EntreContos

Detox Literário.

A Outra Versão (Künstler)

Não era muita coisa, de fato, nada que despertasse o seu interesse.  Alguns panfletos, propaganda diversa, contas já pagas e esquecidas. Uma única carta de teor pessoal que trazia o endereço escrito em letra cursiva. Era de Adelaide, a cunhada dada a esses arcadismos. 

– E também achei isso …

Sylvia olhou para o objeto cilíndrico nas mãos do filho. Coberto por uma camada de selos e carimbos. O idioma era outro, a origem era obscura.

– Está endereçado com o seu nome de solteira.

A senhora verificou a grafia do sobrenome e surpreendeu-se por estar correto, mas havia muito que não se deparava com aquela composição de letras. Pertenciam a uma outra pessoa que ela deixara de ser décadas atrás.

– Só passei aqui para deixar isso e ver como a senhora estava. Ligo mais tarde.

Sempre atencioso, Daniel continuava a zelar pela mãe ainda abalada devido à recente viuvez. Sentia-se aliviado pela decisão de vender a antiga casa na rua das amendoeiras e trazer Sylvia para mais perto.

– Vá com Deus, meu filho.

Quando ela se viu só, tratou de desvendar aquele mistério. A curiosidade que sempre a acompanhara desde a meninice apressava seus dedos à procura de aberturas ou fendas.

Abriu a tampa superior do tubo, depois de rasgar o lacre. Sentiu o cheiro de papelão misturar-se a um odor peculiar. Algo envelhecido, doce e amadeirado, era como se entrasse na antiga adega de seu pai sob a escadaria do casarão. Puxou o conteúdo com a ponta dos dedos.

Folhas de papel amarelado protegiam uma espécie de tecido enrolado. Sylvia percebeu logo do que se tratava. Uma tela, de dimensões consideráveis, mantida em forma espiral tal qual um caramujo, fechada sobre si mesma, em voltas e mais voltas. Um labirinto de símbolos. 

Procurou por um peso para conseguir esticar o tecido e deixar a pintura à mostra. Os castiçais de prata serviriam. Com a tela desdobrada sobre a mesa de jantar, afastou-se um pouco para poder visualizar melhor. Suspirou, surpresa e confusa.

– Nossa… – deixou escapar em um sussurro de quase desabafo.

Era de fato impressionante. No canto inferior direito, um tremular de tinta denunciava a identidade do artista.

H. Vetter

Deixou os dedos deslizarem sobre a tela como se pretendesse mergulhá-los em um mundo líquido que não percebia como real. O relevo das pinceladas mais pronunciadas ardia agora em suas digitais. Era o reconhecimento tardio de uma arte que a fazia querer assimilar tanto as nuances quanto os possíveis defeitos.

Enquanto recolhia todos os papeis descartados no sofá, deu-se conta de que não faziam parte da embalagem. Deteve-se por um minuto, observando o que agora não lhe parecia material ser reciclado. Alisou como pôde a folha coberta por uma série de anotações e nomes.

Uma árvore genealógica, elaborada em papel delicado com o que pareciam ser traços feitos com uma caneta tinteiro ou talvez ainda pena e nanquim.  

Sentou-se o mais ereta possível, alinhando os pensamentos por um minuto. Controlava a respiração, mas o movimento descompassado do diafragma só lhe trazia angústia. Uma antiga chave havia girado e aberto alguma porta secreta. A ferrugem denunciava o vagar do tempo.

Sabia que a qualquer momento cederia ao transbordamento das lágrimas que até então havia represado com receio de deixar o pânico determinar o continuar dos dias.

Diante daquela pintura, deu-se conta da fraude que se tornara a sua realidade. Ali estava a revelação dos dias sem explicação entre uma vida autorizada e outra já fadada ao esquecimento. Uma outra existência que ela nem se atrevia a espiar pelas frestas da memória.   

Para onde foi minha juventude? Perguntou a atordoada senhora olhando-se no espelho. Mas o reflexo não lhe revelava de fato a verdade. Somente devolvia os traços físicos de um ponto de vista mecânico, sem essência. Lembrava-se de um tempo quando bastava existir. Não era preciso justificar cada emoção valendo-se de uma razão.

Não sentíra a vida correr tão rápido. Agora era revistada pela sombra esquecida pelos holofotes do cotidiano, a sua real imagem: mais do que mil palavras, sua alma revelada em sonho, poesia e promessa.

O quadro denunciava uma intimidade possível somente a alguém que a conhecesse de verdade, verso e reverso. Não a versão oficial da senhora que respondia pelas formalidades de uma vida sistematizada em cumprimento aos ditames sociais.

