Capítulo 1: tchauzinho Vila da Prata
11 de Julho de 2015
Ir embora nas férias parecia uma boa ideia, quando meu pai deu a notícia. Agora eu estava pensando se ele não podia ter esperado tipo para o fim do ano. Ia ser da hora ir pra uma cidade grande, com shopping, cinema e uma escola com sala de recursos. Mas tipo, deixar o Thomás, a Bianca e a Gabi? Essa parte que estava sendo uma merda. A semana inteira ajudei meus pais a guardar as roupas, livros e sapatos. Isso só mostrou que realmente íamos embora daquela casa. Não que eu não acreditasse. É que a sensação era mais definitiva: toquei no fundo da gaveta sem as blusinhas, depois ouvi o eco da voz no quarto sem o guarda-roupa e expliquei para minha mãe que meus livros não podiam ficar empilhados. Ou ficavam em pé, um do lado do outro, ou iam estragar. Meio que ia sentir saudade de tudo lá. Mas com certeza não ia sentir saudade dele.
Estava indo para o refeitório. O cheiro de salgadinhos fritos fez minha barriga roncar, já tinha passado do meio-dia. Pelo menos estava livre da escola à tarde. Bia me avisou que o professor Raul queria falar comigo. Antes de entrar no refeitório, ouvi as risadas, devia ter um monte de gente lá dentro já. Estranho, ninguém tinha ido pra casa? Quando escutei a voz de Arthur.
Parei antes da entrada e fiquei ouvindo.
— Idiota, tá me imitando de novo!
Minha voz saiu num resmungo e fechei a mão num punho que adoraria acertar a cara dele. Eu ia embora mesmo, podia deixar uma história pra trás. Tipo o soco da Hermione no Draco Malfoy. Eu podia fazer aquilo também. Me deleitando com essa imagem, entrei finalmente no refeitório.
— Eu quero mais folha chulfite, professora Gláuchiaaaaa — falou Arthur, imitando minha voz mais fina. Geral deu risada.
— Ainda bem que logo eu não vô tá aqui pra ver suas imitações ridículas — falei, tentando não deixar minha voz tremer de raiva.
Ele me chamava de Pato Donald, por causa da minha pronúncia diferente de algumas palavras.
— Shua nova escola vai ter shala de recursos?
Por causa da zoeira dele, respirei fundo, mas não adiantou. Passei a língua nos dentes, onde ficava meu aparelho removível. Já me acostumara com a rotina de retirar o aparelho antes de comer, guardar no estojinho, escovar os dentes e colocar de volta. As palavras com “s” ou “ch” saíam parecendo um chiado e soando iguais, por causa do jeito que o aparelho ficava ali no céu da boca. Arthur gostava de me provocar, então ele ia ouvir:
— Vai se foder.
— Opa, crianças, nada de palavras de baixo calão, porra. Aqui é uma instituição de respeito — repreendeu Raul, usando o tom de fingida autoridade.
— Peito, peito, peito — cantarolou Iury enquanto eu me sentei no banco de madeira na ponta da mesa. Estendi a mão e percebi que alguém havia forrado com uma toalha de pano macia e fina; meus dedos deslizaram na borda da mesa de madeira.
— Laurinha, gostaríamos de te desejar uma boa viagem e dizer que vamos todos sentir sua falta — Raul continuou, agora falando com tom mais sério. Agradeci as palavras e só então reparei mais no cheiro gostoso de coxinha.
Ele falou que na mesa havia refri, bolo da padaria Pão Doce — eu adorava o bolo de chocolate de lá — e um monte de salgadinhos.
— É uma festa pra comemorar sua ida — provocou Arthur, mas Raul ralhou com ele.
Eu agradeci ao Raul pelo gesto e ele serviu todos nós. Eu peguei o copo descartável cheio até a borda e tomei um gole, estava geladinho. Refri de uva era o favorito da Bianca, talvez a Gabi reclamasse e pedisse suco e o Thomás ia competir comigo quem bebia mais copos. Não fazia ideia de onde eles tinham se metido.
— Laurita, pra onde você vai? — perguntou Iury, falando de boca cheia do outro lado da longa mesa.
— Centro de São Paulo. Meu pai disse que dá umas três horas de viagem.
— Então é pertinho pra vir visitar seus professores favoritos e amigos, não é? — perguntou Raul, me entregando um guardanapo de papel pra eu limpar as mãos depois.
— Claro, posso vir passar as férias aqui e matar a saudade.
— Pena que você vai embora e não o Arthur, ele é um saco — comentou Iury e levou um tapão do outro. O som foi daqueles tapas bem no meio das costas.
— Repete — disse Arthur.
— Arthur é um saco — desafiou Iury e veio mais um som de tapa.
— Imbecil — xingou Arthur.
— Animal.
— Rapazes, já chega, ou eu vou botar os dois ajoelhados nos agradáveis cubinhos do meu cubaritmo — ameaçou o professor Raul.
— Você ainda tem essa velharia, professor? — perguntou Arthur. A voz dele soava tão agradável quanto alguém arranhando a unha na lousa.
— Tenho sim, não fale assim de minhas peças matemáticas de museu. Um dia vão valer muito na internet.
— Professor, faz ele ajoelhar nos cubinhos com o número sete virado pra cima — sugeriu Iury, dando risada. — É o que tem mais pontinhos.
— Deve ser bem pior que milho — comentei, pegando uma coxinha de dentro da caixa de papelão na mesa. — Deixa o Arthur uns três dias, professor, uma hora pra cada zoeira que ele faz comigo.
Mordi o salgado, saboreando o gosto delicioso da massa quentinha e do frango na língua. Uma menina da minha aula de braille me perguntou se eu ia morar em apartamento lá na cidade.
— Sim, mas vou ter um quarto só pra mim.
— Bem que eu queria ser filha única — ela disse com tom sonhador.
Alguém esmagou o copo descartável. Será que foi Bia? Ela adora o som do plástico amassando todo. Onde será que minhas duas melhores amigas estavam, que não vieram na minha festa de despedida? E mais, e o Thomás? Não encontrei nenhum dos três a manhã inteira. Que estranho.
— Escutem aqui, eu vou dar mais um copo para cada um, e o próximo que danificar os pobres copinhos vai beber refrigerante fazendo concha com as duas mãos — Raul avisou, fazendo alguns rirem. Até meio bravo ele era divertido.
Peguei minha quinta coxinha e terminei minha bebidinha doce e gelada. Limpei as mãos no guardanapo de papel, passei ele nos lábios pra ter certeza de que não ficaram migalhas na minha boca. Raul me avisou, porém, que caíram farelos na minha blusa.
— Alguém esqueceu de aproximar o corpo da mesa, ou inclinou demais o guardanapo — comentou Raul, mas a voz dele demonstrava que ele sorria. Raul era a simpatia em pessoa, ele zoava a gente, fazia piada de todo mundo, incluindo dele próprio. Eu as vezes esquecia que ele tinha vinte e dois, porque na maior parte do tempo ele parecia ter a nossa idade.
— Professor, quando você fica irritado? — perguntei, passando a mão na blusinha azul pra tirar os farelos.
— Hum, me irrito quando alguém não entende minhas piadas, ou entende e não ri delas.
— Eu sei uma piada, era uma vez uma garota chamada Laura…
— Cala a boca, Arthur — disse Iury, e eu dei risada junto de outras meninas.
Nesse momento, ouvi um som de violão vindo do corredor por onde eu tinha vindo ao refeitório uns minutos antes. Continuei limpando minha roupa, pois os farelos tinham caído na minha calça jeans. Não prestei muita atenção nos passos de quem chegava, só identifiquei que a pessoa estava de tênis, pois fazia aquele som irritante de rangido quando pisava.
