EntreContos

Detox Literário.

Pavana para um jovem no morro (Maurice Ravel)

“Caraca, o bagulho está podre. Isto que dá subir o morro na madrugada para comprar de algum avião perto da boca. A cara, a roupa e o jeito de playboy fizeram com que dançasse vivendo o clássico roteiro do babaca de classe média na comunidade. Acho que comprei bosta de vaca com capim. Um perfeito idiota eu fui. Ter que passar por isto porque o sacana do meu fornecedor sumiu e a fissura bateu mais forte que a larica de depois do tapa na pantera”.

A guitarra dorme na poltrona marrom e a folha de papel recheada pelos versos de Carliu Colorido descansa diante da cadeira. Sem sono, carinho de mulher e muito menos um bom fumo visando atrair ideia que desse pegada na criação do rock. Paulo Caporanga, o futuro famoso em todas as mídias, por enquanto conhecido em meio às bandas, olha pela janela do sobrado a falta de movimento na rua. Passa em revista a lista de probabilidades para uma improvável companhia até chegar em Tamires. Balança afirmativamente a cabeça e, mais de um ano depois de haver desaparecido, decide ligar para ela.

Na aflição de queimar logo a erva acabou por esquecer carteira e celular no carro. “Essa não é uma boa noite”, pensou enquanto, chaves na mão, saltava os degraus da escada rumo à garagem. Sobre o banco não havia nada. Bagageiro, portas, piso… lhufas. A lembrança veio à galope. Antes de subir a ladeira havia separado a nota de vinte, para não ter que abrir a bolsa diante dos caras. Ao passar pelo primeiro ponto de controle os soldados adolescentes lhe mandaram acender a luz interna, só usar farolete e abrir os vidros do automóvel. Ao parar o carro lá no alto viu que uns cinco meninos o rodearam, afora, mais atrás, o pessoal da segurança com os potentes Nike47 brilhando. Claro que algum garoto enfiara a mão pela janela no lado do carona e tinha pegado o telefone, carteira, documentos, dinheiro, tudo.

Era evidente o que deveria ser feito. Retornar depressa ao morro, procurar o chefe da boca e dar queixa do roubo havido em seus domínios. Pareceu-lhe óbvio que ele não só devolveria os pertences, como iria punir severamente os moleques safados que o tinham surrupiado. Ao chegar próximo aos pés da favela repara em alguns carros cruzando com ele em alta velocidade, como se em fuga. Corta o som delicioso do Big Big Train e ouve nitidamente a festa de variados calibres dos pipocos. Precisa se safar daquela ratoeira. Reduz a velocidade e é impedido de fazer o retorno. Um comboio, liderado pelo caveirão, o ultrapassa.

“Essa não é, definitivamente, uma boa noite”, grita aos próprios ouvidos. Claro que não iria considerar ainda como definitivo o “perdeu playboy”. Amanhã, pela hora do almoço, que traficante acorda tarde, iria voltar para resolver a encrenca. Enquanto isto, deixaria rolar o resto da noite, sem telefone, sem Tamires, sem dinheiro, sem documentos, sem baseado e tentando criar na guitarra um som legal.   

Esforça-se para pensar em algo diferente. Não pode entrar em pânico. Visita-o a melodia de Maurice Ravel. Quem seria a tal princesa defunta da famosa pavana? Diziam que se tratava da infanta Margarida da Áustria, a lourinha retratada no centro do quadro As Meninas do Diego Velázquez. Mas então, aí estava a chave: nenhuma garota da realeza europeia morrera nos finais do Século XIX que valesse a homenagem do criador. Em meio aos pensamentos desvairados em hora tão imprópria, faz a constatação de que a música fora criada para um infanta falecida duzentos e cinquenta anos antes. E o paradoxo de se criar a dança para o velório de uma princesa? Dá para imaginar um salão com a corte bailando em volta de um caixão com a jovem nobre dentro? Mais uma vez Paulo Caporanga se dá conta de que quando em meio a grandes problemas, ao buscar refúgio na música, não raciocina em rock, mas mergulha profundamente nos clássicos da sua formação. Recorda-se do quanto foi apaixonado por Ravel.

Tão desvairadas digressões são interrompidas pela luz cegante de faróis altos. Vem descendo a toda velocidade uma caminhonete da polícia. Ainda nem consegue enxergar e já estão batendo os canos nos vidros, dessa vez cerrados, das janelas. Exigiam, aos gritos, que saísse com as mãos para o alto. “Parece que o garotão veio buscar uma encomenda e deu de cara com a gente, não é? Péssimas notícias: a boca fechou para balanço. Passa aí seus documentos e os do carro.” Só então repara, mais que na inocência, na grandiosidade da sua babaquice e dentro dela algo inerente a todo idiota: a falta de sorte. Além de não portar nenhum documento estava liso. Sem nem uma graninha que fosse para a possibilidade de ter que solucionar a confusão a partir de um estratégico arrego.  

