol. Portanto, concluo que Tarsis, filho de Jonas, está vivo e na plenitude dos seus 18 anos.
Quanto à escolha dos nomes, encontrei significados interessantes, pesquisando na internet (além das fontes da minha cabeça). O nome Jonas significa “pomba” em hebraico. Segundo a Bíblia Hebraica, Jonas foi um profeta convocado por Deus para viajar até Nínive e alertar a todos sobre a vinda do castigo divino devido aos inúmeros pecados do povo. Jonas se recusou a ir até Nínive, pois acreditava que a punição era merecida e pensava em suas próprias necessidades. Ao invés disso, partiu para em um navio com destino a Tarsis (o nome do filho). Surpreendido em uma tempestade (o que me fez pensar no primeiro capítulo), acaba sendo engolido por um peixe gigante (o farol, ou a sua solidão?). Três dias depois, Jonas concorda em ir a Nínive, e então o peixe (seria uma baleia? Seria a misericórdia divina?) o devolve à praia. Diante do perigo, Jonas se arrepende de ter partido do farol, tenta salvar o filho, lutando consigo, ele consegue voltar à praia. Aconteça o que acontecer, Jonas sempre volta ao farol. Társis é um termo que se refere uma região costeira mencionada na Bíblia, associada à famosa história bíblica por ser o destino para onde o profeta Jonas tentou fugir. Tarsis seria o refúgio de Jonas? Quem ele tem como direção para tentar fugir da solidão? (Fui muito longe no emaranhado da simbologia dos nomes?)
O romance em desenvolvimento está muito bem escrito, revelando estilo próprio do autor, que sabe mesclar técnica, detalhes de pesquisa, a uma densidade sentimental que sempre me fisga como leitora.
Confesso que ao iniciar essa leitura pensei que encontraria algo mais fundado em descrições técnicas, ou um texto filosófico sobre a solidão do ser humano. Felizmente me enganei de forma brutal. A leitura se revelou muito mais fluida do que imaginei. Ponto para o autor.
Talvez por estar tão envolvida pela trama, eu tenha deixado escapar falhas de revisão. Apenas percebi dois pontos que podem ser melhorados:
No mais, nada tenho a acrescentar, a não ser que agora me sinto impelida (obrigada pela curiosidade) a ler o restante da sua obra.
Continue com o bom trabalho!
Gustavo apresenta um texto irrepreensível, denso e melancólico em Silêncio. Na ilhota a solidão é hereditária. O farol é o propósito. O tempo passa, as rotinas permanecem. A família acaba sendo a âncora, que fulmina o sonho de morar no continente. Pai e filho…a segurança falsa é iluminada pela tempestade. Os registros são técnicos e impessoais. Nas entrelinhas, os personagens imaginam as histórias que ali foram vividas, enquanto se mantinha, destruía, e reconstruía-se o farol. A introdução deixa uma ampla gama de histórias possíveis , girando, quem sabe 360o.
Obrigado pela leitura e pelo comentário, Cyro.
CRÍTICA APÓS LEITURA DOS CAPÍTULOS I AO III
Você não sabe como me alegra essa sua abertura raiz, do Gustavo do Velho Testamento, tratando a poética de modo mais PUNGENTE! Gostei muito dos parágrafos curtos e do ritmo quase onírico, com pitadas de maresia e sol quentinho de beira-mar. A prosa já chega com uma segurança e uma qualidade imagética que sentia saudade de ver na sua escrita.
A sequência da tempestade no capítulo I é a cereja do bolo dessa etapa. A progressão do perigo é construída com uma precisão quase musical: o ritmo da frase vai encurtando à medida que o mar encoleriza, os períodos longos e contemplativos da chegada à praia cedem lugar a fragmentos, a imperativos, ao mantra do remo que se repete e se desfaz. “Ergue, gira, corta, puxa.” Isso não é só também questão de resgate de um estilo (Uso resgate aqui, mas não é bem resgate, né?), é o texto mimetizando a exaustão e o desespero do personagem no próprio ato da leitura. Quando o menino cai do barco e Jonas mergulha, a voz narrativa quase colapsa junto com ele. Bravo!