Não reconheci a música de primeira. A pessoa parou na entrada do refeitório e ouvi Gabi e Bianca falando juntas: “Uma música para Laura: do seu namorado que te ama muito: Thomás!”.
E ele começou a cantar “Sinais”, do Luan Santana. Foi a coisa mais fofa do mundo. Ele veio dando passos lentos enquanto Gabi guiava até onde eu estava sentada.
— Que bonitinho — ouvi a menina da minha aula de braile comentando com a amiga dela.
— Que brega — ouvi Arthur falar.
Thomas cantava preenchendo o refeitório todo com a voz dele. Meu coração disparou. Então era isso que ele estava tramando a manhã inteira! Eu sabia o quanto Thomas se sentia desconfortável em cantar ou tocar violão na frente das outras pessoas. Ele provavelmente treinou a manhã inteira. Eu não conseguia parar de sorrir.
Ele chegou no refrão, quando a letra falava de beijar até o amanhecer. Eu lembrei na hora de quando a gente se beijou pela primeira vez. Foi lá no pátio externo, depois da aula de braille. Eu tava puta com a professora Gláucia porque eu confundia a letra H e a letra J. Ela ficou me enchendo o saco a semana inteira com o erro de escrever “jistória”. E me fez recitar os pontos corretos das duas letras todos os dias antes de começar os exercícios. A voz severa dela mandando eu falar jota primeiro: “pontos 2, 4 e 5, senhora”. Depois o H: pontos 1, 2 e 5. Eu fiquei tão irritada que tenho certeza de que ela percebeu, mas não deu a mínima.
Então eu tava reclamando baixinho pra mim mesma no pátio, quase dez da manhã; o pessoal já ia sair para o lanche no refeitório. Thomás se aproximou e perguntou o que eu tava falando.
— A Gláucia brigou comigo só porque confundi J e H, que saco, todo mundo erra, que droga.
— Não fica brava não, ela é chata pra cacete. Eu errei só duas palavras no meu texto semana passada e ela me fez copiar ele umas oito vezes.
— Nunca mais vou esquecer essa porra de jistória. Não repete isso na presença do Arthur ou ele vai me zoar mais do que ele já zoa.
Thomás havia segurado minha mão, entrelaçando nossos dedos. Foi super fofo e tentei respirar mais devagar, mas era difícil com meu coração batendo tão forte.
— Não vou falar nada pra ele não, e tive outra ideia. Vamos transformar isso numa lembrança divertida. Fala aí um adjetivo nada legal pra professora que comece com H.
— Horrível.
— Outro.
— Horrenda.
— Boa! Mais um.
— Hostil?
— Esse sempre — Thomás concordou com uma risadinha. Ele tinha uma risada tão fofinha.
O sol nos aquecia de frente. Ouvi o sinal anunciando o lanche, devíamos ir. Mas Thomás disse pra eu continuar com os adjetivos desagradáveis com H.
— Hipócrita.
— Esse foi forte, mais um vai.
— Hipnoterapeuta.
E nós dois rimos.
— Esse não vale, é uma profissão, eu acho.
— Não sei mais nenhum.
— É sério, não liga pra ela, você é inteligente e fofa.
Eu ri de novo, agora ficando vermelha, minhas bochechas queimando de vergonha.
— Sou normal.
— Você é linda.
Ele soltou minha mão e deu um passo, se virando de frente pra mim, a mão dele no meu ombro. Lembro de pensar como era quentinha e agradeci por ter ouvido minha mãe e colocado a blusa rosa de alcinha. Thomás então deslizou a mão até o meu pescoço e depois encostou a palma na minha bochecha.
— Fofa e linda — ele disse baixinho.
E então ele me beijou. E tipo, ser beijada pelo cara que você gosta é maravilhoso de um jeito difícil de explicar. Dá um frio na barriga, a gente fica assim tremendo e pensando em tudo que ele pode não gostar. Só que, quando ele te beija, a alegria explode como se fosse um sol aquecendo de dentro pra fora e você quer gritar pra todo mundo que deu seu primeiro beijo com o cara que você gosta.
Aquele mesmo cara que me beijou dois anos antes da minha partida de Vila da Prata cantava pra mim uma música sobre nunca mais encontrar alguém que fizesse ele feliz do mesmo jeito.
Eu tava tremendo. Gabi, que tem baixa visão e enxerga muito mais que a Bianca, veio pra perto de mim e me abraçou. O cheiro docinho do cabelo dela lembrava chocolate. A Bia pegou um lencinho pra mim na bolsa dela porque eu comecei a chorar. Eu não podia ir embora, com aquele cara fofo e incrível dizendo que ia me amar e tudo o mais.
Thomás terminou de cantar e o refeitório todo aplaudiu. Ele entregou o violão para o professor Raul.
Gabi me soltou e Bia se afastou. Thomás e eu nos abraçamos e eu chorei mais ainda, agradecendo a música, pelas palavras e por ele ser o melhor namorado do mundo inteiro.
Nos beijamos e o professor começou a tocar “Just the Way You Are”, do Bruno Mars, no violão, e geral cantou junto. Foi tipo meu momento romântico parte dois. Nem liguei pro imbecil do Arthur estar ali.
Os lábios do Thomás tinham gosto da bala de menta que ele amava trazer pra instituição e negar dar uma pra todo mundo — só eu ganhava uma. Antes que pudéssemos chegar no refrão da música, porém, a famosa professora Gláucia chegou.
— Laura Gomes, já não falei que beijos são proibidos dentro das dependências desta instituição? Vamos, vamos, já chega.
Bom, eu não podia ir embora sem levar uma bronca da professora, né? O que me deixava puta era que ela brigava só comigo, como se não fossem necessárias duas pessoas no ato de beijar! Eu fiquei dizendo a mim mesma que era a última semana, e o Raul, com todo bom humor dele, ofereceu salgadinhos e refri pra ela pra diminuir o climão.
— Aqui, Glaucinha, temos bolinho de queijo, quase a caixa inteira ainda, come um. Vou colocar Coca-Cola pra você.
E basicamente foi esse o meu último dia na instituição Estrela Cadente.
Quinta-feira chegou e a sensação de que eu ia embora me fazia sentir a garganta fechada, como se eu fosse cair no choro a qualquer segundo. Mais caixas empilhadas, etiqueta para saber se as roupas dentro eram dos meus pais ou as minhas. Tentava não pensar no meu próximo aniversário. Ia passar na cidade nova, sem meus amigos e só com meus pais como convidados. Ia ser incrível! Só que não.
A véspera da nossa partida caiu na sexta, o dia em que as pessoas ficam de bom humor, porque não tem mais aula.
Parada em um dos lados da praça, o mais distante do muro da igreja, esperava meus pais voltarem pra irmos almoçar. A louça distribuída em caixas, então nos restava ir comer num restaurante ou pedir para entregarem em casa.
Eu ia ficar uma eternidade naquele carro, então implorei para eles me deixarem ficar enquanto iam na cidade vizinha. Meu fone de ouvido ficou no carro, então tive de aumentar o volume do TalkBack. A voz feminina leu o nome do aplicativo de ligações, deslizei o dedo pela tela até o contato de uma das minhas melhores amigas. Dei dois toques em “chamar”.
— Bia? Tô na praça, quer vir aqui? Meus pais foram comprar mais plástico bolha e fita. O Thomás será que tá em casa?
