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Detox Literário.

O Livro do Destino – Conto (Gustavo Araujo)

holder1Luiz Andrade Albuquerque era um recordista. Estava se aproximando dos noventa anos de idade. E isso, numa família em que estatisticamente não se esperava viver muito além dos setenta e cinco, quando muito oitenta. Contudo, a façanha cobrava um alto preço. Luiz Andrade era portador de Alzheimer. No estágio final da doença, dependia de ajuda para tudo. Sua mente era uma triste desolação negra.

Parcos raios de luz ainda conseguiam penetrar – o suficiente para deixá-lo perceber que sua inteligência o abandonava aos poucos, como lâmpadas que vão piscando até que, exaustas, se apagam definitivamente.

O velho homem reconhecia muito pouco de sua vida. Lembranças se esfiapavam, dissolvendo-se como teias de aranha. As pessoas, os lugares e até a consciência de si mesmo – tudo se transformava em pinceladas cujas cores se desvaneciam. Já não sabia mais se o que via era a realidade ou o suspiro de um cérebro em colapso.

Seus olhos pequenos, afundados em meio a rugas construídas por quase um século de vida, brilhavam com a inocência de quem já não esperava mais nada.

Nessa fase, Luiz Andrade era assistido dia e noite por enfermeiros que se revezam para que ele pudesse enfrentar seus últimos dias com alguma dignidade.

Sua única distração era olhar livros.

Dia após dia, um dos enfermeiros sentava-se próximo de sua cama e mostrava-lhe volumes e mais volumes de toda sorte de publicações. Luiz Andrade preferia aqueles com fotos. Sua vista cansada acompanhava as figuras e as folhas que se alternavam em um ritmo monótono, induzindo-o lentamente a um sono sem sonhos. Era quando se sentia seguro.

Certa vez, sem qualquer aviso, Luiz Andrade viu-se flutuar. Do alto, observou seu próprio corpo, deitado, imóvel. Ao lado, o enfermeiro distraidamente continuava a exibir-lhe páginas de um livro grosso como um tijolo.

A visão não o atemorizou. De certa forma, talvez já esperasse por isso.

Ergueu os olhos e sentiu-se tragado pela escuridão que se abria logo acima. Avançou sem rumo, impelido por uma força desconhecida, por entre estrelas, nebulosas e corpos celestes de todos os tamanhos, que se distorciam em uma dança caleidoscópica, derretendo-se diante dele em um redemoinho de cores.

Vozes lhe sopravam o ouvido. Vestígios fantasmagóricos. Não sabia dizer o que eram.

Um clarão o envolveu, como se mergulhasse no sol. Quando deu por si, estava em uma planície desértica, completamente vazia de vida. Já não era mais um homem velho, mas sim um rapaz. A força que antes lhe faltava havia se restabelecido. Não havia mais sinal algum de fragilidade. Era jovem outra vez. Examinou seus braços e suas mãos; tocou seus cabelos, suas orelhas. Inspirou profundamente. Embora se sentisse saudável como um atleta, ainda não recordava coisa alguma.

Antes que pudesse meditar sobre o significado de tudo aquilo, percebeu que, do horizonte, surgia um homem. Caminhava lentamente em sua direção. Era um sujeito alto, com uma longa barba branca. Tão longa que chegava a tocar-lhe os pés.

Ao aproximar-se, Luiz Andrade notou que o homem trazia dois livros nas mãos.

“Antes de nascer”, disse o sujeito, sem qualquer cerimônia, com uma voz tão profunda quanto o oceano, “todas as pessoas têm a chance de escolher seu destino.”

“Você não lembra”, prossegiu ele, explicando, “mas há muitos anos, estivemos juntos aqui, neste exato local.”

Luiz Andrade estreitou os olhos pequenos e contemplou o lugar todo. Não tinha a mínima recordação daquilo.

“Naquela ocasião, ofereci a você estas duas possibilidades”, continuou o homem, estendendo-lhe os livros que trazia. “Você  os analisou atentamente e, por fim, disse-me qual deles deveria refletir o seu destino.”

O jovem tomou ambos os volumes, emudecido, sem saber direito o que fazer.

“Quero que você os examine uma vez mais”, ordenou o sujeito de longas barbas, “e me diga qual deles você escolheu e viveu.”