Era como se foi anunciada a presença inesperada de um amigo tido como morto, um anjo renascido das brumas dos anos desperdiçados. A sensação abrupta, no entanto, não era nova. Assim como os cheiros, os tons, as lembranças trazidas, tudo parecia muito antigo, um sentimento reprisado.

Examinou a peça artística com atenção de perita. Procurou por evidências que pudessem comprovar a veracidade do que via e sentia. Com cuidado, levantou uma das bordas.  No verso, encontrou o registro de uma data anterior ao próprio nascimento, com quase uma década de intervalo.

April 1948

O quadro havia sido pintado muito anos antes de Sylvia existir. Como seria possível?

Inconformada, procurou explicações nos álbuns de família. Talvez fosse melhor pesquisar o assunto pela internet, mas intuía que seria escasso material disponível. Era como se a história de seus antepassados não quisesse se revelar.

Uma foto chamou sua atenção. Um senhor magro, de bigode, semblante contemplativo, amparado por elegante bengala, mantinha o olhar distante, alheio a quem o fotografava. Imagem eternizada em preto e branco, além de uma boa camada do amarelado dos anos.

Hans Vetter. Um completo desconhecido.

Nem mesmo se lembrava ao certo se o avô era alemão ou austríaco. O sobrenome já não lhe pertencia, as raízes já não tingiam suas memórias. Concebera os frutos que a vida exigira, mas ainda jovem e apaixonada, descartara todos os outros elos que julgava tão desnecessários. Tola o suficiente para se desfazer da própria identidade em uma troca de alianças.  

Não haviam se encontrado em vida. Nunca. Nem por um segundo sequer, pois além da distância entre os países de origem, nascimento e óbito faziam parte do mesmo círculo marcado nos calendários. A coincidência de sua chegada ao mundo e a partida do ente familiar havia virado assunto nas festividades durante a sua infância e adolescência.

Algumas crianças recebem um anjo de guarda como companhia. Ela recebera um fantasma.

Sempre quisera saber como seria ter um avô. Alguém a quem pudesse chamar de vovô ou até mesmo de Opa. E, no entanto, era apenas um nome a mais em sua certidão de nascimento, alguém de quem herdara o sobrenome estrangeiro. Uma lacuna familiar.

E por uma dessas ironias que a vida gosta de manifestar, os destinos se esbarraram no corredor das impossibilidades. Desencontraram-se em todos os planos, telas distintas de um pintor distraído.

Ele do outro lado, uma página virada de um livro jamais relido. E agora, Sylvia podia sentir o mesmo estranhamento dos dias de menina. O avô deixara de existir no mesmo dia em que ela, do outro lado do mundo, anunciava-se fagulha, vida brotando em um vão entre acontecimentos.  

Sylvia desconhecia os dados necessários para a construção daquela complicada árvore genealógica, e nem mesmo atinava para os demais nomes que poderiam revelar as suas raízes. Tudo era um nebuloso jogo de tabuleiro, ou melhor, um desencontrado quebra-cabeça. Ela precisava de mais peças, informações que sustentassem a sua pesquisa.

Ansiava por algo além, algo que não estava à disposição de sua curiosidade despertada. Era como se buscasse a si mesma naquele artista que havia sido apagado de todo e qualquer relato. Ergueria pena, lança, esqueletos que guardava junto às partituras da melodia de um passado renegado.

Assim eram todas as faltas experimentadas. Uma vida inteira de ausências. Tantos talentos, mesclas de vontades e leviandades. Ela poderia ter sido poeta, pintora, cantora, pianista, qualquer coisa. Era o que a mãe lhe dizia como uma cantiga de ninar. E de tanto poder, ela nada fora, além de filha, esposa, mãe e agora avó de alguém. Tinha sido assim a vida inteira. Até aquele momento.

Sentia-se outra. Ou talvez fosse a mesma que sempre existira debaixo das grossas camadas de tinta, sob o verniz craquelado. Existia. Ser era o seu novo talento, a autêntica arte que levaria a sua assinatura. Sylvia Vetter.

Não via nada senão beleza naquela pintura que admirava com hipnótica certeza. Pinceladas que eram como borboletas sem obrigação de lagartas. Suspensão de jardins mágicos invadindo céus e sonhos. 

Passou a admirar o quadro, em êxtase, quase sem ar. Buscava inspiração para os seus dias na imperfeita semelhança ali contemplada. Recolhia-se aos olhos de alguém que também se deixava decifrar. Rememorava todas as suas palavras não ditas.

Sem nada comentar com o filho, providenciou o enquadramento da pintura. Era o mínimo que poderia fazer antes que tudo virasse propriedade do acaso.