Pedi pra ela tentar chamar os dois, ele e a Gabi. O banco de pedra quase queimava minhas coxas. A saia vermelha de lycra não podia me proteger da quentura. Se ao menos fosse umas seis da tarde, o ar estaria mais fresco e com o cheiro das flores que Gabi disse que se chamavam madressilvas. O vento tava tão quente que parecia o bafo de um gigante. Esperava que eles viessem, eu queria aproveitar cada minuto que pudesse antes de ir para São Paulo. Um mosquito zumbiu perto da minha orelha e, por reflexo, já dei um tapa no meu braço, matando o inseto. Que nojo!
— Eu beijei vocêêê até o amanheceeer — cantarolei. “Sinais” não saía da minha cabeça.
Depois de cantar a letra umas três vezes na minha mente, e o sol forte quase cozinhar o meu cérebro, ouvi a voz de Bia gritando meu nome lá do outro lado da praça.
— Aqui! — bati a bengala no chão com força pra eles me acharem. Eu não ia ficar gritando no meio da rua. O professor Raul nos aconselhou a não ficar com essas manias feias de cego.
Gabi chegou primeiro e sentou do meu lado. O som dos saltos altos dela parando imediatamente. Bianca me chamou de novo, como ela devia estar a poucos metros de distância, eu fiquei chamando os dois. Ela chegou antes e me abraçou forte. Não queria soltar. O Thomás teve de fazer cócegas nela.
— Não vai embora não, amiga — Bia pediu e sentou do meu outro lado. Thomás me abraçou em seguida e me puxou para ficar em pé.
— Senta aqui comigo, amor — ele disse, trocando de lugar e me fazendo sentar no colo dele. Muito mais gostoso que o banco de pedra.
— Se a professora Gláucia visse vocês dois agora, ela desmaiaria — falou Gabi com tom sonhador.
— Gente, eu nem acredito que amanhã já vou embora, não vou ver vocês no meu aniversário de quinze anos, vai ser uma merda.
— Podíamos combinar com meu pai pra irmos te ver, Laurinha — sugeriu Bia esperançosa.
Respirei com dificuldade, os olhos arderam. Daqui a pouco eu não ia mais ter lágrimas, porra. Comecei a chorar outra vez e Thomás fez carinho no meu cabelo. Sentia a mão dele descendo pelas minhas costas, tentando me acalmar.
— Não chora mais não, amor. Vai, por favor — ele pediu, todo carinhoso.
— É, amiga, vamos fazer a corrida até o muro da igreja — pediu Bia.
— Não, pelo amor de Deus, vocês não pararam com essa coisa de criança — resmungou Gabi.
Passei a mão nos olhos, secando as lágrimas insistentes. Me esforcei para sorrir.
— Não sei, gente, vai ser a última corrida — falei, incerta.
— Vamos, você adora perder pra mim — afirmou meu namorado, todo presunçoso.
Me levantei do colo dele.
— Bóra, vamos ver quem perde pra quem.
— Top! Eu vou ganhar dessa vez, tenho um truque — declarou Bia animada.
Thomás se postou no meio, eu fiquei à direita e Bia à esquerda.
— Gabi, vem com a gente só dessa vez — pedi com tom de súplica.
— Nem pensar, correr nesse sol? Pra ficar suada e grudenta? Não mesmo. Eu espero aqui.
Deixamos as bengalas fechadas no banco, mandando Gabi cuidar para nós.
— Vamos fazer a contagem regressiva? Três, dois, um, chata! — declarou Thomás, provocando nossa amiga.
Corremos os três pela praça. Ouvi a Bianca desviando para outros caminhos ali dos canteiros gramados e plantas.
— Bianca, era pra ir reto, sua trapaceira!
Ela nem se dignou a me responder. O vento jogou meu cabelo para trás. Eu ia sentir falta disso. Estendi a mão esquerda pra não dar com a cara no muro da igreja como no passado.
Bati com a mão no muro áspero de pedra. Tava mais quente que o banco, o calor me obrigou a afastar a mão.
— Cheguei!
— Cheguei também — gritou Bianca do meu lado direito.
— Eu deixei vocês ganharem — falou Thomás vindo de trás de mim. Ele me abraçou e beijou meu pescoço.
— Para, amor, estamos perto da igreja, não pode fazer isso.
— É o prêmio pela sua vitória — meu namorado me beijou de novo mais forte.
— Quem chegar primeiro na Gabi ganha, já! — gritou Bia e saiu correndo sem esperar a gente.
— Trapaceiraaa!
Meus pais chegaram uma hora mais tarde. Convenci os dois a deixarem o Thomás passar o dia comigo, meu último dia com o meu namorado que eu nunca mais ia ver na vida. Eles não conseguiram falar não, é lógico. Depois de deixar a Bia e a Gabi em casa, fomos almoçar. Thomás pediu para passarmos na casa dele rapidinho.
Voltamos para o trabalho de enrolar plástico bolha no que era frágil, fechar as caixas organizadoras com fita, etiquetar e tudo o mais.
— Eu escutei sua voz ao vento — cantou Thomás, imitando a voz do Luan no meu quarto vazio.
Eu ri alto.
— Tá idêntico! Não vou mais esquecer essa música.
Nos beijamos e senti o familiar frio na barriga, ainda que namorássemos desde os meus treze.
Thomás me deu uma carta em braile dizendo que nunca ia me esquecer e que eu era o amor da vida dele. Tipo, a coisa mais romântica. E a gente se beijou mais um monte no meu quarto enquanto meus pais empilhavam as últimas caixas.
E mais cedo do que eu esperava, o sábado chegou. Eu me sentava no banco de trás enquanto meu pai nos levava pela avenida principal, passando na frente da minha antiga escola, reconheci pela lombada que ele diz que estraga a suspensão do carro. Nada mais de caminhar com minha mãe na praça ali ao lado.
— Não acredito que estamos indo morar em São Paulo — comentou minha mãe, abaixando o vidro da janela. — Se ao menos abrissem uma filial do seu escritório aqui, não é amor?
— Cidades pequenas têm pouco movimento, isso significa menos trabalho, o que quer dizer que teríamos menos dinheiro — meu pai explicou.
Ouvi minha mãe respirar fundo.
— Pronto, saímos da cidade — ela anunciou com um tom de quem estava se segurando para não chorar.
— Tchau, Vila da Prata — sussurrei.
A cidade nova precisava ser foda. Quer dizer, a cidade nova com certeza ia ser foda! Eu ia terminar a escola, cursar Direito igual ao meu pai e um dia trabalhar no escritório junto com ele. Ia ser demais. As lágrimas vinham aos meus olhos enquanto minha mãe me lembrava que existia uma coisa chamada WhatsApp. Todo mundo sabe que no começo a gente se esforça pra conversar. Mas depois de um tempo, Gabi e Bia iam esquecer de mandar mensagem, ou eu ia ficar com preguiça de responder. Conversaríamos sobre pessoas diferentes que elas não conheciam. As duas iam comentar momentos que eu não estive. Podiam até ter piadas internas onde só as duas entenderiam e eu ficaria rindo sem graça. No fim, não ia ser igual. E eu não achava que ia encontrar uma Bianca que me escutasse falar sem parar sobre meus pais e as discussões deles, uma Gabi que adorasse organizar desfiles de moda fingindo que somos altas e elegantes vestindo as roupas chiques da mãe dela. E até parece que eu ia encontrar um garoto tão doce quanto Thomás, que cantaria pra mim e ia tentar me animar depois de um dia ruim.
Capítulo 2: quando a segunda-feira não acaba com você.
02 de março de 2026.