O capítulo II é mais lento e mais expositivo, mas sustenta bem o peso do que veio antes. A descrição do farol tem uma qualidade enciclopédica que em outras mãos seria fria, mas aqui funciona porque Jonas não está apenas descrevendo uma estrutura, está descrevendo um legado, uma herança, um fardo. O trecho dos prismas e do polimento é quase meditativo, e a frase “para que ninguém navegue só” chega com a força de um verso, não de uma explicação. Poética na medida certa.
O capítulo III, com o encontro entre Jonas e Tarsis, é onde o romance mostra seu coração. A conversa sobre partir e voltar, sobre dever e sina, sobre o que poderia ter sido, tem uma contenção emocional muito difícil de alcançar. O peso da cena pousa nos silêncios, nas repetições, no vento que assobia entre as pedras enquanto os dois ficam sem palavras. A última imagem, com Tarsis lendo em voz alta enquanto o pai fecha os olhos, é belíssima. Você sabe que sou fã de repetições e aqui o artifício está dosado corretamente.
A prosa é rica, elaborada, cheia de camadas, e isso é um mérito inegável. Há momentos em que a acumulação de imagens e qualificativos torna a leitura um pouco opressiva, como se o texto não confiasse inteiramente no leitor para completar o que está sendo sugerido, acho que isso pode ser um risco para alguns leitores. O parágrafo sobre os ancestrais que ergueram e reconstruíram o farol, com suas mortes e desaparecimentos, é um exemplo: cada um desses elementos dramáticos merecia respiro, espaço para ser sentido, e ao chegarem todos juntos numa mesma enumeração acabam se anulando um pouco. Às vezes a contenção serve à prosa mais do que a abundância. Mas, como estamos falando de um romance, eu gostaria é de ver mais palavras, mais espaço para desenvolver esses elementos. Eles são importantíssimos pra atmosfera da históra!!!
Falando em atmosfera, Jonas ainda é mais atmosfera do que personagem. Sabemos o que ele faz, sabemos o que pensa sobre o farol e sobre o legado, mas ainda não sei o que o fere especificamente, o que ele desejou e não teve, o que carrega de forma particular além da sina coletiva da família. A conversa com Tarsis abre essa possibilidade quando ele admite que pensou em ficar no continente, que ainda pensa. Esse é o momento em que Jonas mais me interessou como pessoa, e foi o mais rápido do texto. Faz falta expandir essa fissura.
A identidade do menino do capítulo I também me deixou com uma pulga atrás da orelha. Presumi ser Tarsis, mas o texto não confirma. Se for uma ambiguidade intencional, funciona muito bem. Se for uma lacuna, vale fechar.
Por fim, e isso é mais uma curiosidade do que uma crítica: o texto carrega uma dimensão quase alegórica que ainda não sei onde vai parar. O farol como propósito herdado, a sina de voltar, as gerações se repetindo, a espera como condição existencial. Há algo de Beckett nisso, algo de Garcia Márquez, algo de Saramago. Alegorias exigem que o concreto seja sempre mais forte do que o simbólico, senão o texto vira parábola, e parábola fecha o leitor em vez de abri-lo. Por ora o equilíbrio está bom.
Aguardo pela próxima etapa e lamento que você tenha escrito tão pouco… Que venha mais. Vamos expandir isso aí, vamos dar mais camadas, vamos tratar o passado com mais palavras!
Parabéns, Gustavo!
Salve, André. Muito obrigado pelo comentário. Você sabe que sua opinião é importante para mim, até pela identidade de estilos que nos une. Creio que por isso você conseguiu captar a essência do texto, a atmosfera onírica que permeia esse início do romance.
