EntreContos

Detox Literário.

Mar do Silêncio (Gustavo Araujo, Fabio Baptista e Jorge Santos)

Quando acordou sentia-se tão exasperado que mal conseguia falar.

― Mãe! ― finalmente gritou. Entre soluços, repetiu: ― Mamãe!

Ouviu os passos da mulher no corredor até a porta finalmente se abrir, deixando um facho de luz a incandescer os pés da cama.

― O que foi, Danilo? Pesadelo de novo?

O menino fez que sim, as lágrimas desenhando pequenos rios sobre o rosto redondo.

― Está tudo bem. Mamãe está aqui. Não precisa ter medo.

Ela se sentou e envolveu-o num abraço. A criança respirou fundo e entre soluços murmurou:

― É sempre o mesmo…

― Sim, eu sei, meu amor ― sussurrou a mulher, beijando-lhe a testa molhada de suor. ― Vai passar, vai passar.

― Tenho medo que volte…

― Vou ficar aqui com você, está bem? Até você pegar no sono outra vez.

≈≈≈≈

― Pode me chamar de Ismael!

O garoto olhou para o homem sem entender direito.

― Não estamos num barco, guri?

― Mas seu nome não é Ismael, pai.

O sujeito sorriu, os dentes perfeitos rompendo o negror de sua barba espessa. Na cabeça, um chapéu de marinheiro, desbotado por décadas de uso.

― Tem razão ― disse, largando um dos remos e passando a mão na cabeça do menino. ― É que pensei que nosso passeio ficaria mais interessante se a gente brincasse de ser outras pessoas, dessas que contam histórias sobre o mar ou… Não sei, algum desses marinheiros famosos dos livros e dos filmes.

― Ah… ― respondeu a criança, a boca congelada num espanto hiperbólico.

O pai sorriu outra vez.

Nuvens estratificadas escondiam o céu, mas o tempo parecia firme. Um vento leve se insinuou do horizonte balançando o bote, porém, levando o garoto a segurar a borda da embarcação. Indiferente, o homem disse:

― Eu serei Ismael, então. E você, quem vai ser?

Os olhos miúdos miraram o vazio acima, como se buscassem uma resposta satisfatória. Poderia ser qualquer pessoa.

― Eu… Eu… vou ser o Capitão Gancho!

― Capitão Gancho? ― indagou o homem, retomando os remos.

― Sim, pai ― disse batendo palmas. ― E você vai ser o meu marujo. Marinheiro Ismael!

― Sim, senhor! Entendido! E para onde devemos ir, Capitão?

Uma onda mais alta chocou-se contra o costado, invadindo o interior do bote e molhando o garoto. Ele sentiu a vista arder e levou as mãos ao rosto de imediato, o sal impregnando-lhe a boca. Sorriu sem jeito e tossiu.

― Ismael… ― disse, tossindo mais uma vez. ― Eu não gosto de quando o mar fica assim.

― É só o vento, meu Capitão… Nada que vá abalar a coragem de um autêntico lobo do mar!

Uma nova sucessão de ondas, mais fortes, atingiu-os pelo lado contrário, sem cerimônia, acumulando água no fundo da embarcação.

― Você está bem, filho?

O menino quis dizer que sim, mas foi traído por seu sorriso trêmulo.

― Aqui, guri, melhor vestir o colete.

Não estavam longe da costa. Dali, em meio às águas cinzentas que refletiam o céu, era possível enxergar a elevação onde viviam, a casinha branca encravada em uma floresta densa que, àquela distância, tinha um aspecto enegrecido.

― Você não vai pôr o colete também, pai?

Ele estava pronto a dizer que sim, mas num átimo deixou-se fixar nas mãos do garoto, naqueles dedos pequeninos apertando com força a borda do bote de madeira. Olhou para as próprias mãos que seguravam os remos, repletas de calos. Notou a aliança dourada apertando-lhe o dedo anelar. Uma nova onda golpeou a proa, seguida de outra, arrancando-o daquele devaneio.

― Segure firme, Capitão! Este é um mar para poucos!

Mais ondas, mais espuma, mais água para o fundo do barco. O vento parecia trazer um assobio estranhou, agourento.

― Vamos para a terra firme! ― disse, disfarçando o próprio desconforto. ― Lá poderemos procurar um tesouro.

A chuva precipitou-se, invencível, mansa de início, tornando-se logo dolorosa e incômoda como infinitas agulhas de gelo. O homem calou-se, passando a remar com vigor na direção da costa. O menino fechou os olhos, os dedos embranquecidos de frio ainda segurando a amurada.

Alguns minutos se passaram. Reféns da ondulação cada vez maior que ora ocultava, ora revelava a praia a algumas centenas de metros, viam surgir e desaparecer a areia, as palmeiras, as casinhas dos pescadores, tudo tão próximo e tão distante.

― Segure firme. Daqui a pouquin…

Uma onda espatifou-se contra o lado direito do bote, fazendo-o emborcar de imediato. Pai e filho arremessados às águas… Às ondas escuras.

O sal. Os olhos em chamas.

Nadou na direção de uma sombra.

Onde estava?

Ali, um vulto… Não.

Mais adiante. Rápido!

A visão embaciada sugeria braços se agitando na superfície e que sumiam na sequência.

O mar, aquele mar de chumbo monstruoso que agora os engolfava, criando miragens.

Mergulhou uma, duas, infinitas vezes.

Nadou na direção das profundezas, puxando as águas para trás de si, os pulmões prestes a explodir.

Onde está?

Onde está?

Não de novo, não de novo…

 O fôlego…

O ar.

O ar…

≈≈≈≈

Como de costume, sentiu-se arrebatado assim que entrou na livraria. Era um desses locais especializados em livros antigos, obras raras e edições esgotadas. Suas salas amplas faziam intuir um princípio de organização, com estantes bem montadas e exemplares dispostos em ordem alfabética.

Contudo, à medida que se avançava pelos corredores, rumo aos fundos, viam-se pilhas e mais pilhas crescendo sem qualquer padronização, volumes indistintos amontoando-se como tijolos de uma fortaleza em ruínas.

Impossível não amar aquele lugar.

O odor pesado do papel carcomido, as capas duras em alto relevo, as páginas amareladas das obras antigas, tudo naqueles livros rescendia a mágica. Com a devida atenção, quem quer que caminhasse por entre as prateleiras poderia ouvir vozes se desprendendo de cada um deles, ainda que abafadas pela poeira onipresente.

Aos dezesseis anos, Danilo não conseguia conceber a existência de um local tão inspirador, tão acolhedor e tão repleto de segredos irresistíveis. Não que fosse uma dessas pessoas que adquirem mais livros do que são capazes de ler. A esse tipo de tentação consegui resistir mediante férrea disciplina, absorvendo apenas as obras cujas premissas o encantassem logo de início, quer contidas no prefácio, na orelha ou na quarta capa.

Não bastavam resenhas, indicações de outros leitores ou mesmo a fama prévia desfrutada pelo autor. Danilo precisava ser conquistado, independentemente de qualquer coisa. Era essa sua condição. E uma vez que isso ocorresse, a leitura fluiria a passos largos, com a obra absorvida em plenitude. Páginas, parágrafos, linhas e letras, tudo consumido com avidez, como se sua existência dependesse daquele tipo de alimento.

Foi num dia desses, quando buscava algo diferente numa saleta dedicada a biografias que se deparou com um livro chamado “Mar do Silêncio”, de uma autora desconhecida chamada Júlia Lunardelli, publicado pela Companhia Editora Atenas.

Era um exemplar um tanto surrado. A capa era pouco inspirada, com o título em letras alaranjadas e uma imagem desfocada de um litoral deserto. Da lombada quadrada pendiam as folhas duplas costuradas em conjuntos idênticos, compondo delicadamente as pouco mais de trezentas páginas. No topo de cada uma, o nome da autora e o título alternavam-se entre as pares e as ímpares, guardando o texto principal, tudo impresso em uma fonte ultrapassada. Na orelha, uma pista sobre a trama:

“Quantos de nossos pecados podemos perdoar quando a morte se aproxima? Em São Tomé, vilarejo escondido na costa do Espírito Santo, Maria Cecília observa o mar. Aos noventa anos, única habitante de um casarão vazio, sente que seu momento derradeiro se anuncia e que é preciso buscar a própria redenção. É hora de resgatar suas raízes, de recordar sua história e suas escolhas. Sobretudo, é hora de expiar a culpa pela morte do filho tantos anos antes, afogado no mar durante um passeio de barco.