Mais uma segunda-feira, o dia mais odiado da semana. O início da rotina estressante do trabalho. Não que meu trabalho me estressasse. Passei a escova desembaraçando as mechas do meu cabelo castanho. Guardei a escova na gaveta do armário sob a pia do banheiro e passei o desodorante, escovei os dentes e lavei o rosto — o que eu esperava que espantasse o sono — ainda não havia funcionado. Vesti a blusa roxa e a saia longa preta. Coloquei minhas sandálias pretas com salto baixo e, por fim, um casaquinho preto felpudo. Para garantir que as roupas combinavam, desconectei o celular do carregador, ouvindo o TalkBack anunciar a bateria em cem por cento, cliquei no “Be My Eyes” e tirei uma foto minha. O aplicativo leu a descrição da imagem citando quase todas as minhas roupas escuras.
— Tô precisando comprar cores mais variadas.
Bocejei enquanto passava os braços pelas alças da mochila. Retirei a chave do gancho perto da porta, peguei a bengala e saí para o corredor do prédio. Tranquei a porta e peguei o celular no bolso do casaco, aproveitando para deixar a chave ali, só para pedir o Uber. Minutos mais tarde, eu entrava no carro com esperança de tirar uma soneca até o prédio da redação. Meia horinha de sono ia bem. Porém, Lucas, o motorista, puxou assunto e não consegui ficar na minha.
Ele adorava séries e eu curto indicações. Se não fosse Marisa, eu não teria assistido Atypical no ano passado.
— A narração mostra que quem escreveu é sensível, inteligente e profundo — comentei, dando mais detalhes do enredo.
— Eu vi uma série que tinha o personagem narrando tudo, acho que se chama You. Conhece?
— Não, sobre o que é a história?
Enquanto Lucas me deixava curiosa sobre a série, os minutos se passavam depressa e, antes do que eu imaginava, tínhamos chegado no prédio da Portal Paulista.
— É aqui, moça, bom trabalho — o motorista do Uber falou com sorriso na voz. — Depois assiste a série do Joseph Goldberg. Acho que vai gostar
— Beleza, valeu pela indicação, bom trabalho — respondi, abrindo a porta e descendo do veículo.
Dei um passo pra longe do carro e abri a bengala, segurando o cabo e soltando os outros gomos que se encaixaram uns nos outros com um som metálico. Reprimi um bocejo, estiquei o braço direito e comecei a mover a bengala à minha frente, sentindo o costumeiro hall de entrada do prédio do trabalho. Meu casaco preto me protegia do vento frio. Não usava por causa do breve caminho até a entrada, mas sim pelo ar-condicionado que ficava bem em cima de mim na mesa do escritório. Subi o degrau da entrada e entrei, passando pela porta automática que abria quando nos aproximávamos. Eu gostava dessa sensação de familiaridade: tapete grosso na entrada, cheiro de jasmim que se espalhava pelo ambiente, provavelmente através de aromatizantes. Quantos será que eram necessários para um prédio? Será que era possível colocar dentro do ar-condicionado?
Cheguei na catraca e esperei o funcionário, pois meu crachá não estava funcionando.
— Bom dia, moça. Posso te ajudar? — o segurança perguntou, e entreguei o crachá explicando que o sistema não queria me liberar.
Ele aproximou meu crachá do leitor, repetindo o que eu já havia feito, e viu com os próprios olhos que não dava certo.
— Você já fez o reconhecimento facial?
— Não, tem essa agora aqui também?
— Vou liberar pra você com o meu crachá, mas acho que terá de ir verificar o procedimento no RH.
— Que ótimo — resmunguei, irritada.
O segurança liberou a catraca e me conduziu até o elevador. Lá dentro, comentei sobre reconhecimento facial ser um saco.
— Nunca funcionam com a gente. Nos aplicativos do banco, por exemplo: afasta o celular, aproxima o celular, fica num lugar iluminado, não se mexe. Nada disso adianta nada.
— Eu imagino. No meu caso, eu não consigo fazer o reconhecimento tão bem porque não consigo ficar sem piscar.
Eu sorri.
— Os olhos ardem, né? — comentei, e ele concordou. Descemos no quinto andar. Apesar do meu salto baixo, as sandálias ainda faziam barulho. Entrelacei meu braço no do segurança. Não era o jeito correto de segurar na outra pessoa. Da próxima vez eu explicaria a forma certa. Ele insistiu em me levar até a entrada da sala.
— Obrigada.
Ouvi os passos se afastando e senti no rosto a temperatura mais fria por conta do maravilhoso ar-condicionado.
— Quer dizer que você não sabe mais chegar na nossa sala? — perguntou Marisa, com tom de acusação.
Eu senti o cheiro do café que ela adora tomar. Entramos juntas.
— Eu só tava sendo legal, não ia falar para o cara: me larga que eu sei ir sozinha.
Marisa fez o costumeiro som de desconfiança, e Dylan me deu bom dia quando caminhei meia dúzia de passos e bati com a ponta da bengala na lateral da mesa. Retirei a mochila, me acomodei na cadeira confortável, trazendo a mochila para o meu colo. Dylan falou que a chefe já queria me ver no Teams logo cedo.
— Que horas que são, Dylan?
— A mesma de ontem — respondeu, e Marisa riu ali perto.
— Eu mereço — reclamei, tirando o celular do bolso.
Apertei o botão Power, a tão conhecida voz feminina do TalkBack declarou que eram dez para as oito.
— A Pâmela já chegou, Mari?
— Acho que ela tá no banheiro. Por quê?
— Ia pedir um café e pão de queijo. Não sei como ela busca isso em cinco minutinhos na copa.
Bloqueei a tela e larguei o celular ao lado do notebook que retirei da mochila. Em seguida, me inclinei e coloquei ela embaixo da mesa. Ignorei a fome. Pensei que não podia virar rotina assistir série até duas da manhã.
Liguei o notebook ouvindo Dylan cantarolando o refrão de pagode, que com certeza ia ficar na minha cabeça o dia inteiro. Após mais um bocejo, estiquei o fio do fone, colocando o arco sobre meus cabelos. Me movi para frente e conectei a outra ponta na entrada USB. Eu precisava terminar duas matérias, mas só conseguia pensar no que ia comer na hora do almoço. Quatro longas horas até lá. Cacete, eu não ia aguentar. A Pâmela bem que podia voltar do banheiro e ir salvar minha vida trazendo o pão de queijo com café. Se a Quézia me visse comendo na minha mesa de novo, ela ia gritar comigo, mas a fome tava roubando meu bom senso. O Narrador do Windows pediu a senha, digitei rapidamente. A voz inicial do computador parecia estar cansada e com fome igual a mim. O Windows carregou, meu leitor de tela NVDA iniciou em segundos.
— E aí Dylan, como vão os preparativos? — perguntei ouvindo meu amigo e o computador ao mesmo tempo. O fone de um lado só era ótimo para isso.
— Tão indo bem, me deixando maluco, mas a Ágata está adorando. Eu tô pensando em arrumar um segundo ou terceiro empregos para dar conta dos gastos.
Fiz login no sistema do Portal Paulista, depois alternei as janelas com ALT-TAB e cliquei no
aplicativo de bater o ponto: “oi/tchau”. Sorri como de costume. Quando esse nome ia perder a graça? Talvez nunca. Com outro atalho de teclas meu leitor anunciou que o foco agora se localizava na Área de Trabalho. Digitei t para ir direto ao ícone do aplicativo.
— Tenho uma sugestão para seu segundo emprego, Dylan — comentei virando o corpo para a direita e tomando cuidado para não falar tão alto. — Você podia ser garçom ou monitor naquelas festas de criança.