Como se trata do primeiro contato do leitor com a história de Jonas, preferi adotar essa postura, sem revelar demais, preferindo me aferrar ao trauma e à rotina ao mesmo tempo opressiva e segura que prende Jonas ao farol, que o faz suportar a carga de um legado e ansiar pela presença do filho. Daí o acúmulo de repetições, como você bem percebeu. Daí a incerteza de quem é quem no primeiro capítulo – algo deliberado que, espero, ajude a prender o leitor nas fases que se seguirão — o que dialoga diretamente com a epígrafe do Byron. Daí, enfim, as lacunas que você notou, que dependem um tanto do leitor para serem preenchidas.
Mais uma vez te agradeço pelas impressões. Você é como um leitor ideal para mim. Espero retribuir a análise em breve. Valeu!!
Gustavo,
Como mínima retribuição ao seu comentário tão generoso sobre o que venho escrevendo, deixo aqui algumas impressões sobre seu romance em andamento.
Li o primeiro capítulo e fui passear com os cachorros. Não porque o que li tenha me aborrecido, pelo contrário. Quis, apenas, experimentar a expectativa que a leitura de uma cena tão precisamente recortada me causava. Ventilei hipóteses de continuação e achei que você ia, a partir do capítulo 2, retomar a narrativa a partir de onde ela tinha parado. Mas você escolheu a elipse, o que destaca seu texto entre tudo o que li até agora no Entre Romances. Os colegas, de modo geral, optam pela continuidade, ou, se há corte entre capítulos ou cenas, procuram estabelecer o nexo entre uma coisa e outra. Você esquiva esse vínculo deliberadamente, o que acho muito interessante, pois convida quem lê a completar a relação entre a cena da tempestade e a que ocorre anos depois.
Nesse sentido, fico pensando se o primeiro parágrafo do capítulo 2 não estaria enfraquecendo esse efeito de corte. O conteúdo do parágrafo é muito importante, mas entendo que ele deveria vir depois, talvez muito depois. Assim como está, você antecipa em forma de enunciado o “decantamento” da experiência traumática antes que a gente possa ver, em cena, o homem que Jonas se tornou. Faz sentido pra você?
Por alguns momentos fiquei pouco à vontade com o estilo dos diálogos e do registro escolhido. Há certa formalidade solene que não consigo identificar com um lugar real no mundo. Mas isso está parcialmente justificado pelo fato de que o farol está um pouco fora do mundo: “O farol nada mais era do que um universo singular, eterno, imutável”. É uma escolha válida, mas para sustentá-la é preciso fazer ênfase contínua nessa singularidade. Nisso entram não apenas os detalhes realistas da ilha e do farol, já muito bem colocados, mas também as condições que fazem com que nesse espaço as coisas ocorram de modo diferenciado em relação ao mundo, como em um tempo paralelo. Dito de outro modo: para que a linguagem formal e solene se sustente, acho que o farol tem que ser constantemente caracterizado em um tempo fora do tempo do mundo.
“E ele diz que se chama Jonas
E ele diz que é um santo homem
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
E ele diz que está comprometido
E ele diz que assinou papel
Que vai mantê-lo preso na baleia
Até o fim da vida
Até o fim da vida
Até subir pro céu”
Lembra dessa? Impossível não associar o nome do seu personagem à famosa história da baleia. O farol seria análogo à baleia? Algo para Jonas se insinua entre o compromisso e a prisão. Suspeito que uma das linhas de desenvolvimento do romance será acerca do dilema entre dar continuidade à tradição familiar ou não. Por que se comprometer com esse papel de guardião? Qual é o preço que se paga por essa integridade moral? E qual é o preço que se paga por rebelar-se contra isso, eventualmente?
