EntreContos

Detox Literário.

O desarranjo que não planejei (Thereza)

O que vamos dizer a ele? Eu imaginava, porque apesar de enfraquecido, Guto estava esperançoso:

Talvez eu possa retomar o trabalho na escola. Já estou de licença há dias, reclamara.

Puseram uma substituta… (Caíque)

…não se preocupe (Mariana).

As crianças não podem ser prejudicadas (Guto).

Que sintam um pouco a sua falta (eu).

Fecho os olhos e as cenas voltam, bailando na memória. Desde a primeira, quando o médico abriu o envelope com o resultado dos exames:

 É o que eu mais temia, dona Thereza.

E, Caíque que se casaria dali quatro semanas. Não aceitou, não. Aquilo não podia acontecer com o pai:

Pede outro exame, doutor!

Não é preciso (silêncio). Importante é iniciar logo as aplicações.

Saímos à rua, zonzos com a cruz daquela verdade às costas, e meus olhos se recusavam a ver o mundo que em breve não teria mais a presença de meu companheiro:

 É melhor não contar nada a ele.

Não pode ser, não pode ser! Caíque vociferava.

Você tem de cuidar de seu casamento. Eu tentava acalmá-lo.

Vou desmarcar.

Ninguém vai entender. Seu pai vai desconfiar.

Não, não. Ele protestava, ao volante, e eu:

Vamos manter a festa, seria a oportunidade para ele rever, quem sabe pela última vez, alguns parentes distantes.

Que desgraça!

E os exames no banco de trás eram uma silenciosa certeza que, de repente, arrebentara as fundações da família.

E as lembranças brotavam como uma avalanche. Eu mal escutava as buzinas, o ruído dos motores:

 Cuidado, filho, dirige com atenção… 

Não posso casar nessa situação! A noite me caíra na alma. Tentava entender o vazio que me sufocava e só pensava: Por quê com Guto? Era ele, com seu bom humor, que tornava mais leve o fardo dos nossos conflitos, quem juntava as peças de nossa história perdida no emaranhado dos fatos.

 Não pode ser, não pode ser! Caíque roía com raiva os ossos daquela sentença e dela não se desgrudava. Buzinava, buzinava, como se aquele som prosaico dissesse: Estamos perdendo uma pessoa que amamos.

E eu já me sentia abandonada, vomitando solidão. O sol descia recortado pela luz das janelas, e seus raios se espalhavam pelo horizonte. Não conseguia ver meu homem como uma criatura turva; era barro, sim, igual a todos nós, mas ele foi cozido a altas temperaturas, e ganhara a transparência dos vidros, pela qual eu podia ver os mecanismos da vida funcionando em desordem dentro dele e, sem ouvir a minha própria voz.

Calma, filho! Não vá piorar as coisas.  Eu me via, no futuro imediato, a procurar os ecos do riso dele, das palavras sempre tão grávidas de carinho. E, subitamente, Deus!, espremi a dor que me  dilacerava o espírito e falei:

Assim estamos matando Guto, ele ainda está no meio de nós. Temos de desfrutar cada minuto com ele.

Ele se foi, ele já se foi. Caíque não aceitava:

Não, não, ele ainda tem algum tempo. Mudava as marchas nervosamente, queria avançar, como se desejasse deter o inevitável que, em surdina, não se sensibilizava com o nosso pesar.

Em casa, entrevi o rosto de Guto à janela. Ele nos acenava, feliz, rodeado pelo ocaso. Abaixei os olhos a custo represando os sentimentos controversos que me sacudiam, preparando-me para dizer a maior de todas as mentiras:

É uma inflamação brava, demora pra sarar, mas com a sua ajuda… Foi isso o que eu disse, à mesa, diante do prato de sopa que não me descia:

É o calor, perdi a fome. Mas Mariana, esperta, captou a verdade em meu semblante, e a apanhou como uma pedra à beira do silêncio de Caíque, enquanto ele me apoiava movendo afirmativamente a cabeça:

O que foi, bem?

Tô preocupado com o casamento. Caíque, reunindo cada migalha de sua coragem.

O pai riu, ingênuo, ignorando a dimensão do mal que logo o arruinaria, porque, apesar do aspecto frágil, era ainda Augusto, vazando vida, que eu conhecia desde a infância. E, como era insuportável admitir que ele estava de partida, mais do que convencê-lo que tinha apenas uma inflamação. Exagerei nos detalhes, afirmando que logo estaria bem melhor:

É hora de sair dessa vida mansa. De repente, me vi eufórica, tanto que Mariana entrou no jogo e, cúmplice, apanhou o pão e fez um movimento dissimulado, como se dizendo:

Assim, ele vai perceber. Por meio de olhares, nós três dialogamos sem que Guto notasse, e esquecemos…  parecia-me, que tudo retornava ao seu lugar. Caíque se casaria, as aplicações seriam começadas, o mal jamais nos atingiria.

E, então, veio o dia seguinte.

Temos de ser práticos, Caíque. Mariana fez uma pausa. Você o leva pro hospital, reveza com sua mãe, um dia você, outro dia ela.

O rapaz só ouvia, tão menino ainda, tão próximo da felicidade conjugal e, ao mesmo tempo, tão estupefato, porque nós o mimáramos desde pequeno. A noiva pegou em sua mão:

Vamos chamar mais umas pessoas pra festa.