— As crianças iam pisotear ele — comentou Marisa a pouca distância. — Pensa pelo lado bom, você ia ficar mais alto todo esticadinho.
— Com duas amigas como vocês, quem precisa de inimigos? — ele respondeu com tom de desapontamento.
Eu ri, cliquei na minha conta e entrei no Teams, após descer pelos ícones usando Tab. A chefe logou, o NVDA leu a notificação, porém eu não ouvia nada. Ela digitou no chat dizendo que eu estava sem som.
Respondi no chat que ela estava sem som para mim. Quézia então mandou eu ir para a sala dela em cinco minutos. Respondi que estaria lá.
— O que foi? — perguntou Dylan quando eu xinguei o aplicativo.
— O Teams travando, deu um bug esquisito aqui. Vou na reunião presencial.
— A call presencial com a chefe numa segunda? Boa sorte.
— Laura, antes de você ir, comprei isso para você no festival de trufas — Marisa falou, me entregando uma caixinha que devia ter umas oito trufinhas dentro.
— Império do cacau? Mari, eu quero uma caixa dessas, cadê a minha — protestou Dylan, admirando meu presente.
— Só comprei pra Laura, se ela quiser ela divide com você.
— Por que não ganhei uma?
— Porque eu não gosto de você.
— Isso não é motivo.
— Claro que é.
Guardei minha caixa na mochila e peguei a bengala. O som alto e metálico dos gomos se encaixando rápido fez Henrique, provavelmente ocupando uma das mesas no fundo, soltar um resmungo de surpresa.
— Tentem não se matar, eu já volto.
Segui até a lateral da sala, atualmente livre de obstáculos. No passado, as mesas ficavam dispostas de forma que eu acabava desviando de um e esbarrando em outro no caminho. Como demorou para a Quézia compreender a situação. E ela própria esbarrava nas pessoas, assim como eu.
Entrei no curto corredor que dava na sala dela, bati na porta e, como não escutei resposta, entrei logo. Talvez fosse para eu esperar lá dentro.
Com a bengala, rastreei a parede até achar a cadeira de frente para a mesa da minha chefe e me sentei. O cheiro doce e um tanto enjoado de essência de sakura me fazia lembrar por que eu não gostava muito de vir na sala de Quézia. Levantei a mão livre, passei os dedos pela borda da mesa e encontrei o troféu que ela ganhou.
Prêmio Comunique-se por reconhecimento. Que presentão de Natal, um prêmio pela sua carreira. Se eu ganhasse um Comunique-se, talvez meu pai aceitasse que não segui no direito como ele queria. A ideia de eu me tornar a doutora Laura vinha desde que eu perguntava, quando criança, se ele decorava todas as leis do Brasil. Ele não ria com frequência, mas nessas lembranças a voz dele soava risonha e ele prometia que eu ia entender quando entrasse na faculdade. Suspirei sentindo as lágrimas virem aos meus olhos. O frio do metal do troféu não era desagradável. A estatueta pesava mais do que se poderia supor, já que devia ser maior que minha mão. Ouvi passos de salto alto vindo na direção da porta.
— Cacete, não sei para que lado estava virada.
Pousei a peça valiosa na superfície de madeira, empurrando o troféu mais para o centro da mesa. Ouvi a porta atrás de mim abrir e fechar em seguida. Um suspiro e depois um estalo seco.
— Porcaria de bengala, não fica encostada direito na parede — reclamou minha chefe, recuperando o objeto e encostando no canto com sucesso. — Vou mandar colocarem um gancho aqui. Melhor deixar pendurada.
— Logo você se acostuma, a bengala não é tão ruim.
Quézia contornou a mesa enquanto falava.
— É o que o meu marido diz. Depois de eu machucar o nariz dando com a cara naquele poste… melhor com a bengala do que sem ela.
— Quem é baixa visão não pode andar correndo. Regra básica — comentei tentando não soar condescendente.
Quézia sentou e limpou a garganta. Era o sinal para o fim de conversa fiada. A voz dela assumiu o tom de chefe, não mais da pessoa chateada com os percalços da vida.
— Bom dia, Laura Gomes, a Elaine do RH quer uma foto sua para o reconhecimento facial — Quézia anunciou, movendo a cadeira com rodinhas do outro lado da mesa e batendo o pé num padrão irritante. — Tive uma reunião com ela ontem e expliquei sobre o reconhecimento facial ser complicado para deficientes visuais. Manda sua foto para ela por e-mail ou pelo Teams.
— Pode deixar. Assim que terminarmos aqui eu envio. Meu crachá já não passou agora há pouco.
— Outro ponto… onde está meu controle do ar?
Ela ficou checando em voz alta cada lugar que procurava: gaveta, sobre a mesa, na prateleira lateral, ao lado do notebook. Enquanto ela tentava achar o controle, eu tentava não rir. Repetindo na mente a frase dela: “onde está meu controle do ar?” Imaginei aqueles instrutores de ioga dizendo “respire, conte até três junto comigo. Vamos lá, agora solte devagar o ar pela boca”. Eu apertei os lábios tentando me impedir de rir.
— Achei! Então, eu tenho uma cobertura para você fazer na vila da Prata.
Aí estava um nome que eu não ouvia há séculos. Ia ser interessante voltar na minha cidade da infância e descobrir como ela mudou ou cresceu em pouco mais de dez anos.
— Devo escrever sobre o quê? Ou quem?
— Turismo, curiosidades, feirinhas, destinos para viagens.
— Isso parece incrível — falei empolgada. Ia ser a segunda vez que faria matérias grandes fora da redação.
— Lá existe um instituto que ministra aulas para cegos. Quero que escreva sobre as atividades por lá.
— O seu foco este ano está realmente em pessoas com deficiência.
Ouvi os bipes característicos de Quézia diminuindo o ar, eu soube por conta do gelo que ficou na sala. Cheiro de sakuras geladas. Então era assim que cheirava o Japão no inverno?
Quézia voltou a falar e me esforcei para não divagar de novo.
— Quero mostrar que nós podemos chegar longe, Laura. Termine as duas matérias que você vinha trabalhando, quero elas até o fim do dia. Aliás, até o almoço. Depois vá buscar as passagens, reservar o hotel por cinco dias e vai levar alguém da equipe para te ajudar.
— Posso escolher qualquer um? — perguntei pensando na Marisa. Ela seria minha primeira opção sem a menor dúvida.
— Claro que não. Suas opções são Pâmela Araújo e Dylan Ribeiro.
Dei de ombros, resignada.
— Eu devo então focar nas atividades turísticas. Quanto à instituição, devo falar sobre as aulas e alunos de lá, certo?
— Isso, e não poupe elogios, seja realista, mas com um toque de positividade, está me entendendo? — ela perguntou e, em seguida, pediu para eu prestar atenção.
Me inclinei um pouco para frente e Quézia abaixou o tom de voz.
— Vocês são minha equipe oficial. O departamento da Quézia, parabéns para vocês significa parabéns para a chefe.
— Entendi, vou fazer um bom trabalho. Já morei nessa cidade, então vai ser ótimo retornar — comentei, animada. — Lá deve ter mudado bastante, não é?
— Não são férias, Laura, nada de perder o foco.
— Perdão, só estou curiosa com a perspectiva de reencontrar as pessoas e os lugares onde eu cresci.
— Perfeito, voltando ao que interessa, quero uma matéria por dia, vou avaliar pessoalmente para colocarmos no Portal Paulista.
— Eu não posso comprar as passagens pela internet?