Ninguém a questionou quando pediu que pendurassem o quadro na parede da sala. Era um trabalho bonito, poderia até valer algum dinheiro, a nora opinou. Sylvia sorriu e ignorou o comentário. Daniel sacudiu a cabeça desejando que a mulher guardasse suas impressões e sugestões para outro momento.

Também não se falou nada sobre o novo hábito de Sylvia, que passou a permanecer imóvel em frente ao quadro, quase sem respirar, admirando o que ninguém mais parecia conseguir enxergar. A arte não poderia ser definida apenas pelo o que se percebia com os sentidos, e sim a revelação do que se ousava reconhecer em si.

Daniel observou, em mais de uma ocasião, os olhos maternos encherem-se de lágrimas diante do enquadramento de memórias que nem poderiam ser suas. Era apenas um quadro, mas ele entendia que talvez a matriarca descobrisse no objeto de arte as suas raízes, um passado apartado.

            – Senta um pouco, mãe.  

            Daniel posicionou a cadeira a uma distância que permitisse Sylvia admirar a obra sem o perigo de confiar demais na sustentação das pernas. Era mais prudente e evitaria uma temida queda.   

            Sylvia não se importava com o excesso de zelo do filho. Sentia-se refeita, cúmplice do artista, em segredo de confissão. Experimentava o estranhamento de quem vê algo pela primeira vez e mesmo assim o reconhece como seu. O reflexo ondulado obtido como resposta de um lago. Suas verdades expostas como traços e pontilhados. Não com o rompante de um Van Gogh ensandecido, a misturar a loucura e a genialidade na mesma paleta de cores. Era outro tipo de arte, uma precisa composição de luzes e sombras, o contraste desafiando o craquelar do tempo.

            A cada dia, a imagem exposta à luz solar filtrada pela janela da sala. ganhava novas vozes como se adquirisse vida própria.  E assim, a senhora passava cada vez mais tempo em companhia do avô, sentindo-se próxima de uma verdade que somente aos seus ouvidos era sussurrada.

            Trocavam confidências, juramentos e promessas de outras vidas. Ele sempre no seu silêncio deduzido, ela em tagarelice mental. Cada linha desenhada e coberta por tinta invisível trazia palavras que ela decidira não mais traduzir. Era o sangue delineando uma cumplicidade que já se adiantava ao seu aportar no mundo. Talvez o encantamento fosse desfeito afinal, e um novo encontro pudesse ser redesenhado.

            Daniel, aliviado, notou que a mãe, apesar dos momentos de alienamento diante do quadro, acomodava-se aos poucos a nova rotina. Nem mesmo reclamava do apartamento que era de proporções diminutas se comparado com a casa na rua das amendoeiras. Parecia, de fato, rejuvenescida.

–  Tem certeza de que não se incomoda?

Já abraçada ao neto, Sylvia balançou a cabeça sorrindo.  

– Claro que não. Ele me fará companhia.

– É por pouco tempo, só até….

– Fique tranquilo, Daniel. Vamos ficar bem.  

Com alegria, tratou de entreter o menino com delicias só permitidas a netos. A vida era curta demais para se perder tempo com tanta disciplina. Tudo seria um segredo entre eles, os doces e os mimos. Sylvia deliciou-se a perceber que se divertia com as brincadeiras infantis e que o riso a reconhecia como companhia.

Passou pelo quadro e, sem pensar em nada, piscou para a pintura, não se demorando mais do que um segundo. A vida urgia como o escorregar dos passos em zigue zague do neto. 

Poucas horas depois, Daniel retornou para apanhar o filho. Já se preparando para correr ao encontro do pai, Miguel parou diante do quadro, sorriu e, depois de um breve momento de admiração, apontou o dedinho para a tela.

– É …?

Sylvia lançou um rápido olhar para Daniel ainda na soleira da porta. Foi até o neto e, aninhando-o em seus braços, respondeu sem hesitar.  

– Sim, sou eu.

Fim   

14 comentários em “A Outra Versão (Künstler)

  1. Fernanda Caleffi Barbetta
    17 de junho de 2021

    Olá, Künstler, parabéns pelo belo texto. Sua linguagem é muito bem trabalhada, beirando o poético, em alguns momentos.
    Gostei do argumento escolhido. Eu mesma escrevi um texto para o EC usando esta questão do quadro e de nosso reconhecimento diante de uma tela que nos retrata. O seu texto traz essa questão mergulhada em um véu de misticismo, que me agradou e me envolveu.

