EntreContos

Detox Literário.

Ode Poética Moderna (Alberto Reis Pessoa de Campos)

Este é um dos grandes segredos da vida:

curar a alma através dos sentidos,

e os sentidos através da alma.


“O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde

Dizem que a solidão extrema, mais do que um estado de espírito, provoca alterações profundas nos nossos corpos. Sou a prova disso desde 15 de novembro, o dia em que a perdi para o flagelo da moda. O mundo deixa de fazer sentido quando ficamos sem a gramática que descreve a sua beleza. Ela era uma força da natureza que vivia para espremer da vida todos os seus múltiplos sentidos. Não se limitava a saborear cada momento: fazia os possíveis e os impossíveis para fazer com que a existência dos outros fosse diferente, única e irrepetível.

Era ao mesmo tempo uma pena a flutuar na aragem tépida da primavera, e poderosa como uma tempestade de verão: um paradoxo do qual só me apercebi quando o seu feitiço já tinha tomado conta de mim. Quem já amou, sabe do que falo. Longe da ideia romântica da beleza perfeita, o que melhor a caracterizava era a forma como mesmerizava todos os sentidos. A beleza na imperfeição, o exemplo mais paradigmático do wabi sabi japonês. Paixão no estado mais puro, do primeiro até ao último olhar. A arte de viver, na sua forma mais selvagem, passível de figurar na 12ª posição da escala raposiana das artes.

O seu espírito continua a ser a minha companhia constante, mesmo agora, enquanto fumo o meu último cigarro a vinte centímetros do precipício. Em baixo, a quinze metros de distância, as rochas clamam por esse cúmulo de irrelevância ao qual chamo de vida: não tivessem as estrelas conspirado para que a amasse, o único fato realmente relevante na minha existência, tudo o resto me pareceria banal. A morte, solução para todos os problemas, não mitiga o sentimento de traição que o suicídio representava para ela.

Desisto: mesmo depois da morte, é ela que me agarra à vida. Vou-me embora. Entro no carro, dirijo lentamente pela bucólica estrada nacional para depois mergulhar no trânsito citadino. Nada me prende a atenção. Falam tanto da vida depois da morte, quando o verdadeiro problema é encontrar a vida depois da vida.

Em casa, tudo me lembra dela: arranjos florais, perfume de alfazema e lavanda, cheiro de caril de seitan, pilhas desordenadas de CDs de Jazz, filmes franceses e livros eróticos japoneses. Na parede, fotografias da nossa viagem à Índia, onde ficara impressionada pela maneira como que as pessoas encaram as suas vidas de miséria como uma forma de arte e de espiritualidade. Páro o desbobinar de recordações e faço duas constatações:

                a) Não se pode viver no passado.

                b) Ela não regressará.

                c) Ninguém pode ocupar o seu lugar.

Olho em volta, à procura de algo que me faça regressar ao mundo. Do ar que respiro à teia de aranha que ela teimava em deixar, pelo respeito que sentia por todas as criaturas vivas, a casa pertencia-lhe. Mesmo que fosse minha por herança, era a sua alma que lhe dava vida. Agora tudo me parecia desinteressante, frio e incompleto. Infinitamente vazio.

[Olho-me ao espelho e tenho o seguinte desiderato: sem ela sou o que sempre fui, desinteressante, frio e incompleto. Infinitamente vazio. Desalmado. Um filme de Kurosawa em pausa.]

Duas divisões do pequeno apartamento eram especialmente difíceis de suportar: o nosso quarto, onde não conseguia entrar sem me lembrar do seu corpo macio e quente enroscado no meu, e o pequeno quarto cheio de luz onde pintava os seus quadros. Seria nesta divisão da casa, exatamente aquela onde a sua presença se sentia com mais intensidade, que eu passaria a dormir, num sofá roído pelo tempo e onde frequentemente fizéramos amor. Passaria ali um mês em letargia comatosa, no meio do cheiro das tintas e dos retratos onde me revia no seu traço quase infantil – a dimensão da sua paixão pela arte estava na proporção inversa do seu talento, e não podia estar a marimbar-se mais para isso. Vivia para a arte, mesmo que soubesse que nunca poderia viver dela.

