EntreContos

Detox Literário.

Circular (M.Martin)

Clanc!

A pá bateu em alguma coisa metálica. Que droga, era só o que faltava.

Jurandir estava com pressa, queria terminar de fazer logo o canteiro dos tomates e ir beber com os outros no bar do Neco. Ia cavar o canteiro amanhã, qual a pressa? Os tomates vão nascer do dia pra noite? Vão? Pois não vão, então qual o problema de deixar pra amanhã?

Mas Claudete, ô inferno de mulher, acordou de ovo virado e estava pegando no seu pé desde a hora que acordou. Que ele prometeu o canteiro dos tomates há um tempão e até agora nada, que ela já pediu um milhão de vezes, que ele nunca fazia o que ela pedia, que o preço do tomate estava da hora da morte, que ele era um pocrast…, um proscat…, um… pro-cras-ti-na-dor e que isso, segundo o padreco novo, era pecado. Inferno, isso é o que era.

E agora isso, um negócio metálico em seu caminho. O que podia ser esse treco? Tentou puxar com a mão, mas não conseguiu. Estava muito bem preso a terra, ainda. O negócio é ir cavoucando ao redor até soltar. Só que agora, já fazia um tempão que ele cavoucava, ele já tinha feito um buraco de mais de metro de diâmetro e nada de chegar ao limite daquilo.

O que antes era irritação, virou curiosidade e Jurandir continuava cavando, com energia renovada. Que diabo era aquilo?

Foi cavando mais, até revelar os limites daquela coisa, mas isso só o deixou mais intrigado. Era uma peça de metal de uns 2 metros e meio de largura e uns três de comprimento. Era perfeitamente lisa, tão lisa que, mesmo tendo estado enterrada, a parte exposta pelo trabalho da pá parecia perfeitamente limpa, a terra escorria dela como se fosse água.

Continuou cavando, procurando mais detalhes do que seria aquilo. Uma caixa? Um baú? Aos poucos, ia-se revelando uma espécie de “caixa” de bordas arredondadas de uns 2 metros e meio por pouco mais de 3 metros e, por enquanto, mais de 2 metros de profundidade, pois ainda não chegara ao fundo do objeto. Agora, nem tentava mais puxa-lo para fora. Parecia ser maciço e muito pesado. Apesar do formato, não podia ser uma caixa, já que não era oca. Prosseguiu cavando enquanto a noite caía. Ele buscou uma lamparina e continuou cavando noite adentro sem descanso. Claudete veio chamá-lo, para a janta e para dormir.

– Já vou, mulher! Me mandou cavoucar, não mandou? Pois tô cavoucando!

A manhã o encontrou dormindo ao lado de um imenso buraco de 10 metros de comprimento por 4 de largura e 5 de profundidade, abraçado a pá.

– Jurandir! O que é isso, homem de Deus? Eu queria um canteirinho pros tomates! Tu tá construindo um metrô aqui na Vila Jurubeba?

– Me deixa em paz, mulher. Tem dó de mim e me traz um café, ora.

Claudete entrou e voltou com uma caneca de café fresco e um pedaço grande de bolo de fubá, que Jurandir comeu com gosto.

– Não consegui terminar seu canteiro porque bati nesse troço de metal, ó. Tô tentando cavoucar pra fora, mas esse trem é enorme. Olha isso!

– E o que é isso?

– E eu que sei?

– Sabia que tinha coisa estranha nessa casa, vindo do Velho…

– Não fala assim que é ingratidão, Claudete. O Velho deixou essa casa pra nós, a gente no desespero, precisando de casa… Isso foi uma benção do céu.

Verdade. Há 1 ano, eles estavam perdendo o barraco onde viviam muito precariamente. E como por milagre, ganharam aquela casa tão boa, num terreno tão grande de uma pessoa que mal conheciam. Ninguém soube dizer o motivo do Velho ter deixado aquela casa de herança para eles, mas, tampouco era uma coisa assim tão estranha. O Velho sempre fora solitário e excêntrico, sempre falando sozinho, às vezes usava palavras estranhas, que nem pareciam português.

