EntreContos

Detox Literário.

Nunca à terça-feira (Samuel Tuesday)

– Tem filhos, Sr. Celso?

Celso abanou a cabeça. Estava a ficar farto de tantas perguntas. Queria apenas alugar um apartamento e aquele custava um terço do que costumavam pedir. Ainda por cima ficava perto do centro, mas estava a perder a paciência com o interrogatório.

– Que eu saiba, não tenho filhos. E tenho a certeza de não ter animais de estimação. Quero apenas alugar um apartamento, senhor Inácio. Quando o posso visitar? Na próxima terça-feira era um bom dia para mim.

Inácio ficou repentinamente branco como cal.

– Não… nunca à terça-feira… quero dizer, não tenho disponibilidade. Poderia ser na quarta-feira?

Celso confirmou e na quarta-feira foram ver o apartamento, que ficava num bairro antigo da cidade. As casas estavam divididas em dois blocos. De um lado ficava o Bloco de Santo António, do outro ficava o Bloco de São João. Inácio estacionou o carro mesmo à frente da casa verde de aspeto antigo onde ficava o apartamento. O Celso não se deixou intimidar por isso. Estava habituado a viver em sítios piores e em bairros complicados. Estranhou o olhar de espanto de uma moradora, que parecia dizer que não com a cabeça. Uma louca, talvez. O que é que isso importava? O sítio estava mobilado, tinha um quarto que o Celso podia adaptar como escritório, uma casa de banho antiga mas funcional. Fechou negócio naquele momento, sem maiores perguntas. Pagou os três meses adiantados que Inácio exigiu e pediu a instalação da internet e da televisão por cabo. Mudou-se naquela mesma semana, no sábado. Pagou a uma empresa de mudanças para que tratassem de tudo. Não tinha carro. Usava normalmente o metro para se deslocar, o que raramente fazia, de qualquer forma. Trabalhava remotamente para três empresas, fazia as suas compras pela Internet, encomendava comida pelo telefone. Tinha dois ou três amigos com quem falava pelas redes sociais. Não se lembrava da última vez que bebera um copo com alguém. A sua única extravagância era o televisor, comprado em segunda-mão. OLED, 4K, Smart-tv, Dolby Surround. Tudo o que um solteirão precisava para ver um bom jogo de futebol.

Assim que ficou instalado, Celso deitou-se no sofá. Precisava desesperadamente de descansar. No preciso momento em que fechou os olhos, tocaram à campainha. Era um homem pouco mais velho do que Celso, ar completamente descontraído e um pack de seis latas de cerveja na mão.

– Olá. Sou Aníbal, o seu vizinho de baixo. Gosto sempre de dar as boas-vindas aos novos moradores.

Celso apertou-lhe a mão. Um aperto firme, talvez mais forte do que o necessário – Celso bendisse as sessões no ginásio.

– Entre. Não olhe para a barafunda. Ainda não arrumei as coisas. E mesmo se as tivesse arrumado, não ficaria muito diferente.

– O que interessa é que está cá. É um dos nossos. Vai ver que gosta.

– Pois… quando vim ver o apartamento com o tipo da agência imobiliária, uma mulher fez-me sinal. Parecia estar a fazer-me sinal para me ir embora.

– Uma senhora de casaco verde?

– Sim. Uma doida, talvez?

– Talvez. Para além de ser minha mãe.

O Celso não sabia onde se meter. Pediu desculpa. Que raio de maneira de começar a convivência com a vizinhança.

– Não se preocupe com isso. Ela tem muito de maluco. Mas o resto da vizinhança é boa gente.

– Ouça… estou habituado a ter má vizinhança. Vivi toda a minha vida nesta cidade. Já fui assaltado três vezes.                        

– Celso, posso confiar em si? Sei que acabou de se mudar, mas há um pequeno pormenor que tenho de lhe contar.

Celso confirmou (se bem que alguma coisa lhe dizia para rejeitar).

– Já sentiu alguma vez a ansiedade associada à rotina? Os dias sempre iguais? O constante ir e vir do emprego? Pode matar uma pessoa.