Com maestria, Júlia Lunardelli extrai…”

Sentiu-se perturbado pela premissa. Não porque parecesse melodramática demais ou sem inspiração, mas porque o fez recordar-se de sua própria infância, de seus próprios fantasmas, de seus próprios pesadelos.

Mas foi a dedicatória lançada na página 3 que lhe trouxe um gosto amargo à boca. Dizia simplesmente:

“Para Roberta,

Rio de Janeiro, novembro de 1980.”

Seguia-se uma assinatura ilegível, mas isso não importava. Roberta era o nome de sua mãe.

≈≈≈≈

As conchas estilhaçadas e a areia grossa não incomodavam mais os pés descalços. Os anos haviam se encarregado de reforçar a pele, “criar casca” como se dizia por ali, e, agora, Maria Cecília caminhava por toda extensão praia, mesmo nas regiões mais rochosas, com a mesma desenvoltura de pescadores experimentados. O coração, no entanto, permanecia um nervo exposto. Naquela noite, mais do que em todas as outras, ela se dava conta do quão vulnerável ainda era para os assuntos do amor.

Roubou uma garrafa e deixou a festa para trás. As mesmas pessoas, as mesmas conversas tacanhas, os mesmos dez tipos de peixes preparados de dez maneiras diferentes para no final ficarem com o mesmo gosto, a mesma aguardente instigando as mesmas brigas. Há um mês, tudo aquilo se apresentava como o evento mais divertido do mundo e não havia Palácio de Buckingham que a instigasse nem por um segundo a trocar São Tomé. Há um mês, Maria Cecília tinha, ou, só então se dava conta, pensava ter, Jorge. Mas, naquela noite de muita lua e pouca estrela, o belo marinheiro deixara bem claro que seu navio estava ancorado em outro cais e seria obrigado a abrir mão de sua costumeira polidez caso Maria Cecília insistisse nas investidas.

A ela restou o mar. Sentou-se na areia, perto de onde as ondas mansas da maré alta se desfaziam em espuma. Observou os barcos, o movimento ritmado das proas apontando ora para o céu, ora para a terra, a colcha de mariscos subindo pelos cascos com a paciência que só tem quem sabe que está com o tempo a seu favor. Teve vontade de atear fogo em todos eles, para chamar atenção, para conseguir pensar em outra coisa, para destruir algo inocente. Tomou mais um gole da cachaça e contemplou o eterno digladiar das águas contra as pedras. Isso geralmente a acalmava. Mas não naquela noite. Apenas Jorge teria esse poder, mas sua barba agora estava sendo acariciada pelas mãos odiosas de Leonor.

Maldita Leonor. Por que ela? Por que sempre ela?

Mais um gole.

Outro.

A garganta já não ardia.

Por que não roubou duas garrafas?

Maldita…

— A moça devia ter cuidado com o que pede para o mar. Mesmo que só em pensamento, às vezes o mar escuta. Às vezes o mar traz. E sempre o mar leva embora. Às vezes um tantinho a mais, às vezes um tiquinho a menos. Mas nunca que a onda volta para o oceano de mãos abanando.

Ao lado de Maria Cecília surgiu um menino que ela nunca avistara naquelas paragens. Vestia roupas simples e desbotadas e falava como se quisesse apressar a voz de homem que as cordas vocais ainda não estavam preparadas para entonar. Ébria e amargurada demais para sentir medo, tampouco para gastar saliva com apresentações irrelevantes, Maria restringiu-se a deixar a boca expelir os sentimentos que lhe tiravam o ar dos pulmões e lhe afogavam a sanidade:

— Pois se o mar me der o que eu quero, pode levar embora qualquer coisa depois.

— A moça tem certeza? – o menino sorriu, dentes pequenos e serrilhados enfileirados a perder de vista em uma boca impossível.

Maria virou-se para pegar a garrafa e, ato contínuo, atirou-a na direção do garoto, gritando “some daqui, seu enxerido”. O menino, no entanto, não estava mais lá. A adrenalina do momento insólito a devolveu de imediato à sobriedade. Ficou na dúvida se aquele diálogo havia ocorrido ou não, procurou por pegadas de criança, mas encontrou apenas algas cobrindo a areia como um desfile de mortalhas. Escutou a música vinda de longe, da festa que não tinha hora para acabar.

Pensou em Jorge.

Pensou em Leonor. Sempre ela, sempre Leonor.

Maldita Leonor…

— Sim, tenho certeza! – gritou para o mar.

O mar respondeu com uma brisa fria. E com o silêncio.

Sempre o silêncio.

≈≈≈≈

O badalar das seis, bem mais alto e mais agudo do que das demais horas, projetado nos áureos tempos para alertar aos clientes que, sim, a livraria precisaria fechar em algum momento, chegou para Danilo como o estalar de dedos de um hipnotizador. Já havia ficado totalmente absorto em outras leituras e, no fundo, era justamente esse efeito que buscava (e cada vez menos encontrava), de novo e de novo, em um livro antigo após o outro. Mas aquilo tinha sido diferente. Concluiu, meio a contragosto, que a melhor maneira de descrever a experiência seria utilizando os clichês onipresentes nas resenhas rasas que tanto desprezava: havia se transportado para dentro do livro, pôde visualizar todas as cenas como se fossem um filme e nem viu o tempo passar. Mais do que o mesmerismo literário, havia algo naquelas palavras que se conectavam diretamente com suas raízes, com sua alma, quase como um chamado, um pedido de desculpas ou, quiçá, de socorro. Não havia dúvidas, precisava terminar a leitura ainda naquele dia.

— Nossa, que estranho… esse livro não está no sistema – disse a balconista da livraria, encarando a tela preta e verde do computador por cima dos óculos. – Ou a menina nova esqueceu de cadastrar, o que não é difícil porque aquela ali só não esquece a cabeça porque está grudada, ou alguém largou aí e não falou nada. Ai, Danilo, quer saber – ela continuou, mostrando pressa para desligar tudo e fechar a livraria – leva esse de graça. Você merece.

Danilo estava tão empolgado que quase se esqueceu dos bons modos. Enfiou o exemplar na mochila e se lançou porta afora, só se dando conta de agradecer e se despedir já na calçada. A velha bibliotecária acenou e sorriu satisfeita: “essa juventude”, essa nova geração de leitores, não estava de todo perdida, afinal.

Teria lido mesmo em pé, mas recebera a dádiva suburbana de apanhar um ônibus ainda com lugares vagos, o que, no horário de pico, afigurava-se como um pequeno milagre. Retomou a leitura. Quanto daquele pacto velado com uma criatura fantástica era literal e o quanto era metáfora? Quanto daquela biografia era fruto da imaginação e das licenças poéticas de um ghost writer inspirado e quanto era verdade? Existia mesmo uma Maria Cecília? Júlia Lunardelli seria só um pseudônimo? As perguntas surgiam na mente, mas as respostas não importavam. Tudo o que queria era saber como a história acabava. Ao avançar algumas páginas, chegando quase ao terço final do livro, porém, veio a surpresa: as folhas estavam em branco. Virou-as para um lado, voltou, dedilhou as páginas feito crupiê percorrendo um maço de cartas. Percorreu com as pontas dos dedos a superfície do papel, tentando sentir o relevo de palavras invisíveis. Notou que, até o final, o nome “Júlia Lunardelli” continuava intercalado com o título “Mar do Silêncio” e os números das páginas também estavam lá, o que descartava a hipótese de uma prensa traída pela tinta no momento crucial do trabalho.

No auge da adolescência, já era velho o suficiente para saber que tal sequência de eventos não podia ser obra do acaso. Outrossim, ainda era jovem o suficiente para ter o ímpeto das soluções simples, que em sua ingenuidade costumavam se apresentar como o único curso de ação possível.

