EntreContos

Detox Literário.

O Rei que da Morte Fugia (Pedro Paulo)

A arca que mantivera toda a existência acima das águas destrutivas do dilúvio era agora uma montanha à parte na cordilheira em que Utnapishtim, seu construtor, passara a viver. Em madeira lustrosa, a enorme embarcação reluzia como uma estrela solitária na vastidão escura e poeirenta do submundo. Sob essa luz e com seus olhos já bastante acostumados à escuridão, Utnapishtim avistou o homem que esperava, centenas de metros abaixo, empenhado na difícil escalada até ali, a qual conduzia a mãos nuas. Em nenhum momento o barqueiro se mexeu para facilitar a chegada de seu visitante.

Utnapishtim se sentava em um rochedo que despontava em uma das extremidades da superfície plana daquele trecho da montanha. Do outro lado, despontou o homem. A pele de um leão o cobria dos ombros à parte detrás das coxas e o que havia sido a cabeça da besta tinha sido arrumada num capote cujas presas se fechavam em cima e embaixo da cabeçorra de seu portador, como se a abocanhasse. Exceto por esse manto bestial, o homenzarrão estava nu. Duas figuras escuras e esqueléticas se agarravam a ele, tão descarnadas e sujas que não permitiam discernir feições. Imploravam aos sussurros, enroscavam os braços e pernas ao redor do corpanzil do homem, em carícias ou apenas pelo desespero de se segurar.  O homem se desvencilhou das criaturas e as atirou para trás. Caíram sem emitir som. Ele caminhou até meio caminho de Utnapishtim, que finalmente o saudou.

─ Ó, proeminente dos reis!

O homem suspirou.

─ Sábio.

─ A taberneira não respondeu à sua pergunta?

─ Ela disse que todos homens devem morrer.

─ Então por que veio me ver?

─ É o único homem imortal. Quero saber o seu segredo.

─ Os deuses me concederam essa graça.

─ Eu vim de longe. Adentrei a caverna que é o berço do sol, confabulei com um casal de escorpiões e segui o leito seco e pedregoso do rio deste submundo miserável… por favor, compartilhe o seu segredo.

─ Conte-me a sua história e, talvez, mostre-se digno de algo próximo à imortalidade.

─ O senhor é o sábio, já sabe de tudo e sei que a minha fama me precede. Conhece a minha história.

─ Mas não a conheço como contada por você. Pois a história que um homem tem a contar de si mesmo, quando narrada com honestidade e coragem, é a mais valiosa de todas que se podem contar a seu respeito. Sente-se e me conte.

O homem obedeceu e, uma vez sentado, pareceu sentir pela primeira vez todo o peso de sua viagem, bem como toda a tristeza e medo que o acompanharam em sua jornada. Não eram sentimentos que vieram junto dele. Seguiram-no de longe em cada estrada sinuosa, escalada íngreme e escuridão indecifrável. O que os mantivera afastados até então havia sido a sua inquebrantável determinação que o voltava completamente ao caminho e ao destino. Mas ele havia chegado e agora, forçado a relembrar, o pesar se sentava junto de si.

Gilgámesh, que o abismo cruzara, contou sua história.

***

Esta é uma época em que reis, mais do que usando coroas e trajes cerimoniais, distinguem-se dos súditos pela pura grandeza que os acompanha. Os cidadãos de Uruk reconheciam o seu soberano quando o viam caminhar por entre as ruas estreitas e arenosas da cidade. Embora muita admiração cercasse Gilgámesh, também havia receio. Muitos lembravam da época em que aquele rei lendário reivindicava para si o direito de ter a primeira noite de todas as noivas e atormentava os rapazes com desafios e provações de força em que ele era sempre o inevitável vencedor. Quando o viram caminhar sozinho, lembravam-se disso, mas os mais atentos sabiam para onde ia.

