EntreContos

Detox Literário.

O cativo da sorte (T. R. Martinho)

Acredito que o café faça sucesso no mundo todo devido ao seu cheiro. O aroma que o pó exala enquanto a água o atravessa, ardente, pelo coador, se aproxima da perfeição. Um odor que, por si só, injeta ânimo.

Quantas vezes levantei cedo, ainda sonolento pela madrugada de partidas de RPG, só pelo cheiro do café preparado pela minha mãe?

Café exala aconchego. Conforto. O que, espero, meu hóspede sinta nessa manhã. Depois, ele poderá escutar os sons do amanhecer. O canto dos passarinhos, radiantes, próximos à sua janela. Ele imaginará a dança vibrante das pequenas aves no céu. Sentirá o movimento suave das árvores ao vento.

Estamos no campo. A paisagem que meu hóspede veria pela janela é bucólica. O verde predominante, o céu bem azul e as vacas pastando na colina. Quase uma pintura renascentista.

Só que ele não vai ver.

Assim que for despertado pelo perfume do café, já onipresente pela pequena casa, seu estômago embrulhará. Vai implorar por comida. Ele não come nada há quase um dia. E ficará ainda mais tempo sem comer.

O canto dos passarinhos o lembrará que nós estamos longe de tudo. De todos. Num brejo em que, mesmo que ele grite, ninguém vai ouvir. Só eu, que posso ficar irritado. E meu hóspede não desejará me irritar novamente.

É esse o efeito que eu desejo: que ele tenha esperanças ao despertar e, em seguida, se sinta num pesadelo. Só que um pesadelo real.

Café passado, vou até seu quarto.

— Bom dia!

Amordaçado, ele não me responde. Mas está acordado e lança um olhar bem expressivo para mim, apesar do corpo prostrado na cadeira. O aroma do café fez efeito.

— Você quer ir ao banheiro?

Ele balança a cabeça.

— Tudo bem, vamos lá.

Esses momentos são tensos. Preciso desamarrá-lo com cuidado. Não é um homem alto, deve medir, no máximo, 1,70 m. É magro, o que facilita que eu o levante. Sei que corro riscos, é uma oportunidade para ele entrar em combate comigo. Entretanto, eu arrisco.

Quando chegamos da viagem a esse lugarejo, ao abrir o porta-malas, senti nojo ao ver o homem sujo de fezes e urina. Há limites para tudo. Prefiro me expor e não ter que lidar com aquela sujeira novamente. Que ele use o banheiro quando desejar. Deixo uma buzina ao lado dele, para que me avise de suas necessidades.

Eu, depois de horas assistindo a tutoriais, fiquei bom com nós. Em prender e soltar. Do jeito que amarro, mesmo que ele se esforçasse, não moveria um milímetro do corpo.

Deixo apenas seus pés e mãos presos uns aos outros. O banheiro fica ao lado. Vejo o homem cambalear até o vaso. Sua cabeça careca já está sombreada pelo crescimento dos cabelos. Meu pai, calvo desde os trinta anos, odiava as pessoas que optam pela careca por estilo. Dizia que eles ofendiam a classe. Reparo que o roxo ao redor de seu olho esquerdo está mais escuro.

— Não se esqueça que eu estou armado. É melhor não tentar nada.

A porta fica aberta. É desconfortável ver um homem lidar com suas questões fisiológicas, mas não darei tanta sorte ao azar.

***

Espero duas horas até servir um lanche ao meu cativo. O café, já frio, é acompanhando por um pão com margarina. Ele come em um instante, está mesmo faminto. Finalmente, fala comigo:

— A minha família não é rica. Também não tenho amigos com dinheiro. Ninguém vai pagar pelo meu resgate.

— Você sabe muito bem o que eu quero. Aliás, tem alguma novidade para mim?

— Não funciona assim.

— Faça funcionar, ora! Eu tenho pressa, está bem?

Volto para o meu notebook. Para Hydrag e a Montanha Maldita. Título provisório. É o segundo livro da trilogia. Está nos capítulos finais. Ficar isolado está fazendo bem para a minha escrita. Sem internet e sem minha mãe me pedindo para levá-la ao supermercado, à igreja ou ao médico, fica mais fácil me concentrar. Escrevi quase cinquenta páginas em dois dias. E olha que estou lidando com um cativo.