    Infelizmente, apesar de ter gostado, nem tudo é perfeito. Demorou um pouco para que eu embarcasse na sua história e entendesse o que estava acontecendo. Na minha opinião, ficou um pouco confuso no início, principalmente por conta deste trecho: “Sylvia olhou para o objeto cilíndrico nas mãos do filho (talvez um cilindro de papelão nos situasse melhor). Coberto por uma camada de selos e carimbos. O idioma era outro, a origem era obscura” (aqui sugeriu algo muito além do que realmente era, criou uma expectativa muito grande).
    Outra coisa é que o tema artes foi abordado no quadro, mas de forma um pouco superficial, na minha opinião.

    Muito bonito e bem descrito este trecho: “Abriu a tampa superior do tubo, depois de rasgar o lacre. Sentiu o cheiro de papelão misturar-se a um odor peculiar. Algo envelhecido, doce e amadeirado, era como se entrasse na antiga adega de seu pai sob a escadaria do casarão. Puxou o conteúdo com a ponta dos dedos.”

    Com relação à árvore genealógica, ela foi colocada no enredo, mas pouco fez, não esclareceu, não enriqueceu, achei confusa e desnecessária.

    Gostei bastante da relação criada entre a senhora e o avô e, depois, a conexão com o neto. Ponto positivo aqui.

    O final é singelo, leve, muito bom.

    Quase não encontrei deslizes gramaticais:
    Arcadismos – arcaísmos
    material (a) ser reciclado
    Era como se foi anunciada – era como se tivesse sido anunciada
    acomodava-se aos poucos a (à) nova rotina
    deliciou-se a (ao) perceber

  2. Fabio D'Oliveira
    16 de junho de 2021

    Antes de continuar, acho justo esclarecer como estou avaliando nesse desafio. Além de uma consideração final, guio-me por três fatores: artístico, técnico e criativo. Não estou participando dessa vez, mas decidi ajudar a movimentar os comentários!

    ARTÍSTICO

    Vou ser o chato do rolê.

    Em sua forma, o conto é tão bem escrito, de verdade, que é uma obra de arte. Mas é uma história sobre autoanálise, sobre encontrar-se quando se perdeu, sobre a relação de passado, presente e futuro. O quadro, em si, não simboliza a arte para a protagonista. Simboliza uma parte de sua vida. Sua essência perdida.

    Não consigo me desvincular da ideia de que fugiu um pouco do tema.

    Apesar disso, é um conto lindo, bem feito, que procura encantar o leitor. E a utilização das imagens extras foi certeiro. Ajudou muito na hora de embelezar o texto.

    TÉCNICO

    Excelente.

    Não encontrei nenhuma falha. Algumas repetições de ideias no decorrer do texto, mesmo sem necessidade, dando espaço para um síntese maior, mas nada que tirasse o brilho do seu conto. Você sabe escrever de verdade. Quebra o ritmo do texto quando necessário, sabe conduzir o leitor, etc, etc, etc. Acredito que cabe melhorias em alguns fatores, como mencionei na parte da repetição de ideias, mas a escrita já está bem encaminhada.

    CRIATIVO

    Boa.

    É um texto emocionante. E encaro que foi criado para ser assim. Bem elaborado, pega uma história simples e transforma em algo que vale a pena ser acompanhado. Esse tipo de construção sempre passa a sensação de certa artificialidade, um pouco anti-natural, mas isso é uma birra minha. Acredito que muitas coisas podem ser ditas com sutileza, sem muita exposição. O seu é lindo, em estética, em história, mas não me conquistou por completo por ter essa sensação de manipulação e por ser um pouco previsível demais.

    CONSIDERAÇÕES GERAIS

    O conto é excelente.

    Mesmo não me conquistando, é uma obra muito bonita e sensível, que merece todo o reconhecimento que está tendo. É um dos melhores do desafio, com certeza.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no certame!

  3. Kelly Hatanaka
    12 de junho de 2021

    Olá Künstler.

    Um lindo texto, doce, cheio de subjetividade e sonho. Confesso que, em certo momentos, o achei um tanto repetitivo, rondando sempre o mesmo tema, a identidade de Sylvia, sua ancestralidade e suas escolhas de vida. Mas penso que isso faz parte da estrutura da sua história. Este é o ponto central: Sylvia redescobrindo-se, indo para o passado e voltando.

    Fiquei bastante intrigada com a natureza da pintura. Quem era? Seria sua avó? Provavelmente. Mas, a seus olhos, era ela mesma, Sylvia. Fiquei com muita vontade de ver a pintura, você criou esta expectativa com maestria.