Quando atingi o fundo do meu estado depressivo, encarei o vazio da tela no cavalete. Teria sido o seu trabalho seguinte. Estava cheia de ideias, que partilhava com um sorriso aberto. Seria a sua obra prima, aquela que lhe traria a fama e a glória, disse, num riso entrecortado por ataques de tosse. Revejo a nossa conversa. Uma lágrima escorre-me pela face. Profundamente hipnotizado, fumo um cigarro. Abro uma das poucas garrafas de whisky que me restam. O líquido queima-me a garganta e é a única prova que tenho de que continuo vivo.

O chão é um amontoado de lixo, um mar de garrafas e de sacos vazios de batatas fritas. O quarto tresanda a tabaco e ao cheiro das tintas. Na pequena aparelhagem da JVC coloco o CD da Nina Simone de que ela tanto gostava. Pego no computador portátil. No youtube aprendo a pintar, por entre anúncios de tretas desnecessárias. Ganho coragem e, por fim, aproximo-me da tela. Desenho a sua cara de memória. Tento inutilmente captar o seu olhar. Admiro o resultado final e, numa gargalhada de desespero, apago tudo e recomeço do zero. 

Estava obcecado em capturar a sua essência, mesmo sabendo que me faltava talento. Isolei-me completamente, deixei de atender quem quer que fosse. Só a tela interessava. Cada traço era um farrapo da minha alma que transferia para a superfície de algodão, cada pincelada era feita com a tinta do meu próprio sangue. O meu mundo era aquele pequeno retângulo de 50×70 cm. Não precisava de outra coisa que não fosse a luz do seu sorriso, que tentava plasmar desesperadamente no quadro, até que, por fim, ela me olhava a partir da tela com o olhar doce com que embalou o meu mundo.

Ultrapassado o limiar das minhas forças, fechei os olhos. Deslumbrou-me num sonho: dançava para mim, nua, com um véu amarelo transparente que ondulava de forma sedutora. Estava sentado na poltrona do atelier de pintura, em modo estátua contemplativa. Nem nos sonhos eu tinha talento para a dança. Sorriu-me com seu o olhar intenso, estranhamente felino. Sentou-se no meu colo, aninhou-se no meu abraço, fundiu-se no meu ser. Éramos uma única vontade, num único corpo. Como sempre fomos.

Dois dias depois encontraram o meu cadáver mirrado, caído no chão junto ao retrato de duas pessoas que partilhavam um olhar da mais suprema cumplicidade.

12 comentários em “Ode Poética Moderna (Alberto Reis Pessoa de Campos)

  1. Kelly Cristina Hatanaka
    10 de junho de 2021

    Olá Alberto.

    Uma trágica história de amor. É um texto bonito, muito triste, mas senti falta de enredo. Gostaria de saber mais da história do casal, que só se deixa entrever. O que aconteceu com a mulher? Foi embora? Morreu? Para mim, essa falta de informações dificultou simpatizar com o personagem principal.

    Algumas passagens soaram meio rebuscadas demais, mas acredito que a ideia era invocar uma poesia de Fernando Pessoa. É só que tem muito de Ricardo Reis para esta amante de Alberto Caieiro. Preferencias pessoais…

    Achei o final trágico, porém belo. Não parecia existir um outro fechamento possível para este personagem tão perdido e desesperado.

    Parabéns!
    Kelly

  2. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá Pessoa(s). Achei este conto algo deprimente. É um cruzamentos de diversas artes, sendo a principal a arte da vida. Ele sente a falta da companheira falecida e decide fazer a sua derradeira homenagem, na arte que ela tanto gostava. Deixa-se consumir pela paixão da tarefa e o desfecho acaba por ser trágico, mas expectável. Em todo o texto nota-se o surrealismo (especialmente no momento da morte do personagem-narrador) e as referências ao entrecontos de que não gostei particularmente, mas enfim. Gostei da ideia base, a da homenagem à arte que a pessoa vulgar sente (não são apenas os mestres que vibram com a arte, todas as pessoas o sentem, em maior ou menor grau). Pela escolha do pseudónimo e pela linguagem, creio que o autor deste texto é meu conterrâneo, pelo que é mais uma razão para lhe desejar a melhor das sortes neste desafio.

  3. Luciana Merley
    7 de junho de 2021

    Ode poética moderna

    Uma beleza de texto, absolutamente romântico (com a carga de melancolia que é peculiar), mas com algumas inconsistências narrativas que eu gostaria de detalhar.