— Tem taxa de conveniência, melhor ir pessoalmente, a rodoviária não fica tão longe. Use isto para pagar.
Ela me entregou um cartão de crédito e me falou o valor máximo que eu podia gastar durante o período fora da redação. Fazer matérias de turismo talvez não me fizesse ganhar um prêmio, porém, sendo positiva como Quézia pediu, mostrando minha competência e criatividade, eu poderia me tornar a próxima jornalista sênior. A segunda na equipe, junto com o insuportável do Henrique. Ia ser tão bom me gabar disso! Dizer a ele que estávamos no mesmo patamar.
Saí da sala de Quézia poucos minutos depois. Não consegui deixar de sorrir. Ia ser divertido demais escrever em outra cidade, passear, conhecer os lugares novos. A questão agora martelava na minha cabeça: Pâmela ou Dylan? Enquanto tentava escolher entre eles, me sentei de novo no meu lugar e comecei a cuidar das matérias. Uma sobre o uso prejudicial de inteligências artificiais e a outra falando da exposição responsável de crianças ou adolescentes nas redes sociais.
Enquanto eu digitava, troquei o fone de um lado só para o outro, que era um arco completo e ia me isolar dos meus colegas por uns minutos.
— Boa escrita, Laurinha — falou Dylan, me adulando só para ganhar um dos meus chocolates caros. Eu o conhecia muito bem.
Coloquei uma das minhas listas de reprodução para o trabalho. Cliquei na dez, ela continha as mais tocadas da banda OneRepublic. Depois de terminar a primeira matéria, parei de digitar e me recostei na cadeira.
Dylan ou Pâmela? O Dylan tinha amizade comigo há uns dois anos, no nível de ele estar comigo na exposição de arte com audiodescrição. Melhor nem pensar naquela tarde. Ele tinha a mesma idade que eu, vinte e seis, e era bem mais divertido que a Pâmela. Por outro lado, eu sabia que ele detestava mudar os planos. Em uma viagem de trabalho, às vezes temos de nos adaptar. Outro fato é que a pobre da Ágata ia escolher tudo sozinha e levar os dois à falência. Ele ia mesmo ter de arrumar uns três empregos para poder ter dinheiro pra festa de casamento. Sobre a Pâmela, bem, ela fazia hora extra com a gente todas as vezes que pediram. Mesmo precisando cancelar as aulas de violão, o que é um hobbie muito legal, a propósito. Além disso, Pâmela segue as ordens. Quando o Henrique jogou uma caixa de formulários na frente dela, mandou Pâmela escanear todos os cinquenta e lançar no sistema, ela assim o fez. Mais tarde naquele dia, Henrique voltou e disse para ela organizar os arquivos por departamentos e cargos. Pâmela fez sem reclamar. Bom, ela reclamou depois, mas aí até eu. Henrique gosta mesmo de inventar trabalho para os outros, como se já não tivéssemos o que fazer. O que me faz pensar duas vezes no caso da Pâmela é que ela vive perdendo a bolsa, esqueceu o celular na pia do banheiro aqui da empresa três vezes, já derrubou a chave de casa no ralo da entrada do prédio, pra onde vai a água da chuva.
Me espreguicei e voltei ao trabalho. Dylan tinha mais vantagens, eu podia lidar com a falta de paciência dele para mudanças. Ia ser bom para ele, Vila da Prata ficava no interior de São Paulo, isso ia desestressar meu amigo.
Terminei as matérias e revisei a ortografia. Depois enviei as duas para Henrique fazer os ajustes visuais que ele gostava.
— Bom dia, Laura, que brinco bonito — disse Pâmela, na mesa do outro lado da minha.
A voz dela me fazia pensar naquelas moças japonesas que têm a voz aguda e doce.
— Brigada, Mel.
— O que são essas pedrinhas azuis no pingente?
— Chama lápis-lazúli.
— Mas é uma pedra, como pode ser um lápis? — intrometeu-se Dylan.
— Boa pergunta, por que chama lápis-lazúli, Laura?
— Sei lá, gente, perguntem para alguma IA.
— Segundo seu artigo, estamos preguiçosos por fazer exatamente isso — comentou Marisa. A voz dela vinha da esquerda, então hoje Marisa havia de fato conseguido subornar o Henrique com o café chique da cafeteria perto da casa dela. Ela devia ter uma lista com tudo que os colegas gostavam e usava isso contra nós, não era possível!
— Curiosidades não são perda de tempo ou falta de raciocínio — argumentei, e ela fez um som de desaprovação.
— Tenho uma notícia pra você, uma surpresa — sussurrei para o Dylan.
— Aceito qualquer trufa que não seja de maracujá ou doce de leite.
— Não é isso, é que eu precisava escolher… — comecei a explicar, porém fui interrompida.
— Pâmela, por que a pasta compartilhada da equipe tá com senha? Você mexeu nela por último, que senha colocou? — a voz profunda e mau-humorada do Henrique preencheu a sala, e até eu me encolhi um pouco de susto.
— Era a pasta da equipe? Mas eu estava trabalhando nela sozinha a semana passada inteira — justificou a Pâmela.
— Até quinta não tinha senha na pasta, então todos nós estávamos acessando. Fala logo a senha, por favor — ele pediu com um tom em que o “por favor” era só um acessório inútil na conversa.
— Dojo casa house. Tudo junto, e a palavra dojo é maiúscula — respondeu a Pâmela com tom de quem queria se enfiar embaixo da mesa do escritório e não sair nunca mais.
— Adorei a senha, Ken — falei, rindo. A senha dela era o nome da casa do Ken no último filme da Barbie. Aparentemente, ninguém além de mim no escritório entendeu a piada. Que decepcionante.
Abri o navegador do notebook enquanto esperava o Henrique aprovar ou modificar as minhas matérias. Digitei no Google: hotéis em Vila da Prata e gastei os próximos minutos procurando um que não fosse caro. Não que houvesse muitas opções de qualquer forma.
— Não acredito, Pâmela, por que os títulos são “reformulação da estrutura familiar, a mulher como chefe de família, um, dois e três”? O que é isso? — questionou Henrique, irritado.
— Por que não trocam mensagens escritas? Melhor que atrapalhar a gente com a bronca que é só pra moça — observou Marisa.
— Não estou dando bronca, estou fazendo uma pergunta. Por que, Pâmela?
— É que eram versões tipo rascunho, revisada e final.
— E essas outras: descomplicando a política sim; descomplicando a política, agora sim e descomplicando a política, com certeza?
— Vai lá na mesa dele, Pâmela, pelo amor de Deus — pediu Marisa, e a coitada foi conversar e ouvir a chamada de atenção mais de perto.
— Vixe, ela vai ter que arrumar essa pasta nos próximos dias. A Quézia odeia essas enrolações todas juntas — lembrou Dylan.
Encontrei no Google um hotel legal chamado Paraíso. Fui olhar os quartos individuais para comparar as diárias com o outro hotel na cidade ao lado.
— Retire essas outras versões e as coloque numa pasta de rascunho e outra de revisão, organize direito e não faça isso de novo — dizia Henrique com o tom de autoridade que eu sabia que ele usaria o tempo todo conosco se fosse nosso chefe.
— Vou começar agora, não vai demorar muito, eu vou fazer isso bem rápido — garantiu Mel, com a voz tremendo um pouco de nervoso.
Ela voltou para a mesa dela, e todos ouvimos Henrique falar o quanto esses jornalistas novos eram incompetentes.
— Não é para tanto, Henrique, já deu, né — falou Dylan, tentando encerrar o assunto.