Desde que conhecera Enkidu, o entretenimento de Gilgámesh deixara de ser aqueles sobre os quais reinava. Apenas um igual podia acompanhá-lo em seu insaciável gosto pela aventura e naquele dia tinha mais um desafio para esse amigo. Enkidu o recebeu com um abraço. Os dois homens eram iguais em porte e estatura, embora de pelugem no rosto Enkidu tivesse apenas uma barbicha que se espichava até o peito. Além disso, duas pontas amareladas emergiam da de sua testa, com linhas espiraladas percorrendo a sua extensão. A esposa de seu amigo, a sacerdotisa Samhat, não se mexeu ou emitiu palavra para receber Gilgámesh. Entretanto, também não ignorou a sua chegada, mostrando todo o descontentamento em seus lábios franzidos e com o punho pressionado contra a cintura.   

─ Sacerdotisa, meus súditos geralmente se curvam ou pelo menos me cumprimentam, não sabe?

─ Provavelmente por medo do tirano que se esconde por debaixo desses sorrisos fáceis.

Gilgámesh riu enquanto marido reprovava a esposa, relanceando-lhe um olhar por cima do ombro. Então Enkidu instou o amigo a revelar o motivo de sua visita. O rei explicou que a deusa Inanna o visitara e o propusera em casamento. Mas ele sabia bem o desdém e o escanteio que ela reservava aos maridos dos quais se cansava, então rejeitou a proposta e retrucou com outra: não se juntaria a ela como esposo, mas deitar-se-ia ao seu lado como amante a toda requisição, começando daquele momento. Gilgámesh precisou interromper sua história para permitir ao amigo rir. Enkidu ainda retomava o fôlego quando perguntou.

─ E o que ela fez?

O rei encolheu os ombros. 

─ Ela me disse que à noite me enviaria a morte sobre quatro patas e me esbofeteou com tanta força que fui parar no Eufrates.

─ Por isso está todo molhado?

─ E com o queixo doendo bastante. O que acha da minha proposta?

─ Sair à noite e enfrentar alguma criatura divina cujo intento é extinguir tudo o que a opor?

Gilgámesh assentiu e Enkidu sorriu. À noite, encontraram-se fora das muralhas de Uruk. Só a morte levava ao submundo, mas muitos diziam que a mesma experiência poderia ser obtida por quem pisasse fora dos muros da cidade quando o sol já se punha. Sob o luar, o deserto esfriava e o vento atingia como uma navalha, sussurrando misérias e maldições aos viajantes que ousavam atravessar o deserto na escuridão. Ignorando isso, os dois caminhavam no sentido contrário da cidade, cada vez mais omissos nas trevas.

─ Não acredito que veio todo empacotado.

Enquanto Gilgámesh se vestia apenas com um saiote plumado e uma bandana branca e azul, seu amigo tilintava peças de bronze aqui e ali.

─ Eu é que estou incrédulo que veio tão despreparado para a morte prometida por uma deusa. Ao menos sabemos o que esperamos?

O rei se sentou no chão.

─ Sendo divino, deve vir dos céus.

Enkidu achou plausível e se sentou ao lado do amigo. Sob um panorama pontilhado de estrelas e cindido pela foice dourada que era a lua minguante, os dois companheiros aguardaram. Horas adentro da madrugada, o rei apontou para as estrelas, resfolegando em excitação.

─ Lá!

Distinguiram que duas estrelas cessaram seu piscar para brilharem intensamente. Na escuridão da noite perceberam se formar ao redor daqueles dois pontos luminosos o crânio amarelado de um touro cujos chifres irradiavam como relâmpagos e, de fato, quando aquela besta desceu dos céus em seu trote, o estrondo de suas passadas ecoou no deserto apagado como mil trovões. Exceto pela cabeça, o corpo era musculoso como o de um boi forte e bem alimentado e, por debaixo de sua pele escura, nebulosas reluziam uma infinitude de cores. Em resposta ao avanço da criatura, Gilgámesh, rei de Uruk, deu dois passos à frente. 