Danilo precisava ir a São Tomé.

≈≈≈≈

A passagem para o Espírito Santo lhe renderia algumas semanas sem almoço na escola. À mãe, disse que passaria o fim de semana numa excursão, o que não deixava de ser no mínimo uma meia verdade. Roberta jamais permitiria que ele fizesse aquela viagem, jamais permitiria que seu único filho, seu frágil Danilo, se aproximasse do mar. Ainda menos se soubesse que ele estava motivado por um livro misterioso, provavelmente escrito por alguém que ela tentava a todo custo esquecer.

Após horas intermináveis sacolejando em estradas pouco afeitas ao asfalto, Danilo desembarcou no ponto de ônibus disfarçado de rodoviária da aprazível São Tomé. Pelas indicações recebidas do vendedor de salgados que por ali perambulava com um isopor a tiracolo, concluiu que ainda teria que percorrer um bom trecho a pé até chegar à praia. Sem problemas, pensou. Sentia-se energizado pela aventura, excitado pelo mistério, como o protagonista de um livro jamais escrito.

Quando avistou o mar, porém, sentiu a coragem virar espuma em suas entranhas. Sentiu o gosto da água que lhe invadia boca e pulmões nos pesadelos, sentiu vontade de virar as costas e fugir dali para uma vez mais se refugiar no abraço caloroso de Roberta.

Mas ele continuou.

Sob o olhar curioso dos pescadores, escorregando aqui e ali com os tênis acostumados ao cinza da cidade, ele continuou. Diante do casarão, que, sim, estava lá, assim como no livro, assim como nos sonhos, uma dúvida boba acalentou momentaneamente a taquicardia: como a chamaria? Júlia? Maria Cecília? Quando a porta se abriu de repente, no entanto, veio a certeza do único tratamento possível:

— Vovó…

As rugas se esticaram e se contorceram, mas enfim cederam, permitindo que aquele rosto desacostumado a sorrisos oferecesse algo próximo de uma expressão amável. Com um misto de esperança e remorso, ela disse:

— Pronto para navegar uma última vez, Capitão Gancho?

Danilo teve um momento de hesitação.

– Vovó, a senhora faleceu quando eu tinha cinco anos. Eu me lembro como se fosse ontem. Viemos todos, depois do funeral o meu pai se embebedou com os meus tios. Agora a senhora está aqui, pedindo-me…

– Danilo, neste lugar não existe nem morte nem vida, menino. Ainda não adivinhou?

Ele lembrava-se da avó, principalmente da voz suave e do cheiro dos cozinhados. Era Maria Cecília. Tudo o resto na vida de Danilo era difuso. Lembrava-se de poucas coisas. Um livro que nunca tinha visto antes levara-o até ali.

Sabia que a avó estava certa. O seu destino era estar ali, naquele lugar.

– Bora.

– Me chama de Ismaela, rapaz. Vamos. Já perdeu demasiado tempo.

Orientou-o até um pequeno bote que o rapaz ajudou a levar para um mar revolto.

– Não temos coletes salva-vidas, vovó.

– Não precisamos, Capitão. Confie em mim.

Danilo confiava. Entraram no bote, ela com uma segurança aprendida por anos ligada ao mar, ele tremendo, tentando encontrar o equilíbrio. Por fim conseguiu pegar no seu remo e passar, a custo, a zona de rebentação das ondas. O pequeno bote elevava-se na vertical, ele agarrado firmemente à fina madeira da borda, com a sensação de estar a cavalgar um potro selvagem.

– Temos de voltar, vovó.

– Você chegou até aqui, Capitão. Não quer ver o que existe do outro lado?

Danilo estava tentado a recusar. Não, não queria ver o que existia do outro lado. Precisava de voltar a sentir terra firme debaixo dos seus pés. O barco deu uma guinada para a direita, ele deixou cair o remo à água. Maria Cecília manteve-se calma.

– É agora, Capitão. Prepare-se.

Prepare-se para quê, pensou Danilo, mas uma vaga mais forte confirmou-lhe as suspeitas e virou o barco. Tentou agarrar-se ao bote, mas sentiu-se subitamente pesado, como se tivesse trazido pedras nos bolsos. Chamou pela avó, mas ela não se via em lado nenhum. Quando perdeu as forças, foi engolido pelo mar.

≈≈≈≈

Quando Danilo acordou, sentiu-se extremamente cansado. Tentou abrir os olhos mas o excesso de claridade cegou-o. Um tubo que tinha enfiado pela garganta abaixo não lhe permitia falar. Ouviu vezes excitadas à sua volta. Percebeu ser a voz da sua mãe. Depois ouviu outras, mais calmas. Alguém mexia nos seus braços. Abria-lhe os olhos e apontava-lhes luzes. Demorou algum tempo para perceber que estava numa cama de hospital. Aos poucos foi ganhando consciência. Foi desentubado por mãos hábeis, e o alívio que sentiu superou a dor do procedimento. Pediu água. Tentou sentar-se na cama, mas o corpo estava demasiado débil.

– Você voltou, meu filho. Os médicos já não tinham esperanças, mas você voltou para mim.

– Fui só a São Tomé, mãe… Estive com a avó, na casa antiga.

Roberta sorriu, algo constrangida. A fala de Danilo era fraca e arrastada, quase incompreensível.

– A casa já não existe, Danilo. Nesse sítio existe agora um hotel. A sua avó faleceu há muito tempo. E você… lembra-se do acidente de barco que teve com seu pai?

Danilo disse que sim. Tinha lembranças vagas. Esse pesadelo visitara-o frequentemente.

– O seu pai estava bêbado. Foram para o mar em dia de tempestade. O barco naufragou. Ele tentou salvar-te, mas faleceu. Mesmo assim conseguiu evitar que o pior te acontecesse. Estiveste em coma durante cinco anos. Os médicos já não tinham qualquer esperança de que conseguisses acordar. Queriam desligar as máquinas. Eu recusei sempre. Não ia abandonar o meu filho. Vinha para aqui, lia-te todas as noites. Horas a fio.

Cinco anos em coma. Danilo digeriu lentamente a informação. Depois, olhou para o livro que tinha na pequena mesa branca ao lado da cama. Teve um choque quando descobriu era o Mar do Silêncio, de Júlia Lunardelli.

≈≈≈≈

Danilo estava deitado num colchão. O fisioterapeuta exercitava-lhe as pernas. Os músculos tinham mirrado durante o seu período de coma. As dores que sentia eram constantes e apenas a presença da mãe lhe dava alento para continuar. Isso e uma vontade visceral de voltar a andar e de retomar a sua vida. O assunto do livro não lhe saía da cabeça, mas sempre se sentira demasiado fraco para confrontar a mãe. Decidiu que era aquele o momento, torturado pelo fisioterapeuta, com o olhar fixo no teto.

– Mãe, fala-me do livro.

Roberta fez uma pausa para refletir antes de falar. Danilo estranhou.

– É apenas um livro.

– Ambos sabemos que não é só um livro. Quem é a Júlia Lunardelli?

– A Júlia era uma amiga que me pediu para escrever um livro sobre a nossa família. Eu contava-lhe as nossas velhas histórias de pescadores e ela queria muito escrevê-las. O livro nunca vendeu muito, e só é importante para nós. É a nossa história, a nossa alma. Agora já não somos pescadores, apenas o nosso espírito pertence ao mar. O mesmo mar que te queria levar. O mar que te prendeu a uma cama de hospital durante cinco longos anos anos quais eu deixei de viver, podia dizer mesmo que deixei de respirar, tanto era o alento que te queria dar.

– Ainda é viva?

Roberta abanou a cabeça com tristeza evidente.

– Tu estás aqui. É só isso que importa. E, de aqui para a frente, vamos deixar o mar sossegado.

– Sossegado e em silêncio. – Disse Danilo, gemendo do esforço mas cheio de vontade de enfrentar o futuro.

Sobre Fabio Baptista

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24 comentários em “Mar do Silêncio (Gustavo Araujo, Fabio Baptista e Jorge Santos)

  1. Fabio D'Oliveira
    30 de setembro de 2024
    Avatar de Fabio D'Oliveira

    Buenas!