Nem após seu falecimento descobriram seu nome.  Os documentos eram uma bagunça, cheia de informações faltantes e conflitantes. Sempre fora conhecido como “o Velho” e assim continuou sendo chamado. Como ninguém lembrava de vê-lo chegar na Vila Jurubeba, era senso comum que ele sempre morara lá. Jurandir se lembrava de, ainda menino vê-lo pela primeira vez deitado em frente à sua casa, meio ausente e desorientado, fazendo perguntas sem sentido. Tornou-se totalmente fascinado pela estranha figura daquele velho homem. Costumava estar sempre às voltas dele, rondando a casa, tentando decifrar as palavras aparentemente sem sentido que ele repetia.

Jurandir costumava aparecer na casa depois da escola e oferecer ajuda para consertar uma cerca, ou aparar o mato, ou buscar alguma coisa da venda, só para poder ficar por perto do Velho, ouvindo as palavras estranhas que ele dizia. Por vezes, Jurandir identificava algumas palavras aqui e ali que, estranhamente, pareciam fazer sentido para ele. Algumas surgiam o tempo todo. Estrelas, criação, mecanismo, tempo, circular. Tempo, criação, estrelas, circular, mecanismo. Criação de estrelas, tempo circular, mecanismo.

Um dia, enquanto Jurandir capinava a área perto da casa, o Velho parou de falar subitamente, olhou assustado para Jurandir, como se o visse pela primeira vez e começou a gritar: “Você, você, você!!!!!”. Ele parecia ora furioso, ora apavorado e Jurandir, com apenas 10 anos, saiu correndo aterrorizado e nunca mais voltou. Até o dia em que seu nome apareceu como único herdeiro do Velho e a casa passou a ser sua.

Era uma casa muito simples e estava um tanto maltratada pelo tempo. Mas era uma ótima construção e um teto bastante sólido. Alguns dias de trabalho depois e ela parecia nova. O terreno ao redor era muito grande e o canteiro de tomates era apenas o começo do plano de Claudete, de cultivar uma horta variada. Com sorte, venderia o excedente e teriam algum dinheiro extra na casa.

Mas, entre ela e o sonho do canteiro de tomates, estava aquele monstrengo de metal enterrado no quintal. Era mesmo um monstrengo. O buraco que Jurandir cavou, com seus 10 metros de comprimento e 4 de largura, claramente não mostrava o objeto inteiro. Pelo que dava para ver, eram 3 cubos irregulares de 2 metros de largura por 3 de comprimento e arestas arredondadas. Cada cubo tinha também 3 metros de altura e estavam interligados um ao outro. O último cubo parecia estar posicionado um pouco mais abaixo dos outros, meio inclinado. Como se fosse uma…

– Engrenagem?! Jurandir, isso aí é uma engrenagem?

– Será?

– Mas é claro que é! Olha só como parece a máquina de caldo de cana do Jão. Cada troço desse aí é um dente da engrenagem.

– Verdade, mulher. Se olhar de longe é isso mesmo. Mas é gigante, é grande demais. Pra que serve isso? De que máquina veio isso?

Se aquilo era uma engrenagem, estão aquele buraco de 10 metros estava permitindo ver apenas 3 de seus dentes. Então, a engrenagem inteira devia ter fácil mais de 20 metros de diâmetro. Uma monstruosidade de metal.

– Será que é de alguma usina, alguma coisa assim?

– Mas Claudete, usina de que? Não tem usina nenhuma aqui, de nada, até Nova Ciranda, que fica a 5 dias de viagem daqui. E como que esse treco enorme veio parar aqui, no meio do nada?

O sol da manhã subia e logo as coisas ficariam ainda mais estranhas. Ao ser banhada pelos raios solares, a engrenagem adquiriu uma coloração violeta e foi ganhando um aspecto vítreo. A semelhança com vidro era tão grande, que Jurandir deu-lhe uma pancada com a pá. Clanc! O velho som de metal contra metal.

– E essa agora. – Claudete fez o sinal da cruz e rezou um Pai Nosso, pra garantir.