Aliás, preciso dar crédito à literatura. Se não fosse Krou, o vilão do meu livro, dificilmente eu conseguiria assumir esse papel de sequestrador. Não sou agressivo, valentão. Pelo contrário. Porém, desenvolver personagens para uma obra faz a gente ampliar nossa personalidade. Incorporar atitudes que não são nossas. É o que estou percebendo. Antes de ter com meu prisioneiro, penso em como agiria Krou, um guerreiro dragonídio sem escrúpulos. Ele, um aristocrata do Reino dos Dragões, não teria dilemas: se fosse necessário torturar para obter uma informação, ele o faria com prazer.

É isso. Krou toma conta de mim quando estou diante do meu hóspede. Foi ele quem desferiu aquela coronhada no Mestre Lucas.

***

A casa em que estamos não é muito distante da pequena cidade. Para não dar muitas informações aos moradores locais, prefiro ir a pé fazer compras. As pessoas me cumprimentam, mesmo sem me conhecer. Eu, que sempre andei cabisbaixo, preciso erguer o semblante e trocar sorrisos com essa gente. Olhar para aqueles rostos gentis, envelhecidos pelo sol inclemente e pelo trabalho árduo. Demonstrar simpatia.

— Dia! – eles acenam com a cabeça. Homens seguram a aba de seus chapéus, numa espécie de reverência.

— Dia – respondo, tentando repetir seus gestos e entonação.

Tudo por aqui é arcaico. As casas minúsculas na beira da calçada. As galinhas atravessando a rua, os cavalos sardentos pastando pelos cantos. Os estabelecimentos são pobres como essa gente. Preciso praticamente atravessar a vila para encontrar um mercado. Bares e vendas são mais acessíveis.

Apesar da pandemia, não vejo ninguém usando máscara. Eles devem afugentar o coronavírus com suas enxadas e mandingas. Não há bancos, então preciso sacar a última parcela do meu auxílio emergencial em uma casa lotérica.

Se não fosse esse auxílio, aliás, nada disso seria possível. Precisei fazer investimentos: o aluguel da casa, a gasolina para a viagem e a compra da arma. É uma pistola antiga e, mesmo assim, me causou um desfalque financeiro.

Foi com o dinheiro do auxílio que eu pude convencer minha mãe. Disse que faria um “retiro para a escrita”. Ela sempre insiste que eu estou perdendo tempo com essa “ilusão”, nas palavras dela. Diz para tirar minha cabeça das nuvens e arrumar logo um emprego. Para quem só lê a Bíblia, uma história sobre dragões deve mesmo soar ridícula. E, mesmo que ela não tenha gostado da ideia do retiro, o dinheiro, dessa vez, é meu. Não precisei dar satisfações.

Após o saque do auxílio, compro proventos para alguns dias. Poucos, pois espero resolver logo a situação. Aproveito o sinal de internet da cidade e faço uma encomenda pelo celular para o dia seguinte. Recebo várias mensagens, mas deixo para acessá-las quando estiver na casa. É mais prudente retornar logo ao cativeiro.

***

Abro a porta do quarto. Mestre Lucas está dormindo em sua cadeira e desperta com lentidão. Está abatido. Apesar de ter comido o pão mais cedo, ele parece mais pálido. Já não lembra em nada aquele homem vistoso, que atendia seus clientes com rosto maquiado, anéis nos dedos e pulseiras de contas nos braços. Uma figura excêntrica em suas batas com estampas indianas.

— Arnica, manjericão, louro e sal grosso. Pronto, tá tudo aqui. Os cristais chegarão amanhã. O frete foi caro, mas eles entregam nesse fim de mundo.

— O manjericão é pra você. Já que vai me submeter a jejuns intermitentes, ao menos use isso na comida. Assim minha espera vai valer a pena.

— Engraçadinho, ein? Vou ter que deixar seu outro olho roxo para você me levar a sério?

— Eu já te disse, meu contato com o plano espiritual não funciona assim. Nós estamos perdendo tempo.

— Não, você está perdendo tempo! Está encurtando a sua vida. Eu preciso dos números, porra!

— Quer números? Então toma: duzentos e nove, cento e vinte quatro… quantos mais precisa?

Meu pé direito acerta com violência o peito do místico. A cadeira voa até a parede e se parte. Até eu me surpreendo com minha reação. Sou rápido, saco a arma antes que ele faça qualquer gesto.

— Fica paradinho aí, Walter Mercado! Se tentar alguma coisa, eu atiro!

Ele está assustado. Apático pela parca alimentação. Prendo Mestre Lucas em outra cadeira, sem resistência. Krou é mesmo uma personalidade inspiradora para lidar com um sequestro.

— As compras estão aí. Converse com seus guias espirituais, eu preciso desses números. As seis dezenas e a data do sorteio.

— Não posso prometer nada.

— Eu não quero promessas. Quero os números. Se não for capaz, você será inútil para mim.