O Celso abanou a cabeça. Era novo demais para ter sentido isso, para além de ter uma grande instabilidade profissional. Mas tinha seguido o caso do pai. Esse, sim, tinha sofrido com a rotina. Não tanto com a rotina dos tempos em que estava empregado na fábrica, mas depois da reforma compulsiva.

– Aquilo que vou revelar é segredo. Foi um acordo feito pelos moradores. Estamos proibidos a revelar a pessoas externas.

– Eu sou uma pessoa externa.

– Já não é. Desde que assinou o contrato de arrendamento que faz parte deste lugar.

– Parece que vendi a alma ao Diabo.

Aníbal abriu duas cervejas e passou uma a Celso.

– Só às terças-feiras. O que se passa é o seguinte: às terças-feiras deixa de haver leis nesta rua. Podemos fazer o que quisermos, desde que não envolva armas letais. Há uma guerra entre os dois lados, o Bloco de Santo António e o Bloco de São João. Roubamos, ferimos, maltratamos. Tornamo-nos foras-da-lei. Ninguém pode fazer queixa à polícia. É este o acordo. Nem interessa se concorda ou não. Já faz parte dele e não pode falar dele a ninguém. Percebeu?

– Perceber, percebi. Mas não quero fazer parte disso. Sou uma pessoa pacífica. Odeio a violência. Nem tenho um cão porque acho uma violência ter um animal entre quatro paredes.

Aníbal sorriu: – Está no seu direito, desde que não fale nisto a ninguém. Na terça-feira, recomendo-lhe que não saia de casa e esconda o seu carro, se o tiver.

– Nunca tive. – Disse Celso.

Aníbal despediu-se e saiu, deixando o Celso a meditar sobre o assunto. Poderia ser uma brincadeira, mas algo lhe dizia que se devia precaver. Comprou cadeados para as portas e janelas. Depois olhou para o seu plano de trabalho. Tinha uma videoconferência planeada para terça-feira, mas como pensava que ia haver barulho, achou por bem adiar. Depois, mergulhou no trabalho. Tinha diversos prazos para cumprir e nem deu por ela que tivesse chegado a terça-feira. O dia correu com normalidade. Encomendou sushi para o jantar, mas nunca o chegou a receber. Ligou para o restaurante, que indicou ter sido entregue ao Sr. Aníbal. Ia reclamar, mas percebeu que fazia tudo parte do jogo. Fez uma massa com atum e não pensou mais no assunto. Às 20h começou a ouvir gritos. Espreitou pela janela e percebeu que Aníbal tinha razão. No meio da rua, o Sr. Lima, um pacato contabilista, dava uma surra com um pau a Koval, um imigrante ucraniano. De um momento para o outro apareceram homens e mulheres dos dois lados da rua e durante algum tempo pareceu uma batalha campal. Celso fechou a janela e colocou os auscultadores nos ouvidos.

No dia seguinte encontrou o Sr. Lima. Parecia que tinha sido atropelado por um comboio. Cruzou-se com Koval, que mostrava no rosto as marcas da luta, e os dois pareciam ter sanado as suas diferenças. Ao regressar a casa, Celso cruzou-se com Aníbal.

– Gostou do meu jantar, Sr. Aníbal?

Aníbal sorriu. Tinha um olho negro e uma ligadura numa das mãos.

– Chama aquela porcaria de jantar? Nem sequer estava cozinhada!

“Era o meu jantar, cabrão”, pensou Celso, mas limitou-se a sorrir, esperando que a terça-feira seguinte fosse mais pacífica. Enganou-se. Na terça-feira ficou novamente em casa, mas às 22h alguém desligou a luz, impedindo-o de trabalhar. Pegou no leitor de e-books, enfiou-se na cama e tentou acabar o livro do Stephen King que estava a ler em Inglês. Lá fora ouvia gritos e vidros partidos. Começou a equacionar se não devia sair dali. Ele, que nunca desistira de nada na vida, e que tinha vivido nos piores sítios da cidade, estava com medo.