Por quê? 

Pode ser a última vez pro seu pai. Vamos convidar a tia Vera, que ele não vê há anos, e o tio Pedro, padrinho dele. À festa de casamento se aderia outra, sorrateira, da despedida.

Reprogramamos tudo, enquanto os dias avançavam e justamente quando mais queríamos que passassem devagar. A pouca coisa que se revelava em meio ao vazio era um vaso, recheado de crisântemos, sem serventia, a base rebrilhando sobre uma superfície indefinível. O vaso girava vagarosamente no espaço, ou eram nossos olhos que o contornavam. Ao menos tínhamos um ponto, fiapo de nada, mas ao qual logo se acrescentaria outro.

Guto ia às sessões:

Acho que agora vou sarar. Reanimado; e eu confirmava:

Claro que vai! Torcíamos para que as drogas não o debilitassem mais, e nesses dias as nossas palavras se misturaram, por vezes. Nem sabíamos se tinha sido Mariana ou Caíque ou um vizinho, ou meu irmão ou outro familiar quem comentara que o cabelo de Guto estava caindo:

Já dá pra perceber na parte de trás, alguém confirmava.

Ainda bem que na frente nem se nota.

Se o casamento demorar mais uma semana, vai ser pior.

Ele está animado, nem parece tão doente.

Então, cada um se enterrava em sua dor, até que as tarefas cotidianas nos arrancavam novamente do território da perda e nos atiravam ao cotidiano que tínhamos de enfrentar por Guto. Tentávamos nos motivar:

Vamos, nada de desânimo.

Come, Caíque, você vai precisar de energia na lua-de mel.

Nessas horas que a gente se supera.

Nós somos fortes.

O que vocês tanto cochicham? Guto resmungava, lá da sala.

Nada, sogrinho, o Caíque está fazendo regime. Mariana, os olhos úmidos.

Não quer casar com uns quilinhos a mais (eu).

Mas assim você está lindo. O pai ria, ria e Caíque, quieto, pensando no peso da alegria que viera em hora tão imprópria.

Assim, as quatro semanas passaram, velozes. Guto começara a enfraquecer visivelmente e, quando abri a porta do carro para que entrasse, no terno azul-marinho, elogiei:

 Puxa, que elegância!  Em meus olhos se misturaram uma porção de recordações, das quais ele emergia sempre sorridente, a cabeleira encaracolada. Por um momento, criei que não existia mal nenhum a devastá-lo. Ele respondeu:

Estou tão feliz por Caíque!

Dei a partida bruscamente, como se a minha ira pudesse deter o fluxo das horas fatais que manava e, em breve, nos alcançaria. E, talvez porque visse uma sombra se formar em meu rosto, meu irmão disse:

Enfim, chegou o grande dia! E, espantou o sofrimento que teimava em se grudar a mim. Guto, abrindo o vidro do carro, suspirou:

Vamos! Então fomos.

No salão, alguns convidados transitavam:

Melhor ele ficar naquele canto.

Ali não, venta muito.

Por que tanta preocupação? Guto não entendia…

Vou chamar a tia Vera e o tio Pedro. Eu disfarçava.

Caíque metido num terno negro, aguardava a noiva, olhando o tempo todo para o relógio, e eu sabia que a sua ansiedade não era pela troca das alianças, mas para abreviar ao máximo a festa e poupar o pai.

Não demorou, a noiva entrou, e Guto:

Que linda!

 Adorei o buquê de jasmins, e, quando os noivos se beijaram, Acho que vou chorar, como Mariana. Tia Vera falava e ria, tocando de leve o braço de Guto.

Você sempre desaba em casamentos. Tio Pedro nem se dera conta de que as lágrimas de Mariana eram menos para o noivo e mais por Guto que sorria sem saber de sua própria condição.

A festa se iniciou e seguiu normalmente. Às altas horas, Caíque:

Mais um uísque! Já ao lado do pai, e ele a abraçá-lo, a lhe acariciar os cabelos, e eu tentando dissipar a névoa que cobria meus olhos.

Que felicidade estarmos juntos hoje! ainda disse, meio embriagado. Eu sabia que ele em realidade dizia: Que pena que não estaremos mais juntos amanhã. Assim, cada um buscava superar a ameaça iminente.

Foi a vez de os noivos cortarem o bolo, e Guto, contra a nossa vontade, ergueu-se para dançar com Mariana.

Você vai se cansar. A noiva protestara e ele respondeu:

Só um pouquinho.

Caíque a todo custo tentava se manter firme, até que se agarrou à noiva, dizendo:

Pronto, papai, descanse um pouco. Mas ele não queria parar e, em meio aos rumores alegres, ao tilintar dos copos, ao vozerio geral dos convidados, os moinhos do tempo funcionavam surdamente, em marcha lenta dentro de uns, mais rápido em outros, e com força máxima em Guto.

Ele queria dançar e sinalizou para que eu a acompanhasse como nos bailes de nossa juventude. Então, estendi-lhe a mão e comecei a dançar, criando uma felicidade que, só quando ele partiu para sempre, percebi ser a mais legítima que eu sentira.

Abro os olhos, o vazio parece se mover, à minha frente. A cortina do nada vai se abrindo e, o vaso, sem serventia, rebrilha e gira, derramando o silêncio, antes que eu feche os olhos e reate o sonho.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.