Volto para o notebook. Para o romance. Meus dragões não são como os tradicionais. São uma evolução daquelas criaturas, com algumas características clássicas (rabos, escamas e asas), porém antropomorfizados. E cospem fogo, claro. Há outras criaturas fantásticas, como anões e gigantes. Mas a tensão se dá na guerra entre humanos e dragões. Hydrag, o protagonista, é um jovem que se descobre híbrido, filho de uma mulher e de um dragão.

Como não se empolgar com uma história dessas?

Enquanto avanço na escrita, vou conferindo no celular as mensagens que recebi. Chegou uma resposta da agência literária Escriba Profissional. Em outros tempos, meu coração dispararia. Eu leria a mensagem quase sem respirar. Tempos de ingenuidade. Agora, sequer fico decepcionado com a mensagem. Mais uma variante do texto protocolar.

 “Agradecemos o envio de seu original. Apesar de vermos potencial em seu trabalho, ele não se encaixa no perfil que procuramos no momento. Desejamos boa sorte em sua carreira”.

A gente se acostuma com essas respostas. Está claro que o problema não sou eu. Essa cadeia literária está corrompida em todos os níveis. Provavelmente, esse pessoal sequer leu meu texto. Devem ter pesquisado nas redes sociais e, após verificar que não tenho tantos seguidores, me descartaram. Eles procuram um sucesso pronto, não se preocupam com a qualidade da obra.

Só o dinheiro poderá abrir essas portas.

***

Os sapos coaxam lá fora. Levo o jantar para o Mestre Lucas. Macarrão ao molho de salsicha. Afinal, aqui não é hotel.

Resolvi mudar um pouco meu método. A falta de comida estava deixando ele fraco demais.

Apesar das agressões, dos membros inchados por ficar preso na cadeira, o homem não me dirige hostilidade. É mesmo uma espécie de santo. Isso me confirma a impressão que tive quando acompanhei minha mãe na consulta. Nunca acreditei em videntes, mas fiquei perplexo. Ele descreveu a personalidade da minha mãe, deu respostas para diversos dilemas que ela enfrentava. Ainda por cima, no meio da consulta, disse:

— Dona Alva, meus guias estão com alguém que quer mandar um recado para você. Zezé, esse nome lhe diz alguma coisa?

— José Gerônimo, é o meu falecido marido!

— Ele está dizendo: “sinto muito por não estar com vocês, meus queridos. Mas tenho muito orgulho de como estão se saindo. Amo vocês!”

Aquilo fez nós dois chorarmos. Meu pai nos chamava assim, “meus queridos”.

Aquele Mestre Lucas não era um charlatão. Só precisava se esforçar um pouco mais para conseguir os números da Mega Sena.

— Mestre, você tem seus poderes, sabe que eu não sou má pessoa. Mas eu preciso desse dinheiro. Facilita para mim, não quero lhe fazer mal.

— Meus guias espirituais não agem por princípios materiais.

— Falou o médium que cobra trezentos reais pela consulta!

— Isso é para manter o projeto.

— Conversa com eles, tá bom? Eu preciso desses seis números e da data do sorteio. É simples. E eu prometo: seu “projeto” vai receber uma parcela generosa. Tô te propondo uma parceria, porra! Não é tão difícil. Eu vi você falando do passado da minha mãe, coisas que nem ela se lembrava mais.

— Olha, os meus guias… eles já vieram até mim.

— E?

— Eles trouxeram uma boa notícia para você, tá bom? Seus projetos irão se concretizar. Mas não vai ser no caminho que você está esperando. Há vias alternativas que você, cego por essa solução que projetou, não está percebendo. Ainda assim, você vai alcançar seu objetivo.

Enfio o pano na boca do vidente. Essa conversinha de autoajuda não me interessa.

— Eu quero esses números amanhã, no máximo. Se isso não acontecer, adotarei medidas drásticas. Boa noite.

***

O dia amanhece e eu fico um bom tempo sem entrar no quarto do meu cativo. Que ele sofra um pouco mais. Continuo irritado com o conselho dos guias espirituais.

Com todas as negativas que recebi das editoras e agências literárias, não há caminho alternativo. Publicarei meus livros por conta própria, mas isso não vai garantir que eu consiga público. Se eu não puder pagar para que Youtubers, críticos literários e influencers falem do meu livro, se eu não tiver uma equipe de profissionais criando conteúdo para minhas redes sociais, meu universo literário jamais encontrará leitores.

Será que esses gasparzinhos não percebem isso? Que só o prêmio poderá me dar essa estrutura? Eu preciso dos malditos números do sorteio da Mega Sena!