O encontro dos dois desnivelou a terra a ponto de desviar o curso do rio, provocando uma pequena enchente. O terremoto se fez sentir na cidade e todos os súditos gritaram em uníssono pedindo ajuda aos deuses, mas, sobretudo, pedindo pelo rei. Mas o soberano não estava na cidade e, de fato, se não fosse ele, o Touro Celeste teria passado pela muralha frontal e feito de Uruk uma ferida aberta no deserto mesopotâmico. Embora seus pés tivessem rachado a terra e riscado a areia alguns metros a partir de onde estava, esse foi o único recuo naquela noite. Todos os músculos daquele corpo que mil homens não bastariam para opor trabalhavam para impedir o Touro de avançar, segurando-o pelos seus chifres elétricos. A princípio, Gilgámesh manteve a cabeça baixa, rosnando pelo esforço que empregava para pará-lo. Mas quando enfim o teve impedido e viu as patas da criatura triscarem o chão em desespero, o rei, este a quem estar cabisbaixo nunca foi opção, ergueu o olhar, exibindo ao seu oponente um sorriso selvagem que não parecia humano ou divino, mas completamente animalesco.

Enkidu estava logo atrás e, entre ele e o rei, estava o touro.

***

Os heróis de Uruk trouxeram a cabeça chifruda do Touro Celeste para dentro da cidade e foram recebidos com grande festa, mas acima, os deuses não ficaram contentes com a derrota e decidiram que, se a morte não desceria a eles, viria de dentro. E também concluíram que se a morte os teria, um deles precisava ficar para aprender a mensagem. Quando Enkidu adoeceu a ponto de não conseguir se levantar, Gilgámesh esteve ao seu lado o tempo inteiro, sem dormir e atendendo a todas as demandas do amigo, instando-o com piadas e um bom-humor que, dia após dia, esmorecia na medida em que percebia no amigo a palidez dos cadáveres.

Enkidu morreu doze dias depois, magro e tão descorado que em pouco lembrava o homem que havia sido. Foi apenas ao colocar a mão sobre o peito do amigo, sentindo costelas onde antes se pronunciavam músculos e, enfim, reconhecendo que ali o coração já não batia, que Gilgámesh compreendeu que o seu amigo havia morrido. Mas aquele sequer parecia com Enkidu. O rei não havia permitido que ninguém a não ser ele e Samhat entrassem e já havia dois dias da morte daquele homem. O cheiro também já começava a denunciar o tempo e a viúva implorava ao rei que deixassem enterrar o corpo. 

Gilgámesh estava surpreso, pois ali, diante do cadáver do amigo, não sentia tristeza. Estava enojado. Estremecia diante da possibilidade de ter o mesmo destino. Ao deixar a casa, deparou-se com uma multidão. Lembravam-se de sua época de tirania, quando imploraram aos deuses para que dessem algo que o parasse e, como resposta, foi concebido do barro Enkidu, o único a igualar Gilgámesh em combate e perspicácia. O mesmo temor de antes podia ser visto nas faces de seus cidadãos, mas dessa vez o rei percebia.

Chamou todos de ingratos e abandonou a cidade. No deserto, vestido apenas com a pele de um anima, Gilgámesh se recordou da primeira vez que havia ouvido a falar de Enkidu. Era mais animal do que homem e vivia mais as bestas selvagens do deserto, dois chifres longos e o corpo cheio de pelo. Agora era Gilgámesh a viver entre os animais no grande nada amarelado entre Tigre e Eufrates. Foi a primeira vez que sentiu a falta de seu amigo e, também, a primeira vez que entendeu a jornada que o esperava.

***

─ Então sou digno, sábio?

─ Não cabe a mim dizer, só aos deuses.

Os punhos de Gilgámesh estalaram alto o bastante para se fazerem ouvir em todo o submundo. Utnapishtim levantou uma sobrancelha.