    Parabéns!
    Kelly

  4. Mauricio Piza (@mtplopes)
    11 de junho de 2021

    História bem narrada e bem escrita do reencontro de uma mulher no final da vida com suas raízes e possivelmente consigo mesma. A pintura parece ser uma pintura de uma mulher jovem que morre dez anos antes do seu avô morrer no dia do seu nascimento, mas isso não é completamente explicitado no conto. Cheguei a pensar que a imagem era do próprio avô e em várias outras situações possíveis.
    Gostei da delicadeza de não se deter em descrições da imagem da tela, nem de tentar maiores explicações para a aparente semelhança. Isso gerou em mim o desejo de ler mais de uma vez o texto, para ver se uma explicação mais óbvia passara despercebida.
    Não, realmente o texto sugere mais do que explica e isso para mim, é um ponto positivo. O conto cria uma sensação bem vívida das idas e vindas da vida com suas “coincidências” estranhas e improváveis. Basta que a semelhança seja significativa para a personagem e percebida pela criança.
    Parabéns pelo conto e boa sorte.

  5. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá Kunstler (com trema). Gostei da ideia do seu texto. O regresso ao passado através de um quadro, a recuperação das memórias perdidas é uma ideia romântica que pode funcionar bem. Mas achei que o seu texto não evoluiu em termos de narrativa, andando sempre às voltas do mesmo ponto. No final, o leitor desmotivado é brindado com o desfecho que prevê desde o início. Não fosse isso e creio que estaríamos perante um texto memorável. Não encontrei grandes problemas na linguagem, exceptuando-se uma repetição.

  6. Elisabeth Lorena
    5 de junho de 2021

    A Outra Versão (Künstler)

    “Pinceladas que eram como borboletas sem obrigação de lagartas.”
    (Künstler)

    “A alma não tem nascimento, ela é eterna, perpétua, primordial” (Bhagavad-gita II. 20).

    “Sombras que sólo yo veo, /me escoltan mis dos abuelos.” Nicolás Guillén

    Primeiro, sobre o que me seduz: um texto que fala comigo, que instiga minha curiosidade e que acende outras ideias, tirando-me de meu ponto de conforto sem me agredir.
    Segundo, breve análise sobre os pontos principais: bem estruturado, o texto tem um Enredo bem elaborado. As Personagens são densas, construídas de fora para dentro e de dentro para fora, com liberdade e justeza. Espaço e tempo bem delineados, com ocorrências de memórias e de situações cotidianas que criam a junção ideal entre enredo e personagens, solidificando a narrativa. A Linguagem é bem construída, com sentidos bem apegados ao tema da arte escolhida, criando, a partir dessa malha semântica, uma certeza de que estamos lidando realmente com um artista dos pincéis e telas. Até aqui, Perfeição.

    A Arte sendo o tema, na verdade, a análise da personagem sobre o que vê na tela que ganha de presente e tendo por subtema a ideia de Reencarnação – para mim, algo mais, a transmigração – sem forçar a barra, só sugerindo as possibilidades até que a declara sem de fato entregar o ouro.

    Aqui entra a minha recepção ao texto: Me interesso pelo tema, mesmo que nada tenha a ver com minha fé. Fui seduzida pela Transmigração porque foi abordada recentemente em uma obra televisiva do México e vi alguma lógica. Isso porque conhecia a ideia egípcia de homem versus animal, porém entre corpos humanos não tinha ciência. E, como é fora de minha linha de crença (como já disse) e pensamento, li muitas obras em espanhol porque os mexicanos têm outra relação com a Morte e tal.
    Ao iniciar a leitura do conto apresentado por Künstler no presente desafio, tudo o que li e vi durante minhas pesquisas brotaram. Mas não de pronto. De verdade, ou de início, o nome me sugeriu algo típico de Sidney Sheldon e fiquei tentada a ler logo, mas o encontro com o objeto e a interferência dele nas percepções de Sylvia levaram-me a outro nível de entendimento e foi aí que pensei na transmigração.

