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Detox Literário.

Fobia de Éden – Conto (Gustavo Araujo)

oldmanSempre me achei um sujeito de sorte. Tinha um bom emprego – contador de uma grande loja de departamentos – que me permitia viajar com minha família para o Nordeste quase todos os anos. Filhos em colégio particular. Na garagem, um carro do ano, modelo flex, uma beleza. E, além disso, um apartamento próprio, financiado, é verdade, mas que traria meu nome na escritura depois de 98 meses.

 Sobretudo, eu me considerava uma pessoa afortunada porque tinha uma esposa que me amava. E dois filhos espertos e inteligentes. Em poucas palavras, talvez eu tivesse o que se convencionou chamar de “uma vida invejável”.

Mas de uma hora para outra, algo começou a abalar essa minha existência perfeita. No início era um nervosismo crescente à hora de dormir, um leve incômodo que me impedia de relaxar, atrasando-me o sono. Sempre no mesmo horário e sem motivo aparente, eu ficava agitado, com mil pensamentos me cruzando a cabeça. Eu me levantava e ia ao banheiro. Voltava para cama. Tornava a me levantar. Ia para sala assistir à TV. Às vezes lia. Regressava. Tentava ler ou rezar. Em vão. O sono eventualmente chegava, mas não havia dúvidas de que, para mim, o ato de dormir adquiria ares de desafio.

Talvez eu estivesse um pouco estressado, sugeriu Luísa, minha esposa. “É a maior causa de crises de insônia”, explicou, repetindo o que tinha lido em uma revista de fofocas, dessas que contam o final da novela. Bem, podia ser isso mesmo, considerei. Nada mais do que uma crise de estresse. Claro. Era isso, só podia ser. O trabalho de contador às vezes era muito estafante. Em breve, eu confiava, tudo se acomodaria e eu voltaria a dormir como um urso.

Contudo, o problema se agravou. À noite, bastava vestir o pijama para que um formigamento me tomasse o corpo. Ao deitar, percebia um calafrio me escalando a espinha, trazendo suadouros a reboque. Minhas mãos começavam a tremer, o que eu inutilmente tentava disfarçar, cruzando os braços. Por vezes, já com as luzes apagadas, Luísa perguntava se eu estava me sentindo bem. Sim, querida, respondia eu num sussurro, encolhido, torcendo para que a voz trêmula não me denunciasse.

Apertava o olhos e tentava pensar em algo que me acalmasse. Fazendas, rios, pastagens. Cenários bucólicos costumavam funcionar para espantar pesadelos na infância. Mas ao redor dos quarenta anos, essa técnica se revelava inútil e nada parecia diminuir a sensação de angústia que me afligia.

Com o tempo, surgiram as crises de taquicardia. Achava que ia morrer. Definitivamente, meu corpo se recusava a descansar. Talvez tudo isso fosse uma reação de defesa diante de algo desconhecido, ponderava eu, tentando me agarrar a uma explicação lógica.

A consequência imediata foi o comprometimento de meu dia a dia. Reiteradas noites de luta pelo sono me levaram a uma exaustão inescapável. As manhãs e principalmente as tardes se sucediam em um ritmo arrastado. Minha visão, desfocada e esgotada, dava a impressão de que o mundo diante de mim era um filme em câmera lenta, ou talvez uma sofrível peça de teatro da qual eu era um solitário e triste espectador, no máximo um ator coadjuvante.

Cada anoitecer trazia consigo a terrível perspectiva de uma batalha inglória. Havia oportunidades em que eu simplesmente me recusava a ir para cama. Atravessava a noite assistindo a filmes ingênuos e a programas de entrevistas com pessoas que se achavam importantes. Mas, no fim, essa tentativa de fuga se revelava ainda pior, levando-me a um estado de torpor completo.

Inevitavelmente, uma forte depressão se abateu sobre mim. Percebendo o problema, Luísa tomou as rédeas da situação e partiu em busca de ajuda. Por conta dela, visitei psicólogos, psiquiatras e até benzedeiras, tentando descobrir a razão do meu estado. Talvez, inconscientemente, eu imaginasse que iria morrer enquanto dormisse. Era essa a aposta da maioria dos especialistas. De qualquer forma, o ideal seria que eu me submetesse a uma intensa terapia. Segundo eles, essa era a única opção.

Aceitei. Meses se passaram, porém os resultados foram desanimadores. Procurei diversos profissionais e me submeti a inúmeras técnicas, mas nada foi capaz de me devolver a calma e a paz necessárias para descansar.

Dormir havia se transformado em motivo de terror. Sem alternativas e dominado por um pânico cada vez mais agressivo, apelei para remédios e pílulas.