─ Eu não vou morrer.

─ Por que não? Não é um homem como qualquer outro, mas é, afinal, um homem.

─ Sou um rei. Me é devido reinar por toda a eternidade.

─ E o seu reino?

O rei não soube o que responder. O sábio continuou.

─ Um reino não é apenas templos, palácios e muralhas. Um reino é feito de pessoas mortais. Um reino não é nada se não houver outros ao seu redor e a tentativa de se expandir e conquistar os demais eventualmente o levará à ruína. Nenhum reino é eterno e, se você for, Gilgámesh, o que será de você quando não houver mais reino sobre o qual reinar?

O homem que se pretendia eterno estava sem palavras. Não era o cansaço ou falta de obstinação em perseguir o seu objetivo que o emudecia. Simplesmente não planejara a eternidade que almejava.

─ Todos os homens precisam morrer.

Mais do que a falta de resposta o silenciava. Já não pensava na sua morte ou em evita-la mas em seu amigo Enkidu, com o qual nunca mais conversaria e com quem já não poderia contar para nenhuma viagem ou aventura. Ao falar, estava evidente que Gilgámesh se esforçava para não chorar. Sua voz embargava e apenas uma palavra saiu.

─ Por quê?

─ Para fazer algum sentido da vida, pois não há nada mais além disso. Todo homem deixa algo para trás. Homens nunca vivem mais do que devem, pois é ao seu legado que cabe essa tarefa.

Gilgámesh não falou mais nada ou se moveu do lugar. Utnapishtim resolveu perguntar e suas palavras saíram como um lamento.

─ Então continua a quere a imortalidade?

─ Sim ─ o rei também parecia lamentar.

─ Desafio-te, então. Fique acordado por sete dias e sete noites, Se conseguir, pleitearei junto aos deuses pela sua imortalidade.

Lembrado dos doze dias de agonia que passara junto ao seu amigo moribundo, Gilgámesh consentiu. Mas àquela altura o luto e a exaustão da mais longa viagem de sua vida não o acompanhavam. Quando seus olhos se fecharam, uma lágrima comprimida entre os cílios inflou até escapar e deslizar pela bochecha, abrindo caminho pela poeira do seu rosto tão obstinadamente quanto o próprio Gilgámesh ao atravessar as sombras do submundo.

***

Acordou com o balançar suave da canoa. Estava deitado com o rosto virado para o céu e entre as mãos estava uma flor silvestre. Uma voz feminina falou.

─ Utnapishtim suplicou para que eu te desse. Não te dará a imortalidade, mas te devolverá a juventude se ingeri-la.

Reconheceu pela voz, que, embora soasse solitária, parecia um coro, tendo em si a mesma musicalidade.

─ Inanna.

Agora sentado, divisou um ponto luminoso no horizonte. Uruk. Aquele farol no deserto era o maior dos templos construídos, dedicado à deusa que agora lhe servia de remadora.

─ Por favor, pare. Não quero voltar para lá.

─ Por que não?

─ Eles não vão me aceitar.

─ E que palavra eles têm em te aceitar ou não? É rei deles.

─ E o que é um rei sem o seu reino?

Inanna lhe sorriu o mais gracioso dos sorrisos, do mais límpido marfim.

─ É por fazer essa pergunta que eles te aceitarão de volta.

Gilgámesh soube que a deusa não pararia e soube, também e talvez pela primeira vez, que diante da vontade dos deuses ele não podia. Com um suspiro, deixou a flor da juventude escoar junto das águas do rio, sem perceber o olhar de aprovação que Inanna o lançava. Quando chegaram às portas de Uruk, a deusa confessou.

─ Eu mesma estou ansiosa, rei. Também passei um tempo longe e não sei se eles me amarão da mesma forma que antes.