Na manhã seguinte voltara a ter luz. Como prova de boa-fé, convidou Aníbal para ver o jogo no seu televisor. Ele trouxe novamente cerveja.

– Então, o que está a achar de viver aqui? – perguntou Aníbal, no intervalo do jogo.

– Das quartas-feiras até às segundas-feiras, não se está mal. Seis em sete dias. Há bairros da cidade onde não se consegue dormir qualquer que seja o dia da semana.

– Concordo. Esses bairros são muito violentos.

O Celso deu por si a rir à gargalhada, mas perdeu a vontade de rir na manhã da quarta-feira seguinte, quando deu por falta do televisor. Desceu as escadas a correr e bateu à porta de Aníbal. Este estava com cara de ser cedo demais para ser incomodado, mas o Celso estava-se a borrifar para isso: – Quero a porra do meu televisor!

– O seu televisor… pois… O Celso já sabe as regras… O máximo que posso fazer é dizer-lhe que está no pior dos sítios. O 94-B. Edmundo Silva. O melhor é não se meter com ele. Mas como o Celso não gosta de violência… há outros televisores no mercado. Talvez não tão bons… o Celso tinha um espetáculo de televisor.

O Celso deixou Aníbal a falar sozinho e foi tocar à campainha do 94-B. Atendeu Edmundo Silva. Um autêntico gigante.

– Sim?

– Bom dia. Disseram-me que tem o meu televisor.

Edmundo olhou para Celso de alto a baixo. O Celso sentiu-se uma autêntica formiga, mas como era quarta-feira, podia chamar a polícia.

– Tem algum prova de que o televisor é seu?

O Celso abanou a cabeça. Tinha comprado em segunda-mão. Não tinha provas.

– Só tenho testemunhas. O Aníbal sabe que o televisor é meu.

– Eu percebo, Celso. Mas sabe como as coisas funcionam neste bairro. Finders, keepers, como costumam dizer nos States.

E Edmundo fechou a porta na cara do Celso, que ficou a ruminar no que faria a seguir. Teria de ir contra os seus princípios, tornando-se um fora-da-lei por um dia. Comprou um taco de basebol e um capacete de futebol americano. Arranjou um casaco de motociclista e, na terça-feira seguinte, pelas 22h, saiu de casa. Ignorou os tumultos que via na rua. A vizinha do 2º esquerdo estava a atirar pedras à vizinha da frente, esta ripostava da mesma forma. Por todo o lado havia pequenas escaramuças. Ao Celso, parecia-lhe que tinha voltado ao recreio da escola. Chegou à frente da casa de Edmundo. Em qualquer outro dia de semana, o Celso bateria educadamente à porta ou tocaria à campainha. Mas era terça-feira, pelo que ele pegou no taco e rebentou com a janela. A esposa de Edmundo berrou, protegendo o filho. O Celso sossegou-os. Só queria o televisor. E ele ali estava, na sala onde o gigante Edmundo também estava. Envolveram-se os dois numa luta. O Celso descobriu que a raiva lhe dava uma força descomunal. O Edmundo ainda lhe conseguiu acertar com um pontapé no peito, mas o Celso desatou à paulada com o taco. Quando deu por ela, já Edmundo estava de joelhos e com a cabeça ensanguentada.

Eufórico com a vitória, o Celso pousou o taco e pegou no televisor, que ainda era pesado, saindo com ele da casa de Edmundo. Estranhou a calmaria na rua, mas continuou a avançar pela rua, com o pesado televisor debaixo do braço. Foi só quando a polícia o mandou parar é que os viu. Estavam a apontar-lhe as armas.

– Pouse o televisor, deite-se no chão, disse.

– Este televisor é meu. – Disse o Celso, deitado no chão.

– Tem como provar isso?

Um dos polícias entrou dentro da casa de Edmundo e o Celso adivinhou que estava em maus lençóis.

.