    Coesão – O luto de um homem apaixonado: esse é o centro, sem dúvida. Uma ode à sofreguidão. Numa linguagem bastante bem trabalhada, rica em significados, repleta de melancolia, o narrador (já morto) vai nos contando a sua trajetória de sofrimento. A primeira inconsistência vem quando relemos a afirmação (bastante niilista) “A morte, solução para todos os problemas” já sabendo que o narrador está morto. Veja: como a morte pode ser a solução se ele, já morto, continua com esse nível de desespero? Não há nenhuma dica textual de que ele conta como se isso não o afetasse mais. Não, ele parece nos contar chorando. Uma explicação possível seria a de que você alterou o tempo verbal (de presente no início do texto, para passado e pós morte no final) como se a história estivesse se desenrolando enquanto você conta. Mas, isso não é uma certeza que você nos apresenta, logo, acontecerão mesmo vários tipos de interpretações, que por si, prejudicam o texto. Outra questão é a do aprendizado da pintura pelo youtube. Pareceu-me bastante inverossímil alcançar tal nível de perfeição a ponto de conseguir expressar “cumplicidade”.

    Ritmo – É bom. A melancolia não torna o texto maçante. A linguagem rica e inteligente nos instiga.

    Impacto – Gostei muito, apesar dos apontamentos que fiz. Amo textos com frases de impacto como essa sua: “Falam tanto da vida depois da morte, quando o verdadeiro problema é encontrar a vida depois da vida.” Claro que discordo da premissa, mas é impactante mesmo assim. Assim como discordo absolutamente da premissa sobre alma e sentidos do Oscar Wilde, mas o livro é lindo mesmo assim.

    Um abraço e parabéns.

  4. Fheluany Nogueira
    5 de junho de 2021

    O conto, parece-me trabalhar a Arte, em geral, como expressão de sentimentos e catarse emocional.

    São notórias as referências intertextuais e a linguagem grandiloquente que ao apresentar uma semiologia própria (e alguns clichês), quer comunicar o inconsciente, a ordem do indizível – “O mundo deixa de fazer sentido quando ficamos sem a gramática que descreve a sua beleza”. Essa construção subjetiva dos próprios sentimentos me soa rítmica, (mas, mesclada de expressões coloquiais e alguns desvios gramaticais e estruturais) .

    O texto merece o título, uma vez que descreve atributos para a mulher amada em forma de dedicatória, como um pretexto para se narrar a emoção considerada sublime. O pseudônimo, provavelmente, é uma outra homenagem aos lusos que trouxeram a forma clássica para a modernidade. Mas, esta ode aqui lembrou-me mais John Keats, que trabalhou sobre imagens que foram esculpidas numa urna.

    Parabéns pela participação! Sucesso no desafio! Abraço.

  5. Regina Ruth Rincon Caires
    4 de junho de 2021

    Ode Poética Moderna (Alberto Reis Pessoa de Campos)

    Comentário:

    Um texto transcendente, escrito numa linguagem sublimada e falando de um sentimento imensurável, em que o personagem (narrador) registra a dor do amor perdido, esmiuçando a saudade que, impiedosamente, lhe rasga as entranhas. Um belíssimo texto lusitano. Perfeito, correto, limpo.

    Primeiro, aplaudo a modéstia do pseudônimo. Coisa pouca, quase nada.

    Uma leitura que angustia, remexe com sentimentos adormecidos, traz comparações e lembranças. A vida como ela é. Ainda bem que esses sentimentos, de maneira geral, são amenizados pelo tempo. Para curar a dor de amor, o melhor remédio ainda é abrir-se para outro.

    O danado do texto, além de valoroso, traz conhecimento! Eu não conhecia a filosofia “wabi sabi”! Googlei e aprendi: é a arte de valorizar os detalhes discretos e esquecidos, valorizar a beleza nas coisas imperfeitas, e, somente com a humildade e sensibilidade somos capazes de captar tudo isso que está escondido bem diante dos nossos olhos e a que damos pouco valor. E outra coisa! A danada da iguaria “caril de seitan”! O prato não é nada bonito, e o cheiro, a que o narrador se refere, deve ser exalado do gengibre.

    Olhe, senhor pseudônimo modesto, o seu texto é primoroso! Muito bem escrito e o conteúdo faz uma bagunça nas lembranças.

