EntreContos

Detox Literário.

Euterpe (Léonin)

Euterpe já não era mais a mesma: a rotina pesada e monótona do bacharelado fazia com que ela questionasse sua decisão de carreira. Parecia que toda aquela beleza e inspiração contidos nas peças de seus compositores favoritos, que tanto a emocionaram outrora, não passavam apenas de uma coleção de partes pré-fabricadas, dispostas na partitura seguindo as rigorosas leis dos tratados de harmonia e dos manuais de composição.

Ela se levantou da cama, ainda grogue de sono. Tentava se lembrar do sonho que tivera, mas não conseguia, o que era frustrante, pois parecia ter sido um sonho bom. Aliás, sentia que os sonhos eram o único espaço onde se sentia bem nos últimos dias.

Olhou para o relógio: eram sete e meia da manhã, um pouco mais cedo do que costumava acordar. O som abafado do trânsito pesado do bairro do Flamengo entrava pela janela. Seus pais já tinham ido pro trabalho, o que significava que ela estava sozinha em casa. Ainda com os pensamentos embaçados pelo sono, Euterpe se sentia um pouco desorientada, sem saber o que fazer. Até que um rápido pensamento a atingiu e ela se lembrou o porquê de ter acordado mais cedo: “o artigo”.

Euterpe se sentou na escrivaninha e ligou o computador. Logo, estava diante daquele documento de texto, que parecia encará-la como Clint Eastwood durante um duelo em um de seus famosos filmes de faroeste. A jovem tentava prosseguir com o texto, uma análise de uma peça de um compositor de música experimental, coisa que ela detestava.

Após algumas palavras apenas, porém, a ansiedade a fez parar. Na sua cabeça, o verdadeiro problema, como sempre, começava a martelar: Euterpe estava passando por um longo e terrível bloqueio criativo. Fazia semanas que não conseguia mais colocar nem uma mísera nota no papel. Todos os questionamentos e o desgaste emocional da faculdade simplesmente haviam matado qualquer traço de criatividade, por menor que fosse. Ela se questionava se deveria desistir do curso, afinal, que valia tem alguém que se diz uma compositora mas não consegue mais criar nada? Percebendo que não conseguiria mais trabalhar naquele artigo naquele momento, Euterpe se arrumou e decidiu ir mais cedo para a faculdade.

Ao sair do metrô e andar alguns metros, logo avistou sua alma mater, a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Era um belo prédio em estilo eclético, com vários adornos com motivos musicais em sua fachada, recém-pintada em tons de ocre. Antes de entrar, porém, Euterpe notou mais um problema que a abalou: desde que acordara, ela não tinha falado com ninguém naquele dia, nem ao menos um simples ‘bom dia’. Começou a se questionar se seria mais um dia em que ela passaria sem dizer uma única palavra, como muitos haviam sido ultimamente. Pensar sobre isso a deu um sentimento de solidão e melancolia bastante pesado. Porém, essa sensação logo deu lugar a um certo alívio ao entrar no prédio e ver Calíope, sua grande amiga, cantarolando uma ária de Donizetti no hall de entrada.

– Cali, querida! Que bom te ver! – Euterpe deu um breve abraço em sua amiga.

– Bom te ver também. Que cara é essa? Tá tudo bem? – Era visível que Euterpe não estava com uma cara boa, apesar de ter gostado de ver Calíope.

– Ah, você sabe… são aqueles problemas ainda.

– Quer conversar? Ainda tenho um tempinho antes da minha aula. Vamos lá para a varanda.

As duas subiram as escadas, rumo à pequena varanda no andar de cima. Ao passar pela antessala, Euterpe notou a bela decoração, com enormes pinturas pontilhistas nas paredes. Apesar de todos os problemas que enfrentava, aquele lugar tão belo realmente a fazia se sentir aconchegada. Chegando na varanda, Calíope segurou as mãos da amiga e pediu que ela contasse o que a afligia.

– Então… eu ainda não consigo compor.

– Nossa, desde aquele dia?

– Pois é! Acho que essas exigências todas do curso, eu acho que conseguiram matar a minha criatividade. Já não consigo distinguir mais na minha cabeça o que sou eu, o que é o Rimsky-Korsakov e o que é o Schoenberg…

– Eu entendo… a faculdade faz isso com a gente mesmo. Eu mesma já passei por isso no começo do curso. Com todas aquelas técnicas e vocalizes que meu professor começou a me exigir, por um tempo eu achei que não ia mais conseguir cantar. Mas eu acho que depois consegui achar um equilíbrio. Qual era a diferença pra você compor antes de entrar aqui?

– Ah… eu acho que eu tinha mais liberdade. Não tinha que pensar tanto em tanta coisa. Era só escrever o que eu quisesse.

– Então, tenta fazer isso de novo. Conhecendo a compositora talentosíssima que você é, eu tenho certeza que a sua criatividade está bem longe de morrer!

– Obrigada. Vou tentar, mas não sei…

 – Tentar, não! Você vai conseguir! Olha, minha aula já vai começar, mas se quiser, vem almoçar comigo hoje e a gente continua esse assunto. Vou ir naquele restaurante novo que abriu na Praça Tiradentes.

– Claro. Vamos sim. Muito obrigada mesmo!