    Dessa vez farei uma avaliação mais pessoal, apontando o impacto do conto em mim.

    Tecnicamente, esse conto está excelente. E a trama inicial também. Achei cativante demais o protagonista achar um livro, que leva o nome do conto, contando a história trágica de sua infância. Porém, o final do naipe “era tudo um sonho”, além de problemas em relação à idade do menino, causaram-me certo estranhamento. A segunda parte é okey, mas demora-se demais em algumas questões que, para mim, pareceram pouco interessantes.

    Mas, como disse no início, foi um dos contos mais fáceis de ler do desafio. Leitura fluída, algumas construções belíssima, além de ter uma abertura sensacional.

  2. Renato Puliafico da Silva
    21 de setembro de 2024
    Avatar de Renato Puliafico da Silva

    Conto coeso, cheio de passagens fragmentadas, mas que vão se conectando e apresentando uma imagem mais para o seu final, como um mosaico.
    As descrições do mar são bem envolventes, pude até sentir o gosto da maresia. A leitura é um tanto confusa no começo, em sua primeira vez. Mas lendo novamente, tudo vai ficando mais claro na mente. Os três autores estão de parabéns.

  3. Sílvio Vinhal
    21 de setembro de 2024
    Avatar de Sílvio Vinhal

    Uma história inicialmente confusa, mas que parece boa e suscita interesse em continuar, juntar o quebra-cabeças. Possivelmente, um dos contos que premie esse desafio com uma escrita que, talvez, de outra forma não seria possível.
    O terceiro autor teve uma ótima sacada, ao conseguir juntar os pedaços, e dar sentido a eles, pois só com a terceira parte a história fez algum sentido. Então, podemos dizer que nesse caso, a ilustração do desafio não se cumpriu. A terceira parte conseguiu até brilhar mais do que as outras duas, sem demérito para ambas.
    Notei alguns probleminhas no texto, como a voz da mãe, falando em segunda pessoa — algo um tanto descontextualizada. “Salvar-te”, “estiveste”, “conseguisses”, “lia-te”, diferente da personagem da mãe “inicial”.
    Parabéns pela participação no desafio. Desejo sorte!

  4. Victor Viegas
    21 de setembro de 2024
    Avatar de Victor Viegas

    Olá, Frankensteiners!

    ✨ Destaque: “Existia mesmo uma Maria Cecília? Júlia Lunardelli seria só um pseudônimo? As perguntas surgiam na mente, mas as respostas não importavam.”

    📚 Resumo: Danilo, na sua melhor versão de Capitão Gancho, vai navegar no mar com o pai, a melhor versão de Ismael. Eles sofrem um acidente no mar. Em passagens frenéticas de mudança de cenário, Danilo descobre um livro que, estranhamente, conta sua história. Ele volta para o litoral, vai navegar com a avó, na melhor versão de Ismaela, e depois descobrimos que o menino estava em coma.

    🗣️ Comentário: A estória tem um início muito interessante. Acredito que a alteração de ordem dos dois primeiros capítulos não mudaria muito o andamento do texto, mas não vejo isso como um erro, apenas eu sendo chato. Depois de terminar a leitura eu fiquei com a sensação que algo estava faltando e isso me deixou incomodado. A mãe parece ter uma função secundária, e poderia ser mais desenvolvida. Acredito que o aparecimento da avó deixou o texto com muitos personagens para poder desenvolver. E, no final, tudo ser um sonho foi um balde de água fria. Qual a importância da avó? Por que o pai não apareceu mais no conto? Júlia Lunardelli seria só um pseudônimo? São muitas perguntas. 

    💬Considerações finais: Os dois primeiros autores conduziram bem a estória. Eu consegui perceber a mudança na escrita, mas foi sutil. O terceiro autor foi para o caminho mais fácil e uma parte da estória era um sonho. Diria, um pesadelo. Parabéns pelo Frankenstein! Boa sorte!

  5. Victor Viegas
    21 de setembro de 2024
    Avatar de Victor Viegas

    Olá, Frankensteiners!
    ✨ Destaque: “Existia mesmo uma Maria Cecília? Júlia Lunardelli seria só um pseudônimo? As perguntas surgiam na mente, mas as respostas não importavam.”
    📚 Resumo: Danilo, na sua melhor versão de Capitão Gancho, vai navegar com o pai, a melhor versão de Ismael. Eles sofrem um acidente no mar. Em passagens frenéticas de mudança de cenário, Danilo descobre um livro que, estranhamente, conta sua história. Ele volta para o litoral, vai navegar com a avó, na melhor versão de Ismaela, e depois descobrimos que o menino estava em coma.
    🗣️ Comentário: A estória tem um início muito interessante. Acredito que a alteração de ordem dos dois primeiros capítulos não mudaria muito o andamento do texto, mas não vejo isso como um erro, apenas eu sendo chato. Depois de terminar a leitura eu fiquei com a sensação que algo estava faltando e isso me deixou incomodado. A mãe parece ter uma função secundária, e poderia ter mais envolvimento. Acredito que o aparecimento da avó deixou o texto com muitos personagens para poder desenvolver. E, no final, tudo ser um sonho foi um verdadeiro balde de água fria. Qual a importância da avó? Por que o pai não apareceu mais no conto? Júlia Lunardelli seria só um pseudônimo? São muitas perguntas. 
    💬Considerações finais: Os dois primeiros autores conduziram bem a estória. Eu consegui perceber a mudança na escrita, mas foi sutil. O terceiro autor, aparentemente, foi para o caminho mais fácil e uma parte da estória foi colocada com sendo um sonho. Diria, um pesadelo. Parabéns pelo Frankenstein! Boa sorte!

  6. Leo Jardim
    18 de setembro de 2024
    Avatar de Leo Jardim

    🗒 Resumo: um menino brinca com o pai num barco, mas um acidente acontece. Mais velho, ele tem pesadelos com o ocorrido. Depois encontra um livro que conta sua história. Vai tentar ver o que está ocorrendo, encontra a vó morta e vai pro mar novamente, mas tudo isso era sonho de um coma que ele jazia desde o acidente. 

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫): começa intrigante, se desenvolve com estranheza e se concluiu com o clássico “era tudo um sonho”. Não curto muito essa solução, mas sabia que aconteceria aqui nesse certame.

    Além disso, fiquei confuso com muitos nomes no conto pra se lembrar (Júlia, Roberta, Maria Cecília, Jorge, Leonor, Ismael, Danilo, Capitão Gancho… rs). Tive que voltar algumas vezes pra lembrar quem era quem. Tentem ajudar o pobre leitor da próxima vez. 

    Outra coisa que me incomodou deveras foi a questão temporal. O menino tinha cinco anos quando estava no barco e ficou cinco de coma. Então, quando acordou não era um adolescente, mas uma criança de dez?

    📝 Técnica (⭐⭐⭐▫▫): tem um ótimo começo e os autores seguintes se esforçaram para manter a bola no alto, com uma leve baixada de vez em quando. A última parte tem alguns problemas de revisão e diálogos mais expositivos.

    ▪ Páginas, parágrafos, linhas e letras, tudo consumido com avidez, como se sua existência dependesse daquele tipo de alimento. (Sim, te entendo, Danilo. Como entendo…)

    ▪ Há um mês, Maria Cecília tinha, ou, só então se dava conta, pensava ter, Jorge (parece certo, mas está confuso)

    ▪ Ouviu *vezes* excitadas à sua volta.

    ▪ cinco longos anos *ponto?* anos quais eu deixei de viver

    ▪ gemendo do esforço *vírgula* mas cheio de vontade de enfrentar o futuro.

    🧵 Coesão (⭐▫): não percebi a troca entre o primeiro e segundo autor. A última parte deixou mais visível o recorte. 

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): se parar pra pensar, não tem nada de muita novidade no conto, mas faz uma mistura interessante , principalmente no início.

    🎭 Impacto (⭐⭐▫▫▫): o final, acordando do sonho, infelizmente diminuiu muito o impacto, que só não foi pior por causa de bom início. 