Direto do passado, Jurandir ouvia as palavras do Velho, que tanto o fascinaram. Mecanismo, estrelas, criação, tempo, circular. Sentiu impulso de continuar cavando. Na hora do almoço, Claudete levou-lhe comida pois ele se recusou a parar de cavar. Estava obstinado e parecia febril. No meio da tarde, chamou Claudete, pediu para mandar vir o padre. Em um dos dentes da engrenagem havia uma inscrição. Talvez o padre soubesse que língua era aquela e o que significava.

Creator Rotam

Rota Temporis

Stella Machina

O padre chegou correndo e olhou espantado para aquela coisa tão estranha, aquele objeto de vidro violeta totalmente fora de contexto naquele lugar que parecia ter sido esquecido pelo mundo. Foi ver o que queriam que ele traduzisse.

– Ora, isso é latim. Significa: Roda do Criador, Roda do Tempo, Mecanismo das Estrelas.

– E, o que isso quer dizer, seu padre?

– Não sei, Jurandir, nunca vi nada parecido. Mas parece perigoso. – disse isso, persignou-se três vezes e foi embora assim que possível.

Quanto a Jurandir, continuou cavando e parecia ouvir cada vez mais claramente as palavras do Velho. Claudete estava preocupada, pois Jurandir se recusava a parar, a descansar um minuto que fosse. Seguia cavando como desesperado debaixo do sol escaldante. Parecia surdo, absorto, alheio ao que se passava ao seu redor. Roda do Criador, Roda do Tempo, Mecanismo das Estrelas, tempo, criação, circular, estrelas, mecanismo. O Velho sabia dessa engrenagem?

No fim do dia, Jurandir cavou tanto que atingiu uma outra estrutura, que parecia se ligar à engrenagem, embora tal ligação não fosse ainda visível. Estaria sob a terra. O que dava para ver, era que essa nova estrutura era circular e nela havia um botão.

– E essa agora? – Claudete não sabia o que pensar.

– Agora a gente aperta o botão. – Jurandir estava resoluto.

– De jeito nenhum, tá doido? A gente não sabe o que vai acontecer!

– Por isso mesmo, porque a gente não sabe.

– Jurandir, tu não aperta esse botão, pode ser um desastre!

– E como viver sem saber? Como não saber? E se isso aqui for a Roda do Criador, a Roda do Tempo, o Mecanismo das Estrelas?

– E o que isso quer dizer?

Claudete estava com medo. Por ela, viveriam sem saber. Mas Jurandir não podia virar as costas àquele mistério. As palavras do Velho ecoavam em seus ouvidos, as palavras escritas em latim queimavam seus olhos. Ele olhou para Claudete, como um pedido mudo de desculpas ou uma despedida e, sem hesitar, apertou o botão.

E ele estava só, no meio de um imenso vazio. Só com uma máquina gigantesca, na qual aquela engrenagem que desenterrara em parte era apenas um minúsculo pedaço. E a máquina funcionava, todas as engrenagens moviam-se perfeita e silenciosamente, numa sincronia mágica. Em resposta, o tempo cantava, as estrelas giravam pelo universo, seguindo um percurso preciso e coreografado e ele entendeu tudo, todos os segredos da criação, da existência, do tempo, que era circular, repetitivo, um ciclo infinito. Tudo isso ele percebeu enquanto o tempo dançava à sua volta e sua consciência era tragada pela luz.

Quando voltou a si, estava deitado de costas diante da casa. O buraco estava fechado, o terreno coberto de mato. Levantou-se, meio tonto e muito desorientado. De pé, a seu lado, olhando fascinado, um menino de uns 10 anos.

– Cadê Claudete?

– Quem?

– Claudete, minha esposa, dona dessa casa aqui.

– Eita. Essa casa está abandonada há anos. Dizem que é assombrada.

– Assombrada?

– Dizem que um homem sumiu, desapareceu na frente de sua esposa, que ficou doida de desgosto e foi-se embora. E ninguém quis morar aqui porque disseram que tem assombração.

– Claudete… e quando foi que isso aconteceu?

– Faz uns 30 anos.

Jurandir levantou de um pulo e olhou-se no reflexo da janela. Olhou-se e viu um velho.

O Velho.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.