O ritmo, as repetições, isso tudo está bem administrado e acentua o desenvolvimento das ações sem mão pesada. Às vezes as repetições tangenciam a monotonia, o que para mim não é um problema ,afinal deve ser tedioso viver num farol: a forma espelha, assim, o conteúdo. Entendo que, em outra escala formal, essa monotonia fará mais sentido se aliada a uma narrativa predominantemente de “baixa temperatura”. Quero dizer que minha expectativa em relação a esse romance é de não ser a todo tempo surpreendido por acontecimentos relevantes. Eu apostaria no tédio, na repetição dos gestos e cenas, na rotina. E, de repente, algo acontece, por meio do corte (como você já fez, por sinal).
Gostei muito do final do trecho apresentado, pois você, elegantemente, não recorre a ganchos, senão que narra abrindo mão justamente da categoria gramatical que define as ações (os verbos). Isso é muito valioso, caracteriza bem seu estilo e guarda uma afinidade com a estratégia de mostrar e cortar.
Bom, comentários talvez um pouco abstratos, os meus… Mas é isso, gostei da leitura e espero acompanhar os desenvolvimentos.
Olá, Martim, obrigado pela leitura atenta. É por esse tipo de interação que eu ansiava desde que o E-Romances tomou forma: trocar impressões, perceber como o leitor recebe o texto e, em função disso, ajustar (ou não) a história.
Seu comentário é excelente, ainda que eu não concorde plenamente com tudo o que você disse. É que ele me permite entender como funciona o raciocínio do bom leitor, digo, do leitor atento, daquele que mergulha na história aos poucos.
Pelo que noto, você absorveu a história do jeito que eu esperava, com um misto de dúvida desejo por saber o que vem a seguir. Mais do que isso, percebeu a atmosfera onírica que toma conta dos parágrafos, como uma bruma a disfarçar as intenções deste autor. De fato, não quero dar ao leitor informações demais. Não quero dar certeza de nada (aliás, repare que é sobre isso que trata a epígrafe do Byron). E pelo jeito isso está dando certo haha A bem da verdade, eu mesmo não tenho tudo traçado ainda. O final está bem nítido na minha mente, mas confesso que ainda estou trabalhando no caminho para chegar até lá.
A Kelly sacou bem as dualidades do texto: a cena inicial, por exemplo, é inicial mesmo ou é algo que já aconteceu? Quem é o menino que quase se afoga? É Jonas? É Tarsis? Mas esse “quase se afoga” é quase mesmo? Jonas é o Jonas da baleia? Será? E a cena que Tarsis aparece à noite? É de verdade ou é um sonho? Já aconteceu ou vai acontecer? Talvez isso explique por que o primeiro parágrafo do capítulo II está ali. Ou talvez não explique haha Talvez explique a linguagem formal do diálogo. Ou talvez não.
Enfim, a ideia é conferir ao leitor um mínimo de coerência mas pouca certeza. Uma linha tênue que seja, para prendê-lo à história, mas muitas dúvidas sobre o restante, para que ele monte sua própria versão antes que eu apresente a minha. No seu caso, não quero que vc tenha certeza de que o farol está fora do tempo. Quero que vc desconfie disso, até me critique por alguma falta de coerência a esse respeito. Lá no fim, quando tudo estiver mais nítido, quando a luz varrer a bruma, talvez você diga: “ah… então era isso! Genial!” Ou talvez vc diga: “ah, então era isso. Que merda!” hahaha Em todo caso, o texto terá gerado uma reação e no fim é isso o que vale.
O que quero é libertar uma história sobre assuntos que me perturbam: solidão, tempo e memória. E quero fazer isso de modo lento, contemplativo, como deve ser a vida numa ilha solitária, quem sabe (como vc diz) perdida no tempo e no espaço. Sem recorrer a sangue na parede a todo momento. Talvez um dia minhas filhas leiam. Hoje elas são pouco mais do que crianças. Se eu atingir esse pequeno público de duas pessoas mega exigentes já me dou por satisfeito haha
Mais uma vez te agradeço pelo tempo despendido com esse pequeno texto.
Olá, Gustavo! Tudo bem?
Voltei pra ler mais um pouco!