Escuto o barulho de um carro se aproximando. Deve ser a entrega dos cristais. Quem sabe assim ele consegue os números tão necessários para minha vida deslanchar?

Abro a porta e dou de cara com um homem de farda e sua escopeta apontada para o meu peito. Não é a entrega. Devo ter sido menos discreto do que imaginei.

***

(…)

Após alguns anos, retomo essas notas. Tinha um certo receio em reviver tais memórias. O momento que antecede nossa prisão nunca é o melhor de nossas vidas. Mas, por sugestão do meu editor, resolvi relembrar aqueles dias.

Sim, agora eu tenho um editor.

Mestre Lucas foi resgatado naquela manhã. Ele não me passou os números da Mega Sena. E tudo bem.

Os guias espirituais sabiam mesmo do que estavam falando. Na cadeia, eu vivi uma situação inusitada: após ser negado por tantas editoras, de repente elas começaram a me procurar. Com a exposição no noticiário policial, o público se interessou por mim. Achavam excêntrico: o escritor obscuro, sem antecedentes criminais, que sequestrou um vidente. Agora, as editoras viam potencial na minha história. Não no romance de fantasia. Ainda não. Mas queriam que eu escrevesse sobre minha vida.

O primeiro livro, Diário de um prisioneiro, é sucesso de vendas. Segue há meses na lista dos mais vendidos. Inclusive, correm boatos de que receberei proposta pelos direitos de adaptação cinematográfica.

Foi um livro muito fácil de escrever. Eu só precisei contar como é minha vida dentro do sistema prisional. Com alguma criatividade, claro. Ainda assim, bem mais simples do que elaborar uma ficção sobre a guerra entre humanos e dragões.

Agora, meu editor veio com essa ideia, quer que eu escreva uma espécie de prólogo da minha prisão. Ele até veio com o título: Nasce um fora da lei. Por isso, me sugeriu reler essas anotações. Segundo ele, um livro assim só fica bom se tiver muitos episódios de sexo e drogas. Então, vou ter que usar mais a imaginação do que foi necessário no primeiro livro. Adicionar personagens e situações.

Meu contador destina uma pequena porcentagem dos royalties do Diário de um prisioneiro para o Mestre Lucas. Para apoiar o projeto, como ele diz. Não quero que os guias espirituais pensem que sou ingrato.

Assim que lançarmos o segundo livro, haverá oportunidade para a publicação da trilogia do Hydrag. É o que afirma meu editor. Sempre que pergunto sobre isso, ele desconversa, diz que é para eu focar no Nasce um fora da lei. É um pouco frustrante, eu admito. Mas acredito nele.

Enquanto isso, paralelamente, já estou trabalhando na continuação da trilogia de fantasia. Expandindo o universo, com novas criaturas e batalhas. É complexo, me toma muito tempo.

Por sorte, tempo é o que não me falta ultimamente.

12 comentários em “O cativo da sorte (T. R. Martinho)

  1. Fernanda Caleffi Barbetta
    11 de junho de 2021

    Olá, T.R. Martinho,
    Gostei do seu texto. Muito boa a sacada de nos fazer crer, logo no início, que ele se referia a um hóspede e depois nos revelar que o café seria oferecido ao seu prisioneiro. Gosto destas surpresas e viradas de cena.
    Gostei também da interação entre os dois.
    Ponto positivo para alguns trechos mais divertidos.
    Descrições e personagens muito bem trabalhados.
    Só achei o texto um pouco confuso com relação à variedade de tempos verbais. Começa com o narrador dizendo o que o hóspede fará; então surge um “ele veria”; depois ele fala no presente, relatando o que está fazendo; logo em seguida, conta do passado; depois surge um “mesmo que ele se esforçasse”…

    se sinta – sinta-se
    O café, já frio, é acompanhando – acompanhado

    “Deixo uma buzina ao lado dele” – buzina? Seria melhor, sino, campainha…

    “Para não dar muitas informações aos moradores locais, prefiro ir a pé fazer compras” – aqui eu não consegui relacionar o fato de ir a pé com fugir de dar informações aos moradores.

    Engraçadinho, ein (hein)

  2. Kelly Cristina Hatanaka
    10 de junho de 2021

    Oi Martinho.

    Curti seu conto sobre um escritor desesperado. Gosto dessas histórias em que o personagem obtém o que queria por algum caminho inesperado. No caso aqui, a prisão. E é engraçado que, mesmo obtendo o sucesso, ele ainda não tem bem o que queria, que era publicar sua história de fantasia. Um tanto irônico que a história que todos querem ouvir é a dele, a da vida dele, enquanto o próprio está encantado com o universo fantástico que criou.