Ele sorriu para ela e lhe deu a mão. Inanna abriu suas asas brancas e pareceu tão grande quanto o próprio Gilgámesh. Voaram juntos até que se encontrassem no topo da muralha. Pousaram e toda a cidade, do comerciante ao sacerdote, do escravo ao guerreiro, todos pararam para vê-los. O rei e a deusa ouviram seus súditos gritarem.

Era aclamação.

19 comentários em “O Rei que da Morte Fugia (Pedro Paulo)

  1. Renato Silva
    11 de dezembro de 2021

    Olá, tudo bem?

    Vejo aqui uma releitura da Epopeia de Gilgamesh, já em seu ato final, quando busca pela imortalidade. O flashback narra os eventos em que ele e seu amigo Enkidu enfrentam grandes desafios propostos pelos deuses, principalmente Inana.

    Você fez uma boa pesquisa, pois todos os elementos estão bem colocados no conto; da descrição da cidade aos nomes dos principais personagens. Apesar da fidelidade com os eventos descritos na epopeia, apresentou um final mais “alternativo”, com Gilgamesh abrindo mão com certa facilidade pela busca da imortalidade e se juntando a Inana e voltando juntos para Uruk. Não vi problemas neste final.

    Minha única ressalva é como o flashback foi colocado, mas nem é um problema em si, apenas gosto pessoas. Eu, particularmente, não gosto do formato “Começa no presente. Rápida introdução. Entra flashback. Narração de todos os fatos linearmente. Termina flashback. Ato final no presente. Prefiro vê-lo distribuído conforme a “necessidade” entre da narrativa. Enfim, foi mais uma opinião. E já li muitos contos nos desafios com este formato, mas não faz o meu gosto. Quebra a narrativa e causa certa confusão, às vezes.

    Boa sorte.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Renato!

      Apenas para alimentar um pouco essa discussão, eu não sei como me sinto sobre essas realocações temporais na história. Quando comecei a pensar na melhor maneira de escrever o conto e algumas questões foram se respondendo na minha cabeça, eventualmente cheguei a “como começar a história” e essa me pareceu a melhor forma. A imagem de Gilgámesh chegando exausto a submundo foi uma das primeiras que me ocorreu. E fico feliz que tenha notado a mudança que fiz à história.

      Obrigado pelo comentário!

  2. Felipe Lomar
    11 de dezembro de 2021

    Um conto muito bom. Tem começo, meio e fim e uma moral subentendida que é muito bem trabalhada. Eu diria, porém, que fica difícil, assim como em outros textos do certame, distinguir o mito original do conto criado, então acho que a originalidade fica comprometida.
    Boa sorte.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Felipe!

      Obrigado pelo comentário. De fato, ao escolher recontar a história seguindo de perto o enredo, imaginei que poderia ser criticado pela falta de originalidade.

  3. Jorge Santos
    10 de dezembro de 2021

    Olá. Esta é uma recriação das histórias de Gilgamesh, um dos primeiros mitos escritos, que serviu de base tanto para a bíblia como dos clássicos gregos. É uma discussão sobre a humanidade, a fama e a Glória. Ao observar a morte do amigo Enkidu, Gilgamesh descobre o que realmente importa na vida. Após essa constatação, é tornado deus.
    Gostei da forma como a história foi construída, mas encontrei alguns problemas com a gramática. A caracterização das personagens está equilibrada e tem fluidez. Os diálogos são simples e adequados, sem o coloquialismo que encontrei noutros textos deste desafio.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Jorge.

      Obrigado pelo comentário!

  4. Cícero G Lopes
    8 de dezembro de 2021

    A abertura é maravilhosa, enxergamos os cenários e embarcamos na história, esperando grandes aventuras e reviravoltas… E vem a sensação de que falta algo. Todas as informações sobre a epopeia de Gilgámesh, as reflexões sobre a validade e necessidade de imortalidade e a compreensão de que rei e reino são vínculos e também, que as relações com divindades donas de poder são complicadas e instáveis. Nada disso tira a sensação de que ainda falta algo. O autor revela-se um estudioso e seu domínio de escrita é exuberante. Mas faltou… algo. Um lance mágico, um encanto a mais… ou, é mais provável que eu sou um chato!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Cícero!