“Eu bem me lembro bem quando foi comigo, quando saí…” tá sobrando um bem aí, não tá?
Terminei de ler tudo, e gostei bastante desse seu começo de romance. Já dá pra notar que será algo bem introspectivo, denso, uma rotina repetida, anseios, desejos, sonhos, lembranças. Gostei muito da parte dos diários, de como o protagonista imaginava a vida pessoal dos antepassados enquanto lia a burocracia. O ar misterioso e meio sombrio me fez pensar se aquele filho existia mesmo, ou se era um fantasma, uma lembrança. O farol me pareceu quase mágico, atraindo as pessoas sempre de volta para ele, quase como se não tivessem escolha. O ritual apresentado da saída do jovem para estudar, casar, ter filhos e voltar enchendo de vida o farol soa quase como uma seita.
A escrita está muito boa, como sempre, gostosa de acompanhar e ao mesmo tempo que instiga bastante a imaginação. O texto tem um tom melancólico, enevoado, meio onírico, que me agrada bastante, deixando em dúvida se aconteceu mesmo tudo o que foi narrado, ou se são apenas lembranças, fantasmas e almas penadas, destinadas a vagar pela ilha e cuidar do farol.
Enfim, gostei bastante!
Parabéns pela iniciativa!
Até a próxima etapa!
Silêncio | Autor(a): [Gustavo Araujo]
Fase de Leitura: [Ex: Capítulos I a III / Primeiro Arco]
Datas: 07 e 08/05
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
“Silêncio” nos apresenta uma história densa, dinâmica, detalhista e com uma proposta ousada diante dos tempos automatizados atuais. Em determinada medida, me lembrou o romance alegórico do Saramago, “O Conto da Ilha Desconhecida”, embora me pareçam duas premissas diferentes.
O conto está muito bem escrito, com trechos que se aproximam da poesia.
Ainda há espaço para lapidação, embora pareça uma obra pronta.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Esse é um texto que dispensa assinaturas. O trecho inicial do romance “Silêncio” nos apresenta uma proposta de narrativa avessa à contemporaneidade: denso, lento, detalhista, bucólico e extremamente intimista.
A leitura desse trecho (e do romance) evidencia que a narrativa irá se desenvolver de um jeito avesso ao tempo que vivemos; quem espera ler e compreender enquanto espera impaciente ser atendido numa fila de hospital ou banco ou deitado no sofá, prestando atenção no celular, na TV que está ligada ou qualquer outra distração, se frustrará.
Esse é um dos grandes traços da escrita do Gustavo no qual posso pensar que identifiquei. Remetendo aos literatos do período anterior ao de Byron, entre o Barroco e o Arcadismo, “Silêncio” nos entrega a expectativa de retornar a um tempo anterior, bucólico, para discutir questões existencialistas e universais através de uma história que promete emoção.
O universo dos faroleiros é pouco conhecido. Ainda assim, com a descrição precisa dos detalhes, você conseguiu transformar alguns momentos em cenas de filmes. Em especial, a digressão que encerra o primeiro capítulo, a descrição da rotina do faroleiro, Muito bom!
O que eu ajustaria: diálogo de Jonas e Tarsis.
Bom, vou copiar e colar um trecho acima para retomar minhas impressões. (…) uma proposta de narrativa avessa à contemporaneidade: denso, lento, detalhista, bucólico e extremamente intimista.
Foi uma leitura que me forçou a parar e refletir. Em tempos que vivemos tão apressados e automatizados, numa tentativa de acompanhar a velocidade da tecnologia, esse trecho (e provavelmente o romance inteiro) será um solovanco necessário para frear, ler, interpretr e refletir.
Já por esse exercício mental de frear a ansiedade, pelo menos para mim, vale a pena continuar a leitura. Levando em conta a qualidade de escrita e a quantidade de veredas pelas quais essa história pode seguir, creio que nesse primeiro momento encontro-me cativado!