– Não precisa agradecer, querida! Eu adoro você! – Calíope abraçou a amiga, pressionando seu corpo com vigor contra seus seios fartos, que protuberavam do decote de seu vestido. Euterpe gostava muito de ser abraçada por ela. Se sentia aconchegada e segura como não se sentia em mais nenhuma situação. Aliás, aquela amizade para ela era diferente de tudo. Euterpe realmente sentia por Calíope algo que nunca sentiu por outra pessoa. Não sabia, porém como lidar com isso. Se declarar poderia deteriorar aquela amizade tão importante, temia ela, caso sua amiga não sente suas famílias, muito tradicionais, nunca aceitariam. Já havia sido difícil que seus pais aceitassem sua carreira artística, o sonho deles sempre foi que ela cursasse direito.

Na hora do almoço, Euterpe esperou por Calíope na porta do prédio. Logo, ela chegou e as duas trocaram sorrisos. Calíope fez uma proposta:

– Vamos cortar caminho pela catedral? A gente anda menos e chega mais rápido.

Euterpe concordou. Saíram do prédio, atravessaram a enorme praça ao lado da Escola de Música e passaram por baixo dos famosos arcos brancos do Aqueduto da Carioca. Em pouco tempo, estavam cruzando o estacionamento da Catedral Metropolitana. Aquela gigantesca construção redonda e acinzentada de concreto, remanescente do Brutalismo brasileiro, era ao mesmo tempo imponente e assustadora. O pai de Euterpe dizia em tom jocoso quando passava por ali que caso alguém pintasse aquele cone gigante de laranja, o trânsito da cidade entraria em colapso.

Adentrando um pouco mais pelo estacionamento, Euterpe e Calíope se viram a sós. Apesar do sol do meio dia, que aquecia aridamente o pavimento, Calíope parou. Euterpe notou que as bochechas rosadas do rosto redondo de sua amiga estavam vermelhas, e não era apenas plo calor. Ela estava envergonhada por algum motivo. Calíope pegou a mão de Euterpe e começou a falar de forma tímida:

– Tepinha, meu bem, eu sei que somos boas amigas há bastante tempo, mas também há muito tempo que eu queria te pedir uma coisa. Mas eu nunca tive coragem…

– Pode falar.

– Eu… posso te beijar?

Euterpe não podia acreditar: se soubesse que Calíope também nutria tais sentimentos, já teria feito essa mesma pergunta muito antes. Havia, porém, mais um risco a se consideraar: o que suas famílias pensariam sobre? Valia a pena correr tal risco? Após alguns segundos, Euterpe finalmente declarou seu veredito:

– Claro que sim. Na verdade, eu já queria te pedir isso há um tempo, mas não sabia como.

– Bom, agora não precisa mais pensar em como, não é? – As duas riram de forma tímida. E após um momento de vergonha e sem muito jeito, seus lábios finalmente se tocaram. Euterpe nunca havia sentido sensação tão boa e prazerosa em sua vida, apesar de já ter beijado alguns  meninos antes. Porém, aquilo que acontecia naquele momento não era só pelo prazer ou pela libido, tinha também a satisfação de se envolver com uma pessoa tão querida e amada. Era reconfortante como nada tinha sido. Achava irônico também o fato de um relacionamento homossexual ter começado justamente na sombra de uma catedral.

Após alguns minutos de beijos e carinhos, elas prosseguiram o caminho até o restaurante, com as mãos dadas. Euterpe sentia que algo diferente estava começando a florescer dentro dela. Era como uma chama, para além do amor e do afeto que sentia pela jovem ao seu lado: era como se aquela velha vontade de criar e compor estivesse renascendo com força! Sentia que chegaria em casa e escreveria as mais belas melodias, e não mais pararia, e Se sentia tola pela vontade de desistir que sentira mais cedo. Agora, era como se magicamente o mundo tivesse mais cor, mais som, como se o canto dos pássaros, o burburinho das pessoas, o farfalhar das árvores e o trânsito dos carros se unissem na mais divina sinfonia. Era inspirador!

Chegaram então na Praça Tiradentes. A estátua equestre de Dom Pedro Segundo no centro da Praça as saudava, segurando em suas mãos bronzeadas a primeira constituição do país. Precisavam ainda atravessar uma movimentada avenida, e tal tarefa não era fácil devido à ausencia de um semáforo ou de uma faixa de pedestres. Se protegiam do sol na marquise da fachada em Art-Decó do Teatro Carlos Gomes, até que Calíope percebeu uma brecha no trânsito e atravessou rapidamente a rua, soltando a mão de Euterpe e a deixando sozinha na calçada. Elas trocavam sorrisos entre elas, Euterpe ainda inebriada pelos beijos da amada e pela sinfonia urbana que tocava em fortíssimo. Com uma aparente nova brecha no trânsito, ela tentou atravessar. Mas, rapidamente, o sorriso de calíope deu lugar à preocupação:

– Euterpe, cuidado!

Logo, ela se encontrava diante de um outro monstro, dessa vez de vidro e aço: A bela sinfonia havia sido atravessada pelo som dissonante dos freios de um ônibus. Em menos de um segundo, veio o impacto, que a deixou imediatamente inconsciente, para desespero de Calíope, do motorista, dos passageiros e de todos os transeuntes que acompanharam a cena.

Euterpe já não era mais a mesma: Em um mísero instante, a criatividade se apagou, a sinfonia parou de tocar e a paixão se desmanchou no asfalto quente. Ela estava morta.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.