    Muito bom!!!! Parabéns!

    Kelly

  3. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Ah, ah, ah. Enredo brilhante o do seu conto: deu-me algumas ideias para fechar o ciclo onde me encontro, como autor publicado mas absolutamente desconhecido. Tenho de meditar profundamente para saber se é este o caminho para o sucesso. Colocando de parte este lado pedagógico do seu conto, gostei da forma elegante como a narrativa começa, mas há alguma incongruência: o narrador vai oscilando de género ao longo do texto. Depois, ao longo da narrativa, a partir do momento em que a trama é desvendada, a velocidade aumenta, o texto torna-se mais fluído e interessante. O desfecho é inesperado: o sucesso aparece onde menos se espera.

  4. gisellefiorinibohn
    7 de junho de 2021

    Olá, T. R. Martinho!

    Cara, que conto legal! Sabe que no começo achei que seria uma coisa meio “Misery”, do Stephen King? Mas não, foi mais legal ainda! Adorei a premissa, as descrições, os personagens, as menções à pandemia, ao Walter Mercado – enfim, um texto bem atual e dinâmico.

    As críticas ao mercado editorial são bem sacadas e pertinentes, e até com a mentalidade do escritor frustrado e incompreendido dá pra gente se identificar. Por que será, né? Enfim, adorei isso.

    Na parte técnica houve algumas falhas, que já foram apontadas em outros comentários, mas coisa mínima; em nada tiraram o prazer da leitura. O conto flui bem, não aborrece, mantém nosso interesse. O tom todo do texto é bem casual, próximo da oralidade, sem grandes firulas ou tentativas de trazer lirismo à narrativa.

    Embora eu geralmente goste de construções mais inovadoras, senti que foi proposital esse “conservadorismo”, então sem problema, não chega a ser um ponto negativo.

    Bom, como se pode ver, meus comentários são variações de “gostei” e “não gostei” hahaha… não consigo mesmo sair muito disso! Neste caso, foi “gostei”!

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  5. Elisabeth Lorena
    7 de junho de 2021

    O cativo da sorte (T. R. Martinho)