      Não foi o único a comentar por essa falta de impacto, como apontei na minha resposta ao Antônio.

      Obrigado pelas suas impressões!

  5. Kelly Hatanaka
    5 de dezembro de 2021

    Oi Sin-leqi-unnini.
    Minha avaliação será feita com quatro critérios: tema (2 pontos), correção/escrita (2 pontos), criatividade (3 pontos), personagens (3 pontos).
    Tema (2): Perfeitamente dentro do tema, fala de mitos mesopotâmicos.
    Correção/escrita(1,5): Excelente, muito correta, fluida e rica em detalhes. A ressalva fica por conta do final que, apesar de não ser ruim, me pareceu fora de lugar. Não combinou com o resto da história. Entendo que a perda de Enkidu teve seu peso na transformação de Gilgamesh, mas não parece ter sido o caso, aliás, a perda de Enkidu é que parece ter empurrado Gilgamesh em busca da imortalidade. Então, por que ele desistiu de sua busca?
    Criatividade(3): Uma história inventiva e que permite uma discussão filosófica sobre a mortalidade e a solidão.
    Personagens(2,5): Muito bem definidos, com características bem desenhadas. O único porém foi o final, que me pareceu incoerente com a jornada de Gilgamesh. Ele estava tão obstinado em vencer a morte, o que o levou a desistir tão subitamente de algo que a retardaria?

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Kelly!

      A crítica ao final também apareceu em outros comentários, mas não é algo que eu mudaria. É justamente a única escolha original que me permiti fazer. Na epopeia, a tal erva da juventude é subtraída de Gilgámesh por um deslize, não é cedida e ele tem que lidar com a frustração de perder essa última oportunidade de ir contra o tempo. Entretanto, são três fatores que me fizeram escrever como se fosse uma opção dele:

      O primeiro foi o limite de palavras. Não tinha como incluir a cena da perda da erva, mas eu a esbocei na minha mente e concluí que mesmo com essa intervenção, meu Gilgámesh se mostraria até satisfeito com a perda. A segunda é que, ao início da jornada, o que motiva o rei a buscar a imortalidade era um sentimento puramente egoísta. Ele sempre tinha visto Enkidu como um igual e ao invés de compreender a morte do amigo, passou a temer o que seria a sua morte. Mas eventualmente o luto o alcançou e a tristeza suplantou o ego, dando lugar à humildade. Esta é a primeira transformação. A segunda é a compreensão e aceitação de seu lado humano. Gilgámesh é dois terços divinos e um terço humano e uma das marcas indeléveis do tempo é a morte. Divino em seus feitos, o rei teve que aprender que em sua vida não poderá escapar disso que é comum a todo homem. Quis deixar implicado que de algum modo isso o faria um rei melhor, já que sua nova forma de ultrapassar a mortalidade seria por deixar um legado.

      Agradeço muitíssimo pelo comentário.

  6. Lucas Suzigan Nachtigall
    5 de dezembro de 2021

    E ago que eu considerava bastante improvável: temos dois contos inspirados na mitologia suméria (o Torre de Babel não conta)! E dois contos centrados em Gilgamesh, com participação especial de Enkidu. Fiquei surpreso com essa constatação.
    Acho que o conto está bem legal. Tem passagens muitos bonitas e bem escritas, enquanto outras estavam boas ou medianas.
    Acho que algumas partes , apesar de bonitas, estavam artificiais demais (o diálogo do “E o que é um rei sem o seu reino?”), mas considero que a média do conto estava boa, sim.