  7. Thales Soares
    18 de setembro de 2024
    Avatar de Thales Soares

    O começo deste conto é bem legal. Vemos Danilo conversando com sua mãe, logo após acordar de um pesadelo envolvendo o mar. Parece que ele tem pesadelos assim com certa frequência. Essa questão entre sonho e realidade parece ditar o rumo da história.

    Logo em seguida, vemos outra cena, com Danilo agora criança, navegando em um bote com seu pai. No barco eles começam a brincar de assumir papeis, onde o garoto é o Capitao Gancho e o pai é o Ismael (espero que não seja aquele do Marcas de Sangue que tomou um tiro na cabeça). Então chega uma tempestade, que interrompe a diversão, e Danilo e seu pai são arremessados na água. Parece que essa é a origem do trauma e dos pesadelos de Danilo. Gostei bastante de toda a descrição dessa parte, e para mim foi o melhor momento da história, com uma construção de cena muito bonita, ótimos diálogos, e descrição fluida. Eu gostaria que o conto inteiro seguisse por essa onda.

    Mas no trecho seguinte Danilo já um adolescente, e está numa livraria que contém obras antigas e raras. Encantado pelos livros, ele descobre uma obra chamada Mar do Silêncio, de uma Julia alguma coisa… e o enredo desse livro parece refletir sua própria história. Esse paralelo de vida real com obra de livro, onde os dois se misturam, com muita metalinguagem, me lembra bastante obras como o quadrinho Inescrito e o filme Argylle. Não é algo que me fascina, mas dependendo de como for trabalhado, pode render frutos interessantes. A história do livro é sobre uma véia chamada Maria, que vive num vilarejo chamado São Tomé, e está se sentindo culpada pela morte de seu filho, que morreu afogado num passeio no mar. Mas o que chama atenção nesse livro é a dedicatória à Roberta, mãe de Danilo.

    Danilo sente que tem algum caroço nesse angu, e decide embarcar numa viagem até São Tomé, para investigar mais a fundo essa questão. Chegando lá, ele relembra de memórias esquecidas. Ao chegar na casa do livro, Danilo tem um encontro com Maria, que o chama de Capitão Gancho (mas na verdade é o fantasma dela, eu acho, como é revelado mais pra frente na história), relembrando seu vínculo com seu passado no mar e aquele trauma que ele tem.

    Então, apesar do trauma, Danilo decide entrar num barquinho com sua avó, e lá ele enfrenta ondas furiosas. Acho que ele está tentando enfrentar os traumas, ou algo do tipo… não sei se consegui identificar com clareza as motivações dele aqui. Então ele é levado para o fundo do mar, revivendo o trauma, até que do nada a cena corta e Danilo está num hospital. Aqui descobrimos altas revelações, como o fato de que a véia tava morta, que Danilo estava em coma já há 5 anos, desde que seu pai bêbado e louco o levou para fazer um passeio no mar, e ali morreu.

    Roberta revela que o Mar do Silêncio na verdade é um livro baseado nas histórias de sua própria familia, escrito por uma amiga, Julia… achei um pouco confusa essa parte, e não entendi exatamente o porquê de tudo isso. Na verdade, acho que me decepcionei um pouco, pois eu esperava que a explicação para tudo isso fosse algo um pouco mais místico e louco, e na verdade foi algo bem pé no chão e um pouco enfadonho. Mas o livro parece ser uma espécie de ligação entre a vida consciente de Danilo e o seu trauma da aventura no mar com o pai pinguço.

    A história então termina de uma forma que se encaixaria muito bem com o primeiro desafio deste ano, que é uma promessa de recomeço, onde Danilo está otimista para o futuro, e deixa o passado para trás.

    Achei que os três autores conseguiram mesclar muito bem os seus estilos, e eu não consegui detectar onde termina um e começa outro. Mas no final das contas, apesar de ser um conto bastante competente, bem escrito, e com recursos interessantes de memória e traumas, não foi algo que me apeteceu muito. Não achei ruim… mas também não me senti encantado pelo enredo.

    Mas de qualquer forma, desejo boa sorte aos autores!

  8. rubem cabral
    17 de setembro de 2024
    Avatar de rubem cabral
    • Enredo: bom conto. Danilo tem pesadelos com seu afogamento, descobre um livro misterioso e resolve viajar para escrever sua história, que simbolicamente está em branco nas páginas finais. Descobre-se depois que ele estivera em coma nos últimos 5 anos e que quase tudo fora delírio desse período.
    • Escrita: boa escrita, pouquíssimos erros e linguagem às vezes namorando com a prosa poética. A metalinguagem do livro dentro do conto foi bem bacana.
    • Personagens: Danilo foi um personagem interessante. Não tem muitas nuances, mas foi bastante bom.
    • Coesão: mediana. Os três autores escrevem bem, mas o terceiro escreveu em português europeu, acho que poderia ter replicado o português brasileiro de até então.

  9. vlaferrari
    17 de setembro de 2024
    Avatar de vlaferrari

    Sou do partido do crer que, em textos falando de sonhos, pouca coisa faz sentido e muita coisa se dispersa. A deixa, desde o primeiro autor, foi muito interessante, como se as “portas da percepção” fossem descerradas e os autores/autoras que vieram na sequência poderiam “experimentalizar”. No meu pobre entendimento, houve coesão e os mesmos problemas normais de revisão e as tais “amarras” da quantidade de palavras/caracteres de sempre. Mesmo “engessados” (ou deveria dizer “em coma”?) a trama foi bem engendrada e o resultado ficou bem legal.

  10. Luis Guilherme Banzi Florido
    15 de setembro de 2024
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Olá, autores! Tudo bem? Primeiramente, parabéns pela participação num desafio tão dificil e maluco quanto esse!

    Esse conto me deixou com sensações mistas, pois ao mesmo tempo em que parecia que tinha algo muito grandioso sendo construído, ao final fiquei com a sensação de que tentou ser grandioso demais para o espaço disponível para as limitações do fato de serem 3 autores diferentes. Enfim, vamos às partes:

    Início: o início é muito promissor, com uma cena muito boa de pai e filho no mar, bons personagens, diálogos vívidos e realistas, uma bela relação de pai e filho (aliás, já me adiantando, me soou muito estranho que o autor final tenha dito que o pai estava bêbado, pois em nenhum momento o início aparenta isso. Na verdade, parece um pai amoroso e carinhoso, que é pego de surpresa por uma tempestada imprevista). Não sei dizer em que ponto a história passa para o segundo autor (o que testemunha a favor da boa coesão entre parte 1 e 2), mas achei que foi ousada demais a inclusão da cena na livraria, que se eu tivesse que apostar, diria que aconteceu ainda no autor 1.

    Meio: o meio trabalha a questão da dualidade entre vida real e história ficcional do livro “Mar do Silêncio”, e, a meu ver, faz um ótimo trabalho no que o autor 2 precisa fazer nesse desafio, que é desenvolver as ideias propostas pelo autor 1 e incluir elementos que ajudem a história a caminhar para o clímax. Vale dizer, no entanto, que ele deixou um caminho espinhoso para o autor final, que ficou com a ingrata função de resolver todo um emaranhado de situações complexas e colar tudo, levando a um final satisfatório.

    Fim: infelizmente, o final não me ganhou tanto. Eu já começo repetindo que o autor 3 tinha um desafio bem difícil, pois autores 1 e 2, apesar de terem feito um ótimo trabalho, deixaram um grande abacaxi para o terceiro descascar. Tinha muitos elementos e situações complexas para levar a um clímax e conclusão em apenas 1500 palavras, e infelizmente, apesar de compreensível, o recurso do “foi tudo um sonho de um coma” foi bastante anticlimático. O autor 3 até trabalha bem isso, conectando as pontas deixadas soltas pelo autor 2, mas o final não gera impacto.