    Pseudônimo perfeito para suas pretensões, T.R.Martinho! E para um presidiário também.
    Agora vamos para sua experiência literária. Como assim você sequestrou o aprendiz de Walter Mercado? Não pode! Pior ainda! Tortura com café? Você não merece perdão! E por isso vou ali beber um café e depois penso se comentarei seu texto.
    Brincadeirinha! Nem vem com essa de me amarrar!
    Vamos lá. – Como o Walter Mercado diria essa frase. Bem, deixa para lá.
    Estrutura de conto perfeita. Enredo perfeito. Personagens perfeitas. Tempo: passou raspando – não curti a forma como trabalhou a contemporaneidade no texto.
    Espaço: trabalhou bem. Os espaços físicos, tanto internos, externos quanto psicológicos foram bem trabalhados. Faz com que o leitor veja tudo. Cuidou bem dos detalhes descritivos sem tornar o texto arrastado ou aborrido, ops, cansativo. Personagens também são bem desenhadas. Poucos contos nesse Desafio deram conta disso: “Vida Arteira” e “Ode Poética (…)” e esse – até agora, foram espetaculares nesse quesito. Criaram personagens marcantes e de fácil materialização.
    A linguagem é executada a contento. O texto inicia com uma divagação sobre café e conforto que até pensei que conhecia o autor. Só mudei de ideia porque dificilmente falaria de RPG e talvez não goste de trabalhar com comportamentos psicóticos.
    A frase “Café exala aconchego. Conforto. O que, espero, meu hóspede sinta nessa manhã” situa a mentalidade familiar do narrador e sua habilidade de enganar o leitor, porque fala de tudo o que é o sumo divino do cafeeiro e sua representação mexe com a nossa curiosidade sobretudo como reagirá o hóspede. Maldade das maldades o pobre sequestrado não bebericou o líquido sagrado na temperatura correta. Recebe-o frio. E frio é o golpe no estômago quando vemos que o tal convidado é na verdade o cativo.
    Tenho certeza que esse narrador matava animais de estimação com requinte de crueldade na infância e vem nos enganar dizendo que está apenas associando o comportamento do protagonista de sua trilogia. Mal, não acreditamos em você T.R.Martinho! Você está terceirizando culpas! Isso não é brilhante. E referir-se ao prisioneiro como cativo é outro ponto fora da curva, está minimizando a ação.
    A construção de seu texto vai trabalhando a arte literária e essa sua metalinguagem vai mostrando, além do fazer literário do narrador, a sua loucura. Ao longo de cada amostra da escrita do livro vamos vendo o quanto a mente está perturbada. Ao incorporar o protagonista da trilogia que está sendo criado, o narrador vai criando uma realidade infernal para o sequestrado que já está com o rosto deformado, que perde sua individualidade com o cabelo que cresce, que não tem privacidade nem para as necessidades fisiológicas e não está sendo alimentado adequadamente.
    A violência é desnecessária – o homem já está rendido. A exploração obsessiva da violência mostra as debilidades do narrador, que se esconde através de uma persona para exercer o poder. Ao sermos informados de seu gosto por RPG e muitos deles serem baseados em extrema e gratuita violência podemos pensar em Dráuzio Varela que afirma que “o desenvolvimento do comportamento agressivo” está diretamente relacionado à exposição ininterrupta da crianças à violência exibida pela mídia justamente porque há as influências locais, emocionais e sociais, além das percepções mentais que podem mudar a forma que cada indivíduo interpreta um discurso e o reelabora tornando-o seu. Na verdade, antes de Varela, Freud atribui as neuroses do ser adulto às experiências da infância.
    No plano literário ficcionalizado é muito interessante essa ideia de ir detonando o mercado literário de forma crítica e de leve, praticamente usando o assunto como subtema.
    Primeiro deixa a dúvida sobre se quem recebe originais realmente os lê. E já deixa claro que a internet hoje interfere no comportamento editorial, já que antes de acessar uma obra procura antes o grau de influência do pretenso autor. Depois já fala da dificuldade de tornar a obra famosa mesmo quando opta por autopublicação e a necessidade de se ter equipes próprias de marketing digital e de influenciadores literários que recebem para alavancar títulos. Segue para o ápice da hipocrisia do mercado: uma vez famoso, mesmo que por uma via duvidosa, o autor sai do anonimato e sobe direto para a lista dos mais vendidos. Isso é praticamente um mapa comportamental doentio de algumas empresas do meio editorial.
    Sobre o sequestro, objetivos e erros. A motivação é fútil – Conseguir os dados da Loteria para ganhar e pagar sua entrada triunfal no universo literário. Há os erros de cálculo: Ir para um lugar pequeno é a melhor decisão para quem tem pouco dinheiro e o auxílio emergencial não possibilitaria uma estadia grandiosa em um lugar com alguma privacidade. A escolha da cidade do interior é o erro maior. As pequenas comunidades não são de forma nenhuma um lugar para estranhos. As pessoas das pequenas urbes são espertas, observam bem, qualquer atitude minimamente suspeita e os xerifes surgem do nada, com a folha corrida.
    A quebra da narrativa com a prisão é verossímil e acachapante. Chega a dar raiva da Polícia. O retorno à escrita também é crível, principalmente porque vem com todo um enredo novo preso ao anterior. Prisão versus prisão, porém o pobre Mestre Lucas não tem direito a voz, o narrador tem quando é encarcerado e consegue a fama. Mas, tenho algo a dizer: “Una obra de arte es el resultado del equilibrio entre razón y sentimiento, entre espíritu y alma.” (Juan Manuel Pérez Garcia, 2021) e lhe falta equilíbrio.
    Agora, aqui para nós, entidade Marinho, nenhum vidente vai dar data e números da loteria. Se pudessem fazer, seriam ricos. Indico a você outras entidades que poderiam lhe ajudar caso ainda queira ganhar um dinheiro na Mega Sena. Ficaram conhecidos como Anões do Orçamento. Caso concorde… Para lhe animar, parece que ganharam umas “trocentas” vezes. Pelo que sei sobre eles, criam que dinheiro nunca era demais.
    Parabéns pelo texto.
    Sorte no Desafio.

  6. Fheluany Nogueira
    5 de junho de 2021

    Já me conquistou com o café; o cheiro dele, também, seria uma tortura para mim!

    O pseudônimo se refere ao escritor de ficção científica, terror e fantasia norte-americano ou ao nosso “da Vila”? Com o segundo, haveria maior identidade cultural e estaria mais relacionado ao livro que o protagonista publicou.

    A trama guia o leitor pelo mundo da escrita de entretenimento e o mundo da edição, contando a história da carreira do protagonista-escritor. Um texto que se transformou de policial a intimista — de início, fiquei pensando onde aquela narrativa ia parar…
    Tal empreitada mobiliza ações exageradas para atingir os fins, como o sequestro, o abandono da temática ligada à fantasia e a prisão para conseguir um editor e mercado para sua obra (Que forte crítica social!).