“Falar o quê?” Constata o óbvio: poderia ter ficado quieto em casa tratando da criação musical, mas resolveu sair para comprar uma ervinha básica. A posição era ridícula. Pernas abertas e deitado sobre o capô do carro como se tentasse apanhar os limpadores de para-brisa. À sua volta o pelotão de policiais agressivos e mascarados com esparadrapos a lhes cobrirem as identificações. No quase nenhum tempo de que dispunha para pensar, chegou a inventar enredos (ah, agora, ao contrário das tentativas de criar a música, lhe vinham ideias incríveis), só que cada uma mais mirabolante e fantástica do que a outra. Aquilo só iria complicar a sinistra situação.

Totalmente perdido optou pelo sincericídio e abriu o bico geral. Subira o morro poucas horas antes para adquirir um pouquinho de maconha. Coisa mínima suficiente para um mísero cigarrinho, fez questão de frisar receoso de acharem que comprava para revender, o que elevaria o problema ao patamar dos traficantes de droga. Finda a narrativa o policial deu uma risada e se dirigindo aos colegas disse: “gostaram da história da carochinha que o cidadão nos relata?” Em seguida invadiu seu carro ordenando que se assentasse no banco do carona.   

Enquanto seguiam em direção ao subúrbio acontecia um papo estranho e cheio de voltas do tira: “então, se entendi bem, o rapaz que é músico e trabalhava na criação de um rock para a sua banda, tomou a decisão de queimar uma birra. Resolveu largar o asfalto e vir buscá-la no morro. Lá em cima, além de enganado, foi roubado perdendo celular, dinheiro e documentos. Entendi corretamente, cidadão?” Respondeu esforçando-se para demonstrar segurança, mas a voz trêmula denunciava o medo.

“Já viajamos muito, melhor parar e dar início a uma conversa mais séria, tipo olho no olho. Ou, quem sabe, o cidadão teria alguma proposta a fazer para que possa me animar a dar meia volta no carro?” Captou a deixa e lhe disse que depositaria uma boa grana na conta que lhe fornecesse, assim que o banco abrisse. Arrancando a balaclava o polícia retrucou agressivo. “E eu, por acaso, tenho jeito de retardado? Então, passo os meus dados bancários para o garotão e o libero? E se ao invés de ir ao banco o jovem me alcaguetar no Batalhão? O mais interessante disso tudo é que o novo amiguinho em nenhum momento tratou de valores… Pois então, de dinheiro eu é que vou falar. Vou te deixar aqui mesmo, voltarei só. Fica tranquilo, não sou bandido para te enganar. Daqui a meia hora o primeiro ônibus da madrugada passará. Sim, eu sei, você está duro. Toma essas dez pratas para a passagem e se ficar bonzinho o empréstimo nem será descontado. Vou guardar seu carango até que venha aqui, nesse mesmo lugar, amanhã às vinte horas e sozinho. Traga-me quinze paus em cascalho bom e não curto as notas de duzentos. Porra, para de fazer expressão de assustado. Sim, só quinze mil reais porque simpatizei com você. Além de devolver o carro do jeito exato que estou levando, apagarei da memória tudo que nos aconteceu desde essa madrugada lá no morro. E não me venha dar uma de esperto. Tenho ranço de malandro. Pela placa do potente, em cinco minutos, levanto todos os seus dados. Nesse caso entenderemos que o carango ficou de presente, mas não me darei por satisfeito, irei atrás de você e a conversa prosseguirá em outro padrão”.

No ônibus lotado de domésticas e peões, Caporanga, de pé, fazia esforços para esconder o rosto. Evitar que o vissem apavorado e chorando. O dia amanhecia bonito quando chegou em casa. Durante a longa viagem decidiu manter em segredo a patética aventura vivida. Tomou um banho e tentou dormir. De repente, eis a melodia querendo saltar para o mundo. O rock a fluir líquido, leve e luminoso. A criação brotava, estava pronta em sua mente. Levantou-se de um salto, apanhou a guitarra e o papel da letra, anotou as posições, tocou-a uma, dez, vinte vezes e sorriu antecipando o tremendo sucesso. Aquele rock iria render muitas mil vezes o prejuízo sofrido. O filho da puta do policial corrupto iria conhecer de verdade quem ele era: alguém, enfim, reconhecido por todos. Famoso de não poder andar nas ruas.

Estava aceso, sentia-se elétrico. De novo lhe bateu a aflição por um beck para relaxar. Do armário que servia de adega apanhou a garrafa de vinho. A derradeira à espera de alguma ocasião que valesse muito a pena. Pois enfim chegara a hora de se deliciar com aquela bebida especial. Botou a guitarra de lado para melhor se ajeitar na poltrona. Apanhou o controle e ligou a televisão no canal de notícias. Avanço da pandemia, fura fila de vacinas, tensão em Brasília e, enfim, a notícia principal da cidade: Em operação no morro do Calango Frito a polícia havia apreendido grande quantidade de drogas. Os bandidos tinham escapado, mas só que na correria deixaram para trás os documentos e o celular do chefe do tráfico na Região. O repórter, ao vivo da Delegacia, exibia para todo o país a foto de Paulo Porfírio de Navarrete, de apelido Caporanga, que além de guitarrista e cantor da banda de rock Zum Kalum, comandava a venda de drogas no Calango Frito.  

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.