    Coesão entre os autores: o autor 1 preparou o barco e içou a vela, o autor dois colocou tudo a bordo e falou “boa sorte”, e o autor 3 saiu para alto-mar sem mapa e com a ingrata função de atravessar o oceano. Acabou se perdendo e foi levado pelas ondas. Em outras palavras: mais ou menos o que eu disse no comentário do final: apesar de uma boa coesão na escrita e na técnica entre os 3 autores, que escrevem num nível elevadíssimo, achei que os autores 1 e 2 deixaram um trabalho complexo demais para o terceiro, que acabou recorrendo a um recurso mais simples para resolver a situação. Nenhum dos 3 tem culpa, e cada um trabalhou bem na sua respectiva parte, mas esse conto deu a impressão de, como diz a expressão, “abocanhar mais do que consegue engolir”.

    Nota final: bom.

  11. Priscila Pereira
    15 de setembro de 2024
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, autores! Tudo bem com vocês?

    Começo: Ótimo começo, bem visual, muito bem escrito, apresentando os personagens e um mistério, mas com muita liberdade para o próximo autor usar como quisesse (eu quase peguei esse conto pra continuar, mas não conseguia decidir qual rumo tomar, acho que a tal liberdade foi demais)

    Meio: O autor foi para um rumo que eu nunca teria imaginado e decidiu focar no livro, aproveitando o mistério e acrescentando mais mistério ainda, levando a crer que o menino que sofria o acidente com o pai e que poderia ou não, ser o Danilo, estava morto e aparecia como o espírito do mar para fazer um trato de vida e morte. O autor escreve muito bem e tem uma tendência a complicar muito a vida do próximo coleguinha (onde eu já vi isso antes?😏)

    Final: Não é que eu não tenha gostado… admito que foi um pouco anti clímax, mas eu entendo totalmente que estava muito difícil mesmo de terminar e amarrar todas as pontas soltas, tanto dos pesadelos recorrentes, como o acidente de barco, como o livro, a personagem do livro fazendo um pacto com o mar, o garoto que poderia ou não ser o menino do acidente de barco e o fantasma do mar e a avó que não tinha aparecido antes…. Sinceramente, acho que você se saiu muito bem!

    Coesão: Na escrita está bem coeso, claro que levando em conta que foi escrito por três pessoas diferentes. Mas no conteúdo acho que tem um desequilíbrio, tem muito mistério para pouco tempo/palavras para a resolução.

    Visão geral: Achei um conto com muito potencial mesmo, se não tivesse limite de palavras.

    Parabéns aos autores!

    Boa sorte no desafio!

    Até mais!

  12. Jorge Santos
    15 de setembro de 2024
    Avatar de Jorge Santos

    Olá, trio.

    Estamos aqui perante um conto complexo. Um thriller psicológico que parece ser estruturado como sonhos dentro de sonhos, como no filme Inception. E, tal como neste filme, senti-me algo perdido. Para rematar, vem o último autor e lança a “bomba”, revelando que toda a trama não passa de um verdadeiro sonho, num exemplo típico de autor desesperado. Enfim…

    Como um todo, o conto funciona. O suspense é sempre presente, o leitor fica preso, que é, afinal, o objetivo de qualquer texto.

  13. claudiaangst
    13 de setembro de 2024
    Avatar de claudiaangst

    Meus cumprimentos e vamos ao que interessa.

    Neste desafio, usarei o sistema ◊ TÁ FEITO ◊ para avaliação de cada conto.

    ◊ Título = MAR DO SILÊNCIO – O título não entrega muito do enredo. Temos o mar e o silêncio. Algo poeticamente misterioso.

    ◊ Amálgama = No geral, acredito que os(as) três autores(as) conseguiram entrosar bem as suas narrativas.

    ◊ Fim = Os fins justificam os meios? Talvez… E a ordem dos fatores altera o produto? Permita-me começar pelo fim, observando o impacto causado na leitura.

    O final voltou ao começo. Do sonho(pesadelo) veio e ao sonho(coma) voltou. Ter utilizado o recurso deus ex-machina talvez tenha sido a decisão mais fácil ou até mesmo coerente dentro do apresentado no contexto anterior. A relação entre os personagens com o tal livro ficou um pouco confusa para mim, mas talvez tenha sido falta de atenção.

    ◊ Entremeio = A narrativa seguiu o tom onírico, sobrenatural, deixando em aberto se os acontecimentos eram reais ou não. As páginas em branco sugerem que o destino de Danilo ainda está para ser escrito (e não é que foi elaborado pelo(a) autor(a) 3?)

    ◊ Início = O conto começa com o despertar de Danilo após um pesadelo. Cria-se a partir daí uma expectativa de algo misterioso, que fica entre a realidade e o plano onírico. O que Danilo tem a ver com o livro encontrado?

    ◊ Técnica e revisão = Conto muito bem escrito, linguagem clara, mas cuidadosa, apresentando grande habilidade na construção de frases. Escrita madura e fluida.

    Pequenos lapsos no quesito revisão:

    […] um assobio estranhou > […]um assobio estranho

    […] consegui resistir > […]conseguiu resistir

    • repetição de chamado/chamada

    […] por toda extensão praia > […] por toda extensão da praia

    Ouviu vezes excitadas > Ouviu vozes excitadas

    […] durante cinco longos anos anos quais eu > […] durante cinco longos anos, anos quais eu

    […] gemendo do esforço mas cheio de vontade de enfrentar o futuro. > […] gemendo do esforço, mas cheio de vontade de enfrentar o futuro.

    ◊ O que ficou = A sensação de ter mergulhado em um sonho, sendo resgatada pelas palavras habilidosas dos(as) três autores(as).

    Parabéns pela participação e boa sorte!

  14. Fernando Cyrino
    10 de setembro de 2024
    Avatar de Fernando Cyrino

    Olá, amigos e/ou amigas, cá estou eu a navegar, capitão Gancho corajoso, pelos mares encapelados. Disse corajoso? Pois é, acho que menti, sinto medo. Que conto bonito, poético, vocês me trouxeram. Claro que se trata de algo bem pessoal, mas senti que se trata de uma linda alegoria sobre o mar, os medos inerentes, com a respectiva coragem em enfrentá-los e, a literatura. Uma mistura que deu uma boa liga. Aliás, tudo a ver com a coragem de enfrentar os “mares nunca de antes navegados” de termos um escritor, ou seria escritora, de além-mar a encerrar a história. Um conto bem escrito, as paredes da narrativa se encontram firmes, uma história que trás coesão. Claro que se nota a mudança da passagem de bastão entre os três autores, mas ela é feita de forma leve, sem solavancos e tropeços. Fica mantida a fluidez da narrativa e isto é legal. Ponto para vocês. Obrigado por me trazerem essa sua história que me faz lembrar o mar, seus encantos, chamados e perigos. Fiquem com o meu abraço e os votos de que tenham muito sucesso no desafio.

  15. Gustavo Araujo
    10 de setembro de 2024
    Avatar de Gustavo Araujo

    Evidentemente, o onírico permeia este conto desde o prólogo, onde conhecemos Danilo, vítima mirim de pesadelos recorrentes (cujo conteúdo desconhecemos).

    Em seguida, entra-se na história. Um menino e um homem estão num barco. Pai e filho. Não sabemos seus nomes. Uma tempestade repentina leva o bote a virar e ambos são jogados na água. Um deles (não sabemos quem) parte em busca do outro enquanto remói um pensamento: de novo não.

    Novo corte. Danilo (o menino dos pesadelos) agora tem dezesseis anos e é fanático por sebos e livros velhos. Ali encontra o livro “Mar do Silêncio”, de uma autora chamada Julia Lunardelli. O romance é sobre auto-perdão, sobre uma mulher chamada Maria Cecilia que perdera um filho afogado num passeio de barco em São Tomé. Isso chama a atenção de Danilo porque o faz recordar de seus pesadelos na infância. Esse estranhamento é reforçado pela dedicatória: para Roberta, alguém com o mesmo nome de sua mãe.

    O segundo autor entra em cena e joga suas fichas em Maria Cecília, a personagem do livro “Mar do Silêncio”. Foi uma manobra interessante, porque nós, leitores, não sabemos se estamos lendo o que seria um trecho de “Mar do Silêncio”, ou se estamos, de fato, acompanhando uma pessoa real. De todo modo, vemos uma Maria Cecília, na praia de São Tomé, envolta em questões amorosas – está embriagada de ciúmes de Jorge com uma certa Leonor. É quando um menino aparece, provocativo, para sumir na sequência.