    Alguns equívocos na escrita e algumas incoerências textuais me incomodaram, mas não prejudicaram o ritmo da leitura.

    Parabéns! Sucesso no desafio! Abraço.

  7. Regina Ruth Rincon Caires
    4 de junho de 2021

    O cativo da sorte (T. R. Martinho)

    Comentário:

    Que leitura boa! O autor entende do riscado, o conto brinca com a fantasia e a realidade de modo encantador. E, como a escrita é um descampado sem cercas, o exagero dos meios para se chegar ao objetivo é válido. O enredo prende o leitor, não há como não “engolir” o conto de uma vez só. O autor cria e conduz a expectativa brilhantemente. E, para ligar o texto à realidade, para torná-lo mais palpável, mistura o auxílio emergencial e a pandemia no imbróglio. Haja criatividade, meu caro T. R. Martinho!

    Um texto com descrições tão primorosas que transmitem cor, cheiro, som. Constroem o cenário. Senti o aroma do café, ouvi o barulho do carro, a cor roxa no olho socado por Martinho, e vislumbrei Walter Mercado, o astrólogo de visual andrógino, sua túnica suntuosamente bordada, seus trejeitos, e até ouvi o “Ligue Djá”!

    O final é surpreendente: o “escritor Martinho”, preso, escrevendo a vida real, distante daquelas fantasias tão cultuadas. Percebe-se uma (intencional) espetada no mercado literário.

    Pequenos deslizes na escrita, nada que retire a fluência da leitura.

    Parabéns, T. R. Martinho! Belo trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  8. Leonardo Philipe
    31 de maio de 2021

    Olá, T.R. Matinho! Obrigado por compartilhar O cativo da sorte conosco ♥

    Provavelmente este será o meu maior comentário do desafio, porque durante a leitura senti várias coisas e quero pontuar muitos trechos do seu conto.

    Antes de tudo, escrita e ritmo excelentes! Me prendeu do início ao fim.

    – PONTOS POSITIVOS: O sentimento que possivelmente motivou seu texto me pegou de jeito. Vivemos, de fato, na era do imperialismo digital e isso afeta todas as formas de arte, não apenas a literatura. Achei visceral a forma como você apresentou as inquietações do protagonista.

    Gostei de como o texto começa em um gênero e termina em outro. Algumas pessoas, principalmente leitores mais tradicionais, podem achar confuso, mas eu achei ousado (no sentido positivo da palavra).

    – CONSIDERAÇÕES: Há algumas coisas pouco verossímeis na narrativa.

    Mesmo que o protagonista tenha conseguido alugar uma casa no interior, o auxílio emergencial com certeza não daria conta de todas as despezas (se há outra fonte de renda além desta, não ficou explícito no texto).

    Alguns diálogos tiveram excesso de exclamação e frases de efeito, o que empobreceu momentos que poderiam ter sido muito mais divertidos.

    Há muita contradição nos pensamentos e ações do protagonista. Houve um problema na construção das motivações que movem a história.

    ………..

    ~CONSIDERAÇÕES EXTRAS (que não afetaram a nota que atribuí ao seu trabalho)

    Teu conto me deixou intrigado!

    Em alguns momentos, o texto parece ironizar o próprio protagonista, em outros, se leva muito a sério.

    “Ainda assim, bem mais simples do que elaborar uma ficção sobre a guerra entre humanos e dragões.”

    O protagonista com certeza é pouco sociável e não entende a complexidade das relações humanas. Senti até uma vibe adolescente. Talvez, por viver tanto no mundo da fantasia, não compreende que a realidade humana é a melhor ficção.

    “Como não se empolgar com uma história dessas?”

    Sendo bem sincero, acredito que o mercado literário está saturado de histórias da chamada “Alta Fantasia”. A negativa das editoras que o protagonista recebe com certeza não surge apenas pelo imperialismo digital, mas também porque ele escreve obras de um gênero saturado e que já possui vários representantes de sucesso no mercado.

    Por que uma editora apostaria em um autor nacional que escreve uma obra cheia de estrangeirismo (dragões, por exemplo, são figuras mitológicas que não tiveram sua origem na cultura brasileira), se ela já publica autores estrangeiros que geram lucro?

    Como o protagonista bem cita no texto, no fim, é tudo sobre dinheiro. Mas também há uma parcela de falta de identidade cultural nesse meio. Tentar ser o próximo R. R. Martin talvez não seja a melhor meta para um escritor brasileiro.

    Essa ingenuidade do artista indo de encontro às frustrantes tentativas de capitalizar a arte, foi exatamente a contradição que me deixou intrigado pelo seu conto!