    Parabéns pelo trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  6. Fernanda Caleffi Barbetta
    2 de junho de 2021

    Olá, Alberto Reis. Seu texto é muito bonito, apesar de bastante melancólico. Possui construções muito boas, como “O mundo deixa de fazer sentido quando ficamos sem a gramática que descreve a sua beleza”.
    Na minha opinião, houve certo exagero na apresentação do sentimento do protagonista, da falta da mulher, o que tornou o texto um pouco repetitivo e cansativo.
    Gostei da ideia de que a arte de viver poderia ser considerada a 12ª arte. Só não me agradou muito a inclusão de “passível de figurar na 12ª posição da escala raposiana das artes”, pois fugiu um pouco do tom mais poético do texto, algo que de desviou da proposta, na minha opinião.
    No final, o uso da palavra retrato me confundiu. Seria uma fotografia, um desenho em um papel? Digo isso porque não acredito que tenha se referido à tela que ele estava pintando, já que seria inverossímil que, com vídeos do Youtube, ele fosse capaz de pintar um quadro com duas pessoas se olhando com olhares de cumplicidade. Se era uma fotografia, teria sido interessante citar algo antes relacionado a ela. Faria mais sentido ser a tela já que ele estava pintando, ai a escolha pela palavra retrato não foi uma boa. Outra coisa é que você criou certa expectativa com relação ao que ela estava pintando antes de morrer, então pensei que poderia ser a revelação da tela dela…. bom, várias possibilidades, por isso fiquei confusa.
    Cuidado com os tempos verbais, houve alternâncias entre presente e passado. Fora isso, o conto é muito bem escrito, encontrei apenas poucos deslizes: Tudo (Todo) o resto e Páro (Paro).

  7. Leonardo Philipe
    31 de maio de 2021

    Olá, Alberto! Obrigado por compartilhar Ode Poética Moderna conosco ♥

    Antes mesmo de abrir seu conto, eu já estava com a expectativa nas alturas por causa da imagem escolhida para ilustrar seu trabalho. Já utilizei O teste de Rorschach em alguns textos, e pensei que encontraria referências a ele no seu conto.

    Curioso também ver que há uma citação de O retrato de Dorian Gray, que também está presente no desfecho do conto A Face Oculta.

    A narrativa aborda as dores do luto e sua relação com a arte, por isso, atende ao tema do desafio. Mas algumas coisas ao longo do texto me desconectaram da leitura.

    – PONTOS POSITIVOS: Tem muito sentimento. É difícil escrever sobre temas sombrios e você fez bem em escolher um tom poético mórbido.

    – CONSIDERAÇÕES: Senti que algumas referências inseridas não agregam para a narrativa, isso quebrou a vibe profunda e “sadboy” que o protagonista parece ter.

    “A arte de viver, na sua forma mais selvagem, passível de figurar na 12ª posição da escala raposiana das artes.” ????? pesquisei várias vezes alguma coisa relacionada a este trecho e não encontrei nada. Não seria um problema, afinal, vários leitores não entendem todas as referências; porém, esta frase encerra um parágrafo e é enorme. Senti carência de significado pleno para nos envolver na história.

    “Falam tanto da vida depois da morte, quando o verdadeiro problema é encontrar a vida depois da vida.” Essa frase me fez lembrar do recente filme Soul.

    Texto curto, que poderia ter cortado algumas frases para favorecer o ritmo, mas o sentimento inserido nas palavras faz valer a leitura.

    Parabéns! ☮

  8. claudiaangst
    29 de maio de 2021

    Olá, Alberto, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = Pintura, mas há referência a outras artes como: música, fotografia, cinema, wabi sabi japonês, cinema, literatura.

    R = Revisão = notei algumas incorreções:
    – Páro > Paro
    – faço duas constatações > não seriam três?
    – Agora tudo me parecia > Agora tudo me parece
    – Há uma alternância de tempos verbais – seria bom decidir se narra no Presente ou no Pretérito. Acredito que seja pela condição de defunto que haja esse desencontro de tempos.

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Linguagem mais rebuscada em alguns momentos, com vocabulário menos usual e tom poético [influência de Fernando Pessoa?]. Uma narrativa póstuma e densa, um mergulho no estado de espírito [ou melhor, do espírito] de Alberto. Como a imagem utilizada aponta – o narrador revela-se uma cópia da amada, ou a sua outra metade, como a pintura que se obtém quando se dobra uma folha ao meio – lados espelhados. Por isso, não conseguia mais viver sem o seu amor, a razão que lhe atava à vida. “Éramos uma única vontade, num único corpo. Como sempre fomos.” > como todos os heterônimos de Pessoa. Uma só pessoa, um só Pessoa.