    Novo corte. Voltamos à livraria. Danilo tinha acabado de ler um trecho de “Mar do Silêncio”, o que lhe rendeu a impressão de ter sido transportado para a história. É quando nós, leitores, nos indagamos: teria sido ele a aparecer para Maria Cecília?

    Enfim, ele leva o livro consigo e fica indagando sobre o que havia lido, se era verdade ou não, se Maria Cecília era um alter-ego de Julia Lunardelli… Surpreende-se, ao prosseguir na leitura, com páginas em branco. Isso o leva à decisão inevitável: precisa ir a São Tomé.

    Chega então o terceiro autor. Aqui resgata-se a figura de Roberta, mãe de Danilo, reforçando-se a relação dela com Maria Cecília/Julia Lunardelli. Fato é que Danilo chega a São Tomé e sente-se desconfortável com a visão do mar. Encontra a casa descrita no livro e que via presente em seus sonhos.

    Ali encontra sua avó, que é um fantasma. Ela explica a ele que aquele lugar todo pertence ao além. Danilo se dá conta de que a avó era Maria Cecília e que o livro que ela escrevera o trouxe até ali. É quando ela o chama para um passeio de barco, chamando-o pelo apelido de infância. Novamente o barco vira e tudo se apaga.

    Quando Danilo desperta, está num hospital. Esteve em coma por cinco anos, desde o acidente com o pai. Ao lado da cama, um exemplar de “Mar do Silêncio” repousa indolente. Ao indagar à mãe sobre a obra e a autora, ele fica sabendo que Julia fora apenas uma amiga que colocou por escrito antigas histórias de pescadores contadas por Roberta.

    Bem, creio que o primeiro autor lançou as bases de uma história complexa demais para o desafio. Talvez tivesse sido melhor deixar apenas a cena do barco ou da biblioteca, porque do jeito que ficou, acabou limitando muito a margem de manobra dos autores que o sucederam.

    De todo modo, o segundo autor trabalhou muito bem os elementos iniciais, aproveitando o clima de mistério meio sobrenatural inaugurado pelo primeiro, traduzidos pela sensação de familiaridade de Danilo com o romance “Mar do Silêncio” – especialmente em função dos pesadelos de que padecia na infância – e com sua busca por respostas em São Tomé.

    O terceiro autor, com um limite de 1500 palavras, conseguiu amarrar as pontas de modo adequado. Ainda que se possa torcer o nariz para a saída “deus ex-machina” – de que tudo era um sonho – percebe-se, no arremate, uma boa ligação com as demais partes. O conto ficou redondo e, para usar a palavra da moda, coeso. Parabéns a todos e boa sorte no desafio.

  16. Leandro B.
    9 de setembro de 2024
    Avatar de leandrobarreiros

    *Toda e qualquer crítica refletem mais um ponto subjetivo meu do que qualquer outra coisa. Outro leitor pode achar o oposto.

    Está entre as minhas favoritas no desafio. A construção inicial da história que, creio, foi até mais ou menos a descoberta do livro, talvez até um pouco depois, foi particularmente engajante. Uma boa mistura de linguagem poética, mas também sem muito devaneios. Acho que esse é um dos meus estilos preferidos para leitura.

    O segundo autor manteve a pegada, elevando a coisa um pouco mais ao poético ou, melhor dizendo, ao onírico, como é possível ler em retrospectiva. Fez um bom trabalho de movimentar o enredo, adentrar no livro.

    Particularmente satisfatório de fato ler um pouco da história no tomo misterioso.

    De todo modo, o autor 2 moveu as peças um pouco mais para a conclusão do terceiro autor.

    E ela veio, na minha opinião, de maneira eficiente. É muito difícil usar a cartada do “era um sonho” em uma história, independente do formato. Conto nos dedos as vezes que eu de fato gostei da solução (e não mencionarei nenhuma para evitar spoilers de outras obras) mas aqui pareceu-me funcionar perfeitamente bem. O terceiro autor modifica um pouco do que propôs o segundo, a princípio, de uma histórica mais fantástica para uma onírica.

    Funcionou.

    Parabens a todos pelo trabalho.

  17. Fabiano Dexter
    9 de setembro de 2024
    Avatar de Fabiano Dexter

    Primeiramente vou dizer que gostei bastante da história, o Conto se desenrolou de uma forma agradável e não foi uma leitura cansativa ou pesada. Em compensação, é perceptível que a história passa na mão de mais de um autor, com mudanças na forma de escrita e alguns momentos um pouco confusos. A conclusão, inclusive, de que era tudo um sonho não explica muita coisa, como quem era o Garoto ou qual foi o custo do “pacto” com o mar.
    O modo como o todo se desenvolve, trazendo uma troca de informações entre um sonho, um livro e a “realidade” é bem interessante e bem explorada, inclusive pelo terceiro autor, que parece ter tido alguma dificuldade apenas no arremate final da história. A ideia do coma destoou do restante da narrativa, ainda que talvez tenha sido a única forma possível de se concluir a história.
    O resultado final ficou bom, mas certamente algumas revisões e conversas entre os autores pode tornar o conto muito melhor!

  18. Fabio Baptista
    9 de setembro de 2024
    Avatar de Fabio Baptista

    X Sensação após a leitura: eis que o temido “era apenas um sonho” apareceu…

    X Citações pro bem e pro mal:

    x trazer um assobio estranhou
    estranho

    x A esse tipo de tentação consegui resistir
    conseguiu

    x por toda extensão praia
    da praia

    x Me chama de Ismaela, rapaz
    Isso destoou demais…

    x Ouviu vezes excitadas à sua volta
    vozes

    X Conclusões:
    O conto é muito bem escrito, cada autor(a), à sua maneira, foi bastante competente na parte técnica.
    Acho que esse era o segundo conto mais difícil de continuar (o primeiro era “A Praia”, ou seja, o mar não tava pra peixe nesse desafio… waka waka waka). Há um garoto com pesadelos recorrentes amparado por uma mãe amorosa. Em seguida, a descrição do pesadelo, onde os tratamentos se restringem a “pai” e “filho” e seus apelidos de faz de conta (de Moby Dick e Peter Pan), ou seja, em nenhum momento temos a garantia de que era o mesmo garoto (Danilo) no barco. Depois, o menino já crescido encontra um livro na biblioteca com uma dedicatória para a mãe. Ele lê uma parte desse livro e decide que deve ir ver o final da história “in loco”.

    Até aí tudo fragmentado, como peças de um quebra-cabeça espalhadas na mesa. Embora a história continuasse muito em aberto, a ótima escrita elevou muito as minhas expectativas… cheguei a pensar que sairia daqui um dos clássicos do EC.

    Na terceira parte, a boa escrita permanece, mas fiquei com impressão de um final que, na pressa para encontrar respostas, acabou recorrendo ao caminho mais “fácil” do “era tudo um sonho”… bom, era tudo um coma, mas dá no mesmo. Não ficou de todo ruim, o coma entra de forma orgânica na história e não de modo a invalidar totalmente tudo o que ocorreu antes, mas, ainda assim, fiquei com a sensação de uma grande oportunidade perdida.

    BOM

  19. Pedro Paulo
    8 de setembro de 2024
    Avatar de Pedro Paulo

    COMENTÁRIO: Este texto me pareceu sofrer de mal similar a “Siameses”, mas ainda pior, pois, embora a introdução não facilite estabelecer para onde a história iria, houve uma sessão intermediária totalmente desconectada do que foi previamente estabelecido, forçando a autoria seguinte a experimentar algum encaixe que mais dificultou a execução da trama – a qual, como citei, não foi bem estabelecida anteriormente. Assim sendo, a leitura foi difusa e confusa. Não se sabia para onde a história estaria indo ou mesmo o que estava sendo lido, tornando a experiência enfadonha.

  20. André Lima
    5 de setembro de 2024
    Avatar de André Lima

    Para mim, é um bom conto que sofreu com um redirecionamento arriscado que, infelizmente, não funcionou tanto para mim.