    Gostei demais do seu trabalho. De todos os contos que li até agora neste desafio, o seu é o que tem o melhor ritmo e conseguiu depositar toda a carga emocional sem se limitar à técnica.

    Parabéns! ☮

  9. claudiaangst
    29 de maio de 2021

    Olá, Martinho, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = Literatura, a preferência do autor é o gênero fantasia, mas tem que se render à própria biografia para alavancar as vendas. Tema abordado com sucesso.

    R = Revisão = alguns poucos lapsos.
    – é acompanhando por um pão > é acompanhado por um pão
    – A falta de comida estava deixando ele fraco > A falta de comida estava deixando-o fraco/ A falta de comida estava o deixando fraco/ A falta de comida o estava deixando fraco
    – José Gerônimo, é o meu falecido > José Gerônimo é o meu falecido

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Linguagem clara e precisa, sem entraves que prejudiquem a leitura. A narrativa consegue prender a atenção e mantém o clima de suspense até o final. Ritmo adequado à trama desenvolvida. Personagens verossímeis, com características que os aproximam do leitor.

    E = Então, autor[a] = Foi uma leitura interessante e fácil de realizar. Não ousou na premissa , mas também não decepcionou em nada. Final coerente com a história narrada e os tempos em que vivemos. Enfim, gostei.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  10. antoniosbatista
    27 de maio de 2021

    Ambientação= No tema, Literatura.

    Escrita= Simples, clara e coerente.

    Enredo= Bom.

    Considerações Gerais= O conto começa meio confuso, mas aos poucos vai se tornando coerente e leva o leitor a querer saber o que vai acontecer mais adiante. A intensão do personagem/narrador, parece ingênua, querer o que todo mundo quer, ganhar na mega sena. Para isso ele sequestra um vidente. Não leva em conta que, se o vidente soubesse, ele mesmo já tinha ganhado.

    O sequestrador/protagonista/escritor/narrador, é preso e tem por fim, o sonho realizado, o de publicar um livro.

    Por fim e ao final, a ingenuidade aliada à crueldade e fantasia do personagem escritor, é que faz o conto ser interessante, que faz ser uma boa história, por que não dizer, original.

    Torturar o prisioneiro com o aroma do café, foi genial!

  11. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: o protagonista é um autor frustrado de literatura de entretenimento.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = O humor poderia ser mais sutil: achei extremado alguém acreditar na possibilidade de alguém adivinhar os números da mega.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa: está bem encaminhada.

    E = Então, autor[a] = Eu me diverti bastante com a leitura, o que foi surpreendente, já que não gosto de fantasia. Atribuo o sucesso deste texto comigo ao fato de a escrita ser fluida, leve, além de abordar com bastante inteligência a paranoia do protagonista.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  12. thiagocastrosouza
    25 de maio de 2021

    Resumo: Autor sequestra místico com o objetivo de receber os números da Mega Sena. O prêmio será utilizado para publicar o seu primeiro livro, um romance do gênero fantástico.

    Comentário:

    Caro Martinho, o conto atende os requisitos do desafio e, por meio de uma narrativa confessional, somos apresentados a reflexões sobre o mercado literário, a produção da escrita, entre outros temas pertinentes desse objeto que tanto nos diz respeito: o livro.

    A premissa, por mais interessante que seja, perde força na forma como contou a história. Há muitos lugares comuns na descrição dos personagens, no uso de adjetivos, na forma de construir os diálogos, de forma que o texto acaba enfraquecido. Há um tom explicativo que, mesmo contado por alguém que escreve, fica muito acentuado. Além disso, há incoerências que afugentaram minha predisposição à crença: como alguém compra um revólver, ainda que antigo, apenas com dinheiro do auxílio emergencial? Quais as razões para levar um escritor, que joga rpg, provavelmente um nerd, sei lá, a acreditar em um místico logo na primeira consulta? Entre outros pontos. Entendo que seja um protagonista perturbado, mas precisamos acreditar nos motivos que o fizeram ser assim.

    Por outro lado, há um humor curioso no conto, principalmente no caminho que ele toma no final. O autor consegue sucesso não porque sua história é boa, mas porque é vendável. Há o sonho ingênuo de continuar escrevendo fantasia que, convenhamos, pelo que foi apresentado no texto, é mais uma história genérica do gênero, o que interpreto também como mais uma ironia do autor ao Mercado Literário.

    Não sei a qualidade literária de Diário de um Presidiário, mas não pude deixar de pensar sobre duas obras que tratam do tema, escritas por encarcerados e que são realmente boas:

    Diário de um detento e o livro Memórias de um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes.

    Boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.