    É interessante que o narrador já mostra que a senhora que ele nos apresenta sente que passou por uma mudança substancial que até mudou sua identidade e não é o casamento, mas também não dá mais pistas sobre o que realmente houve. É bom frisar que a viuvez a abalara e só perdemos a estrutura quando o que nos é arrebatado nos é caro. Assim, a frase “Pertenciam a uma outra pessoa que ela deixara de ser décadas atrás.” cria um enigma que não interfere de fato no texto, mas que paira sobre ele como verdade incontestável.
    Outra coisa que o autor aborda de forma interessante é a construção de odor e referência: “Sentiu o cheiro de papelão misturar-se a um odor peculiar.” (…) era como se entrasse na antiga adega de seu pai sob a escadaria do casarão.” Esse tipo de escrita manipula o leitor e o faz pensar em uma infância, criando assim maior identificação entre esse e a personagem e, por isso, a credibilidade vai se firmando. Qualquer situação criada depois é crível, íntima e aceitável.
    E a aproximação e reconhecimento de Sylvia e H. Vetter vai sendo criada de forma excepcional já no encontro da tela: “Suspirou, surpresa e confusa./ Nossa… – deixou escapar em um sussurro de quase desabafo./Era de fato impressionante. E vai tendo toda a delicadeza de narrar, insinuando, sem declarar tudo de uma vez: “No canto inferior direito, um tremular de tinta denunciava a identidade do artista. H. Vetter.” Vai criando a ideia de encontro consigo mais como uma descoberta sobre o que se é do que realmente quem foi, porém, deixa as pistas para dar a credibilidade ao conto; “ Uma antiga chave havia girado e aberto alguma porta secreta”.
    Mais adiante, por exemplo, abre a pergunta: que porta é essa? E a fala seguinte tem toda a ideia de quebra de expectativa de algo que não ocorre imediatamente: “A ferrugem denunciava o vagar do tempo.” e de nova há ambiguidade: “Diante daquela pintura, deu-se conta da fraude que se tornara a sua realidade.” E uma mostra do que realmente é, usando ainda o ambiente dúbio da linguagem: “Ali estava a revelação dos dias sem explicação entre uma vida autorizada e outra já fadada ao esquecimento.” que se cristaliza em “Uma outra existência que ela nem se atrevia a espiar pelas frestas da memória.” E o questionamento sobre a juventude é também uma grande sacada, porque ela não vê a senhora no espelho e seu pensamento remete a infância da vida. Quando, dizem os que estudam a física da alma, a monada desfruta de sua existência extracorpórea e sendo ela, pela minha perspectiva, uma vida transmigrada que foi prensada pela nova, toma consciência de sua realidade quando lembra do “ tempo quando bastava existir.” Ao se cobrar por permitir que a vida de seu novo corpo subjugar sua existência anterior, encontra “sua real imagem” e quanto lirismo há nessa descoberta, quanto reconhecimento: “ mais do que mil palavras, sua alma revelada em sonho, poesia e promessa.”
    E há ainda a percepção de que aquele quadro é mais que algo que incomoda, já que o narrador diz que a pintura era uma denúncia de intimidade que faz com que a mulher não era algo real, mas isso falando como se coloca algo sobre as amarras sociais e patriarcais e não sobre algo mais profundo, que a sua realidade agora. A versão oficial que o conto diz não é o invólucro, é a alma, a arte e o artista incubados nela, Sylvia. E de novo a relação de odores com a vida anterior se repete e lhe dá a sensação de reprise.
    Quando o narrador põe para o leitor a ideia de fantasma é interessante porque cria um ser que sendo aqui uma atividade espectral de uma única alma, não existe. E há ainda a informação de que ela vivia situações de “estranhamento” na infância, provavelmente a vida anterior tentando vir à luz. Exatamente como a borboleta, que aparece até no texto, sem a “obrigação de lagartas”, ou seja, inoculada, já que nessa existência ela foi treinada desde o berço para ser Sylvia e a perturbação da infância era H. querendo sair. E mais a frente a ideia toma forma: “Sentia-se outra. Ou talvez fosse a mesma que sempre existira debaixo das grossas camadas de tinta, sob o verniz craquelado.” Linda essa descrição.
    Aqui vale um lembrete teórico – não seria meu trabalho sem uma falinha alheia para corroborar minha sandice. Para os crentes de vidas transatas, tanto Reencarnação quanto Transmigração acontecem de forma quase similares. Na Reencarnação a alma geralmente passa por um período de adequação, que desconhecemos qual seja. Já a transmigração, que não é uma ideia Espírita e sim anterior à este Ensino/Religião, não há um tempo de adequação. Tanto que pode acontecer imediatamente, por exemplo, quando uma pessoa é ferida de morte e, em termos simples, não aceita sua morte, passa para outro corpo – humano, animal e vegetal. E aí está outra discrepância entre Espiritismo e Hinduísmo, porque para os seguidores de Kardec a encarnação/reencarne se dá apenas em humanos. O Espiritismo vê os animais como algo que está em uma escala inferior (Cavalcante e Gnere, 2014).
    E ainda, teorizando, o símbolo da Transmigração é a largata/borboleta: “Bhradarahyaka Upanishad fez desse animal o símbolo da transmigração, em função da maneira pela qual ele passa de uma folha a outra, e do estado de larva aos de crisálida e borboleta, assim como a vida passa de uma manifestação corporal a outra” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 532. E foi uma das falas do texto que guardei bem na leitura: “Pinceladas que eram como borboletas sem obrigação de lagartas.” (Künstler).
    Vale lembrar que o Cinema adora trabalhar esse tema. Há almas transmigradas de forma imediata em diversas obras. O “Boneco “Assassino” é uma amostra bem presente.
    Voltando ao Conto, ele segue dançando com o tema, passo a passo, no compasso e tal, seduzindo com suas sugestões, até que o neto reconhece a arte da avó no quadro. Antes há o encontro do equilíbrio sugerido apenas. Vale lembrar que o Conto termina sem dizer tudo e isso é o que faz com que ele fique gravado na mente do leitor. Parabéns!
    Para fechar com chave de ouro, gostei da fala que segue: “Recolhia-se aos olhos de alguém que também se deixava decifrar.” E “A arte não poderia ser definida apenas pelo o que se percebia com os sentidos, e sim a revelação do que se ousava reconhecer em si.”
    Sucesso no Desafio.