    E = Então, autor[a] = Não é uma leitura fácil, mas rica em significados que ficam pairando mesmo depois do término da apreciação. Tom melancólico que nos puxa para um cenário desalentador, um quê mórbido de romantismo.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  9. antoniosbatista
    27 de maio de 2021

    Ambientação= No tema, Pintura.

    Escrita= Boa.

    Enredo= Bom. Depressivo com a morte(?) da pessoa amada, homem tenta reorganizar sua vida, mas acaba sucumbindo à solidão.

    Considerações Gerais= O início é meio lerdo pelas divagações do personagem, que só serviu para dar extensão ao texto.. O desespero dele pela falta da pessoa amada, é válido, verossímil. O fato de ele não saber pintar e conseguir fazer o retrato dos dois, a explicação está no mundo do sobrenatural e esse é um assunto um pouco extenso. No final, há o retrato dos dois e o homem morto. Deve ter sido por inanição, catalepsia autossugestionável, ou algo assim. É quando o sobrenatural, a ilusão acaba e só resta a dura realidade. O final não me surpreendeu, já li algo parecido. Mas é um bom conto, sem dúvida.

  10. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: o protagonista é um pintor desiludido.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = Excesso de floreios, de adjetivações, de drama. Além de ser escrito por autor defunto! Mortos não escrevem!

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa: está bem encaminhada, apesar dos floreios poéticos excessivos.

    E = Então, autor[a] = Apesar de ter sido interessante o mergulho no abismo, o conto não me impressionou muito.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  11. thiagocastrosouza
    25 de maio de 2021

    Resumo: Protagonista flerta com a morte devido a perda de sua amada, que era também, uma artista.

    Comentário:

    Caro poeta, você pintou o retrato da solidão a partir do ponto de vista de um homem desesperado. O enredo é bastante simples, mas com espaço para inserir reflexões acerca da vida, da arte e da morte. No geral, acho o conto bom, o tom confessional nos permite vivenciar as dores do protagonista e acompanhar seus passos numa inútil tentativa de resolução.

    Há alguns pontos que não me agradaram: o fato do narrador já estar falecido e um exagero na escolha do vocabulário, um tanto quanto floreado. Sobre o primeiro ponto, não percebi um elemento extraordinário na narrativa que justificasse ou revelasse a morte já posta desse narrador. Há um trecho que deixa a pista, “[…] mesmo depois da morte, é ela que me agarra à vida”, mas numa primeira leitura, pode-se interpretar que o narrador está falando da morte de sua companheira, já que o mesmo volta para o carro e segue para o apartamento. Não consegui deixar de me perguntar, ao final do texto, como esse narrador falou conosco. Há um outro conto que fez um caminho semelhante ao seu no desafio Loucura, chamado Soterramento de Sísifo, mas ao final, descobre-se que o narrador escreveu uma carta, e os leitores têm acesso à ela por meio de terceiros. A escrita vai esmaecendo e ficando confusa, dando o tom que o suicídio foi consumado.

    O outro ponto é uma questão mais pessoal. Sei que tem palavras que nos ajudam a dizer exatamente o que gostaríamos, que carregam sentidos que combinam por demais com as atitudes dos nossos personagens. Por outro lado, gosto daquela frase que diz que devemos escrever com palavras que vamos à rua. Como roupas. Quais palavras vestimos no dia a dia? Assim faremos com nossos personagens. Há um ar trágico e poético nesse narrador que denuncia um esforço do autor na seleção das palavras, ao mesmo tempo que o tom confessional torna-se um pouco caricato, quase dramalhão, de tanto empolamento, caindo, por certas vezes, em lugares comuns, como “Tretas”, ou cômicos, em “escala raposiana das artes” . Parece uma tentativa de alguém com texto mais informal tentando não sê-lo. Nesse ponto, desgostei do texto.

    Porém, há trechos muito bons, parágrafos bem finalizados e ideias postas com firmeza, que dão o tom, principalmente, do que foi essa mulher na vida do narrador:

    “Nada me prende a atenção. Falam tanto da vida depois da morte, quando o verdadeiro problema é encontrar a vida depois da vida.”

    “Vivia para a arte, mesmo que soubesse que nunca poderia viver dela.”

    Boa sorte no desafio!