Luiz Andrade abriu o primeiro livro. Palavras e imagens saltaram das folhas, envolvendo-o em um abraço hipnótico. Uma vida de muito trabalho surgia diante de seus olhos. Anos e anos de sacrifício e de dificuldades tomariam grande parte de sua existência. Depois de muita luta, finalmente seria recompensado com um grande patrimônio. Sua velhice seria tranquila e sua família restaria amparada quando ele próprio partisse, levado por uma doença sem cura.

O jovem deu um longo suspiro. Em seguida, abriu o outro livro.

Novamente, um turbilhão de linhas e cenas foi arremessado em sua direção, ganhando vida, desprendendo-se do papel tal qual uma névoa enfeitiçada. Lentamente, tornavam-se nítidos episódios de uma vida sem qualquer sacrifício. Haveria trabalho, naturalmente, mas o senso de doação em nome de outros, mesmo dos familiares, jamais seria uma preocupação constante. Se optasse por este destino, Luiz Andrade conheceria lugares e pessoas, mas jamais acumularia riquezas. Morreria velho, levado por uma doença sem cura.

O rapaz olhou os dois livros, agora fechados.

“E então?”, indagou o homem, erguendo uma de suas sobrancelhas.

“Esta foi a minha vida”, respondeu Luiz Andrade, segurando o primeiro dos livros.

“Muito bem. Satisfeito com sua escolha?”

Luiz Andrade pensou por um longo instante. Sentiu vontade de mentir, mas as palavras lhe escaparam dos lábios como condenados em fuga.

“A vida é breve, fugaz e efêmera.”, começou a dizer, baixando a cabeça, como se procurasse por entre os grãos de areia o melhor modo de se explicar. “Por que motivos, afinal, me sacrifiquei tanto? Por que tanto trabalho?”

Foi a vez do sujeito de longas barbas manter-se em silêncio, aguardando.

“Queria ter visto mais entardeceres”, prosseguiu Luiz Andrade. “Queria ter viajado, feito coisas, conhecido pessoas… Mas, não. Em nome de uma responsabilidade que impus a mim mesmo, entreguei-me à auto-imolação. De que adiantou acumular tanto dinheiro?”

“Pelo menos sua família estará livre de dificuldades. Seu sacrifício merece aplausos, meu jovem.”

“Não, não merece. Não seja sarcástico, por favor. Dificuldades DEVEM fazer parte da vida. Como dar valor a algo se o obtemos pela via mais fácil?”

Luiz Andrade parou um instante e em seguida arrematou: “Por que, afinal, uns se sacrificam pelos outros? É justo? Será que não tive coragem de escolher o que era melhor para mim?”

“São perguntas que você deveria ter feito a si mesmo antes de fazer sua opção.”, disse o homem em um tom burocrático, como um funcionário de repartição pública.

Luiz Andrade baixou os olhos. Tinha em si a sensação de ter desperdiçado o melhor presente de todos.

“Ver o que sua vida poderia ter sido, e não foi…”, disse o homem de longas barbas, sua voz mais grave que um dó à esquerda. “Bem vindo ao que se convencionou chamar inferno.”

*******************

As lágrimas de Luiz Andrade molharam seu pijama de flanela. Prontamente, o enfermeiro enxugou-as com um lenço azul.

Sem aviso, o velho pôs-se sentado e, com as mãos no rosto, começou a chorar copiosamente.

O enfermeiro não estava surpreso. Abraçou Luiz Andrade e levemente deu-lhe tapinhas nas costas. Dizia: “Está tudo bem agora. Não foi nada de mais…” Em seguida, tomou o livro que até então mostrava e o fechou. Era uma coleção de fotos de lugares distantes, dessas que ganham prêmios pelo mundo afora.

Talvez fosse melhor não usar aquele livro novamente, ponderou o enfermeiro. Era a terceira vez que aquele velho homem caía em prantos por causa das imagens que via.

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Este conto foi escrito por Gustavo Araujo, autor deste blog.

Um comentário em “O Livro do Destino – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Thamiris Maciel
    11 de julho de 2013

    Gustavo, cada vez que leio 1 de seus contos, me apaixono mais e mais. Esse em especial,nos mostra a importância de ser VIVER literalmente. Muitas pessoas apenas pensam em riquezas e esqueçem que o melhor da vida, são os momentos ao lado de que amamos e somos felizes. E que bens materiais ficarão aqui na Terra! Eu conheci seu blog, através de uma pesquisa que fiz sobre viajar para Bora – Bora, e desde então estou sempre aqui =D

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Informação

Publicado às 24 de junho de 2012 por em Contos Off-Desafio e marcado .