Invasão de propriedade, agressão (os médicos não tinham conseguido salvar um dos olhos de Edmundo), assalto violento. Ao juiz, Celso contou tudo. Esperava conseguir safar-se, mas apenas agravou a pena: um mês de prisão efetiva, uma pesada indemnização e uma reprimenda que o Celso nunca esqueceria: “Consigo perceber que uma criança embarque nestas maluquices, Celso, mas um adulto teria feito queixa às autoridades. Qualquer que fosse o dia da semana… ”. Depois, o homem de bigode branco desatou a rir, num momento de profunda vergonha para Celso.

Remoeu sobre o assunto, sentado na cela que partilhava com outro recluso, um tipo simpático de nome Tadeu. Quando este lhe perguntou sobre o seu crime, Celso disse apenas: “Roubei um televisor que era meu”.

– Dizem que ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de prisão. – Comentou Tadeu, que tinha momentos de verdadeira sabedoria que alternava com uma flatulência fora do normal.

– Não se usares a cabeça do ladrão como bola de basebol. Pelo menos no entendimento do juiz.

– Juízes? Esses tipos não entendem nada de desporto.

Celso soltou uma gargalhada. Estava a adaptar-se bem demais à vida na prisão. Nos últimos tempos tinha descoberto a sua verdadeira natureza. Algo que não podia revelar à sua mãe, que chorava de vergonha pelo facto do filho pródigo ter ido parar à cadeia.

– Pois. Mas são eles que têm o queijo e a faca na mão.

Um barulho facilmente reconhecível pôs os dois em sentido. O sadismo do guarda Simões era sobejamente conhecido. Por algum motivo, poupara Celso aos seus arrufos de violência. Mas ele ali estava, do outro lado da cela. Fez um sinal com a mão e a porta abriu-se. Simões entrou. Tadeu sentou-se na sua cama, com o ar de quem espera pancada. Celso ficou em pé. Simões tinha o tamanho de Edmundo e estava armado com o cassetete.

– Boa noite, Senhor Guarda. Fico muito feliz pela visita. – disse Celso, arrependendo-se assim que sentiu o cassetete a embater com força contra o seu estômago.

– Eu também fico feliz. Só não fiquei feliz por ter aberto o bico. Há coisas que deviam ficar em segredo.

O Celso viu que estava num grande sarilho. Nem ali se livrava dos idiotas do bairro para onde se tinha mudado.

– O Celso não percebe a dimensão deste movimento. Já há muito que saiu daquela rua. As terças-feiras nunca mais foram as mesmas em várias ruas de outras cidades do país. Dizem que o movimento já chegou a Paris e a Londres. É por isso que pessoas como o senhor têm de ficar com o bico calado. Aceitou o acordo. Não há leis à terça-feira.

O guarda pousou o cassetete, tirou o casaco e arregaçou as mangas da camisa. O Celso preparou-se para o pior. Só depois se lembrou de um pormenor insignificante para qualquer outra pessoa.

– Hoje é terça-feira… – Disse o Celso com o rosto transfigurado pelo súbito aumento de adrenalina, um décimo de segundo antes de se lançar ao guarda-prisonal, ao mesmo tempo que exibia um sorriso de pura felicidade. Depois de uma semana na enfermaria e três semanas de reclusão, saiu em liberdade.

Estava oficialmente desempregado. Os seus três clientes tinham terminado os contratos de serviços. Regressou ao apartamento, que Aníbal tinha mantido. Tinha sido perdoado e, para além disso, os moradores da rua arranjaram-lhe outros contratos, incluindo Edmundo, que agora era convidado assíduo na sua casa, sempre que havia futebol (desde que não fosse à terça-feira).

Hugo Miranda chegou num domingo. Segundo Inácio, o agente da imobiliária, Miranda era divorciado, solteiro e chefe de serviços numa repartição das finanças. Calhou ao Celso dar-lhe as boas-vindas e explicar-lhe o acordo das terças-feiras. – Percebeu? – perguntou o Celso, que vestia a sua t-shirt do Fight Club e fumava um cigarro pelo canto da boca. Miranda parecia ser um solitário convencional, amante da paz, tal como Celso tinha sido. Foi com alguma surpresa que viu no novo vizinho um brilho insuspeito no olhar, ao mesmo tempo que respondia: “Percebi. Por que acha que me mudei para aqui?”