  7. Fheluany Nogueira
    4 de junho de 2021

    Cada ser humano é um universo único, com suas próprias características; porém, como as plantas, que passam por diversas fases durante seu ciclo de vida, as pessoas podem se transforma em versões melhoradas de si mesmas.
    Künstler é alguém que produz/cria obras de arte, que transforma o comum em arte.
    Analisando título e pseudônimo, concluí que a tela recebida transformou a protagonista em uma versão artística dela mesma e a conecta a uma parte da família que não conhecia. A mensagem final seria a busca pela essência do ser, a partir de uma inquietude natural trazida pelas camadas de tinta.

    O enredo vai sendo revelado tal a pintura sobre a tela. Algumas pinceladas pesadas, outras tão sutis que se desfazem. A narrativa soube dosar a carga dramática com um lirismo leve, memórias e divagações da protagonista, apesar de alguns trechos repetitivos, outros meio confusos e uns poucos deslizes gramaticais.

    O texto é envolvente, sinestésico e aberto a múltiplas leituras, focado nos sentimentos, nas sensações. Gostei muito.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no desafio. Abraço.

  8. Luciana Merley
    2 de junho de 2021

    A Outra Versão

    Começo com a frase que chocou-me negativamente: “E de tanto poder, ELA NADA FORA, além de filha, esposa, mãe e agora avó de alguém.” Ah! Que solavanco ao ler isso. Pois penso que não há honra maior, legado maior nessa vida do que ser doadora de vida, companheira, condutora de vidas, afagadora de vidas…Claro que (e tenho sempre que dizer), segundo a minha visão de mundo. Mas, antes que me odeie por isso, para os que já me conhecem, sabem que não prejudico um texto na avaliação unicamente por discordâncias com conceitos do autor, então, tome mais como uma não feminista lendo essa frase, só isso.

    Então, bora para a sua maravilha de conto.

    Coesão – Você fez a opção acertada por um narrador onisciente em terceira pessoa. Tão próximo e capaz de descrever as minúcias das sensações da personagem, assim como as reações e circunstâncias do ambiente. Esse é o tipo de texto sinestésico, e, para alcançar esse efeito é preciso muita experiência e competência no uso das palavras. Há sim reviravoltas nos pensamentos e sentimentos da personagem e outros ao seu redor, mas há sempre um ponto nevrálgico: aquela pintura, que é misteriosa, desafiadora, quase enlouquecedora, e encantadora. Faço uma pequena ressalva com relação ao primeiro parágrafo: um pouco vago demais, a ponto de deixar o leitor tateando em busca de um solo firme para iniciar a caminhada. Talvez um início mais revelador concederia ao leitor uma dose a mais de interesse.

    Ritmo – Texto complexo, mas lindo e gostoso de ler, por causa da fluidez da linguagem e da robustez das construções (competência como já disse).

    Impacto – Gostei demais. O elemento sobrenatural aparece de modo muito sutil e funcionou mais como um adereço para mim. Sei que parece ser (e possivelmente foi sua opção) que esse elemento seja o condutor da trama, mas, para mim, o experimento das sensações (a sinestesia) foi mais marcante. E quanto à arte, motivo de CONTEMPLAÇÃO. Perfeito.

    Parabéns.

  9. Leonardo Philipe
    1 de junho de 2021

    Olá, Künstler! Obrigado por compartilhar A Outra Versão conosco ♥️

    Trabalho incrível, muito emocionante e com elementos sobrenaturais que levaram a história para além do trivial.

    – PONTOS POSITIVOS: Você fez muito bem em escolher frases curtas; o ritmo é excelente. Sua escrita combinou a sofisticação da literatura clássica com a fluidez da contemporânea, algo que é muito difícil de ser feito.

