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Detox Literário.

A Princesa de Creta (Berenice)

Eu queria contar uma história de amor. Vocês vão gostar, eu espero. Porém, antes de começar, eu queria avisar a vocês que é uma história um pouco diferente do que vocês estão acostumados. Não é uma história sobre grandes desafios enfrentados pela pessoa amada, embora haja algo assim aqui e ali. Mas não é sobre isso. É uma história sobre o encontro puro e livre de duas almas, que encontraram a companhia perfeita para a eternidade. Uma história de amor dos tempos antigos, quando víamos os deuses antigos andando entre nós, e quando sentíamos aquele encanto presente no mundo. É a história de Ariadne e Dionísio.

“Dionísio?”, vocês vão me perguntar, pensando em como um deus conhecido por orgias, bebedeiras e sua liberdade e libertinagem, seria capaz de amar alguém. Mas sim, ele ama. E não é um amor transitório e efêmero, mas um amor sincero, eterno e, acima de tudo, puro, livre e feliz.

Mas uma coisa de cada vez, não é mesmo? Vamos do começo.

Dionísio você já deve saber quem é. Nascido mortal, filho de Zeus e Sêmele, o deus do vinho, das bebedeiras, festa, do êxtase, do teatro e da liberdade insane é bastante conhecido. Acho que dispensa apresentações. Mas poucos devem se lembrar de Ariadne, pois ela é personagem secundária de outra história, e pouco lembrada por si mesma.

Herdeira do Rei de Creta, Ariadne era, como muitos de nós, apenas uma mortal. Uma princesa, certamente, o que não pode ser desprezado, mas ainda sim uma mortal. Porém, infelizmente, parecia que estava legada a ser uma eterna personagem secundária de uma história que não era a sua. Seu pai, o grande Minos, reinava sobre a grande potência militar do Egeu à época. Era tido como um monarca extremamente justo, e governava com as bênçãos de Zeus.

Creta havia sido vitoriosa em uma guerra contra a cidade de Atenas poucos anos antes com a ajuda dos deuses, e impora aos derrotados um duro tributo: a cada nove anos, os atenienses deveriam enviar sete rapazes e sete moças para serem lançados ao lendário e inexpugnável Labirinto para serem devorados pelo Minotauro como sacrifício.

Considerando o tributo como humilhante aos atenienses, um jovem herói se levantou contra a tirania cretense. Teseu era seu nome, e ele foi outro protagonista de uma história.

Inconformado com o castigo imposto a sua cidade-natal, Teseu, que já tinha um histórico de aventuras, decidiu deter aquele suplício ao qual sua terra era submetida: seu plano era se colocar entre os jovens que seriam sacrificados e, uma vez lançado no Labirinto, matar o Minotauro, libertando do castigo a sua amada Atenas.

Um plano corajoso, com certeza. Mas também um pouco inconsequente: o Labirinto era considerado uma obra arquitetônica perfeita, além de toda lógica, e quem entrasse ali nunca mais seria capaz de encontrar a saída. O plano de Teseu, provavelmente, era se sacrificar por Atenas lançando-se uma jornada impossível. Um campeão numa jornada, com certeza.

E isso encantou a nossa Ariadne. Um herói destemido, disposto a dar a sua vida para salvar os jovens de sua terra natal… Mexeu com o coração da jovem, que se apaixonou pelo rapaz.

E aí tudo começou a acontecer.

Vocês devem ter se lembrado agora da lenda, não é? Se lembraram, sabem o que vem a seguir: Ariadne, movida pelo encanto da paixão, arrisca tudo, família, pátria, vida, e ajuda o herói, oferecendo a ele um novelo de lã, de forma que pudesse ter um caminho para a saída do insolúvel desafio. Ela seguraria a ponta do fio à entrada, e aguardaria confiante o retorno do ateniense. Teseu, em contrapartida, prometeu casar-se com a donzela e amá-la eternamente.

O plano, por um lado, deu certo: o Minotauro foi morto, e o Labirinto resolvido. Teseu retornou vitorioso da construção, para alegria da jovem Ariadne. Mas, por outro lado, as coisas se complicaram para ela: indignado com a traição da filha, Minos a bane de seu reino. Mas, arrebatada de amor como estava, ela estava feliz partir de Creta ao lado de seu amado.