10 comentários em “Nunca à terça-feira (Samuel Tuesday)

  1. Elisa Ribeiro
    17 de setembro de 2021

    Homem pacífico se muda para um bairro onde as terças feiras são sem lei e aos poucos se adequa ao novo ambiente.

    Uma história absurda narrada de forma realista. Li seu conto nessa chave e a leitura me agradou. No enredo, um subtexto que mostra a violência como algo inato do ser humano que pode ser despertado a partir de uma provocação do ambiente.

    O ponto alto dos seu conto para mim foi essa ideia de haver um dia em que a violência é liberada, como um escape, em uma comunidade que convive cordialmente nos outros dias da semana.

    Também gostei do final de seu conto, um novo giro do ciclo de violência na comunidade.

    Há algumas estranhezas na linguagem, mas não comprometem a leitura porque de certa forma combinam com a estranheza da história narrada.

    Enfim, um conto que agrada.

    Parabéns pela participação. Desejo sorte no desafio e em tudo mais. Abraços.

  2. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    Desde o começo achei o enredo surreal e, por isso embarquei nele com esse espírito. Mas depois, vi a alegoria do dia liberado para a violência como um evento bastante natural, infelizmente, quando penso, por exemplo, em jogos de futebol. Muitos torcedores parecem querer beber sangue uma vez por semana! Imagino que muita gente ainda tem esse gosto bárbaro pela porradaria, que é compensado no conto às terças-feiras. O enredo se encaixou muito bem ao tema fora da lei em um ambiente “não faroeste”, com uma escrita muito boa, que me puxou rápido para ler até o final, no bom sentido, rs.

  3. Kelly Hatanaka
    17 de setembro de 2021

    Samuel,

    achei seu conto instigante e gostei muito de acompanhar a trajetória de Celso, de pessoa pacata até descobrir seu próprio Tyler Durden. Muito bem construída a sensação de estranheza no bairro e a tensão até que Celso adentrasse a catarse das terças-feiras.
    Sua história mostra a nossa atração pela violência e fez isso muito bem, descrevendo a terça como se fosse a hora do recreio.
    No final, estranhei que Celso tivesse sido perdoado tão facilmente. Mas entendi isso como um contraponto entre a violência das terças-feiras e uma inerente bondade humana. Os vizinhos não se odeiam, não são pessoas más, eles só precisam de escape, de uma fuga das tensões ou do vazio do cotidiano.

    Só faltou uma explicação para a polícia ter aparecido. Foi uma pegadinha contra o novato? Havia um traidor do pacto? Foi azar de Celso?

    Uma ótima história. Parabéns!

  4. Anderson Prado
    14 de setembro de 2021

    1. o tema do desafio aparece de forma mediana e não muito original, assemelhando-se ao Clube da Luta;

    2. o enredo também é mediano, arrastado também pela falta de ineditismo, além de alguns deslizes na construção da narrativa;

    3. apesar do estranhamento causado pelo português lusitano, o domínio da língua e das técnicas de narração também não me pareceu ir muito além do mediano;

    4. o tempo verbal em “Na próxima terça-feira ERA um bom dia para mim” parece estar equivocado;

    5. “branco como cal” carece de originalidade e empobrece a narrativa;

    6. parece haver uma palavra descabida em “estacionou o carro MESMO à frente da casa verde”;

    7. uma sentença praticamente se repete, empobrecendo o texto: “Uma louca, talvez.” e “Uma doida, talvez?”;