    • Lucas Suzigan Nachtigall
      5 de dezembro de 2021

      Ah, sim
      Lembrei
      A primeira parte (antes do primeiro “***” estava fraquinha; Talvez fosse questão de dar uma reavaliada nela.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Lucas

      Engraçado. Eu gostaria de ter sido mais sucinto nesse diálogo, mas, ainda assim, gosto desse trecho sobre o rei e o seu reino. É meio que a catarse da jornada.

      Obrigado pelo comentário.

  7. Emanuel Maurin
    4 de dezembro de 2021

    Sin-leqi-unnini, firmeza?
    Que conto da hora! Mano, logo de cara tu manda a descrição das vestes de outro mano com os panos de um leão. Que fita muito louca, vidrei nos dentes do bichão caindo na cabeça, mano de Deus, que descrição foi essa? Essa descrição foi a mais fodona que li até agora. E a arca?, coisa mais linda, toda lustrosa. E o seu timoneiro e tal. Caraca, malandro, e as águas?, o colorido?, a magia? Você chupou uma balinha pra descrever essas coisas, né?, seu danadinho. To curtindo a maior mitologia de todas. O Dilúvio, Mitou! Mito! É tanta criatividade, que causa um “pá e bola” em quem lé. É essa fita da lua minguante como foice dourada? “Sob um panorama pontilhado de estrelas e cindido pela foice dourada que era a lua minguante, os dois companheiros aguardaram.” Nessa descrição mais que da hora, você viajou grandão na imaginação. Pra não dizer que só mandei flores, teve um trecho de dialogo que não tinha movimentação, fora isso, sua trama beira a perfeição. Boa sorte no desafio.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Emaurin!

      Ri bastante com o seu comentário, colega. Não tomei uma balinha sequer, acredita? Mas confesso que é um barato escrever uma história desse tipo porque todos os superlativos são válidos!

      Agradeço pelas impressões.

  8. Antonio Stegues Batista
    1 de dezembro de 2021

    O conto é centrado em Gilgamesh, que deseja a imortalidade. Gilgamesh é o herói de um antigo poema Mesopotâmico, narrações reunidas e copiadas por Assurbanipal, rei assírio, 690 a. c- 627 a.c. Foram gravadas em tabuinhas de barro, encontradas por arqueólogos. Utnapistim é o Noé sumério que tem a mesma história sobre o Diluvio. Aqui eu não sei quem copiou quem. A história dele foi gravada em uma laje que se encontra no Museu Britânico. Estou falando tudo isso, para mostrar como é fascinante a Arqueologia e a história da Bíblia, que eu li, não tanto como religioso, mas com interesse científico.
    O autor fez uma boa pesquisa para criar o conto. Achei que a pesquisa foi excelente, a ambientação é boa, boa escrita, enredo dentro do tema, mas me pareceu que faltou algo, principalmente no final, sem impacto. A decisão de Gilgamesh foi frustrante. Me pareceu que aconteceu tudo aquilo para nada. Acho que estou sendo exigente demais, rsrs. De qualquer forma, parabenizo o autor pela estrutura do conto, pela pesquisa e o cuidado para desenvolver todos os detalhes e referências históricas. É um bom conto, menos o mote rsrs.

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Antônio!

      Muito obrigado pelas impressões. Sabe que é uma das três pessoas a comentar da falta de impacto do texto? Um outro entrecontista também comentou de sentir algo faltando e uma amiga com quem sempre compartilho meus contos falou do mesmo. O pior é que os três têm minha cumplicidade, eu mesmo também não achei um texto muito forte. Ao mesmo tempo, também achei que toca em temas bastante interessantes e que consegui passar por eles. De todo modo, fico feliz por seu comentário, sobretudo por ter mencionado a pesquisa, que fiz rapidamente, mas que me deu base para escrever o conto.