Partiram de Creta, felizes como dois pombinhos apaixonados. Mas não durou muito. Em pouco tempo, Teseu, mesmo vitorioso e carregado das glórias, foi tomado pelo enfado. Sua vida se tornou monótona e sem alegria. Não comia ou dormia direito, e pouca vontade tinha de viver. Ariadne o acompanhava, fiel e dedicada, mas mesmo assim não conseguia animá-lo. E a tristeza começou a se aprofundar cada vez mais em seu coração.

“E o que aconteceu a seguir?” vocês me perguntam. Já chegarei lá.

Quando passavam pela ilha de Naxos, Teseu cansou-se da companheira e, após uma noite dormindo ao relento junto dela, decidiu partir de lá, deixando-a para trás. Sim, abandonando a fiel companheira à própria sorte, e se lançando novamente em alguma empreitada. Às vezes eu acho que alguns desses heróis não conseguem “parar quietos”, e um vazio enorme deve preencher seus peitos miseráveis, impelindo-os à vida de aventuras. Mas eu não sei dizer se é isso ou se ele era apenas um babaca. Talvez os dois

Se vocês acham cruel, imagine como Ariadne deve ter se sentido quando acordou e se percebeu sozinha, entendendo o que havia acontecido. Traiu a família e a terra natal por um herói por quem se apaixonara, e foi abandonada por ele no final.

A garota entrou em desespero. Chorou copiosamente, vertendo o coração e a alma em lágrimas, tomada por uma dor que ela nunca havia sentido. Para onde ir? O que fazer? Ela não tinha para quem ou onde voltar, nem ao menos como fazer isso. E, depois do desespero, o desalento. E a vontade de morrer. Por fim, Ariadne, tal como Teseu, abandonou-se a si mesma, e largou-se a chorar até que a Tânatos, a Morte, viesse buscar-lhe a alma para que fosse lançada num Campo de Asfódelos pela eternidade.

Mas não foi isso o que aconteceu.

Enquanto chorava, inconsolável e perdida, Ariadne foi visitada. Não por uma pessoa ou animal, nem por algum espírito da natureza, como uma nereida ou ninfa, mas por um deus. Por ali, naquela ilha isolada e distante de tudo, uma divindade passava quando ouviu um choro, triste como o de uma mãe que perde um filho ainda bebê, e foi procurar sua origem. Encontrou uma donzela desalentada e odiando a si mesma mais do que tudo.

Sentou-se ao seu lado e perguntou o que havia acontecido. Ariadne, com tanta coisa engasgada, e tanta tristeza represada, começou a desabafar a sua dor. Chorava e contava. Contava e chorava. Sem nem perceber a divindade do seu interlocutor, mas aliviada de ter alguém a ouvindo. E o deus compadeceu-se daquela mortal de alma tão sincera e bela, mas tão triste, e ouviu tudo. Tudo. Cada palavra de seu lamento. Ele sentiu sua dor, e chorou as suas lágrimas.

E se encantou com ela.

Quanto tempo passaram ali, eu não sei dizer. Talvez horas, dias, semanas… Mas Ariadne chorou tudo o que precisava chorar para expurgar de seu espírito aquela dor. E o deus permaneceu ao seu lado, dando a ela o acalento que ela precisava naquele momento. E ali, em Naxos, suas almas se conectaram. Não como uma paixão, mas como o mais puro e singelo bem querer. Eles se amaram.

O deus a levou dali. Foram ao Olimpo, onde seu pai, Zeus, apagou da garota a mortalidade, tornando-a uma deusa, para que pudessem viver eternamente ao lado um do outro. E se casaram. No dia de seu casamento, ele deu a ela uma coroa de ouro, puro como o amor que viveriam eternamente.

Ariadne deixou de ser uma personagem secundária na aventura de um herói e se tornou a protagonista de sua própria história de amor. Uma história que superou a barreira da vida e da morte e segue eterna.

O deus, como vocês já adivinharam, era Dionísio. Aquele que consideram um beberrão efêmero, promíscuo e raso, foi aquele capaz de se compadecer mais profundamente pelo sofrimento de uma mortal, talvez por compartilhar em seu coração a transitoriedade da alma e das paixões mortais.