    8. a repetição de artigo definido (especialmente “o”) antes dos nomes dos personagens é estranhíssimo. Um narrador em terceira pessoa não usa tal artifício. Esse recurso é mais comum em narradores em primeira pessoa, ainda assim de maneira parcimoniosa. Pensei se tratar de um uso lusitano, mas depois observei que o autor do conto ora usa o artigo definido, ora não usa. Por exemplo, não há esse uso em “Celso abanou a cabeça”, em “Celso confirmou”, em “Celso deitou-se” etc. Porém, ocorre o uso do estranho artigo definido em “O Celso abanou a cabeça”, em “deixando o Celso a meditar”, em “O Celso deixou Aníbal” etc. Já quando o artigo definido aparece na fala de personagens, a impressão que se tem é de que eles estão falando em terceira pessoa de alguém presente, o que também é esquisitíssimo. Note-se: “- […] O Celso já sabe as regras”. Ocorre que “o Celso” é o interlocutor! O certo seria ele dizer “Você já sabe as regras”!

    9. achei pouco crível a maneira como Celso aceitou a ideia de que às terças-feiras os vizinhos se tornavam foras da lei. Quem acreditaria nessa história sem qualquer tipo de ressalva, sem duvidar? Achei tudo fácil demais. Em Clube da Luta, o apelo e a aceitação da violência são melhor tratados;

    10. notei que algumas falas aparecem em parágrafos já em curso, enquanto outras aparecem em novos parágrafos. Na minha opinião, o autor deveria escolher apenas um dos dois recursos ou, ao menos, fazer com que suas escolhas por um ou outro caminhos se mostre mais justificada;

    11. achei que há alguma coisa sobrando na frase “e nem deu POR ELA que tivesse chegado a ter-feira”;

    12. notei que, após a primeira terça-feira, os moradores apareceram com hematomas duradouros. Então, por que Celso não não se deparou com esses mesmos hematomas quando chegou à vizinhança? As terças-feiras anteriores nãos deixaram hematomas? Soou-me mal concebida a ideia ou, no mínimo, inverossímil;

    13. veja bem: “mas como era terça-feira, podia chamar a polícia”. Então na terça-feira não podia? E se na terça-feira não podia, como é então que em determinada terça-feira a polícia apareceu?

    14. a utilização de palavras e expressões estrangeira de maneira injustificada só se presta a alienar o leitor que não domina esse outro idioma. É o que ocorre em “Finders, keepers”;

    15. em “tem ALGUM prova”, faltou um “a”;

    16. para recuperar o televisor usado, Celso teve de comprar um taco de beisebol, um capacete de futebol americano e um casaco de motociclista. Sei não, mas acho que sairia mais barato comprar um outro televisor, sobretudo que o dele era de segunda mão;

    17. acho que um “por si” deu lugar a um “por ela” em “Quando deu por ela”;

    18. a palavra “rua” aparece duas vezes na mesma frase em “Estranhou a calmaria na RUA, mas continuou a avançar pela RUA”;

    19. achei a inserção da informação dobre “flatulência” desnecessária, gratuita e de mal gosto. É o tipo de coisa desagradável que só deve ser usada se relevante para a narrativa.

  5. Angelo Rodrigues
    14 de setembro de 2021

    5 – Nunca à Terça-feira

    Um conto legal de ler.
    Envolve-se com a ideia de liberdade criminosa como forma de distensão interna, ou algo assim.
    Me trouxe à memória dois filmes, salvo engano. Uma Noite de Crimes, Anarquia e Uma Noite de Crimes, a Fronteira.
    Não é irrelevante que seja assim. Sob as roupas de um clichê, o conto aborda com alguma profundidade ideias bastante profundas. A primeira delas é o conceito psicanalítico de folie à deux, bastante explorado por Truman Capote em seu À Sangue Frio, o outro é a adaptação ao meio, por pior que ele seja.
    No caso da folie à deux, tem-se a relação entre Aníbal, o filho da velha que avisa Celso dos perigos de ali viver, ao passo que a adaptação ao meio se dá justa ao meio, ao todo, indistintas as personagens.
    São esses elementos, profundamente humanos, que fazem com que o texto seja adaptável a qualquer sociedade, dado que o protagonista é o ser humano e seus meios de compreensão e adaptação.
    Acredito que a queda sobre as roupas dos filmes citados sempre serão inevitáveis, dado que, como disse, sempre também serão humanas as circunstâncias.
    A rápida mudança de humor de Celso credito à exiguidade do texto. Celso passa de uma passividade corrosiva a uma violência orgânica, o que, de modo geral, levaria algum bom tempo na vida real. Compreendo que assim seja pelo tamanho do texto, e aproveito para citar Harold Bloom em seu A Anatomia da Influência – Literatura como Forma de Vida: “… qualquer distinção entre literatura e vida é enganosa. Para mim, literatura não é meramente a melhor parte da vida; é ela mesma a forma da vida, que não possui nenhuma outra forma”.
    Uma das fragilidades que vejo no texto – que reporto como inevitável -, é a focalização em Celso de modo a conduzi-lo à violência. Celso – ou qualquer outro personagem – praticamente não existe fora do contexto em que precisa estar, tornando-se matéria pura para a construção objetiva da história a ser contada. Não há praticamente outro respiro que não seja a pura direção ao desfecho pretendido pelo autor.
    É isso, no mais, um conto bem legal.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  6. Emanuel Maurin
    13 de setembro de 2021