  9. Sidney Muniz
    30 de novembro de 2021

    Bem, antes de começar deixarei aqui como estarei avaliando cada conto: Distribuirei 40 pontos em minha avaliação da seguinte forma:

    Título: 3

    Enredo: 5

    Personagens: 5

    Originalidade: 5

    Gramática: 5

    Impacto: 5

    Ambientação: 5

    Narrativa: 5

    Extra: 2 ( A cada uma nota máxima o autor recebe extra 0,4, ou seja se eu julgar que o desenvolvimento dos personagens é nota 5, ganha 0,4. Para ganhar os 2 pontos tem que ganhar 5 notas 5, título não conta para o extra.)

    As notas estarão em um segundo comentário para que a moderação libere quando for permitido!

    Com relação adequação do tema será acrescido a nota 0 caso eu julgue não se enquadrar no tema e 5 caso se enquadre em minha opinião. 8 ou 80!

    —————————————————————————————————————-

    Vamos para minha avaliação, lembrando que ela é apenas pessoal e não tem o intuito de denegrir a imagem do autor(a), apenas quero ser sincero e mostrar no que pode melhorar, afinal estamos em constante evolução:

    Título: O rei de que da morte fugia – De longe o melhor título dessa edição. Amei!

    Enredo: A primeira parte, confesso me cansou um pouco, mas o enredo fecha muito bem na segunda parte da história, me ganhando completamente, com um final que me encheu de satisfação. Num geral adorei!

    Personagens: Personagens muito bem construídos, o autor(a) soube nos contar essa história. Amizade, companheirismo, amadurecimento, a verdadeira força do texto está nos personagens. Parabéns!

    Originalidade: Trata-se de uma história já contada, mas que tem muita coisa que o autor(a) soube incrementar e isso mostra a originalidade nessa releitura.

    Gramática: Chamou todos de ingratos e abandonou a cidade. No deserto, vestido apenas com a pele de um anima, – animal? ─ Então continua a quere a imortalidade? querer?. Apenas alguns deslizes, nada que apague minha impressão de que é um autor(a) já cascudo, que sabe o que faz.

    Impacto: O texto tem seu impacto, isso é óbvio, pois ele passa essa mensagem de amadurecimento que diz tanto sobre tudo. A ideia de um rei que tem uma mudança tão drástica em sua forma de agir, a redenção, o perdão, o poder da amizade e de um bom exemplo. Mesmo sendo uma história já contada, tem sua profundidade.

    Ambientação: Excelentes descrições, o autor(a) tem uma facilidade tremenda de nos apresentar tudo.

    Narrativa: Como disse a primeira parte me travou um pouco, mas ainda assim a narrativa beira o impecável. É muito bem realizada, de verdade! Só posso parabenizar, a leitura foi prazerosa!

    —————————————————————————————————————-

    Considerações finais:

    No mais desejo sorte no desafio, fico feliz que esteja escrevendo e buscando esse tipo de certame onde aprendemos e ajudamos dando a opinião sincera de nosso “eu leitor” a respeito do trabalho de colegas escritores! Obrigado pela oportunidade de ler e opinar a respeito de seu trabalho!

    • opedropaulo
      14 de dezembro de 2021

      Oi, Sidney! Acredita que só agora eu vi o seu comentário, passados dias desde finalizado o desafio?

      Muitíssimo obrigado pelas suas impressões, que me foram tão lisonjeiras! Agrada-me em especial que tenha mencionado alguns dos temas implicados na epopeia que tentei trazer para cá e, também, que tenha reparado nos personagens. É a mudança dentro de Gilgámesh que sintetiza a história desse herói.

      No Facebook comentou que o meu conto é muito bom em minha publicação onde brinquei de receber o segundo lugar. Pois bem, não é apenas para ser educadamente recíproco, mas ocorre que dei duas notas máximas, uma em um conto desclassificado e a outra foi justamente no seu, que se posicionou vencedor. Parabéns, abraços!

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Publicado às 27 de novembro de 2021 por em Mitologias e marcado .
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