E talvez seja essa a compreensão do amor. Quero dizer, quando Dionísio viu Ariadne, ele olhou não para o seu passado, transitório, mas para a sua alma, imortal, que o encantou. E, dentro da efemeridade, lá no fundo, habita a eternidade. E foi isso que os uniu. Ele é um deus dos prazeres e da entrega, é verdade, mas, humano como poucos imortais do Olimpo, ele tem um amor legítimo e sincero, para além de qualquer transitoriedade.

Ariadne e Dionísio se amam. E isso os basta. Um deus das orgias e da insânia tem uma companheira a quem ama, e que o ama com uma pureza de alma profunda e recíproca. Eles são um do outro, num amor eterno e sincero. Nunca se feriram ou machucaram, nunca se prenderam ou limitaram, e sempre se tiveram um ao outro guardado em seus corações com profundo carinho e respeito.

E isso é belo.

Eles ainda se amam muito. Tiveram vários filhos, que criaram com muito carinho e companheirismo. Não importa onde, como ou quando, eles sabem um do outro. O amor que sentem os une, mesmo fisicamente distantes. E a coroa que Dionísio a deu, aquela de ouro puro, foi colocada entre as estrelas como a Constelação de Coroa Boreal, como uma lembrança eterna dessa história de amor.

Isso aconteceu a muito tempo, na época que os deuses ainda andavam entre nós. De lá para cá, muitas coisas mudaram. Os tempos são outros. Os nomes também. Dionísio tornou-se Baco, e Ariadne, Libera. Sátiros aos poucos se tornaram faunos, ninfas se tornaram ondinas, e muitos dos daemons acabaram assumindo outros nomes. Fadas começaram a habitar os nossos sonhos e as histórias de crianças. Mas a história dos dois ainda vive, pois é eterna como a beleza que um viu na alma do outro. E Ariadne, a princesa de Creta, vive feliz para sempre.

9 comentários em “A Princesa de Creta (Berenice)

  1. Felipe Lomar
    1 de dezembro de 2021

    Um conto bem escrito, com muito aprofundamento na psique das personagens, mas que leva em originalidade. Não é uma história criada pelo autor, mas um mito grego com seus comentários. Acho que por mais que esteja bem escrito, a falta de uma narrativa original é um grande demérito nesse caso.
    Boa sorte.

  2. Fabio D'Oliveira
    28 de novembro de 2021

    Buenas!

    Nesse desafio, irei avaliar quatro fatores: aparência, essência, autenticidade e considerações pessoais.

    O que ele veste, o que ele comunica, o que ele tenta ser e o que eu vejo.

    É uma visão particular, totalmente subjetiva, mas procuro ser sincero. E o intuito é tentar entender o texto em sua totalidade, mesmo tendo minhas limitações.

    Vamos lá!

    APARÊNCIA

    Assumindo uma narrativa do estilo “contador de história”, o conto brilha em dois fatores: seu ritmo bem cadenciado, com raros tropeços, e sua elegância. É um texto delicioso.

    Como sugestão, cuidaria um pouco dos excessos, como o uso de pronomes e as repetições de ideia.

    Num dado momento, o discurso do amor entre Dionísio e Ariadne pesou, tornando-se cansativo. Desde o início, você deixa claro que é um amor livre e feliz. Quando você fica se repetindo, num reforço constante e desnecessário, acaba empobrecendo o texto.

    Bastava mostrar esse amor.

    ESSÊNCIA

    É uma história sobre o amor, sim. E suas várias camadas. O amor idealista. O amor puro. O amor egoísta.

    Apesar das repetições de ideias, o conto transita bem entre as camadas do amor. A mensagem é bonita, apesar do final ser um tantinho simples demais, chegando num ponto que o leitor já espera.

    AUTENTICIDADE

    Você pega personagens bem definidos em seus respectivos mitos e cria novas camadas para eles.

    Isso é um ótimo trabalho criativo.

    No entanto, não deixa de ser uma nova roupagem para uma história já contada. Nesse quesito, encontro uma divisão, um impasse, pois, apesar do bom trabalho nos personagens, não existe uma inovação na história deles.

    CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

    Foi uma leitura super agradável. Deliciosa. E, sinceramente, adorei começar o desafio assim.