    O conto tá bem escrito, estruturado, fluido e os diálogos são bem construídos. A terça é o dia de expurgo, isso na minha opinião é um pouco cliché, mas de um modo geral, gostei.

  7. Carlos arinto
    8 de setembro de 2021

    Duas perguntas:
    1. Como se rouba um televisor numa casa fechada a cadeado com o habitante lá dentro a ver televisão?
    2. Não havendo crime, porque surge a polícia?
    Está desbunda não existe na cultura pop, como se afirma num comentário. É uma ficção novayorquina. Podia passar-se em Lisboa, na Amadora ou na Austrália.

  8. Carlos arinto
    8 de setembro de 2021

    Interessante, embora um pouco inverosímil. Talvez falhe nos pormenores. Como é que o personagem se deixa roubar (de um televisor) numa terça-feira em que está fechado em casa com tranças nas portas e janelas?
    Como é que a polícia aparece e porquê? Ainda we houvesse crime, seria justificação, mas não, foi “tudo normal”.
    Não vejo a cultura pop no extravasa. Mas parece-me uma ideia “simpática” a explorar com outras ambiências. A senhora que não recomenda… Por sorrisos e deliciosa.
    F

  9. Antonio Stegues Batista
    2 de setembro de 2021

    Tenho por costume, fazer associações ou comparações do conto mais com filmes do que livros. Esse me lembrou de The Purge- Uma Noite de Crime, um filme de James DeMonaco, quando, nos EUA, uma vez por ano todo e qualquer crime é permitido.
    No conto, na terça-feira, o crime é permitido entre dois blocos de apartamentos. Achei uma boa ideia, um bom enredo. A escrita tem sua característica, a narrativa é fluida, indo ao ponto de interesse sem rodeios.

    Só mesmo quem gosta de violência, moraria nesse lugar. Eu não! Boa sorte.

  10. thiagocastrosouza
    1 de setembro de 2021

    Samuel, seu texto tem todas as qualidades de um ótimo conto: bem escrito, enredo imprevisível (embora a ideia de um dia livre de crime e extravaso esteja presente na cultura pop) desenvolvimento de personagem e adequação ao tema. Embarcamos junto com Celso na insanidade da terça-livre e passeamos por esse caos organizado que é nossa sociedade. Para não se abater pela rotina que nos massacra, nos ferimos e ferimos o próximo. Não há o intuito de mudar a ordem vigente; é um jogo derrotado, vide as autoridades, policiais e juízes, que também assinaram esse pacto de violência. Logo, o que resta é lutar, não contra o “sistema”, mas uns contra os outros como forma de libertação falsa e momentânea.

    Há um cinismo delicioso no tom do conto, e vamos descortinando os absurdos junto com o personagem, até estarmos imersos em suas ações e decisões. O final é marcado pelo início de um novo ciclo, com o próximo iniciado na mira do protagonista.

    Parabéns e boa sorte!

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Informação

Publicado em 31 de agosto de 2021 por em Foras da Lei.