Oi, Givago. Muito obrigado pelo comentário, pelo tempo que você dedicou ao texto. Você não tá errado ao sacar que se trata de um contraponto ao universo literário atual, dominado pela fórmula da aceleração. Pensei de fato em algo mais contemplativo, mais lento, mais próximo das questões existencialistas que nos acometem insidiosamente. Tenho na manga algumas ideias sobre o que vem a seguir, mas ainda tô matutando… Vamos ver como outros leitores recebem a história. Valeu mesmo pelas impressões.
Por nada, Gustavo! Espero que eu tenha contribuído de alguma forma
Olá, Gustavo! Tudo bem?
Começamos com um trecho de um poema de Byron, que já dá uma ideia de que o autor pretende tratar da natureza, do pensamento humano e da boa filosofia. Alta expectativa aqui.
I
Primeiro parágrafo: Curto e direto, já mostra que o livro será também sobre memórias, sobre o mar, sobre um barco. Direto, mas poético.
“a lembrança de que as águas guardam o perigo e o abismo na mesma medida em que espelham o céu.” Ótima frase!
“Desanuviou a mente quando avistou o bote a uma centena de metros abaixo, balançando sobre a linha d’água, preso a uma corda. Pelo que se recordava, tinha a deixado sob as árvores ali próximas, em terreno seco. Possivelmente as marés a sequestraram numa noite de ressaca qualquer, lançando-a às águas.” Aqui está falando do bote, não? Então o certo não seria tinha o deixado… as marés o sequestraram…? Pode estar se referindo a corda, mas pra mim não faz sentido nenhum não ser o bote. E esse “sob as árvores” ficou estranho, como se fosse debaixo das raízes.
“Seria pedir demais que fossem surpreendidos por algo fantástico naquela manhã?” Pelo título, poema e primeiro parágrafo, meu chute é que vai acontecer alguma coisa ruim com o menino e o homem, provavelmente seu pai, vai remoer e tentar entender, conviver com isso no restante do livro.
“Estavam salvos. Salvos” A cena anterior a essa frase é ótima! Muito tensa, muito instigante, li prendendo o ar de nervoso. Muito bom! Lembrei desse conto… se não me engano foi o que você mandou para o desafio começo, meio e fim, não foi? Curiosa pra ver o que pretendia com ele!
Primeira parte muito boa, ambientação está ótima, sentimos todo o clima marinho e náutico sem sermos atulhados de expressões específicas. O clima de mistério, de que alguma coisa ruim vai acontecer foi bem elaborado também.
II
“Era o único local de toda a ilha em que se deixava encantar pela miragem de haver ali uma multidão, todos engajados no esforço repetitivo e hipnótico de manter o farol funcionando.” Que lindo isso!
“deixando a mente derivar” achei bem interessante esse “derivar”… entendi o que quis dizer, e achei legal usar essa palavra, mas soou estranho, como se estivesse errado, mesmo não estando.
Essa segunda parte teve mais introspecção, meditação e manutenção. Foi relativamente fácil visualizar o que o protagonista estava fazendo, mesmo sem ter noção alguma sobre faróis, graças à técnica do autor. Gostei do ritmo, do tom e da escrita até agora. Mesmo não sabendo exatamente o que vai acontecer, nem sobre o que será o romance, a leitura segue tão boa que leria facilmente o romance inteiro sem me importar com o conteúdo.
Por enquanto é isso, logo volto para ler mais.
Parabéns por encarar esse desafio!
Até mais!
Valeu pela leitura atenta, Priscila. Fico feliz que vc tenha gostado, ao menos até o trecho lido. Vou considerar as mudanças que você sugeriu na parte em que eles visualizam o barco para que não haja dúvidas. Dificilmente as cenas que imaginamos na nossa cabeça se reproduzem de modo idêntico na cabeça de quem lê. Por isso é interessante essa construção conjunta como estamos fazendo aqui.