    Tem muitas frases bem inspiradas. Cito uma como exemplo:

    “Tola o suficiente para se desfazer da própria identidade em uma troca de alianças.”

    Ao mesmo tempo que trouxe força para a protagonista, levantou o questionamento: quantas mulheres abdicam de suas identidades por causa de um casamento? Será que vale a pena?

    Árvore genealógica costuma ser um tema chato quando é abordado de forma muito intimista, porque na maioria das vezes carece de significado para além da própria família. Sua criatividade afastou o tédio que seu texto poderia ter causado. Muito bom!

    – CONSIDERAÇÕES:

    Não tenho muitas considerações a fazer, só achei que uma frase sobrou:

    “Como seria possível?”

    Naquele ponto do texto, o leitor era capaz de compreender sozinho o elemento sobrenatural; por isso, não tinha necessidade de acrescentar um clichê para que servisse de muleta ao entendimento.

    Esse foi o único ponto que me desagradou, em suma,

    Parabéns! ☮

    (Caso ainda não tenha assistido, te indico a sére DARK, da Netflix. Tem a mesma alma do seu conto)

  10. claudiaangst
    29 de maio de 2021

    Olá, Künstler, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = Pintura – retrato sobre tela. O tema foi abordado com sucesso.

    R = Revisão = Notei algumas falhas:
    – dada a esses arcadismos > não seriam arcaísmos?
    – papeis > papéis
    – material ser reciclado > material a ser reciclado
    – não sentíra > nao sentira
    – Era como se foi > Era como se fosse
    – a nova rotina > à nova rotina

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Linguagem flertando com a prosa poética em alguns momentos. A narrativa é simples, embora apresente um toque de fantástico ou místico, não sei bem definir. Pelo o que entendi, o avô pintou o retrato da neta sem jamais ter tido a oportunidade de a conhecer. Sylvia nem mesmo se lembrava se o avô era alemão ou austríaco. Fiquei pensando aqui que ele poderia ter sido suíço também, da parte alemã, ou ainda um cidadão da Bélgica ou de Luxemburgo.

    E = Então, autor[a] = O retrato funcionou como um espelho para Sylvia enxergar quem realmente era ou quem poderia ter sido. Apesar de nunca terem se conhecido, neta e avô compartilhavam de uma cumplicidade inexplicável. Achei isso muito bonito. Nem tudo precisa ter uma explicação lógica, não é mesmo? O final pode não ter sido surpreendente, mas causou impacto como emotivo desfecho.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  11. antoniosbatista
    28 de maio de 2021

    Ambientação= No tema-Pintura.

    Escrita= Boa, mas achei que há algumas frases com sentido repetido, como num círculo vicioso e eu esperando algo mais interessante e definitivo.

    Enredo= Interessante.

    Considerações Gerais= Como raciocino pela lógica, achei alguns pontos obscuros, não entendi muito bem o paranormal e nem vou mencionar. Falha minha. Sou sincero, não vou dizer algo só para iludir o autor (a). O argumento é interessante, embora tenha demorado a completar algumas ideias devido aos devaneios da personagem, mas isso é apenas gosto pessoal. Gosto de frases e parágrafos curtos e diretos. Boa sorte.

  12. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: a pintura move o enredo.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = As imagens beiram o meramente ilustrativo, pouco acrescendo.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa.

    E = Então, autor[a] = Gostei do seu conto. Ele é muito sensível. Os parágrafos curtos e a presença de diálogos ao início e ao fim do conto, tornam a leitura leve, fluida, agradável.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  13. thiagocastrosouza
    25 de maio de 2021

    Resumo: Sylvia recebe uma tela antiga e, a partir dela, se reconecta com o passado da família e consigo mesma.

    Comentário: Conto sensível, cheio de reminiscências. A busca da personagem por sua vocação, seu Eu essencial, é instigante e feita com ternura. Talvez o conto tenha me tocado porque ando pesquisando sobre a árvore genealógica da minha família e, assim como a protagonista, até pouco tempo, não sabia muita coisa sobre meu avô, que faleceu ao me conhecer. A escrita é segura e sem exageros, e somos conduzidos pela mão com o desenrolar do enredo, descobrindo mais de Sylvia conforme ela mesmo se descobre. A resolução branda, focada no relacionamento com o neto, como se recuperasse o tempo que não teve com o avô é bastante satisfatória. Aliás, mais do que nunca, avô e neta nunca passaram tanto tempo juntos, o que só foi possível graças a pintura.

    Em síntese, senti que o conto trata da arte de um modo mais cotidiano e pessoal.

    Boa sorte no desafio!

  14. Elisabeth Lorena
    24 de maio de 2021

    Quando eu parar de chorar, volto.

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.