  12. Elisabeth Lorena
    24 de maio de 2021

    Ode Poética Moderna (Alberto Reis Pessoa de Campos)

    Olá

    O conto com tanta referência clara, desde pseudônimo e referência, ao fim me faz pensar em alguém que não está aí: Vinícius de Moraes e seu “Soneto do Amor Mortal”. “E te amo além, presente na saudade. /Amo-te, enfim, com grande liberdade / (…) E de te amar assim muito e amiúde, /É que um dia em teu corpo de repente /Hei de morrer de amar mais do que pude.” Talvez até porque estou na fase Nelson Gonçalves e tal, mas aí vai as minhas apreensões e impressões sobre seu conto, Alberto Reis Pessoa de Campos.
    De princípio gostei desse pseudônimo composto por heterônimos de nosso bom Pessoa e, confesso, iniciei por sua ode exatamente por isso. E um segundo invocador de leitura foi a citação com “O retrato de Dorian Gray”, é um livro que me encanta duplamente: primeiro por ser um de meus prediletos e segundo, mas não menos importante, foi o primeiro livro que meu sobrinho leu. E amou. E vai aí outra confissão: ao longo do texto esperei que essa alma se sanasse. Grande choque! Mas não vou direto ao fim.
    Sua construção semântica cumpre a função de nos dar as informações sobre o estado de nosso emocional e psicológico do narrador, amigo de Brás Cubas. É também sua produção de sentidos nos traz um lirismo particular. E sim, a solidão extrema é perigosa. E o narrador se colocou nela quando evita visitas, encharca-se em bebida e cigarro e, isola-se em um ambiente emocional e quimicamente prejudicial à sua saúde. E quando nosso narrador-personagem entra em frenesi em direção, primeiro ao suicídio e depois em busca do retrato perfeito me traz a fala de Darwin: “Pessoas em sofrimento excessivo frequentemente procuram alívio em movimentos violentos e quase frenéticos”. Mas fugindo da evolutiva opinião desse aí, voltemos ao seu conto.
    Que beleza e lirismo há em “sem a gramática que descreve a sua beleza.” E há algumas mostras de respeito à figura que não se sabe com certeza como saiu de sua vida. Aponto duas excelentes amostras disso; “fazia os possíveis e os impossíveis para fazer com que a existência dos outros fosse diferente, única e irrepetível.” e “ a dimensão da sua paixão pela arte estava na proporção inversa do seu talento,” Um exemplo de grandeza, afinal, a crítica está posta, mesmo respeitando o amor e a pessoa. Perfeito. Nesses tempos de total incongruência entre discurso e atitude, nosso suicida em potencial dá-nos uma lição de maturidade sem precedentes.
    O vocabulário do texto também é um brinde delicioso. Algumas palavras não estão em seu significado imediato. Mesmerizar; tresandar e desiderato são mostras perfeitas dessa ideia. Tive que verificar a segunda, já que a uso constantemente, já que por causa de minha deficiência física, algumas vezes, tresando e, meu avô dizia, a título de nós apressar: “Acha que relógio tresanda em seu benefício! Se apresse, “minina”!”
    No campo das ideias destaco “A beleza na imperfeição”, e ainda aí, usando como ideia de profundidade a frase “Paixão no estado mais puro, do primeiro até ao último olhar”.
    Há sempre a delicada pressão para que o leitor entenda quem dirige a vida desse narrador, afinal, mesmo no auge do desespero, é a ótica dela que o governa. Apesar de ver na morte a salvação, ele pensa que sanar sua dor: “ não mitiga o sentimento de traição que o suicídio representava para ela”. Perfeito!
    E há até algumas ideias praticamente filosóficas, a frase que segue é de uma profundidade insuperável, afinal, viver dói. “Falam tanto da vida depois da morte, quando o verdadeiro problema é encontrar a vida depois da vida.”
    Uma futura ediçãozinha: “duas constatações” surgem em três. E a última aterroriza um ser frente a dor: “Ninguém pode ocupar o seu lugar.”
    Tristemente esse desenganado tenta fugir, mas como continua no ambiente em que a dor lhe foi imposta, a casa em que viveu esse amor intenso.
    E de novo o jogo de palavra – viver de/viver para: “Vivia para a arte, mesmo que soubesse que nunca poderia viver dela.” Talvez uma sacada comum, mas que cabe perfeitamente na perspectiva desse sofredor.
    Ao fim, quando se dá conta que esse é um discurso póstumo, reler e entendê-lo pode ou não ser relevante, porém, essa certeza de que se acabou assim quando a arte se evidenciou nela, quando a loucura da solidão o faz um artista, que morre depois de alcançar o ápice de sua obra-prima. E falece exaurido, afinal, parece que transferir “a alma para a tela” não era um modo figurado, era uma verdade.
    Parabéns!

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.