Fiquei ainda mais contente quando vc disse que o conteúdo acaba sendo irrelevante na sua leitura. Sinal de que a prosa está bem ajustada. Mas não se engane: em breve a realidade do Jonas será remexida kk
Brigadão mais uma vez!
Oi Gustavo.
A história abre com um momento dramático. Um homem e um menino saem para pescar e são surpreendidos por uma tempestade. O menino cai do barco, por pouco não se afoga, mas o homem consegue salvá-lo.
Em seguida, somos apresentados a Jonas, que é o faroleiro. Ele conta de sua rotina, seus muitos afazeres, rotineiros, repetitivos e, ao mesmo tempo, vitais para sua segurança e para o bom funcionamento do farol. Sua solidão e o silêncio são palpáveis.
Sente-se, também, o peso da idade se intensificando.
Uma de suas atividades é fazer registros no diário do farol. Há centenas de livros, escritos pelos outros, que vieram antes dele. Tudo é registrado. Informações sobre a casa, o farol, os equipamentos, os animais. Mas nada sobre as pessoas que cuidaram de tudo isso ao longo do tempo. Sobre estes, Jonas apenas colhe informações nas reticências.
Fiquei pensando que esses homens que por anos a fio cuidam do farol são como uma única entidade.
Quando Jonas dorme, aparece Tarsis. É possível imaginar que Tarsis seja o filho, que saiu para pescar e volta agora. Mas penso que se trata de um sonho ou alucinação. Pareceu-me bem claro que Jonas era um homem solitário, que em dado momento questiona a demora de seu filho, como se fosse um evento de muito tempo antes. Jonas também reflete sobre a importância de proteger o farol, para que os necessitados encontrassem o caminho do continente e para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. O que insinua que ele tenha sofrido uma grande perda.
Será que Tarsis morreu ou só não mandou mais notícias após ir ao continente? De que forma o capítulo inicial se relaciona com Jonas? Será ele o menino que caiu no mar ou o homem que por pouco conseguiu salvar o filho?
Esta parte um foi excelente. Cumpriu seu papel de apresentar os personagens e nos deixar curiosos a respeito deles e de seus destinos.
Engraçado que este é o segundo texto que leio no desafio e o segundo a tratar da solidão. Aqui, na sua história, a solidão é bem mais física, tangível. Jonas está mesmo sozinho em uma ilha, cuidando de um farol. Porém, ele não parece sofrer com a solidão, e sim com a saudade ou a falta de alguém específico.
O ambiente é opressivo. A opressão, no caso, não parte do outro, mas sim da casa, do farol, todos a cobrarem de Jonas ações repetitivas, uma máquina-homem a atender outras máquinas. Ele está imerso na natureza, uma ilha, o mar selvagem. E ele, segue agindo como máquina. Será que em algum momento, ele voltará à natureza selvagem?
O clima da história é melancólico, mas há, muito bem desenhado, perto da superfície, uma sensação clara de perigo.
Achei esse começo muito promissor. Deu vontade de ler o resto da história.
Oi, Kelly! Muito obrigado pelo comentário. Fiquei feliz quando vi que meu texto estava na sua lista de leitura. A intenção foi justamente essa: apresentar o cenário, os personagens (pelo menos alguns deles), a atmosfera, tudo para gerar no leitor um tantinho de curiosidade sobre o que vem a seguir. Legal que você captou a atmosfera onírica e de dúvida que permeia o texto — algo que não por acaso reflete a epígrafe do Lord Byron.
Acredito que a escolha pela solidão como pano de fundo, como você bem pontuou, reflete o mundo em que a gente vive atualmente. Somos a “sociedade do cansaço”, né? Embora hiper-conectados, não raro acabamos isolados pelo excesso, esperando que alguém venha nos resgatar. No fundo, é disso que trata o romance.
Mais uma vez te agradeço pela leitura generosa. Vou encontrar um tempinho e ler o seu texto também. Valeu!!