    Não consigo evitar o pensamento de que você poderia ter feito algo mais autêntico, porém. Sabe aquela sensação de desperdício? Eu tive. Escrita bela, bom desenvolvimento, mas uma mitologia óbvia e desgastada. Não impressiona. Talvez a intenção seja essa: algo simples e descompromissado. Mas tenho que expressar esse descontentamento, que não tem muito peso na nota, vale ressaltar.

    Obrigado pela leitura, Berenice. Bom desafio!

  3. Kelly Hatanaka
    28 de novembro de 2021

    Oi Berenice

    Minha avaliação será feita com quatro critérios: tema (2 pontos), correção (2 pontos), criatividade (3 pontos), personagens (3 pontos).

    Tema (2): Conto adequado ao tema. A história de Ariadne e Baco, entrelaçada à história do Minotauro está, indiscutivelmente, dentro do tema proposto.

    Correção/Escrita(2): História muito bem escrita, sem erros. Escrita elegante, segura, clara e muito agradável de ler.

    Criatividade(1): Trata-se de uma história muito bonita, sobre o amor improvável entre Baco e Ariadne. Mas, senti falta de um desenvolvimento maior, de ter mais elementos “autorais”. A narrativa, em si, pouco acrescentou ao mito.

    Personagens(2): O personagem mais bem desenhado é o próprio narrador, que demonstra personalidade própria enquanto cria antecipação e conduz história. Os demais acabam meio diluídos na trama, já que são apenas descritos de forma superficial.

    Geral: Gostei da história, bonita e bem escrita.
    Parabéns e boa sorte!

  4. Lucas Suzigan Nachtigall
    27 de novembro de 2021

    Eu gostei do conto. Achei ele bem dosado e ritmado. Concordo com o Emanuel de que sofre com um excesso de “Eu” no primeiro parágrafo, podia dar uma revisada nisso. Acho também que o parágrafo final está um pouco fraco, e não encaixa direito no restante do conto.
    De qualquer forma, a temática está pertinente ao desafio, e o conto é bem gostoso de ler. Não sei se ele faz muito o meu estilo, mas eu não tenho muito o que criticar nele.

    • Lucas Suzigan Nachtigall
      5 de dezembro de 2021

      Relendo os comentários dos outros, acho que é isso: faltou ousar. E talvez esse seja a maior crítica ao conto em si.

  5. Antonio Stegues Batista
    18 de novembro de 2021

    De um modo geral, não gosto quando o autor conversa com o leitor durante a narrativa da história, mas o seu conto me encantou pela singeleza, pela construção bem cuidada, acrescentando novos fatos a um mito antigo e bem conhecido, inclusive com versões para o cinema. O conto ficou ótimo, com as conexões das ideias perfeitamente coesas. Gostei bastante.

  6. Afrânio B Souza
    11 de novembro de 2021

    Antes de Dionísio se encontrar com Ariadne ele passou uma temporada no Rio na casa do Zeca Pagodinho. – Que na bebida é essa perguntou? É caipirinha, a minha agua de beber, respondeu Zeca. – Puxa, é ótima. – Escute aqui seu Baco. Não abuse porque isso não é vinho não. Se você beber muito vai perder a cabeça e fazer tanta besteira que é capaz até de casar. Dionísio/Baco não levou Zeca a sério e deu no que deu. Com tanta deusa no Olimpo puxando o saco se apaixonou pela primeira chorona. Não estou querendo estragar sua história, mas você ao omitir a caipirinha cometeu feroz injustiça contra o ELIXIR DO AMOR.

    • Emanuel Maurin
      11 de novembro de 2021

      Sabe porque Dionísio tinha o nome de Baco?

  7. Emanuel Maurin
    10 de novembro de 2021

    Olá Berenice, tudo de bom pra você.
    Adoro quando o narrador faz perguntas e conversa com o leitor, entro dentro da trama. Na minha opinião no primeiro parágrafo você fala muito “EU”, isso é algo que o Andersom Prado me orientou a não fazer no outro certame e estou tentando consertar. Mas gostei do romance entre Ariadne e Dionísio e da história que conta a vida da Ariadne, particularmente nem conhecia. O texto é fluido, da prazer em ler e tá bem estruturado. Boa sorte no desafio.

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Informação

Publicado em 9 de novembro de 2021 por em Mitologias.
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