Chegou o momento, contudo, em que me conformei, como um soldado que resolve se entregar diante de um inimigo invencível. Acostumei-me à ideia de que provavelmente morreria de fadiga, de um ataque cardíaco ou talvez de um derrame.

Tinha vergonha de encarar Luísa. A última coisa que eu desejava era que ela sentisse pena de mim, embora isso já fosse bastante provável. E meus filhos, o que estariam pensando?

Até que o fim chegasse, de qualquer maneira eu seria obrigado a passar por essa espécie de ritual horrendo, noite após noite.

***

Já não lembrava mais da primeira vez que a vi. Era como se ela tivesse sempre existido. Talvez fosse eterna. Ali, linda, sorrindo, a alegria transbordando nos braços abertos que vinham em minha direção. Os cabelos ondulados, escuros como o breu, os olhos brilhando, as mãos delicadas que vinham segurar as minhas, para transmitir-me calor, segurança e amor. A ela eu me entregava, sem medo, sem esperar nada em troca, pela simples razão de que ela existia.

Era a voz dela que eu queria ouvir; era a sua pele que desejava beijar; era a sua boca que ansiava por tocar. Nada mais importava, tudo ficava em segundo plano.

Cecília.

Com ela, o instante fugaz se transformava em eternidade. Ela era o meu tudo, minha vida. A mulher que era meu sol, que me permitia esquecer do mundo, que fazia meu coração arrebentar de felicidade. Estava ali, todas as noites, em meus sonhos, embriagando-me de amor, levando-me a lugares impensáveis.

Então vinha a hora do adeus. O momento em que eu tinha que acordar. Deixá-la. Nesse átimo, a realidade vinha ao meu encontro, como um baque no peito, e eu me lembrava de Luísa e das crianças. De como os amava, de como sentia a falta deles, de seus carinhos, de suas presenças.

Enquanto Cecília ia desvanecendo como uma pintura que se evapora, eu percebia que estava me tornando escravo daquele universo onírico e que, na verdade, precisava fugir dali.

***

Naquela manhã, a enfermeira olhou para o jardim. Estava na varanda da casa. Dali, uma pequena escada oferecia acesso a uma área gramada enorme, bastante ampla, pontilhada por pequenos arbustos. Trilhas calçadas com pedras pretas e brancas se insinuavam por todos os cantos, compondo um labirinto. Havia também árvores frutíferas que atraíam muitos pássaros e flores coloridas que se espalhavam até onde a vista alcançava, preenchendo o ar com perfumes diversos. Mais adiante, um lago servia de moradia para um casal de garças.

A enfermeira voltou-se para o velho ao seu lado, sentado em sua cadeira de palha, os olhos semicerrados e o braço apoiado em uma bengala. Ele observava em silêncio o cenário à frente, com a expressão séria de quem encara um inimigo.

“Veja que lugar maravilhoso”, disse ela, abaixando-se e movendo-se para perto dele.

O velho, no entanto, manteve-se imóvel, insensível à sugestão subliminar que a jovem fazia.

“O que acha de irmos até ali, pegar uma maçã?” prosseguiu ela, dando letra ao que estava apenas implícito. “É tão perto… Em poucos minutos estaremos de volta”.

O homem permaneceu sem dizer palavra, com os olhos fixos no horizonte, a respiração entrecortada.

“Eu… Eu… Não consigo…”, disse finalmente, abaixando a cabeça envergonhado de sua fraqueza, a voz rouca desaparecendo.

Era talvez o homem mais velho que a enfermeira já havia conhecido, uma pessoa cuja única companhia durante toda a vida fora o tempo.

Ela já estava acostumada às tentativas frustradas de levá-lo para passear. Na realidade, duvidava de que um dia conseguiria convencê-lo a deixar a segurança da varanda. Ainda assim, insistia, tentando injetar nele um traço de vida.

Para vencer a fobia que o acometia, explicaram os especialistas, seria preciso ir aos poucos, mas com perseverança. Isso era fundamental para evitar o agravamento do transtorno que, em casos extremos poderia levá-lo a criar realidades alternativas, onde inevitavelmente buscaria refúgio.

“Confie em mim”, propôs ela, fitando o velho no fundo dos olhos.

João ergueu a cabeça lentamente. No uniforme branco da enfermeira, leu o nome dela, como que para certificar-se de quem era.

Cecília.

Estendeu a ela a mão trêmula e repleta de manchas do tempo. Levantou-se enfim. Deu-lhe o braço e, com passos trôpegos, desceu a escada, rumo ao jardim.

O coração batia como nunca. João nunca sentira tanto medo na vida. Mas por Cecília, poderia enfrentar qualquer coisa.

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Este conto foi escrito por Gustavo Araujo, autor deste blog.

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Informação

Publicado às 30 de maio de 2012 por em Contos Off-Desafio e marcado .