Mel foi ao banheiro e Henrique me enviou de volta minhas matérias já formatadas e com as palavras grifadas. Ele colocou a lista de tags que eu devia sugerir, e apaguei uma por uma. Eu sabia colocar minhas próprias tags e foi o que fiz, e depois subi os arquivos na pasta da equipe.
Me levantei e peguei a bengala. Segui para o banheiro feminino. A pressa me fez ir ao mais próximo, em vez do banheiro maior para deficientes.
Entrei e fiz o que precisava em minutos. Ouvi então um som de chamada de voz.
— OI, amor — a voz aguda e chateada vinha de um ponto à direita. — Estou no trabalho.
Destranquei a porta devagar, saí e dei três passos até a pia.
— Levei uma chamada de atenção. E nem foi da chefe, foi do cara que acha que é chefe. Odeio ele.
E Pâmela foi contando a situação para o ficante dela, o Rodolfo. Eu comecei a lavar as mãos e senti pena dela. A pressão era enorme quando você era uma estagiária que começou há um mês apenas. Talvez eu devesse ajudar. Se eu levasse ela comigo na viagem em vez de levar o Dylan, isso podia deixá-la animada e poderia provar aos outros que ela era capaz de fazer muito mais. Pâmela abriu a porta da cabine e saiu do banheiro.
— Eu não quero falar isso, agora não — ela disse com a voz chorosa. — Não quero falar isso, amor.
Usando o hábito e a memória, eu achei o papel para secar as mãos. Puxei umas cinco folhas, devia ser o suficiente.
— Não tô sentindo nada disso nesse momento, amor — ela respondeu, cansada. — Tá, eu vou tentar, só pra você parar de me encher. Eu sou forte, eu sou competente, eu sou humana e posso errar.
Ela repetiu as três afirmações sem muita convicção. Em seguida, ela se despediu do rapaz e desligou.
Joguei os papéis no lixo ao lado da pia e me virei para falar com minha amiga.
— Mel, não liga não, o Henrique adora implicar por qualquer coisinha. Ele pega até no pé da Quézia.
— Eu juro que não sabia que a pasta era para todo mundo mexer, eu fiz do jeito que eu organizo.
— Não deixa ele te chatear. Olha, eu aposto que você é muito mais responsável do que ele pensa, por isso queria te chamar para ir fazer umas matérias comigo numa cidade do interior.
— Sério, Laura? Posso ir com você? Onde é? Fica longe do escritório?
— Deve dar umas três horas até lá, pensa só, uma cidade do interior onde a gente vai passear e ver lugares para indicar aos outros.
— Eu topo, vamos quando?
Eu sorri com a empolgação imediata.
— Amanhã, vou avisar a Quézia que escolhi você, a gente sai amanhã cedo. Eu vou pegar as passagens agora.
Eu voltei para minha mesa, fechei o notebook. Se Dylan não perguntou aonde eu ia, ele devia estar ocupado. Abri a mochila, peguei uma das trufas e coloquei do lado do notebook do meu amigo. Me despedi da Marisa e fui falar com a Quézia.
Ela estava no celular com o marido, listando para ele os motivos pelos quais deviam continuar pagando o Sam’s Club. Esperei pela pausa enquanto ele, com certeza, rebatia cada ponto que ela citou e comuniquei que escolhera Pâmela para ir comigo.
Ajustei as alças da mochila nos ombros enquanto o elevador descia. Saindo às onze, eu ia conseguir almoçar logo. Ainda bem!
No trajeto breve de Uber até a rodoviária, fiquei pensando sobre voltar para a cidade onde nasci. O que teria acontecido com a Bianca, o Thomás e a Gabriela? Será que eles estariam morando lá ainda? Ir para a instituição me faria, com certeza, encontrar eles, ou pelo menos ter notícias. Como seria se Thomás tivesse se casado com Bianca? Seriam um casal fofo. Ele sempre foi romântico e ela era atenciosa. Gabriela era mais exigente, ele teria que lembrar de todas as datas importantes e dar presentes à altura.
Desci na rodoviária recebendo, aliviada, a ajuda do motorista de Uber. Ele me levou até um funcionário e se foi, após eu agradecer a ajuda. Caminhei em silêncio ao lado do rapaz depois de explicar para qual cidade eu queria comprar passagens. Ao chegar no guichê, retirei as passagens e não aguentei mais o calor. Guardei os papéis na mochila e o casaco preto foi junto. Minha mãe achava feio eu andar de mochila para cima e para baixo, na opinião da dona Cláudia, a filha de vinte e seis parecia ter dezesseis de novo, atrasada para a aula de biologia do ensino médio. Mas olha a praticidade! Não queria mais a blusa? Enfia na mochila e tá tudo certo. Até parece que eu ia conseguir levar mochila, blusa no braço e bengala, impossível!
Retornei com o funcionário para a saída da rodoviária. Resolvi que ia almoçar em casa assistindo Once Upon a Time.
Passei a mão por dentro do elástico da bengala, pendurando-a no meu pulso, só para garantir que ela não ia escorregar, e fui então pedir o Uber para minha casa.
O vento quente não aliviava nada o clima da cidade. O cheiro adocicado de alguma barraquinha de milho próxima me deixou ainda com mais fome que antes.
— Já encontrei motorista, mas ele tá meio longe ainda, moço — eu disse, mostrando a tela do celular ao funcionário.
Ele leu a placa em voz alta e disse que ia me avisar quando visse o carro chegando. O sol forte nos obrigou a voltar uns metros e ficar embaixo da cobertura. A sombra bem-vinda aliviava o calor, mas não totalmente.
Deslizei o dedo na tela, ouvindo o TalkBack ler as informações sobre a cor do carro. Reparei que a placa formava a palavra “vil”, achei engraçado e printei para mandar no grupo “maus elementos”. Escrevi na legenda da foto: “será que o motorista é malvado?”. Só consegui fazer essa proeza porque o motorista ainda ia demorar sete minutos, e todos sabem que sete minutos do Uber podem ser dez, ou quinze. Depende do trânsito e da vontade de quem está dirigindo.
Li a mensagem de Dylan: “tomara que ele seja horrível e te sequestre para um país de nome impronunciável”.
Gravei um áudio de volta, dando risada.
— Quanta amargura nesse coração.
Dei dois toques em “recentes” na tela e voltei ao aplicativo do Uber. Seis minutos ainda. Senti o celular vibrando com notificação e retornei ao WhatsApp.
— Ele está puto porque você vai levar a Pâmela para a matéria em campo e ele vai ter de organizar a pasta geral que ela bagunçou — disse Marisa no áudio, se acabando de rir. — É por essas que você é a minha número um, Laurinha.
— Eu te deixei uma trufa, Dylan. Nem assim estou perdoada?
O próximo áudio era do Dylan:
— Nem todas as trufas de café expresso da Império iam fazer eu te perdoar, Laura Gomes.
Mandei emojis de chocolates e corações.
Veio outro áudio dele:
— Talvez eu te perdoe por duas caixas de trufas. A propósito, eu estou apaixonado por esse recheio de café expresso — o restante do áudio ele sussurrou. — Esse chocolate é quase tão bom quanto sexo.
Marisa mandou figurinha de um policial com algemas.
— Cuidado, Marisa, ele pode gostar dessas algemas aí — alertei com um sorriso ao falar.
Fui olhar o Uber outra vez. Três minutos para o vil motorista chegar. Eu deslizei o dedo na tela até ele reler as informações da placa e eu vi o nome do motorista: Arthur.