    A atmosfera dos primeiros parágrafos é incrível. Tem uma pegada cinematográfica. O conto se inicia formado por imagens, por fotografias. A interação entre os personagens pai e filho é singela, doce, nos transporta para o bote.

    Há, no catalisador do conto, um mistério. Os pesadelos recorrentes, a relação do menino com o mar… Pensei que o conto continuaria nessa pegada intimista, trazendo-nos para um drama com pitadas de terror.

    Por fim, não foi bem o que nos trouxe. Mas a história está amarrada, nenhuma ponta solta. Tudo foi perfeitamente conjugado pelos 3 autores. O final, apenas, não funcionou para mim. Aí entra uma questão pessoal. Eu esperava um desenrolar mais emocionante e elaborado.

    O fim me pareceu bastante expositivo também. Num diálogo se explica todo o plot da história. Isso, para mim, é um “defeito” técnico que independe de meus gostos pessoais.

    Mas, no fim das contas, o meu critério será sempre técnico. Tento, ao máximo, afastar minhas questões pessoais (Sei que é impossível, mas caminho sempre nesse sentido).

    Portanto, devo dizer que, apesar de muitos erros de revisão (Não atrapalham a imersão), o conto é tecnicamente muito bom.

    A sinergia dos 3, por fim, deu um bom trabalho!

  21. JP Felix da Costa
    5 de setembro de 2024
    Avatar de JP Felix da Costa

    Como é que três pessoas diferentes, sem contacto entre si, conseguem criar uma história coerente com tantas camadas?

    Danilo, uma criança, faz-se ao mar com o pai. Este estava bêbado, não teve atenção às condições meteorológicas e acaba por se afogar quando o barco naufraga. Danilo fica em coma durante 5 anos. Durante esse tempo vive uma vida dentro da própria mente. A princípio apenas populada por pesadelos onde revive a tragédia, uma e outra vez mas, com o passar do tempo, constrói uma realidade muito própria que é alimentada pelas leituras que a mãe faz de um livro sobre a história da família. Por esse livro ficamos a saber que a avó Maria Cecília pede ao mar o desejo de ficar com Jorge mas, mais tarde, paga-o de volta quando o mar lhe leva a vida do filho, pai de Danilo. Na sua mente, Danilo não consegue ler o resto do livro provavelmente porque a sua mãe ainda não o tinha lido para ele. Na procura de respostas regressa às origens, reencontrando a avó que o leva de volta ao mar, recriando a vez em que ele foi com o pai. Sendo ela a causadora da “maldição” da família é através dela que Danilo reencontra o caminho para sair do coma. Danilo quer saber mais sobre o livro, sobre o passado, mas a mãe pede-lhe para encerrar tudo isso, ao que ele concorda. Decidem deixar o mar sossegado e em silêncio (simbolizando, parece-me, que a história da família não é para ser mais falada).

    Gostei imenso deste conto. Não dá para analisar de forma superficial, já que contém, entre outros, apontamentos metafóricos e meias histórias que só se revelam quando se revisita a história completa. Gostei da referência ao Moby Dick (Ismael) e de, de certa forma, o tão temido “fora tudo um sonho” ter sido mesmo usado, mas com mestria.

    Para um trabalho a três: Soberbo.

  22. Kelly Hatanaka
    30 de agosto de 2024
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Olá, caros colegas entrecontistas!

    Primeiramente, parabéns pela participação corajosa e desapegada.

    Vou avaliar e comentar de acordo com meu gosto, não tem muito jeito, afinal não tenho conhecimento nem competência para avaliar de forma mais “técnica”. Ou seja, vou avaliar como leitora mesmo. Primeiro, cada parte separadamente, valendo 1 ponto cada. Depois, a integridade do resultado, valendo 3 e, por último, o impacto da leitura, valendo 4.

    Começo

    Uma escrita belíssima. Daniel, criança tem pesadelos recorrentes. Ele sofre um naufrágio com o pai e não da pra saber se eles se salvam. Em seguida, sabemos que Daniel se salvou pois ele, mais velho, está em uma livraria e encontra um livro dedicado a sua mãe. Aqui cabe uma pergunta. A dedicatória dizia “para Roberta”. Como ele sabia que era para sua mãe? Roberta é um nome bastante comum… Se bem que, no final, sabemos que Daniel estava “sonhando” durante seu coma, então até faria sentido. Será que foi de propósito, ou esta foi uma mini “mancada” do autor 1 que foi bem explorada pelo autor 3? Nunca saberemos.

    Meio

    Um trecho do livro é revelado, em que Maria Cecília pede uma “maldição” ao mar, Danilo fica com o livro, que está meio em branco e ele resolve ir para São Tomé.

    Fim

    A avó de Daniel o leva de barco e ele acorda do coma. O tal livro era so algo que a mãe lia para ele toda noite, algo escrito por uma amiga.

    Coesão

    Muito boa, não dá para perceber a troca de autor. Os autores 2 e 3 mantiveram o mistério lançado pelo autor 1. Um pequeno porém a respeito da coesão é que o autor 2 mandou um trecho do livro que insinuava algum drama significativo envolvendo Maria Cecilia, mas isso foi deixado de lado pelo autor 3. Fez falta saber o que aconteceu com Leonor e Jorge.

    Impacto

    Um bom conto. Mas senti falta de uma amarração mais clara entre as partes. Algumas coisas soaram meio aleatórias demais, como o trecho do livro sobre Maria Cecília, meio largado, a avó levando-o de volta do coma (por que não o pai?), a fala reticente da mãe a respeito de Julia Lunardelli.

  23. bdomanoski
    25 de agosto de 2024
    Avatar de bdomanoski

    Quesitos avaliados: Entretenimento, Originalidade, Pontos Fracos

    Entretenimento Quando realmente deixei tempo pra ler, vi que a história era bem entretiva e cativante. O que a princípio me fez abandonar a leitura, foi que me pareceu faltar ação. Mas na verdade, é apenas o tipo de escrita mais parado e descritivo. Após certo esforço, foi aprovado.

    Originalidade Alta. A trama misturando sonhos, lembranças, afogamentos, com livrarias foi pra lá de original. Uma mescla improvável e bem sucedida. Instigou a continuação da leitura de forma natural.

    Pontos Fracos Creio que deram uma pecada no final. Não sei se estou correta de estar reclamando assim levando em consideração que são três mãos e etc, mas teve contos com finais ótimos. Achei que ficou um pouco confuso. “Me chame de Ismaela”, pra mim a história perdeu o tom aí. Alguns acontecimentos finais não tiveram muito nexo. Ficou bem estranho.

  24. Antonio Stegues Batista
    21 de agosto de 2024
    Avatar de Antonio Stegues Batista

    MAR DE SILENCIO

    O menino Danilo sai com seu pai para passar de barco, o barco vira, o pai morre, o menino se salva, mas fica em coma por 5 anos, quando ele acorda tem quantos anos? 14? Já adulto, Danilo encontra um livro escrito por Júlia que faz a dedicatória para sua mãe, Roberta. Há um salto no tempo, onde aparece Maria Cecília, que ama Jorge, que ama Leonor. Maria está na praia quando aparece um menino que fala que o mar concede desejos. Presume-se que o mar concedeu um desejo a Maria, Leonor morreu e Maria ficou com Jorge. Maria Cecília é avó de Danilo, o menino que quase morreu afogado. Jorge seria o avô? Enquanto ele está em coma, Roberta lê o livro para ele e Danilo interpreta como sendo um sonho. Quem é Ismael? Que relevância tem na história? Ou é um nome aleatório, mas que conexão há com Ismaela e a avó Cecília? Primeiro Roberta diz a Danilo que Julia escreveu a história da família, depois diz que é um livro sem importância. Por que Roberta queria esquecer de Julia? Acho que aconteceram lapsos no enredo, alguns fatos confusos, ou eu que não entendi. Nem o sorriso hiperbólico, o que me vem à mente é ciência geométrica em vez de figura de linguagem. Tento imaginar a forma da boca num ricto de espanto e não é fácil. Por fim e ao final, tudo foi um sonho.

E Então? O que achou?

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Publicado às 7 de julho de 2024 por em Começo, meio e fim e marcado , , .