— Nossa, universo, não tô gostando desses sinais — comentei baixinho. O funcionário até pensou que eu estava falando com ele. Eu não podia ficar com essa mania de falar sozinha. As pessoas iam achar que eu tinha um parafuso a menos. Recebi uma ligação. O TalkBack falou o número inteiro: final zero cinco. E eu, inocente, pensando que ele tinha desistido, cacete. Recusei a chamada. Uma hora ele ia ter de me deixar em paz.
O carro chegou depois de mais uns três minutos. Agradeci o funcionário que me levou até a porta da frente do veículo.
Entrei no carro e falei o código de quatro números para iniciar a viagem. Pior que o Arthur não era mau nem nada. Depois de uns quarenta minutos de conversa sobre o outro emprego dele, a esposa e os filhos, desci na frente do meu prédio. Desesperada para almoçar.
Não ia ficar sujando louça, já que eu ia viajar no dia seguinte, então pedi logo duas marmitas no iFood. Cinco dias fora iam me obrigar a usar a mala maior, ainda mais porque queria levar o notebook, sapatos, blusas.
Almocei vendo minha querida série. Ou não tão querida, pois, por culpa dela, eu chegara atrasada no trabalho de manhãzinha. Depois liguei para o hotel para reservar um quarto só com duas camas. Outra vantagem que eu não havia pensado antes. Ia ser mais confortável dividir o quarto com a Pâmela do que com o Dylan.
Marjorie mandou mensagem dizendo que ia desmarcar a sessão de terapia, e depois eu comecei a pesquisar o endereço da instituição de cegos de Vila da Prata. Estrela Cadente, um nome interessante de um fenômeno completamente visual. Pensei na voz de audiodescrição do último filme que assisti. Ela provavelmente diria assim para descrever o fenômeno: “uma concentração de riscos brilhantes se precipita do alto na direção da cidade. De noite, várias pessoas olham para cima com ar sonhador”. Sorri, que ideia sem sentido pedir coisas para meteoros em chamas caindo na Terra. O bom seria pedir que nenhum deles caísse na sua cabeça enquanto tá fazendo seu pedido.
Meu celular tocou e atendi, deitada no sofá.
— Oi, meu bem, é a mãe. Como você tá, querida?
— Oi, mãe, estou bem. E a senhora? Melhorou da gripe?
Passamos alguns minutos nessas banalidades, até que contei:
— Eu vou para outra cidade, viajar a trabalho. Vou escrever matérias interessantes sobre esse lugar, compras, comida, atividades pra diversão. Não é o melhor emprego do mundo?
— Que cidade você vai, filha? Já viu se tem que tomar vacina para alguma doença? Leva seu remédio da alergia, não esquece.
— Vou levar sim, mãe. Então, você não adivinha, eu vou para a Vila da Prata.
Pronto, dona Cláudia enlouqueceu com essa pequena informação. Mandou perguntar de tanta gente que nem me esforcei para lembrar a lista de nomes que ela deu.
— Pode deixar, vou procurar cada uma dessas pessoas, enquanto escrevo, visito os lugares e mando as matérias para minha chefe.
— Você tá usando aquele tom, tá sendo irônica, não é, Laurinha?
— Desculpa. E o pai tá bem?
— Tá sim, ele pegou um caso grande no escritório e tá ocupado. Falei pra ele não se matar de trabalhar, mas ele não me escuta. Depois ele vai ter um esgotamento e vai ver que eu tava certa.
— Fala que eu mandei um beijo. Toda vez que você liga ou eu ligo ele tá ocupado, né? Desse jeito eu falo com ele no Natal, então. Vou indo lá, mãe, te amo.
Desligamos, e suspirei pensando como meu pai não fazia questão de saber da filha dele. Fazer o quê. A vida é assim. Lembrei da indicação do motorista do Uber que eu peguei de manhã cedo e procurei a série que ele mencionou. Stalker pirado por uma moça aleatória e escritora. Ou jornalista… credo. Me arrepiei só de imaginar um cara me perseguindo e interpretando tudo que eu fazia de um jeito distorcido.
Mais para o fim da tarde, desloguei do sistema da empresa e terminei de colocar as roupas e a toalha na mala.
— Ah, vou ficar num hotel, não tem necessidade de levar toalha.
Retirei ela e não precisei comprimir as roupas. Meu celular tocou de novo, final do número zero cinco. Deixei chamar até cair a ligação.
Jantei minha segunda marmita de noite e mandei mensagem pra Mel pra gente se encontrar na rodoviária no dia seguinte, às seis da manhã. Naquela noite sonhei com o instituto onde eu aprendi braile, mobilidade e atividades da vida diária. Senti o costumeiro aroma de lavanda dos produtos de limpeza que gostavam de usar sempre. Os pássaros cantando do lado de fora das janelas. E eu debruçada na mesa, os braços de cada lado da máquina braile. O queixo apoiado na superfície de metal geladinha da máquina.
No sonho, eu me sentava na cadeira dos fundos e o Arthur se sentava do meu lado.
— Cinco Laurinhas foram passear, lá na beira do mar, a professora Gláucia chamou quá-quá-quá-quá-quá…
— Vou dizer pra ela que você chamou ela de pata.
— Que meda.
— Seu crianção, moleque, imaturo.
— Quá, quá, quá, quá. Patinha feia.
— O pato feio vira um cisne.
— O quê? Eu só ouvi quá-quá-quá.
O sonho continuava, com mais encheção de saco. Acordei puta da vida. O assunto para a próxima sessão com a Marjorie ia ser memórias desagradáveis surgindo quando você volta à sua cidade da infância.
Eu não lembrava como foi que Arthur começou a me chamar de patinha. Pelo menos a Gláucia deu um esporro nele quando ouviu a musiquinha. Lembrei com prazer da sensação ótima de ver Arthur levar bronca em vez de mim. Uma das raras vezes em que fiquei feliz por estar no mesmo ambiente que minha professora de braile.
Mas eu bem que podia sonhar com o gostoso do Luan Santana. A gente juntinho, se casando e tal, até combinaria: Laura e Luan, perfeito!
Me levantei ainda imaginando o sonho bom que eu não tive de noite. Fui tomar banho, depois que saí me sequei e joguei a toalha no cesto. Vesti a jeans, blusinha azul-clara e penteei o cabelo. Coloquei meus brincos de gota. Prata na Vila da Prata. Peguei a mala e saí de casa, trancando a porta.
Peguei Uber para a rodoviária e fui cochilando, e sonhei alguma coisa com o Luan, mas ao acordar não lembrava de nenhum detalhe. Mas a voz do idiota do Arthur não saía da minha mente. Não podia deixar isso me chatear.
Agradeci ao motorista e desci na rodoviária. A Pâmela se aproximou animada demais para seis da manhã. Achei melhor só tomar café quando chegasse lá na cidade. Pâmela tomou suco e comeu um pastel ali na rodoviária, se assustando com o preço.
— Já comeu, agora tem que pagar, minha filha — eu falei, rindo da indignação dela.
Entramos no ônibus às seis e quarenta. Chegaríamos lá provavelmente perto das dez da manhã. Eu senti um frio na barriga ao pensar em todos os meus amigos. Não sabia se ia ser estranho, divertido ou constrangedor. Talvez fosse tudo isso ao mesmo tempo. Me recostei na poltrona e coloquei os fones. Só pela nostalgia, botei a playlist do Luan Santana, cuja primeira música era Sinais. Fechei os olhos e adormeci, para inveja da Pâmela, que não conseguia dormir em ônibus. Ela estava tão empolgada que talvez não dormiria nem se estivesse cansada. Eu apaguei.
Comentários